Que Seja Infinito Enquanto Dure
7 A Chuva de Sangue - O FINAL
Notas iniciais
Terça Feira. Eu despertei assustada. Eu tive um sonho terrível. Eu precisava contar sobre aquele pesadelo ao Aaron. Mas eu faria isso à noite, porque de manhã eu tinha que ignorar o maldito sonho e trabalhar.
Porém, no trabalho eu estava me saindo muito mal. O meu chefe me deu uma bronca e tanto, porque eu estava muito distraída. Pudera, eu só conseguia pensar naquele sonho... O que eu ia fazer?
Quando a noite finalmente chegou, adentrei o beco escuro, à procura de vocês sabem quem. Ele provavelmente estaria lá. Na verdade ele estava sempre lá. Como se o beco escuro fosse o seu segundo lar.
_Boa noite, Alicia... – disse ele, feliz – Você sonhou comigo hoje?
_Na verdade, sim... No entanto o sonho não foi nada agradável...
_O quê? Mas, senhorita Alicia... Eu não estou entendendo! Como um sonho que possui a minha presença pode ser desagradável?
Ele era um narcisista com certeza.
_Acontece que eu sonhei que nós estávamos flutuando no ar, de mãos dadas... Numa noite estrelada de lua cheia... Até aí tudo bem... Mas de repente começou a chover sangue... As gotas de chuva queimavam a nossa pele só de encostar. Nós estávamos com medo. De repente começou uma ventania enorme e nós acabamos soltando a mão um do outro. Eu tentei segurar a sua mão, mas a chuva e o vento me atrapalhavam. Você tocou os meus dedos, você tentou me segurar... Mas você não conseguiu... Assim, nós ficamos cada vez mais distantes um do outro, até que não conseguimos mais nos ver. Eu fui arrastada pra longe e quando a chuva e o vento cessaram, eu parei de flutuar no ar e caí. Mas eu não caí num lugar qualquer. Eu caí direto numa enorme cama de espinhos... Eu comecei a sangrar e... Eu morri...
_Que sonho mais horrível, Alicia! – disse ele, puxando-me para perto de si e me abraçando com força. Ele era muito mais alto e forte do que eu, o que fez com que eu quase sumisse naquele abraço. Eu apenas deixei algumas lágrimas escorrerem discretamente pelos meus olhos – Mas não se preocupe... Eu não vou deixar nada acontecer com você... Nada, nada mesmo! Você vai ficar bem, você vai ficar viva, eu te prometo!
_Não prometa o que você não pode, Aaron... – falei, olhando nos olhos dele – Se esse for o destino, você não poderá evitá-lo!
_Por você eu evito o destino, eu evito a morte, eu evito tudo de ruim! Eu não quero te perder!
_Eu também não quero te perder... – eu tentava disfarçar as lágrimas, mas não conseguia.
_E você não vai! – disse ele, tentando me tranquilizar – Isso foi só um sonho... De vez em quando a gente tem esses pesadelos, mas nada acontece! Pensa positivo, talvez esse sonho ruim não tenha significado coisa alguma.
_E se significar?
_Deixa de insegurança! – disse ele – Eu também fiquei preocupado, mas veja só: Nós estamos sofrendo por antecipação! Nada de ruim aconteceu, isso foi só um sonho!
_Você tem razão...
_E quando eu não tenho?
Mais uma vez ele se exibiu. Ele era mesmo um metido. Mas dane-se, ele era incrível de qualquer jeito.
Porém, algo aconteceu e cortou o nosso clima. Um som. Uma sirene. O pessoal do Asilo Arkham. A polícia estava junto com eles.
_Lá está ele! – gritou um dos homens.
_Me deixem em paz! – gritou ele, sacando uma arma – Todos fiquem longe, senão eu atiro!
A coisa estava ficando feia. Eu apenas me abracei a ele e fiquei observando o que poderia acontecer. Poderiam me mandar para o hospício também, achando que eu era a parceira de crime dele. Mas eu nem me importava. Eu não iria abandoná-lo na hora em que ele mais precisava de mim. De forma alguma!
