Quase - Percabeth AU
10 Carona
POV Annabeth
Acordo como se um caminhão tivesse passado por cima da minha cabeça.
Minha noite de sono havia sido péssima — e eu podia culpar Percy Jackson por esse bônus. E, talvez, a minha mãe também, por se apaixonar estupidamente pelo pai dele.
Essa nova realidade, a nossa conversa de ontem e o jeito irritante com o qual ele começou a me olhar… tudo aquilo fez parte do grande combo de ansiedade que não me permitiu dormir.
E eu já não costumava ter boas noites de sono.
Me viro na cama, tateando a mesinha ao lado até achar meu celular — e me arrependo assim que abro as mensagens.
Aparentemente, todo o meu círculo de amigos já estava sabendo da grande novidade.
Poseidon havia postado uma foto com a minha mãe no grupo da família deles, anunciando o namoro e prometendo um jantar formal para apresentá-la.
Logicamente, como membros da família, Jason, Thalia e Nico já haviam visto. E com certeza aconteceu o seguinte:
Jason não escondia nada de Piper.
Piper, por sua vez, não deixaria Hazel de fora.
Hazel contaria tudo para Frank.
Frank comentaria com Léo.
E Léo Valdez contaria para metade da escola — porque ele era péssimo em manter uma fofoca guardada por muito tempo; só restava saber quanto tempo ele demoraria dessa vez.
Enquanto Thalia e Nico haviam mandado mensagem só para mim, Piper tinha colocado umas quinze mensagens no nosso grupo de amigas surtando e mais vinte no meu privado, perguntando se eu estava viva, se tinha tido um ataque do coração ou algo assim.
Respiro fundo, decidindo não responder nenhum deles.
*
Quando chego à cozinha, minha mãe já estava lá, pacientemente lendo o jornal de domingo.
Havia panquecas na mesa — e eu sabia que ela só fazia aquilo quando se sentia culpada por alguma coisa.
— Bom dia — digo, cautelosa.
Atena levanta os olhos do jornal e sorri para mim.
— Bom dia, querida. Dormiu bem?
— Nem um pouco — respondo, enquanto encho minha xícara de café.
— Eu sei que deveria ter te contado antes que estava namorando com Poseidon.
É tudo o que ela diz.
Não há um pedido de desculpas ali. Apenas uma admissão de erro — e, se eu estivesse chateada com isso, não parecia ser um problema dela.
— Mas, em minha defesa, eu fiquei com medo de que você fugisse de casa de novo quando soubesse. Quero dizer… quando se trata de Percy Jackson, você volta a ter sete anos.
Típico de Atena: assume um erro e, ao mesmo tempo, coloca a culpa na pessoa afetada por ele.
— Pelo visto você nunca vai me deixar esquecer de quando fugi de casa, né? — respondo. — Eu era criança e você e o papai brigavam a cada minuto. E, além do mais, minhas questões com o Percy estão resolvidas.
— Estão mesmo? — ela pergunta, sem tirar os olhos de mim. — Eu odiaria que a briguinha infantil de vocês atrapalhasse meu relacionamento de alguma forma.
Tomo um gole longo do café, como se dentro dele houvesse algum elixir mágico para lidar com minha mãe sem perder o controle em um domingo de manhã.
— Sim. Estão resolvidas.
— Foi sobre isso que conversaram ontem?
— Pensei que ele tivesse falado pra vocês.
— Ele disse pouca coisa — ela responde. — Mas prefiro ouvir diretamente de você.
— Decidimos ser maduros e parar com a nossa “briguinha infantil” — faço aspas no ar.
— E o que mais?
— Não tem mais nada, mãe. Não seremos melhores amigos, mas vamos nos aturar e conviver bem. Você não tem com o que se preocupar.
— Ótimo — ela diz. — Não gosto de como esse menino te faz perder o controle. Já está na hora de ser adulta e parar de guardar rancor por causa dessa rivalidade.
Entre ter paz e ter razão, eu sempre preferi ter razão. Mas, naquele momento, achei melhor não discutir.
