Quebranto.

3 A última noite.


Notas iniciais
Bem pessoal, mais uma vez agradeço a todos que estão acompanhando a fic, e aproveito para convidar a todos que deram uma chance à fic, a vivenciarem a última noite antes da infecção. Por enquanto ainda não teremos nossos amados zumbis em ação, mas as peças já estão se posicionando no tabuleiro. Espero que todos curtam o capítulo! Boa leitura.

- Vocês só podem estar de brincadeira! – exclamou Otávio, quando eu voltei para o carro pela terceira vez. Todos os meus amigos me aguardavam em frente ao auditório, onde aconteceria a festa de formatura. Dava para ouvir a música “Set Fire to The Rain” tocando em um ritmo eletrônico totalmente sem noção. Contudo, eu precisava estar perfeita naquela noite, mesmo que a única pessoa cuja opinião importava, houvesse me elogiado exaustivamente.

Carolina praguejou e veio na minha direção, enquanto Ana e Otávio entenderam que seria melhor me esperarem lá dentro. Luca fez menção de se aproximar, sendo dispensado por minha amiga. Ele foi até os outros dois, enquanto Carol se sentava ao meu lado, no banco de trás do carro. Eu me olhava no espelho do pó corretivo, analisando minha maquiagem. Eu não tinha certeza sobre a total veracidade do meu desespero, mas era evidente para mim que meu rosto estava torto. A tonalidade da sombra estava diferente no olho esquerdo, e um pouco mais esfumaçada no direito. Comecei a controlar a vontade de chorar, enquanto meu rosto se desfigurava à minha frente. A total falta de simetria me deixava louca, e mesmo meus cabelos cuidadosamente escovados e alinhados me faziam querer cortar os pulsos. Eu podia sentir minhas bochechas ardendo, enquanto Carol remexia em sua bolsa.

— Ok, você está tendo uma crise. Sei que você é sempre a última a perceber, então vamos deixar isso bem claro aqui. – na mão de Carolina havia um pequeno frasco alaranjado, com comprimidos em seu interior. – São calmantes florais. Você vai tomar dois, e vai parar com essa frescurice. Seu TOC não pode estragar sua noite, amiga! O Luca tá lindo, lá te esperando, e você parece a Marilyn Monroe do século vinte e um! Toda depressiva!

— Meu rosto parece o assassino de Pânico, amiga! Olha só! Essa sombra azul tá acabando comigo! – exclamei, ao mesmo tempo lutando para conter as lágrimas que viriam. – Me dá um comprimido desses. Pelo menos não vou ligar pra simetria do meu rosto se estiver relaxada na marra. – apanhando um dos comprimidos, forcei-o por minha garganta a seco, respirando fundo em seguida. – Vamos ser bonitas. Estou pronta.

Com o pequeno incidente esquecido, senti um friozinho na barriga ao me aproximar do auditório. Eu podia ver Luca me esperando com um smoking que o deixava parecido com um galã de cinema. Como presidente do Comitê da Formatura, eu não podia estar mais contente com a escolha do tema. Noite de gala realmente favorecia meu namorado. Sendo do time de basquete, e aluno em uma academia de Jiu-jitsu, seus músculos eram bem desenvolvidos para a idade. Não que fosse esse fator o que mais me atraia nele. Era o seu rosto. Seu olhar era afetuoso, mesmo com quem não conhecia. E, além disso, era fofo com seu jeito meu bruto de ser. De braços dados com minha amiga, notei o quanto ela estava linda. O vestido vermelho brilhava como só cetim sabia fazer. Seu decote era profano, mas o rabo-de-cavalo fazia com que tudo parecesse absurdamente elegante. Seus cabelos negros lembravam-me uma sereia, principalmente por causa do mega-hair que ela havia posto para aquela noite. Luca me abraçou pela cintura, e Carolina se afastou, indo para o interior da festa. Demos nosso nome ao Sr. Fragoso, porteiro simpático que sempre nos deixa entrar depois da tolerância de atrasos da escola, e a seguimos.

A primeira impressão que tive, era de que eu devia ter sido transportada para os meus mais profundos sonhos de menina. Com uma decoração totalmente exuberante, o nosso auditório havia sido transformado em um salão de elegância e beleza. Tal impressão durou, é claro, até que os fantasmas da minha compulsão se insinuaram através dos cantos de minha visão. Imediatamente comecei a contar a quantidade de voltas que o cacho de bolas dava em uma pilastra, comparando em seguida, este número aos demais. Contei quatro pilastras antes que Luca percebesse minha expressão amedrontada. Ele pôs a mão no meu queixo, guiando minha boca na direção da sua. Naquele momento, meu cérebro pareceu sair do automático, e fechei os olhos. A sensação foi libertadora. Abracei-o, embalada pela voz de Adele, enquanto provava o gosto de seu beijo. Minhas mãos tocaram a nuca de Luca, e o senti arrepiar-se inteiro. Deslizei minhas unhas pelo tecido macio de seu smoking, até tocar seu peito, no qual me deitei segura.

