Quase Normais
30 "Como se enfia uma cadeira no c- de alguém?"
Notas iniciais
Notas de celular do Pedro
Quando você acha que ta tudo uma merda, alma, pode ficar pior.
~~
Acordei no dia seguinte me sentindo muito bem. Meu relacionamento com a Nick estava progredindo e aquilo era muito bom (pelo menos, para mim). A única coisa que eu não queria, na verdade, era ter que encarar o delinquente e a Nick conversando durante a aula toda sobre assuntos engraçados e do beijo que eles deram enquanto eu tinha que falar com a Bia sobre as olimpíadas.
Me levantei da minha cama com uma preguiça insaciável e fui para a cozinha, no caminho vi meu pai e meu irmão assistindo o noticiário juntos. A repórter estava fazendo uma entrevista com uma estrela pop-juvenil brasileira que estava deixando o trabalho dela.
Passei reto na sala e fui para a cozinha, dando oi para minha mãe e me sentando na mesa de lá, começando a colocar café na minha caneca. Ouvi a porta da frente ser aberta com estridência. — Bom dia Matt, Gabriel — Alessandra falou, com aquela voz feliz.
— Bom dia, Ale — Matt murmurou com sono. Ela andou até a cozinha e se sentou na cadeira do meu lado.
— Bom dia tia, Pey — seu sorriso estava até mesmo suspeito, o que essa menina queria agora?
— Espalhando felicidade no meu dia nublado — comecei, tomando um gole de café sem açúcar. —, o que você quer?
— Sua confiança em mim me encanta.
— Bom dia Ale — minha mãe falou feliz, trazendo ovos mexidos, meu favorito! — Onde está o Lucas?
— Esse idiota está de ressaca por ontem — ela falou, pegando ovos e fazendo um capuchinho no lugar dela na mesa. Ouvi a porta novamente, provavelmente era a So agora.
— Esse Lucas não muda nunca. Achei que ele iria parar quando começasse a namorar a Nana, mas acho que essa válvula de escape nunca vai mudar.
— Podem parar de falar mal dele? — perguntei enquanto comia. — Ele pode fazer merda, mas ainda é meu melhor amigo.
— E você, Pedro, por que ainda está de pijama? — bem, minha mãe diz pijama mas estou realmente só com uma cueca boxer preta e uma camiseta preta por causa do frio.
— Hoje a aula só começa às dez.
— Você não vai faltar, né? — minha mãe perguntou. — Se quiser faltar hoje tudo bem...
— Não! — falei rápido. — Q-quer dizer, eu tenho assuntos pra resolver lá hoje.
Eu digo assuntos, mas só estou pensando em ver a Nick mesmo, como eu sou idiota.
—Que tipo de assuntos? — minha mãe me perguntou com um sorriso malicioso. Droga, essa vagabunda me conhece bem, sabe que eu gosto da Nick, só quer que eu admita em voz alta!
— Matemática — menti. — Hoje tem aula de matemática e eu fiquei de recuperação em matemática.
— Matemática sim — ela revirou os olhos. — Diga para a Nick que eu mandei um oi.
— Tenho impressão que você ama mais ela do que a mim.
— É que as conversas com ela são legais. Se bem que ela não vem aqui a tempos, o que aconteceu?
— Eu acho melhor assim — Alessandra falou na minha frente. — Não sei como vocês gostam dela, é uma garota tão sem sal.
— Ei, não fala assim dela! — a defendi.
— PEDRO, POR QUE CARALHOS VOCÊ ESTÁ NA TV?! — meu pai gritou da sala. Meus olhos se arregalaram e eu saí correndo para a sala, chegando a tempo de me ver com a Nick observando o pôr do sol na praia brava. Meu rosto ficou completamente corado, então era isso... — Quando foi que isso aconteceu?!
— Lembra da viagem com o clube de xadrez? Então, isso foi no dia livre mas, eu não sei como... — parei para pensar um pouco. Aquele envelope, tinha dois cartões dentro! Sim, só pode ser isso!
Corri para o meu quarto e disquei o número da Nick, esperando que, por céus, ela já estivesse acordada. — Alô...? — ela perguntou sonolenta.
— Nick, acabou de acontecer uma coisa muito estranha! — falei me jogando na minha cama. — Eu tava tomando café da manhã de boas dai meu pai começou a gritar que eu tava na tv, e quando eu fui ver era naquele dia que fomos na praia e...
— Ah, eu to ligada, eu vi essa merda aí também — ela murmurou. — Eu já falei com a mulher que deu aquele envelope pra gente, ela disse que viria para cá e tentaria se resolver com a escola, então fique tranquilo.
— Certo... Mas então, vai pra aula hoje?
— Sim... Tem aula de geografia, eu sou péssima em geografia.
— Sério? Eu estou mal em matemática e química. Você é boa em exatas, né?
— Sim... Quer ajuda pra estudar pra recuperação? Sabe, né? Semana que vem é prova todo dia e já vi que vou ficar de recuperação.
— Pode ser, a gente combina depois então.
— Certo, eu vou indo, tenho que acordar a Nana, chego na escola às nove.
— Te encontro lá então, beijo...
— Na boca? — ela perguntou rindo.
— Se você quiser — murmurei baixinho.
— Seria bom — respondeu ainda rindo. — Falou!
E então o celular desligou... Porra, por que eu pareço ser o passivo da relação?!
Entrei debaixo do chuveiro e tomei um banho quente. O frio estava ficando cada vez maior nesses últimos dias, então coloquei o uniforme mas com um moletom no lugar do blazer da escola. Só tenho a agradecer que eles não são tão rígidos com essa merda.
Fui até a casa do Lucas e entrei vendo Giovana abrindo a porta da geladeira. — Bom dia, Gi.
— Ah, oi Pedro — ela murmurou. — Lucas está no banho, já que ele sai. Tem comida na sua casa?
— Sim, suas irmãs foram comer lá. Sua mãe já saiu, né?
— Sim, ela pegou o avião de madrugada. Vou lá comer então, tá? — fiz que sim com a cabeça e ela logo saiu. Me joguei no sofá macio e fiquei olhando para o teto, pensando em como os beijos com a Nick têm ficado cada vez mais frequentes a cada festa que vamos, e em como eles têm evoluído.
