Notas iniciais
Boa leitura! :3

Hugo.

As mãos de Faye eram delicadas, enquanto retirava a pequena agulha do meu braço. Seus dedos firmes se moveram de maneira tão gentil, que sequer senti quando o processo tinha terminado. Meus lábios curvaram-se num sorriso totalmente inoportuno, quando vi Dante encostado à porta do meu quarto. Foi então que notei suas roupas. O amarelo combinava com ele. Fazia com que parecesse um nobre, ou algo do tipo. Eu ainda vestia roupas comuns, agora que já havia me livrado da camisola de hospital. Em breve, teria que usar terno, e uma gravata vermelha. Uma chateação, uma vez que eu nunca tinha usado esse tipo de traje na minha vida anterior. Agora, as coisas não só pareciam, como seriam diferentes. A madrugada anterior, fora a ocasião perfeita para pesar aquilo que seria o melhor para mim. Até que ponto eu estaria disposto a arcar com a responsabilidade de não fazer nada. De permitir que uma história encerrada fosse delongada apenas para causar mais sofrimento, mais discórdia. Arrumando os materiais numa pequena bandeja metálica, Faye sentou-se na poltrona de visitas, chamando Dante para o interior do cômodo com um gesto. Ele piscou pra mim, antes de largar-se sobre minha cama, quase esmagando meus pés com seu traseiro. Estalei a língua com desagrado, puxando as pernas e sentando-me, encarando a cientista.

– Vocês vão ter muito tempo para conversar e resolver as coisas por hoje — ponderou atenta. Fiz questão de vir em pessoa, liberar o Hugo do calvário. — Apesar de sua frase bem humorada, Faye não parecia exatamente feliz. — Mas ele passou por muita coisa. Tânia ainda está descansando. Pra ser franca, não acho que ele deva ter nenhum tipo de exagero emocional ou físico. Já dei uma injeção para combater qualquer resquício de Beijo das Sombras que possa haver no seu sangue, Hugo. Mas quero que os dois me prometam que vão ficar longe de confusão. É sério. — Seu olhar era firme, suplicante. — Não quero nada de mal acontecendo a vocês, meninos. Cumpram suas funções, e deixem as investigações com os sentinelas, com Allan. Por favor. Não tentem reagir a esse ataque. — Dante olhou-me, tenso. Algo me dizia que ele já devia saber de uma novidade que não revelara a mim, ainda. — Até segunda ordem, deixo vocês por aqui.

Faye saiu do quarto, e Dante permaneceu em silêncio durante algum tempo, olhando para o teto e ocupando metade do meu espaço. Resisti à tentação de chutá-lo para fora da cama, apenas pelo prazer de implicar. Estava divertindo-me com meus devaneios, quando notei a aproximação de Manuela, que hesitava na porta. Ela sorriu de verdade quando estendi os braços na sua direção, e nos abraçamos com força. Dante estava sorrindo para nós, quando me virei para encará-lo, e abriu os braços também.

– Quero ganhar um abraço, acho que também mereço. — Cara de pau. Revirei os olhos, ignorando-o. Uma risada fraca deixou sua garganta, quando cutuquei sua barriga com o meu pé. Manuela pulou para fora da cama, sua expressão divertida com a nossa palhaçada monumental. Dante segurou minha perna e mordeu meu dedão de leve. Quase chutei sua boca, mas apenas afastei-me de seu toque, controlando as cócegas insistentes. — Helga não ficou nada feliz em me liberar hoje. A Silvia teve que pedir pessoalmente. Juro, essa mulher precisa mesmo relaxar...

