“Galerinha!!! Estou partindo. Apesar de todas as minhas escolhas para vir a uma cidade única e desconhecida, uma grande leitora e amiga me convidou para visitá-la… Advinhem aonde? Na EUROPA. Exatamente meus queridos leitores, se quiserem me encontrar, estarei conhecendo novos horizontes. Sobrenaturais, me aguardem! Farei novos vídeos sobre os meus faes queridos e misteriosos, e agora vou mergulhar no mundo dos vampiros. E meus queridos leitores, não se entristeçam, eu prometo que não deixarei vocês na mão com falta de conteúdo dos nossos lupinos favoritos.

Se eu demorar para publicar algo novo, compreendam, estou partindo dessa para outra. Até a próxima pessoal”

Tete-a-Tete com S&S



Era tarde da noite quando Bernard chegou. Ele insistiu em comparecer para o tal julgamento. Emehir ficou esperando Trina na porta por causa dos dois lobos em sua casa. Isis prometeu que ficaria com Dott enquanto ocorresse o julgamento. Quando deu o horário combinado um dragão branco meio azulado desceu em frente a porta de Emehir. Um lobo apareceu saído da moita, rosnando para Trina.

– Não. Ataque-a Dougal e jamais o perdoarei por isso. — Emer deixou que seu canal empático envolvesse a raiva de Dougal, o qual encontrou uma barreira intensa.

– Afaste-se Dougal — a voz de Bernard se fez presente e o lobo rosnou para o homem — Eu disse para se afastar.

Um rosnado profundo saiu dos lábios de Bernard. O poder da lua e da alcateia dele ressoando em sua fala. Um impacto invisível derrubou o lobo, que ao se levantar ergueu as orelhas intrigado.

– Acredito que você seja a informante de Emer?

A dragomir abaixou a cabeça, mas permanecia em silêncio. Apenas observando a tudo e a todos. Ela olhou uma única vez para Emer, que ergueu os ombros vencida.

– Eu tentei dizer que seria o julgamento do seu povo. Mas Bernard insistiu em me acompanhar.

– Serei o guardião dela e de Aldott. E quero ter certeza que se fosse uma situação humana, poderia me considerar um guarda costas porque ela teria uma limiar que o impedisse de chegar a 100 metros, no mínimo, delas.

A dragomir indicou um dedo ao alto e então se aproximou de Emer. Esticou o braço para jogá-la em suas costas.

– Voando? — A voz de Emer foi temerosa.

Trina assentiu com um aceno de cabeça novamente. Em seguida estendeu a mão para que Bernard segurasse.

– Comporte-se Dougal. Eu tenho certeza que seja o que ele receba eu garantirei que será o suficiente para não acontecer com mais ninguém.

Na fala de Emer, finalmente houve um som de Trina. Era um grunhido triste e silencioso. Ela concordou com um aceno e abaixou o rosto resignada.

– Vamos, quanto antes começar mais rápido vai terminar.

Trina ergueu o vôo e Emer encostou o rosto em suas escamas, para não olhar para baixo. Da última vez que voou em um dragomir não foi agradável. Bernard permaneceu o mais silencioso possível. Eles desceram próximo a caverna já conhecida por Emehir. Dentro dela vinha um vento caloroso das termas. Quando pousou e deixou os dois no chão, Trina afastou-se para voltar a forma física humana. Mesmo no frio gélido do Alasca, ela não estremeceu quando a neve tocou seu corpo nu.

– Não deveria estar presente, mas obviamente todos já sabem que algo aconteceu. Vamos para as termas. Você será o executor escolhido de Emer. E a ligação do julgamento será vinculada vinculada à ti também.

Ambos assentiram e seguiram a dragomir caverna adentro. Quando entraram se depararam com Thorian sentado com as pernas cruzadas. Ele parecia uma estátua sem mover um mínimo músculo, a ponto que se não fosse o respirar e piscar de olhos, poderiam mesmo dizer se tratar de uma obra de arte. Bernard rosnou e tomou a frente.

– Ele me disse que prometeu não falar na sua frente Emehir, muito menos olhá-la. A promessa segue com exceção quando ele obrigatoriamente terá que falar para responder ou se pronunciar durante o julgamento.

Emehir concordou com as palavras de Trina, porém permaneceu com seus olhos nas costas de Bernard. O lobo se aproximou dela, a ponto de encostar as costas dele contra o nariz de Emehir. Ela inspirou profundamente permitindo que o cheiro dele sobrepujasse qualquer cheiro dos dragomir. A falta de cheiro sobrenatural deles era distinta, mas no ambiente com dois lobos, era estranho, como se algo não se encaixasse naquela situação.

Trina aproximou do irmão que permaneceu em silêncio. Ela transformou as mãos em garras, e cortou o peito do irmão.

– Você traidor da raça, sabe por que está sendo punido?

Thorian assentiu com um gesto, mas nada falou. Bernard observava o sangue do dragomir tornar-se claro e parecer algo pegajoso e prateado.

– Você está sendo condenado por trair seu povo e agir sem respeitar as velhas leis. — Trina cortou mais uma vez e o sangue tomou uma cor mais acobreada. — Também está sendo punido por tomar uma mulher sem seu consentimento, por tentar não apenas abusar como torna-lá sua escrava.

Isso tirou uma reação de Thorian que rugiu.

– Eu a queria como esposa...

Um rosnado de Bernard e um ricochetear das mãos de Trina sobre o irmão o fez calar.

– Sem o consentimento dela seria escravidão. Cale-se seu asno. — Trina apoiou as mãos no quadril — Nós dragomir temos orgulho de nossas asas e escamas. Somos nossa pele e alma, e por sua traição lhe será negada estas.

