Quebranto.
60 Decreto Real.
Notas iniciais
Ana.
Quando deixamos a pousada para trás, comecei a anotar em meu caderno, pontos de referência sobre a loja de ferramentas onde Otávio e Dimitri haviam estado. Eu os entrevistara quando chegaram, e ainda não havia atualizado minhas informações. Pelo visto, havia um extintor de incêndios e uma caixa lacrada que eles não haviam conseguido erguer sozinhos. Talvez, numa futura busca pudéssemos ver por nós mesmo o que havia lá dentro. Estar ciente de tudo o que nos acontecia era um hábito que eu cultivava antes de me esquecer de mim mesma. Isso não aconteceria de novo. Sabrina pensava que eu era cega, mas eu podia ver claramente que ela ficava me espiando pelo canto dos olhos, enquanto encostava a testa na janela do carro. Eu agradecia por estar frio. No calor, os zumbis se moviam mais rápido, por algum motivo que eu não podia identificar. No frio, era como se ficassem mais letárgicos. Era uma pena que eu não tivesse tido tempo de começar minha faculdade de Medicina. Ricardo estava concentrado enquanto dirigia, olhando para as calçadas, em busca de algum veículo abandonado que nós ainda não houvéssemos drenado. Combustível era um bem limitado, já que em algum momento acabaria, mas ainda havia muito dele disponível, e quase ninguém para usá-lo. O que me tranquilizava um pouco. Se mover constantemente a pé por lugares como os pelos quais passávamos, não era um pensamento muito animador. Apesar de que o som do motor, geralmente atraía atenção demais. Paramos duas ruas antes da farmácia. Já fazia mais de meia hora que estávamos na estrada. Também passamos pela entrada que levava à praia onde havíamos ficado, e que agora devia estar lotada de caranguejos carnívoros. Eu adoraria ver um pessoalmente, mas me contentava com a história de Otávio. Descemos do nosso veículo nada discreto, e começamos a caminhar bem próximos uns dos outros. Sabrina ficou próxima até demais de mim, mas não reclamei. Segurei o braço de Diogo e ele riu, sacudindo a cabeça enquanto eu o puxava comigo. Minha relação com todos melhorara duzentos por cento, nas últimas semanas. E permaneceria assim.
– Já devemos estar perto. — Sabrina comentou, já que fizera o mesmo caminho antes. Quis lembrá-la que eu também havia estado lá, assim como Diogo e Ricardo, quando tentamos salvar a cara de pau dela de um grupo desconhecido. Mas, relevei. Ela só estava querendo ser útil. E mesmo que eu estivesse sendo má com ela, não queria ser uma vadia. Quieta estava, e quieta fiquei enquanto virávamos na rua indicada. A horda de zumbis que encontramos, deixou tudo muito lindo. Incluindo a farmácia onde devíamos entrar. Nos abaixamos atrás de um carro, trêmulos.
– Puta que pariu! — chocou-se Diogo, arregalando os olhos. — Deve ter mais de trinta fedorentos!
– Sugiro veementemente que a gente dê meia volta e tente achar outro lugar. — declarei, já procurando em meu caderno, uma alternativa.
– Você olhou pra farmácia? Os remédios ainda estão lá! Temos que pegar! — irritou-se Sabrina. — Eu distraio os bichos, e os meninos pegam. Você fica aqui e...
– E o quê? Monitoro você, sendo uma heroína? Olha Sabrina, sinceramente, você ter vindo pra me irritar já foi uma palhaçada, mas querer morrer pra ser a gostosa da história é criancice! — me revoltei, esganiçada. Esqueci completamente que os zumbis ouviriam minha voz. Só vi a cara de pânico de Ricardo e Diogo, que temiam se colocar no meio de nossa briga. Por sorte, minha raiva não foi o suficiente para atrair aquelas coisas. Mas o risinho de Sabrina me deixou ainda mais possessa, se isso era possível.
– Você está preocupada com minha segurança? — ela brincou. — Bem, se quiser, pode ser a heroína. Só me ofereci porque achei melhor mandar você buscar a van e nos esperar mais perto. Quer trocar as tarefas? — notei que Diogo e Rico pareciam concordar com aquela sandice.