– Hugo? — Ricardo chamou da porta, a voz suave. Estava lindo, vestindo roupas num tom de azul bem próximo do lápis-lazúli, cobertas pelo jaleco branco dos funcionários da Saúde. Seu rosto estava limpo, bem barbeado. E mesmo a aparência dos seus olhos era menos carregada pelo peso dos últimos anos. Sorri, sentindo conforto na ideia de que Rico estava bem, e de que eu poderia fazer o necessário. Ele sobreviveria. — Queria muito te ver. Como você está? — Atencioso, ele ignorou com maestria a presença de Manuela e Dante, aproximando-se de mim e envolvendo-me num abraço apertado. — Queria poder te levar para o dormitório, mostra o lugar... Mas não fui liberado. — Seu olhar acusatório alcançou Dante, que teve a decência de não se vangloriar do momento.

– Eu sei, mas não se preocupe. Vou ficar bem — sorri, olhando na direção de Manuela. — Esses dois vão infernizar minha vida o suficiente. — Meu olhar tornou-se pesado, e lutei contra as lágrimas que arderam em meu rosto. Três olhares curiosos se voltaram na minha direção, convergindo para mim como raios fulminantes. Cobranças pela minha inércia, e por ter permitido que uma linda história de amor escorresse pelas minhas mãos como vento. — Manu, Dante, será que posso ficar sozinho com Ricardo por um minuto?

Nenhum dos dois manifestou-se verbalmente. Solícitos, saíram do quarto antes que eu tivesse tempo de perder a coragem. O que teria acontecido. Fitando minhas mãos cruzadas sobre as coxas, puxei meus joelhos contra o queixo e os abracei, buscando conforto. Não olhei na direção de Ricardo. Não suportaria ver a expressão em seu rosto. Ele sabia o que iria acontecer, e tal antecipação seria como mergulhar em ácido, para mim. Não suportaria vê-lo chorar. Saber que nossa relação familiar seria destruída para sempre, por minha culpa. Desde o momento em que havíamos decidido não combater qualquer outro tipo de sentimento além de um primo que ama o outro fraternalmente. Aquele fora o meu primeiro erro, e tia Madeline me alertara muitas vezes do quão devastador era para Rico, perder aquilo que tinha. Sua morte revelara boa parte dessa parcela negativa de personalidade, e eu temia que minha decisão o levasse até um caminho sem volta. Mas eu não tinha escolha. Também estava indo ladeira abaixo, sem chance alguma de segurar-me a uma rocha, ou precipitação.

– Será que você pode me olhar nos olhos, pra dizer o que está pensando? — Sua voz ecoou perdida, magoada. Traída. — Hugo, eu não posso te perder. Não cometa o maior erro das nossas vidas. Por favor. Diz pra mim o que devo mudar. Eu faria tudo por outra chance.

– Acho que no fundo, essa é a questão, não é? — Finalmente reuni forças, e o encarei. Ele estava chorando. Mas não tanto quanto eu. — De quantas chances alguém que nos ama inteira e completamente, realmente precisa? Sua segunda chance foi quando chegamos à boate. Lembra? Sua segunda chance foi quando decidi que tudo o que passamos valia mais do que a forma como eu era tratado. Sua segunda chance foi antes de me desrespeitar, e usar a Manuela. Sabia que ela gostou mesmo de você? Os dois me traíram, mas ela não era minha namorada. Você era.

– Hugo, aquilo foi só uma noite. Estávamos bêbados, e você tão preocupado com os gêmeos que nem quis dormir no mesmo quarto que eu durante dias... — Segurei a mão de Ricardo, gentilmente. Ele calou-se. Quanto mais eu ouvisse suas explicações, pior seria para ele escutar o que eu diria.