_Quem é a moça que está com você? – perguntou um dos policiais.
_Isso não é da sua conta! – ele parecia extremamente nervoso com a situação.
_Calma, Aaron... – falei com ele e depois com os homens – Eu... Eu apenas gosto muito dele... Eu acho que vocês entendem isso...
_Aaron? – disse um dos policiais – Mas esse não é o nome dele! Bom, esquece... Então quer dizer que você é só um casinho dele, certo?
_Casinho? – falei incrédula.
Um dos funcionários do hospício disse:
_Senhorita, eu vou pedir que se retire! Você não está vendo que ele é um louco? Para a sua própria segurança, deixe-nos cuidar dele.
_Cuidar? – indaguei – Vocês vão enclausurá-lo no hospício, isso sim!
_E o que você tem com isso? Esse é o nosso trabalho! Agora, pela última vez: Retire-se!
_Não! – gritei.
O comissário da polícia disse:
_Abaixa essa arma, Coringa! Você precisa se tratar! O povo do Asilo Arkham vai te curar!
_E vocês acham que eu preciso me curar? – disse ele, frio – Vocês não sabem do que eu preciso. Fiquem longe de mim!
_Nada disso! – disse um dos funcionários do hospício, aproximando-se de mim – E essa sua namoradinha? Só por estar com você, com certeza ela é outra doida varrida e possivelmente está envolvida nos seus crimes! Eu acho melhor nós a levarmos também!
_Eu disse pra ficar longe! – disse o Aaron, ainda mais descontrolado.
Porém, não adiantou a valentia dele para nos salvar. Dois funcionários do hospício chegaram por trás de nós dois e injetaram algo nos nossos corpos. Um sonífero provavelmente. Nós, então, desmaiamos.
Quando eu acordei, estava numa sala pequena iluminada apenas por uma lâmpada incandescente. Eu me encontrava no chão, deitada e cercada por dois homens do hospício, que me olhavam como se eu fosse o jantar deles. Eu me levantei e os olhei, incrédula.
_Que lugar é esse? – perguntei, assustada.
_Aqui somos nós que fazemos as perguntas! – disse um dos homens, dando-me um tapa na cara – Qual a sua relação com o Coringa?
_O que vocês fizeram com ele? – falei, com raiva.
_Eu já disse e repito: Só nós perguntamos por aqui! – disse o homem, dando-me outro tapa na cara – Qual a sua relação com o Coringa?
_Eu não vou falar droga nenhuma!
_Nós podemos ficar o dia todo aqui, mocinha! Nós não temos pressa! Mas quanto mais rápido você contar qual a sua relação com ele, menos marcas nós vamos deixar nesse seu corpinho magrelo! Então trate de desembuchar, se não quiser apanhar mais! – disse o outro homem.
_Cala a boca! – gritei.
_Então é assim... Você não vai falar mesmo?
_É isso aí! Eu não abro a boca enquanto vocês não me disserem onde ele está e o que vocês fizeram com ele!
_Tudo bem... Se você não quer abrir a boca, nós te forçamos a abrir... Vamos ver se você continua tão valente assim após uma pequena e dolorosa sessão de tortura!
_Tortura? Vocês não podem me torturar! Isso é crime!
_Ninguém nunca vai saber! NUNCA! Aqui no hospício o tratamento é desse jeito e ninguém nunca descobriu! E ninguém nunca vai descobrir!
Ele disse “aqui no hospício”. Então eu estava no hospício! O Aaron provavelmente também estaria aqui. Mas como eu sairia daqui sem ser torturada?
_Pronta para a tortura, senhorita? – disse um dos homens – Apenas se lembre de que nós não teremos piedade de você só porque você é mulher, está bem?
_E não precisa ter, seu estúpido!
Eles, então, tiraram a minha blusa, deixando-me apenas de sutiã.
_Hum, até que você é bem gostosinha! – disse um dos homens – Uma pena que nós vamos ter que te bater!
