Quase Normais
26 Highway to Hell!!
Notas iniciais
Diário da Nath
Sempre lembre-se do nome das pessoas
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Acordei com o despertador do celular da Nick tocando bem alto. Olhei para a cama dela, ouvindo-a xingar o aparelho, desligar o despertador e tacar o pobre telefone no chão.
Tempos de crise e essa retardada tacando o celular no chão, mereçu. — Caralho — falei, vendo ela se encolher na cama. — Nick, você ta bem?
— Não — ela afirmou, rápida e direta. Ouvi um barulho estranho e só vi a menina correndo pra fora do quarto.
Vi Pedro passando pela frente da porta e a seguindo pro banheiro. — De novo naaaaaão — ele murmurou.
Segui os dois, vendo minha irmã vomitar até as tripas enquanto o moreno segurava seu cabelo. O cheiro nojento subiu pelo banheiro, quase me fazendo vomitar também. Quando ela acabou, deitou sua cabeça no peitoral do Pedro, limpando sua boca em um suéter que eu nunca tinha visto... Não pera, não é o suéter do Pedro?
— To com dor de cabeça — ela reclamou, parecendo uma criancinha.
— Também, né? Vomitou até seu cérebro — o moreno ironizou, a abraçando e fazendo cafuné na sua cabeça. — Acho melhor ela faltar hoje.
— Não vou discutir — falei, em sinal de rendição. — Só não sei como você é tão bom nisso.
— Lucas costumava ficar bêbado direto. Eu não fazia carinho nele, nem nada, mas digamos que eu aprendi bastante coisa com a Giovana.
— Entendi... Não é melhor ficar com ela?
— Já fiquei fora a semana inteira, tenho ao menos que pegar a matéria e passar pra ela — ele falou sorrindo. Cara, como alguém fica a noite toda limpando o vomito da outra pessoa e ainda consegue sorrir? Caralho, acho que o Pedro é, sei lá, um príncipe, super-herói, nem sei o que falar na verdade.
— Tá, mas, eu te aconselharia a tomar um banho ou sei lá...
— Eu estou muito mal? — perguntou se olhando.
— Se com “muito mal” você queira dizer, com olheiras, olhos vermelhos, cheirando a vomito e todo descabelado, bem, pode se considerar mal — ele bufou alto, pegou minha irmã no colo, a levou para o quarto e depois foi pra sala, pegando uma mochila que não estava ali noite passada. — De onde veio esse treco?
— Eu busquei hoje de madrugada, sabia que não ia dar tempo do Lucas voltar pra casa. Por falar nisso, acorda ele e manda ele se vestir, vou tomar um banho então...
— Alguém me chamou? — Lucas perguntou, bocejando e me abraçando por trás. Pedro revirou os olhos.
— Muito amor para uma terça de manha. Onde tem toalha, Nana?
— Armário de baixo da pia — falei, me arrepiando enquanto o gigante beijava meu pescoço. O moreno me olhou com uma cara de “não passei a noite em claro pra segura vela não”, mas logo entrou no banheiro e fechou a porta.
Lucas olhou para a cama da Nick, vendo ela morrendo lá com a cara no travesseiro. — Ela ta de ressaca?
— Ta sim — respondi. — Vou fazer umas panquecas pra ela comer quando acordar.
— Acho melhor esperarmos o Pedro sair do banho.
— Ah, qual é? Panqueca é tipo, uma das coisas mais fáceis de se cozinhar — falei, entrando na cozinha e começando a cozinhar... Bem, tentando...
A massa não ficou ruim, mas eu não estava conseguindo fazer, daí grudava em baixo e queimava e... e...
— Nana, o que caralhos você esta fazendo? — Pedro perguntou, encostando na parede da porta.
— U-ué, panquecas, claro — respondi revirando os olhos e colocando a panqueca queimada no prato junto com as outras.
— Ai meu Deus, você vai envenenar alguém.
— Obrigada pela consideração...
