Quebranto.
108 Chuva Ácida.
Notas iniciais
Tânia.
Respirei fundo para conter o impulso de torcer o nariz, enquanto tentava enfaixar o braço de um dos cidadãos feridos da Fortaleza. Uma bala o atingira de raspão, e o sangue traçava um caminho irregular através da pele do rapaz, pingando pela ponta de seus dedos. O aroma de ferrugem, o aspecto pegajoso, nada daquilo costumava me incomodar. O que realmente afetava os meus sentidos, eram os sons. Todo aquele murmurar que se espalhava pelos corredores da enfermaria deixavam-me a ponto de enlouquecer. Havia ali mais desespero humano do que eu sozinha seria capaz de amparar. Pessoas como aquelas, não estavam habituadas com a adrenalina correndo forte nas veias. Com a sensação de que o coração é como um beija-flor apressado. Alguns minutos se passaram sem que os sons de disparos pudessem ser ouvidos de longe, lá no Pátio Central. Para o bem ou para o mal, aquele conflito havia terminado. Dezenas de pessoas feridas, ou simplesmente assustadas e em choque espalhavam-se pelo Hospital. A maioria inerte ou chorando a perda de amigos queridos. Muitos ainda tinham dificuldades em compreender o que acontecera naquela noite. Deus sabia que eu mesma mal podia assimilar a velocidade com que o cenário havia sido modificado. Pelo menos, todo aquele mistério chegara a um fim. E em breve saberíamos qual.
— Tânia, pode me ajudar? – Felipe chamou, sua testa enrugada de preocupação. Segui o médico enquanto ele entrava no centro cirúrgico. Na mesa de cirurgia, um zelador jazia morto. O procedimento que Felipe iniciara para tentar remover as balas alojadas em seu abdômen, estava agora coberto por um lençol esterilizado. Então entendi porque ele precisava de mim. Para garantir que aquele homem não retornasse. – Não sei como fazer.... Onde acertar. – Concordei, apanhando um bisturi no suporte de instrumentos. Com uma estocada firme, cravei o objeto metálico através do globo ocular do paciente. Felipe desviou o rosto. Removi a lâmina afiada, limpando as mãos enluvadas em seguida.
— O importante é danificar o cérebro, de alguma forma. Não importa como você vai fazer, nem qual parte da cabeça vai acertar. Consegue ensinar isso às outras enfermeiras? – Ele assentiu. – Ótimo. Porque tenho a sensação de que teremos muito mais a fazer.
— Tânia, como você conseguiu? Toda essa morte... Os gritos... – Felipe tinha lágrimas nos olhos, mas apertei seu ombro, lutando para dominar meus sentimentos e os dele. – Eu não tinha ideia do quão desesperador isso podia ser.
— Nenhum de nós tem. Mas as pessoas precisam saber que o médico delas pode se cuidar. Se o pior ocorrer, você pode ser um dos últimos profissionais vivos aqui. Não se acovarde agora. Basta seguir os procedimentos, e salvar o máximo de pessoas que puder. – Pedi, sabendo que esta resolução sensata o faria recompor o que lhe restava de dignidade. A minha, por outro lado, precisava de muito mais para ser convencida a aparecer. Onde estariam todos? Hugo, Manuela, as crianças...
— Tânia! Vem aqui, rápido! – Beatriz estava suja de sangue, das mãos até os cotovelos. Ela parecia em choque, e suas mãos tremiam.
Adiantei-me ao seu lado, e ela continuou correndo cada vez mais depressa, seus passos entoando um estalar contínuo e claro. Mesmo com o burburinho do ambiente, pude sentir Felipe em meu encalço. A preocupação dele era quase tão evidente quanto meu desconforto. Pela expressão de minha colega, a coisa não devia ser boa. De fato, não era. Só que a realidade conseguia ser ainda pior do que eu podia imaginar. Com as roupas cortadas por uma tesoura cirúrgica, Dino estava sendo atendido por uma mulher loira, debruçada sobre seu corpo magro. A pele parecia pálida como cera branca, e uma Vilma igualmente abalada segurava a sua mão, a ponto de suas juntas avermelharem. Detive-me diante do cenário, uma mão indo até o peito enquanto lembrava da boate em Búzios, quando Dino passara por uma situação parecida. Tão jovem, já tão sofrido... Olhei mais além para as portas da recepção e vi outras crianças ali, grande parte delas sujas de fuligem e recebendo nebulização. O irmão de Victoria estava ali, observando de longe com alguns amigos. Acenei para ele, notando um sorriso fraco enfeitar o rosto do menino. Tensa, dei alguns passos para acompanhar o procedimento de Dino, ainda que minha colega parecesse competente o bastante.