– Rico, fui eu quem pediu para que Dante e Manuela fossem liberados. A Faye sabia que eu precisava ficar longe de você, hoje. Entenda, não podemos continuar numa relação que não existe mais. Não há confiança entre nós, e não consigo ver você como alguém com quem quero viver para o resto da vida. Esta é a verdade. Estou admitindo para mim mesmo, e para você também, que estou apaixonado pelo Dante. E que jamais poderei sentir algo por outra pessoa, enquanto nossa história não for esclarecida. Eu estou me libertando, Ricardo. E você também. Estávamos fadados ao fracasso desde o começo, como seu pai disse. Eu só não fazia ideia do quanto ele estava certo. — Era como tentar engolir um limão inteiro. Preso na minha garganta, aquele nó firme doía muito. Beijei a bochecha de Ricardo, e lutei para ficar de pé, passando por ele. Minhas pernas estavam meio bambas, desacostumadas com meu peso. — Me ame como seu primo, porque eu nunca vou deixar de te amar dessa maneira. Mas só assim.

Antes que eu voltasse correndo e pedisse desculpas por dizer a verdade, saí porta afora, recusando-me a olhar Ricardo ainda ajoelhado ao lado da minha cama. Passei direto por Dante e Manuela, trucidando-os com o olhar por ver que ambos ouviam atrás da porta. Dante estava vermelho, os olhos brilhando e uma cara de idiota tão grande, que me fez querer matá-lo. Ele não tinha o direito de ouvir o que eu dissera! Manuela parecia extremamente desconcertada, o olhar solidário alcançando-me. Bufei, dispensando suas explicações enquanto afastava-me. Ouvi os passos pesados de Dante atrás de mim. Se ele soubesse que até o seu caminhar estava irritando-me, pensaria duas vezes. Monstro de passos pesados. Argh! Meu pulso tremeu quando ele puxou-me na sua direção, e como um boneco de pano sacudiu-me sobre mim mesmo, indo bater de frente com seu peito. O desgraçado nem fingiu que o impacto o incomodara, rindo da minha expressão ultrajada.

– Como espera que eu deixe você sair correndo depois do que eu ouvi? Mesmo te conhecendo e sabendo do seu humor, não adianta. Só quero dizer que ouvir tudo aquilo me fez a pessoa mais feliz do mundo, e que estou aqui. No seu tempo, Hugo. — Sua mão soltou-me, e cruzei os braços, cético. Manuela aproximou-se, e riu da minha cara sem pudor. Bem, a culpa daquilo tudo também era dela. Eu só não sabia se estava grato, ou indignado.

– Dante, você é tão insuportável quanto uma facada na bunda. Acredite, eu sei. — Apontei o dedo na cara dele, que deixou escapar uma risada. — Ri mesmo. Se você soubesse como pareço um espantalho cheio de remendos e cicatrizes, não ia estar tão afim de mim. — Ele revirou os olhos. — Não adianta negar! E você, Manuela, acho bom parar de rir. Ainda não decidi se te amo ou te odeio. Sua chata.

– Já decidiu sim, bobo. Você me ama. Certeza. — Manuela levou um susto quando Ricardo passou direto por ela, no fim da frase. Ele estava vermelho, e encarava minha proximidade com Dante de maneira hostil. Ferida.

– Não posso fazer nada? Não tem como te convencer a mudar de ideia? — Tinha como? Eu não sabia. Mordendo o lábio inferior, fiz que não. Isso quase me matou. A expressão no rosto de Rico tornou-se cruel. Ele sorriu, mas não havia nem sinal da pessoa caridosa que eu conhecia. Só alguém que se escondera de mim, como uma duplicata sempre reprimida e que agora voltava para a superfície. — Estou vendo. Precisa ser muito rápido pra acompanhar seus movimentos, Hugo. Acho que se você fosse um inumano, pareceria um macaco. Já que vive pulando de galho em galho...

– Chega. — Dante e Manuela viraram-se na direção da voz. João Pedro, o Conselheiro da Saúde, estava vindo em nossa direção com um sorriso no rosto. Os óculos com armação azul brilhava sob a luz branca do corredor. — Por favor, estamos num hospital. Vão incomodar meus pacientes. Incluindo Tânia, a amiga de vocês. Ela está repousando. Hugo, por que não vai caminhar com Dante e Manuela? Seu primo tem muito trabalho a fazer.

