Quebranto.
89 Nas garras de Fobos.
Notas iniciais
Otávio.
O sol já estava se pondo, e aquelas roupas
de cores cinzentas começavam a incomodar. Apesar do ar-condicionado central, ainda havia certo desconforto em se utilizar panos tão grossos. E mesmo com o estilo moderno e até incomum das peças de vestuário, era algo totalmente inusitado para mim, permanecer imaculado por tanto tempo. Sem manchas de sangue, sem buracos ou rasgos, sem sujeira na pele. Acho que Martha percebeu minha distração, quando chamou meu nome e não lhe dei a menor atenção. Segundo tudo o que eu ouvira sobre ela, a senhorita Oasis
havia sido, desde o início do funcionamento da Fortaleza, secretária pessoal da Presidente Silvia. Atenta às ordens de sua superior, era conhecida por presidir as audiências populares quando a Conselheira da Justiça não estava disposta. Agora, em posse do cargo ao qual se dedicou durante tanto tempo, era uma figura em que se podia confiar. Uma das primeiras, inclusive, a descobrir e denunciar a rebelião de Orlando. Também tinha uma postura gentil, sem julgamentos. Não pareceu arrogante, nem mesmo ao constatar minha total falta de experiência em assuntos jurídicos. Em suas palavras eu aprenderia vendo, o que era um alívio. Durante todo o dia, eu a assistira enquanto solucionava pequenos conflitos entre moradores da Fortaleza. Brigas banais eram levadas a ela, de maneira assustadoramente civilizada. E, nos intervalos dos casos, ela explicava-me como proceder. Era um trabalho exaustivo, mas acredito que combinava muito mais comigo, do que as rotinas de treinamento das sentinelas.
– Estou definitivamente cansada. As rotinas de trabalho são completamente imprevisíveis, aqui na Fortaleza. Nunca sabemos quando teremos um dia cheio. — Com um sorriso, Martha sentou-se de frente para mim. Seus trajes vermelhos combinavam bem com o tom chocolate de sua pele. Os cabelos estavam rigorosamente cortados na altura dos ombros, lisos. Ela parecia tão séria e acolhedora, quanto a Silvia. Uma característica que aprendi a admirar. — Sabe, a chegada do seu grupo foi algo estimulante. Parece que as pessoas estão empolgadas com a ideia de ter sobreviventes capazes entre nós, o que é uma surpresa.
– Surpresa? — Aquilo era estranho. Não esperava que ela fosse tão aberta comigo.
– Sim. Entenda, não foi sempre assim. No começo deste lugar, muitos navios e barcos vieram à nossa costa em busca de apoio, de proteção. Nenhum dos presidentes anteriores abriu os portões. Embarcações inteiras definharam em nosso porto. Outras se perderam nas costas rochosas. Abandonados por nós. Esse lugar nasceu sobre o sangue, Otávio. Não somos inocentes. E depois, quando Orlando assumiu as coisas e o grupo de Allan chegou de São Paulo, parecia que tudo se encaixaria e que teríamos paz. Faye era a aluna brilhante dele, e Orlando tinha muito orgulho de sua capacidade. Mas quando as pesquisas dela encaminharam-se para uma cura definitiva, sem a ajuda dele, o homem enlouqueceu. Insistiu que Faye queria destruir a todos nós, e que devia ser detida. Muitos acharam que tudo isso, se devia ao próprio orgulho de Orlando. Apenas porque não havia sido ele, quem descobrira uma forma de conter o GM. -Martha voltou de seu devaneio, e era como se ela tivesse revivido todas as cenas descritas. — Aqueles foram tempos terríveis, o puro caos. Era como estar nas garras de Fobos, o deus do medo. As pessoas se revoltaram, e começaram a roubar e matar umas às outras. A maioria queria que Faye fosse deixada em paz, mas alguns... Alguns acreditaram em Orlando.
– Eles foram mortos como Orlando? — Eu sabia que alguns tinham sido banidos, mas precisava perguntar.
