Quebranto.
105 Canção de Ninar.
Notas iniciais
Cecília.
Os passos de Francine eram velozes, e ela olhava por sobre o ombro a cada metro que avançávamos. Como se esperasse que Dino a surpreendesse a qualquer momento. De fato, eu sabia que as chances de que ele estivesse nos seguindo eram tremendas. Mesmo que eu não fosse tão próxima dos gêmeos, apesar do tempo de convivência, eles não me deixariam ser capturada. Não quando estavam sempre tentando ajudar, e serem os adultos que o nosso mundo exigia que fossem. Chorando ao sentir o peso dos meus pensamentos, pousei uma das mãos sobre minha barriga. Meu filho nasceria num mundo cruel. Num mundo onde a infância não existe. Isto se eu conseguisse sair daquela escola com vida. Os dedos de Francine estavam machucando meu bíceps, e a dor de seu aperto infiltrava-se através das camadas de minhas roupas. Com violência, ela puxou-me consigo para o térreo, e subimos uma escada estreita juntas. A porta aberta já revelava o chão de madeira do hall principal, e quase caí quando ela me empurrou para fora do corredor escuro. Determinada, a Conselheira não perdeu o fôlego, analisando as janelas abarrotadas de zumbis, e as largas portas da entrada.
– Não dá pra sair numa boa... – Ela parecia nervosa, como se estivesse prestes a ter uma crise de ansiedade. – Já sei. Sinto muito, Cecília. Mas nada vai ficar entre mim e o que eu preciso fazer.
Sem aviso, Francine deu um soco no meu rosto. Zonza, cambaleei por alguns metros até cair sentada no chão. Vi sangue escorrer na minha blusa de mangas compridas, e um ardor espalhar pelo lado esquerdo da minha boca, enquanto o sangue escorria através dos meus dentes. Tateando o chão de madeira em desespero, comecei a afastar-me dela. Como uma lagarta contorcendo-se sob as unhas de um pássaro. Ela enrolou uma das mãos nos meus cabelos, e puxou para trás. Fui arrastada na direção das portas, e percebi o que ela pretendia. Alimentar os mortos comigo. Gritei de dor e de medo, chorando e sentindo as minhas forças esvaírem enquanto os nervos palpitavam de pavor. Ela abaixou-se do meu lado, e agarrou o meu pescoço. Sua arma estava na cintura novamente. Talvez eu tivesse alguma chance de puxá-la. Enquanto suas unhas comprimiam minha jugular, tentei enfiar os dedos em seus olhos. Nós duas gritávamos enquanto medíamos forças. Arranhei seu rosto, atingindo uma de suas pálpebras. Como se chorasse sangue, Francine tornou-se ainda mais assustadora. Ela largou meu pescoço e acertou o chão com minha cabeça. Foi o suficiente para que eu a soltasse. Tudo que minha visão periférica abrangia tornou-se turvo, e já não pude reconhecer minhas próprias ideias. Pensei que o passo seguinte seria o meu fim, mas Francine agarrou algo às suas costas, gritando e contorcendo-se numa fúria sem limites.
Ela virou-se na direção de seu atacante, e vi a faca de Dino cravada em suas costas. Ele parecia prestes a pular sobre ela outra vez, quando vi onde a mão de Francine havia pousado. Lutando para levantar-me, abri a boca para avisar quando o disparo foi feito. Com um tiro no tórax, Dino caiu sobre suas costas, com os braços abertos e tossindo devido ao impacto. O sangue de Francine escorria por suas roupas tornando o vermelho de seu terninho ainda mais escuro. Os óculos de armações grandes estavam caídos ao meu lado, com as lentes quebradas. Ela parecia louca e terrível, como alguém que perdeu a noção de si mesmo. Um monstro.