– Eu vou dizer uma vez só. — avisei à Sabrina, erguendo o dedo indicador na sua direção. — Não gosto que me provoquem. Nem que façam coisas idiotas pra chamar a minha atenção. Não negue. Vai ficar mais feio ainda pra você. — o sorriso dela sumiu. — Melhor assim. Eu só fico com mais raiva ainda, quando me sinto pressionada ou provocada.
– Ana, você acha que tem alguma outra alternativa? Se tiver mais alguma farmácia no seu caderno, podemos vol... — Ricardo não conseguiu terminar de falar. O som ensurdecedor de uma explosão encheu o ar, uma quadra à frente de onde estávamos. Se isso não era na boate, era bem perto. Coloquei a cabeça para fora do bloqueio do carro, e pude ver fogo e fumaça no horizonte. Com os gemidos e grunhidos que eu odiava, os zumbis começaram a se dirigir na direção do foco da explosão. Troquei um olhar intenso com todos. Não havia motivos para não aproveitarmos aquilo.
– Vamos fazer como a Sabrina disse, Rico. Mas você busca a van. E que Deus nos ajude... — me levantei, e os outros me seguiram. Diogo resmungou um "aleluia", e puxou as facas que havia levado. Eu só tinha uma, bem menor e mais fina que a dele. Não pretendia usá-la. Mas eu poderia reconhecer os remédios com mais facilidade, e tinha uma bolsa onde colocá-los. As aulas de enfermagem com Tânia tinham de servir pra alguma coisa.
Enquanto o ar começava a se encher do cheiro de poeira e fumaça preta, corremos na direção da farmácia. Alguns zumbis haviam se detido, mais letárgicos que os outros, mas a maioria já ia longe, virando a esquina. Diogo esfaqueou alguns deles que se arrastavam pelo chão, meio destruídos ou devorados. Eu passava direto entre as criaturas, reprimindo uma vontade louca de vomitar. Sabrina se mantinha próxima a mim, cobrindo minha retaguarda. Era complicado discutir com alguém e colocar sua vida nas mãos dessa pessoa logo em seguida, mas eu não me importava. Se as posições fossem inversas, eu também a protegeria. Conseguimos entrar no lugar que ela encontrara com Carolina, meses antes. Era estranho que inicialmente aquela farmácia houvesse sido procurada como uma forma de matar o bebê de Nanda. E que agora, mesmo com tudo o que havíamos descoberto sobre aquela gravidez, buscávamos um meio de salvá-lo. Entrei, e sem pensar muito, fui direto para o estoque. Passei por uma pequena portinha que havia atrás do balcão, e fiquei aliviada ao constatar que, apesar de revirado, não havia nada de perigoso no local. Rapidamente, encontrei analgésicos, e apanhei tudo o que pudesse ser útil, ao meu alcance. Antibióticos, comprimidos para dor de cabeça, e finalmente aqueles que ajudariam a controlar a pressão arterial de Fernanda. Talvez aquilo tudo não fosse tão longe, e pudéssemos salvá-la afinal. Não havia muito que se pudesse fazer contra uma sentença de Cecília. Ela sempre estava certa. Mas a verdade tinha muitos lados, não?
– Ana, já encontrou algo? — chamou Sabrina, disfarçadamente calma. Eu sabia que ela não queria ficar ali por mais tempo que o necessário. Na farmácia, haviam outros produtos além de remédios. Itens de higiene, estéticos. Mas a maioria, já havia sido levada à muito tempo. Inclusive por nós, enquanto estávamos na boate. Bufei lamentando não ter encontrado escovas dentárias.
– Já, vamos dar o fora. — respondi, num tom de voz mais baixo do que eu imaginei que sairia de minha boca.
