Quando o passado vem à tona
13 Capítulo 12
Notas iniciais
“Então é Natal...e o Ano Novo também… Não, não é Natal, nem ano novo, muito menos meu aniversário. Mas essa semana foi a semana dos presentes. Achava que depois de saber que sobrenaturais existem eu não me assustaria com mais nada. Mas vou dizer, minha cidade virou de pernas pro ar. Estava voltando pra casa quando vi pétalas de flores formando um caminho. Fiquei super curiosa, mas… Vai que eu via coisas que não deveria no final? Lembram quando falei da poção do amor? Até inquiri se alguma das bruxas da cidade não espalhou sem querer uma dessas no chá das pessoas. Vou aproveitar esse momento para agradecer as mensagens dos meus seguidores e dizer o quanto amo vocês. Não se esqueçam de assistir o video da semana, onde entrevisto Abigail Perrault, a fae banida. Infelizmente ela não contou o porque, mas foi bem divertido. Será que também vou ganhar presentes essa semana? ”
Tete-a-Tete com S&S
A cidade estava uma confusão. Viver em uma comunidade onde boa parte dos moradores são sobrenaturais, os torna bem babões em bebês. Emehir havia acordado algumas horas depois do parto. Shannon estava preocupada com ela, mas Adami sugeriu que fossem para casa. Ele disse que as notícias poderiam não ser boas e quanto mais pessoas, pior poderia ficar para Kallai. Sem entender as consequências das palavras de Adami, ela o acompanhou para sua casa, completamente preocupada com Emer e Isis. Quando chegaram e contaram para Chipo e Baas, eles a convidaram para ficar pela casa, que era mais próxima da clínica que a dela.
Sr. Punnu chegou um pouco mais tarde e quando ficou sabendo da notícia, partiu rapidamente com um olhar preocupado no rosto. Shannon achou agradável, que até mesmo o tão fechado lobo demonstrou o que era uma alcateia unida. Baas demonstrou ser um verdadeiro contador de histórias, e conseguiu distrair Shannon, enquanto Chipo olhava pela janela, provavelmente na direção da clínica. Adami preparou algo para que comessem, e depois de um tempo de que Emehir acordou, Shannon recebeu um telefonema de Fergus. Ela estava bem.
Shannon imediatamente quis correr para a clínica, mas Adami a segurou. Levou-a para casa e pela primeira vez na vida, ela não soube direito o que dizer, nem o que fazer. Andou de um lado a outro impaciente sobre o que fazer ou não fazer. No dia seguinte, Shannon estava decidida a invadir a clínica, ou quem sabe a casa de Fergus, quando a campainha tocou. Ela correu para a porta e se deparou com Emehir segurando um pequeno embrulho, seguida de Isis que carregava uma bolsa e uma sacola.
– Emer — Shannon sentiu os olhos ficarem marejados.
– Shiu — Emer sorriu meigamente — Dott está dormindo.
Shannon abriu espaço para que ambas entrassem. Isis parecia pensativa e distante, mas mantinha uma pose protetora para cima de Emehir, o que apenas preocupou Shannon. Nunca imaginou Isis protegendo Emer, e nunca imaginou a amiga tão distraída assim. Ambas as mulheres estavam diferentes. Havia algo no olhar de Emer, como se ela não fosse mais a mesma, mas não era o olhar de uma mãe de primeira viagem. Com a longa família de Shannon e vários sobrinhos, ela perceberia. Mas ali estava, um olhar selvagem e faminto.
– Vocês estão bem?
Isis que já conhecia a casa se fez presente, deixando as coisas sobre a mesa e tirando da sacola alguns embrulhos com quitutes. O olhar que a coiote lhe deu foi rápido, antes de dar de ombros e ir buscar refrescos na cozinha.
Shannon estendeu os braços e logo tinha a pequena Dott nas mãos. A criança dormia sem se incomodar de sair do colo da mãe. Ela ergueu a sobrancelha para Emehir, que apenas deu de ombros.
– Ela parece adorar ir de colo em colo. Nem se incomoda.
Isis voltou com xícaras e um bule cheirando a chocolate quente.
– Agora sério meninas. Eu ouvi você gritar..e… Como estão?
Emehir fechou os olhos como se pensando no que iria dizer e Isis sentou-se encolhida no sofá.
– Muita coisa aconteceu. Se prepare para os choques da vida. — Isis deu de ombros e apontou para Emehir — Ela terá que se acostumar não apenas a ser mãe, mas também em ser loba. Está ouvindo a loba na mente e imagino que para aqueles que não nasceram com seu animal deve ser complicado. Onde antes era vazio, agora há alguém dividindo seus pensamentos e emoções.
Shannon estava boquiaberta para as duas. Mas havia mais por trás daquilo.
– E é doloroso transformar alguém? Foi por isso que você gritou? — Shannon olhou para Isis que parecia mais branca que o sofá.
– Foi Kallai que a transformou.
Nesse momento Emehir abriu os olhos e estendeu os braços para pegar sua menina no colo. Shannon não a culpou, mas viu que o semblante de sua amiga estava distinto. Ela não havia mudado em nenhum traço físico. Não estava mais bonita, nem mais feia. Mas havia aquele brilho no olhar, que dizia que ela nunca mais seria a mesma.
– Então, como é sentir o cheiro de tudo mais pronunciado? Incomodo? — Shannon brincou com Emer.
– Estranho e degradante em alguns casos — Emer torceu o nariz — Irei passar longe de determinados lugares agora.
Isis segurou a risada, a primeira desde que chegou na casa.
– Você se acostuma.
Emer sorriu sem jeito e continuou a embalar a criança, quando ela se afastou ligeiramente. Ergueu o olhar para Shannon e chamou-a com um aceno de cabeça.
– Ela acordou. Venha ver minha inteligente menina.
Não dizia a toa, quando Shannon aproximou-se dela, viu que a menina olhava para tudo quanto era lugar, menos para a mãe, como que captando o lugar novo. Não parecia um bebê recém-nascido, mas sim, uma criança sapeca mais velha. Ela virou-se para me olhar e foi amor a primeira vista. Shannon a pegou novamente do colo de Emehir e a apertou contra seu rosto. Ouviu Aldott soltar um burbulhinho de alegria. Então girou no lugar com ela no alto.
– E Dott fisgou mais um. — Isis riu.
– Está definido, vocês podem ir embora. Ela é minha e vou cuidar dela como uma boneca. Pode voltar daqui a alguns anos. Sho! Saiam da minha casa — Shannon soltou.
Emehir sorriu e serviu-se de alguns doces.
– Que tal até eu sair da casa? — A voz dela soou muito maternal e protetora, o que arrancou risadas das três.
Alguns dias se passaram e alguns dos lobos estavam tentando ajudar Emehir a se adequar com sua nova condição. Isis era uma dessas e, tinha decidido ajudar com os odores, para tal foi pedir ajuda de Abigail com seus pratos saborosos. Isis estava saindo do Chaperon Rouge, quando ouviu a mais nova da vez. Ela devia saber que algo assim aconteceria, mas não esperava que fosse tão intenso. Alguns lobos a cercaram, e sua coiote mostrou os dentes. Isis ergueu o queixo e cruzou os braços.
– O que os lobinhos querem?
– Não começa vadia. Acha que ainda está no comando? — um dos lobos rosnou para Isis.
– Sempre se exibindo, sempre se achando a maioral. Não é à toa, que você conseguiu o impossível. Kallai devia te matar, isso sim.
– Vamos entregá-la as hienas, aposto que eles adorariam te fazer em pedaços.
Um deles se aproximou de Isis e apertou seu braço. Ela tentou evitar, mas a dor foi mais forte e ela gritou. Um vento agitado pareceu revoar ao redor deles e o lobo uivou ao cheiro de magia no ar. O mundo piscou em escuridão e uma luz saiu de dentro da cafeteria. O brilho adornava uma mulher belíssima e alta, que tinha os olhos nublados com os tons da galáxia. Ouviu-se ganidos e Isis se virou para ver que os homens lobos estavam caídos no chão se contorcendo de dor.
– Que o que eu vi hoje não se repita seus filhotes malcriados. Seu alfa saberá o que fizeram aqui. — A luz pareceu soltar faíscas ao redor da mulher — Se ela está viva e o alfa desvencilhou-se dela, há seu motivo e não importa a vocês. Estamos entendidos?