– Dino! O que você fez? – Gemi, arrastando-me para perto do menino. Não conseguia sentir metade do meu rosto, mas sabia que estava chorando. As lágrimas escorriam até o meu queixo. – Deusa, por favor, misericórdia... – Ele ainda tinha pulso, mas não estava respondendo. Sangue acumulava-se ao redor de seu corpo, e Dino parecia imerso num mundo além do meu alcance. Olhei para cima, e Francine permanecia parada, encarando o corpo do menino. Ela respirava com dificuldade, como se estivesse chocada com o que havia feito. Talvez ela não fosse tão imune quanto eu pensara.
– Vocês me obrigaram.... Eu não queria matar crianças.... Mas é pelo bem maior. – Ela encarou-me então, sua alma totalmente oca. – Vocês vão morrer pelo bem maior.
– Por favor, eu estou grávida! Se nos deixar aqui para sermos devorados, como você poderá pensar que é melhor do que a Faye? – Desafiei, pois não tinha mais opções a utilizar. Tinha que funcionar. Eu não queria ser morta, e não queria que aquele menino morresse por minha culpa.
– Não sou nada como ela. NADA! – Francine me puxou para cima, e fiquei de pé. – Não preciso matar vocês desse jeito. João vai pegar todos, quando aquela maldita estiver morta. Nós duas vamos sair pela janela da sala de vídeo, no segundo andar. Você vai ser meu escudo contra seus amigos, caso tentem alguma coisa.
– Você tem que ajudar o Dino! Não deixe ele aí! – Implorei, enquanto era rudemente arrastada pela escada.
– Ele não é problema meu. Nem seu.
Francine fez com que eu quebrasse o vidro da sala de vídeo com uma cadeira. Sob a mira de sua arma, eu só pensava em Otávio e no nosso filho. Queria saber onde ele estava, e o quê estaria acontecendo do lado de fora. Era ruim demais ficar daquele jeito. Se ao menos ou soubesse que ele estava bem, talvez não estivesse tão preocupada com meu próprio destino. Ele já sofrera tanto a perda de Julia. Eu não queria ser mais uma pessoa amada a morrer, em sua vida. Quando finalmente atravessamos a janela e pisamos nas pequenas telhas de barro com estilo colonial, olhei para baixo e encontrei um local deserto e devastado. Parte do prédio ainda estava queimando, e a fumaça voava em nossa direção, tornando difícil enxergar e respirar. Não podíamos ver zumbis em parte alguma, porque o fogo estava do outro lado, atraindo-os para a parte frontal da Escola. Ainda assim, estávamos no segundo andar. Podíamos sobreviver à queda, mas ainda existiam riscos. A voz de João Pedro ecoava ao longe, mas com o som do meu coração tão forte em meus ouvidos, eu não conseguia entender o que ele estava dizendo.
– Vamos ter que pular. – Francine avisou-me, enquanto terminava de inspecionar ao redor. – A coisa está feia, mas João conseguiu assumir o controle. Ótimo. Falta pouco.
– Não sei se consigo pular... – Murmurei, nervosa pelo meu bebê.
– Pula, ou eu te jogo daqui. Escolhe. – Ela não estava brincando. Levantei-me, e dei dois passos até a borda. Respirei fundo, encarando a grama abaixo. – Bom. – Francine sorriu, cruzando os braços. – Vou logo atrás de você.
Eu pulei, e caí de maneira terrivelmente errada. De bruços sobre a grama, senti a primeira pontada de dor alastrar-se da minha barriga, para os nervos da coluna e das pernas. Gritei, cobrindo minha própria boca para não chamar a atenção. Francine pulou pouco depois, caindo de lado na grama. Ela guinchou de dor, pois abrira ainda mais seu ferimento. O local de onde ela arrancara a faca de Dino sangrava ainda mais, quando ela se levantou à minha frente. Reuni forças para ficar de pé, com medo de despertar a raiva dela, e iniciei o processo lento de pôr um pé na frente do outro. Acompanhando-a com passos de formiga, ouvimos ao longe o início de disparos, e nos abaixamos conforme chegávamos cada vez mais perto dos Laboratórios. As dores vinham em ondas, como se os músculos do meu corpo estivessem contraindo em agonia, e cada minuto era um tormento. Não sabia como estava conseguindo continuar. Tudo parecia ter adquirido tom de sépia. Não era uma dor natural, e eu não tinha certeza de que conseguiria manter a consciência por muito mais tempo, estando tão além do meu limite. Finalmente, mas de forma tardia, pude entender o meu sonho e as palavras da Deusa. Naquele momento, eu não considerava que Faye tivesse me salvado com a cura. Ao devolver minha visão, ela tornara-me cega. Não vi o mal que se escondia bem ao meu lado. Agora, como uma canção de ninar sombria, ouvia as ondas distantes quebrando contra as costas rochosas da Fortaleza. Seria este o último som que eu ouviria antes de morrer?