Eu tinha vontade de acabar com eles! Eles me causavam uma repulsa enorme que eu não conseguia explicar com palavras!
Os dois, assim, me deram várias chicotadas nas costas durante um minuto inteiro. A dor me permeava por completo. Aquilo era horrível, eu nunca tinha sofrido tanto assim na minha vida. Eu não ia aguentar por muito tempo. Porém, eles pararam.
_E agora... Você vai nos dizer?
_Ele é o meu namorado, nada além disso! Eu não sou uma criminosa! Eu não ajudo nos esquemas dele! Eu sou só uma pessoa qualquer que trabalha e ganha tudo honestamente! Eu nem sequer tenho antecedentes criminais! Eu sou inocente! Deixem-me em paz!
_Você nos pareceu convincente! – disse um dos homens – Talvez você realmente não seja uma criminosa... Mas você namora um criminoso, o que automaticamente te torna uma pessoa insana! Você acha mesmo que uma pessoa normal namoraria alguém como o Coringa?
_Eu não sou insana! E ele não é uma pessoa ruim!
_Não? Pois ele matou a minha filha sem motivo algum! Ela tinha só seis anos! O que você acha disso? Você ainda acha que ele é bom?
_Espera um pouco! É por isso que você está me torturando? Mas eu não tenho culpa pela morte da sua filha!
_E ele matou a minha mãe! – disse o outro homem – Ele cometeu delitos contra a minha família e a família do meu companheiro também. Ele é um psicopata frio e cruel, completamente sem escrúpulos! Você pode até não ter culpa, mas nós vamos te ferir, pois se ele machucou alguém que nós amamos, nós machucaremos alguém que ele ama também! Olho por olho dente por dente!
_Isso não é justo!
_Sim, isso é justo, garota! – disse um deles – Você é insana e ficará internada no hospício até o fim dos seus dias, se depender de nós! Sob os nossos cuidados, é claro! Nós juramos que não te daremos um segundo de paz! Jamais! E ele... Ele também ficará aqui no hospício, mas em outra sala, ou seja, você não o verá nunca mais!
_Não, por favor, não façam isso! – eu já estava quase implorando.
Eles, então, me deram mais um monte de chicotadas. Eles também puxaram os meus cabelos com toda a força que podiam e cuspiram no meu rosto, dizendo que vingariam a morte das pessoas que eles amavam, custasse o que custasse. Como eles eram covardes! Eu duvido que eles teriam coragem de torturar o Coringa! Mas como eu era somente uma mulher baixinha e magrela, eles se aproveitaram de mim! Ridículos!
_Vocês me dão nojo! – eu gritava, como se as minhas palavras pudessem me livrar do meu destino sujo e cruel. As lágrimas já tomavam conta do meu rosto. A dor era terrível. Após um tempo eu já nem sentia mais nada, de tanto que me batiam. Eu já podia sentir o sangue escorrendo pelo meu corpo. Ele parecia me queimar por dentro.
De repente, eu ouvi alguém arrombando a porta da sala com toda a sua força. Uma força descomunal.
_Aaron? – gritei.
Era ele mesmo! Ele veio me salvar!
_Alicia! – gritou ele, num misto de desespero e felicidade – Os homens do hospício tentaram me prender também, mas eu consegui fugir! E eu vou te levar junto!
Porém, os dois homens que estavam comigo não pareciam facilitar a situação.
_Você matou a minha filha, seu miserável! – gritou um dos homens, de um jeito voraz, como se estivesse num verdadeiro campo de guerra – Agora nós vamos matar a sua namorada!
_De forma alguma! – disse ele, batendo no homem e jogando-o no chão, rapidamente fazendo com que ele desmaiasse.
Porém, ele se esqueceu do outro homem. Esse outro homem me agarrou e tirou uma arma do seu bolso, apontando-a para a minha cabeça.
_Você matou a minha mãe! – disse o homem, raivoso e desesperado – Pois assim como você eu também tenho “um às na manga”. Agora você vai pagar com a vida da puta da sua namorada! E eu não vou ter piedade!