A luz começou a sumir e a luz voltou a vista de todos. No lugar daquela belíssima mulher estava Abigail, a velha senhora sorridente, que gosta de servir bem seus clientes. Porém seu olhar ainda era como uma galáxia.
– Ainda não ouvi suas respostas.
– S-s-sim senhora. — Um dos lobos ganiu, ainda com o corpo tremendo — Nós.. não … se repetira.
– Bom, agora sumam da minha vista e se fosse vocês, pediria ainda hoje para seu alfa pra mudar para outra região do Alasca.
Isis virou-se para Abigail e recuou ligeiramente, num ato instintivo.
– Desde quando você é tão…
– Poderosa? — O sorriso matreiro dela emoldurou seu rosto — Oh querida, os jovens esquecem que quanto mais velhos ficamos, mais sábios e cheios de truques nós ficamos.
Abigail esfregou os braços de Isis, que se deixou enlaçar pela fae.
– Você vai precisar de forças, sua jornada mal começou criança — Abigail entregou-lhe um brownie, o que apenas tirou lagrimas de Isis — Não, não criança, não chore. Aqui, venha cá.
A fae abraçou Isis, que apoiou o rosto em seu ombro e se permitiu chorar. Já havia ouvido de tudo nas últimas semanas. De tudo um pouco, mas o ataque físico era algo novo. Já fazia tanto tempo desde sua última alcateia, que ela havia se esquecido, de como era ser indesejável. Pelo menos, a ponto de ser atacada fisicamente.
– Eu só queria alguém para me amar. É pedir muito Abigail?
– Infelizmente querida, as vezes é pedir demais. Mas o amor chegou a sua porta. Apenas abra os olhos e permita-se ver. — Abigail ergueu o queixo de Isis — Vá até ele.
Isis abaixou o rosto e acenou, antes de correr. Seu destino era um que ela evitou tomar desde muito cedo. Mas tão logo saiu da clínica com Emehir, as pessoas ainda não sabiam, mas no dia seguinte, ela apresentou o divórcio para que Kallai assinasse. Não fazia sentido permanecerem no papel, uma união que não mais existia entre seu íntimo. Depois disso, apenas recebeu olhares maldosos em sua direção, alguns resmungos ignorantes, sem contar na forma como todos a evitavam como se fosse a própria peste negra.
Há muito que não se sentia dessa maneira, sendo desprezada pelo seu próprio povo. Ou o que era o mais próximo ao seu. Com tantos seres sobrenaturais escondidos no mundo, raramente encontrou outros coiotes como ela, então acabou por conviver com os lobos. As hienas eram muito reclusas e não aceitavam bem outros que não fossem um dos seus, mesmo que fossem a minoria no mundo. Isis corria sem nem ver mais, apenas sentindo no peito aquela opressão, aquele povo que era seu e ao mesmo tempo não era. E pela primeira vez, ela não correu para Kallai.
Ninguém a parou enquanto ela subia degrau a degrau do pequeno hotel. Nenhum humano a pararia, mas agora não importava. Tudo que ela sentia era a dor da rejeição. Toda a dor que sentia, de não ser amada por ninguém, apenas por ele. Ela não bateu na porta, apenas empurrou e encontrou-a sem o trinco. Era muito improvável que alguém invadisse o território de um lobo, especialmente um lobo solitário, como todos diziam. Mas ali, ele não a machucaria.
Quando Isis entrou no apartamento encontrou-o vazio. Por que ela não pensou que ele poderia estar em outro lugar? Ela pegou a mesa de canto e lançou contra o outro lado do apartamento. Por que ele não estava lá?? Ela sentiu as lágrimas que até agora não haviam fugido de seu rosto. Sentiu toda sua dor aumentar junto com essas pequenas gotas salgadas. Tentou tragar o ar o máximo que pode, mas a garganta parecia fechada e o nariz entupido. Ela uivou solitária e, mesmo com a impossibilidade de sentir, farejou-o. O cheiro dele estava presente no quarto, mesmo que fosse temporário. Ele estaria lá em algum momento. Isis caminhou pela antessala e procurou um lugar onde ele provavelmente passava a maior parte do tempo. O mais comum seria a cama, mas havia um sofá do estilo divã ao lado de uma pequena estante. Nela haviam alguns títulos, os quais pareciam ser pessoais, itens só dele. Passou os dedos por cima das contracapas e fungou novamente. Ela o queria.
– Seu idiota! — Isis jogou-se contra o sofá e enfiou o rosto na almofada. A proximidade e o cheiro dele a acalmando — Cadê você?
E naquele pequeno santuário dele, Isis permitiu-se chorar pela ignorância da alcateia, por não terem sido capazes de ver algo que não existia mais. Algo que só estava mesmo no papel. Não era à toa que eles eram o primeiro casal sobrenatural a se separar. Kallai sempre seria um anjo guerreiro para ela, mas não era mais aquele que habitava o seu coração. Deixou de ser quando havia percebido que dele nada receberia de amor. Não do tipo que uma mulher deseja.
Ela acordou sobressaltada com o som de passos no corredor, sem perceber que havia dormido contra o encosto do divã. O rosto estava úmido das lágrimas que havia derramado. A porta abriu num golpe e um Bernard esbaforido entrou no quarto. Ele parou na antessala apenas o tempo de respirar fundo. O lobo deve ter sentido o cheiro de dor impregnado junto ao cheiro de Isis, pois ele rosnou profundamente. Isis ergueu o rosto completamente e percebeu que o lobo de Bernard estava em seus olhos, brilhantes e amarelados. Ele aproximou-se de Isis e puxou-a para seus braços. Ela nunca havia se sentido tão pequena e tão querida nos braços de alguém. Bernard enlaçou-a e carregou para a cama. Em seguida tudo que Isis sentia era suas costas contra o macio do colchão e o corpo de Bernard pesado sobre o seu. Ele rosnou baixo em seu ouvido, e ela sentiu todo seu corpo estremecer em resposta. Mas sua coiote não parecia temerosa, e sim ansiosa.
– Por que demorou? — Ela rosnou também, apesar de que a dor ainda estava entalada na garganta.
Isis respirou fundo e sentiu um cheiro de talco. Apenas evidenciando onde ele estava.
– Estava junto com Emer fazendo a guarda em sua casa, quando uma Abigail muito zangada ligou para Kallai. — Ele rosnou de novo, mas dessa vez começou a esfregar seu corpo contra o de Isis — Então eu liguei os pontos de que alguém havia mexido com você. E foi preciso muito de mim para não caçar os infelizes e picá-los em pedaços. E preciso de um Kallai mais zangado ainda dando uma de pai para cima de mim e demonstrando o que aconteceria comigo se eu fizesse você ficar triste ou magoada.
Isis tentou se afastar de Bernard, que parecia querer entrar dentro dela como se fosse fisicamente possível. Ela mordeu o ombro dele que era a única coisa a vista, mas obteve efeito contrário do que queria, quando o próprio lobo se remexeu mais e mordeu o ombro dela.
– E como Kallai demonstrou? Por que demorou?
Bernard soltou um grunhido, e seu lobo parecia mais ainda sob sua pele. Agora eles estavam frente a frente e ela percebia o muito que Bernard estava se segurando para não mudar nesse exato momento. Estava dividido entre caçar e ficar e protegê-la.
– Ele usou os lobos que te feriram como exemplo. Digamos que eles vão ficar uns dias sem sair da cama. E me mostrou exatamente o que fará comigo, se não pior se você derrubar uma lágrima.
– Isso foi uma benção para...nós?
Bernard rosnou.
– Mesmo sem benção Isis, você seria minha. — Ele finalmente desceu os lábios sobre os dela, em um relar de pele contra pele — Você é minha e jamais vou deixá-la partir. Não importa o que houver.
– Mas, estou manchada. Sou uma coiote, e a primeira que foi…
– Cale-se! — Bernard continuou a passar seus lábios pela pele dela, passando do maxilar ao queixo, e descendo pelo pescoço — Você é perfeita para mim. O que aconteceu apenas me impediu de lutar contra Kallai por você. Eu faria meu amor, eu faria.