— Já contive o sangramento e consegui suturar a ferida. Apenas um paliativo. Precisamos remover a bala, mas acredito que ele aguente mais alguns minutos. Precisamos de uma bomba de oxigênio, o mais urgente que der. Ele precisa do senhor, doutor. – Ela estava olhando para Felipe, que engoliu em seco.
— Farei o possível, Viviana. A Melissa está bem? – Nosso médico já estava assumindo o lugar da enfermeira diante de Dino, guiando sua maca para o centro cirúrgico, onde aquele pobre menino substituiria o zelador morto.
Estava a ponto de segui-lo, quando Beatriz apertou a minha mão. Ela olhava na direção oposta, encarando os portões de vidro reforçado da sala de espera anterior à recepção. Com Victoria nos braços, Allan vinha correndo com um desespero palpável, mas ele não era o único. Dante estava ali também, apoiado por Renée enquanto caminhava com dificuldades. Alguns cidadãos feridos também entravam, vindos das partes mais diversas do lugar. Aprumando minha máscara respiratória sobre o rosto, alcancei Allan antes de que tentasse invadir a emergência.
— Senhor, espere! – Gritei. – Ela é capaz de se curar mais rápido que humanos regulares. Nora já salvou a vida de sua filha antes. Venha comigo, vamos deitá-la em um dos quartos lá em cima e remover essas balas, limpando tudo com cuidado. O organismo dela fará o resto. Victoria é mais forte do que nós jamais seremos. – Eu queria tranquilizá-lo, mas principalmente, queria tranquilizar a mim mesma.
— Tem certeza? – Acenei, tocando a testa de Vicky e constando que apesar de desmaiada, ela não tinha febre nem suava frio. Só estava exausta pela perda de sangue, e precisaria de uma transfusão. – Não vou me perdoar nunca se minha filha morrer, dona. – Quis dizê-lo que ele teria de achar um jeito, se isto viesse a acontecer. Da mesma forma que eu o fizera. Mas ele não precisava ouvir isto.
— Tânia, a bala que atingiu o Dante entrou e saiu. Uma cozinheira foi mordida na mão e uma sentinela quer matá-la enquanto dorme. Tem um homem com roupas de zelador pregando na sala de emergência, dizendo que Deus falou com ele. O que eu faço? – Beatriz estava perdida. Notei que Viviana enrolava uma atadura no ombro de Dante, que fazia uma careta dolorida. Vi os cabelos negros de Diogo na porta, antes que ele pudesse ver a mim ou Victoria. Sabia do escândalo que ele faria e não queria lidar com aquilo.
— Allan, eu tenho certeza. Vá agora, antes que seu genro arme uma cena aqui. Eu irei dentro de alguns instantes cuidar da Victoria. Beatriz. Reaja! Peça ajuda para esta sentinela, e ampute a mão da paciente. É a única chance dela. Anestesia, amputação e cauterização. Rápido! Peça que removam o homem da sala de emergência e dê um calmante para a criatura. Provavelmente entrou em choque lá fora. Viviana! O Dante vai ficar bem, mas vai precisar de antibióticos fortes!
— Sim, senhora! Vou aplicar uma dose de amoxilina assim que terminar com a atadura! – Ela ergueu o polegar para mim, enquanto Bia sumia de vista, graças a Deus. A menina estava sendo testada de todas as formas, e parecia mais disposta desde que vira seu irmão por ali.