_Larga a arma! – gritou ele, muito nervoso.
_Eu disse o mesmo quando você apontou um revólver calibre 38 para a minha mãe! E você teve piedade dela? Não! Pois eu também não terei piedade da bonitinha aqui!
Eu chorava copiosamente.
_Adeus Aaron... Eu te amo!
_Eu também te amo, Alicia... – disse ele, deixando algumas lágrimas escorrerem pelo seu rosto também.
Eu ouvi o gatilho sendo puxado lentamente.
O meu fim chegaria.
Bem mais rápido do que eu esperava...
Porém, quando o gatilho foi acionado, a única coisa que eu ouvi foi um clique. Um clique. E a bala? Eu... Eu não morri? Eu não morri mesmo!
_Mas o quê? – disse o homem – A arma está sem balas! Eu não a recarreguei! Que droga!
_Deus, obrigada! – gritei, chorando ainda mais.
O homem estava atônito por ter perdido aquela oportunidade de se vingar. Foi tempo o suficiente para o Aaron me puxar pelo braço, colocar-me no colo e sair correndo.
_Como nós vamos sair daqui? – falei com muito medo na expressão da minha voz.
_Não se preocupe! Eu tenho passe livre nesse Asilo Arkham! Eu conheço todas as saídas possíveis! Nós vamos escapar, eu te prometo!
_Obrigada – falei.
_Não precisa agradecer... – disse ele, sorrindo de um jeito meio desesperado.
Nós, então, escapamos por uma saída que eu não me lembro muito bem qual era exatamente, porém, ele não parava de correr.
_Pra onde nós vamos? – perguntei.
_Nós vamos para a minha casa de diversão – disse ele – Lá eu tenho um carro! Nós vamos fugir de Gotham City para outro lugar bem longe daqui! Eu já sei o que nós vamos fazer, não se preocupe, eu já sabia que um dia isso poderia acontecer e planejei tudo!
_Mas você não faz planos!
_Pois é, mas por você eu contrario até a minha natureza!
_E a nossa vida vai ser sempre assim? Fugindo?
_Se você quiser viver a sua vida com um criminoso, infelizmente terá que ser assim... Se você quiser desistir agora... Tudo bem!
_Eu não vou desistir, de jeito nenhum! – falei.
Nós, assim, chegamos à casa de diversão. Ele me deu uma roupa (sim, eu estava só de sutiã até aquele momento) e nós fomos correndo para o carro dele.
A viagem durou horas. Quando eu vi, nós estávamos numa linda casinha de campo.
_Que bonita essa casa! Ela é sua?
_Sim... E aqui eles nunca vão nos achar! Isso nem chega a ser uma cidade. Esse é apenas um vilarejo... Nós estamos praticamente no meio do nada! Nós poderemos viver tranquilos aqui! E mais... Eu vou parar com a minha vida de crimes... Assim nós não precisaremos fugir mais!
_Que ótimo! – falei, alegre – Mas e se eles nos encontrarem de novo?
_Esquece isso!
Nós entramos na casinha e ele cuidou dos meus ferimentos.
_Que horror de tortura eles fizeram com você!
_Aquilo doeu demais!
_Mas não se preocupe... Eles não vão te machucar mais... Nunca mais... – disse ele, enquanto me beijava com força.
_Você me promete? – falei, após o beijo.
_Eu te prometo...
_E lembre-se: Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!
_E que dure para sempre! – disse ele, sorrindo.
_Para sempre! – concordei, enquanto o beijava.
Foi aí que eu percebi que o nosso romance ainda tinha muita, muita história para contar. Histórias de ação, de aventura, de comédia, de amor, histórias de tudo. E eu simplesmente não me importava com o fato de que teria que enfrentar muitos perigos ao lado dele para que continuássemos juntos. Enquanto nós estivéssemos lado a lado, tudo terminaria bem, tudo mesmo. Porque separados nós somos fortes. Mas juntos nós somos invencíveis!
Obrigada, Aaron, eu te amo com toda a minha alma.
FIM.
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