Aproveitei bem minha deixa, saindo dali o mais rápido possível, seguido de perto pelos outros dois. Ninguém dizia nada enquanto alcançávamos a recepção e por fim o pátio central. O ar puro era mais leve, agradável diante do ambiente esterilizado do hospital. Percebi que tinha muito a conhecer ali fora, e que estava mais pálido do que nunca, tanto tempo longe de qualquer luz. Quase tive falta das minhas roupas antigas, do meu cabelo preto. Tantas cores misturadas a ele. Era como encontrar a mim mesmo de novo. Senti pela primeira vez, que se visse aquele menino gótico totalmente assustado e arredio, não o reconheceria. E percebi que nem sempre isso era algo bom. É necessário termos um pouco de nós mesmos, uma versão nossa de cada fase da vida, guardada no peito. Pra nos lembrarmos. Surpreso, senti a mão de Dante envolver a minha. Deus, ele precisava mesmo me dar algum espaço. Estalando a língua, puxei o braço com força, rindo ao provocá-lo. Se ele achava que sua vida seria fácil dali pra frente, estava enganado. Não era meu feitio facilitar para ninguém, no passado. E assim seria outra vez, em homenagem ao garoto de cabelos coloridos. Apenas uma questão de adaptação. E se no fim Dante ainda estivesse no jogo, talvez merecesse o prêmio. Sacudindo a cabeça numa oposição aos meus próprios devaneios, ganhei a rua lentamente. Era bom sentir-me valorizado de novo. Já fazia algum tempo.

Vilma.

Tentando não levar em conta o quão ridículo aquilo era, cruzei os braços e permiti que meus cabelos cobrissem parcialmente o meu rosto, apenas para não ter que lidar com o excesso de irritação vazando pelas bordas dos meus pensamentos. Quem Helga pensava que era, pra me forçar a ficar sentada no meio de uma roda de crianças, ouvindo enquanto ela tagarelava sobre os reinos animais. Inferno, aposto que nenhuma daquelas informações deviam ser corretas, agora que a Keiko Enterprises havia ferrado com o ecossistema do nosso mundo. Dino não parecia estar num humor muito melhor que o meu. Angustiado, ele olhava fixamente para a professora, mas eu sabia que não estava ouvindo nenhuma palavra daquela aula. Aquilo simplesmente não parecia encaixar mais nas nossas cabeças. Nenhum daqueles garotos parecia capaz de correr por mais de cinco minutos, e nós dois estávamos correndo. Escondendo-nos pelos lugares mais difíceis, sempre encontrando um jeitinho de ficarmos invisíveis. De não sermos pegos. A forma como havíamos vivido nos últimos tempos, eram a prova real de que tudo naquele lugar era uma mentira. Haviam machucado a Tânia e o Hugo. E agora, a Vicky e os outros queriam agir como se nada tivesse acontecido. Estavam todos errados. Íamos acabar tendo que fugir de novo, e ia ser tarde demais. Senti um incômodo na nuca, a sensação chata de ter alguém te olhando, e virei para o lado. Era o irmão da Vicky, fingindo que não estava me olhando. Sério, aquele garoto virou o pescoço para longe tão rápido, que quase ouvi estalar. Dominei o impulso de estalar a língua, de desgosto. Ele era um bobo alegre, nem um pouco parecido comigo. Como alguém conseguia rir tanto? Insuportável. Helga parou de falar, e quase agradeci aos céus. Até perceber que ela estava olhando para mim.

– Sim? — Assustada, olhei ao redor meio me desculpando, meio ansiosa. — Desculpe, eu estava distraída.

– Não se preocupe querida. É normal nos primeiros dias. Eu estava aqui comentando com a turma que apesar de todos sabermos os seus nomes, seria bom que se apresentassem. — Helga estava rindo, pacientemente.