Minha mãe, de todas as pessoas, deveria entender meu ódio por Percy Jackson. Ela não só entendia rancor, ela vivia dele — já havia destruído pessoas por muito menos.
Mas decidi não rebater. Minha cabeça doía pela noite de sono mal dormida.
*
Depois do café, enquanto eu lavava a louça, Atena volta à cozinha.
— Vou sair com Poseidon mais tarde. — meu corpo gela só de pensar. — Teremos um jantar no sábado que vem, com a família dele. É importante que você vá. E você poderia ir ao shopping hoje comprar uma roupa nova, que tal?
— Tudo bem — respondo. — Posso passar lá mais tarde.
Não conversamos mais naquele dia.
Me tranco no quarto, finalmente respondo à enxurrada de mensagens — até congelar ao ver uma notificação de um número não salvo.
A foto de perfil era de Percy Jackson.
Penso seriamente em ignorar.
Mas a curiosidade — irritantemente — vence.
Tudo o que ele havia mandado era a parte dele do nosso trabalho. Sem dizer uma palavra a mais.
*
A escola estava estranhamente normal.
Normal demais.
Percy passou a segunda-feira sem me provocar uma única vez. E, ironicamente, nossos amigos decidiram assumir essa função no lugar dele.
As meninas, Nico e Léo não paravam de me zoar por um segundo sequer por causa do namoro dos nossos pais.
O que me acalmou foi saber que ele estava passando pela mesma coisa.
Às vezes, quando passava por Percy no corredor ou no refeitório, eu sentia seu olhar sobre mim — mas em nenhuma dessas vezes houve sequer uma menção de briga. Não sei se estávamos em uma guerra fria ou em uma trégua frágil demais para ser nomeada, mas decidi continuar ignorando até que não fosse mais possível.
Na terça-feira, apresentamos o primeiro esboço do nosso projeto na aula de Quíron.
Lado a lado, na frente da turma.
Léo tirou uma foto nossa e sorriu.
— Vou mandar pros pais de vocês fazerem um quadro — brincou.
A turma riu.
— Ha ha, muito engraçado, Léo — rebati. — Por que não manda pra sua namorada?
Dessa vez, até Percy riu.
— Tópico sensível, Sabidinha — Léo respondeu, ainda sorrindo.
Quíron nos silenciou, e voltamos à apresentação.
E, contra a minha vontade, percebi:
o trabalho estava muito bem feito. Teríamos poucas coisas pra corrigir até a apresentação final.
— Bom trabalho — comento, quando voltamos para as cadeiras. — Eu não sabia que você sabia escrever.
— Isso foi um elogio ou uma ofensa? — ele pergunta, com a expressão confusa.
— Um pouco dos dois, Jackson — respondo, sentando em meu lugar.
Não era minha intenção provocá-lo depois de tantos dias, mas não resisti.
Fiquei esperando Percy dizer algo, mas ele não rebateu.
Aquilo definitivamente era novo para mim.
Quando virei o rosto em sua direção, ele me encarava. Revirei os olhos e tentei prestar atenção na apresentação de Jason e Léo.
*
Na quarta-feira, as coisas começaram a desandar de verdade.
Minha mãe comenta, durante o café, que Poseidon havia nos chamado para a “quarta do hambúrguer” — aparentemente uma programação que fazia parte da semana de despedida de Sally, que iria embora no sábado. E, sim, eu estava incluída no convite. Dizer não não era uma opção.
Ela diz que eu iria direto da escola para a casa de Poseidon.
Ela ficaria até mais tarde na universidade.
O problema não era esse.
O problema era que eu iria de carona com Percy Jackson.
Tento argumentar. Invento desculpas.
Mas sei que essa é uma briga que não posso vencer.
No almoço, sentei com as meninas na mesa de sempre. .
Jason, Grover e Percy se aproximam.
Congelo quando Percy vem exatamente na minha direção.
— Parece que finalmente você vai aceitar minha carona, não é mesmo, Sabidinha? — ele provoca.
