Quatro Amigos

4 Quarta parte


Douglas saiu da água e caminhou até o grupo.

Eles formavam um grupo esquisito? Quatro pessoas tão diferentes talvez nunca pudessem se entender completamente, mas a amizade não precisava disso para existir. Eles se encontraram em algum momento de suas vidas porque tinha que acontecer. Garotos tão diferentes que não pensavam no que seria deles no futuro. Continuariam sendo amigos? Mas que futuro é esse, se o amanhã é só uma promessa? Suas vidas aconteciam no agora, e por agora, eram quatro amigos.

Raul ouvia a música na rádio com cuidado, prestava atenção na mensagem da letra e na melodia, coisas que os outros ignoravam. Ele se prendia a essas coisas pequenas, isso o tornava mais feliz enquanto relaxava seus músculos e esvaziava sua mente. Pensar, questionar, tentar encontrar mistérios escondidos onde ninguém mais prestava atenção, eram seus passatempos. Sua mente sempre voaria a procura de respostas cujas perguntas não tinha coragem de fazer em voz alta, porque ela era uma mente rebelde e seus pensamentos mais corajosos que seu coração.

Raul temia que os outros percebessem que estava angustiado, nada bem naqueles dias. Vinha vindo de uma série de acontecimentos desagradáveis em sua casa, que o atingiam como ondas e afogavam suas forças de lutar por soluções. Nem tudo pode ser consertado, existem coisas grandes demais que nos arrastam para um beco sem saída e nessas horas não há força de vontade que dê conta. Você só fica lá, assistindo sua vida sendo levada, sem conseguir fazer nada, sentindo-se mal e fraco, e por vezes, terrivelmente covarde.

Mas, isso ninguém percebia, porque ele sempre foi quieto, demasiado fechado quando se tratava de sua vida. Era difícil notar qualquer mudança em seu comportamento, por isso, não poderia jamais culpar os amigos por não verem o peso que ele estava carregando.

Algo dentro de Raul dizia que ele deveria esconder aquele sentimento de raiva e medo, outro, com uma voz mais cansada e distante lamentava que ninguém tivesse perguntado "e aí, cara, como você está?" Ele só precisava disso, saber que alguém se importava com ele.

Foi difícil conseguir se levantar para a faculdade naquela manhã. Gostava das aulas e dos professores também, no entanto, não tinha amigos lá. Grades invisíveis o impedia de se arriscar a ser um estudante como os outros, soltos e despreocupados com regras e com o impacto de suas atitudes na sociedade, possivelmente, o que o segurava era a compreensão de que estava ali a favor, usurpando o lugar de alguém que realmente nasceu destinado àquilo. E por mais que tentasse, continuaria sentindo-se um ilegal, um aproveitador que chega tomando posse do que não lhe pertence e que não merece ser bem-sucedido em nada, nem admirado por seus atos egoístas.

Seu lugar era do outro lado do mundo, com pessoas de aparências e hábitos parecidos com o seu, que falavam sua língua materna, não nesse onde todos são tão sorridentes e diferentes. Aqui Raul sentia-se um intruso, nada mais.

Raul vivia solitário em seu próprio mundo, criando fantasias e se consolando em detalhes irrelevantes que ninguém percebia, para quando acordasse, visse que a realidade guardava a ruína dos negócios de sua família, seus pais brigando por dinheiro, com dívidas se acumulando no banco, a mãe fazendo bicos e cozinhando para fora para poderem pagar as contas e sobreviver. Não conseguia mais conversar dentro daquelas paredes, porque ali agora também morava infelicidade e frustração e, nisso, ele se sentia mais intruso ainda. Quase um ladrão.

Viu a mãe chorar quando venderam o carro há um mês, agora, ela negociava suas roupas e sorria quando conseguia um bom dinheiro por uma peça esquecida em seu guarda-roupa. Seu pai andava de cabeça baixa, seus funcionários estavam com salários atrasados e ele, um homem de fortes princípios criado em uma cultura rígida que preza sobretudo moralidade e honra, não poderia lidar com isso, era vergonhoso demais, como uma mancha na reputação da família e de seus ancestrais. Teria que dispensar seus melhores amigos porque a loja de tecidos estava sem clientes, mandar embora quem prestou serviços a ele por anos e sempre demonstrou fidelidade, e o faria covardemente, mesmo sabendo que dificilmente encontrariam um novo emprego no meio daquela crise econômica ou, mesmo que encontrassem, dificilmente teriam um chefe que os respeitassem como seres humanos. Desonra era a palavras que o pai mais usava nos últimos dias.