Carolina estava com os lábios azulados, e manchas roxas sob os olhos. Overdose. Um quadro claro como água limpa, depois de uma vida na rede pública de Minas Gerais. Diogo não disse nada quando me aproximei e medi o pulso dela, que parecia mais fraco do que o habitual. Mal toquei na mão de Nanda quando passei por ela, estranhando o estado catatônico de Hugo, que mal parecia aguentar ficar de pé. Um sentinela mais forte o mantinha firme, e os dois sentavam-se num dos banquinhos de madeira do hall de entrada, quando corri para o posto de farmácia mais próximo. Revirei os medicamentos mais próximos, enquanto Diogo gritava de longe que Carolina havia sido drogada com sonífero. Algo que eu já tinha inferido, mas era bom estar certa do que faria. Pensei em sangrar Carolina como Faye fizera com Hugo, mas o Beijo das Sombras se comportava de modo diferente. Não queria realizar um procedimento arcaico daqueles, tendo estrutura em mãos. Não estávamos mais no continente. Apanhei duas seringas e puxei uma dose de adrenalina num êmbolo, e uma dose de atropina no outro. Corri de volta para Diogo, cravando a agulha grossa no peito de Carol, para a adrenalina. Em seguida apertei a pele de seu braço com força e apliquei a atropina, sem recordar bem se este era o lugar certo para aquele remédio. Nervosa, corri para Hugo e iluminei sua íris para examiná-lo. Diogo estava deitando Carolina no chão do Hall, mas gritei para que ele subisse até os quartos individuais. Sabia que ele acabaria indo até lá de qualquer jeito, verificar o estado de Vicky.
— Esse lugar está uma loucura! – Fernanda parecia assustada, olhando ao redor com uma surpresa atônita. – Se precisar de alguma coisa, é só pedir.
— Você deve estar cansada, com esse braço ferido. Um tiro de raspão ainda é um tiro. Mesmo para uma transgênica. – Ri, tentando manter o foco em Hugo. Ele estava parado para que eu o examinasse, mas não parecia reconhecer-me. – O que houve com ele? – Então iniciei uma contagem mental e percebi o que estava errado. – Onde está Manuela?
— Tânia... Ela não sobreviveu. – Fechei os olhos, suspirando. Eu sentia que algo podia acontecer. – Hugo está em choque. Acho que ele enfrentou coisas demais hoje. Ele tem poderes, Tânia. Eu vi acontecer. Ele moveu coisas, destruiu, matou... Com a mente. Sem sair do lugar.
— Não quero pensar nisso agora, Nanda. Não posso. – Sequei os olhos, esfregando a parte do braço que não estava coberta por látex ou suja de sangue. – Você devia beber uma água, descansar.
— Tânia! Viu a Cecília em algum lugar? – Otávio parecia ofegante, como se já tivesse feito aquela pergunta outras vezes. – As crianças estão aqui e ela não. É muito estranho.
— Ela não estava com eles quando deram entrada. – Lembrei do estado de Dino, constrangida. – Talvez queiram consolar a Vilma. Dino está no centro cirúrgico, e as coisas não vão bem. Nanda arregalou os olhos, correndo na direção para onde Felipe levara o menino.
— Será que alguém vai sair ileso dessa noite? – Hugo fez a pergunta em tom retórico, mas havia uma ausência total de emoção em sua voz. Como se tivesse aceitado a derrota ou estivesse prestes a desmaiar.
— Você sabe que não. Nunca saímos antes. Mas continuaremos aqui. Juntos. – Passei a mão em seus cabelos. Sorrindo para Dante, que o observava de longe com um olhar de filhote pidão. – Pelas pessoas que nos amam. Mesmo sob chuva ácida.
— Mesmo sob chuva ácida. – O rapaz concordou, e sorriu enquanto começava a finalmente chorar. – Queria ter salvo a Manuela. Se meus poderes tivessem reagido um pouco mais cedo... E agora o Dino, a Vicky, a Carol... Esse lugar não era o que pensávamos. Nem nossos inimigos. Julgamos o Renée muito mal.
— Não se preocupe com isso. – Mexi em meus bolsos, tirando o frasco de calmante que eu utilizara para ajudar uma mulher que perdera o marido a dormir. Abri a boca de Hugo e pinguei umas boas dez gotas. Eu mesma poderia usar um pouco daquilo, depois daquele dia infernal.
Um dia que sem sombra de dúvidas, eu adoraria esquecer...
Vilma.
