Quatro Ases

2 O Tal Escorpião


Era manhã. Cerca de umas nove horas, difícil dizer com o relógio quebrado que constantemente trava no alto da estação. Ao longe o que era apenas uma mancha preta turva pelo calor. Agora é uma grande máquina escura que vomita fumaça e mais fumaça. Os senhores em pé na estação olham as horas em pequenas maquininhas prateadas de bolso, ou na torre acima deles no prédio. Olham com rancor. Afinal, finalmente ele está aqui. Na terra do pôr do sol.

Chega o trem vindo do México, cheio provavelmente de encomendas e ricos negociantes aptos de abrirem negócios naquela cidade ou loucos pra aquele trem sair logo dali e chegar mais cedo à civilização. Mão de obra barata, buchas de canhão, aventureiros, não importa. Mas o que você vê são mais daqueles caras estranhos que lotam os bares e bordéis. Aqueles que fazem a alegria do funerário, pistoleiros do leste e oeste americano, mexicanos, irlandeses ou escravos recém libertados. Havia até alguns chineses por aí. Mas todos estavam ávidos para sair dali, daquele forno, naquela terra de ninguém, e se já foi de alguém, esse alguém levou bala.

Desse trem ejetavam pessoas e fumaça, pés apressados e rostos indiferentes, malas, sonhos e um pouco de discórdia. No meio da nuvem de fumaça, e vapor da locomotiva, um homem salta de dentro da cabine. Ele ergue lentamente o seu corpo enquanto caminha confiante, sua mão ergue um cigarro, ele o traga fundo, joga o cigarro no chão e vagarosamente caminha para fora da estação. Uma figura interessante, sai de trás da locomotiva em meio a toda fumaça pesada exalada da caldeira.

Ele está trajando roupas negras como ébano. Usando um terno preto por cima de sua camisa escarlate. Possui um rosto marcado, um cintilante cinturão portando dois coldres cuja as armas não se vê graças ao seu casaco e um dos olhos misteriosamente roxo, quem o conhecia sabia que havia duas pistolas em seus coldres na cintura, geralmente tudo que ele precisava para despachar qualquer um em qualquer lugar. Ao seu passar as pessoas comentavam algo sobre um escorpião. Ou que ele era "O Escorpião", "El Escorpión", "The Scorpion" ou qualquer coisa semelhante.

Uns diziam que era por causa de suas armas, ele levava consigo duas armas raras e antigas. Armas que comparavam com as fortes garras do animal, mas o ferrão mesmo era a tal "buntline", um nome gringo que davam para armas de cano cumprido, além dos termos "de artilharia". Essa ele levava bem guardada por baixo do colete, bem abaixo de seu ombro direito. Muita gente dizia pouca coisa e pouca gente dizia muito sobre este homem. Dado aos seus feitos, pode se dizer assim.

Descera do trem fumando cigarro e cuspindo nuvens, formando uma trilha de fumaça por onde passava. Nem parecia que ele tinha saído do trem, ele em si é um trem ejetando fumaça, talvez tão implacável quanto um feito de ferro. Indiferente à quase tudo, dizem que é sempre disposto à provar em cada ato, que seu curioso apelido não é apenas um nome para assustar crianças e velhinhas.

Anda pela cidade a procura de um hotel para passar a noite, passa por lojas na calçada madeirada e sempre movimentada daquele lugar maldito que chamavam de cidade. Ele caminha ao lado de uma ferraria, de mesas de tiro, depois casas de jogatina, prostíbulos, armazéns, lojas de armas, destilarias. Tudo feito em cumpridas tábuas de madeira pintada quase sempre de maneira precária. Devia ter nem meia dúzia de prédios em alvenaria naquele inferno.

Não era estranhado pelo povo, pois ele era apenas mais um dos tantos matadores profissionais na cidade. Mais um chapéu dentre tantos que chegava cheio de marra e talvez já estaria morto ao final da tarde. Ninguém deu a mínima pra ele depois que saiu da estação, cercado de burburinhos. Nas ruas e becos se camuflou por entre tantos outros tipos carrancudos e mal encarados.

Era indiferente para muitos. Exceto por dois caras sentados dentro de um bar, perto da janela. Eles não tiram os olhos daquele forasteiro, falam rapidamente entre si e se levantam. Andam ao seu encontro, um deles o chama pelas costas como quem cumprimenta um cunhado:

— Carter! Sabia que eu ia ter que ver a sua carcaça imunda de novo! – Disse o mais arrumadinho deles. Com uma casaca azul bem escura, um chapéu marrom limpo e um rosto barbeado.

O homem de preto fumando como locomotiva nem faz questão se virar e olhar nos olhos, responde de costas:

— O que você quer Dillon? – Respondeu o carrancudo fumante com uma voz grave e pesada.

— É ele mesmo? – Comentou o outro sujeito que o abordou.

— JUAN CARTER ESCORPION! Você nunca morre heim? – Continuou falando o homem da casaca azul, Dillon.

Escorpion silencia e continua andando.

— É – Continuou Dillon a falar tranquilamente – Vazo ruim não quebra como já disseram!

— Diga logo o que você quer! – Disse Escorpion se virando, a grafia nem a pronúncia está errada. O homem de preto que fuma que nem um desgraçado sem mãe era chamado assim. Uma amálgama do nome em inglês e espanhol do bichinho venenoso que anda por aí, as vezes sob a areia, as vezes por baixo, apenas esperando para te dar o bote.

— Bem cara... este seu olho nunca melhorou, não é? – Dillon fala em tom provocativo – Aquela pancada em Baton Rouge foi feia mesmo... – Dillon para de falar bruscamente e saca a arma, a apontando orgulhosamente para Escorpion.