– Isso não é nem uma turma — resmungou Dino. — É só um punhado de desocupados. Não tem nem doze pessoas aqui. — Minha boca abriu-se uns bons centímetros. Dino estava maluco, só podia. Olhei direto para Helga, e a expressão dela não entregava nada. Calma como um rio. Um pequeno sorriso formou-se em seus lábios, e ela baixou o livro em sua mão, fitando-nos sobre seus óculos.

– Espero que você não tenha acabado de me chamar de desocupada, queridinho. Na verdade, eu adoraria ouvir em quê você acha que seu talento como guerreiro seria mais bem utilizado. Pode até ser que lá fora, tenha sido necessário e mesmo cobrado uma atitude mais adulta, sua e de sua irmã. Mas aqui, vocês são alunos, e iguais. Não se esqueça. — Rindo, Helga ergueu-se, olhando a todos de maneira extremamente calorosa. — Intervalo, meus anjinhos. Dez minutos.

Ela afastou-se na direção do prédio da escola, deixando-nos ali sob os olhares especulativos de todos os outros alunos. Aquelas crianças pareciam bem mais novas do que nós, o que era ridículo. Ao menos os maiores, como Carlos e os outros três que o seguiam, não eram tão ridículos. Tiveram a decência de nos ignorar por algum tempo, enquanto meu irmão sentava-se em silêncio ao meu lado, e começava a arrancar a grama do chão, distraidamente. Repreendi sua falta de cuidado com o olhar, mas deitei a cabeça em seu ombro, entediada. Aquilo era mesmo uma merda. Observei a macieira enorme no quintal da escola, e mesmo com os frutos longe da estação, ela parecia imponente e consoladora. Ou talvez fosse só eu, tentando tirar algo interessante daquela tarde patética.

– Aposto que você não acerta uma daquelas maçãs — provocou Dino. Ele sabia que Vicky tinha dito para não mostrarmos nossas facas a ninguém ali. Todos os outros tinham entregado suas armas, menos nós. Ela dizia que estaríamos mais seguros.

– Haha, palhacinho. Envelheça enquanto espera. — Esfreguei as mãos no rosto, rezando para que aquele dia acabasse logo. Droga de escola.

– É sério, isso? Minha irmã deixou vocês terem armas? Que legal! — Eu não estava acreditando. Olhei pra cara do Dino, querendo matar aquele doente mental. Linguarudo desgraçado. Imediatamente fechei a cara, encarando o Coringa Carlos. Droga de sorriso congelado.

– Não sei do que você está falando. — Clichê. Eu tinha que ter pensado em outra coisa! Quase dei um soco na minha cara, de ódio. — E mesmo que tivéssemos facas, não é da sua conta. Por via das dúvidas, é melhor não contar pra ninguém. Senão uso minha faca em você.

– Eita! Calma, minha jovem! — Rindo, ele sentou-se exatamente entre nós, e Dino poderia tê-lo feito queimar com o olhar. Passando a mão por cima do meu ombro, aproximou o rosto de mim de maneira totalmente invasiva. Quanto abuso! — É sério, estou tentando ser legal. Deixar os dois aqui, sozinhos, não é bem o que eu prometi ao meu pai. — Ah, então era isso. O mimadinho só queria ficar bem com o pai e a irmã. Não daria essa satisfação a ele.