A mão dele estava fria. Quase dura demais, enquanto eu tentava apertá-la, transmitir meu calor para as veias dele. Meu irmão dormia sob o efeito dos remédios que Felipe aplicara. Do meu lado, Fernanda o mirava de braços cruzados enquanto chorava em silêncio. Lá fora, no corredor, eu podia ouvir Diogo conversando com o médico. Ouvi o suficiente para perceber que nada ia bem. Dino era forte, decidido e mais impulsivo do que eu, mas ele ainda era jovem. Éramos crianças. Crianças. Aquilo não parecia ter mais significado, a não ser talvez para Helga. Ela chorava também, agora que sabia de tudo o que Francine fizera. Nas últimas quatro horas, as coisas pareciam mais silenciosas no Hospital, conforme aqueles que não haviam sido propriamente feridos começavam a ajudar na restauração de todos os locais afetados pela tragédia daquela noite. Quando tentei beber água na recepção, vi a pilha de corpos que chegava, todos cobertos com lençóis retirados às pressas dos dormitórios, mas que não escondiam nada. O sangue... As marcas de bala. Tudo o que nunca mais sairia da minha cabeça.
Os aparelhos respiratórios faziam um som engraçado. Como um lembrete de que, não fosse por eles, Dino já estaria morto. Era como o matraquear de um pássaro tosco, feito apenas para irritar e amedrontar. Toquei o peito dele, por sobre o curativo. A pele amarelada contrastava com aquele cabelo negro e liso. Notando quão semelhante ao meu aquele rosto era, senti um aperto firme no peito. Como se um nó estivesse apertando. Mas eu não iria chorar. Não podia. Longe de ser uma questão de orgulho ou de força, era simplesmente cansaço. Sabia que mais gente tinha morrido. Pessoas demais que eu não conhecia. Silvia, Martha, Manuela... Tantos. Cecília estava desaparecida, também. Desde a Escola. Ninguém havia encontrado o corpo dela depois que Francine a tomara como refém. Só meu irmão poderia nos dizer exatamente o que estava acontecendo. Que fim ela encontrara, ou se encontrara algum.
— Nenhum sinal ainda? – Diogo enlaçou um braço em meus ombros, de lado. Fiquei aliviada por ele estar ali. Alguém forte que realmente se importava. – Ele vai aguentar.
— Ele vai. – Sorri, ainda que sem convicção nenhuma. – E o pessoal? Todos ficaram bem?
— Dante e Hugo estão dormindo há horas, depois do que passaram. Principalmente o Hugo. E olha que o Dante foi baleado. Mas Tânia tem boas expectativas. Vicky já está se curando, rápido o bastante para me assustar. – É claro. De outro modo ele estaria com ela, e não aqui. – Mas sei que ela ia preferir que eu estivesse com vocês, então eu não poderia estar em outro lugar. – Deixei escapar o soluço que eu estava segurando. Não esperava que Diogo tivesse aquela atitude. Que levasse tão a sério cuidar de nós. Solucei mais uma vez, e ele me abraçou. Escondi o rosto em seu peito, sentindo as mãos dele nos meus cabelos. – Hey, menina... Coloca pra fora... Nanda, pega uma água pra ela. – Eu não queria água, mas aquele cuidado era tão bom... Não disse nada que mudasse aquele momento. – Carolina reagiu bem às drogas que injetaram nela. Se é que se pode reagir bem com drogas no sistema. A questão é que ela vai acordar, mas ninguém sabe quando. Os outros ou estão se recuperando, ou não podem ser recuperados.
— Entendi. – O tom solene como ele dissera sua última frase, era um tanto inquietante. Será que meu irmão podia ser recuperado? – Se Francine não tivesse morrido, eu a mataria. A cortaria pedaço por pedaço, por tentar matar uma parte de mim. As pessoas não entendem muito a nossa relação. Mas Dino sempre cuidou de mim, mesmo que eu estivesse cuidando dele. Ele sempre fez as coisas querendo me proteger, até quando eu não precisava. Ele é uma extensão de mim. É meu espelho. Meu melhor amigo.
— Tenho certeza de que ele também se sente assim. – Fernanda depositou um copo de café em minhas mãos. Aquilo era bem melhor que água, e mais raro ali também. Bebi rapidamente, ignorando o calor em minha garganta afogueada. – Viu, Diogo? As meninas amadurecem mais rápido.