Victoria.
Era como se o tempo estivesse correndo pelos meus dedos. Como grãos de areia que desapareciam antes de chegar ao chão. Eu precisava fazer alguma coisa, mas não sabia se podia fazer isso. Meu pai estava sob a mira de um revólver, assim como mais da metade dos meus amigos. Os outros, podiam estar em situação pior. Apenas Deus sabia o que estava acontecendo com aqueles de nós que não estavam por perto. Ainda assim, Diogo e Carolina precisavam de mim. O que eu podia fazer? O que eu deveria fazer? Mesmo com meus poderes, eu conseguiria agir antes que alguém acabasse morto?
“Você ficou mole. De novo.”
Nora. Oh meu Deus, não!
“Eu deixaria Deus fora dessa. Não foi isso que combinamos. Esse lugar entrou na sua cabeça e te deixou fraca. Eu posso salvar seus amigos. Você não.”
Nós somos uma. Não somos?
“Não mais. No momento, sou sua única chance de salvar sua família. Sou a única capaz de fazer o necessário. Me deixe sair, e vou matar todos eles.”
Como posso ter certeza de que você não vai roubar o controle outra vez? Pensei que nunca mais nos falaríamos de novo.
“Você não tem como saber disso. Mas estou tão surpresa quanto você. Agora, o que vai ser?”
Não me atrevi a responder. A verdade é que eu temia perder a mim mesma outra vez, não queria que meu pai me visse como uma assassina. Mas eu era uma assassina. Todos nós éramos, ou então não estaríamos vivos. Nora era minha única chance, a única chance de Diogo. Torci as correntes em minhas mãos, e senti o peso do ferro pressionar os meus braços. Meus poderes. Não estava conseguindo usá-los. Deviam estar no mesmo lugar em que Nora renascera. Em algum lugar do meu cérebro, onde eu podia acessá-los. Minha raiva, minha dor, e principalmente o medo. Ela era o fruto do meu desespero. E, se João Pedro acreditava que nós transgênicos éramos monstros, então ele conheceria um de verdade.
Fechei os olhos, e permiti que o meu Mister Hyde surgisse das sombras de minha mente...
Nora.
Vicky pensa demais. Durante todo o tempo em que ela se debatia com seus dilemas morais, tive de concentrar-me nas posições dos inimigos, observando-os de uma pequena janela em seu subconsciente. Ela não via com clareza quando estava com medo. Acho que a maioria dos seres humanos não possuía essa capacidade. Felizmente, eu não era um poço de humanidade, por assim dizer. Flexionei os ombros, e meu humor despencou ao sentir o repuxar em meus músculos, onde João havia apertado. Desgraçado. Fechei os olhos por um breve instante, ouvindo de maneira apurada enquanto ele cochichava com suas sentinelas traíras, pedindo informações sobre quanto tempo ainda tínhamos. Faye não estava vindo de lugar algum. Aquela japa era uma covarde, ainda que fosse útil. A situação, então, era bem simples. Ou matávamos eles, ou eles nos matavam. Olhei para os lados, e contabilizei meus aliados. Hugo, Dante, Nanda, Manuela, Arantes, Otávio e papai. Ninguém muito útil. Preferia que Jonas ainda estivesse vivo. Ou talvez, que Diogo estivesse por ali. Aqueles dois sabiam interpretar o que eu queria que fizessem. Na ausência deles, eu teria de me arriscar e torcer pra que nenhum deles resolvesse agir como um idiota. Forçando minha expressão facial a imitar a de Victoria, encontrei o olhar de Nanda. Surpresa, percebi que ela notara quem eu era. Otto também havia percebido, talvez porque eu assumira uma nova postura. Lembrei que Vicky era corcunda, e entortei os ombros. Minha contraparte não tinha nada de altiva. Exceto talvez, quando irritada. Aí, ela parecia comigo.