Lucas falou que você só consegue reconhecer se um beijo é bom quando já beijou outras bocas, mas acho que ela ficaria meio mal se beijasse outra garota... Ou não?
Não estamos namorando depois de tudo... Ah, é tão confuso!
Senti um peso sobre meu corpo, abri os olhos vendo Alessandra se deitar em cima de mim de uma forma que faz desde que me conheceu. Fico meio desajustado quando ela faz isso, mas não estava me importando no momento.
— O que foi, Pey? Tem estado meio chatinho nesses últimos tempos — ela disse enquanto passava a mão no meu rosto e se esfregava um pouco no meu corpo. Sempre me pergunto se ela gosta de me deixar excitado, mas nunca me dei o trabalho de saber. Eu nunca gostei dela assim.
— Sei lá, minha cabeça tem estado girando nos últimos tempos. Tem muita coisa acontecendo com as pessoas ao meu redor...
— Então se importe mais consigo mesmo — ela disse sorrindo. — Para que se importar com os problemas dos outros? Você é quem deve ser importante.
Fitei seus olhos azuis. A forma como ela pensava às vezes me dava nojo. — Você não entenderia. Ninguém entende — murmurei a última parte.
— Ah, qual é — ela falou, se sentando (propositalmente) em cima de meu membro. Outra coisa sobre Alessandra, é que ela tem uma mania muito ruim de sentar no meu colo sempre que pode, na maior parte das vezes, virada para mim, com os joelhos dobrados um de cada lado do meu corpo, com as pernas bem abertas. — Eu me preocupo com você, por isso digo que você é o único que importa.
Ela se movimentava em cima de mim. Muitas vezes queria acreditar que era sem querer, mas ela conhecia o corpo masculino, ela tinha aquele irmão mais velho pervertido que provavelmente lhe ensinara tudo que precisaria saber sobre relações sexuais, mas eu nunca sentia nada além de prazer físico quando ela fazia algo comigo, e talvez por isso dissesse gostar tanto de mim.
Seus joelhos estavam dobrados um de cada lado do meu corpo (como sempre), enquanto ela insistia em se movimentar e se deitar em cima de mim. Nesses momentos, tentaria ao máximo não ficar vermelho (ou duro), mas estou tão acostumado com esses atos dela que nem dou mais importância.
— Porra Alessandra — Lucas falou, saindo do banheiro só de toalha. — Se quer dar, vai pro motel.
— Você é tão ridículo — ela falou ainda se esfregando em mim. Senti suas mãos percorrerem minha nuca e um tremeliques percorrer meu corpo. Porra de tensão sexual.
— Você vai matá-lo se ele ficar duro antes de ir pra aula — meu amigo falou novamente.
— Vai fazer sexo com a sua namoradinha e me deixa em paz — legal, agora fudeu.
Ele nos encarou com um semblante triste, ele realmente gostava da Nathalie, uma pena que não permita que ninguém perto dele cite o nome dela. Ele entrou no próprio quarto e nos deixou sozinhos novamente.
Nesses momentos em que a irmã do meu melhor amigo me jogava em poços de tensão sexual, eu apenas permanecia com um semblante indiferente, por mais que a parte de dentro do meu corpo se mantivesse aflita.
Apenas conseguia pensar em como seria bom se fosse a Nick no lugar da Ale. Ela consegue conversar sobre assuntos aleatórios, ela deixa o entediante interessante e o chato divertido, ela é a única que me entende.
Pensar na garota que eu gosto sentada no meu colo, com o rosto bem próximo do meu, tentando ao máximo não se mexer por conta da própria vergonha. Enquanto isso, em meio a todo aquele cenário perfeito da minha cabeça, ela diria bobagens engraçadas para nos distrair e estaria com a voz ofegante e aveludada...
Não, não, não.
Pedro, porra, muda o canal da sua mente antes que a você fique realmente duro e que a Alessandra entenda coisas erradas.
E tira esse sorriso bobo da cara também, que só por Deus, você só pensa em sexo, homem?
— No que está pensando, Pey? — a garota em cima de mim perguntou, fazendo-me voltar para a realidade. A realidade de que não era minha amada ali, e sim minha amiga de infância.
— Matemática — menti. Venhamos e convenhamos, era um bom assunto para tirar a excitação e, vão por mim, eu precisava.
— Nossa — ela revirou os olhos e parou de se movimentar. — Não é saudável ficar pensando nisso quando uma garota gostosa se esfrega em você. Acho melhor te internarmos.
— Você sabe que não tenho esse tipo de interesse em você, Ale...
— Sabe Pedro, você é muito bonito e tem umas partes avantajadas no corpo, mas quando abre a boca se torna totalmente brochante — ela brincou. — Além disso, acho que já estou velha o suficiente pra ganhar um beijinho, né? Lembra do que você me disse naquele dia?
— E o que seria isso?
— "Só namoro com garotas com mais de quinze anos."
Agora que parei para lembrar, eu realmente usei essa desculpa para não beija-lá dois anos atrás, quando ela começou com essa merda de tensão sexual. Ela sempre gostou de se deitar em mim, mas quando completou doze anos ela começou a se esfregar e não parava até me deixar duro, ela dizia que era uma conquista, mas sempre usava os mesmos métodos para fazer esse tipo de coisa. Quando ela tentou inovar e me beijar eu menti dizendo que só beijaria ela quando tivesse mais de quinze anos quando, na verdade, era só uma forma para fugir dela.
E não venham me chamar de virjão porque se fosse para pegar menina fácil eu pegava a Katy.
— Pelo que eu me lembro, você ainda tem quatorze — respondi, colocando minhas mãos atrás da cabeça.
— Um ano a mais, um ano a menos, são apenas detalhes — ela começou. — Além disso, seu primeiro beijo tem que ser comigo, não com alguém do tipo aquela morena irritante.
Coitada, mal sabe ela que eu já dei vários beijos naquela "morena irritante".
— Não começa, Alessandra — falei, arqueando as sobrancelhas.