Quando Raul pensava em si mesmo, uma imagem muito forte lhe vinha à mente, o dia em que seus pais e ele tinham chegado ao Brasil. Ele era só uma criança com sete anos, nenhuma confiança em si mesmo e que jamais tinha ouvido qualquer palavra da língua portuguesa. Foi como se fosse um alienígena chegando a um novo mundo, tendo que assimilar todas as novidades de uma só vez. Demorou para habituar-se e sentir-se em casa, ainda hoje, com mais da metade da vida morando aqui no Brasil, ainda tinha dias que Raul se olhava no espelho e enxergava um desconhecido, alguém distante demais daquela terra que nunca poderia se encaixar, um pedaço desconectado de outro continente que se arrastava enquanto precisava aprender a ser independente.

Perguntava-se em noites ensone trancado em seu quarto, ouvindo as vozes alteradas de seu pais no quarto ao lado, se eles tinham se arrependido e, sobretudo, como teria sido a sua vida se jamais tivessem deixado o Japão.

Mas essas eram só mais perguntas cujas respostas Raul jamais conheceria.

O celular de Martin piscava em sua mão, mostrando que estava com a bateria acabando, mas deu tempo de tocar uma última música.

Metamorfose ambulante, do Raul seixas.

Se hoje eu sou estrela

Amanhã já se apagou

Se hoje eu te odeio

Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor

Lhe tenho horror

Lhe faço amor

Eu sou um ator

Eu vou desdizer

Aquilo tudo que eu lhe disse antes

Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

Martin cantarolou conforme a música avançava e seu celular gastava suas últimas cargas de energia:

— Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo... Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...

Carlinhos, que estava com os bolsos cheios de conchinhas do mar, sem motivo para ter feito isso, além de que deu vontade, olhou para Raul por um tempo, pensativo.

— Sabe, eu nunca entendi como pode um japonês ter o nome de Raul... — comentou e Douglas riu, também já tinha feito aquela pergunta ao amigo.

— Meus pais são fãs do Raul Seixas — disse o Japonês sem fazer caso, ele mesmo não entendia muito bem aquela história.

— Mas seus pais viviam do outro lado do mundo e você nasceu lá, não foi? Como pode eles já serem fãs do Raul? Cuzão, que confuso, nem tinha Youtube naquela época... ou no Japão já?

Raul deu de ombros, as mãos de novo nos bolsos.

— Em Tóquio meu pai trabalhou muito tempo para um comerciante de tecidos que era brasileiro, um dia esse senhor presenteou minha família com alguns CD's de cantores populares do Brasil, incluindo do Raul. Obviamente meus pais se apaixonaram pela música dele, tanto que me deram seu nome. Foi também esse chefe que pagou nossas passagem de navio para cá, antes de falecer. Era o sonho do meu pai conhecer o país que o Raul Seixas nasceu e aprender sua língua, pena que até hoje ele não aprendeu muito bem.

Quando o celular desligou, o som que preencheu seus ouvidos foi o quebrar de ondas e uma estranha quietude. Garças caminhavam discretas ali perto, procurando comida escondidas na areia molhada, e o ar pareceu estagnar-se, sem vento agora, o calor e mormaço tornando-se um incomodo.

— Faz sentido, eles tinham que gostar de alguma coisa no Brasil para escolherem vir para cá, não é? — comentou Martin, os amigos olharam para ele, sem muita reação — Por causa do Lula que não foi — murmurou.

— Então eles cruzaram o planeta por causa do Raul Seixas? — Douglas indagou com certa descrença, mas não escondendo o quanto gostava da ideia.

— Que dahora — Carlinhos sussurrou e voltou a procurar conchas. As ondas às vezes traziam novas para perto deles, o mar estava de ressaca e algumas algas também acabavam ficando para trás. Carlos se perguntou se aquilo serviria para pôr em seu aquário.