Isis sentiu as lágrimas voltarem a descer, mas logo foram beijadas por Bernard. Ele a olhou nos olhos, seu lobo ainda presente, mas aquele era mais seu Bernard que o animal. Isis puxou-o pela nuca e beijou-o como desejava fazer há muito tempo. Eles rolaram pela cama enquanto lutavam para tirar suas próprias roupas.
– A porta… — Isis murmurou entre seus beijos.
– Mato quem aparecer. — Ele rosnou para a porta e então virou-se para olhar Isis — Minha.
Isis começou a rir e acariciou os cabelos de Bernard.
– Sua.
Fergus andava com cuidado pelo cômodo, com uma Shannon estremecida às suas costas. Ela deveria ter chamado o xerife, mas preferia confiar no nariz de um lobo. Então lá estava Fergus, tentando entender aquela profusão de cores, e interiormente segurando a imensa vontade de rir.
– Lembre-me novamente por que estou aqui?
– Achei que você fosse o mediador — Shannon mordeu o lábio, estremecendo assustada — Estou falando a sério, ALGUÉM entrou na minha casa. E com toda essa coisa da Emer, e ela vindo aqui…
– E novamente — Fergus frisou a palavra — por que estou aqui?
– Por que algum estranho entrou na minha casa. — Shannon não sabia dizer se era coragem ou o medo que a fazia enfrentar Fergus. Ele era assustador com todas aquelas tatuagens tribais e o olhar de quem conhecia a morte — Eu conheço minha casa como ninguém, sei onde tudo está, e aquilo — Apontou para a mesa cheia de perucas e a caixa de piercings — Não estava ali.
Fergus suspirou e apertou o nariz, fazendo uma ligeira massagem. Ele respirou fundo sentindo o cheiro de todas as pessoas que estiveram naquele lugar. Com o tempo de vida que tinha, e o costume de seguir os sobrenaturais, seu olfato era um dos mais aguçados que ele já tinha ouvido falar. Motivo pelo qual ele era um excelente mediador. Ninguém conseguia mentir para ele, mesmo que a batida do coração fosse normal. Ele sempre sentia o cheiro acre da mentira. Era como um fedor característico. Um que ele detestava. E outra coisa que o incomodava era o cheiro de medo. Ele afastou-se de Shannon e tentou entrar nas sombras que a casa oferecia, tentando fugir de sua visão, mas a pobre humana estava tão assustada que o seguiu sombra adentro.
– Eu conheço minhas coisas, e aquilo é novo. E não comprei nada recentemente. E a caixa de piercings? As minhas pedrinhas estão bem guardadas e higienizadas numa caixa de joias dentro do guarda roupas.
Fergus ergueu uma sobrancelha indeciso sobre falar a verdade ou não. Ele havia pensado que seu irmão tinha desistido da dança do acasalamento. Afinal, estava obvio que Shannon havia preferido Adami, mesmo que ainda não levasse o cheiro de companheira dele, então era uma surpresa sentir o cheiro do irmão pelo apartamento inteiro. Ele deve ter ficado muito tempo e mexido em tudo, mesmo que provavelmente tenha tomado cuidado para não tirar nada do lugar.
– Não há nenhum cheiro diferente. — Agora o cheiro de medo era menor — Achou que aquele quem quer fazer mal para Emehir iria te deixar presentes?
– N-n-ão é isso. — Shannon ainda olhava desconfiada para os presentes — Olha Fergus, eu vim para a cidade por que um amigo da minha vózinha me disse que seria o lugar mais seguro para mim.
Fergus olhou-a preocupado.
– Devemos nos preocupar com algo além de um lobo caçando uma humana, e agora com alguém caçando outra de nossas humanas?
Shannon sacudiu a cabeça.
– Não precisa se preocupar, já que o cheiro é de algum conhecido. Aliás, ninguém sabe em que parte do Alasca estou, nem mesmo minha avó. — o som da voz de Shannon soou fragilizada — E Emer não é mais humana. Ela pode arrancar o pescoço do imbecil. Ela é mãe, quer uma mulher mais perigosa que uma protegendo o filho? Sendo loba ou não.
Fergus grunhiu, o que fez com que Shannon desse um pulo para trás. Ele desculpou-se e esfregou o rosto.
– Ela pode ser mãe, mas ela é uma psy. É mais fácil ela fazer o lobo chorar feito um condenado e se encolher, impedido de atacar uma psy. Mas se ele for um lobo enlouquecido, até mesmo uma mãe poderá ter problemas com ele.
– Mas se é um louco, não deveria ser … não sei, inteligente o suficiente para planejar algo tão esquematizado como matá-la?E por que?
Fergus virou-se para Shannon e ergueu a sobrancelha.
– O que? — Shannon resmungou — Sou fã dos seriados de detetives…
O comentário tirou um sorriso do mediador.
– Você tem razão quanto a isso. Mas pense que quando falamos em loucura de um lobo, nós falamos de um animal com uma inteligência fora do comum que está guiado por instintos muito primitivos, sendo um dos quais a matança. Os lobos quando chegam nesse ponto são mortos por que são muito perigosos para ficar entre outros, pois seu primeiro instinto é de atacar. Para cada um a loucura começa de um jeito, mas quando ela chega ou você tenta controlá-la ou você se entrega para a morte. Mas ainda há aqueles, que gostam de tentar controlar lobos loucos. O que é pior.
– Eles seriam como psicopatas em nível hard?
Fergus concordou. Era o mais perto que poderia chegar da descrição.
– Agora adicione garras, dentes, força sobre-humana e sentidos aguçados.
Shannon estremeceu.
– Certo. Capitei a mensagem, não quero estar no seu lugar quando se deparar com esse louco. — Shannon virou-se para os presentes misteriosos e então deu um ligeiro toque no ombro de Fergus — Mas você ainda não me disse de quem é o cheiro que está no “suposto presente”.
Fergus sorriu, o que fez que Shannon recuasse ligeiramente. Ele parecia assustador sorrindo.
– Se o seu admirador não quis se identificar, apenas se divirta…
Foi muito difícil conseguir sem deturpar a ideia das pessoas. Mulheres podem ser bem casamenteiras e românticas quando pedem para ser. Kallai foi até a farmácia de Ruby conseguir algumas ervas, e depois de tanto ser irritado sobre o que queria fazer com tais ervas, teve que dizer que pretendia fazer uma imersão calmante. Não sabia como descobriram que não era para ele, mas todos já estavam comentando que o Brenin procurava uma esposa e estava se preparando para receber uma em casa. Kallai agora andava junto com a filha, evitando as solteiras do clã.
Avalon grunhia para as solteiras que se aproximavam e também para as mães delas.
– Você não tem ideia de como Era da Regência. Fugi de alguns quantos bailes. Os solteiros da cidade eram cercados pelas matriarcas e, aí de você se não dançasse pelo menos uma vez com cada moça solteira. Ao menos as damas eram delicadas como uma flor.
Kallai resmungou para a filha, que grunhia sons que se assemelhavam a risadas.
– Você ri? Pobre de mim.
Chegaram a casa de Emer que estava se preparando para sair com Dougal. Eram poucos os lobos que estavam ao redor da mais nova lupina. Sophie estava a ajudando com os dons de uma psy. Como fechar os canais mágicos para não sentir as emoções da alcateia, como usar esses mesmos canais para tranquilizar e acalmar. Já Fergus e Isis estavam ensinando como lidar com os sentidos aguçados, especialmente o olfato. Avalon e Bernard corriam com ela em forma lupina para que ela se acostumasse ao seu novo corpo. Kallai era um dos que ficava cuidando de Aldott enquanto ela corria. Hoje não era um dos dias de corrida, o que fez Avalon soltar um ganido ao perceber o caminho que eles tomavam.
– Não me diga que não quer ir ver aquela pequena que tem todos no dedinho? Com você também era assim, todos queriam te carregar.
Avalon bufou discordando. Seu rabo bateu contra as pernas de Kallai e ele riu, enquanto afundava os dedos no pelo macio dela.
– É verdade. Quando era a vez de você andar, tudo que fazia era ganir para nós só para ficar no colo. Foi bem mal-acostumada. Especialmente pelo seu irmão, que te levava no ombro como se fosse um papagaio de pirata.