— Vai, sai daí, deixa que eu faço — ele falou, mexendo as mãos naquele gesto de “xô”. Sai do fogão e peguei o prato de panquecas queimadas. — Você não vai comer isso aí não, né?
— Não, claro que não — respondi pegando um garfo e saindo da cozinha. Vi Lucas saindo do banheiro com a camisa do uniforme desabotoada. — Oi Luquinhas — cantarolei sorridente. — Fecha os olhinhos e abre a boquinha!
— Sinto que isso não vai prestar, mas... — ele deu de ombros e abriu a boca. Coloquei lá a panqueca envenenada, esperando sua reação. Ele fez uma careta e abriu os olhos, dei um sorriso amarelo. — Mas o que é isso?! Que horror! Parece que o demônio foi fazer panquecas e deixou cair carvão na receita!
— Não ta tão ruim assim... — murmurei. — Só deu uma queimadinha...
— Queimadinha? Que que tu fez? Tacou na lareira? Tostou com um maçarico?
— A gente não tem lareira, nem maçarico!
— Cala a boca que quem ta falando sou eu — falou apertando minhas bochechas e as puxando. — Agora, vai se trocar se não a gente se atrasa de novo! — fiz que sim com a cabeça e ele me soltou. Fui pro meu quarto e comecei a me trocar, quando ouvi a Nick falando.
— Que cheiro de morte... — falou se referindo as panquecas que eu ainda estava segurando.
— Não estão tão ruins assim!
— Tomara que essas panquecas não sejam pra mim.
— Já que você é tão ingrata com panquecas, eu vou comer as que o Pedro fez pra você!
— Não! — ela gritou. — As panquecas do Pedro são boas, eu quero!
— Vai se fuder! — gritei, jogando meu travesseiro na cara dela. — E vá tomar um banho porque você esta cheirando a vomito e álcool! Sem contar que agora vai ter que lavar a blusa do Pedro!
— Tanto faz, você tem aula, vai, tchau, tchau!
— Eu nem me vesti ainda!
— Então para de conversar e vá se trocar!
Acho melhor eu parar de falar...
Fiz minha rotina de sempre, sabe? Me vesti, mas não consegui fechar os botões, daí o Lucas abotoou pra mim, eu fiz o nó da gravata dele, tentei roubar uma das panquecas, mas o Pedro bateu na minha mão e não me deixou pegar. Coloquei meus coturnos e partimos em direção ao inferno.
E-eu disse inferno? Q-quis dizer prisão...
Q-quer dizer, manicômio...
Zoológico, sanatório, reformatório...
Certo, era a escola, mas como meus antigos amigos filósofos diziam...
— I’m on the highway to hell!! — cantarolei quando estávamos chegando perto da escola.
— Que? — Lucas perguntou.
— Nada não, é uma longa história — dei de ombros.
Entramos pelos portões do inferno...
Q-quer dizer, escola...
Ah, vocês entenderam!
Fui andando e conversando com o Lucas até a nossa sala, enquanto o Pedro nos seguia mexendo no celular mais atrás. Entramos no local e eu logo me joguei na minha carteira, não me preocupando com os outros dois.
Olhei para um ponto fixo no quadro e comecei a boiar, tipo, num outro universo.
— Bom dia, Nathalie — ouvi uma voz masculina, mas não tão máscula, parecia uma voz meio que de criança, me deixou tanto na dúvida que acabei acordando.
— Ah, oi...! Você...! — qual era o nome dele mesmo?! É o nerd que sendo do meu lado e... Merda, por que eu sempre esqueço?!
— Ei, André, pode corrigir minha lista de matemática? — ouvi a voz do além.
— Já vou — ele respondeu. Bati uma palma alta.
— André! — gritei.
— Caralho, o que foi isso? — ele perguntou com a mão no coração.
— Ah, nada não, desculpa... Então, André, por que me acordastes?
— Bem, sabe seus cadernos com capa de galáxia? Onde você comprou?
