Que Seja Infinito Enquanto Dure
5 Dois Fãs de Nirvana
Notas iniciais
Aquele dia na casa de diversão já passou. Hoje é Domingo. Absolutamente nada para fazer. A única coisa que eu podia fazer era deixar as lembranças sórdidas me invadirem. Eu acho que o ato dele em me abandonar foi um tanto egoísta, pois ele me abandonou para que ELE não sofresse. Entretanto agora EU estou sofrendo.
E o pior era que o meu cachorro tinha o nome dele, então sempre quando eu o chamava, lembrava-me daquele criminoso que partiu o meu coração. Eu realmente não deveria ter chamado o meu cachorro de Coringa. Não mesmo.
_Ah, meu cãozinho... Eu bem que podia trocar o seu nome, mas você já se acostumou tanto com esse que eu duvido que você queira qualquer outro!
E as horas passavam... Eu resolvi assistir a um filme, mas quando eu parecia estar esquecendo aqueles meus momentos com o Coringa, o danado do meu cachorro pulava em cima de mim e, devido ao nome dele, eu acabava me lembrando do criminoso sexy de cabelos verdes mais uma vez. Afinal, porque cargas d’água mesmo, eu resolvi chamar o meu cachorro de Coringa? Pura loucura a minha, só se for.
_Pensa bem, Alicia – eu falava sozinha – Você se livrou de uma boa... Namorar um criminoso pode ser um problema e tanto!
Contudo não adiantava tentar convencer a mim mesma. A minha mente dizia uma coisa, mas o meu coração dizia outra. Não que eu estivesse apaixonada por ele, afinal eu só o conhecia há alguns dias... Mas eu gostava da sensação de estar perto dele... Sim, ele era mal. Sim, ele era um assassino cruel. Mas e daí? Eu só queria a sua companhia, mais nada!
As horas foram passando e eu só conseguia pensar nele.
Já era noite, eu acabei me rendendo ao sono.
Quando eu acordei, já era outro dia.
Segunda-Feira.
_Eu vou encarar aquilo apenas como um sonho, ou talvez como um pesadelo... Hora de trabalhar e viver a realidade!
O meu cachorro veio e me trouxe o jornal.
Nada de bom para ler.
A minha vida estava tão preto e branco...
À noite, eu estava voltando do trabalho, já com o meu carro novinho em folha. Sim, ele finalmente saiu do conserto. Agora eu não precisaria mais adentrar aquele beco escuro – ao menos até o carro dar defeito de novo.
Eu não queria pensar no Coringa, então resolvi me distrair ouvindo o disco In Utero do Nirvana. Tudo estava muito tranquilo quando alguém atravessou na frente do meu carro e eu... Quase atropelei esse alguém! Eu tive que dar uma freada bem brusca pra não passar em cima da pessoa.
Eu saí do carro e disse, furiosa:
_Que ideia foi essa de atravessar na frente do carro? Você é doido?
_Basicamente. – disse ele, calmamente, como se nem estivesse assustado pelo “quase atropelamento”... – E você já vem me criticando, como se eu fosse o culpado! A única culpada por aqui é você, sua barbeira! Como você conseguiu essa carteira de motorista? Honestamente que não foi!
Quando eu vi quem era... Ah não, ele não!
_Você por acaso está me perseguindo, Aaron? – questionei.
_E você é fã de Nirvana? Como a janela do seu carro está aberta e o som está muito alto, dá pra ouvir claramente que você estava curtindo a música “Rape Me”! Por que você nunca me disse isso, Alicia? Eu também sou muito fã da banda!
_Não muda de assunto! É muita coincidência eu te encontrar por aqui... Você está me perseguindo?
_Na verdade não! Eu só estava refletindo um pouco e nem notei que tinha um carro vindo...
_Você poderia refletir num local que não fosse a rua por onde eu passo para chegar em casa!
_Ah, pare de falar como se a droga dessa rua fosse sua! A rua é pública, sua tontinha – disse ele, fazendo uma careta.
Ele me tirava do sério.
_E eu posso saber sobre o que você estava refletindo de tão importante que nem notou que um carro se aproximava?
_Sobre nós dois!
Ele também estava com saudade? Sério?
_Você não parece nada bem... – falei, percebendo que o semblante dele estava ainda mais triste do que o meu.
_E como você queria que eu estivesse? Feliz? – agora ele parecia estar com raiva.
_Pois é, você me largou para não sofrer. Mas está sofrendo do mesmo jeito! Que plano mais furado o seu!
_Eu pareço alguém que tem um plano?
_Não. Você não tem um plano. Nada que você faz tem nexo!
_Que bom que você sabe disso... Então eu acho que quero fazer uma coisa totalmente sem nexo com você agora!
_E o que seria? – perguntei.
_Eu quero um beijo, Alicia.
_Como assim? Agora? Depois que você me mandou embora? Que coisa mais sem nexo!
_Eu disse que queria fazer uma coisa totalmente sem nexo, não disse? – ele parecia se divertir com a situação.
_Qual é a sua, cara? Você quer ficar comigo ou não?
_Eu quero, mas não devo.
_E porque você não deve?
_Eu já te expliquei... Eu não quero sofrer de novo...
_Mas você está sofrendo agora! Então não adianta nada me dispensar! Você vai sofrer de qualquer jeito!
_Nossa... Como você é convencida... Você acha mesmo que eu estou sofrendo POR VOCÊ?
_E por quem você estaria sofrendo? Pelo Batman?
_O Batsy? De jeito nenhum! – disse ele, dando uma risadinha – Tudo bem, eu não queria admitir, mas estou mesmo sofrendo por você. Porém é melhor sofrer um pouco agora do que sofrer aos montes depois.
_E você não acha bem melhor ser feliz um pouco agora do que nunca mais ser feliz?
Ele ficou em silêncio, tentou dizer algo, pensou, pensou, pensou... E ficou sem resposta! Ele suspirou e disse:
_Você sabe realmente como me confundir!
Eu acho que fiquei vermelha... Ele, então, disse:
_Você só pode ser uma especialista em me deixar louco...
E me beijou profundamente...
Quando o momento terminou, ele me falou:
_Tenha consciência de que isso não será para sempre...
_Tudo bem... “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure...”
_De quem é essa frase?
_Do Vinicius de Moraes...
_Eu nunca ouvi falar nesse cara!
Eu apenas ri. Afinal, o que sabe um assassino cruel sobre um poeta brasileiro? Nada mesmo.
_Aaron, você promete que não vai mais me mandar embora?
Ele sorriu e disse:
_Eu prometo...
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