— Não é só o começo. Quero ter tudo de você. Seu primeiro beijo, sua primeira vez, seus filhos, e eu sei que você toparia fazer comigo, não seria idiota de não topar.
— Ale... Nós já conversamos sobre isso naquele dia. Eu não gosto de você desse jeito, por que continua insistindo?
— Por que eu quero que você me coma — ela passou a mão pelo meu corpo, inclusive minhas coxas, as quais ela vivia chamando de "avantajadas".
Porra, por que independente da mulher eu continuo sendo a porra do passivo?!
— Esquece Ale — Lucas falou, saindo de seu quarto e vindo até nós. — Pedro não acha graça se for uma pessoa fácil.
— Eu também não, por isso eu quero ele — a garota implicou, voltando a se mexer em cima de mim.
— Ah não, não vai rolar pegação nessa casa se eu não estiver envolvido! — ele implicou, retirando a própria irmã de cima de mim, se sentando no sofá e me colocando por cima dele, começando a se esfregar em mim também.
— Porra família, eu não sou um brinquedo sexual! — gritei. Já que eu estava de costas pro Lucas, Alessandra pegou como uma deixa para se sentar no meu colo novamente e a começar a me espremer entre ela e seu irmão.
Até na porra da suruba eu sou o passivo, mano, chega de viver!
— Awn Pedro, me foda mais — Alessandra começou a falar imitando gemidos e se esfregando mais em mim.
— Não se eu fude-lo primeiro — Lucas falou, me puxando mais contra seu quadril.
Os dois começaram a imitar gemidos com sorrisos maliciosos nos lábios, me espremendo cada vez mais. Eles passavam a mão pelo meu corpo, até o Lucas vei, e olha que o Lucas é hétero!
— Pey, Pey — os dois diziam imitando gemidos em meus ouvidos, enquanto os lábios de Ale roçavam em meu pescoço.
Se eu fiquei excitado? É claro que sim né porra, olha a merda que tá acontecendo a minha volta!
Alessandra ficava esfregando aquela parte dela em mim, enquanto segurava minhas coxas e passava as mãos por dentro delas e às vezes apertando minha bunda.
Eu estou prestes a ser estuprado nessa caralha.
Ouvi o som da porta sendo aberta e vi a Giovana encarando nós três com um sorriso malicioso. — Vocês estão estuprando o Pedro sem mim?! Traidores! — ela correu para o sofá também e se sentou atrás da Alessandra, passando a mão nas pernas dela e fingindo gemidos junto com os outros dois irmãos.
QUE PORRA DE FAMÍLIA É ESSA MANO?! ONDE CARALHOS EU ME METI?
— Alee, deixa eu sentar no Pedro também — Giovana manhava para cima da irmã mais nova.
— Mas esta durinho, é tão confortável — ela disse, ainda se mexendo em mim.
— Por isso mesmo que eu quero, querida — a mais velha falou. — Faz três semanas que não faço sexo, vou morrer daqui a pouco.
— Mas a última vez que eu fiz o Pedro ficar duro foi a um mês! Eu também quero aproveitar.
— Por acaso eu sou o único virgem nessa porra?! — gritei.
— Sim — os três irmãos falaram juntos, voltando a se esfregar em mim.
— Até você, Alessandra? — perguntei indignado.
— Se você não quer, tem quem queira — respondeu rindo. E pensar que nessa idade eu tava quietinho estudando ou vendo anime, que criança precoce. Mas também, né, morando nessa casa de loucos...
Giovana ficava subindo a saia da irmã mais nova, expondo sua calcinha rendada e a fazendo fingir gritinhos pervertidos. Ale ficava rebolando em cima de mim e Lucas respirava em minha nuca enquanto apertava as coxas da irmã mais nova, fazendo-a fingir gemidos.
Mas que porra de amizades que eu tenho, será que eles não cansam de sexo nunca?! O pior é que eles não se sentem atraídos um pelo outro, estão fazendo essa merda só pra verem a reação de quem está perdendo a pureza pouco a pouco.
Quando eles finalmente se cansaram de toda essa merda, percebi que Alessandra tinha molhado minha calça de novo, ela sempre faz isso quando essa "prova" de tensão sexual acontece, mas dessa vez era a calça da escola, então foi bastante covardia da parte dela.
Precisei ir pra casa, tomar outro banho para tirar aquele cheiro de baunilha que todos os três tinham e trocar de roupa. Quando olhei no relógio do celular já eram nove horas e mais alguma coisa, e eu tinha combinado de encontrar a Nick as nove.
Porra família, vocês querem me fuder em todos os sentidos possíveis!
Peguei minha bolsa e sai de casa, sendo seguido de Lucas que estava bem ao meu lado, mexendo no celular. — O que está fazendo?
— Um plano.
— Pra que?
— Para a Nana me ver com umas três garotas. Descobri que ela pegou seis meninos noite passada enquanto eu peguei quatro, preciso passá-la.
— Então o que a Nick pensou estava certo...
— Como assim? — ele perguntou, finalmente tirando os olhos do celular.
— Ela disse que vocês estavam em uma espécie de competição de pegação, parece que é verdade.
— Sim, ela é inteligente, ela percebe tudo — fiz que sim com a cabeça. Lucas ficou no celular pelo resto do caminho. Tenho que dizer que era meio irritante, mas pelo menos me permitia pensar.
Eu e Nick passamos a festa conversando sobre muitas coisas, entre elas, o que fazer sobre as inúmeras tretas que andam acontecendo. Decidi que vou cabular o clube de xadrez e falar com o Matheus hoje à tarde, enquanto ela vai tentar ver com o Thiago o que pode fazer sobre os sentimentos que ele tenta não demonstrar.
De todo modo, não demorou muito para que chegássemos no colégio.
Ao entrar no local, Lucas foi atacado por algumas garotas que, parcialmente, me empurraram para longe dele.
Pronto, agora vai tudo ser como era antes dele conhecer a Nath, garotas até no teto, ele não vai mais falar direito comigo e alguém vai sempre interromper quando tivermos uma conversa produtiva.
Espero que ele e a baixinha voltem logo, quanto mais separados, pior a situação geral fica.
