POV Percy


A punição do Sr. D consistia em mim e Annabeth ficarmos depois da aula limpando toda a bagunça do refeitório, que havia sido interditado o resto do dia.

Além disso, ainda teríamos detenção durante toda a semana, ajudando a Sra. Esfinge a reorganizar os livros.


Quando o último sinal tocou, segui até o refeitório. Annabeth já estava lá, cercada por baldes, panos e produtos de limpeza. Ela me olhou, suspirou fundo e me entregou o esfregão.

A raiva dela por mim era palpável, principalmente depois de hoje. Aposto que Annabeth ainda levaria uma bela bronca quando chegasse em casa.


— Por que essa cara? — tentei puxar assunto. — Pelo menos não vai sair dinheiro da sua poupança pra faculdade.


— Desde quando você se importa com a minha poupança pra faculdade? — o olhar dela deixava claro que conversa era a última coisa que ela queria. Principalmente comigo.


— Hã… eu não me importo — me corrigi rápido. — Só acho que você devia ficar, sei lá… feliz?


— Feliz?! — ela explodiu. — Você é mesmo um grande idiota!


— Quer começar outra guerra de comida, Sabidinha? — provoquei, pegando uma casca de banana da mesa e balançando na frente dela.


— Me poupe, Cabeça de Alga — ela rebateu, virando as costas.


Depois disso, não trocamos mais nenhuma palavra. Annabeth começou a limpar o chão em silêncio. Eu fiquei com as paredes — que, diga-se de passagem, estavam bem piores.Devia haver pelo menos um quilo de purê de batata grudado nelas. Olhando por aquele ângulo, até consegui entender a raiva do Sr. D.

Não sei quanto tempo passou, vantagens do TDAH e da dislexia, só percebi o sol diminuindo no céu enquanto limpávamos em silêncio. Em algum momento, uma música começou a tocar no alto-falante, isso significava que a escola estava vazia e que o zelador havia começado a limpar as salas.

Pelo repertório, dava pra perceber: Argo gostava de músicas dos anos 70 e 80. Só tocava isso.

O Sr. D passou pelo refeitório umas duas vezes.

— Só vim conferir se vocês dois pestinhas não tinham ateado fogo um no outro… ou estavam se beijando escondidos — foram exatamente as palavras dele.


Annabeth manteve o autocontrole. Não reagiu. Só continuou passando o esfregão no chão. Já estava de noite quando The Way You Make Me Feel, do Michael Jackson, começou a tocar.


— UOU! Essa é boa! — exclamei.


Annabeth virou pra mim, confusa.


— Desde quando você gosta de músicas boas? Ainda mais de antes de você ter nascido.


— Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe, Chase — pisquei pra ela.


Ela permaneceu séria…Mas suas bochechas ficaram levemente coradas.


— E eu nem quero saber, Jackson.


— Vamos lá, não precisa ser tão carrancuda o tempo todo — comecei a dançar, imitando os passos do Michael.


— O chão está escorregadio, Cabeça de Alga. Você pode cair — ela alertou.


— Mas é Michael Jackson tocando! — argumentei. — Tenho o mesmo sobrenome que ele. Podemos ser parentes. Tá no meu sangue!


Arrisquei um moonwalker.

Não sei se foi o cansaço ou se ela realmente achou engraçado, mas…em quatro anos de briga, Annabeth riu de verdade.

Sem sarcasmo.

Sem ironia.

Sem provocação.

O som da risada dela era novo pra mim.E, por um momento, pareceu se misturar com a melodia que ecoava pelo refeitório.

Aquilo foi incentivo suficiente. Comecei a dançar ao redor dela, como no clipe.Peguei o esfregão de suas mãos e usei como microfone, performando como o rei do pop.


— Você é mesmo um idiota — ela disse.


Mas estava rindo.

Era a primeira vez que aquela palavra saía dela acompanhada de um sorriso.

A música já estava no fim quando tentei outro moonwalker, só não contava que aquele pedaço do chão estivesse ainda mais escorregadio.


Perdi o equilíbrio.


Annabeth tentou me segurar — o que só fez com que ela caísse comigo.


Quando pisquei novamente, estávamos no chão.

Ela de costas.

Eu por cima dela.


Minha primeira vontade foi perguntar se ela estava bem.

Mas a música mudou.


Listen to Your Heart, da Roxette, começou a tocar.


Como se estivéssemos em um filme.


Minha voz simplesmente sumiu.


Meu cérebro finalmente registrou o quão perto eu estava de Annabeth Chase. Uma eletricidade percorreu meu corpo inteiro e atingiu direto meu coração, que acelerou como nunca.

Quando nossos olhares se encontraram, tudo piorou. Nunca tinha reparado no quão bonitos eram os olhos dela, nem no quanto eram hipnotizantes a ponto de me fazer esquecer que eu supostamente a odiava.

Além da música, tudo o que eu ouvia era meu próprio coração.

A respiração ofegante dela parecia se misturar à minha. O calor do corpo dela atravessava o meu. Meus olhos desceram até seus lábios. De repente, eles pareciam tão atraentes quanto seus olhos.

Todos os comandos racionais do meu cérebro simplesmente desligaram. Aproximei meus lábios dos de Annabeth. Quando eles finalmente se tocaram, foi como se meu corpo inteiro entrasse em combustão.


Eu poderia tê-la beijado.

Na verdade… eu teria.


Se um barulho na porta não tivesse quebrado o momento.


Annabeth saiu do transe e me empurrou com força.

Caí para o lado.


— Você tá maluco?! — ela disparou, com um olhar assassino.


— Hã… por que os dois pestinhas estão no chão? — perguntou o Sr. D, surgindo do nada.


— O idiota do Jackson escorregou e caiu por cima de mim.


— Foi sem querer — murmurei, ainda completamente atordoado.


— Bem, tanto faz — o diretor disse, dando de ombros. — Tenho que ir. Acho que estão liberados. Mas não pensem que se livraram tão fácil. Ainda tem uma semaninha de detenção pela frente.


Ele saiu cantarolando Listen to Your Heart.

Annabeth se levantou como um furacão e foi embora, me deixando sozinho no chão, com a cabeça — e o coração — completamente fora de funcionamento.

Se aquilo foi só um acidente, então meu coração definitivamente não recebeu o aviso.