Notas iniciais
Esse capítulo é literalmente o que o título diz: um ponto de virada. Depois dele, o Percy não será mais o único narrador dessa história. Aproveitem...

POV Percy

Eu ainda não tinha me acostumado com a casa do meu pai.


Era grande demais. Silenciosa demais. Organizada demais. Nada ali parecia realmente meu, exceto a confusão que eu carregava comigo.


A única vantagem era a proximidade com a praia. Na verdade, a praia de Long Island era praticamente o nosso quintal. Essa era a vantagem de quando sua família era dona do condomínio.


As caixas da mudança já tinham sido abertas. Minhas coisas estavam espalhadas pelo quarto, e a bagunça parecia espelhar perfeitamente a confusão que existia na minha cabeça. Levantei da cama e tropecei em uma das caixas no caminho até a porta, praguejando baixo, ainda sonolento, antes de descer em direção ao andar de baixo.


*


Na cozinha, o cheiro de café fresco se misturava ao som baixo da chuva batendo contra as janelas.


Minha mãe estava sentada à mesa, com as mãos envoltas na caneca de café, enquanto Paul encostava no balcão, de braços cruzados. Poseidon andava de um lado para o outro, inquieto, como se o chão não fosse firme o suficiente para sustentar aquela conversa.


— Você precisa contar pra ele — disse minha mãe, calma, mas firme. — Não pode continuar adiando.


— Eu sei — respondeu meu pai, passando a mão pelos cabelos. — Mas não é simples, Sally. O Percy… ele já tem coisa demais acontecendo.


Parei na porta ao perceber que meu nome fazia parte da conversa. Os três estavam tão concentrados que mal notaram minha presença.


— E vai continuar tendo — ela rebateu. — Principalmente porque eu não vou estar aqui por um ano. Você vai precisar segurar as pontas por esse tempo.


O silêncio que se seguiu foi pesado. Continuei ali, sem intenção de escutar… mas também sem conseguir sair.


— Eu pedi sua ajuda porque você sempre soube lidar com ele melhor do que eu — Poseidon continuou. — Você consegue intermediar as coisas. Acalmar.


— Poseidon — minha mãe suspirou —, você não pode me colocar nesse papel agora. Não dessa vez. Você é o pai, ele já tem 17 anos.


— Eu sei, é que você faz tudo parecer tão fácil.


Meu pai disse isso, o que fez Paul sorrir de leve. Minha mãe tomou um longo gole de café antes de falar novamente.


— Você precisa aprender a lidar com as reações do seu filho. Com os conflitos. Principalmente agora.


Engoli em seco.


— Ele já tá passando por mudanças demais — Paul acrescentou, com cuidado. — Último ano da escola, faculdade, mudança de casa… esconder algo assim só vai piorar quando vier à tona.


Foi aí que resolvi entrar.


— Esconder o quê?


As três cabeças se viraram para mim ao mesmo tempo.


— Percy… — minha mãe disse, levantando-se de imediato. — Você não devia…


— Meu pai tá escondendo alguma coisa de mim? — perguntei, a voz séria demais para alguém que ainda se sentia um pouco criança por dentro.


Poseidon me encarou por alguns segundos longos. Depois respirou fundo.


— Não estou escondendo nada — disse. — Estou… adiando.


— Isso sempre dá errado — respondi.


Um canto da boca dele se ergueu em um quase sorriso cansado.


— Você puxou isso de mim.


Minha mãe se aproximou e pousou a mão no meu braço.


— Querido, é sobre o seu pai… e a namorada dele.


— Se for sobre isso, eu já sei que você está saindo com alguém — perguntei, direto.


— Não estou só saindo, Percy — Poseidon respondeu. — Ela é alguém importante.


— Importante o suficiente pra envolver todo mundo em um mistério? — retruquei.


Ele hesitou, depois assentiu.


— Sim.