De toda forma, comecei a andar até o prédio do ensino médio, subindo para o segundo andar e procurando minha sala. Quando cheguei lá, vi que estava quase que totalmente vazia, a não ser pelas gêmeas que conversavam apenas entre si.
Não pude deixar de me lembrar do pensamento que tive nessa manhã sobre... Bem...
V-você sabe...
De todo modo, eu corei muito ao me lembrar disso, e minha solução foi me virar para o meu lugar, colocar a bolsa da escola lá, respirar fundo e ir falar com elas.
Nana estava revoltada com o Lucas, Nick estava tentando parecer interessada em uma conversa desnecessária e eu só estava ali esperando alguém chegar pra falar com a baixinha e me deixar a sós com a Nick.
Minhas preces foram ouvidas quando Henrique e Thiago entraram juntos na sala. Logicamente, aquilo tornava ainda melhor por mais um fator: seria possível ver a cara de raiva e desespero que aquele delinquente carregava enquanto eu arrastava a morena para longe da sala. Eu pego a garota e ainda assisto a desgraça de perto, tem algo melhor que isso?
Antes que percebesse, minha personalidade possessiva já tinha tirado minha garota de lá e já a arrastava junto comigo para as casas na árvore que existem no parquinho. Fomos juntos sem dar muitas palavras e nos sentamos lado a lado no chão da casinha.
— Eai, o que achou do meu sequestro relâmpago? — perguntei com um sorrisinho.
— Foi ótimo, mas você percebeu que deixou o Thiago praticamente sozinho com a Nana, né?
— Merda — falei baixinho e bati minha cabeça de leve na parede. — Eu me esqueci totalmente desse detalhe.
Ela riu e se virou pra mim. — Mas e então, algum plano em mente?
— Não muito. Pensei em meio que dividir as funções, tipo, durante o dia, o quanto pudermos, vamos fazer a Nana não se meter tanto em problemas, e deixar o Thiago o mais longe dela possível também.
— Além disso, acho que seria bom se nós déssemos uma vigiada no Matheus, ele está estranho desde o beijo dele na festa da Lia...
— Você se lembra da festa da Lia?! — perguntei perplexo.
— Ah, digamos que algumas pessoas me fizeram me lembrar de alguns detalhes, tipo o beijo do João e do Matheus, ou o meu selinho com o Rique...
— Pera, que selinho? — minhas sobrancelhas franziram e senti uma raiva sentir pelo meu corpo.
— Bem, me enviaram uma foto em que eu estava beijando o Rique. Eu estava com uma garrafa de vodka na mão, puxando ele pra perto pelo pescoço. Mas foi só um selinho pelo que eu vi... Se bem que ele até que beija bem...
Limpei a garganta na esperança de que ela mudasse de ideia, mas como Lucas disse "o único modo de saber se alguém beija bem, é beijando outras bocas".
Se bem que, eu não quero outras bocas, eu quero a dela, mas que merda!
— Mas também — ela continuou. — Também me lembrei do nosso beijo. Bem, mais um deles.
Olhei para o rosto sorridente dela e não pude evitar de ficar vermelho. Escutei o sinal tocando e me levantei, dando a mão para que ela se levantasse também.
— Certo, então hoje como faremos? — perguntei, me perdendo um pouco com as palavras.
— Bem, vou ficar de olho no Thiago durante a hora do intervalo, então fique atento aos passos da Nana. Na hora do almoço a gente troca e damos nosso jeito para cabular os clubes — ela falou adentrando o prédio do ensino médio.
— Pode ser... Boa sorte pra nós então — respondi sorrindo.
— Boa sorte pra nós...
Andamos pelos corredores, tivemos as duas primeiras aulas (cujas quais eu nem prestei atenção), e o intervalo chegou. Vi Nick sair da sala com Carlos, Thiago e o delinquente, enquanto eu segui Nana, Gabi e André para fora da sala de aula.
Nana fazias suas típicas loucuras, Gabi estudava para as provas da semana que vem e André entre as duas com um pouco de receio. Fiquei em silêncio ou concordando com a baixinha vez ou outra, até que chegamos na árvore em que passávamos todos os nossos intervalos.
— Mas isso não faz diferença — a baixinha completou um raciocínio. — Ei, Pedro, cadê a Nick?
— Ahn? — perguntei já que só tinha voltado me meus devaneios quando ouvi o nome dela.
— Minha irmã, seu trouxa, cadê ela? — Nana repetiu.
— Eu não sei, por que?
— Achei que você ia passar o intervalo com ela ou algo assim, mas foda-se — ela deu de ombros.— Ei, André, me dá um pedaço?
Só tinha percebido agora que o pequeno asiático tinha comida em mãos. — P-pode pegar...
Nana sorriu e foi pegar um pedaço, mas ela viu uma coisa que a deixou um tanto quanto furiosa. Mais em baixo na visão dela, Lucas passava abraçado com duas garotas, e uma delas era Katy.
O rosto dela se avermelhou. — Vai ser assim, é? — murmurou com um olhar flamejante, puxou o asiático pelo pescoço e lhe tascou um puta beijo.
Tanto eu quanto a Gabi tomamos um susto com a atitude, mas reparei que a Nana estava mirando o olhar para Lucas, que largou as duas garotas com uma cara de "vai ter volta" e saiu do local. A baixinha soltou o asiático.
— Desculpa por isso A... A-André, o que foi?? — ela gritou assustada ao perceber que o menino estava totalmente vermelho e com os olhos marejados. — Foi só um selinho, você já deu um antes, né?
Ele fez que não mais vermelho ainda. — Foi meu pri-primeiro beijo... Ele foi roubado!! — ele gritou triste. — Nanaaaa, você roubou meu primeiro beijo!
— Aaaah, desculpa!! Puta merda, eu não sabia que tu era bv, caralho, o que eu faço?!? — ela gritou.
— Eu quero meu primeiro beijam de volta! Eu ia dar pra alguém que eu gosto! — ele manhou mais, me fazendo rir. Coitado...
— D-desculpa eu... Eu... Eu vou devolver! — ela falou, se aproximando e dando mais um beijo nele.
— Nana, não dá pra devolver um beijo — Gabi falou, fazendo a menina se tocar.