Piper vira o rosto para mim na mesma hora. Eu havia comentado sobre a carona com ela, mas sabia que aquele “finalmente”, foi o que havia chamado atenção dela.
Olho para ela com minha melhor expressão de “conversamos depois”.
Jason beija a testa de Piper e se senta ao lado dela, desviando sua atenção. Percy ocupa o outro lado de Piper, sem desviar o olhar de mim.
— Eu prefiro ir a pé, Jackson.
— Vamos lá, Annabeth — ele insiste. — Hoje eu serei seu príncipe no cavalo branco… ou melhor, um príncipe na moto, estamos em tempos modernos.
Alguns alunos ao redor começam a prestar atenção. Como se esperassem a segunda guerra mundial de comida.
Respiro fundo.
— Por favor, não briguem de novo — Hazel resmunga. — Da última vez eu fiquei duas horas lavando purê de batata do cabelo.
Alguns riem.
— Eu não estou brigando — completo, num tom controlado demais para ser natural. — Só estou dizendo que não preciso de carona.
Percy inclina a cabeça levemente, como se estivesse avaliando a melhor forma de não me provocar — o que, vindo dele, já era estranho por si só.
— Relaxa — ele diz, erguendo as mãos em rendição. — Eu só ofereci porque sua mãe pediu.
Isso me faz parar.
— O quê?
— Atena mandou mensagem pro meu pai de manhã — ele explica. — Disse que sairia mais tarde do trabalho e acharia melhor se você fosse comigo. Eu disse que não tinha problema.
Hazel e Piper trocam um olhar rápido. Jason e Grover fingem concentração excessiva no prato. Thalia olha para Percy como se pudesse ler os pensamentos dele.
Claro que mandou.
— Ela deveria ter me perguntado antes — digo — Nem em sonho eu quero subir na sua moto.
— Olha — Percy continua, agora mais baixo —, se você quiser ir sozinha, tudo bem. Eu posso falar pra sua mãe que você preferiu assim.
— Você tá me ameaçando? — pergunto na defensiva.
— Não, Annabeth, e não estou provocando você. Você demoraria o dobro do tempo se fosse de ônibus ou metrô.Só acho que seria mais fácil se você fosse comigo.
Mais fácil pra quem?
Engulo a resposta.
— Eu não quero.
— Por que você sempre tem que ser tão teimosa? — ele diz com uma leve irritação — É só uma carona.
— Que eu não pedi — digo encarando ele.
— Eu não estou dizendo que você pediu. É só que trinta minutos em uma moto comigo não vai matar você.
— Talvez não fisicamente — resmungo antes de levar a colher à minha boca.
Percy me olha claramente irritado com minha negação.
— Então você prefere pegar transporte público do que me aguentar por trinta minutos? Você já vai ter que me aguentar por uma noite toda. Isso sendo otimista, já pensou se nossos pais se casam?
Ali estava ele e o seu tom provocante.
— Eu já vou estar bem longe de você se isso acontecer.
— Onde? Em Nova Roma ou em Princeton?
— Escuta aqui, Jackson, se você acha que pode…— eu disse me levantando com raiva.
Thalia segura na minha mão e me puxa fazendo com que eu volte a me sentar. Àquela altura, todo o refeitório olhava para nossa mesa como se uma bomba fosse explodir nela.
Talvez explodisse.
— Chega, Annabeth. Será que vocês podem parar? — ela pede.
Percy respira fundo e eu penso que ele vai falar mais alguma coisa que me tire do sério.
— Tá certo, me desculpe, acho que passei do limite, Annabeth — ele diz olhando pra mim.
Todos os olhares da mesa se viram pra ele e depois pra mim e ficam alternando entre nós dois, como se tivessem assistindo uma partida de ping pong. Aquela situação era nova para eles.
Percy Jackson havia conseguido me desarmar com um pedido de desculpas…e eu realmente não sabia o que dizer.
— Conversamos depois.
Foi tudo que meu cérebro conseguiu pensar em falar enquanto olhava pra ele e sentia os olhares do restante da mesa.
