Quase - Percabeth AU
7 Quando Nada é Dito
POV Percy
Minha vida estava mudando rápido demais para que eu conseguisse acompanhar.
Minha mãe falava cada vez mais sobre datas, exames e a viagem, enquanto caixas e mais caixas surgiam pelos cantos do apartamento, guardando todas as nossas memórias dentro delas. Tudo parecia provisório — menos o aperto constante no meu peito. Eu ainda não tinha me mudado de fato, mas já me sentia fora do lugar.
Dormia mal. Pensava demais. E, como se o universo tivesse decidido testar meus limites, Annabeth Chase havia se tornado parte desse caos silencioso que eu fingia controlar.
Os dias que se seguiram à detenção passaram estranhamente rápido.
Na escola, nossos caminhos ainda se cruzavam — corredores, escadas, refeitório, sala de aula — mas ela agia como se eu fosse apenas mais um obstáculo no trajeto. Nenhuma provocação, nenhum comentário ácido, nenhuma briga no corredor.
Eu odiava admitir, mas preferia quando brigávamos. Na sexta-feira, o universo resolveu rir da minha cara.
— O projeto final será em dupla — anunciou o professor Quíron, passando lentamente pela sala em sua cadeira de rodas. — E as duplas já foram definidas por sorteio.
Ele parou em frente à turma, colocou os óculos e começou a ler os nomes no caderno.
Meu coração apertava a cada dupla anunciada sem que nossos nomes fossem chamados. Já começava a aceitar que faria o trabalho com um dos irmãos Stoll quando Quíron finalmente disse:
— Percy Jackson e… Annabeth Chase.
Alguns cochichos surgiram pela sala. Jason virou no banco de trás com uma expressão clara de “boa sorte, amigo”. Quíron olhou diretamente para nós dois, como se nos desafiasse a reclamar — e deixasse claro que um sermão já estava pronto, caso isso acontecesse.
Mas Annabeth, sentada à frente, não reagiu. Não protestou. Não virou. Apenas anotou algo no caderno, como se aquilo fosse irrelevante.
Talvez fosse.
Só não para mim.
Em silêncio, Annabeth arrancou uma folha do caderno e passou por Jason até chegar a mim.
O combinado era nos encontrarmos na sala de estudos para iniciar a pesquisa. Claro que dificilmente Annabeth aceitaria me ver fora da escola.
*
A sala estava praticamente vazia quando cheguei. As luzes frias iluminavam mesas organizadas demais para um lugar onde ninguém parecia realmente estudar. Annabeth já estava lá.
Sentada, postura impecável, livros abertos, caneta em mãos e o notebook ligado. Parecia completamente concentrada.
— Você já começou? — perguntei, largando a mochila na cadeira ao lado.
— Sim — respondeu, sem levantar o olhar. — Dividi o trabalho em partes. Eu fico com a pesquisa principal, você com a parte histórica. Podemos alinhar hoje e fazer o resto separado.
Pisquei devagar, encarando a folha que ela empurrou na minha direção.
— Você decidiu isso sozinha?
— Era o mais lógico — disse, ainda sem me olhar. — Assim terminamos mais rápido e não precisamos nos encontrar de novo.
O tom tranquilo dela me irritou mais do que qualquer provocação antiga.
— Você sempre faz isso — falei, sem conseguir conter.
— Isso o quê? — ela franziu a testa.
— Age como se eu não estivesse aqui. Como se não se importasse se eu tenho algo a dizer.
Ela suspirou e virou o rosto na minha direção.
— Por que eu sinto que isso não é só sobre o trabalho?
Os olhos dela se estreitaram.
— Provavelmente porque você sempre foi assim comigo desde que tínhamos treze anos. E talvez porque eu esteja começando a me cansar dessa rivalidade estúpida que você criou.
— Não começa, Percy.
— Eu não tô começando nada — respondi, baixo.
— Tá sim. E eu sei por quê. Se tudo isso é por causa do que aconteceu no refeitório…
— Não é só sobre isso — interrompi. Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — É sobre você fingir que nada mudou depois daquilo.
— Porque nada mudou — ela rebateu, seca.
— Talvez não pra você. Mas mudou pra mim.
O silêncio se esticou entre nós.
— Você tá confundindo as coisas — Annabeth disse, firme. — Foi só… um momento estranho.
— Estranho o suficiente pra você evitar até me olhar.
— Você sempre dramatiza tudo — rebateu.
— Eu dramatizo tudo? — retruquei. — Foi você quem começou uma guerra porque eu pisei na bola anos atrás. E sou eu que dramatizo?
— Não vamos voltar nessa discussão.
— Claro. Porque não é bom quando eu aponto um erro seu, não é?
— O que você quer de mim, Percy?
A pergunta saiu seca, direta.
Levantei da cadeira, sentindo a irritação ferver.
— Eu quero entender — respondi. — Por que você age como se nada tivesse acontecido. Como se… — parei, buscando as palavras — como se eu fosse invisível.
Ela cruzou os braços.
— Talvez você esteja dando importância demais a algo que não teve. Nem tudo gira em torno de você.
A frase me atingiu em cheio.
— Então por que você age como se eu fosse um problema? — perguntei.
— Porque você transforma tudo em algo que não é.
— Ou talvez você esteja com medo de admitir que é.
Ela se levantou abruptamente, ficando frente a frente comigo. De repente, a sala pareceu pequena demais para nós dois.
— Não coloca palavras na minha boca.
— Então coloca você mesma — desafiei. — Porque esse silêncio tá dizendo muita coisa.
Por um segundo — só um — achei que ela fosse dizer algo diferente. Algo honesto.
Mas Annabeth respirou fundo, e o controle voltou.
— Você não sabe do que está falando.
— Sei sim — respondi, agora mais baixo. — Sei que, pela primeira vez, eu não tô tentando brigar com você. E mesmo assim… você me trata como se eu fosse um erro.
Ela desviou o olhar por um instante. Foi pouco, mas suficiente para me dar esperança — e ódio de mim mesmo por isso. Dei um passo em sua direção e, para minha surpresa, ela não recuou.
— Nem tudo precisa ser dito, Percy — murmurou.
Meu peito apertou.
— Pra mim precisa.
Ela voltou a me encarar, firme outra vez.
— Esse é o seu problema.
O silêncio ficou pesado, quase sufocante.
— Então é isso? — perguntei. — Você simplesmente não consegue abrir mão dessa rivalidade idiota?
Annabeth ergueu o queixo, defensiva.
— Não tente entrar na minha vida de novo. Você não faz parte dos meus planos.
As palavras ecoaram na minha cabeça, altas demais.
— Certo — murmurei, dando um passo para trás. — Então vamos fazer o trabalho. Só isso.
Ela assentiu, fria.
— Exatamente.
Voltei para a cadeira, mas já não conseguia me concentrar em nada. A atividade em dupla parecia uma piada de mau gosto: duas pessoas presas no mesmo espaço, fingindo que não havia nada queimando entre elas.
Quando o tempo acabou, recolhi minhas coisas sem dizer nada. Ela fez o mesmo.
Nenhum “até amanhã”.
Nenhum olhar prolongado.
Ao sair da sala, entendi algo que apertou meu peito do jeito errado.
Talvez Annabeth Chase nunca fosse minha.
E talvez o que mais doesse não fosse isso, mas perceber que eu não estava pronto pra desistir dela.
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