Logo Otávio e Ana estavam ao meu lado, e me abraçavam em conforto. Eu havia progredido muito nos últimos anos. Meu transtorno era infinitamente pior. Mesmo assim, eles sempre me ajudavam quando as crises voltavam. Meu acompanhamento com um psicólogo já havia terminado, deixando apenas sobre meus ombros a responsabilidade de manter-me curada. E aquilo estava dando certo, pois eu tinha uma razão pela qual lutar. Com seu corpo esguio, Ana também estava linda naquela noite. Seu vestido com cauda de sereia era amarelo como as pétalas de um girassol. Sua pele negra parecia-se com o ébano mais atraente. Seus cabelos castanhos estavam presos em um elaborado coque, e suas luzes mais claras eram evidenciadas pelo penteado. Otávio, por sua vez, investira em um smoking comum como o de Luca, e um lenço de seda verde-claro no bolso de seu paletó, sua cor favorita. Ele era meu primeiro e melhor amigo desde que eu me lembro. Estudamos juntos desde o jardim de infância, e meus pais são padrinhos das duas irmãs dele. A tia Dóris, mãe de Otávio, é madrinha de Carlos, meu irmão. Éramos praticamente um só organismo ao chegar ao São Judas, até que Ana se uniu a nós. Assumidamente gay, ela seria nossa oradora naquela noite, e também a aluna com melhor desempenho acadêmico, entre os formandos.

Sentei-me à mesa de cinco lugares reservada a mim e meus amigos. Estávamos bem perto do palco, onde seriam feitos os pronunciamentos. Alguns professores também podiam ser vistos pelo salão, de olho no comportamento e nas atitudes de seus alunos. Carolina estava bem no meio do meu campo de visão, trocando beijos apaixonados com Matias Cortes, um nerd que passara o Ensino Médio inteiro a perseguindo. Enquanto ria da situação, segui o olhar de Luca até a diretora. Ela tinha nas mãos um microfone, e parecia combinar os detalhes do pronunciamento de Ana. Eu sabia que aquela noite seria marcada para sempre na minha vida, e com este pensamento, dei um gole no meu suco de laranja. Minha pequena bolsa vibrou no meu colo, e apanhei meu Iphone. Uma mensagem da minha mãe dizia que papai não havia podido adiantar a volta da viagem de negócios, e não estaria em casa no dia seguinte, quando eu iria viajar com o pessoal. Revirando os olhos para a história da minha vida, fiz um gesto de negação ao olhar indagador de Luca. Ele sabia o quanto eu me aborrecia ao falar sobre as ausências de meu pai. Não iria me importunar com isso no dia da formatura. Carolina finalmente havia largado o pobre Matias, que ainda tinha uma expressão de espanto grudada no rosto, e vinha sentar-se ao nosso lado, enquanto retocava o batom.

— Estou muito borrada? – me perguntou, com a maior cara de pau do mundo. Eu e Luca caímos na gargalhada, enquanto ela cruzava os braços e erguia uma das sobrancelhas. – Mas que porra! Eu só queria fazer a noite do menino valer a pena, tá legal? Eu e ele somos os únicos que vieram sozinhos pra festa, então resolvi juntar o útil, ao agradável.

— E sua carência não tem nada a ver com isso? – perguntou Luca, segurando o riso.

— E se tiver, Rony Weasley?! Como se já não bastasse eu ter que te aturar depois que a gente terminou, ainda tenho que aguentar suas gracinhas! – bufou Carol, praticamente se jogando com os cotovelos sobre a mesa. – Não vejo a hora de ir pra faculdade. Aposto que encontro um homem que não se apavore com minha passionalidade.

— Acredite, estou torcendo por você, irmã! – exclamei, unindo as mãos como se rezasse. Brindei meu suco com o refrigerante de Carol, e quase dei um pulo de susto. Sob o tecido dourado que cobria a mesa, senti a mão de Luca na minha coxa.

Certo. Eu sabia que havia prometido dormir com ele na formatura. Mas eu era uma analfabeta sexual, e mesmo ouvindo as experiências de Ana e Carolina, não fazia ideia de como agir. Segundo uma, fingir que está gostando é o que mais agrada os homens. Segundo outra, deixar Luca fazer o que quisesse seria melhor. Mas, bem: eu não queria fingir gostar de sexo, e também não queria deixar que Luca fizesse de tudo comigo. Esbugalhando os olhos, me recompus de modo que Carol não percebesse o que se passava ali. Depois, tirei a mão de Luca da minha perna no exato momento em que Ana subia para fazer seu pronunciamento. Palavras como “escolhas”, “caminhos” e “começo”, não faltaram. Mas o que mais me emocionou no discurso de Ana, foi a naturalidade com que ela era capaz de dizer palavras tão lindas, e chegar aos corações de todos que a escutassem. Com um texto de autoria própria, ela conseguiu arrancar lágrimas de todas as meninas, e de alguns meninos também. A diretora parecia realmente orgulhosa, quando declarou a festa oficialmente iniciada.