Houve um silêncio desconfortável. Pensei em Annabeth automaticamente. No jeito como ela escondia tudo atrás de controle e lógica. Balancei a cabeça, afastando o pensamento.


— Tá — falei por fim. — E qual é o problema, então? Eu posso conhecê-la e prometo me comportar.


O olhar do meu pai pareceu se iluminar com a oportunidade.


— Jantar — disse ele. — Hoje à noite. Na casa dela. Eu gostaria que você fosse. E que a Sally e o Paul também viessem.


Minha mãe arqueou a sobrancelha.


— Hoje?


— Hoje — confirmou ele. — Você está certa. Acho que já adiamos demais.


Cruzei os braços, sentindo aquele velho misto de curiosidade e receio.


— E o nome dela?


Poseidon sorriu… e desviou o olhar.


— Você vai descobrir.


Suspirei.


— Claro que vou.


— Eu ainda acho que o seu pai poderia falar logo… — minha mãe continuou.


— Sally, por favor, deixe essa decisão comigo, tá bem?


Meu pai pediu, e minha mãe semicerrou os olhos em sua direção. Ela virou o olhar para Paul, que assentiu levemente.


— Tudo bem, você venceu. Mas se algo sair do controle, é você que vai resolver. Estamos entendidos?


— Mas por que algo sairia do controle?


Perguntei confuso. Eu não entendia o mistério, a insegurança do meu pai em me contar quem era ela, ou a insistência da minha mãe para que ele falasse logo.


— Percy, vai tomar café, senão vai se atrasar para o treino.


Foi a única resposta dela. Fechei a cara, mas obedeci. Odiava quando voltavam a me tratar como se eu fosse criança.


*


O treino de natação foi a única coisa que manteve minha mente ocupada naquela manhã.


A água sempre foi meu refúgio. Ali, tudo fazia sentido. Meu corpo sabia o que fazer, mesmo quando minha cabeça não sabia. Nadava como se pudesse deixar meus pensamentos no fundo da piscina.


Não funcionou.


Quando saí do vestiário, encontrei Jason e Grover sentados no banco de madeira, como se tivessem combinado.


— Cara — Grover disse —, sua cara tá pior do que ontem.


— Isso é possível? — Jason perguntou.


Me joguei ao lado deles, passando a toalha pelos cabelos.


— Meu pai tá namorando — soltei. — Sério. Não quer me contar nada. Tá fazendo mistério tipo novela.


— Ok… — Jason começou. — Isso explica metade da sua cara.


— E a outra metade? — Grover perguntou.


Respirei fundo.


— Annabeth.


Os dois se entreolharam.


— Ainda? — Jason perguntou, com cuidado.


— Mais do que antes — respondi. — E eu não sei se isso é pior ou melhor.


Contei tudo. Ou quase tudo. A discussão, o afastamento, o quanto doía perceber que talvez ela nunca fosse me escolher.


Quando terminei, eles trocaram olhares, o que me deixou irritado. Parecia exatamente com a situação da minha família naquela manhã.


— Tá, que caras são essas? — perguntei, tentando não transparecer minha irritação.


— É que a gente achou que, uma hora ou outra, isso ia acontecer — Grover respondeu, meio sem jeito.


— Como assim? Do que vocês estão falando? — perguntei, ainda mais confuso.


— É que a gente percebeu há um tempo que talvez, lá no fundo… — Jason começou.


— Bem lá no fundo mesmo.


— Você sentisse algo pela Annabeth.


— Espera… desde quando vocês acham isso?


— Ah, tipo uns… cinco anos.


— Mas isso foi quando eu a conheci.


— Sim. Vocês chegaram a ser amigos, e você não saía da minha casa porque ela tinha feito amizade com a Thalia — Jason explicou. — Sempre que podia, você puxava a Annabeth pra conversar. A Thalia odiava você roubando a amiga dela.


— E depois vocês brigaram e começaram essa guerra estranha — completou Grover.