– O tempo está passando, João. Até quando vamos ficar nisso? Ela não vem. – Disparou Agnes, nervosa. O som da voz dela irritava-me o suficiente para que matá-la fosse ainda mais fácil. – Vamos matar esses aqui, e invadir o Laboratório. A vingança ridícula da Francine não deu certo. É óbvio.
– Francine vai fazer de tudo para chegar até ela. Vai matar qualquer um em seu caminho. Eu sei. – Ele estava impassível. – Além do mais, qual a graça de dominarmos os inimigos se não podemos espezinhá-los um pouco? De qualquer forma... Guilherme. – Ele mudou de tom, ao notar seu capanga. – Vamos dar um tiro de aviso. A inumana ruiva. Fernanda, não é? – Ele sorriu, aproximando-se dela. – Sim. Lembro que jogaram uma pedra em você, no outro dia. E nem foi gente minha...
– Vai atirar? Ou prefere me matar de tédio? – Debochou Nanda, levando uma bofetada em resposta. – Tédio, então...
– Gostei de você. Quem sabe seu amiguinho aqui, então? Ele não parece tão durão. – João colocou a arma dele na nuca de Dante. – O que acha?
– Deixe eles em paz! – Manuela gritou, ao meu lado. Olhei na direção dela, e percebi a inclinação de sua cabeça na direção de Guilherme. Ela ia agir. Mas não era tão rápida como eu. – Como vocês podem ser tão fodidos? Querem salvar as pessoas de um monstro, quando vocês mesmos criaram um. São o pior tipo de gente que vive nesse mundo. O tipo que não vale à pena ser salvo. Têm medo de nós, porque sabem que quando os lixos como vocês morrerem, nós estaremos aqui! – Manuela notou que João retesou-se ao ouvir seu xingamento, e sorriu. A mão dele afastou-se um pouco de Dante, e Nanda esbugalhou seus olhos na nossa direção. Otto e papai trocaram um olhar tímido, como que confirmando o que fazer. Senti um dos elos da minha corrente começar a ceder. — E mesmo que não estejamos, eu preferiria morrer mil vezes, do que viver uma só e me tornar um covarde como você! A única vida que você quer salvar é a sua, mas é muito bichinha pra admitir que virou um assassino como qualquer outro. Você não tem nada de especial. É só mais um lixo doente que encontramos...
– Guilherme, faça ela calar a boca. – João perdera o sorriso mole. Estava lívido, encarando Manuela como se ela fosse uma ofensa à sua divindade particular. – Com emoção.
Guilherme chutou as costas de Manuela, e ela caiu para a frente, sobre o próprio peito. A força do golpe a fez perder o ar e encolher-se no chão, revirando os olhos. O cara chegou mais perto, enquanto os outros pareciam revoltados e chocados. Foi quando um dos lados da corrente que me prendia arrebentou-se. Guilherme inclinou-se sobre Manuela ao meu lado, o que me deu tempo de piscar discretamente para Otto. Ele assentiu, e pulei sobre o corpo do sentinela. Usei a parte da corrente grossa ainda inteiro, para envolver seu pescoço. Pego de surpresa pela minha força, ele não conseguiu gritar. João Pedro e seus lacaios ficara em choque por alguns segundos, tempo em que senti o os ossos e tendões do pescoço de Guilherme espremendo como massa de modelar. Sua cabeça estava vermelha, e os elos da corrente haviam formado marcas roxas quando o larguei. Esperto, Otávio havia rolado para fora do palanque, caindo sobre alguns corpos. Libertei minhas mãos a tempo de usar o corpo de Guilherme para me proteger de alguns disparos, mas mesmo com minha agilidade, não pude impedir que João Pedro efetuasse um disparo. O ombro de Dante foi transpassado por um projétil, e ele caiu com o rosto no chão. Ele atiraria uma segunda vez, mas Nanda o derrubou com um chute no calcanhar.