Na pista de dança, Luca parecia mais animado do que nunca. Eu nunca fora muito de dançar, mas ele fazia tudo parecer brincadeira, o que deixava mais fácil pra mim, me animar. O calmante de Carolina finalmente fazia efeito, e enquanto eu dançava, o lugar parecia perfeitamente normal pra mim. Ana parecia entretida numa conversa com Otávio, e ambos gesticulavam muito na mesa. Carolina estava mais à frente, dançando sensualmente com Matias, que parecia querer fugir dela. O garoto devia estar assustado com tanta libido. Luca levou um esbarrão do garçom que tentou desviar de uma menina que estava batendo cabelo como louca, e pisou em cheio no meu pé. Totalmente escandalosa, dei um grito que parou a festa. Depois de tranquilizar a todos e explicar a situação, desisti de tentar ser descolada e fui até o pátio, deixando o auditório. Eu não precisei olhar para trás pra saber que Luca viria até mim, e quando senti seus braços me envolvendo por trás, e sua respiração em meu pescoço, foi como se milhares de fagulhas borbulhassem através do meu corpo, acendendo minha circulação e bambeando minhas pernas.

— Quer ir pra outro lugar? – Luca estava realmente ansioso, pelo que parecia. – Se estiver cansada, posso avisar ao pessoal para voltarem de táxi, e te deixo em casa. Sei que combinamos de fazer sexo hoje, mas se você não estiver legal, está tudo bem. Amanhã vamos viajar, e teremos uma semana inteira pra nós. – certo. Este é o momento em que mordo minha língua. Eu achando que ele queria garantir o dele, e o pobrezinho preocupado comigo.

— Olha Luca, não se preocupe. Não é isso que está me chateando. É que eu soube que meu pai não vai estar aqui pra se despedir amanhã, e fiquei meio triste. Além disso, as máquinas de fumaça me deixam enjoada com aquele cheiro esquisito, e você pisou realmente forte no meu pé. – ao fim da frase, notei que ele estava rindo. – Além do mais, eu não volto atrás no que digo. Se for pra eu sair daqui, vai ser pra ir a algum lugar com você. Não pra minha casa.

— Então vamos pra minha. Meus pais foram jantar na casa da minha tia em Ipanema, e só voltam amanhã de tarde. Eles aproveitaram a minha formatura, pra se divertirem um pouco. Acho que podemos fazer o mesmo. – propôs Luca. Ele parecia confiante, mas eu o conhecia bem demais para cair nessa. Ele estava morrendo de medo de eu recusar. Sorrindo, comecei a mexer no lenço em seu paletó, cor de champanhe, como meu vestido.

— Então temos um plano. Vamos sim. – a expressão dele foi ao mesmo tempo engraçada, e triunfante. Correndo para dentro do auditório, nem me levou junto.

Peguei meu Iphone e mandei uma mensagem para Carolina, dizendo a ela que mentisse aos meus pais que eu estava na casa dela. Recebi um “Que merda!” como resposta e me aproximei do carro de Luca. Entre todos os meus amigos, eu era a única que não sabia dirigir. Isso por que caso eu pegasse no volante, iria prestar mais atenção em contar os carros de determinada cor, ou a quantidade de placas com determinado aviso. Uma catástrofe, por assim dizer. Em menos de dez minutos, Luca já estava de volta. Deixamos o estacionamento da escola pela última vez, e jogamos nossos diplomas no banco de trás. Depois de um engarrafamento de vinte minutos na Avenida Delfim Moreira, pegamos a interseção com a Niemeyer, e em menos de dez minutos estávamos entrando no condomínio. Durante todo o caminho, observei a Praia do Leblon, me preparando para um momento que eu não esqueceria nunca.

Estacionamos na garagem da casa de Luca, e ele fixou seu olhar em mim, como se quisesse ter certeza da minha decisão. Eu peguei a mão dele, e a beijei, eliminando qualquer dúvida. Descemos do carro, e subimos a pequena escada que levava até o primeiro andar da casa dos Fontes. Quando a porta de madeira branca esculpida se fechou atrás de nós, senti os lábios de Luca nos meus. Nós beijamos como nunca havíamos feito, nos entregando completamente ao desejo. Logo suas mãos estavam por toda a parte, me tocando de formas até então inexploradas. Quando ele tirou o paletó e o blusão, me pegou no colo. Eu podia sentir o suor em seus ombros musculosos, e puxei a gravata prateada em seu pescoço. Quando ele começou a subir as escadas, eu tinha certeza que não sentiria mais medo. Eu não ia fingir, mas com certeza, faria tudo o que eu quisesse.

Notas finais
Bem, parece que o próximo capítulo promete! Continuem acompanhando, COMENTEM, e ele sai bem rapidinho! Muito obrigado a todos por terem lido, e até a próxima!