Quase - Percabeth AU

5 Nada (ou tudo) Mudou


POV Percy


Naquela noite, demorei a pegar no sono. Minha mente revivia cada segundo da cena no refeitório, como se estivesse presa em um looping cruel. Eu não sabia dizer o que era pior: sentir atração por Annabeth Chase ou ter que conviver com o fato de que eu quase a beijara — e que, muito provavelmente, ela jamais corresponderia.


Na manhã seguinte, assim que cheguei à escola, segui direto para o meu armário. Meus olhos varreram o corredor automaticamente, à procura de uma pessoa específica.


Annabeth.


Nossos armários haviam sido estrategicamente colocados em extremos opostos do corredor pela secretária do Sr. D, numa tentativa inútil de evitar mais confusões. Peguei meu material para a primeira aula e, no instante em que fechei a porta do armário, Annabeth surgiu no corredor como um raio de sol.


Ela caminhava em direção ao seu armário usando um suéter amarelo claro e uma calça jeans. Meus olhos a seguiram sem que eu pudesse impedir. Ela passou por mim sem dizer uma palavra, sem provocar, sem sequer me olhar.


— Alô? Terra chamando Percy?


Um estalo de dedos surgiu diante do meu rosto. Grover e Jason me encaravam.


— Cara, tá tudo bem? — perguntou Grover.


— Tá, tá sim — respondi, ainda olhando por cima do ombro dele.


— O que a Annabeth fez pra você? — Jason questionou.


— O quê? Como assim? — perguntei, alarmado, imaginando Annabeth contando para a escola inteira que eu quase a beijara. — O que ela disse pra vocês?


— Nada — respondeu Jason. — É que você tá estranho. E olhando pra ela.


— Não foi nada. O mesmo de sempre: quase fomos expulsos, detenção a semana toda… — dei de ombros. — Vamos pra aula?


Saí andando antes que eles respondessem.


— Cara, nossa aula é pro outro lado — avisou Grover.


Virei para dar meia-volta e trombei em alguém.


Claro que sim. Annabeth.


Seus olhos tempestuosos me encararam enquanto seus livros caíam no chão. Senti os olhares curiosos do corredor inteiro sobre nós, provavelmente esperando a próxima discussão.


— Toma cuidado por onde anda, cabeça de alga — resmungou. — Ou vai levar outra queda.


— Er… desculpa — murmurei, abaixando para pegar o material dela.


Quando me levantei, percebi Piper logo atrás dela, me observando com um olhar desconfiado, como se pudesse ler meus pensamentos. Céus, eu esperava muito que isso não fosse possível.


Annabeth arrancou os livros das minhas mãos e saiu como um furacão, sem xingamentos extras, sem discussão. Aquilo não confundiu só a mim, mas todos ao redor. Não era mais briga. Era… estranho.


O sinal tocou, me arrancando dos pensamentos, e seguimos para a sala.


Se alguém me perguntasse o que eu havia aprendido naquela manhã, a resposta seria um sonoro nada. Nunca tinha me concentrado tanto em uma matéria quanto estava concentrado em tentar entender meus próprios sentimentos. Cinco segundos haviam sido suficientes para bagunçar tudo.


Na hora do almoço, o refeitório ainda estava fechado, então comíamos nas mesas do jardim. Mais uma vez, vi Annabeth passar com Thalia, Piper e Hazel, sentando a poucos metros de onde eu estava com meus amigos.


Elas riam e conversavam normalmente. Me perguntei se Annabeth havia contado algo sobre o dia anterior. Se contou, não parecia ter causado nenhum impacto.


— Então, você vai nos dizer o que você tem hoje ou vamos precisar sequestrar sua psicóloga? — Grover perguntou, mordendo uma maçã.


— Eu tô normal — respondi.


— Não — todos disseram em uníssono.


Jason, Léo, Grover e Frank me encaravam.


— Você não para de encarar a Annabeth desde que chegou — apontou Grover.


— E agora mesmo tava olhando pra ela — completou Frank.


— Tá planejando alguma vingança? — Jason perguntou. — Porque, por favor, não me envolve. Da última vez, a Thalia quase me matou.


— Não tô planejando nada — respondi vagamente. — Só tô cansado.


— Hoje tem mais detenção — lembrou Frank. — Melhor não arrumar problemas.


— A Annabeth contou pra Thalia que, se não fosse pela sua mãe, ela teria sido expulsa — Jason comentou.


— Foi o que a Hazel me disse — Frank completou.


— Espera… por que a Hazel te contaria isso? — Léo perguntou, sorrindo.


— Somos amigos — respondeu Frank, ficando vermelho.


Troquei um olhar cúmplice com Jason.


— Amigos ou não, ela pelo menos te conta as coisas — Léo apontou pra mim. — Diferente do Jackson, que tá escondendo algo.


— Eu não tô escondendo nada!


— Percy, eu sou bonito, não burro — Léo brincou.


— Quando tiver algo pra contar, eu conto — menti, me levantando. — Vou ao banheiro.


Na verdade, eu só precisava fugir deles. E talvez de mim mesmo.


Minha psicóloga passara anos me ouvindo reclamar de Annabeth. Sempre dizia que eu estava focado demais no ódio. Que precisava virar a chave. Será que… aquilo tinha sido a chave?


No fim do horário, segui para a biblioteca para a detenção. Meu coração acelerava só de pensar em estar perto dela.


Mas não ficamos juntos. A Sra. Esfinge nos separou: eu com os registros, Annabeth organizando livros.


— Eu vou precisar escrever? — perguntei. — A letra da Annabeth é bem mais bonita que a minha.


As duas me olharam, tentando decidir se aquilo era provocação.


— Annabeth conhece melhor a organização, Perseu — disse a bibliotecária.


Ouvir meu nome completo daquela boca foi estranho.


— Ouviu, Perseu — Annabeth disse com deboche. — Deixa comigo.


Comecei minha tarefa e me mantive focado até perceber que tinha terminado.


— Terminei…? — perguntei, confuso.


— Veja se Annabeth precisa de ajuda — disse a Sra. Esfinge. — E sem brigas.


Caminhei entre as prateleiras até encontrá-la na ponta dos pés, tentando alcançar um livro alto demais para sua altura. Peguei o livro de suas mãos e o coloquei no lugar.


Quando me virei, a luz do sol iluminava seu rosto, fazendo seus olhos parecerem dois faróis brilhantes — e eles me encaravam como sempre: com ódio.


Aquilo deixou claro que, para ela, nada havia mudado. Mas em mim, tudo tinha mudado.


Dei um passo em sua direção. Annabeth recuou, esqueceu da estante atrás de si e tropeçou. Segurei suas mãos antes que caísse.


O toque foi rápido, mas o suficiente para que aquela descarga elétrica voltasse outra vez. Meu estômago se revirou como se as borboletas estivessem presas em uma tempestade.


Ela puxou as mãos das minhas imediatamente.


— Idiota — murmurou, antes de se afastar entre as prateleiras.


Fiquei ali parado, encarando o espaço vazio onde ela estivera segundos antes, com uma certeza incômoda no peito:


Annabeth Chase ainda me odiava.


E, pela primeira vez, isso não me parecia mais suficiente para me manter longe dela.