Quase - Percabeth AU
9 Linhas de Falha
POV Annabeth
O fato de a minha mãe estar namorando não me pegou de surpresa. Na verdade, eu já sabia antes mesmo de ela contar.
Isso não era o problema.
O problema foi descobrir com quem.
No momento em que ela abriu a porta, minha mente parou por um segundo, tentando associar a informação, porque parado diante de nós estava Poseidon.
Tive certeza de que o meu mundo estava desmoronando quando meus olhos encontraram os dele.
Percy Jackson
Por um segundo, tive a sensação muito real de que algo dentro de mim havia saído do lugar. Percy me encarava com a mesma expressão atônita que eu provavelmente estava usando, como se o chão tivesse cedido sob seus pés também.
Desviei o olhar para a minha mãe, buscando uma explicação, qualquer sinal de que aquilo fosse algum tipo de piada de mau gosto. Mas o olhar que ela me lançou foi claro como cristal: seja educada, comporte-se e, principalmente, não me envergonhe.
Lembrei da nossa conversa no dia em que quase fui expulsa por causa de Percy. Ela havia dito claramente que, se eu não amadurecesse em relação a ele, seria melhor esquecer a faculdade.
A lembrança daquela ameaça, somada ao seu olhar agora, foi suficiente para me fazer abrir um sorriso forçado para a família de Percy que entrava em nosso apartamento. Confesso que senti alívio ao ver Sally. Ela era o tipo de pessoa que, só de estar presente, conseguia acalmar qualquer ambiente.
— Bem, acho que as apresentações podem ser dispensadas, não é mesmo? — disse minha mãe.
Poseidon soltou uma risadinha.
— Annabeth — ela continuou —, seja educada e cumprimente as visitas.
Cumprimentei Poseidon e Paul com um aperto de mão firme, mantendo o sorriso intacto. Por dentro, porém, minha mente estava em completo colapso. Se alguém abrisse minha cabeça naquele momento, encontraria caos absoluto.
Sally pareceu perceber minha confusão, porque dispensou o aperto de mão e me abraçou.
— Desculpe, querida, acho que são os hormônios da gravidez — disse ela, com suavidade. — Você está tão bonita… azul realmente combina com você.
Então se virou para Percy.
— Você não concorda, Percy?
Parecia um comentário inocente, mas o olhar de Sally deixava claro que não seria bom para Percy se ele saísse da linha.
Assim como eu, ele parecia à beira de um infarto. Mas então seus olhos encontraram os meus e toda a tensão em seu rosto suavizou de repente — o que me deixou ainda mais desconfortável. Eu não gostava quando ele me olhava daquele jeito. O problema era que, na última semana, ele só me olhava assim.
— Sim… — ele disse, pigarreando. — Está muito bem em você.
Seu rosto ficou vermelho.
— Bem, acho que podemos jantar, não é mesmo? — sugeriu minha mãe, tomando a frente em direção à sala de jantar.
Notei que Sally me abraçou exatamente no momento em que eu ia cumprimentar Percy. Nunca fui tão grata a ela por algo desde que ela me salvara da expulsão.
*
O caminho até a mesa foi suficiente para que eu retomasse o controle do meu corpo. Sentei-me com postura impecável, mãos repousadas no colo, expressão neutra. Tudo exatamente como Atena havia me ensinado desde criança: controle é tudo. Emoções são ruído. Ruído atrapalha decisões.
O problema era que, do outro lado da mesa, sentado à minha frente, estava Percy Jackson.
E nada dentro de mim estava em silêncio.
Minha mente pulava de pensamento em pensamento, tentando encontrar lógica onde só havia desconforto. O pai dele… minha mãe… ele…
Era informação demais. Emoção demais. Percy demais.
— Annabeth? — a voz da minha mãe me trouxe de volta. — Você quer mais suco?
— Não, obrigada — respondi imediatamente, com um sorriso educado.
Controle. Sempre controle.
Sally, sentada ao meu lado, lançou-me um olhar gentil. Não curioso. Não avaliador. Genuinamente gentil. Como se ela me visse — não como “a filha de Atena”, não como “a garota brilhante” ou como a inimiga declarada n°1 do filho dela, mas como alguém real.
— A comida está ótima, Atena — disse ela. — Você sempre foi incrível na cozinha.