– Nem todos. Mas a maioria morreu, sim. Os outros foram obrigados a deixar a ilha num barco com suprimentos para três dias. Para Silvia, isso seria o mesmo que condená-los à morte. Mas Allan e os Conselheiros insistiram. Era uma punição justa. Eu mesma votei a favor. — Por alguma razão, achei que ela não estivesse tão certa assim. — Aquelas pessoas eram famílias, histórias de vida. Indivíduos com quem convivi por anos, mas que quase destruíram tudo o que tínhamos e toda a esperança de curar essa coisa. Os recursos do Laboratório acabarão um dia, e Faye trava uma luta contra o tempo. Se não dermos o que ela precisa, talvez esse pesadelo seja tudo o que nossos filhos conheçam, um dia.
– Então, quando ela deixou a ilha, vocês entraram em pânico, não foi? — Martha consentiu. — Ela levou todos em quem confiava, e nos encontrou. Ela salvou a pesquisa de Orlando, roubando os dados e fugindo à surdina.
– Muito corajosa, de fato. Orlando ficou furioso, e tentou segui-la. Acho que não é difícil entender porque mandou os mercenários atrás dela. E se não fosse por vocês, aqueles assassinos teriam conseguido. Por sorte, vocês a salvaram. Assim como através de vocês, suas pesquisas parecem ter tido um avanço surpreendente. Ela nos falou sobre sua namorada, a jovem Cecília. Ela era uma inumana, e foi curada, certo? — Martha parecia uma criança, cheia de esperança. Gostei dela imediatamente.
– Sim. Como transgênica Cecília não podia enxergar. Faye devolveu a ela sua visão. A vacina funcionou — sorri, lembrando os primeiros momentos de Cecília, ao recuperar os sentidos visuais. A forma como ela olhara nos meus olhos, vendo toda a minha alma, era inesquecível. — Agora, com o sangue da Vicky, ela espera conseguir curar os zumbis. Aprimorar a vacina para combater o vírus em corpos inativos. Isso seria perfeito. Apenas um zumbi infectado, e todos os outros próximos também morreriam de vez, alastrando a cura. Genial, não é?
– Sim, de fato. Entende a razão de isso ser tão importante? Não sabemos como andam as pesquisas ao redor do mundo, mas acredito que muitos países devem estar próximos de solucionar o problema, também. Caso Faye consiga isso, ela será lembrada para sempre. Será uma salvadora da humanidade. Entende a motivação de Orlando, agora? — Perspicaz. Martha era genial.
– Pura inveja. — Balbuciei. — Ele mereceu o que teve.
– Exato. E saber que ainda existem criminosos fiéis a ele aqui, entre nós, me dá náuseas. E, por mais que a maioria de nós esteja contente com a chegada de vocês, sei que não é o caso de todos. Muitos devem se ressentir das posições que agora, vocês ocupam. Assim como Orlando ressentiu-se de Faye. Os criminosos que tentaram matar seus amigos, por exemplo. Para essas pessoas, você e seu grupo representam a derrota de Orlando. E o banimento de seus amigos e parceiros. — Seu olhar era intenso. E a urgência nele, compreensível. — Por isso, tenham cuidado. Todos vocês. As pessoas daqui são capazes de mais coisas terríveis, do que parecem. Eu sei, pois lido com isso todos os dias. E você também saberá.
– Obrigado pela franqueza, Martha. É muito honesto de sua parte — proferi.
– Ah, mas eu sou honesta demais. É por isso que julgo os outros. — Piscando, ela levantou-se. — Agora, vamos comer. Estou ansiosa para experimentar o novo cardápio que os funcionários de Tássio criaram para nós.