— Já ficou sabendo, presumo – Disse Escorpion com desânimo, sem levar o canhão apontado para ele muito a sério.

— Todo mundo já sabe que estão te procurando do Texas ao Novo México! – Disse Dillon alto, tentando intimidar.

— Você sabe que eles ficam um do lado do outro, não é? – Comentou Escorpion cuspindo o toco de cigarro e acendendo outro tranquilamente.

— Não importa! – Retrucou Dillon, torcendo sua boca e queixo pelados – Eles querem você! E é morto... ou morto!

Escorpion, tinha o rosto típico de um mexicano de sangue latino mesclado com algum gringo qualquer. Provavelmente sua mãe era alguma prostituta ou lavradora no México, seu pai pode ter sido tanto um bêbado qualquer ou um rico comerciante do Leste. Ninguém sabe. Ele tem uma barba fechada que cobre toda sua mandíbula e seu queixo, cabelos negros, bem escuros, um dos olhos marcados, roxos. Já Dillon era um caucasiano nato, com nariz pontudo e cara de quem vai se aproveitar de você.

— Dillon – Escorpion fala sem muito entusiasmo, encarando o chão, seu chapéu de aba redonda cobrindo metade de seu rosto – Você está cometendo um erro.

— Não! – Dillon puxa o cão, finalmente e ergue a pistola pareando-a com o rosto de Carter – Foi a única coisa prestável que eu já fiz! – O colega que estava ao lado de Dillon engatilha uma escopeta – ...E vou fazer!

— Sério? Pegamos o Escorpião? – O cúmplice da espingarda, um sujeitinho medonho com dentes faltando, um chapéu velho e uma blusa branca manchada ri e debocha da situação – Fácil assim?

— Por que mesmo te chamam assim? – Pergunta Dillon já confiante, não podendo conceber como Carter iria se safar daquilo.

Escorpion levanta as mãos e diz – Não sei.

Carter, o tal Escorpion, estava bem perto do cúmplice. Percebeu que ou era um bêbado desatento ou simplesmente um idiota por natureza que não encarava direito o seu alvo. Escorpion só desce o braço sobre ele, desvia o cano da espingarda, fazendo em alavanca a coronha quase quebrar a mandíbula do infeliz. Toma a arma dele e dá um chute em Dillon no mesmo movimento. Dillon não estava atento o bastante. Desviou o olhar para algumas moças que estavam passando. Imaginando que seu coleguinha estivesse com uma espingarda bem grudada na barriga de seu alvo, e qualquer solavanco seria motivo para disparar e espalhar as tripas de Carter por toda parte. Dillon cai de costas, não derrubando a arma, quase atirando acidentalmente.

Escorpion toma e aponta o canhão de dois canos contra os dois sujeitos caídos no chão – Peguei dois vermes! – Diz ele triunfante, mas não parecendo muito entusiasmado com aquilo.

Dillon diz largando a arma – Cara! Foi mal! Vamos esquecer este assunto?

— Foi só um trote pra te dar boas-vindas! – Disse o outro que Carter julgava um idiota. Agora pensou que ele não era não bobo assim.

— Não foi o que você disse a um segundo atrás – Disse Escorpion não parecendo impressionado.

— Bastardo! – o cúmplice saca um revolver que devia ter enfiado em algum lugar dentro de sua calça e tenta meter uma bala em Carter.

KA-BOOM!

Escorpion dá um tiro que arrebenta a perna direita do cúmplice. Em seguida joga o canhão em Dillon, já que foi a munição dos dois canos no joelho do desgraçado ao lado. A arma bate com força no estômago de Dillon.

— Se quiser um tiro... Estamos aqui! – Diz Escorpion apontando para suas duas armas na cintura.

Dillon treme na base e seu colega nada faz além de cagar de dor e uivar como um cachorro maltrapilho.

As pessoas na cidade pouco se importam, no máximo se desviavam à uma distância aceitável enquanto passavam direto pela rua. Outros rapazes que se reuniam ali perto gargalhavam e riam dos coitados no chão. Se Dillon tinha uma reputação ali, acabou de perdê-la. Seria o completo clichê das mortes hediondas e gente indiferente, se não fossem as reações de escarnio de alguns cidadãos, debochando de Dillon.

Do outro lado da rua uns senhores mexicanos limpavam seus velhos óculos em seus ponchos enquanto apostavam no filho da mãe que morreria primeiro, o da perna estourada ou o que está sendo vaiado e tomando garrafadas.

Carter então continua casualmente seu caminho. Atravessa a rua com todos ali de olho nele. Tal então sobe a calçada de madeira e anda com o tilintar de suas esporas à cada um de seus pesados passos incomuns; Ele por si já era incomum, não pelas roupas negras. As roupas de quem procura marcar presença costumam ser negras, escuras. Ou eram algo próximo disso. Logo ficando desbotadas ou marrons seja pelo tecido ou pela terra. No entanto o traje de Escorpion parece ter acabado de sair de uma tinturaria.

O homem que acabou de mutilar alguém e virar de costas para um inimigo armado se dirigia para o primeiro bar que viu. Havia muitas maneiras de fazer uma entrada naquele tipo de cidade. Uma dentre tantas cheias de gente casca-grossa, jogos de azar e várias oportunidades de ir para a vala. Contudo, aquele tal de Escorpion mostrou como se faz. Logo as boas e más línguas dos arredores já falavam sobre o tal escorpião. Um que diziam ser um matador, procurado em alguns lugares, temido por outros. Se ele queria fazer negócios naquele lugar, começou com boa publicidade.