Juntas, corremos de volta para o lado de fora. Minha bolsa pesava sobre o ombro, o couro ferindo levemente a pele enquanto forçava a fivela de meu sutiã. Diogo estava no meio da rua, cercado por três daquelas coisas. Outros corpos já estavam espalhados ao seu redor, mas não era nada de que ele não pudesse cuidar. Sabrina ergueu a arma, mas detive sua mão. Não era boa ideia atirar ali. Não com uma horda por perto, ainda que seguindo outro objetivo. Diogo atingiu um dos zumbis com um chute no tórax, e a mulher, cujos ossos da garganta já eram visíveis, caiu inerte. Ela moveu-se, mas não parecia capaz de levantar, afinal. Logo ele crivou a lâmina de uma de suas facas no olho esquerdo de um garoto jovem, que fora zumbificado em roupas de banho. Um turista, talvez. Virando as costas para o último zumbi, um velhote já quase mumificado, ele veio andando em nossa direção. Com um gesto, indicou a rua por onde havíamos vindo. Acenamos em resposta. Fomos na frente, enquanto ele voltava-se para seu alvo, finalizando-o longe de minhas vistas. Ao lado de Sabrina, caminhei sobre a calçada, enquanto ela seguia reto na rua ao meu lado.
– Ana, precisamos conversar sobre nós. — ela arfou, enquanto continuávamos andando. Gemi. Ela era tão teimosa!
– Sabrina, eu já falei que isso não é hora, e além do mais... — ela guinchou, quando seu pé afundou num bueiro, e ela caiu de lado desequilibrada. Espalmando as mãos no asfalto, ela mordeu com força o lábio inferior, para reprimir a dor. Ajudei-a em seguida, agachando-me ao seu lado e retendo a maldição que pretendia dizer, no céu de minha boca. — Merda! Olha só! — o problema, é que o grito dela não passara despercebido. Diogo já vinha em nosso auxílio, mas alguns zumbis adormecidos, ou hibernando, ergueram-se por toda a parte. E eu havia pensado que toda a horda tinha ido embora!
– Vamos puxá-la no três. — avisou Diogo, e eu reconheci o blefe. — Um... — a puxamos de surpresa. Sabrina gritou de novo, apoiando o peso na perna que não ferira. Apoiei-a, certa de que se um de nós precisava estar livre pra nos defender, era Diogo.
Continuamos em frente, enquanto ele se livrava dos mortos que saíam das lojas onde estavam antes escondidos ou apenas paralisados. A nossa van virou na bifurcação à frente, e vimos Ricardo no volante. Expirei de alívio, quando ele parou bem ao nosso lado. Ajudei Sabrina a subir pela porta lateral, e quando já estava indo atrás dela, senti um dos zumbis agarrando a bolsa de medicamentos, e a puxando para si. Consequentemente, acabei caindo sobre o cadáver e ele se espatifou no chão numa massa podre, sob o meu peso. Tonta pela queda, lutei para ignorar o chiado em meu ouvido e me erguer, com todos gritando para que eu andasse logo. Diogo pisou na cabeça da criatura, e me levantou. Nós dois subimos na van juntos, e Rico não esperou um comando, para dar a marcha ré e sair daquele inferno. Minha pulsação aumentou enquanto eu lembrava que a bolsa de remédios fora tirada de mim, a adrenalina ardendo nas minhas veias. Contudo, logo notei-a nas mãos de Diogo, segura. Ele me entregou com um sorriso tímido. Ninguém disse nada, enquanto fazíamos o caminho de volta para a pousada.
– Vocês mandaram bem. — elogiou Ricardo, impressionado. — Foi muito bom. Encontrou quais medicamentos, Ana?
– Todos que precisávamos. Menos o Viagra, pra Carolina. — todos gargalharam. Eu não queria insinuar que Jonas era impotente, mas com o apetite de minha amiga, ele iria agradecer uma ajudinha.
– Eu sabia que o Jonas não era de nada! — riu Sabrina, e Diogo ficou mais que feliz em acompanhá-la.
– Vocês sabem que eu não quis dizer isso! — eles riram mais ainda, e tive que me render.
– Eles não vão te deixar esquecer até chegarmos lá. — avisou Ricardo. — E com certeza vão contar disso pra todo mundo, de noite... — revirei os olhos, mas eu estava feliz. Estávamos todos vivos. Ou talvez eu só tivesse a horrível tendência de ver as coisas mais coloridas do que elas eram. O vulto surgiu no meio da estrada que nos afastaria da Rua das Pedras. Ricardo soltou uma exclamação muda, e jogou o carro na calçada para se desviar da pequena menina.