Martin brincava de afundar os pés na areia molhada, beliscando a areia com os dedos dos pés antes de afundá-los, os braços cruzados firmemente contra o peito e uma expressão de quem não pensa em nada importante.

Douglas caminhou um metro e meio, posicionou os chinelos na areia seca e se sentou em cima deles, os outros acabaram imitando sua atitude, Raul se sentou ao seu lado, mas Carlos que não tinha tirado os tênis e nem pensava em tirá-los por causa disso, procurou qualquer outra coisa perto para proteger a roupa de molhar com a umidade da areia.

— Empresta a mochila? — disse o loiro para Martin, que ainda estava de pé e o olhou desconfiado.

— Para que?

— Pra mim sentar aí no chão com conforto.

Douglas gargalhou daquela frase e da cara-de-pau do mais novo.

— Sonha, criança. Suja essa bunda ou fica em pé, vai usar minha mochila não.

— Tem um balde ali, ó. Eu vi lá atrás. Vai pegar.

— Quer brincar de montar castelinho de areia, japa?

— Estou tentando te ajudar, imaturo. Ou fica em pé.

Carlos resmungou qualquer coisa, mas foi pegar o objeto, se sentou ao lado dos amigos. O balde de plástico afundou com seu peso e ele quase caiu, mas Douglas o segurou.

— Vai agora não, mano.

— Ideia do japonês — reclamou, arrumando um jeito de se sentar sem cair. Douglas tinha apertado seus hematomas sem saber quando o segurou.

Raul revirou os olhos e encarou Martin que ainda estava em pé por não querer se sujar, claro.

Eram mais de nove da noite agora, ao longe dava para ver algumas luzes de casas e prédios, a cidade se estendendo ainda acordada.

— Que foda — Carlos murmurou depois de alguns segundos de silêncio, admirando a vista.

— Você fala muito palavrão, garoto — Raul falou calmo, era algo que todos já sabiam, mas ele queria que pudessem conversar sobre qualquer coisa. O silêncio trazia pensamentos indesejados.

— É, bostinha, o que você está estudando na escola?

— Se fuder, Martin, estudo como comer a sua mãe direito.

O mais velho riu, naqueles momentos a diferença de idade ficava ainda mais evidente.

— Vamos ter que lavar essa sua boca com sabão, para ver se dá jeito —Douglas sugeriu, implicando.

— Só não pode lavar em uma piscina e nem com a torneira aberta muito forte para não assustar a criança — Martin completou.

Carlos bufou e fechou a cara, cansado já daquele papo.

— Eu vim para cá porque achei que vocês queriam conversar algo sério, senão tinha ficado em casa jogando CS.

— Desde quando a gente conversa algo sério? Retrucou Martin, esticando o pé até o balde debaixo de Carlos, tentando empurrá-lo para derrubar o garoto, mas recebeu um tapa dolorido e se afastou.

— Até parece, você só queria fugir da louça do jantar — Douglas assegurou, convicto.

— Mas eu também estranhei a sua mensagem, Dog. Você quase nunca chama no whats — falou o oriental sem muito alarde, mas curioso.

— É, viado, você mandou dez mensagens de uma vez só, às cinco da manhã, porra. Pensei que o mundo estava acabando em tiroteio, ‘cê é louco? Não sei que mania é essa de enviar uma palavra por vez. Tomar no cu, eu acordei com seu chilique.

— Então agradeça a ele, loirinha. Se você estuda de manhã tem que acordar esse horário mesmo todo dia, ele te fez um favor.

— Eu chego atrasado na escola, Martin, é o meu estilo.

— Estilo vagabundo.

— Se fuder, Douglas. Me acordou, não vem me zoar agora. Se queria me ver, vai ter que me tratar bem já que estou aqui.

— Aiai, Carlinhos quer uma recompensa? — Martin debochou.

— Provavelmente está com fome de novo — Raul teorizou e sorriu travesso. Carlos mostrou o dedo para ele.

— Eu estou sem dinheiro — Douglas disse logo depois e os meninos riram, achando que fosse uma piada com o assunto de agora, mas não, quando Douglas ficou sério e continuou sem dizer nada, eles pararam e começaram a entender. — Por isso que eu estou estranho nesses dias. Eu não sei, as coisas estão complicadas... Não tenho mais controle de nada.

Os três se entreolharam, Douglas falava enquanto olhava para o chão, ombros caídos e voz cansada.

