Que Seja Infinito Enquanto Dure
6 Elevando a Temperatura
Notas iniciais
Nós ainda estávamos ali, no meio da rua, com o meu carro ligado:
_Bom... Eu... Eu estava indo pra casa antes de você aparecer! – falei.
_O quê? – disse ele, incrédulo – Você está insinuando que quer ir pra casa e me deixar aqui?
_Não... Na verdade eu estou insinuando que quero que você vá pra casa junto comigo! O que você acha de conhecer a minha casa... E o meu cachorro?
_Ah sim, o meu xará! Mas é claro que eu acho essa uma ótima ideia!
_Ótimo, pode entrar no meu carro, então!
_Um carro roxo? Eu até que gostei.
_É, roxo é a minha cor preferida.
_A minha também. Afinal o meu terno é roxo.
Nós entramos no carro e começamos a ouvir “Serve the Servants” do Nirvana no último volume.
_Com a música nesse volume, nós vamos ficar surdos!
_Eu nem ligo! – disse ele, se agitando todo na poltrona do carro, sentindo-se o próprio vocalista do Nirvana – Essa banda é ótima, eu gostaria que ela existisse até hoje!
_Eu também... – falei, um pouco triste pela morte do vocalista, que ainda tinha tanto para viver... Morrer com vinte e sete anos é muito triste. E eu tenho só vinte e cinco anos. Talvez com essa história de namorar um criminoso, eu... Eu acabe morrendo cedo também!
_Você parece séria... Eu disse algo de errado? – ele parecia preocupado.
_Não é nada... Eu só fico pensando em quanto tempo de vida me resta... Afinal, namorar um criminoso é muito perigoso!
_Não pense no futuro! Sofrer por antecipação não é legal... Curta a música, curta o que nós sentimos um pelo outro... E o resto... Esquece!
_Você tem razão! – falei, sorrindo.
_Eu sempre tenho razão! – disse ele, se achando o melhor.
Nós, então, chegamos à minha casa.
_Bom, é aqui que eu moro! Eu sei, essa casa não é grande coisa, mas até que é arrumadinha...
_Tudo bem, eu sou um homem de gostos simples. Eu gosto de dinamite, pólvora e gasolina. E você sabe qual a semelhança entre essas três coisas? Elas são baratas!
Eu apenas sorri. De onde ele tirava as frases doidas que ele dizia?
_Vamos entrando! – falei.
Nós mal entramos e o meu cachorro já veio pular em cima de mim. Porém, o cão logo notou que tinha alguém “estranho” entre nós. Eu acho que ele estava com ciúmes.
_Ah, então esse é o seu cachorro! – disse o Aaron – Ele não parece muito receptivo...
_Bom, você também não foi muito receptivo quando nós nos vimos pela primeira vez, você não se lembra? – falei, fazendo uma careta besta – Então o meu cachorro é bem parecido com você, não só no nome!
Ele apenas fechou a cara e disse:
_Alicia, você e o seu cachorro estão claramente me avacalhando!
Eu apenas fiquei rindo e disse:
_Não se preocupe, o meu cachorro é muito legal, apenas tente se aproximar dele! Você vai ver que ele é mansinho!
Ele tentou pôr a mão no cachorro, mas o cão não gostou do contato e o mordeu.
_Ai, credo! Isso não é um cachorro! Isso é uma fera peluda!
Eu dei uma gargalhada e disse:
_Eu acho que você não tem muito jeito com os animais...
_Ah, mas agora virou questão de honra conquistar esse cachorro!
_Eu acho que você deveria tirar a maquiagem... Talvez assim o meu cachorro não te estranhe tanto assim...
_Mas eu sou cheio de cicatrizes! – disse ele – Você não vai gostar de ver a pessoa horrorosa que eu sou...
_Eu não ligo para as cicatrizes – falei, tocando a sua face – Você é perfeito...
_Nada disso! Eu mato, eu roubo, eu faço um monte de coisas horríveis e você sabe muito bem disso! Eu estou longe de ser perfeito!
_Pois pra mim você é perfeito... – falei, abraçando-o bem forte. Ele apenas retribuiu o abraço, enquanto acariciava os meus cabelos.
_Você só pode ser louca pra dizer que eu sou perfeito... – disse ele.
_Todos nós somos um pouco loucos. Uns menos, outros mais, mas todos nós temos a loucura dentro de nós... E muitas vezes ela pode ser a nossa luz na escuridão...
_Ou a nossa solidão em meio à multidão...
_Sim, a loucura tem dois lados, o bom e o ruim... Assim como qualquer outra coisa nessa vida...
_E como usá-la ao nosso favor? – indagou ele, curioso.
_Cabe a nós descobrir – falei, sorrindo – Agora, você poderia, por favor, me revelar o rosto lindo que está por baixo dessa maquiagem de palhaço? Quem sabe assim o meu cachorro não passa a gostar de você?
_Já que você insiste... – disse ele, parecendo insatisfeito em ter que revelar quem realmente era – Você tem algum produto pra tirar maquiagem?
_Sim, eu tenho! O banheiro é logo ali, entra lá que o produto está em cima da pia. Tira a maquiagem e depois você volta, ok?
_Tudo bem!
Ele ficou um tempo considerável no banheiro. Tirar aquela maquiagem devia dar muito trabalho.
_Pronto, eu terminei... – disse ele, saindo do banheiro um tanto envergonhado por me revelar o seu rosto.
_Nossa! – falei, surpresa.
_Eu sou tão feio assim?