Num momento de confusão, nosso veículo girou, derrapando. Com um solavanco, caí para frente, no meio das coxas de Sabrina. Apoiei as mãos nela, ajoelhada entre as pernas da minha ex. Por mais que fosse engraçado noutra circunstância, naquela hora ninguém estava rindo. Ricardo estava meio desorientado com a van subindo a calçada, mas por sorte ele parou à tempo. Diogo bateu a cabeça no teto, e estava esfregando o local pouco acima de sua nuca, com cara de poucos amigos. Olhamos para o lugar onde a menina estava parada. Ela não era um zumbi. Usava um vestidinho branco que mais lembrava uma camisola, e era linda. Seus cabelos avermelhados caíam nas costas, e quando ela se virou, perdi o fôlego. Estava bem mais velha do que eu me lembrava, mas aquela era a Lívia. A filha de Diana, que eu e meus amigos havíamos encontrado na estrada para Cabo Frio. A família dela havia salvo minha vida. E agora ela estava ali, uma inumana. Será que Diana sabia que sua filha não havia sido devorada pelos cães, como ela dissera à Victoria? Então compreendi, quando um pastor alemão saiu de trás de um dos carros parados na calçada, e parou ao lado da mão da menina, que acariciou seu focinho enquanto nos fitava, curiosa. Ela era uma inumana violenta. Defeituosa. E mortalmente angelical. Por isso Ricardo tentara poupá-la. Ele não reconhecera o perigo. Fitando-a através do vidro da janela, senti meu coração bater com mais força. O primeiro som acima do teto da van chamou minha atenção de imediato. Som de pequenos pés de aves.
– Ricardo, fecha seu vidro agora! — ele me obedeceu, espantado. No mesmo instante, um urubu totalmente monstruoso, pelo menos três vezes maior que o normal, chocou-se contra o vidro, provocando um solavanco ao redor. — Liga o motor e tira a gente daqui!
– E a garota? — murmurou Sabrina, confusa.
– Inumana defeituosa. — resmungou Diogo. — A vadiazinha controla bichos. Olha o cachorro enorme do lado dela. O Rico não percebeu que devia ter passado por cima... — ele se interrompeu enquanto várias outras patas começavam a emitir sons sobre nossas cabeças. Pombos, urubus, gaivotas e algumas aves que eu não conhecia começaram a pousar de maneira ininterrupta na van, cobrindo-nos com suas penas e bicos. Elas não faziam um movimento sequer para nos atacar, nem atacavam umas às outras. Logo, todas elas voaram de uma só vez para longe, numa revoada que se movia como uma massa de consciência única. Quase o mesmo que as vespas faziam, quando em grupo. Quando as aves foram embora e pude finalmente ver o exterior, deparei-me com o rosto de Lívia a centímetros do meu. Me joguei para trás, apavorada. Ela sorria inocentemente, e aquilo tornava tudo muito pior. Em seu ombro, um pombo havia pousado, e brincava com seus cabelos.
– Vocês tem o cheiro dela... — ela murmurou. — E você eu conheci... É por isso que o cheiro me lembra alguém... A menina bonita... Loira. Você sabe onde ela tá? — ela indagou, com uma risadinha infantil. — Eu quero ficar com ela. Sabe onde ela tá?
– Ela só pode estar de sacanagem! Quer saber da Victoria?! — exigiu Diogo, nervoso.
– Nós já nos conhecemos. — contei, por alto. — Ela é filha da Diana. Achamos que havia morrido, mas parece que não.
– Sem chance! Temos que abrir a porta pra ela então! — surpreendeu-se Ricardo, rindo.
– Não! — gritei. Lívia apenas nos observava, parecendo estar se divertindo bastante. — Ela não é a garotinha que eu conheci. Tem a mesma idade dos gêmeos. Ela parece pelo menos um pouco com eles, pra você? — indaguei, e Rico compreendeu. Por baixo da fachada infantil e angelical, havia um demônio. Seus olhos eram frios como os fossos do inferno. Tanto o preto, quanto o branco. — Lívia, nos deixe ir embora! A Victoria não está mais conosco! Não posso ajudá-la. — gritei em resposta, e a menina apenas riu.