— Você pegou meu segundo também!! Nana! — ele falou.
— D-desculpaaaaa! — ela gritou. Bati na minha própria testa e comecei a rir, não sei quem é mais idiota. Olhei em volta e vi Nick andando com os três garotos ainda, fiquei encarando lá por um tempo.
— Nossa Daniel, você tá bem?? — ouvi uma voz extremamente fina gritar.
— Ah, não foi nada, linda — aquele garoto novo lá falou, Daniel eu acho. — Tive uma briga com uns caras do terceirão. Eles eram meio barra pesada, mas acabei com todos.
— Nooossa, quantos eram? — outra garota impressionada falou. Me virei para trás de mim, onde eles estavam. O garoto estava todo detonado, com um olho roxo, cortes no rosto e curativo.
— Uns cinco, seis, mas se acalmem, eles todos correram chorando — ele se fez com pose de machão enquanto as meninas à sua volta se jogavam nele. Odeio esse tipo.
— Isso me lembra — André falou. — Nana, o que aconteceu com suas mãos? — agora que ele falou, a baixinha estava com as mãos enfaixadas.
— Eu caí e... Bati... a mão na parede — ela falou.
— Mas as duas? E os punhos ainda... — falei.
— Eu tava correndo — respondeu sorrindo.
— Gente! — Carlos gritou, fazendo todos que estavam no pátio olharem pra ele. — Vocês não se tocam?! A Nana com os punhos machucados, o Daniel com a cara arregaçada, só pode significar uma coisa! A Nana foi atacada por valentões, mas o Daniel chegou lá na voadora e mandou ela correr, mas ela caiu e bateu as mãos contra as paredes, enquanto o Dan tentava ajudar ela, os caras pegaram ele, mas ele acabou com todos! Viva nosso herói Daniel!
Todos ficaram o encarando em silencio por um tempo, Thiago bateu em sua própria testa e Nick revirou os olhos.
— Fui eu que bati nele, caralho! — Nana gritou com as bochechas coradas.
— Porra, caralho! Eu sabia! EU DISSE QUE ESSA MINA ERA PIRIGOSA! — Carlos gritou, se escondendo atrás daquele cara.
— Mano, ‘cê é troxa? — o delinquente falou com as sobrancelhas arqueadas.
— ‘Cê é loco, vou é correr pra minha base, falou — Carlos completou, saindo correndo para a direção da sala de aula e deixando uma Nick e uma Nana rindo juntas.
— Você mostrou pra ele, né? — a baixinha perguntou.
— Minha cara de quem não mostraria — a gêmea mais alta respondeu rindo também. Eu, Thiago e André nos entreolhamos, que porra foi essa?
O sinal tocou e todos que estavam no pátio foram se levantando e indo para a sala. Alcancei a Nick e passei o braço por seu ombro. — Eai, como foi? — perguntei.
— Como você percebeu, deixei ele bem ocupado durante o intervalo, e quanto a você?
— Nana beijou o André na frente do Lucas porque viu ele com a Katy — falei rindo. — Fiquei com dó dele, ele entrou em desespero.
— O Lucas ou o André?
— Os dois — ela riu. O delinquente se aproximou pelo outro lado e segurou a cintura da minha morena, tentando roubá-la de mim.
E sim, eu usei o pronome possessivo minha.
Foda-se que ela não é minha namorada, essas notas de celular são minhas e eu falo como que quiser.
Também não sei porque to tentando me explicar então... Ah, foda-se!
— Ei Nick, a aula já vai começar, vamos indo — ele disse.
— Olha, o delinquente decidiu não matar aula, que surpresa — ela respondeu.
— Ué, você não quer matar comigo — ele sorriu malicioso.
— E por que caralhos eu iria querer matar uma aula com um delinquente irritante ao invés de ficar lá com o Pedro que, por acaso, é o garoto que eu gosto?
...
Certo, certo, não foi bem assim que ela disse, mas na minha cabeça essa resposta se coube perfeitamente na situação.
De qualquer jeito, logo estávamos nós lá, e a coordenadora entrou na sala de aula, falando que ia ter uma espécie de festa junina, algo que não prestei muita atenção no momento, já que eu estava meio avoado.
Tivemos só mais uma aula e fomos liberados para a hora do almoço. Nick saiu correndo na direção da Nana e a puxou para fora da sala, sendo seguidas por Carlos e o delinquente. Lucas saiu com João, ambos abraçados com garotas que nunca parei para conversar, Gabi estava com Lia, Bianca saiu com o André e eu corri para a direção do Thiago.
— Eai loiro? — falei sem prensar.
— Ah, oi Pedro — respondeu meio receoso, é... Eu não tinha muito assunto com ele, mas fazia aquilo pela Nick. — O que você quer?
— Ah, é, bem... Que... — tentei procurar as palavras. — O Lucas! Sim, esse vacilão foi pegar uma garota e eu fiquei sozinho, posso almoçar com você?
— Ah, pode ser. Mas vai ser eu, você, o meu primo...
— Não! — falei automaticamente. — Q-quer dizer, eu tinha combinado com o Logan e com o Matheus também, por que não vai com a gente?
Eu devia estar muito eufórico porque ele me encarou com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso meio forçado. Ficamos um tempo em silêncio.
O que será que ele está pensando?
— Ei, Pedro — ouvi aquela voz masculina com a qual estava me acostumando e suspirei de alívio. — Vai almoçar comigo?
— É lógico que sim, né, Logan! — declarei piscando um olho. — Só estava chamando o Thiago pra almoçar com a gente e com o Matheus — deixei o último nome bem claro. Ele raciocinou um pouco.
— Okay, vou chamá-lo então — falou como se eu fosse louco.
Eu e os outros dois seguimos até onde o Matheus estava, pegamos comida e nos sentamos em uma mesa. Logan do meu lado, Thiago na minha frente e Matheus na diagonal. Percebi que o moreno não tinha pego muita coisa pra comer, mas resolvi não falar nada, afinal, não era o exato assunto do momento.
— O que quero dizer, é que pegar um garoto não é uma coisa estranha — Logan falou. Realmente não sei como o assunto chegou aí.