A loba encostou o focinho na perna de Kallai, como se estivesse escondendo sua face. — Crianças fazem isso conosco. A dificuldade de humanas engravidarem de nós, tanto quanto as nossas próprias fêmeas o fazerem. Se tiver sorte e a gravidez vingar há a possibilidade de vir um grande número de bebês, mas... — Kallai suspirou — Só isso nos fez uma raça um pouco mais numerosa, que outros canídeos. Quase não vemos raposas ou coiotes... — Agora ele estava reflexivo — e uma raridade que as hienas tenham sido as únicas dos que mudam serem em tamanho um pouco mais numerosas.
Kallai olhou para baixo e percebeu que estava sozinho. Ele deu risada, pois Avalon já estava longe, quase na entrada da casa de Fergus. Kallai sabia que ele podia se tornar bem pensativo com sua filha, mas também podia se tornar cansativo de igual forma.
Quando chegou a porta, Emer já havia aberto para que nós entrássemos. Ela parecia se acostumar com certa facilidade aos novos sentidos, mas Kallai sentia que havia algo que ela não demonstrava. Quando chegou na porta, viu que sua menina já estava como humana e vestida com um vestido que era fácil de vestir e tirar. Aquela bolsa que Isis projetou era perfeita e agora alguns dos lobos mais tímidos queriam uma igual.
– Viemos ver Aldott.
Viu que Emer sorriu sem jeito, então deu espaço para que ele também entrasse. A posição dela instintivamente de proteção para com a menina.
– Sabe, só você a chama pelo nome. O apelido que Lothar inventou pegou.
– Então irei chamá-la pelos dois nomes.
Emehir deu uma risada suave e baixa, mas seu rosto virou-se ao som de um ofegar. Depois de anos, Kallai aprendeu a inibir ou ignorar muitos dos pequenos sons. Mas Emehir estava atenta a tudo, e por conta disso era perceptível a leve olheira e os sinais de cansaço. Sua agitação também era evidente, enquanto não conseguia manter um segundo mais parada no lugar. Ela somente parou um instante e um brilho diferente em seu olhar, obrigou Kallai a ver o que tanto a instigava tanto amor.
Kallai sentiu a garganta fechar quando percebeu sua Avalon embalando Aldott em seus braços. Ela havia se sentado na cadeira de balanço, com as pernas cruzados para o alto. A cadeira balançava e Avalon encostava o nariz entre o cobertor, cheirando o suave cheiro de bebe. Aldott havia erguido a mão e encostado na bochecha da mulher loba, e num movimento muito leve acariciava o rosto de Avalon.
– Como ela está? — Kallai perguntou quando finalmente encontrou a própria voz.
– Não está dormindo direito a noite...e ontem ela cuspiu fogo.
– Ela o que? — virou-se para ela e viu o amargor nos olhos de Emer — Como...?
– Imaginava que algo iria acontecer, mas não tão cedo. Trina falou sobre isso, disso que era natural que a criança saísse como um dos seus, pois uma tal de genética era mais forte que dos humanos. Mas, como irei ensiná-la?
– Daremos um jeito.
– Eu não posso vê-lo e também não posso perdoá-lo pelo que fez. Mas o que mais temo agora, é que como uma psy se eu o encontrar, saberei o que ele sente... e não sei como poderei reagir.
– Você não precisa encontrá-lo. Nós iremos cuidar de vocês.
Emehir ficou em silêncio. E um arrepio passou pelo corpo de Kallai.
– Emehir.- Kallai rosnou para seu silêncio e ela o observou.
– Eu sei que irão.
– Certo, porque vocês duas não vão correr um pouco e desanuviar a cabeça??? — Kallai viu que Avalon ergueu o rosto com um semblante fechado para ele — Eu cuidarei de Aldott Wynne e vocês podem ir se divertir caçando.
– Se a chamar assim não terá efeito algum quando for grande e tiver que gritar com ela por aprontar. — Emehir riu, mas não fez menção de sair — Mas não sei se seria correto deixá-lo aqui sozinho com Dott. Geralmente Sophie está aqui com você e...
– Pois eu cuidei de três filhos e muito bem obrigado. — Kallai já estava empurrando Emehir com um leve toque nas costas e pegando Aldott dos braços de Avalon — Deixe-me paparicar essa pequena sem ter alguém em cima pra tirar do meu colo. Vão.
A última palavra soou como uma ordem de alfa. Uma ordem que fez Avalon mudar instantaneamente e rosnar levemente, antes de dar as costas e sair pela porta da frente. Emehir ainda estava no cômodo, sem fazer menção de mudar ou sair. Kallai ergueu a sobrancelha direita e Emer imitou-o e cruzou os braços.
– Também sei fazer isso. E não sou da sua alcateia. Ouvi dizer que é necessário ter todo um rito para isso...
– Ainda sou um Brenin. Devia me obedecer.
– Ouvi dizer que psy tem suas vantagens.
– Malditos psy — Kallai rosnou.
– Sem maldições ou palavras se baixo calão perto da minha filha. — Emer rosnou de volta, o que tirou um sorriso de Kallai.
– Sim mamãe. Agora vá.
Kallai esperou que as duas estivessem longe. Então embalou a menina e ergueu-a de forma que seu rosto ficou na mesma altura que a dele. Aldott arregalou os olhos e movimentou a boca num gesto de sucção.
– Certo, hora de dar um presente para a mamãe. Você vai me ajudar Aldott?
A menina deu um sorriso banguela e ele segurou a risada. Tinha que manter a seriedade, ou ele nem começaria.
– Nós vamos preparar a casa pra mamãe relaxar. Então eu vou brincar com você e espero que não queira brincar com fogo. — Kallai franziu a testa — e então você irá dormir a noite toda. Vou te ensinar uns truques.
Aldott começou a mover suas mãos para baixo e para cima com gestos espalhafatosos, como se quisesse sair do colo.
– Ótimo, estamos empolgados para arrumar a casa.
Ele colocou o canguru de tecido que Emer havia ganhado no chá de bebê, e começou a arrumar a casa, enquanto cantava para Aldott. A menina fechou os olhos, mas ele sabia melhor que ela não dormia. Sua respiração era continua e não compassada com o típico jeito sonolento. As vezes quando a música tomava um ritmo mais lento, Aldott abria os olhos e dava tapinhas leves no rosto de Kallai. O que arrancava uma risada do Brenin. Foi quando a porta se escancarou.
– Querida, cheguei. — Dougal entrou carregando todas as ervas que Kallai havia conseguido.
Kallai rosnou.
– Você vai incomodá-la. — Ele indicou com um gesto de cabeça Aldott no seu colo. — Nada disso, ela me ama. Não é minha garotinha?
Aldott borbulhou de felicidade, e estendeu os bracinhos para Dougal. Ele a pegou do canguru de Kallai e entregou as sacolas.
– Brinque com ela um pouco. E Aldott com ele você pode usar fogo. Queime-o à vontade.
Dougal bufou.
– Como se ela fosse queimar o tio favorito dela. — Ele a jogou a apenas alguns centímetros para o alto e a pegou novamente — Eu brinco com ela todos os dias.
Enquanto Dougal ficou com Dott no canto da casa, ele viu Kallai espalhar as ervas imersas na água para que o cheiro ficasse suave. Eram ervas com propriedades relaxantes e adocicadas. Ele encheu a cama de Emehir com pétalas de flores. Acendeu velas aromáticas de odor similar as flores. Fechou as cortinas, abafando um pouco mais a casa, e a deixando mais aconchegante.
– Sabe, é como ver um Rei fazer o trabalho de um serviçal — Dougal falou em um momento, enquanto analisava o trabalho de Kallai. — Estou amando isso. Ali ficou um pouco de pozinho.
– Levanta sua bunda mole do sofá e vem me ajudar.
– Eu já fiz, na verdade vou continuar fazendo. Avalon não é muito chegada em Emer. Se ela ver isso tudo, vai morder seu calcanhar pelos próximos centenas de anos...
Depois de limpar e organizar tudo, Kallai e Dougal revezaram-se para brincar com Aldott. Essa brincadeira começou a cansa-lá. Até que eles ouviram uivos a distância.
– E essa é a minha deixa.
Dougal mudou na frente de Kallai e trotou para a porta. Empurrou-a com a pata e saiu correndo pelo bosque atrás da porta. Não esperou muito quando uma loba elegante se aproximou da porta. Kallai olhou para a loba caramelo claro que o olhou intensamente.
