Quatro Amigos
5 Quinta parte
— Chorar não resolve nada. Eu não tenho tempo para isso, preciso arrumar um jeito de ajudar minha família. Preciso arranjar um emprego e entrar na faculdade.
— Você acha que isso vai resolver tudo, Dog? — Raul começou a falar, somente alto o suficiente para quem estivesse muito perto escutar — Você quis nos ver hoje por alguma razão. ‘Cê sabe que precisa conversar sobre isso, que não dá para resolver tudo sozinho.
— Não é vergonha nenhuma isso, Douglas. Todo mundo precisa de ajuda alguma vez na vida — Martin falou com sinceridade.
Carlos não sabia mais o que poderia dizer, talvez todos estivessem certo e ele fosse mesmo imaturo e despreparado, porque mesmo vendo a dor no rosto do amigo só conseguia pensar "porra, ele não deveria pedir minha ajuda, eu não sei como ajudar nem eu mesmo".
— Eu não estou pedindo ajuda de ninguém. Só estou dizendo porque, se de repente eu começar a agir estranho demais, ou sumir, não quero ninguém preocupado. Os próximos dias serão complicados, estamos atrasados no aluguel e... Eu não sei como vai ser.
— O que você quer dizer com isso? — Carlinhos perguntou confuso.
Douglas olhou para o menino de olhos azuis que também escondia seus próprios segredos.
— O que eu estou dizendo é que pode ser que no próximo mês eu não tenha um lugar para morar, é isso. Mas eu e minha mãe vamos achar uma solução e na pior das hipóteses, estaremos juntos.
Entretanto, o jovem sabia que aquilo não era completamente certeza, porque seu pai deixou claro que tomaria sua guarda e o levaria para morar com ele em São Paulo, mesmo que tivesse que obrigá-lo legalmente a acompanhá-lo, caso sua mãe não tivesse mais um lar para dar aos filhos. Douglas não tinha conseguido manter o irmão por perto, mas o pai não poderia forçá-lo a abandonar a mãe doente na sarjeta ou, como seu pai sugeriu, em um hospital público para ficar internada na ala psiquiátrica aos cuidados de desconhecidos. Não. Aconteça o que acontecer, ele ficará com ela e nem mesmo a justiça alegando que ele ainda é menor de idade e incapaz de cuidar de si mesmo e de uma mulher adulta e doente, poderia fazê-lo mudar de ideia. Não poderia abandonar sua mãe porque nenhum lugar sem ela jamais poderá se tornar seu lar.
Você mora no coração de quem você ama, essa é a verdade. Tendo isso, se tem abrigo, proteção e chances de ser feliz, independente do cenário. Sua mãe precisava dele para voltar a sorrir, ela dependia disso.
— Cara, eu tenho duzentos reais em casa. Não vem me jogar pedra, véio, é de coração. Eu quero que você fique com essa grana.
— Da onde você tirou duzentos reais, Carlinhos? — Martin perguntou curioso.
— Meus pais me dão trintão por semana, eu estava juntando para um vídeo game, mas que se foda, eu sou ruim pra caralho nisso mesmo e já tenho meu computador pra jogar CS, então não preciso de mais uma porcaria nova pra ficar jogada e entulhando meu quarto. Fica com esse dinheiro, Dog. De verdade, não é muito, mas é o que eu tenho para te dar uma força.
Douglas estava sem palavras. Se fosse Martin dizendo aquilo talvez ficasse muito nervoso, mas... Carlos?
— Poxa, parça, eu sei que é de coração, mas eu não posso aceitar.
— Por que não? Eu não roubei nada não, ‘tou te falando, é dinheiro limpo.
— Mas é um dinheiro que seu pais te deram e eles trabalharam muito para conseguir garantir que você gastasse cada centavo com o que tivesse vontade.
— Então, cuzão, estou com vontade de gastar com você, qual o problema?
— Carlos, meu, não vou pegar o seu dinheiro, ok? Não comecei esse assunto pensando nisso. Não quero dinheiro nenhum de ninguém aqui, vocês são meus amigos, não meu caixa eletrônico. Ninguém tem culpa de eu estar na lama.