— Certo, não vejo problema com gays, bis ou sei lá, eu só disse que não pegaria um homem — Thiago declarou.
— Mas tem suas vantagens! Tipo, se um quiser sexo o outro também provavelmente vai querer, então é mais fácil — o garoto ao meu lado disse. — Tipo, o Téo pegou o João — ele disse se referindo a Matheus, que ficou extremamente vermelho.
— Vá se fuder, Logan — o moreno respondeu, colocando uma batata frita na boca.
— Ah, qual é, eu te pegaria — Logan falou novamente. — Se você for o passivo, claro — o garoto ficou ainda mais vermelho e saiu da mesa. Fiquei com dó dele, mas decidi não deixar minha missão.
— Que seja — Thiago falou. — Quem você pegou pra saber como é?
Logan abriu um sorriso malicioso. — Como se eu fosse te contar.
— Aposto meu celular que foi o Julio — falei, voltando a comer.
— Como você adivinhou?? — ele gritou.
— Tenho meus contatos — respondi. — Também disseram que você pegou ele porque tinha medo dele.
— Eu tenho medo de ruivos, eles são estranhos — começou. — Ah, e de puddles também, aqueles demônios...
Thiago começou a rir. — Por que não estou surpreso?
— Haha, adorei a piada — o outro respondeu. — Mas falando em pegação, ei, Pedro, como anda com a Nick? O Ricky parece estar te passando a perna — disse apontando com os olhos para a mesa que eles estavam sentados.
— Nós não estamos namorando...
— Ainda não?! — o loiro perguntou. — Que se foda, ela beija bem?
— Ah, pra mim sim, mas eu não sei...
— Pedro — Logan começou.—, só por acaso, ela foi a única pessoa que você já pegou? — fiquei extremamente vermelho diante da realidade. — Você só pode estar de brincadeira! Você é mó gato-uke-bunitinhu, como você só pegou a Nick?
— Logan, meu melhor amigo é o Lucas, você ainda tem alguma dúvida do "porque"?
— Faz sentido — Thiago falou.
— De qualquer modo, você só pode saber se alguém beija bem se você já beijou outra pessoa, ao menos é o que o Lucas diz, e eu não estou muito interessado em...
Antes que eu percebesse, Logan tinha segurado minha nuca, me puxado para perto e juntando nossos lábios. Tenho que dizer que, por mais que eu não tenha me sentido muito excitado, não posso dizer que ele não beijava bem.
Ao menos parecia muito bom...
Aaaaah, o que está acontecendo com a minha mente?? O Logan está me infectando com a falta de vergonha dele!
Ele soltou meus lábios, mordendo o meu inferior assim que nosso fôlego acabou. Me soltou e voltou a comer como se nada tivesse acontecido. Olhei para Thiago, que me olhou de volta, olhei para a mesa da Nick que estava me encarando e rindo, olhei para Logan.
— Mano, que porra foi essa?! — perguntei, limpando os lábios com a manga do moletom.
— Oh my God, you mu-must be fucking kidding me, why am I so excited?! Fuck uuuup men — Thiago gritou vermelho, xingando em sua língua natal. — What the heck Logan?? Are you stupied? Why did you do thiiis?
— Thiago, português — o emo falou.
— Now you want me to speack in portuguese?? I even forgot how to do this!**
— Calma, calma, eu fiz isso para o bem dele.
— Como isso pode ter sido pro meu bem? — perguntei ainda tentando me desinfectar.
— Pelo menos agora você pode julgar se alguém beija bem ou não — falou com um sorrisinho convencido. — Além disso, pra quem só pegou uma pessoa a vida toda, não é que você faz direito?
Fiquei vermelho e revirei os olhos. Acabamos de comer enquanto conversávamos, Thiago foi embora com o delinquente, Logan foi para o clube stalker, Nana foi para seu clube junto com a Isa e com o Murilo. Lucas, João e Matheus sumiram, Gabi foi para o clube de matemática e cada um dos outros foram para seus respectivos lugares.
Como Thiago tinha ido embora, Nick decidiu ir para seu clube de desenho. Como eu não estava muito afim, preferi ficar no parquinho da escola, pensando e escrevendo um pouco nesse meu "diário".
Depois de alguns parágrafos e acontecimentos, fechei o aplicativo do meu celular e olhei em volta, estava tudo silencioso. Comecei a andar pela escola sem muito o que fazer, até que escutei um barulho de choro vindo de um dos "becos" da escola. Fui indo para aquela direção, conseguindo ouvir alguns rangidos que pareciam de fones de ouvido. Quando cheguei lá, vi uma cabeleira morena contra a parede que no caso era o Matheus com o rosto todo vermelho e molhado. Seus olhos estavam fechados e inchados, ele abraçava as próprias pernas, fungando de tempos em tempos.
Coloquei minha mão em seu ombro, o que o fez abrir os olhos e se virar para mim com os olhos vermelhos em um susto. Ele tirou os fones do ouvido, me permitindo ouvir um pouco da musica.
“Only fools do what I do, only fools fall”
Ele desligou a música, limpou os olhos na manga do moletom e me encarou, tentando rir enquanto soluçava. — Você quase me matou do coração.
— Matheus, você... Você está bem? O que aconteceu? — perguntei desesperado. Olhando melhor, seu braço direito estava com a manga levantada, com muito sangue escorrendo, enquanto uma lâmina era segurada pelo indicador e pelo polegar esquerdos. — O que é isso?!
— Ah, n-não é nada — sorriu. Sua boca tremia assim como suas mãos, e as lágrimas ainda escorriam.
— Como isso não é nada?! — segurei seu braço e o trouxe para perto de mim. — Por que fez isso?? — senti meus olhos marejarem. Eu podia não falar tanto com o Matheus como antigamente, mas ele ainda fazia parte da minha vida, ainda era alguém importante, e eu nem sabia o que estava acontecendo.
— Eu estou te dizendo, não é nada — falou tentando sorrir. Revirei meus olhos e o peguei no colo, apenas agradecendo por ele ser mais baixo do que eu e por ter treinado vôlei minha vida inteira. — Caralho, desde quando você tem força pra essas coisas?!