– Entre para que o calor não fuja.
A loba farejou o ar, e por instantes ele se assustou com as atitudes dela, pois naquele gesto era como se não houvesse mais nada de Emer no animal. Kallai sentiu um arrepio em seu corpo e seu lobo uivou em concordância. Ela se aproximou com cuidado, como uma verdadeira caçadora. Seus passos mais se assemelhavam a graça de um felino que o porte de um lupino. E foi de perto que o choque dos olhos distintos dela, o acertou. O olhar azul e verde o encaravam como se visse no fundo de sua alma e seu lobo praticamente virou com as patas pro alto e abanou o rabo. Kallai assombrou-se com a facilidade que a loba conseguia abrandar o seu tão feral animal.
O som de um arfar veio de dentro da casa e a loba se adiantou, entrando com algumas passadas dentro da casa. Kallai a seguiu em silêncio e viu Aldott dormir aconchegada entre cobertores e almofadas. A loba aproximou-se e deitou em suas patas olhando sua filha dormir. Ela abanou o rabo e ergueu o focinho, para enfim admirar a casa. Com as orelhas em pé, ela farejou todo o lugar e soltou um ganido baixo o bastante para que não acordasse a menina, mas o suficiente para que Kallai ouvisse.
– De nada. — Kallai com muito cuidado passou a mão pelo lombo de Emer — Você ficou bem de loba.
A loba ergueu o focinho e lambeu a mão do alfa, antes de trotar com passos bem gingados para o banheiro, onde encostou a porta com o focinho. Kallai ficou ouvindo o som da transformação dela, pegou Aldott com cuidado para não a acordar e sentou-se na cadeira de balanço. Emehir saiu do banheiro, vestida com um roupão grande e estendeu a mão para pegar Aldott.
– Não. Você vai deitar e dormir. Hoje eu irei cuidar das duas.
Emer abriu a boca para reclamar, mas Kallai balançou o rosto.
– Você precisa descansar. Não é todo dia que se vira loba e mãe. Nenhum dos dois é algo fácil de fazer. Permita que nós te ajudemos. Aproveite o ambiente que está preparado para você descansar e durma. Não será sempre assim que terá essa ajuda.
A mulher virou o rosto olhando para a cama, e depois para sua filha nos braços de Kallai.
– Eu preciso segurá-la, ou não conseguirei dormir tranquila. É como se fosse um sonho, que posso cuidar dela, e que ninguém pulou para nós matar.
– Seja uma boa lobinha e vá se deitar. Vamos fingir que você não é uma psy e vai me obedecer. — Kallai foi andando em direção a cama. — Você tem que deixar o berço um pouco longe. Assim ela vai se acostumando também. ..
Emehir caminhava com um bico imenso, ela chegou na cama e sentou na beirada.
– Vamos. Deitada.
– Só por hoje! — Emer ergueu o canto dos lábios minimamente.
– O que só por hoje?
– Só por hoje vou te ouvir. Mas só porque quero minha menina.
Ela deitou na cama e estendeu os braços. Kallai negou e sentou-se na beirada da cama. Emer travou e um rosnado baixo saiu de seus lábios. O que arrancou um sorriso do alfa.
– Eu conversei com Aldott e ela sabe ouvir um alfa. Hoje ela vai dormir à noite toda e lhe dar um descanso.
Ao dizer isso Kallai inclinou o corpo contra o colchão, deitando-se junto com Aldott. Emehir havia encostado as costas contra a parede. Ele deitou a menina no colchão e apoiou o cotovelo contra a superfície macia, conseguindo encarar ambas.
– Agora seja uma boa menina e descanse como Aldott. Irei velar o sono das duas. Infeliz daquele que tentar adentrar aquela porta.
Emer ficou um tempo olhando para Kallai não acreditando no que ouvia. Uma pontada no peito, quando ele se aproximou mais e beijou sua testa. Em seguida aproximou-se da testa de Aldott e raspou a ponta dos lábios contra sua pele. Aldott remexeu-se e foi se aconchegando cada vez mais para perto de sua mãe. Kallai começou a cantar baixo, sua voz em um tom digno de uma ópera, mas na rouquidão e altura que cantava, apenas embalava o sono de Emer. Ela custou a fechar os olhos, e apenas permitiu-se fechar os olhos e dormir o tão prometido sono, quando o cheiro das ervas a embalou, juntamente com a voz apaziguadora de Kallai, mas antes de cair no sono ainda pode sentir os dedos dele em seus cabelos, acariciando.
Emehir estava costurando mais algumas mochilas de lobos (agora uma para si também), quando ouviu o barulho de passos do outro lado da porta. Ela esfregou um pouco a orelha, incomodada com seus novos dons. Aproveitou para praticar o canal magico de uma psy e sentiu a preocupação a distancias. O incomodo do sentimento fez Emer tossir. Sua menina girava pelo colchão, todo cercado com almofadas, carregando uma das bonecas de pano que havia ganhado. Quando o batuque leve na porta soou, ambas olharam para a porta. Aldott curiosa soltou alguns pequenos barulhos com a boca.
– Entre, porta aberta — Ela levantou e foi pegar Aldott quando percebeu que a pequena pulava ansiosa para sair da proteção das almofadas.
Isis adentrou a casa enquanto olhava para trás. A ação deixou Emer assustada, que instintivamente colocou sua bebe para fora do alcance de janelas e portas
– Eu preciso falar com você.
– Oh — Emer suspirou aliviada que não fosse algo tão perigoso quanto ela pensava — Como tem passado?
Isis ergueu a sobrancelha.
– Você sabe, com os lobos? Quer que eu morda o traseiro de alguém? Por que agora eu posso — Emer sorriu sem jeito, tentando aliviar o cheiro de dor que sentia em Isis.
– Quem diria que um dia você me defenderia. — Isis sentou-se no sofá e apertou as mãos contra o colo — Há um tempo eu teria arrancado seu pescoço. As coisas mudam o tempo todo, e eu acima de todos não deveria me surpreender tanto assim.
– Eu te entendo. Uma estranha aparece gravida, e seu marido fica rodeando-a — Emer mordeu o lábio inferior — Eu nem imagino como seja.
– Eu o amo. Não como um marido, mas não vou negar que tenho sentimentos por ele. Foram muitos anos juntos — Isis ergueu o olhar — Mas não sabia o que era amar e ser correspondida. Agora eu sei, e.. temo que o perderei.
– Bernard? — Emer sentou-se e Isis ergueu os braços para receber Aldott no colo — Não o conheço há muito, mas o pouco que sei, ele é um homem honrado. Não o perderá pelo seu passado.
Isis remexeu-se inquieta.
– Como soube que estava grávida?
Emehir recuou com a pergunta. Não esperava tal pergunta, e o como aconteceu sempre estaria em sua mente. Ela olhou para Aldott, e suspirou.
– Era uma possibilidade, depois de…
– Não. — Isis interrompeu-a — Não vá por aí. O que perguntei foi, como soube antes de todos os outros? Geralmente os homens conseguem farejar depois de um mês, mas você sabia antes.
Emer levantou-se e foi para uma escrivaninha.
– Eu temia que pudesse estar. Não sou uma santa, Isis. Não tinha ideia do que pensar sobre o que fazer se estivesse. Então perguntei aos Deuses — Ela ergueu uma sacolinha — Eu me concentrei na pergunta e joguei. Quando o resultado deu indicando que eu teria uma criança no meu futuro, joguei de novo, e de novo… e de novo — Emer suspirou — E quando caí por mim que meu destino estava traçado, comecei a digerir a ideia de ter um filho.
Isis olhou para Aldott que agora brincava com o seu dedo. Ela o segurava com sua mão, apertando o mais firme que podia.
– Valeu a pena você ter protegido essa pequena.
O olhar de Emer foi para sua filha também.
– Sim, valeu. — Ergueu o saco com as pedras de runas — Mas você quer alguma orientação?
Isis engoliu em seco.