No refeitório, sentei-me junto de Vicky, Diogo, Carol, Nanda, Hugo e Dante. Manuela sentara-se com os gêmeos e Carlos a duas mesas de distância, enquanto Ricardo fazia companhia para João Pedro na mesa dos Conselheiros. Martha também acabou indo até lá, e acenei para Cecília, que se sentava ao lado de Francine na mesa dos poderosos. Helena e Faye também estavam lá, assim como o pai de Victoria. Arantes ria com os colegas sentinelas, e ninguém parecia notar o teor de nossa conversa. O que tornava todo o ruído providencial, naquele lugar agitado. Carolina parecia particularmente mal humorada, principalmente depois que Matias passou pela nossa mesa, e tentou olhar em sua direção. Ela virou a cara, e a expressão dele tornou-se amarga. Não perdi tempo pedindo que ela fosse gentil. Todos já sabíamos da forma como eles haviam brigado. E situações como esta tinham que resolverem-se sozinhas. No meu prato, uma generosa espiga de milho brilhava. Uma porção de arroz e meia cenoura cozida terminavam o pacote, o que era bem melhor do que comer enlatados estragados ou frutas quase podres. Não senti falta de carne. A fome era algo muito vivo na memória, para que nos preocupássemos em reclamar.
– Eu e Ricardo terminamos. — Hugo jogou a bomba sobre a mesa, repentinamente. Todos pararam de comer.
– Aleluia. Já liberou pro surfista? — Arregalei os olhos. Carolina era ridícula. — O que foi gente? Todo mundo quer saber. Adoro as caras de sonsos que vocês fazem.
– Nós não estamos juntos. — Dante respondeu, sorrindo. — Infelizmente. — Victoria deu uma risada, e todos acabaram relaxando. — Espero que Ricardo melhore sua atitude, sobre nós. Ele não aceitou muito bem.
– Isso é mesmo chato. Mas somos uma família. Todos nós. Ele precisa se conformar. — Nanda suspirou, apoiando o rosto nas mãos. Seu olhar desviou-se na direção de Manuela, e ela sorriu. — Coitada da Manu, presa com as crianças. Deve estar louca pra saber do assunto. Vou fazer companhia a ela. — Nanda pegou sua bandeja e caminhou na direção de Manuela, enquanto Dante comentava o momento tenso no hospital.
– Ricardo é imbecil, às vezes. Eu sempre disse isso. — Diogo deu de ombros, rindo. — Mas na época em que disse, eu era mais ainda. — Todos nós rimos, porque era a pura verdade. — Se querem saber de algo realmente chocante, Irma está morta. Alguma coisa aconteceu enquanto Allan e Nanda a interrogavam. Ela nos atacou.
– Fernanda a matou por acidente. — Vicky suspirou. — Por favor, não comentem nada sobre isso com ela. É um assunto que a envergonha bastante, embora nenhum de nós esteja em posição de julgar. Não é da natureza dela, e fazer coisas contra nossa natureza, assusta.
– Verdade — concordou Hugo. — Temos que dar espaço para ela. Pra que não pense que temos medo de quem ela se tornou. Porque Nanda agora é diferente, mais forte e mais capaz. Ela só não pode achar que isso faz diferença, para nós.
– Seu tato é incrível, Hugo — elogiou Dante, e Carol fingiu que estava vomitando. Eles estavam todos muito animados, naquela noite. Senti-me um espectador, apreciando a felicidade e o conforto de meus amigos. Importunando-me, a frase de Martha ecoou em minha cabeça: Esse lugar nasceu sobre o sangue. — Eu e Manuela pegamos Renée e João Pedro conversando, na noite em que Hugo foi atacado. Escondemos-nos, e eles estavam conversando. Falaram o nome de Faye, mas não entendemos o assunto. Como foi designada para trabalhar com ele, Manuela resolveu espioná-lo. Queremos descobrir o que ele tem a ver com tudo isso.
– Por favor, tome muito cuidado. — Vicky pediu, aflita. — Avise a Manuela, para que seja o mais discreta possível. Estamos vigiando meu pai, também. Otto, você precisa vigiar a Martha. Cecília está de olho em Helga e Francine para nós. Hugo tente fazer amizade com Tássio. Talvez ele possa estar envolvido em algo, também.
– Faltam ainda Silvia, João Pedro e Faye. — Carolina observou, de maneira cética. — Ricardo pode nos ajudar. Mas Helena não vai espionar a chefe dela. Nem temos como espionar a presidente desse lugar.