— Isso não vem ao caso — respondi, começando a andar para o banheiro masculino do primeiro andar. — O que vem ao caso é que você é meu amigo e vai me contar essas porras antes que eu tenha que tirar conclusões precipitadas.
Ele apenas bufou alto, com certeza estava revirando os olhos. Segui até o banheiro e o coloquei sentando na bancada, peguei papel e molhei, levantando a manga da blusa dele e observando o estado.
Estava completamente ensanguentado, alguns cortes eram bem fundos, mas nenhum estava realmente em um lugar fatal, aquilo me alíviou de uma forma que você não tem ideia. Passei de leve o papel molhado sobre o pulso dele, o escutando reclamar. — Não arderia se, por acaso, você não fizesse isso.
— Se vai me dar lição de moral, prefiro que me deixasse chorando no chão — ele retrucou, eu só apertei mais o papel contra a pele dele. — Ai, caralho!
— Não vou te deixar morrendo no chão nem se você me pedir, seu trouxa — falei. — E cadê o João? Esse arrombado não é seu amigo? — do nada ele voltou a chorar e a gritar que nem um desesperado e eu comecei a entrar em desespero também. — O que aquele filho de uma parideira nórdica fez com você?
— Palavrão novo?
— Tenho passado muito tempo com a Nick — dei de ombros. — Mas esse não é o caso. Vem, você me conhece desde o pré, o que caralhos aquele arrombado inventou de fazer com você?
Ele desviou o olhar para os próprios pés, respirando fundo e tirando os óculos, enxugando os olhos em seguida.
O encarei.
Ele me encarou.
Nós nos encaramos.
— Vai falar alguma coisa ou vai observar minha cara mais um pouco?
— Certo, certo — respondeu com receio. — Sabe, você lembra que nos três sempre fomos muito unidos, né? Quer dizer, eu, você e o João, a gente fazia muitas coisas juntos. Mas um dia você começou a andar com o Lucas, e começou a se afastar de nós, e bem nessa época os pais dele estavam...
— Estavam brigando muito, eu me lembro — completei. — As vezes ele passava dias seguidos na minha casa só pra não precisar voltar e ouvir coisas desnecessárias.
— Sim, ele ia na minha às vezes também — ele falou, finalmente dando uma risada abafada que logo se desfez. — Mas sabe, isso aconteceu no sétimo ano, e quando começou, ele começou a fazer coisas erradas.
Arqueei as sobrancelhas, dessa parte eu não sabia — Que tipo de coisas?
— Ah, você sabe — ele começou. — O João começou a ficar amigo dos garotos mais velhos, e começou a ir em festas, ele quase repetiu de ano. Ele começou a beber lá pela metade do oitavo ano, acho que você deve se lembrar que ele ia em algumas festas com os "amigos" mais velhos do Lucas, enquanto nem ele mesmo fazia mais isso. Ele começou a se afastar de mim, da mãe dele, até da irmã, ele tinha vergonha de si mesmo mas continuava fazendo coisas erradas como uma desculpa para o que já acontecera com ele — as lágrimas voltaram, assim como os soluços inconvenientes. — Teve um dia que eu fui na casa dele, seus pais tinham descoberto algumas coisas que ele fazia, brigaram tanto com ele — continuou, colocando as mãos nos ouvidos. — No fundo, ele era só uma criança perdida, e nem os pais dele perceberam isso.
— Mas se ele fazia tanta merda — interrompi. — por que você continuou andando com ele? Você poderia ter vindo comigo e com o Lucas, ou até feito novos amigos...
— Pedro, você realmente nunca reparou? — ele me perguntou, olhando nos meus olhos. Eu arrepiei por um instante. — Eu sempre gostei dele, Pedro, e eu até hoje lembro como a gente se conheceu, e já nesse dia eu já sentia algo quando olhava pra ele, e eu ignorei, eu prendi isso por muito tempo até eu descobrir o que era, e depois que eu soube eu percebi que não poderia deixar ele sozinho em um tempo desses, que eu deveria apoiá-lo ou estar junto dele quando as coisas escurecessem. Ele era minha luz, você sabe disso, você me conhece, você sabe o quanto eu admirava ele.
Voltando meus pensamentos pro passado, tudo se esclarecia, e aquilo só em deixava ainda mais arrepiado. — Sim, eu entendi, mas vocês se beijaram na festa da Lia, certo?
— Pedro, você não pode ser tão burro assim — ele disse. — Quando você pensa que as merdas começaram a acontecer? Pensa bem.
Refleti por um instante os acontecimentos mais importantes dos últimos tempos. — Certo, o Daniel chegou logo depois da festa, mas o João já estava meio que pegando umas garotas da laia da Katy antes dele chegar, sem dizer que eu vi os três conversando no intervalo um dia desses, então... as merdas começaram logo depois da festa da Lia. Mas ainda assim, eu não entendi o porque dele ficar tão desse jeito, quer dizer, foi só um beijo... — o encarei, ele desviou o olhar com as bochechas coradas. — Foi só um beijo, né?
— Bem... Digamos que ele me levou pro quarto e... — ele começou a ficar mais vermelho. — N-não chegamos a fazer, mas foi porque ele desmaiou um pouco depois de n-nós dois estarmos meio que... Aaaah, é muito constrangedor falar essas coisas em voz alta!
— Certo, então vocês quase fizeram — falei, meio vermelho também. Era estranho pensar que meus dois amigos de infância meio que... bem, quase transaram. — E o que aconteceu?
— Eu acordei de manhã, estava bem cedo na verdade, então eu me troquei o mais rápido que eu pude e saí de lá, disposto à fingir que nada aconteceu. Eu não sei se ele descobriu, ou o que aconteceu, mas ele passou a me ignorar — ele voltou a chorar. — Ele começou a ignorar minhas mensagens, me bloqueou no snapchat, me evita nas horas livres na escola, ele está voltando a ser alguém ruim, Pedro, mesmo que ele tivesse me prometido que não faria mais isso — Téo começou a soluçar, então eu peguei uma folha pra secar mãos e comecei a limpar o rosto dele.
Eu cheguei em um ponto em que toda a tristeza que eu estava sentindo se tornou raiva, e toda essa raiva estava me consumindo e tornando em ódio.
