Quase - Percabeth AU
8 Ponto de Virada
Notas iniciais
POV Percy
Eu ainda não tinha me acostumado com a casa do meu pai.
Era grande demais. Silenciosa demais. Organizada demais. Nada ali parecia realmente meu, exceto a confusão que eu carregava comigo.
A única vantagem era a proximidade com a praia. Na verdade, a praia de Long Island era praticamente o nosso quintal. Essa era a vantagem de quando sua família era dona do condomínio.
As caixas da mudança já tinham sido abertas. Minhas coisas estavam espalhadas pelo quarto, e a bagunça parecia espelhar perfeitamente a confusão que existia na minha cabeça. Levantei da cama e tropecei em uma das caixas no caminho até a porta, praguejando baixo, ainda sonolento, antes de descer em direção ao andar de baixo.
*
Na cozinha, o cheiro de café fresco se misturava ao som baixo da chuva batendo contra as janelas.
Minha mãe estava sentada à mesa, com as mãos envoltas na caneca de café, enquanto Paul encostava no balcão, de braços cruzados. Poseidon andava de um lado para o outro, inquieto, como se o chão não fosse firme o suficiente para sustentar aquela conversa.
— Você precisa contar pra ele — disse minha mãe, calma, mas firme. — Não pode continuar adiando.
— Eu sei — respondeu meu pai, passando a mão pelos cabelos. — Mas não é simples, Sally. O Percy… ele já tem coisa demais acontecendo.
Parei na porta ao perceber que meu nome fazia parte da conversa. Os três estavam tão concentrados que mal notaram minha presença.
— E vai continuar tendo — ela rebateu. — Principalmente porque eu não vou estar aqui por um ano. Você vai precisar segurar as pontas por esse tempo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Continuei ali, sem intenção de escutar… mas também sem conseguir sair.
— Eu pedi sua ajuda porque você sempre soube lidar com ele melhor do que eu — Poseidon continuou. — Você consegue intermediar as coisas. Acalmar.
— Poseidon — minha mãe suspirou —, você não pode me colocar nesse papel agora. Não dessa vez. Você é o pai, ele já tem 17 anos.
— Eu sei, é que você faz tudo parecer tão fácil.
Meu pai disse isso, o que fez Paul sorrir de leve. Minha mãe tomou um longo gole de café antes de falar novamente.
— Você precisa aprender a lidar com as reações do seu filho. Com os conflitos. Principalmente agora.
Engoli em seco.
— Ele já tá passando por mudanças demais — Paul acrescentou, com cuidado. — Último ano da escola, faculdade, mudança de casa… esconder algo assim só vai piorar quando vier à tona.
Foi aí que resolvi entrar.
— Esconder o quê?
As três cabeças se viraram para mim ao mesmo tempo.
— Percy… — minha mãe disse, levantando-se de imediato. — Você não devia…
— Meu pai tá escondendo alguma coisa de mim? — perguntei, a voz séria demais para alguém que ainda se sentia um pouco criança por dentro.
Poseidon me encarou por alguns segundos longos. Depois respirou fundo.
— Não estou escondendo nada — disse. — Estou… adiando.
— Isso sempre dá errado — respondi.
Um canto da boca dele se ergueu em um quase sorriso cansado.
— Você puxou isso de mim.
Minha mãe se aproximou e pousou a mão no meu braço.
— Querido, é sobre o seu pai… e a namorada dele.
— Se for sobre isso, eu já sei que você está saindo com alguém — perguntei, direto.
— Não estou só saindo, Percy — Poseidon respondeu. — Ela é alguém importante.
— Importante o suficiente pra envolver todo mundo em um mistério? — retruquei.
Ele hesitou, depois assentiu.
— Sim.
Houve um silêncio desconfortável. Pensei em Annabeth automaticamente. No jeito como ela escondia tudo atrás de controle e lógica. Balancei a cabeça, afastando o pensamento.
— Tá — falei por fim. — E qual é o problema, então? Eu posso conhecê-la e prometo me comportar.
O olhar do meu pai pareceu se iluminar com a oportunidade.
— Jantar — disse ele. — Hoje à noite. Na casa dela. Eu gostaria que você fosse. E que a Sally e o Paul também viessem.
Minha mãe arqueou a sobrancelha.
— Hoje?
— Hoje — confirmou ele. — Você está certa. Acho que já adiamos demais.
Cruzei os braços, sentindo aquele velho misto de curiosidade e receio.
— E o nome dela?
Poseidon sorriu… e desviou o olhar.
— Você vai descobrir.
Suspirei.
— Claro que vou.
— Eu ainda acho que o seu pai poderia falar logo… — minha mãe continuou.
— Sally, por favor, deixe essa decisão comigo, tá bem?
Meu pai pediu, e minha mãe semicerrou os olhos em sua direção. Ela virou o olhar para Paul, que assentiu levemente.
— Tudo bem, você venceu. Mas se algo sair do controle, é você que vai resolver. Estamos entendidos?
— Mas por que algo sairia do controle?
Perguntei confuso. Eu não entendia o mistério, a insegurança do meu pai em me contar quem era ela, ou a insistência da minha mãe para que ele falasse logo.
— Percy, vai tomar café, senão vai se atrasar para o treino.
Foi a única resposta dela. Fechei a cara, mas obedeci. Odiava quando voltavam a me tratar como se eu fosse criança.
*
O treino de natação foi a única coisa que manteve minha mente ocupada naquela manhã.
A água sempre foi meu refúgio. Ali, tudo fazia sentido. Meu corpo sabia o que fazer, mesmo quando minha cabeça não sabia. Nadava como se pudesse deixar meus pensamentos no fundo da piscina.
Não funcionou.