– Ricardo está espionando João Pedro. Eu avisei a ele para ficar de olhos abertos. — Vicky contou-nos. — Agora, espionar Faye e Silvia seria ridículo. Nenhuma delas tem qualquer interesse em provocar o caos na Fortaleza. Muito menos em incitar o ódio contra um projeto que ambas comandam.
– Eu concordo — admiti. — Realmente parece sem propósito. Agora, ninguém sabe que Irma morreu. Não vão divulgar?
– Amanhã. — Diogo resmungou, com a boca cheia de comida. — Vai comer esse milho, Otto? — Entreguei a ele. — Valeu. Eles vão contar a todos que a doida morreu quando forem enterrar a Valentina. Faye já liberou o corpo de volta pro hospital. Nem quero pensar no que ela fez com ele no laboratório.
– Deve ter recolhido material para pesquisa, afinal, Valentina se transformou em zumbi — expliquei já satisfeito. — Espero que a gente não esteja de novo, se enfiando em uma enrascada.
– Boa sorte pra nós. — Brindando, Carol ergueu seu copo dágua. Todos nós rimos e a acompanhamos. Boa sorte para nós, de fato.
Naquela noite, dormi de maneira confortável, como não ocorria desde nossa chegada à boate. Quando eu ainda acreditava que a bondade de Topázio fosse verdadeira. Ali na Fortaleza, porém, eu de fato compreendia que nem tudo era como poderíamos pensar. E, por mais que fosse arriscado confiar plenamente num lugar como aquele, não havia o risco de que algo realmente ruim nos surpreendesse. Não agora, que já esperávamos sempre o pior. No entanto, quando o grito de Cecília trouxe-me de volta para o quarto, arrancando-me do sono como um nascimento prematuro, quase perdi a razão. Jurava que homens armados estavam atacando, e que pereceríamos nas mãos deles. É claro que quando notei ter sido um mero pesadelo, me acalmei. Sentando-me na cama, puxei Cecília pelos ombros, na minha direção. Seus olhos abriram-se, e voltaram a entrar em foco. Ela reconheceu-me, e por sua expressão era extremamente agradável voltar à realidade, depois do que vivenciara em sonhos.
– O que houve Cecília? Por favor, me diga o que você viu. — Pedi, tirando os cabelos dela da frente do rosto, revoltos devido ao pânico.
– Era horrível. Um corredor... Um corredor com paredes brancas e portas vermelhas. O piso estava cheio de sangue, e era tão grosso... Eu podia sentir meus pés descalços colando no chão, por causa da viscosidade. — Ela respirou profundamente, tomando fôlego como se bebesse água no deserto. — Esse lugar está confundindo minha mente. Eu sinto que deveria enxergar algo, mas não consigo. Desde que entramos aqui, não consigo ver além. Nenhuma visão. Apenas esses malditos sonhos, que são tão claros quando fumaça. Estão me enlouquecendo.
– Você precisa ficar calma. Estamos aqui há o quê, três dias? Isso é normal. Você está se adaptando. Não tente forçar suas habilidades. Não temos como explicar o que você faz, nem como saber quando vai funcionar. Talvez seja só sua imaginação. — Minha prioridade era mantê-la sóbria. Não queria que Cecília acabasse duvidando de sua sanidade.
– Você tem razão, Otto. Desculpa. — Ela me deu um beijo, e deitou em cima de mim. Estiquei-me no travesseiro, acomodando-a. Assim era bem melhor, ao menos ela tentaria dormir sem pensar demais naquilo. Não sei ao certo quando a respiração dela tornou-se mais regular, mas eu soube que ela estava dormindo, de alguma forma. Ainda fiquei acordado durante mais algum tempo, no entanto. Refletindo no que ela dissera.
Porque, se nem uma vidente podia diferenciar o bom do mal naquele lugar, então talvez estivéssemos prestes a encarar sérios problemas. E por mais que eu quisesse negar, nenhum outro pensamento me pareceu tão forte quanto aquele. O de que as coisas estavam prestes a piorar.
Fale com o autor