Levantei-me, bufando, afastando-me o mais rápido possível na direção da árvore. Dino veio logo atrás, ignorando completamente a presença de Carlos, e seus amigos mongoloides. Nervosa, deixei que a raiva acumulada transbordasse. Eu não queria ser um peso para Victoria. Não queria estar chateada pelas mudanças em Fernanda. Não queria sentir ciúmes dos bebês, nem imaginar que além do meu gêmeo, ninguém realmente restara, em minha vida. Não completamente. Meus pais, meu irmão. Minha avó. Já nem lembrava mais dos seus rostos. Tudo o que eu tinha eram os resquícios de dois anos repletos de medo, pesadelos, e monstros. E agora, era como se tudo aquilo tivesse sido em vão. Era como se tudo que eu tivesse aprendido, e todas as coisas boas de que tinha desistido, fossem nada. Como se meu esforço não tivesse o valor que eu imaginara. Eu tive de admitir que me senti verdadeiramente inútil. E ter alguém sempre por perto, rindo e esbanjando felicidade quando ela havia sido tão rara na minha vida, simplesmente me frustrava. E, se tinha algo que eu possuía e aquele garoto não, então eu esfregaria isso na cara dele. Eu sabia como sobreviver. Sabia como matar pessoas, e vencer as criaturas mais terríveis. Ninguém ali passara por aquilo. Ninguém conhecia o mundo lá fora. Eu e Dino merecíamos mais a sobrevivência. Nenhuma daquelas crianças havia lutado para estar ali. Eram todos privilegiados pelo poder aquisitivo dos pais. E eu não podia aceitar que aquilo continuava valendo naquele novo mundo. Sem pensar duas vezes, atirei minhas facas contra as árvores. Numa trajetória perfeita, foi quase como se a tensão nos meus dois braços, o aperto nos bíceps e nos nervos dos pulsos, fossem guiados por telepatia. Era uma espécie de vocação natural, a qual eu nunca entendera muito bem. Exatamente ao mesmo tempo, duas maçãs ainda verdes caíram ao chão. As duas, transpassadas pelas lâminas brilhantes das minhas facas com cabos cor de vinho.

– O que está acontecendo aqui? — Helga estava de volta. Suas mãos nas cinturas evidenciavam o horror na sua expressão. Os seios fartos subiam e desciam rapidamente, as bochechas coradas diante do escândalo formado em sua mente. Sinceramente. O que ela achou que eu estava fazendo? Atirando facas nos outros alunos? — Recolha as facas agora mesmo, mocinha. Você e seu irmão terão uma conversa muito séria comigo, imediatamente. O mesmo para você, Carlos. Quero você, Melissa, Rodrik e Breno na minha sala. Agora!

Estremecendo com o grito de Helga, tive uma pequena noção do quanto ela poderia ser assustadora. Talvez fosse por isso que até mesmo os outros Nove pareciam respeitá-la tanto. Dei de ombros, apanhando minhas facas no chão, e entregando-as nas mãos daquela tirana gorda. Era tudo culpa da boca gigantesca do Dino, de novo. Ao menos ele ficou quieto, olhando para o chão enquanto caminhava ao meu lado. Apesar da minha frustração, puxei-o pelo braço, e fomos juntos. Ignorei o fato de que Carlos nos observava, assim como seus amigos, que pareciam extremamente irritados por estarem envolvidos no problema. Idiotas. Era bem feito. Ninguém os convidara, e mesmo assim, pareciam cães de guarda do irmão de Victoria. Imbecis. O interior da escola era todo o tipo de clichê no formato de tons pastéis e papéis de parede com desenhos infantis, de animais e paisagens alegres. O suficiente para provocar ânsia de vômito. Os quadros de aviso eram cheios de comunicados de Silvia, assim como desenhos horríveis feitos com giz de cera, pelas crianças mais novas do maternal. Em algum lugar ali, Cecília devia estar tendo um dia cheio ajudando Francine a cuidar dos monstrinhos. O escritório de Helga era o único com ar-condicionado, em todo o prédio. Perfeitamente organizado, tinha cheiro de álcool típico de ambientes escolares, com uma limpeza excessiva. Sua mesa era organizada à exaustão, perfeitamente brilhosa, sem sinal de poeira. A pequena girafa de plástico sobre a bancada metálica era a única coisa que não era estéril, no ambiente. Desnorteada com aquele exagero, eu imaginei que a girafa era tão amarela, quanto Helga. Logo, a vi como uma girafa gorda em tamanho humano, e tive que me controlar, para não começar a rir. Sem entender nada, Dino cutucou-me, arregalando os olhos. Ah, agora ele estava com medo dela? Piada.