Martin não estava mais conseguindo ficar calado. Douglas era sempre tão teimoso e orgulhoso que estava ficando insuportável. Dinheiro é uma merda insignificante, papel e tinta, coisas que as pessoas criaram para poderem competir e ter poder. Mas entre eles? Não, a amizade deles era sincera, sem segundas intenções, por que Douglas não percebia isso?
— Está dizendo que eu não sou bom o suficiente para você poder aceitar minha ajuda? Deixa de ser trouxa, Dogão. Não faz por você, faz pela sua mãe e o seu irmão, caralho. E não estou te oferecendo meu fígado não, é só duzentos reais — Carlos disse, meio alterado, meio chateado.
Aquilo calou Douglas, pensou no irmão morando em São Paulo, na mãe que provavelmente não tinha comido nada desde que ele a forçou a almoçar no começo da tarde. A depressão tinha sugado toda a força de viver dela, mas ele ainda tinha esperanças.
— E se não fosse dado, hein? E se você aceitasse com a condição de devolver depois? — Raul sugeriu, havia ficado calado pensando em uma solução que não ferisse o orgulho do amigo — O Carlos não vai mesmo usar esse dinheiro por enquanto, até porque nenhum vídeo game bom custa só duzentos reais, então ele vai ter que juntar o resto e esse dinheiro estaria guardado de qualquer forma. Enquanto isso, você já está procurando um emprego, não demora e você vai achar um, com um mês você recebe um salário e paga o Carlos. Compensa para o dois, pensa bem, com ele juntando trinta reais por mês, melhor, menos de trinta, tenho certeza, porque ele gasta metade com comida, vai acabar conseguindo o restante da grana do vídeo game só em 2020, ou nem — Carlos fez um bico.
— Sem falar que com os duzentos na casa dele, é bem capaz o Carlos acabar gastando com dúzias de pizzas quando uma nova série estrear na TV — Martin completou e Raul o olhou grato pela colaboração, ninguém se importava que Carlos estivesse ficando puto com aquelas insinuações.
— Isso mesmo — o japonês concordou. — Então, pense bem, com você garantindo que vai devolver no futuro, e ninguém tem dúvidas que vai mesmo, é uma boa solução para o Carlos. Se for pensar bem, é você quem está ajudando ele, impedindo que ele gaste com besteiras e acabe não conseguindo o valor total do vídeo game.
Raul o olhou sério e Carlos respirou fundo, entendendo finalmente onde os amigos queriam chegar.
— É velho, daqui uns dias vai estrear monte de séries legais, eu com certeza foi gastar tudo com comida. Sabe como eu sou, quando fico ansioso fico com muita fome.
— Só quando está ansioso? Você tem o que, um transtorno de ansiedade crônico, é? — Martin retrucou e eles riram de leve, nem Carlos se importou dessa vez. O clima suavizou um pouco e Douglas não parecia mais tão imutável sobre sua opinião. Ainda não gostava daquela ideia, mas, não era tão estúpido para não conseguir perceber que os amigos estavam se esforçando para fazê-lo aceitar ajuda. Eram como uma quadrilha aqueles três, só que uma quadrilha do bem, distribuindo paz, flores e mesadas de garotos de quatorze anos.
— Droga — Douglas se deu por vencido — Vocês são foda. — Os amigos sorriram para a sua expressão nervosa, mas também grata — Carlos, eu juro pela minha vida que eu vou te devolver — O loiro fez um gesto desencanado — Mesmo assim, ainda preciso de um emprego.
— Eu queria poder te ajudar, cara. Você sabe que se fosse um ano e meio atrás até dava para te arranjar uma vaga lá na loja dos meus pais, mas agora com essa crise... Tem risco de você ir para lá e no final do mês só termos dinheiro para te pagar com uma coxinha — Raul dizia.
— Se fossem umas duzentas pelo menos... — Carlinhos disse pensativo. Douglas riu.
— Não tem problema, japa, eu sei que está difícil” ficou em silêncio por dois segundos, então começou a rir — Se bem que é um alívio não ter que trabalhar para os seus pais, desculpe, mas fico pensando como eu ia entender o que era para eu fazer com eles falando japonês comigo.