— O que está acontecendo, brother? — Martin perguntou, se inclinando e tocando o ombro de Douglas para que ele o olhasse, mas o outro afastou sua mão, orgulhoso.

— Nada, está acontecendo nada — Ele não queria a pena de ninguém. Choramingos não são para ele.

— Porra, cuzão, fala logo. Começou termina. Que covardia.

Martin olhou azedo para o loiro e por um momento quis empurrá-lo daquele balde idiota.

Respirou fundo.

— Sério, não é nada. É que as coisas... — coçou o pescoço, sentindo um leve desespero subindo por sua garganta, sem conseguir verbalizar, escondeu o rosto nas mãos e ficou assim por alguns segundos, reunindo forças. — Minha mãe perdeu o emprego — dizer aquilo em voz alta era sofrido demais. Todos prestavam atenção — Já faz algumas semanas que ela não sai da cama, está doente de novo... A merda de sempre... — Sua voz estava cheia de emoção, raiva e sofrimento, mas ele não chorava, nem parecia perto de chorar. Só estava muito cansado — Eu não sei mais o que fazer para ajudar ela. Eu queria... Eu queria muito poder tirar ela daquele estado... Mas ela está doente de novo, e o meu irmão... Ele não entende isso. Eu cresci com a minha mãe assim, estou acostumado, mas o Rafael só tem três anos... Ele não entende nada, principalmente porque minha mãe estava bem nos últimos anos, a gente estava conseguindo levar as coisas, sabe? — Ele já não conseguia mais parar de falar, tinha segurado aquilo por tempo demais.

Mesmo depois que meu pai se casou de novo, minha mãe foi forte. Ela sofreu muito, mas cuidou da gente. Mas agora... Porra, foi um tiro no peito dela perder o emprego. Ela se dedicou muito, eu via isso todos os dias, o quanto ela se dedicava naquele serviço, mas mesmo assim... A empresa não pensou nem duas vezes antes de mandar ela embora quando as coisas começaram a apertar... — As palavras engasgaram em sua garganta, ele percebia que estava falando demais, e o choro que estava abafando de repente tornou seu rosto velho, irreconhecível.

— Você pode chorar cara, não tem problema — Carlos assegurou coma voz suave, ele tocou os ombros de Douglas com a mão e tentou confortá-lo com um gesto amistoso e gentil, isso meio que deixou Douglas surpreso, mas ele não voltou atrás, não iria chorar.

***

(Alguns anos depois)

Então, precisamos comprar um sofá.

Por quê? Não, está ótimo, temos mais espaço sem um sofá.

Amor, não dá para ficar assistindo TV sentados em latas de tintas. E quando é que você vai pintar isso aqui? As paredes estão descascando. Quando eu chego do serviço está de noite, você tem que me ajudar, poxa.

Acabamos de nos mudar.

Eu sei que acabamos de nos mudar, mas precisamos começar a deixar isso aqui com cara de lar, né? Vamos comprar um sofá.

Por que é que você cismou com sofá? Temos espaço.

Esse é o problema! Temos espaço demais porque não temos móveis! A casa está vazia e nossa cama é um colhão no chão...

Calma, acabamos de nos mudar.

Você vai ficar só repetindo isso? Eu sei disso! E precisamos comprar um berço.

Fizemos o cadastro de adoção ontem! Meu Deus, e você já quer comprar um berço? Nós nem temos sofá!

***

(Mais alguns anos depois)

Papai, amarra os meus sapatos? Por favor, por favorzinho. 'Tá difícil.

Filha... Estou ocupado agora. O pai está trabalhando no computador. Você sabe fazer isso.

É difícil, muuuito difícil! Eu prendo o meu dedo todas as vezes. Não consigo, já tentei. Acho que nunca vou conseguir.

Do que está falando? Tenho certeza que você vai conseguir se tentar outra vez.

Por que eu tenho que tentar outra vez? Já fiz antes, prendo meu dedo, já falei. Por favor, papai. Você amarra rapidinho...

Eu sei que você vai conseguir desta vez, filha.

Ahh, você está me enganando. Como é que você sabe disso?

Porque nós dois somos iguais, e eu também sempre erro algumas vezes antes de aprender uma coisa nova.