– Por favor, crianças, acomodem-se nas poltronas. — Helga sentou-se lentamente atrás de sua mesa. Toda a raiva tinha desaparecido de seus olhos. O ar maternal estava de volta, embora houvesse preocupação em seus gestos. — Confesso que não é surpresa o que acabei de presenciar. Imaginei que Victoria não retiraria as armas de todos os seus amigos, então eu e Silvia estávamos preparadas para este tipo de situação. No entanto, eu gostaria que vocês percebessem que nos importamos, com vocês. De verdade. Para nós, é importante que todos os jovens possam seguir em frente, levando o futuro da nossa espécie a um destino mais próspero. E isso se conquista com a educação. Ninguém duvida da capacidade de vocês para a sobrevivência, e os dois poderão ser extremamente úteis como sentinelas, um dia. Mas hoje, são meus alunos, e quero que sejam capazes de ser muito mais do que isso.

– Helga, fui eu quem pediu a ela que atirasse as facas. — Carlos parecia totalmente convincente, e o sorriso que deu à ela, foi ainda mais autêntico. Helga sorriu toda derretida. Era óbvio que eu devia saber que ele tinha o mesmo magnetismo que a Vicky. Só que pelo visto, ele não era nada como a irmã. Vicky era uma líder, e aquele garoto, um terrorista. Faria qualquer um acreditar no que ele dissesse. Tive que esconder o sorriso que esse pensamento me trouxe, afinal, o meu ainda estava na reta.

– Carlinhos, não precisa defender sua amiga. Nenhum de vocês está aqui para ser punido. Estamos conversando. Além disso, tenho planos para os seis. — Todos nos entreolhamos. Ninguém ali se conhecia direito. Ela era doida? — Conversei com Allan ontem, e ele parece ter lhe pedido que integrasse os gêmeos, estou correta? — Carlos assentiu. — Ótimo! Estou cuidando exatamente disto. Por serem os mais velhos, já estão na idade de receber algum tipo de... Preparação. Falei para Allan que isto é absurdo, mas Silvia parece concordar. Então, vocês ajudarão os gêmeos com os estudos, e em troca, eles ensinarão algo mais físico, se me entendem. Qualquer dúvida que eu tivesse, perdeu-se quando vi esta menina atirar aquelas facas. Proteção nunca é demais, realmente.

– Então, nós vamos ter aulas com os esquisitões? — Melissa guinchou, os cabelos loiros e curtos vibrando ao redor do rosto. Reparei em sua aparência, e tudo em que pude pensar, foi em uma boneca de porcelana com olhos extremamente grandes. Expressivos, como sua linguagem corporal.

– Tecnicamente, sim. — Helga sorria como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Maluca. — Vocês seis serão avaliados em conjunto, por mim e por Allan. E para o exame final, vocês todos irão apresentar-se atirando facas e manejando-as como um grupo, para os sentinelas. Façam algo bem bonito, queridinhos! Estão liberados!

– Posso pegar minhas facas de volta? — Eu ainda tinha alguma esperança, caramba.

– Nem pensar! Somente durante as aulas. Tenha um ótimo dia, pequena. — Acenando, Helga dispensou-me, enquanto os outros já iam saindo. Dino esperou-me na porta, e minha expressão desapontada foi o suficiente para que ele desanimasse também. Bem, a culpa fora dele, mesmo. Que sentisse a culpa.

Estávamos quase alcançando a saída da escola, quando ouvi alguém chamar o meu nome. Virei-me, e vi Cecília caminhando na minha direção. Dino e Carlos também pararam de andar, assim como os amigos dele. Todos aguardaram, até que nossa amiga estava bem perto. Ela parecia um pouco mais madura com as roupas vermelhas de secretária da Cultura, e os cabelos estavam presos numa trança bem firme. Era engraçado como todos eram ao mesmo tempo mais bonitos e mais naturais, quando limpos e bem alimentados. Ao pensar no modo como vivíamos antes, tive noção de quão lamentáveis devíamos parecer ao chegar ali, esfarrapados.