Minha mãe sorriu, satisfeita. Não deixei de notar o sempre na fala de Sally, o que significava que, enquanto Percy e eu nos matávamos nos corredores da escola, nossos pais formavam algum tipo de laço estranho. Ou mais que isso, já que Poseidon e minha mãe estavam juntos.
— Você sabe que eu adoro cozinhar — respondeu Atena. — Gosto de manter a mente ocupada.
— Dá pra perceber. Annabeth puxou isso de você.
Senti meu rosto aquecer.
— Ela sempre foi muito dedicada — disse minha mãe, orgulhosa. — Às vezes até demais.
Percy ergueu o olhar nesse momento. Por um segundo rápido demais, nossos olhos se encontraram. O dele carregava algo que eu não queria nomear.
Desviei.
Os adultos continuaram conversando, tentando manter um clima normal, como se todos estivessem andando sobre um campo minado emocional e fingindo que não sabiam disso.
Paul e minha mãe engataram uma conversa sobre o pós-doutorado dele em Londres, e eu agradeci silenciosamente, porque isso significava que eu podia me concentrar na comida e fingir que Percy não estava ali. Mas minha mãe tinha outros planos.
— E você, Percy — Atena disse de repente, cortando o ar —, já decidiu o que pretende estudar?
Parei o movimento e curiosamente prestei atenção.
— Ainda estou decidindo — respondeu ele, com firmeza. — Mas tenho pensado bastante em oceanografia.
Poseidon sorriu imediatamente.
— Sempre soube que você acabaria seguindo algo ligado ao mar.
O pai de Percy havia sido um surfista famoso quando jovem, chegara às Olimpíadas ou algo assim. Hoje, ajudava o irmão, Zeus, a gerir os negócios bilionários da família — pelo menos era isso que Thalia havia me contado.
— E onde pretende estudar? — Atena continuou.
Percy hesitou por um instante mínimo. O suficiente para eu perceber.
— Nova Roma.
O mundo inclinou.
Meu garfo parou no meio do caminho. Minha respiração falhou por meio segundo. Aquela era a minha escolha. Sempre fora.
Minha mãe franziu levemente o cenho.
— Nova Roma? — repetiu. — Pensei que você estivesse considerando instituições mais… tradicionais.
— Eu gosto da proposta de lá — explicou Percy. — Do campus, da abordagem prática. Eles têm um ótimo programa de pesquisa marítima e professores com renome internacional. Eu pesquisei.
Olhei para ele, tentando entender se aquilo era uma provocação direta. Não parecia. Ele me olhava como se esperasse alguma reação.
— Nova Roma? — foi tudo que consegui dizer. — Quando sua família pode literalmente pagar Harvard se você quiser.
— Como eu disse, eu pesquisei e gostei mais de lá — reafirmou.
Não sabia o que me impressionava mais: Percy fazer uma pesquisa sobre universidades ou querer ir para a mesma que eu.
— E você, Annabeth? — perguntou Sally.
— Annabeth quer fazer arquitetura em Princeton — respondeu minha mãe por mim.
Sorri e concordei com a cabeça. Princeton era onde minha mãe queria que eu estudasse. Onde ela havia estudado. Mal sabia ela que meu sonho também era Nova Roma.
Notei o olhar confuso de Percy. Até ele sabia o que eu realmente queria e minha mãe não. Pensei que ele fosse dizer algo que me entregasse, mas tudo que disse foi:
— Princeton parece uma boa também.
E continuou me encarando, o que me fez desviar o olhar novamente.
Controle, Annabeth. Controle.
O jantar seguiu, mas eu mal senti o gosto da comida. Odiava como eu estava sendo obrigada a ser cordial com Percy e como ele conseguia fingir naturalidade melhor do que eu.
Fugi para o meu quarto assim que pude, mentindo que estava com dor de cabeça. A mentira era óbvia, mas minha mãe permitiu que eu me retirasse.
*
Entrei no quarto e fechei a porta com mais força do que o necessário, apoiando as mãos na madeira por alguns segundos enquanto respirava fundo. Tudo estava exatamente como eu deixara naquela manhã: livros organizados, escrivaninha limpa, cama perfeitamente arrumada.
Tudo no lugar certo.
Diferente de mim.