Martin e Carlos gargalharam, Raul riu mais acanhado, um pouco constrangido pelos pais que tinha.
— Eu os ouvi conversando uma vez, aí pedi para o Raul me traduzir o que eles estavam dizendo porque eu não estava entendendo nada daquela língua, o que que foi que você me disse Raul, hein? — Martin perguntou. Raul sorriu sem graça.
— Que eles já estavam conversando em português” Disse e os amigos explodiram em gargalhadas.
— Isso porque moram aqui há doze anos, velho. Desculpe, Raul, mas eu não entendo nada que seus pais falam — falou o mais velho, sincero. Raul deu de ombros.
— Acho que os clientes também não, por isso foram embora — brincou, com o humor negro e melancólico. Os amigos perceberam.
— Vai passar, cara. Até meu pai no consultório anda reclamando que está faltando serviço. E meu pai é cirurgião, mexe com coisas do coração e tal.
— Que romântico — Carlinhos não perdeu a oportunidade, Martin continuou:
— Quer dizer, as pessoas estão adiando até cirurgias que significam a sobrevivência delas porque não tem dinheiro para pagar e vão procurar nos hospitais públicos que tem uma fila enorme. Sacou? Essa crise financeira está em todos os lugares, mexendo com todo o mundo. A mãe do Douglas, meu pai, a loja dos teus pais e... — ele olhou para o Carlos — O que os seus pais fazem mesmo? ”
O loiro arregalou de leve os olhos, surpreso.
— Meu pai é pastor — revelou sem jeito.
— Hã? — Martin não conseguiu evitar aquela reação. — Você é filho de pastor? — E caiu na gargalhada. Os outros também riram, embora Douglas sentia-se mal por brincar com aquele tipo de coisa, estava frequentando a igreja nos últimos meses e era um dos poucos lugares que o faziam se sentir calmo, com a cabeça no lugar. Poderia sentir muita raiva do mundo e injustiçado, eram impulsos naturais, mas ele tentava evitar isso ao máximo. Sentir raiva da vida ou de Deus não resolvem nenhum problema. Mesmo assim, descobrir que o Carlinhos, aquele garoto completamente doido era filho de um pastor, não era algo que ele conseguisse evitar de rir. Rir de espanto. — Porra, como é que eu não sabia disso, Carlinhos? Logo você filho de pastor? —Martin gargalhava até se contorcer com ardência na barriga.
— Que é, cuzão? Eu sou suave, nem tem porque se surpreender. É só pão e vinho, pão e vinho, estou fechado para coisas ruins. Meu pai é o cara, gente boa pra caramba.
— Carlos, meu, você não é evangélico? Comungar não é só para católicos? — Raul falou, mas sinceramente, não tinha muita certeza já que não praticava nenhuma religião.
— É nada, cuzão. Lá na minha igreja o pessoal faz sim, normal. Mas o pão é chamado diferente, né. Católicos chamam de eucaristia e a cerimônia eles chamam de comunhão, e para os crentes é santa ceia, que é comer um pedacinho de pão e tomar um gole de suco de uva, sabia não? Só que os cristões protestantes não são que nem os católicos, claro. Na minha igreja é uma vez por mês só, já a igreja católica dá hóstia que nem diz amém.
— Para de falar merda, Carlos. Respeita a fé das outras pessoas, tio — Martin falou, odiava esse tipo de competição entre religiões e se surpreendia ouvindo intriguinhas logo do Carlinhos, mas talvez desse para entender, já que essas mensagens estavam tão fortes dentro da casa dele.
— Mas da santa ceia o cristão só participa se estiver com a consciência limpa, não é? — Douglas questionou, Carlos assentiu. — E aí, hein, quantas vezes você já participou este ano, loirinha? Dá para contar nos dedos ou não? — E sorriu irônico.
Carlos ficou sem jeito.
— ’Cê ‘tá doido? O pastor é meu pai, cachorreira, tem para onde correr não. Troco uma ideia com Jesus depois e fica tudo suave.
Raul revirou os olhos.