O Conselheiro caiu gritando de dor, e no meio da confusão vi meu pai sendo atacado por Agnes, que tentava usá-lo como provável refém. Estava virando-me para matá-la, quando Arantes a derrubou envolvendo uma de suas pernas com as dele. A mulher caiu desajeitada sobre o colo do militar, e ele acertou a cabeça dela com a sua, impedindo-a de levantar-se. Em seguida ele deixou que ela rastejasse por alguma distância, e envolveu seu pescoço com as pernas. Sob seu aperto, ela não demorou a perder os sentidos. Ferindo os próprios pulsos, Arantes soltou-se em seguida, trocando um olhar comigo. Contornei o corpo de Agnes e agarrei as amarras do meu pai, arrebentando-as. Ele sorriu para mim brevemente, antes de descer do palanque numa fuga desesperada para proteger-se dos tiros. Para homens treinados, aqueles caras eram bem ruins. O que me levou a pensar que deveriam ter muitos cidadãos de outras profissões, entre os assassinos de João Pedro. Não que aquilo fizesse a menor diferença, naquele ponto. Quando me virei novamente, João Pedro estava tentando levantar-se, subindo sobre o corpo de Dante, que parecia morto ou no mínimo desmaiado.
Os homens de João tentavam evita-lo enquanto atiravam, mas Hugo estava desprotegido, chorando e cobrindo a cabeça com as mãos. Testemunhar Dante sendo baleado havia sido demais para ele, imaginei. Corri na sua direção, agachada. Ali em cima éramos alvos fáceis para aqueles sentinelas. João Pedro passou direto por Hugo sem ser atingido, descendo as escadas para baixo do palanque. Quando alcancei Nanda e arrebentei suas cordas, senti um rastro de fogo lamber meu antebraço esquerdo, e o som da bala esmagando o osso encheu meus tímpanos. Mordi a boca e depois gritei com a dor, mas Nanda já estava soltando Hugo. Enquanto a sensação quente do sangue que escorria da ferida espalhava-se pelo meu corpo, notei a chegada de uma sombra sobre mim. Hélio estava ali, e minha testa estava sob a sua mira. Olhei para o lado, e haviam sentinelas sobre o palanque. Hugo já havia sido facilmente dominado. Dante ainda estava desmaiado, sangrando. Papai, Otto e Arantes haviam conseguido se esconder, saindo das vistas de todos. Nanda tinha uma arma apontada para si, também. E por último, Manuela havia sido gravemente ferida no rosto por um daqueles caras. Eu sequer conseguira ver como. Mas ela estava presa novamente, com um trinta e oito contra o pescoço enquanto um mascarado a agarrava pelos cabelos. De longe, ouvi a risada de João Pedro. Mas eu só tinha olhos para Hélio.
– Vocês são ratos piores do que pensei. – Ele estava embaraçado, mas ainda mais irritado. – Hélio, atira numa das pernas dela, também. A vadia matou o Guilherme.
– Qual perna, João? – Aquele nojento de cabelo oleoso estava rindo, seus dentes tão amarelos quanto sua pele.
– Fique à vontade. – João respondeu, como se fosse nada. Rindo, o cara disparou. Gritei quando senti a ardência na minha perna direita. O impacto fez com que eu dobrasse sobre mim mesma, amaldiçoando-o. – Uau! Puta tiro, Hélio. Agora, enquanto essa piranha agoniza, quero que você arranque a língua da meretriz que começou tudo. – Manuela guinchou quando dois homens a dominaram. Ela estava debatendo-se, e parecia completamente aterrorizada. Um pouco tonta, tentei ignorar a dor para discernir o que estava havendo. O cenário não era nada animador. Hélio me deixou sozinha, gemendo de dor, e tirou sua faca do cinto.