Quando saí do vestiário, encontrei Jason e Grover sentados no banco de madeira, como se tivessem combinado.
— Cara — Grover disse —, sua cara tá pior do que ontem.
— Isso é possível? — Jason perguntou.
Me joguei ao lado deles, passando a toalha pelos cabelos.
— Meu pai tá namorando — soltei. — Sério. Não quer me contar nada. Tá fazendo mistério tipo novela.
— Ok… — Jason começou. — Isso explica metade da sua cara.
— E a outra metade? — Grover perguntou.
Respirei fundo.
— Annabeth.
Os dois se entreolharam.
— Ainda? — Jason perguntou, com cuidado.
— Mais do que antes — respondi. — E eu não sei se isso é pior ou melhor.
Contei tudo. Ou quase tudo. A discussão, o afastamento, o quanto doía perceber que talvez ela nunca fosse me escolher.
Quando terminei, eles trocaram olhares, o que me deixou irritado. Parecia exatamente com a situação da minha família naquela manhã.
— Tá, que caras são essas? — perguntei, tentando não transparecer minha irritação.
— É que a gente achou que, uma hora ou outra, isso ia acontecer — Grover respondeu, meio sem jeito.
— Como assim? Do que vocês estão falando? — perguntei, ainda mais confuso.
— É que a gente percebeu há um tempo que talvez, lá no fundo… — Jason começou.
— Bem lá no fundo mesmo.
— Você sentisse algo pela Annabeth.
— Espera… desde quando vocês acham isso?
— Ah, tipo uns… cinco anos.
— Mas isso foi quando eu a conheci.
— Sim. Vocês chegaram a ser amigos, e você não saía da minha casa porque ela tinha feito amizade com a Thalia — Jason explicou. — Sempre que podia, você puxava a Annabeth pra conversar. A Thalia odiava você roubando a amiga dela.
— E depois vocês brigaram e começaram essa guerra estranha — completou Grover.
— Mas os sinais sempre estiveram ali.
— Que sinais?
— Você respondia todas as provocações dela. E provocava também — Jason disse.
— Passava horas planejando vingança ou a melhor forma de irritá-la — Grover completou. — Você sempre buscou a atenção da Annabeth.
— Na verdade, várias brigas quem começou foi você — Jason acrescentou. — Sempre se colocava no caminho dela, sentava perto… você gostava de chamar atenção. A do refeitório, inclusive, foi você que começou.
— Eu não comecei. Eu só peguei a última pêra, e ela veio brigar comigo.
— Percy, Annabeth sempre pega a pêra, ela estava logo atrás de você na fila e o principal fato é que você não gosta de pêra — Jason acusou.
— E depois você jogou o cupcake nela.
— Tá, mas isso não tem nada a ver. A Annabeth que começou me odiando. Isso tudo foi só reação minha.
— Ou você comprou a guerra porque era o único jeito de chamar a atenção dela — Grover disse.
— E não é estranho como esse sentimento explodiu de uma hora pra outra? — Jason completou. — A gente acabou de te ouvir falar por minutos sobre como se sente.
— Tá. Vamos supor que vocês estejam certos.
— Nós estamos — disseram em uníssono.
— Então por que não me contaram antes?
— Não funciona assim, Percy — Grover explicou. — Era algo que você precisava perceber sozinho.
— A gente até achou que você só ia notar daqui a uns dez ou vinte anos — Jason comentou.
Olhei pra ele, sem saber se era brincadeira. Mas piadas assim não eram o estilo do Jason.
— E vocês iam deixar isso acontecer?
— Você não ia aceitar se a gente falasse — Jason disse. — Vocês sempre foram intensos demais nessa coisa de ódio.
— Hoje, pelo visto, é um chá revelação atrás do outro na minha vida — murmurei, atordoado.
Jason passou o braço pelos meus ombros.
— Agora que você sabe, precisa decidir o que vai fazer com isso.
— Sabe o que é pior? — suspirei. — Eu não quero desistir dela, mas não sei se ela vai me deixar lutar. Ela me odeia.
— A gente tá aqui — Grover disse. — Mas tira o fim de semana pra respirar. Tem coisa demais acontecendo.
Concordei em silêncio. Eles estavam certos.
O pior era que aqueles míseros cinco segundos tinham trazido cinco anos de sentimentos à tona de uma vez. E eu não fazia ideia do que fazer com aquela enxurrada.
*
À noite, o clima estava estranho demais para ser ignorado.
Minha mãe vestia um vestido azul simples. Paul parecia mais nervoso do que o normal. Poseidon estava elegante demais para um jantar comum.
Entramos no carro em silêncio.
Paul e meu pai conversavam sobre uma banda que gostavam. Minha mãe segurou minha mão, e eu sorri antes de olhar pela janela.
Paramos em frente a um prédio branco de dois andares, antigo e elegante. Annabeth saberia nomear aquele estilo de arquitetura.
Poseidon desceu primeiro. Ajustou o paletó. Respirou fundo.
— Prontos?
Não tínhamos escolha.
Subimos até o segundo andar e paramos diante de uma porta bege, com uma aldrava esculpida em forma de coruja. Antes mesmo de batermos, a porta se abriu.
E ali estava ela.
Alta. Postura impecável. Olhar afiado, contido por um sorriso educado, mas tenso demais para ser verdadeiro.
Atena.
Meu cérebro levou um segundo inteiro para conectar tudo.
A menos que tivesse uma irmã, e eu sabia que não tinha, aquilo significava apenas uma coisa.
A mãe de Annabeth era a namorada do meu pai.
Antes que qualquer palavra fosse dita, uma única certeza me atravessou como um raio:
Nada, absolutamente nada, ia ser simples a partir daquele momento.
E definitivamente, eu não teria um fim de semana calmo para respirar.
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