– Eu sou uma azarada, Emehir. Quando eu não tinha ninguém, e não me interrompa, eu não tinha. Eu e Kallai convivíamos bem, mas não nos amávamos. Ele deixou isso sempre muito claro para mim. Eu pedi para ele uma criança. Uma criança que eu pudesse amar e ser amada de volta. Desde esse dia, ele… Bem, nós temos tentado bastante, e na última vez que estávamos, bem… — Isis corou e virou o rosto — Estava no meu período fértil. Só me falta estar grávida. Emer, ele vai querer a criança, e… Eu quero um futuro, um com Bernard, e…
Emehir acenou uma concordância com o rosto. E sem perder tempo sentou-se no chão a frente de Isis. Ela fechou os olhos e concentrou-se na pergunta que poderia ajudá-la com uma resposta mais direta. Emer concentrou-se em sua respiração, ignorando o máximo que podia todos os outros sons que vinham de fora. Ela focou-se apenas na sua respiração e nas palavras em sua mente. Então ela abriu a sacola lançando as pedras a sua frente.
– Emer…
A loba ergueu a mão para interrompê-la. Sua garganta fechada, sentindo sua própria opressão. Como dizer? O que dizer? Como revelar o que ela mais temia?
– Acho melhor você conversar com Bernard.
Thorian estava impaciente com o lobo. Ele o havia feito andar por todo o bosque que cercava a cidade. Ele percebeu que Danut estava farejando tudo que podia, e tomando muito cuidado para não marcar nada com a sua própria essência. Ele estava preparando o próximo ataque. E tudo que o dragomir tinha na mente era em como faria para impedi-lo. Thorian já sabia que havia mais alguém por trás do plano de matar Emer e sua filha. Ele iria destruir a todos em pedaços. Elas… ao menos sua menina, era dele.
– Danut? — Ele perguntou pela terceira vez e ouviu o rosnado em retorno. — Irá escurecer em breve.
Ele sabia que sua irmã estava sobrevoando em algum lugar próximo. Pronta para agir caso necessário. E Thorian gostaria que esse quando necessário acontecesse para ontem. Danut fez pouco caso do seu comentário e seguiu farejando, até que ele pareceu pegar uma trilha. O homem lobo ergueu o rosto com um brilho no olhar diferente, era o lobo em seus olhos pronto para sair para caçar. Thorian queria chegar perto para saber o que ele havia farejado. Ele já sabia o tom da voz do parceiro de crime de Danut, e se ele pudesse pegar outra dica, como um cheiro, ele poderia destruir o lobo e sair para caçar a outra ameaça. O fogo em seu estomago se revirando, ansioso para sair e queimar.
Quando estava próximo de Danut, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. O lobo ergueu o olhar para o céu e uma dragomir branca desceu voando num rasante próximo a eles. A próxima coisa que Thorian sentiu foram as garras da irmã em seus ombros, carregando-o para longe. O lobo correu um pouco atrás deles, e Thorian se balançou para sair das garras da irmã. Ouviu o grunhido dela, e logo ela pegou altitude. Em seguida os dragomir ouviram o primeiro uivo. Era grave e Thorian da distância que estava percebeu que Dunat travou no lugar. Em seguida outros uivos juntaram-se ao primeiro, mas era impossível dizer quantos lobos estavam acompanhando o primeiro.
– Eles vieram caçar. Meu aviso surtiu efeito, a alcateia daqui é imensa, e pelo que pude averiguar, perigosos demais. Não é a toa que eles dominam o território do Alasca.
– Danut tinha farejado algo.
– E você seria feito em pedaços querido. Era uma família vindo. São quatro lobos, imensos e mal-encarados. Estavam caçando. Era como se soubessem o que estão procurando. — Ela rosnou entre dentes — Estão procurando um cheiro de lobo, e qualquer lobo agora virou alvo. Os vi cercar uma alcateia de animais, e quando perceberam que eram só animais, deixaram-nos partir.
– Ele chegou a ir à cidade. Ela não está segura aqui. — Thorian apertou os punhos e quando percebeu que não estava mais a vista de Danut — Solte-me, vou voar.
Ela não soltou Thorian.
– Não confio em você agora. Irá voltar para ele, para caçá-lo você mesmo. Deixe disso, preciso avisar Emer. Ela precisa partir. E… o seu julgamento vai começar irmão.
– Julgamento? — Thorian rosnou — eu preciso cuidar da minha filha.
– Você quebrou as leis do nosso povo, irmão. — Trina sacudiu o irmão em seus braços e ele resmungou quando suas pernas bateram contra as folhagens de uma árvore — Ou você passa pelo meu julgamento, ou chamarei o conselho. E sabe o que resultará para você: morte. E como irá proteger sua menina morto? Diga-me esperto.
Ele manteve o silêncio.
– Passarei pelo seu julgamento.
– Não cabe a você decidir se sim ou não. Você vai.
Isis andava de um lado a outro pela antessala do quarto do hotel de Bernard. Ele estava sentado, com os cotovelos apoiados no joelho e o queixo apoiado nas mãos. Sua pose de pensador, apenas deixando Isis mais agitada.
– Fale alguma coisa – Ela reclamou do silêncio do lobo.
Bernard apenas ergueu o olhar para ela. Ele grunhiu um pouco e voltou a remoer seus próprios pensamentos.
– Ela tem certeza? – depois de um tempo ele finalmente falou.
– Emer sabia antes de todo mundo. – Isis sentou-se ao lado de Bernard – Você... aceitaria?
O homem virou-se para Isis, pegou suas mãos e começou a beijá-las.
– Seja quantos for e de quem for, amarei como se fosse meu. Mas estou dividido, minha querida. Eu quero arrastá-la daqui e manter você e nosso futuro em segurança. – Então Bernard tocou seu ventre com suavidade – Porém, eu não posso abandonar Emehir. Eu devo olhar por todos nós. Eu vou achar um jeito...
– Bernard – Isis sentiu os olhos ficarem marejados.
– Tudo que eu me comprometo eu desejo ver concluído. Se eu devo levá-la em segurança para casa, assim o farei. Emehir já havia comentado sobre partir. Vou conversar com ela e Aaron.
Isis acenou com um leve menear de cabeça.
– Mas em breve terá o cheiro...
– Você confia em mim? – Bernard olhou-a.
– Com a minha vida.
– Então eu prometo, darei um jeito. E eu sempre cumpro minhas promessas – Bernard beijou-a nos lábios e depois desceu até seu ventre, ergueu a blusa dela e começou a espalhar beijos – Nós vamos ter nosso futuro juntos. Eu prometo.
Trina estava de tocaia a algum tempo, perto da casa de Emehir. As vezes ela via alguns lobos correndo ao redor da cabana, e nesses momentos, ela tinha que se deslocar. Uma era uma loba de um tom café com leite, um caramelo brilhoso com a luz do sol. Havia uma loba branca, e outro lobo que tinha um pelo manchado entre preto e marrom, muito similar a um pastor alemão. As vezes conseguia ver Emehir saindo com sua filha nos braços para um passeio próximo a cabana. E por vezes, sua sobrinha estava embalada nos braços de outra ruiva, enquanto os lobos corriam e interagiam entre si nas proximidades. E Trina percebeu o quão bom estavam cuidando das duas. Contudo, ela sabia que em algum momento essa segurança iria cair.
Dito e feito. Quando anoiteceu não havia mais nenhum movimento na cabana de Emehir. Havia na casa da frente, mas Trina aproveitando-se do seu elemento natural, esgueirou-se pela neve. Estava quase chegando à janela quando ouviu um rosnado. Ela havia sido transformada? Por que Trina sabia que não havia mais ninguém na casa.
– Sou eu. – Ela arriscou que fosse Emer.
A porta abriu-se e Emer ficou com o corpo contra a porta, impedindo a passagem da dragomir.
– Sei que me ajudou muito até agora, mas não permitirei que ele veja minha filha. Eu o proíbo.
Trina mordeu a carne da própria bochecha e remexeu na neve aos seus pés.
– Imaginei que diria algo assim, mas... – Sacudiu o rosto – Não vim falar sobre meu irmão, e ao mesmo tempo vim. Emer se eu consegui chegar até você, o lobo que está te caçando estava muito perto da cidade. E pelo que meu irmão disse, ele chegou a entrar na cidade. Na verdade, chegou bem perto da clínica, no dia do nascimento da... Como a chamou?
Emer oscilou um pouco quando ouviu que o seu suposto assassino chegou tão perto. Ela olhou ao redor e farejou o ar, em seguida deu espaço para que Trina pudesse entrar em casa.