– Crianças! Vocês estão bem? — Cecília abraçou-me, sorrindo. Ela beijou a bochecha de Dino, e também de Carlos. — Que bom ver vocês. As coisas estão uma loucura esta manhã. Francine apresentou-me aos cinco bebês que temos no maternal. Eles são uns fofos, mas têm uma energia! — Ela parecia mesmo feliz. Bem, talvez alguns tivessem o dom para a coisa, afinal. Sorri, aliás, como sempre quando perto de Cecília. Ela tinha esse poder de contagiar a todos. Espero que hoje não tenha sido tão estranho.

– Poderia ter sido pior — ri, e fui acompanhada por Carlos. Dino não pareceu gostar muito, emburrado. Ops. — Na verdade, foi interessante. Vamos ensinar esses quatro a manejar uma faca. Cecília riu, impressionada. E eles vão nos ajudar a não tirar nota vermelha em tudo. Basicamente.

Logo, Francine aproximou-se, saindo da mesma sala de onde viera Cecília. Seus enormes óculos turvavam boa parte de sua expressão, mas apesar dos cabelos escuros, ficava clara a semelhança com Helga. Eram mãe e filha, e até então, eu nunca tinha pensando em quanto realmente se pareciam. Uma menina de cabelos castanhos estava logo atrás dela, acanhada. Essa era nova. Nunca a tinha visto, a não ser no Memorial, de relance. Não me parecia estranha.

– Olá a todos — anunciou-se Fran, sorrindo. Por que todo mundo era tão feliz ali? — Vilma, Dino, essa aqui é a Bia. Ela é a irmã do Renée, e trabalha conosco no maternal. Também ajuda a organizar os eventos da Fortaleza, e as cerimônias. Como o Memorial. As minhas funções como Conselheira são poucas, então pra evitar que um dos outros Nove tente desfazer o Conselho da Cultura, ajudamos na Escola também. Meus colegas parecem ter esquecido como as celebrações, histórias e costumes de um povo são importantes. É como uma luta sem fim, representar a Cultura.

– Meu pai disse que ela fuma maconha — sussurrou Melissa, para Dino. Meu irmão se engasgou ao rir, e eu quase perdi a concentração. Aquela vadia mirim parecia uma réplica do pior momento da Carol, e isso significaria muitos momentos de irritação para mim, no futuro. Péssima hora para perder minhas facas. — É sério, todo mundo sabe que a Francine é inútil. Só deram um cargo pra ela porque é filha da Helga.

– Bem, nós vamos deixar vocês se divertirem, já que foram liberados mais cedo das aulas. Carlos, porque não leva seus novos amigos até as fazendas? Poderia mostrar um pouco das nossas colheitas para eles. — Gentilmente, Francine acenou para nós, elegantemente. Uma dama, sem se abalar apesar de eu ter certeza de que tinha ouvido o que Melissa dissera. Sem querer prolongar o assunto, saí dali de mãos dadas com Dino, enquanto os outros vinham conosco.

– Desculpe pela Melissa. — Carlos resmungou. — Ela é terrível, às vezes.

– Não acho que às vezes seja muito sincero. Ela tem cara de ser uma vaca em tempo integral — rebati, e ele acabou rindo. Ri também, mas logo revirei os olhos, ao ver o incômodo de Dino. Afastei-me em seguida, deixando Carlos para trás com seu sorriso.

Aquele sorriso, sempre idiota.

Notas finais
Okaay, me digam o que acharam deste capítulo cheio de emoções, kkk. O próximo não vai ser tão sentimental. Pelo menos, não no sentido romântico. Grandes momentos vindo aí, haha. Beijos e até a próxima! Kisses by DroppingPieces!