— Mas os sinais sempre estiveram ali.


— Que sinais?


— Você respondia todas as provocações dela. E provocava também — Jason disse.


— Passava horas planejando vingança ou a melhor forma de irritá-la — Grover completou. — Você sempre buscou a atenção da Annabeth.


— Na verdade, várias brigas quem começou foi você — Jason acrescentou. — Sempre se colocava no caminho dela, sentava perto… você gostava de chamar atenção. A do refeitório, inclusive, foi você que começou.


— Eu não comecei. Eu só peguei a última pêra, e ela veio brigar comigo.


— Percy, Annabeth sempre pega a pêra, ela estava logo atrás de você na fila e o principal fato é que você não gosta de pêra — Jason acusou.


— E depois você jogou o cupcake nela.


— Tá, mas isso não tem nada a ver. A Annabeth que começou me odiando. Isso tudo foi só reação minha.


— Ou você comprou a guerra porque era o único jeito de chamar a atenção dela — Grover disse.


— E não é estranho como esse sentimento explodiu de uma hora pra outra? — Jason completou. — A gente acabou de te ouvir falar por minutos sobre como se sente.


— Tá. Vamos supor que vocês estejam certos.


— Nós estamos — disseram em uníssono.


— Então por que não me contaram antes?


— Não funciona assim, Percy — Grover explicou. — Era algo que você precisava perceber sozinho.


— A gente até achou que você só ia notar daqui a uns dez ou vinte anos — Jason comentou.


Olhei pra ele, sem saber se era brincadeira. Mas piadas assim não eram o estilo do Jason.


— E vocês iam deixar isso acontecer?


— Você não ia aceitar se a gente falasse — Jason disse. — Vocês sempre foram intensos demais nessa coisa de ódio.


— Hoje, pelo visto, é um chá revelação atrás do outro na minha vida — murmurei, atordoado.


Jason passou o braço pelos meus ombros.


— Agora que você sabe, precisa decidir o que vai fazer com isso.


— Sabe o que é pior? — suspirei. — Eu não quero desistir dela, mas não sei se ela vai me deixar lutar. Ela me odeia.


— A gente tá aqui — Grover disse. — Mas tira o fim de semana pra respirar. Tem coisa demais acontecendo.


Concordei em silêncio. Eles estavam certos.


O pior era que aqueles míseros cinco segundos tinham trazido cinco anos de sentimentos à tona de uma vez. E eu não fazia ideia do que fazer com aquela enxurrada.


*


À noite, o clima estava estranho demais para ser ignorado.


Minha mãe vestia um vestido azul simples. Paul parecia mais nervoso do que o normal. Poseidon estava elegante demais para um jantar comum.


Entramos no carro em silêncio.


Paul e meu pai conversavam sobre uma banda que gostavam. Minha mãe segurou minha mão, e eu sorri antes de olhar pela janela.


Paramos em frente a um prédio branco de dois andares, antigo e elegante. Annabeth saberia nomear aquele estilo de arquitetura.


Poseidon desceu primeiro. Ajustou o paletó. Respirou fundo.


— Prontos?


Não tínhamos escolha.


Subimos até o segundo andar e paramos diante de uma porta bege, com uma aldrava esculpida em forma de coruja. Antes mesmo de batermos, a porta se abriu.


E ali estava ela.


Alta. Postura impecável. Olhar afiado, contido por um sorriso educado, mas tenso demais para ser verdadeiro.


Atena.


Meu cérebro levou um segundo inteiro para conectar tudo.


A menos que tivesse uma irmã, e eu sabia que não tinha, aquilo significava apenas uma coisa.


A mãe de Annabeth era a namorada do meu pai.


Antes que qualquer palavra fosse dita, uma única certeza me atravessou como um raio:


Nada, absolutamente nada, ia ser simples a partir daquele momento.


E definitivamente, eu não teria um fim de semana calmo para respirar.