— É verdade, ruiva. Ainda mais as inteligentes. – Diogo tinha um tom de sorriso na voz, que me consolou. Ficamos em silêncio ali, sentados ao redor da cama de Dino, por horas. Ou minutos. Não estava contando, nem sentindo.
Quando a porta do quarto se abriu e Victoria entrou, achei que fosse desmaiar. Olhar para ela e vê-la naquele estado, com os cabelos ainda sujos de sangue e muletas, era bem aterrorizante. Ainda que de um jeito meio diferente, ela sempre agira como um centro pra todos nós. Como se soubesse o que fazer, quando ninguém mais sabia. Era algo complicado de definir, mas eu confiava nela. Desde sempre. Contorcendo as mãos em frente ao meu ventre, mordi o lábio inferior quando Diogo adiantou-se para ampará-la. Trazendo-a consigo, parou ao meu lado enquanto Vicky inclinava-se para o meu irmão. Ela estava chorando em silêncio, três tons mais pálida que o normal. Ela perdera mais sangue do que eu imaginaria. Será que os tiros haviam atingido algum lugar vital? Não saberia dizer.
— Sinto muito, meu amor. – Victoria envolveu meu corpo com o dela, mantendo-me colada ao seu peito. A pele dela estava um pouco gelada, como se ela fosse feita de papel e estivesse lutando para desvanecer. Mesmo assim eu devia lembrar que era um milagre que ela estivesse de pé. – Eu entendo a sua dor. Mas sei que o seu irmão vai ficar bem, mesmo que as chances não sejam boas.
— Felipe disse que ele pode sobreviver. Mas que ele não contaria com isso. – Minha voz falhou no fim da frase, fazendo com que Vicky perdesse um pouco da postura otimista. Ela olhou para Diogo, como se perguntasse como eu sabia daquilo. – Não foi culpa dele. Nem da Nanda. Eu ouvi atrás da porta. Na verdade, eu estou me despedindo dele. Não tive muito a chance de fazer isso com o Tiago. Mas quando o meu irmão morrer, eu vou estar aqui para garantir a paz dele. – Puxei minha faca, passando-a de uma mão para a outra. – É tudo o que posso fazer por ele.
— Na verdade... – Fernanda levantou-se da poltrona na qual afundara, repentinamente ansiosa. – Victoria e eu poderíamos tentar infectá-lo com o nosso sangue. Não é uma garantia, mas é uma chance maior do que esperarmos ele morrer por falta de recursos.
— Mesmo que ele não vire um inumano homicida, ele vai demorar muito a se recuperar. Mas terá uma capacidade de regeneração celular mais poderosa que qualquer bactéria ou vírus. É uma possibilidade. – Diogo concordou, antes do seu olhar convergir sobre mim. Ao que parecia, eu é que decidiria. E não sabia o que pensar sobre aquilo.
— Não gosto da ideia de meu irmão se transformar em um monstro. Mas ele vai morrer, de uma forma ou de outra. De um jeito ele vira um monstro e o matamos. De outro, ele não resiste e garantimos que continue morto. É a mesma coisa. – Respirei fundo, esfregando as mãos no rosto. – Façam o que tiverem de fazer, antes que não tenha outro jeito. Felipe nos deu duas horas. Infectado com o sangue de vocês, devemos saber o que vai acontecer neste tempo. Se tem alguma chance de isso dar certo, prefiro contar com ela.
— Funcionou para mim, e meu coração parou de bater. – Fernanda tentou sorrir, mas ela também estava com medo.
— Também funcionou em Luca, e ele tentou matar a Victoria. – Lembrou Diogo, levando um beliscão de Vicky. – Ai. Ok, desculpa. Pode entrar, Bia.