– Eu sou a Princesa. O Chefe disse que posso ter o que eu quiser. E eu quero a Victoria. — ela exigiu, com um biquinho. Então riu de novo, abaixando-se na altura do focinho de seu cão morto. — Eles são danados, né Mordida? Estão escondendo minha amiga. Mas vou descobrir tudo já, já. Pega eles. — O cão se lançou contra nosso carro com uma fúria que eu desconhecia. Ele se jogava diversas vezes contra o vidro, deixando sangue e algumas migalhas de si sobre a lataria.
– Vamos embora daqui! — guinchou Sabrina, olhos arregalados e mãos segurando sua arma.
– Não podemos levar essas coisas direto pra pousada! Faz um caminho alternativo! — avisou Diogo. Ricardo assentiu e ligou o motor. Ele derrapou e liberou muita poeira, passando com tudo por cima do cachorro zumbificado. Lívia deu um passo para o lado e ficou olhando de maneira imparcial, enquanto manobrávamos.
– Oh, pobrezinho... — ela disse, apática. Fitava o cão morto como se nada fosse, logo após demonstrar pela criatura repugnante afeição. Um terror em traços de criança. O pombo em seu ombro levantou voo, e ela o fitou enquanto traçava um círculo ao seu redor. — Siga eles com seus amigos.
Ricardo xingou um palavrão enquanto dirigia. Mais ou menos quinze pombos precipitaram-se em nosso encalço. Lívia rapidamente ficou para trás, mas se não fizéssemos algo, logo aqueles animais seriam uma ameaça para nossos amigos. Sabrina pareceu perceber isso, porque abriu a janela ao seu lado, e colocou a mão para fora, tentando atingir as aves infernais. E, após perder quatro balas, ela derrubara três das criaturas. Nem de perto do suficiente. Gemi, enquanto a van ficava cada vez mais rápida. Logo, vimos os zumbis pendurados em postas, que anunciavam que estávamos perto da Praia da Tartaruga. Rico acelerou um pouco mais, e na curva seguinte havíamos deixado quase todas as criaturas para trás. Eu e Diogo ficamos olhando para o vidro traseiro, acompanhando nossos perseguidores. Sabrina derrubou mais um em pleno voo. Ela era excelente. Diogo deu um grito de aprovação, e bateu na coxa dela. Eu sorri. Com uma expressão assassina e maliciosa, minha ex se concentrou por alguns segundos.
– Segurem os queixos, gafanhotos... — dois disparos, as duas últimas aves no chão. Realizada, gritei, abraçando-a num movimento involuntário. — Ai, Ana. Meu pé machucado. — ela riu, comigo quase que totalmente em cima dela, apertando. Ricardo e Diogo trocaram um olhar engraçado, e me afastei. Mas mantive um sorriso discreto em meu rosto. Era tudo que Sabrina teria, por hora. — Aposto que agora está feliz por eu ter vindo. — ela alfinetou.
– Não força. — avisei. Ela riu, mas ficou quieta enquanto fechava a janela e olhava para fora.
Abri a bolsa e conferi seu conteúdo. Estava tudo ok. Pelo menos, podíamos rezar para que aqueles medicamentos não fizessem nenhum mal. Mesmo que eu tivesse brevemente olhado a validade em todos, constatando que ele só venceriam em dois mil e vinte e cinco, eu não tinha certeza de quantos anos haviam se passado desde dois mil e vinte e dois, quando aquela zona começara. Eu não tinha muita noção do tempo, não tinha um calendário. Enquanto ficávamos mais próximos da pousada, senti uma espécie de aperto no peito, imaginando a filha de Diana solta por aí, daquela forma... Era uma vida dura para uma garotinha, mesmo uma totalmente ensandecida e corrompida. Eu sentia pena de Lívia, e prometi a mim mesma que, se a encontrasse novamente no futuro, não permitiria que ela permanecesse naquele pesadelo. Não permitiria que ela ferisse mais ninguém, nem a si mesma. Eu a mataria, para salvá-la. Àquela altura, a morte seria a coisa mais respeitosa e benéfica que poderia acontecer, com aquela pobre menininha...
Fale com o autor