– Aldott Wynne. – Ela respondeu depois de lembrar-se que havia sido questionada.
A recém loba andou pelo quarto como um animal enjaulado, em seguida foi para o berço e pegou com cuidado a filha. Aldott permaneceu dormindo, como se desde a vez que Kallai tinha conversado com ela, a menina ficou obediente e não acordava mais a noite. A menina bocejou, ajeitou-se em seus braços e manteve-se dormindo. Trina se aproximou de Emer e tentou olhar para a sobrinha. Era uma coisinha pequena e muito parecida com a mãe.
– Vim te avisar assim que soube. Meu irmão estava com o lobo até agora a pouco, mas vimos que sua alcateia estava com ele na mira, caçando-o. Não sei se conseguiram pegá-lo ou não, não ficamos para ver. Eu tirei Thorian de lá.
Emer olhou-a feio.
– Ele poderia matá-lo. Assim meus problemas...
– Há outro com ele. Meu irmão o ouviu, e diz que conseguiria reconhecê-lo pela voz. Não quero que um deles morra e o outro tente novamente. Mas Emer, estive pensando. Se o lobo queria sua morte e você vivia no fim do mundo lá na Europa, só pode ser alguém de lá.
Emer sentou-se na cadeira de balanço e olhou para sua filha.
– Bernard diz que pode ser alguém que queria atingir seu alfa. Mas ele está indo muito longe se veio para cá atrás de mim.
– Ele esperou que você saísse do território. Eu diria que o melhor a fazer agora, é voltar para lá. Seja lá o que esses dois querem, é com um alfa europeu.
Emehir olhou pela janela e parecia ponderar sobre a situação. Ela sabia de um pouco mais, porém nada podia fazer. Ainda estava se acostumando com um mundo completamente diferente do seu, um bem egoísta, e complicado, a maior parte do tempo.
– Pelo que ouvi falar de Bernard, são poucos que sabem da alcateia de Aaron. Ele é um lobo muito oculto, e só está assim porque não há um Brenin na Europa. No momento em que um Brenin se pronunciar lá, irá sentir o poder da alcateia e poderia até mesmo destruí-la.
– Então é alguém fraco. Ouvi dizer que o Brenin deve percorrer todo o território de todas as alcateias, se não da maioria. Lutar e também unir-se aos alfas das alcateias. Assim surge um Brenin. Mas ele deve lutar e vencer, sem matar o outro alfa. O que raramente acontece, pois quando há brigas entre dois dominantes que tem o poder de alfas, um deles abandona a alcateia.
– Sim. Fui transformada e entrei nesse mundo de cabeça. Todos estão tentando me ensinar como funciona tudo isso. Trina, por que o seu povo se esconde?
A dragomir sentou-se sobre a comoda de Emer, que ficava logo ao lado da cadeira de balanço. Ao fazer isso, ficou um pouco acima da loba para poder observar a sobrinha. As mãos de Trina coçavam para segurá-la, mas a posição defensiva de Emehir a impedia até mesmo de pedir.
– Antes dos sobrenaturais se revelarem ao mundo eles já tinham toda uma estrutura de poder e hierarquia. Especies com maior quantidade de seres sempre dominaram, e começaram a estabelecer normas gerais para todos. Em nome da segurança dos sobrenaturais e dos humanos. Além dos faes, dos vampiros e bruxos, há os mudadores de forma. Existem vários: felinos, caninos, aves, repteis, entre várias outras criaturas inimagináveis. Acontece que todos esses que mudam, tem uma escala menor ainda que as três grandes raças. Dos que mudam, os lobos estão em grande número.
– Trina, eu já sei disso. Eu perguntei…
– Eu quero que você ouça o meu lado da história. Sabe, a história sempre foi contada por vencedores. Os dragomir, no passado, mas muito antigo, onde apenas poucos faes conheceram, eram tão numerosos quanto qualquer outra espécie. Mas sempre fomos muito orgulhosos, muito brutais e muito… exigentes. O que queríamos tomávamos, não importava o que fosse. Meu irmão ainda vive sobre as mais antigas leis, até mesmo esquecida pelos mais jovens. Como você mesmo, ah… descobriu.
Emer torceu o nariz.
– Nós podemos ser comparados com os povos bárbaros de todas as histórias. Mas isso foi há tanto tempo, que o porquê ou a cultura inicial foi perdida. Acredito que foi quando os humanos começaram a mudar e a aprender a se defender, que nós sobrenaturais em geral nos escondemos. E surgiu a grande estrutura: os vampiros com seu rei e príncipes que caçam e ficam de tocaia para ver os infratores das normas, os lupinos ficaram responsáveis pelo julgamento, pela aplicação da lei, e as vezes pela caça, lado a lado com os vampiros. Os bruxos passaram a mediar e serem em geral os suportes no controle da organização da lei. Além de estarem mais perto dos humanos, serem como um campo neutro e geralmente conselheiros que balanceiam os dois lados do mundo mágico e não-mágico.
– E os faes são os que dominam as tão obscuras celas para aqueles que não precisam morrer pelos seus erros — Emer concluiu, pois já havia ouvido toda essa história.
– Quando as leis foram impostas, muitos do meu povo foram caçados, muitos criaram guerras e, juntamente com as fênix que viviam muito próximas a nós, decidimos criar nossas próprias leis. A caída dos nossos números foi drástica e, hoje somos tantos quanto as hienas, se não menos até mesmo que essa espécie.
– Fênix? — Emer piscou os olhos várias vezes.
– Eu não deveria contar isso para você. Mas, sim… Elas ainda existem em um número muito pequeno. Posso dizer que devem ter umas 150 no máximo espalhadas pelo mundo. Mas como estava dizendo, nós criamos leis únicas para sobreviver e viver na sombra da sombra que os sobrenaturais criaram. Com o tempo viramos lenda, e então, nem mesmo lembrados somos.
Emer ficou em silêncio absorvendo o que ela havia ouvido. Quando ainda estava grávida de Dott, Trina já havia explicado muito sobre a sua cultura e sobre suas leis. Sabia que de alguma forma ela estava burlando muito mais do que Thorian havia errado.
– Mas Trina, você mesmo disse que seu povo deve ficar escondido. Por que você está quebrando suas leis me contando tudo isso?
– Seria submetida a um julgamento se você não fosse agora família. — Trina deu de ombros.
– Não sou da sua família.
– É a mãe da minha sobrinha. O sangue que corre nela também pertence a ti. Isso nos liga e isso também me coloca outra questão pela qual vim aqui.
Emer olhou para sua filha e suspirou.
– Eu poderia revelá-los. Isso, pelo que me contou, levaria vocês a morte.
Trina sorriu com esse comentário.
– Exato, mas você não falaria. Da mesma forma que sei que não me contou tudo que Bernard disse. Apenas explicou o que realmente poderia falar.
O brilho nos olhos de Emer confirmou o que ela disse. Ela sorriu brevemente e finalmente estendeu sua filha para que Trina a pegasse.
– Diga o que a trouxe aqui, além de me falar que corro risco de vida ainda?
– Irei julgar meu irmão, e antes de você partir, deverá infringir o julgo final. Afinal, você foi a vítima. Na nossa cultura é normal o homem possuir a com força, mas acho que isso é influência das fênix. São umas sádicas, elas brigam durante o ato sexual. Porém ele deveria ter te conhecido e vivido com você antes de revelar quem ele era e somente após sua concordância em se tornar uma dragomir, é que ele poderia fazer o ritual de transformação e vinculação.
– Ele pulou algumas quantas etapas.
– Exato, por isso vou adicionar em julgamento não apenas o fato de que ele infringiu a lei por revelar quem ele era, mas também porque ele te forçou a algo. Algo que você não queria e foi obrigada.
Trina estava fazendo cafuné nos pequenos tufos de cabelo de Aldott, quando terminou de falar. Emer ergueu-se e caminhou pelo quarto, antes de parar diante da janela.
– Depois do julgamento, não vou querer mais saber de Thorian.
– Farei o possível para que você não o veja. Mas por isso, nós precisamos fazer isso antes de você partir. Algo me diz que não vamos encontrar esses lobos. Eles são muito organizados a ponto de saber onde estão todos os lobos do mundo, sempre atualizando quando há novos nascimentos e mordidas. Então, para essa alcateia do Bernard passar batido nos censos deles, são muito bons.