Foi no dia que conhecemos Matheus que eu decidi que não deixaria ele chorar de novo, ao vê-lo ser espancado por outros que se consideravam melhores do que ele, ao perceber o quanto ele se sentia inferior perante os outros, tudo aquilo encheu os meus nervos e ver a pessoa que me ajudou a protegê-lo o destruindo dessa forma, aquilo foi uma sensação ainda pior.
— Onde esse filho da puta está agora? — minha voz falhou, Matheus percebeu, com certeza. Eu demorava a ficar irritado, mas quando acontecia era melhor que não tivesse ninguém por perto.
— Na casa da Katy eu acho, provavelmente transando com aquela vadia — ele respondeu com a voz fraca.
Peguei meu celular e abri o contado do Lucas no WhatsApp.
[Eu: Você tem trinta segundos pra me mandar o endereço da vadia que é a sua amiga.
Atual filha da puta: Pra que você quer?
Eu: Se você não me passar, as chances de acordar castrado amanhã sobem pra 130%
Atual filha da puta: Já te mando, perala :v
Tu qr o da Katy, né?
Eu: tem alguma dúvida?]
Logo o endereço chegou. Eu mandei um "vlw" e digitei um número no meu celular.
— Pedro, o que você tá fazendo? — ele perguntou.
— Eu vou na casa daquela vadia pra acabar com um filho da puta.
— Pedro, calma, quebrar tudo não vai adiantar nada agora...
— Não vou quebrar tudo, só a cara do maldito menino que você gosta — comecei a sair do banheiro e escutei os passos dele me seguirem.
— E pra quem você tá ligando?
— Pra única pessoa que vai me segurar pra não quebrar a cara daquela vadia junto.
•••
A Katy é uma menina rica e mimada com pinta de vadia, e como toda menina rica e mimada com pinta de vadia ela era portadora de uma casa gigante cheia de câmeras, e de uma família cheia de máscaras.
Não foi difícil convencer a mãe dela a me deixar entrar, sendo que cheguei sozinho na casa e ela provavelmente já estava acostumada com a vinda repentina moleques de todos os tipos, então pra mim que conheço aquela vadia desde a segunda série, foi ainda mais fácil.
Subi as escadas até o quarto da menina e abri a porta sem cerimônia alguma, conseguindo ver a menina de cabelos rosa só de roupa íntima e aquele meu "amigo" de infância só sem a camiseta. Os dois olharam pra mim assim que a porta bateu na parede do quarto, pareciam irritados, mas se acovardaram ao processar o que acontecia.
De um modo que já havia acontecido antes, minha mente se escureceu. Eu sentia dores em meus dedos, escutava gritos e estava sem ar.
Estava perdido na escuridão inacabável que era minha mente; meu corpo se mexia sozinho, minhas ações não eram controladas por mim, os sons que eu escutava não eram vozes ou instrumentos musicais, mas era como música para mim.
Eu escutava o som da violência, e ele provavelmente era o que fazia com que minha cabeça se perdesse e desse voltas por um universo de quem, na verdade, não era eu.
— Pedro, se acalma — escutei a voz que fez meus ombros relaxarem e o ar voltar normalmente em meus pulmões. Me virei para ela e estremeci, ela veio em minha direção e passou a mão nos meus cabelos, fazendo eu derrubar algumas lágrimas.
Eu estava sentado em cima do João, o rosto dele estava sangrando, seus ombros estavam vermelhos sob as minhas mãos e sua respiração estava descompassada. Seu olhar marejado e sua expressão dolorosa me fizeram acordar de verdade.
Segurei a mão da Nick, me levantando e começando a chorar.
Ela tinha presenciado a pior das minhas faces.
Não era o meu lado medroso, ou o meu lado covarde, muito pelo contrário, era o mais corajoso de todos eles, e também era aquele que eu não conseguia controlar. Comecei a tossir e a respirar de modo pesado ao ver minha camisa da escola e meus punhos manchados de sangue, me senti tonto assim como senti meu estômago revirar.
Nick entrelaçou seus dedos nos meus e novamente passou as mãos nos meus cabelos, me fazendo arrepiar.
— Dessa vez eu pude pará-lo, mas nada indica que vá funcionar numa próxima vez — ela declarou, me puxando para fora do quarto.
As lágrimas começaram a descer e eu comecei a soluçar, não conseguia acreditar que tinha deixado aquela parte horrenda minha me dominar mais uma vez, muito menos conseguiria me perdoar por explodir com um amigo de infância e perto da menina que eu gosto. — Eu sou realmente inútil — murmurei.
Saímos da casa e andamos mais alguns quarteirões, nos sentando no meio fio depois de um tempo. Um silêncio constrangedor se fez ali, eu estava realmente com vergonha, meu Deus.
Ela começou a rir.
Ela. Começou. A rir.
— De que desgraça alheia você está rindo agora? — perguntei com ironia.
— Não é de uma desgraça alheia — ela continuou rindo. — É que eu acabei de lembrar o que você disse pro João quando eu tava entrando no quarto.
— O que eu disse de tão engraçado?
Ela se recuperou da risada, colocou a mão no meu ombro e me olhou nos olhos. — "Se você fizer mais alguma coisa pra ele, eu não me responsabilizo pela provável cadeira que eu vou enfiar no seu cu, seu arrombado."
Ela voltou a dar risada e eu encarei com um rosto incrédulo mas sorridente ao mesmo tempo. — Eu realmente disse isso?!
— Disse, eu deveria ter gravado — respondeu ainda rindo.
— Eu mó preocupado porque você tinha visto meu surto e você rindo do meu papel de trouxa, mereço — ri mais.
— As vezes as pessoas explodem, só acontece que o seu "explodir" tem mais efeito que o dos outros — declarou com um sorriso. Ela respirou fundo e se levantou, me dando a mão para que eu fizesse o mesmo.
~~
Começamos a andar de mãos dadas e a conversar sobre hoje, e sobre alguns planos para resolver as tretas que estão acontecendo. Espero que o Matheus e o João se resolvam, mesmo que eles vivam brigando já são praticamente como um só, e quando estão separados as coisas realmente começam a desandar.
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