Quatro Ases

1 Prelúdio I


4 Ases

Primeira Parte: Sol Vermelho

O amor foi substituído pelo ódio. A razão pela paixão. A vida pela morte. Os pais por pesadelos, as mães por sonhos e os filhos por cruzes sem nome surradas pela areia do deserto. E tudo você quer é mais uma dose para fingir que nada disso aconteceu.

O Ás de paus surge da fornalha de ferro; O de copas da perseguição; O ás de espadas da escuridão invisível; O ás de ouros da busca pela riqueza moral.

Muitas perguntas vagueiam pelo Oeste, muitos sonhos causaram estas perguntas, e muito sangue e rancor entre irmãos e amigos foi a resposta para estas perguntas e sonhos. Algumas pessoas dizem que os tempos estão cada vez piores. Mas que culpa o tempo tem se a cada dia os homens estão mais preocupados em encher seus bolsos de ouro e profanar as filhas de seus irmãos do que mudar a realidade em que vivem. Ou pior, as pessoas estão tão conformadas com os horrores que nem mais se importam se mais uma alma amanhece sem vida às portas de sua cidade.

O descaso e o medo arrancam a coragem dos homens que entardecem e jazem nos salões. Abraçando não mais suas esposas e mães, mas sim prostitutas. Beijando não mais seus rebentos mas sim, mais um copo de uísque vagabundo que ele insiste em encher mais e mais com o dinheiro ganho em um mundo que ele insiste em esquecer.

A noite ainda não banha o céu vermelho agonizante, um homem, um ás de paus, uma ponte, um bosque, um aviso e vários disparos cheios de ódio. O às; O homem guarda o revólver, joga o cigarro na água que corre por baixo de seus pés, na ponte. O homem não pensa em pedir clemência. Mas é tarde para isso, a justiça veio buscá-lo. E a justiça o quer justo, sim, bem justo numa corda justa, ou justamente numa cova. Para depois justificar sua morte, com outras mortes.

Assim jaz mais uma cidade no entorpecer da pólvora, uísque, cerveja e motivos banais para roubar o direito alheio de viver. E isso me lembra à pensar "quem sou eu?". Eu sou mais um hipócrita criticando a hipocrisia de outros hipócritas.