Sentei na cama e encarei o nada, tentando organizar os pensamentos como fazia com qualquer projeto difícil. Primeiro os fatos. Depois as implicações.
Fato número um: minha mãe estava envolvida com Poseidon. E era sério.
Fato número dois: Percy Jackson fazia parte desse pacote agora, quer eu gostasse ou não.
Fato número três: aquilo não deveria me afetar tanto quanto estava afetando.
E, ainda assim, afetava.
Houve uma batida na porta.
— Annabeth? — a voz dele veio abafada.
Percy.
Meu maxilar se contraiu automaticamente. Por um segundo, considerei fingir que não ouvi. Mas fugir nunca foi uma opção que me agradou.
— Entra — respondi.
A porta se abriu devagar. Percy apareceu no batente, mãos nos bolsos da jaqueta, postura cuidadosa demais — como se estivesse entrando em território minado. O quarto pareceu menor quando ele entrou.
— Eu… — começou, mas parou. — Posso falar com você?
Cruzei os braços.
— Já está falando.
— Eu sei que isso tudo foi… muita coisa de uma vez — disse ele. — Eu também não sabia. Sobre nossos pais. Sobre tudo isso.
— Isso não faz muita diferença — retruquei.
— Faz sim.
— Pra você, talvez.
O silêncio se adensou.
— Eu não quero brigar — disse ele, por fim.
— Engraçado — respondi, sem humor. — Porque essa sempre foi a sua especialidade.
Ele respirou fundo ao invés de contra atacar.
— Eu sei que a gente tem um histórico complicado. E que piorou depois da nossa última conversa. — Seus olhos encontraram os meus. — Mas agora nossas famílias estão envolvidas.
Meu estômago se contraiu.
— E daí?
— Daí que talvez seja melhor… uma trégua.
Franzi a testa.
— Trégua?
— Só cordialidade, sei que você prefere assim. Enquanto estivermos em almoços, jantares… essas coisas.
— E você acha que consegue isso?
— Eu sei que consigo. A questão é se você consegue.
Senti a velha irritação subir, misturada com algo mais perigoso.
— Eu consigo se eu quiser. — respondi com rispidez — Então você está sugerindo que a gente finja que não se odeia.
— Eu estava pensando em fingir que somos adultos — respondeu, com um meio sorriso.
A fala dele me transportou para todas as vezes que minha mãe falava que eu deveria agir com mais maturidade em relação a ele. Mas ainda, uma trégua com Percy parecia demais para mim.
— E por que eu aceitaria isso? — perguntei.
Percy hesitou por um segundo.
— Porque brigar só vai complicar as coisas. — A voz dele estava baixa agora. — E eu acho que já tem complicação suficiente acontecendo.
Houve algo ali. Não nas palavras — mas no tom. Lembrei-me de suas palavras em nossa última conversa, sobre estar cansado de brigar, sobre as coisas estarem mudando pra ele.
Engoli o seco ao pensar que na cabeça dele aquela trégua poderia ser uma abertura.
— Isso não significa que somos amigos — deixei claro.
— Eu sei — ele respondeu rápido demais. — Não é isso que eu estou pedindo.
O silêncio voltou a se instalar. Me dei conta de que estava apertando os dedos contra o braço com força demais.
— Trégua — repeti.
— Só isso. Eu juro.
Respirei fundo.
— Enquanto estivermos em família — acrescentei. — Fora disso, nada muda.
— Como você quiser.
Por um momento, nenhum de nós dois se moveu. Percy continuava ali, parado, como se ainda houvesse algo a ser dito — mas não era seguro dizer.
— Então é isso. Acho melhor você ir.
Ele me encarou por mais um segundo. Um segundo longo demais. Senti meu estômago contrair novamente.
— Boa noite, Annabeth.
— Boa noite, Percy.
Esperei a porta se fechar antes de soltar o ar preso nos pulmões.
Abri a janela, como se o vento pudesse levar minha confusão embora. Observei o céu quase sem estrelas, esperando alguma explicação do universo.
Eu disse para Percy não entrar na minha vida de novo. Disse para ele se manter afastado, que ele não estava nos meus planos.
Mas, se eu fechei a porta, o universo o jogou pela minha janela e agora seria duplamente mais difícil expulsá-lo.
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