– Vou ligar agora mesmo para ele.
Emer pegou o telefone e discou. Trina manteve o máximo de silencio que podia, para não parecer que ela estava ali. Apesar de ser tarde, Bernard atendeu praticamente no primeiro sinal.
– O que houve? Farejou algo?
– Não me pergunte como ou porque, apenas confie em mim. Eu tenho que sair daqui. Preciso ir para junto do Aaron.
Um silêncio na linha, até que um som de rosnado. Em seguida ela ouviu Bernard mandando alguém ficar em silêncio.
– Era para ser sigiloso? Dougal está aqui. Ele vai estar aí em breve se você não me dizer algo.
– Descobri que o lobo já esteve dentro da cidade, e quase chegou perto de mim. E a pessoa que me falou sobre isso, tem uma teoria de que se minha morte é para atingir Aaron, por que ele só me atacou quando eu saí de seu território?
– Entendo, por isso você acha que enquanto ele está aqui, o mais seguro seria ir para o Aaron?
– Sim — Emer olhou para Trina que fez um ligeiro aceno com a cabeça — Além disso, ele mantém contato com outra pessoa.
– Certo, então partiremos amanhã.
– Não. Eu… preciso me despedir. Não na frente de todos, mas, eu gostaria de ter a oportunidade de dizer adeus.
– Certo, só um minuto — Ele abafou o som e falou com alguém, provavelmente Dougal — Aparentemente teremos companhia para voltar e Dougal também vai participar. Podemos até fingir que estamos fugindo para um lugar diferente com ele.
Ela concordou e depois de se despedir, Emehir sorriu para Trina.
– Conhecendo Dougal ele deve estar correndo para cá. É melhor você ir.
– Virei daqui a dois, nesse mesmo horário.
O trio dos esportes, como ela gostava de chamá-los estava correndo ao seu lado, juntamente com seu irmão Fergus. Eles eram todos próximos em idade, e por terem crescido juntos não tinham o velho preconceito do seu povo. Avalon sabia que só corria livre e não era questionada por ser filha de quem era. Agora eles corriam atrás do rastro que Chipo conseguiu. A voz do irmão em sua mente lembrou-a de como Fergus falava bem do lobo. Ele estava sendo treinado pelo próprio Mediador. Estava se tornando necessário, com todo o território para julgar. O Brenin da América tinha três mediadores, um para cada América, e aqueles os quais se reportavam diretamente a ele. Mas Fergus estava para constituir uma família e precisava de um braço amigo. Avalon poderia ajudar, mas sentia o medo de seu irmão por sua vida. Nem todos respeitariam-na.
Um lobo chocolate bateu em seu cangote, e Avalon rosnou para ele. Baas dos três era o mais brincalhão dos três irmãos. E isso tendia a ser irritante as vezes. Adami era o cabeça dos três e assumia de frente todas as broncas do irmão. Ele era mais maleável de lidar também, fazendo de Chipo o ideal a ser um mediador.
E corriam juntos porque podiam confiar. Bernard havia dito de fontes desconhecidas que eles quase pegaram a trilha do tratante que estava atrás de Emehir, e com isso se descobriu que era a família de Punnu que corria e provavelmente quem tinham pego a pista certa. Agora estavam correndo, sem o sr. Punnu, na mesma pista que tinham.
Avalon sentiu novamente um cutucão, dessa vez na lombar, mas quando se virou para morder o lobo, Baas estava com as pernas pro alto, barriga e pescoço amostra.
"O lobo dele é muito sensível. Parece até um omega. Está preocupado com você." A voz de Fergus invadiu sua mente, e Avalon grunhiu baixo.
"Ele parece uma mamãe galinha me cercando como um filhote." Avalon retrucou num tom irritado.
O som da gargalhada do irmão encheu seu coração. Era difícil ouvir esse som.
"Acho que está certa. O lobo de Baas é diferente. Ele não se enquadra na hierarquia da alcateia." Fergus parou de rir, refletindo suas próprias palavras.
"Ele é um não-nascido? "
Não-nascidos são os erros da natureza entre os sobrenaturais. Eles podem ser bem maldosos quando querem, ela bem o sabia, por invertidos serem conhecidos como não-nascidos também. Fergus virou o focinho na direção de Baas e travou os dentes na garganta do lobo. Não fechou, e em seguida deu uma lambida.
"Mesmo se ele for, não importa. Ele é nosso para cuidar"
Avalon sentiu um calor subiu em seu peito. Seu irmão era o melhor. Ela viu como Baas balançava o rabo contente, até que um som chamou a atenção de todos. Um barulho de um animal em fuga, disparando na direção contraria à nossa. Apesar da disparada não havia o cheiro de medo, somente o de um lobo. Um desconhecido. Chipo ergueu as orelhas enquanto se abaixava numa posição defensiva. Todos os outros circularam o terreno e dispararam na corrida. A caçada havia começado.
Os lobos correram por horas, até que Fergus parou e rosnou alto.
“O que foi irmão?”
“Magia. Lembra-se daquele lobo que caçamos que estava forçando um bruxo a fazer magica para inibir odores?” Fergus resmungou na cabeça de Avalon “Nunca funcionou, fica um cheiro estranho no ar, como se algo estivesse errado”.
“Então o parceiro dele é um bruxo?” Avalon questionou-o. “Ou tem mais alguém forçando bruxos de novo?”
“Muito provável a segunda opção. Pelo que Emer explicou para Bernard, o comparsa está conversando pelo telefone. É uma possibilidade tão…”
“O que pode ser uma organização. Mas o diabos que Aaron fez?”
Fergus uivou e começou a correr de volta para a cidade. Todos os lobos embrenharam em uma corrida atrás dele.
“Ele mordeu alguém… E muito feio”
No caminho de volta a cidade, um cheiro muito conhecido de Avalon a atraiu. O cheiro de ervas e flores da estufa de Dougal clamava sua atenção como uma serpente encantada pelo movimento da flauta. Avalon estancou no lugar e sentiu um arrepio no corpo. Seu olhar seguindo na direção de sua toca e o caminho que ela sempre tomava para chegar a estufa.
"Vá." Ela ouviu a voz de Fergus em sua mente. Estava entristecida e o tom dela a preocupou. "Eu explico o que encontramos para o pai."
"O que está acontecendo? " Avalon perguntou temerosa.
"Apenas vá."
E Avalon não podia mais esperar por nada nem ninguém. Ela disparou na direção da toca. Havia uma confusão de cheiros, tanto das flores da estufa, quanto de Dougal e algo que ela não identificou. Foi quando estava quase na toca que viu as flores, plantadas e em pétalas espalhadas e formando um caminho para dentro. Quando entrou na toca o caminho continuava e o cheiro da toca estava muito agradável. Avalon seguiu o caminho de pétalas até um monte de peles, as quais ela reconheceu ser dos animais que ela e Dougal caçaram ao longo dos anos na noite de lua cheia. As peles formavam uma cama, aparentemente muito confortável. Mas Avalon percebeu que havia mais. Quando chegou na cama de peles havia vários vestidos curtos e com tecidos mais leves, vestidos fáceis de tirar e colocar.... Vestidos para ela.
Avalon saiu da toca e farejou a toca, até que percebeu uma segunda trilha de pétalas. Ela seguiu até que a trilha chegou na estufa. Ela não queria entrar, especialmente porque dentro dela não parecia ter vida alguma. Avalon se sentiu vazia quando ao entrar percebeu que nenhum das flores havia sobrevivido, todas foram usadas nas trilhas. Todas as plantas que eram ornamentais e não medicinais estavam sumidas. Apenas as ervas que ele cultivava para a farmácia local estavam ali. Ali dentro mais um caminho, só que com mais peles. Ela seguiu até chegar em frente a um vaso com uma solitária flor. O mesmo tipo que um dia ela estava segurando quando ele entrou na estufa. E abaixo dele um bilhete dizendo "Continue sendo sempre essa grande menina que mora no meu coração. Escolha viver o melhor da vida. Com carinho, Dougal"
Ele ia embora. E tudo que a loba fez foi uivar para a lua que tinha decidido não aparecer nessa noite de vazios.
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