— De qualquer forma, será que o seu pai não está precisando de nenhuma ajuda por lá não? Eles não costumam ajudar a comunidade? Então, tenta ver uma vaga de qualquer coisa para o Douglas, ele está precisando mesmo e seu pai sabe que ele não é nenhum vândalo.
Carlos ficou pensativo. Douglas prestou mais atenção em sua reação, sentindo-se ansioso.
— Tá aí, japonês, finalmente você deu uma boa ideia. O Brasil não te estragou completamente. Posso ver isso sim, hoje mesmo eu pergunto para o meu pai e te falo, Dog.
— Valeu cara, isso sim vai me ajudar pra caramba.
— Só não prometo nada, meu pai é enrolado também.
— Tudo bem, só de tentar já faz toda a diferença. Obrigado por essa moral, loirinha.
Carlos coçou o pescoço, sem graça.
— Loirinha é o caralho, porra — respondeu fingindo estar ofendido, só para não perder o costume.
Martin pensou naquilo. Sabia que Douglas jamais aceitaria qualquer dinheiro dele, era orgulhoso demais para isso, mas talvez também poderia tentar ajudá-lo de outra forma.
— Vou ver com a minha mãe também, Douglas. Perguntar se ela tem alguma vaga livre na grife... Eu sei que é meio zoado trabalhar em loja de mulher, mas ela fica perto da sua escola e você vai ter toda a documentação certinha. Só tem um porém, se tiver alguma coisa, pode ser um serviço que...
— Eu limpo até banheiro, Martin, sem vergonha nenhuma. Eu só preciso ajudar a minha mãe logo.
Martin assentiu, respeitando aquilo.
— Também pergunto pro meu pai se ele conhece alguma vaga de aprendiz em algum lugar. Enfim, minha família é grande e conhecemos muitas pessoas, vou sair perguntando para geral. Foi bom você ter contado para nós, brother, com certeza de alguma forma vamos achar uma saída e você vai ficar bem.
— Dou até meu quarto para você e sua mãe ficar, Douglas. Meus pais não vão achar ruim, te garanto, quando chegamos no Brasil fomos ajudados por muita gente também. Pode estar difícil, mas sem um teto você não vai ficar não — Raul falou.
— É, cuzão, para de ser escroto e querer resolver tudo sozinho, você tem amigos. Quem tem amigos tem tudo — Era difícil para Carlos admitir, mas havia um pouco de hipocrisia naquelas suas palavras, afinal, ele mesmo não estava contando tudo que deveria. Foi questão de segundos para começar a sentir mal e desconfortável com aquilo. Talvez fosse melhor contar seu segredo para alguém, eles poderiam ajudá-lo.
Douglas sorriu, pela primeira vez em semanas conseguindo respirar sem dor. Estava emocionado.
— Valeu mesmo, gente. Vocês são... Nem sei o que dizer, pô.
— Sem drama maluco, você sabe onde eu moro, me manda flores depois que fica tudo certo. Rosas do campo, por gentileza. Agora, sem viadagens — Carlos falou e eles riram.
A lua no céu, o mar, as gaivotas... E um grupo de amigos muito diferentes.
— Eu... Eu tenho uma coisa para contar para vocês — Carlinhos disse depois de um tempo.
***
(Anos depois)
— O que você acha da gente comprar um cachorro?
— Por que comprar, tem um monte de cachorros que podem ser adotados. Mas eu não sei não, cachorro é complicado.
— Penso que vai ser uma boa companhia para as crianças.
— Pai, olha, olha, ele está me irritando de novo.
— Filha, estamos conversando. Deixa seu irmão quieto.
— Mas é ele quem está mexendo comigo! Sai daqui menino!
— É ela, pai! Mentirosa de uma figa! Bruxa, bruxa, bruxa!
— Eu não sei não, querido. É muito difícil educar um cachorro.
— Papaaai! Sai daqui seu idiota! Papaaaai!
— Crianças, parem. Filho, sai de cima dela.
— Bruxa, bruxa, bruxa!
— Mas e se o nome dele for Elvis?
— Papaaaai!
— Seria legal um cachorro chamado Elvis.
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