Ele sustenta meu olhar por um segundo a mais do que deveria.
— Tudo bem — concorda. — Depois.
E, pela primeira vez em muito tempo, ele realmente respeita isso.
Passo o restante do almoço em silêncio, enquanto toda a mesa parecia falar de algum assunto diferente. Recebo alguns olhares de Piper, mas são os de Percy que me incomodam.
Quando ele se levanta com Grover e se afasta, eu sinto meu corpo relaxar.
Piper me encara com um sorriso que não deveria ser permitido.
— Tá bem…o que foi isso? — ela pergunta.
— Eu não faço ideia, Piper — respondo.
— Então…e essa carona?
— Não começa.
— Eu não disse nada! — ela levanta as mãos. — Só achei… interessante.O que ele quis dizer com finalmente, em? Essa proposta já foi feita quantas vezes?
— Piper, por favor, era óbvio que ele tava me provocando.
Hazel inclina a cabeça pensativa.
— Ele tá diferente com você.
— Não está — respondo rápido demais.
— Está sim — Thalia concorda. — Ele te pediu desculpas.
— Exatamente — disse Hazel.
Como se fosse ensaiado, ela, Piper e Hazel olham pra Jason. Ele parecia muito distraído com sua maçã.
— O quê? — ele pergunta se fazendo de desentendido.
— Você é o melhor amigo dele, sabe de algo que a gente não sabe? — Piper pergunta em seu tom mais persuasivo.
— Ele tá passando por muita coisa agora, galera. Vocês sabem, talvez só esteja cansado —Jason responde dando os ombros.
A resposta dele não pareceu agradar nenhuma das meninas, mas eu pouco me importava com o que passava na cabeça de Percy naquele momento.
Me levanto antes que alguém diga mais alguma coisa.
— Bem, estou indo pra aula.
*
O resto do dia passa em câmera lenta.
Não consigo me concentrar nas aulas. Cada vez que penso na carona, no seu pedido de desculpas e no seu olhar, sinto o corpo reagir como se fosse um alerta silencioso. Não era só sobre ficar sozinha com Percy. Era sobre o que isso significava agora. Sobre atravessar, de novo, um limite que eu estava tentando manter intacto.
Quando o último sinal toca, eu já sei que não vou conseguir escapar.
Percy está me esperando no estacionamento.
Encostado na moto, capacete pendurado no braço, postura relaxada demais para alguém que claramente percebe a minha tensão.
Minha vontade era de sair correndo direto pra minha casa. Mas minha mãe saberia e ela saberia se eu chegasse na casa de Poseidon sem ser naquela maldita moto.
— Você demorou — ele comenta.
— Eu pensei em fugir — respondo.
— Eu pensei que você fosse — ele admite.
Ficamos ali, parados, sem saber exatamente como proceder.
— Certo — respondo, respirando fundo. — Vamos logo.
Subo na moto com movimentos calculados. Nenhuma pressa. Nenhum contato desnecessário. Ajusto o capacete, evitando qualquer chance de tocar nele além do inevitável.
Percy percebe.
— Pode segurar — diz, com cuidado. — A estrada até lá não é das melhores.
— Eu sei andar de moto — respondo.
— Não duvido — ele rebate. — Só não quero que você voe se eu desviar de um buraco.
Relutante, apoio as mãos em seus ombros. É o mínimo. Funcional. Seguro.
— Prometo não falar nada — diz antes de partirmos.
— Ótimo — respondo. — Porque eu também não pretendo.
O trajeto é silencioso.
O problema é que o silêncio entre nós não é vazio.
É carregado.
Em um semáforo, ele freia de repente, e minha mão vai automaticamente para a lateral
do seu corpo para me equilibrar.
É instinto.
Quando percebo o que fiz, solto rápido demais.
Percy não comenta, mas seus ombros ficam tensos.
Depois disso, ele passa a dirigir com mais cuidado ainda.
Trinta minutos passam rápido, mas eu sabia que o fim daquele trajeto, não significava uma distância entre nós. Era exatamente o contrário.
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