— Ah, são meus caderninhos do quarto ano! — ele ficou me olhando como se eu fosse retardada. — Pera, é que tipo, eu quase não usava, daí eles tavam inteiros. Eu imprimi a estampa num sulfite e prendi com durex na capa, daí da pra trocar quando enjoar — falei, mostrando as colagens que eu tinha feito.
— Que legal! S-será que... — ele falou, pegando uns sete cadernos da própria bolsa e colocando na minha mesa. — Pode... me ensinar a encapar? — perguntou com um sorrisinho e as bochechas coradas, fechando mais os seus olhos de asiático. Mas que...
— FOFINHAAA— gritei, amassando suas bochechas nas palmas das minhas mãos e colocando sua cabeça de baixo do meu queixo.
— N-Nana... S-seus p-peitos na minha cara — ele falou, senti que ele estava ainda mais vermelho.
— Você é muito fofo mano, quero te morder — o abracei e mordi sua bochecha.
— Ai! — ele falou se soltando de mim. — M-muita proximidade em muito pouco tempo... — murmurou pra si mesmo.
— Para de falar sozinho, mano, só te deixa mais fofo! — fui apertar as bochechas dele de novo, mas o Thiago chegou e me segurou pela cintura, não me deixando ir atrás do japinha.
— Nossa menina, se seu garoto ver isso ele vai caçar o pobre asiático — o loiro falou.
— Mas ele é tão... Apertável, mordível, amável!
— Olha, parece que o Matheus estava me chamando, né Matheus? — André gritou.
— Que? O que tem eu? — o moreno perguntou, se despertando de uma linha de raciocínio.
VERDADE!
Ele e o João se beijaram!
Nossa, preciso falar com ele depois!
André foi pro Lado do Matheus o ajudar em alguma coisa lá e o Thiago me soltou, indo no seu lugar. — Então, Nana, é verdade?
— Verdade o que, doido? — perguntei.
— Verdade que... Você e o Lucas... — ele olhou pros lados e fez um movimento estranho com as mãos, batendo uma na outra varias vezes. Fiquei corada. — Vocês fizeram?!? — ele gritou, fazendo todo mundo olhar na nossa direção. Tampei sua boca com as minhas mãos e fiz que não rapidamente com a cabeça.
— Quase... — murmurei.
— O que?
— Quase... — murmurei um pouco mais alto.
— Nana, fala num tom mais audível.
— QUASE, CARALHO, FELIZ?
— Por que vocês não fizeram?
— Você foi na festa?
— Lógico.
— Você, assim, por algum acaso do destino viu a Nick correndo sem camiseta pela festa?
— Sim, eu até queria saber, ela bebeu, né? Nick não é muito do tipo que faria isso...
— Ela bebeu sim... Na verdade, ela odeia beber...
— Mas, até onde os boatos correram, ela foi desafiada por alguém a beber e então não parou mais... De qualquer jeito, o que é que tem?
— Teve uma hora que ela começou a gritar que nem louca, daí eu me troquei e desci pra ver o que tava acontecendo. Quando eu voltei, já não existia mais clima nenhum, e então fomos pra casa.
— Então vocês praticamente só foram pra festa pra fazerem “aquilo” e, como não rolou um clima, vocês foram embora...?
— É por que, não estava nos planos fazer “aquilo”, nem era pra ser uma festa cheia de gente! Achei que era, sei lá, uma reuniãozinha intima assim e pah. Daí eu vou com ele pra conversar de boas sem ter alguém interrompendo e, bem... — imitei o gesto dele com as minhas mãos, o fazendo rir.
— Mano, Nana, você é uma safada mesmo, nunca pensei que você fosse do tipo tarada... — fiquei ainda mais vermelha, tentei falar, mas as palavras não saiam, então só me sentei no meu lugar e esperei o sinal bater.
Se bem que nem adiantou, porque quando o professor entrou na sala minha mente começou a viajar novamente... Nem sei mais o que está acontecendo...
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