_Não, você é lindo! – falei, sem medo algum.
_O quê? Você não pode estar falando sério! – disse ele, incrédulo.
_Não, nada disso! Eu estou falando sério! Tudo bem, que você tem essas cicatrizes e tal... Mas dá pra ver claramente que por trás delas você é um cara muito bonito! – eu então toquei as suas cicatrizes e disse — E mais: Eu tenho que admitir... Eu sempre senti uma atração por... Homens com cicatrizes!
Ele apenas sorriu e disse:
_É... Você com certeza deve ter um parafuso a menos!
_Olha quem fala! – falei, fazendo uma careta – Se eu tenho um parafuso a menos, você não tem nenhum!
_Verdade – concordou, enquanto ria – Incrível, como você sempre consegue retrucar o que eu falo? Eu acho que você é daquele tipo que não sossega enquanto não dá a última resposta... Eu acertei?
_Hum... Talvez! – falei — Agora vamos ver o que o meu cachorro achou do seu novo eu...
Eu apresentei o Aaron sem maquiagem ao cachorro e ele pareceu não estranhá-lo. Ele até mesmo fez festinha pra ele.
_É... Parece que aquela maquiagem assusta todo o mundo mesmo, até os animais – comentei – Agora que você está de cara limpa, o meu cachorro gostou de você!
_Que bom... – disse ele, aliviado – Bom... O que você acha de me mostrar o seu quarto?
_Tudo bem, eu vou deixar o meu cachorro aqui na sala. Próxima parada, o meu quarto!
E entramos no meu quarto. As paredes eram azul claro. Tinha uma cama de solteiro bem confortável, um guarda-roupa pequeno e uma escrivaninha, onde eu desenhava os meus projetos publicitários.
_Até que o seu quarto é bonito... – disse ele – Ele parece aconchegante!
_É... — falei, sentando na minha cama – Eu adoro o meu quarto, eu só acho que ele poderia ser um pouco mais espaçoso.
_Pois pra mim o seu quarto está ótimo – disse ele, sentando-se ao meu lado na cama.
Nós ficamos em silêncio, olhando um para a cara do outro. Eu não sei por que, mas estava com medo. Ele me olhava de um jeito estranho, como se quisesse me capturar.
_O que foi? – perguntei, com a voz trêmula – Por que você está me olhando desse jeito?
_Nada, eu só... – ele também parecia nervoso – Acontece que... Eu estava pensando numas besteiras aqui e... Esquece!
_Não vai me dizer que você...
_Sim, eu estava pensando nisso aí mesmo!
_Sabe, de vez em quando eu também penso nisso.
_Sério?
_Sim... – falei, meio sem graça – Vocês homens acham que as mulheres não pensam nessas coisas, mas... Elas pensam sim!
_Verdade – disse ele – Afinal nós somos seres humanos... E eu acho que a safadeza faz parte da natureza humana!
_Precisamente! – falei, rindo.
O silêncio permeou o meu quarto mais uma vez. O Aaron me encarava novamente daquele jeito que eu já expliquei.
Ele, então, colocou-me no seu colo e me olhou como se eu fosse uma presa.
_Alicia... Você me quer?
Se ele estava se libertando da vergonha, eu também me libertaria.
_Eu te quero sim... – falei, com muita malícia no olhar.
_Não me olha desse jeito, Alicia... Assim você me desperta todos os meus desejos mais selvagens...
_E quais são esses seus desejos? – perguntei, muito curiosa com relação à resposta que eu poderia receber.
Ele não disse nada. Apenas me deitou na cama, enquanto me beijava com muita força, por pouco não me machucando. Aquela sensação era maravilhosa... Eu não conhecia aquele lado safado dele, mas agora estava morrendo de felicidade por conhecer. Ele deslizava as suas mãos por todo o meu corpo, fazendo com que eu suspirasse e liberasse doces gemidos baixinhos. Ele sabia mesmo como me provocar. Mas que homem incrível...
_Calma... – falei, meio que gaguejando.
_Eu estou indo rápido demais, minha linda? – disse ele, com aquele olhar safado que eu amava.
_Sim... – falei, um tanto sem graça – Não precisa dessa pressa toda... Você me agarrou feito um leão e não quis mais me soltar! Eu acho que isso foi tudo muito de repente... Não vamos ficar ansiosos, o momento tem que ocorrer naturalmente... – comentei.
_Tudo bem... – disse ele, um pouco desapontado – Eu te entendo! Eu estava com muitos desejos dentro de mim e se eu não fizesse o que eu fiz agora a pouco... Eu acho que eu ia acabar ficando maluco!
_Mais do que você já é? – perguntei.
_Eu acho que sim... – respondeu ele.
Eu, então, ri e disse:
_Já está tarde, é melhor você ir embora!
_Ora essa! A senhorita Alicia está me expulsando? – disse ele, tentando parecer irritado comigo.
_Não, mas amanhã eu tenho que acordar cedo pra trabalhar!
_Ah, que sem graça! Mas tudo bem, amanhã a gente se vê. Lembre-se, se precisar de mim, é só ligar! E toma cuidado com o Batsy, esses morcegos são traiçoeiros! Se ele aparecer, me chama! — disse ele, rindo feito um doido. Ele parecia ter uma espécie de obsessão pelo Batman.
_Tudo bem, obrigada!
_De nada, minha linda! — disse ele, beijando a minha testa.
E me despedi dele, imaginando que estávamos cada vez mais próximos, o que me deixava feliz, mas ao mesmo tempo me assustava de certa forma.
Fale com o autor