– Essa é pelo Guilherme e pela Agnes... – Ele mostrou a lâmina para Manuela, e encostou-a em seu rosto. – Grita enquanto pode, bonitinha...
Manuela gritou, mas de susto. Hélio caiu quando Agnes o agarrou, mordendo-o no braço. Tão preocupados em nos matar, eles haviam esquecido de destruir os cérebros dos mortos. Com sua queda, Hélio ficou a centímetros do rosto de Guilherme, que já estava se mexendo. O zumbificado lhe mordeu o nariz, arrancando-o parcialmente. Enquanto era devorador Hélio gritava, e seus companheiros apressavam-se em atirar nos mortos. Mas alguém estava pronto para acertá-los, também. Alguns deles caíram, e tive de seguir os estampidos para identificar quem havia salvado a nossa vida. Papai estava armado, e ao seu lado Tássio e Matias vinham, também segurando armas. Eles começaram a atirar a esmo, e embora não tivessem miras boas, desviaram a atenção dos nossos algozes. Foi o bastante para Nanda agarrar o braço da mascarada que a ameaçava, e eletrocutá-la. Em seguida ela rolou para o lado e agarrou o tornozelo de um sentinela traidor que atirava contra Matias. O homem caiu também. Ela correu na direção de Manuela, ignorando o fogo cruzado, e agarrou um dos homens que a seguravam. O cara gritou e contorceu-se, largando nossa amiga. Preocupada com Hugo, arrastei-me até ele, que se mantinha agarrado à Dante. Medi o pulso do loiro, e sorri ao ver que ele estava vivo.
– Hugo, volta pra mim. Hey! – Dei um tapa na cara dele, e senti a sonolência da perda de sangue ondular dentro do meu estômago. – Você precisa sair daqui. Chame ajuda pro Dante. Por favor!
– Não quero ver mais ninguém morrer. Desisto, Vicky. Quero ir embora. – Ele balbuciou, totalmente chocado.
– Você percebeu quanta sorte tem? Ninguém mirou em você. Ainda. Mas isso pode mudar. Então desce daqui antes que você deixe o Dante morrer. Não me obrigue a te dar um chute na bunda tão forte, que você vai flutuar na direção do Hospital! – Esganicei-me, e o antigo Hugo pareceu tremular dentro da imagem surreal daquele menino assustado. Ele olhou por cima do meu ombro, e segui seu olhar. Manuela vinha na nossa direção, em péssimo estado, mas sorrindo.
– A ajuda chegou! – Ela jogou-se no chão, ao meu lado. – Vem Hugo, vamos pro Hospital. Temos que chamar ajuda para o Dante! – Estávamos perdendo tempo, tentando convencê-lo a se mexer.
– Ok. Vamos. – Sorri aliviada, já quase inconsciente, quando ergui o olhar e vi uma cena que não iria esquecer nunca.
Manuela e Hugo estavam prestes a descer as escadas do palanque, quando João subiu com seu revólver em riste. Ele estava sorrindo, mas não havia humor sem seu olhar. Aquilo era muito mais uma máscara psicótica, do que qualquer outra coisa. Num segundo seu olhar vibrou, e a expressão facial encheu-se de ódio. Um disparo, e Manuela tombou de joelhos, caindo sobre os mesmos com sangue escorrendo em finos filetes, através de sua testa. Ela parecia surpresa enquanto caía, já longe deste mundo. Com a boca escancarada e um olhar repleto de terror, Hugo olhou para o lado, vendo o corpo de sua amiga no chão. Então, testemunhei enquanto ele virava-se para João, e via refletida nele a imagem da própria morte. O mesmo homem responsável pela morte de Ricardo. Sem forças para ver o que aconteceria a seguir, deixei que a escuridão me dominasse, pedindo perdão à Victoria por não ter sido forte o bastante para salvar os seus amigos...
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