Olhei para a porta, notando que Beatriz estava parada do lado de fora, em silêncio. Ela entrou no quarto com certa hesitação, trazendo nas mãos uma bolsa de sangue e um cateter para anexá-la ao suporte de soro ao lado de Dino. Por isso Vicky estava tão pálida. Ela tinha sido a doadora. Até Nanda parecia surpresa, enquanto a estagiária trabalhava. Com um certo pesar por ter autorizado aquilo tudo sabendo dos riscos, não aguentei olhar para a cena. Preferi fechar os olhos e cruzar os braços firme contra o peito. Desejar algo com toda a força pode ser sufocante, às vezes. Expirei devagar e levantei as pálpebras, olhando para os rostos ao meu redor e percebendo que não aguentava mais estar ali. Caminhei até o corredor, fechando a porta com cuidado atrás de mim. Rezei para que ninguém viesse atrás de mim, mas sabia que eles entenderiam. Acho que pediria um café a alguém. Tânia devia estar ocupada, mas não seria tão ruim procurar por ela. Ocuparia minha mente com uma tarefa simples.
— Vilma? O que está fazendo sozinha, meu doce? – Senti a mão delicada em meu ombro, e virei o rosto. Faye parecia ter chorado. Seus olhos estavam vermelhos, bem como seu nariz. Ela tinha algumas marcas no pescoço e nos antebraços, como arranhões. Parecia bem melhor que o resto de nós, a despeito destes detalhes. – Sinto muito pelo seu irmão. Allan acabou de me contar. – Ela abraçou-me, e fiquei comovida com seu gesto. Ela devia se sentir extremamente mal, considerando que João Pedro e Francine queriam matá-la mais do que tudo. – E pensar que Dino lutou para proteger Cecília... Ele poderia nos dizer o que Francine fez a ela.
— Ainda pode. Nanda e Vicky vão salvá-lo. Ele está resistindo. – Apertei a mão de Faye, sorrindo. – É uma chance pequena, mas milagres maiores já aconteceram antes. Ele vai ficar bem. – Faye cobriu a boca com uma das mãos, e pareceu prestes a chorar novamente. – Francine te feriu muito? Ouvi a história do que aconteceu no Laboratório. Sinto muito pela Helena. Ela era legal.
— Helena salvou a minha vida. Ela lutou bravamente com Francine, mas não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-la. As duas acabaram trocando tiros, mas não aguentaram até o socorro. Helga também está arrasada. Ela queria visitar Dino, mas temia a sua reação, considerando o que a filha dela fez. – Faye secou algumas lágrimas, apertando um de meus ombros em seguida. – Helga é uma mulher boa, mas ingênua.
— Eu sei. Ela tentou tomar minhas facas. E eu salvei a vida dela, com elas. – Sorri, ainda que sem a menor vontade. – Ela foi sábia em não dar as caras. Mesmo que não seja culpa dela, a última coisa de que preciso agora é de um lembrete da louca que tentou matar o meu irmão. Acabaria descontando minhas frustração na coitada. Mas não se preocupe. Eu não a culpo. Até mais tarde, Faye.
— É claro, meu doce. Diga ao seu irmão que eu mandei um oi, quando ele acordar. – Ela sorriu abertamente, como se torcesse muito para o retorno de Dino. Achei a expressão de seu rosto um pouco afetada, mas imaginei que ela estivesse sob um estresse tão grande quanto o nosso. E para ser franca, eu não estava ligando muito para outra dor que não fosse a minha.
Cruzando o restante do corredor, parei antes de alcançar o elevador, admirando a paisagem que se estendia através da janela enorme feita de vidro, que abarcava a maior parte da estrutura hospitalar. Lá fora, o sol já se estendia sobre a Fortaleza, totalmente revigorado após uma noite de sono. Totalmente alheio ao nosso mundo despedaçado. Fumaça ainda subia na direção do Memorial, enquanto pequenos focos de fogo ainda ardiam na Escola. Não se ouvi um único ruído nas ruas, nem se via o natural burburinho que levava um residente de um lugar a outro. Nossa pequena civilização estava paralisada. Como um intervalo quase imperceptível, entre uma batia de coração e outra. Como a pausa dramática antes de dizer adeus, ou antes do Príncipe Encantado despertar sua princesa, como no filme da Branca de Neve. Queria que meu irmão acordasse como ela. Contudo, apesar das repetidas provas de que a magia e o sobrenatural existiam naquele mundo que se rebelara contra a humanidade, nem sempre os finais eram felizes. Nem sempre os finais eram mesmo o fim. Porque agora, existiam coisas piores do que a morte. E às vezes, a morte era melhor do que a vida...
Fale com o autor