– Eu posso rastrear aquele quem mandou matá-la. Não me despoje de minhas asas.

Agora Thorian virou seu olhar para o lobo. Ele olhou diretamente para o lobo evitando até mesmo ter um breve olhar se Emehir.

– Perderei meu fogo com minhas escamas, serei despejado de minha posição como dragomir. Mas permita que eu proteja a criança que nasceu e a mãe dela. Voarei até o fim do mundo se necessário, mas sem um que de poder nada poderei fazer. E se encontrar o homem e perder a chance de destrui-lo?

– Eu deveria te matar e não tirar algo que.... — Bernard rosnou.

– Tirar algo precioso de mesma forma que me foi tirado. — Emehir concluiu pela primeira vez — Mas também penso pela vida de minha filha. Algo me diz que você tem algo em mente, não é Trina?

A dragomir assentiu, mas não mais olhou para o irmão. A tristeza mesclada ao desgosto estava estampado em sua face. A dragomir pegou um pouco do sangue que escorria e agora estava escuro, quase negro. Pegou um frasco laqueado em dourado. Thorian arregalou os olhos, e num salto recuou das duas.

– Ele tentou te tomar como escrava. Dou ele a ti para ser teu. — Ela colocou o sangue no frasco, que se solidificou e parecia uma ônix — O rito de escravidão, quando alguém desonra outro ou quando impõe suas realidades sobre outro de forma que nos revele...ou seja, tudo que ele fez, a pessoa lecionada pode ganhar direito sobre a vida do outro.

– Mas eu não quero vê-lo nunca mais na minha vida.

– Exatamente, você pode ordenar isso para ele. Pode decidir quando o castigo das escamas inicia e acaba, se ele terá as asas cortadas. Enfim, ele é seu para fazer e desfazer.

Emehir concordou e apertou a mão contra o ombro de Bernard.

– Disse que ele seria meu executor. Então se eu quiser matar Thorian, ele deverá aceitar de boa vontade?

Trina sentiu a mandibula vacilar, e quando seus olhos se encontraram com seu irmão, uma lágrima escorreu em seu rosto.

– Sim. Se essa for a sua escolha, ele deverá obedecer. Ele errou, ele paga. Nossas leis no manterem vivos até hoje, nossas leis nos regem. E como dita a lei, ele será seu, enquanto você segurar seu sangue e ordenar.

Trina estendeu o colar e esperou que Emer o agarrasse. Emehir olhou para o colar como se ele fosse se transformar em um monstro e a atacá-la.

– Bernard, o que você pensa sobre isso?

O lobo virou-se para observar a novata, e pareceu ponderar sobre uma resposta. Ele olhou bem para todos os que estavam naquela caverna. E quando ia responder, Trina e Thorian pareciam mais apreensivos do que já estavam.

– Você quer decidir esse julgamento pelo passado ou pelo futuro que está por vir?

Emehir sorriu sem jeito para a pergunta.

– Parece que está em minha mente… Eu vejo, minha loba tentando me dizer algo, mas não entendo. Eu quero que ele seja punido, mas também quero saber que minha menina estará segura quando crescer e desejar sair de casa.

Bernard assentiu com um aceno.

– Lembre-se que nossos lobos falam por nós através de imagens, usando muito mais linguagem corporal do que linguística. — Bernard se voltou para Trina — E o quão terrível é a perda das escamas?

– Somos naturalmente orgulhosos e vaidosos. — Trina deu de ombros — Fisicamente, o cabelo dele vai cair, seu corpo irá diminuir um pouco em estrutura, e o elemento que rege o dragomir irá deixar de funcionar. Ele ainda será forte e terá os instintos de sempre. Como um dragão, ele não terá a cor de suas escamas natural, o marcando como um renegado diante do restante do povo.

– Desculpe, cabelo? Como Sansão? — Bernard ergueu a sobrancelha curioso.

– Brincadeiras a parte, quando nós mudamos, nosso cabelo vira uma especie de couraça protetora, então sim, quanto maior o cabelo, a crista que entalha e protege o rosto é mais resistente.

– E as asas? — Bernard ouviu um grunhido baixo, e percebeu o interesse de Emehir em suas perguntas.

Trina pareceu hesitante em falar.

– Vocês lobos amam correr livres pela natureza correto? — Ela esperou uma afirmação de Bernard, então continuou — É o mesmo conosco. O executor ou o mestre deverão arrancar as asas dele, e só voltariam a crescer, se assim for o desejo do mestre.

Bernard guardou um instante em silêncio, até que finalmente virou-se para Emehir e segurou em seus ombros. Com uma linguagem corporal que implorava por atenção.

– Se for pelo passado, ele merece ser condenado a perder tudo que mais lhe importa: asas, escamas, e você mandá-lo para exílio nos confins da Terra para que nunca mais aconteça nada como aconteceu com você. — Bernard fez uma pausa e suspirou — Mas estamos lidando com inimigos totalmente desconhecidos, e que tem você como meio para alcançar algum objetivo também desconhecido. Pelo futuro de sua família e seu, eu diria que quanto mais melhor, então condene-o a não interação sexual com outros e a perda de suas escamas. Deixaria as asas dele, pois acredito ser um ponto forte, ter um lagarto gigante voando durante uma caça.

Emehir afastou-se de todos, seguindo para a entrada da caverna. Trina a acompanhou, ouvindo um rosnado baixo de Thorian. O pendente com o sangue do dragomir ainda em suas mãos.

– Assim o farei — Emehir se voltou bruscamente para todos, e estendeu a mão pedindo pelo colar — Pelo bem da minha menina, eu o farei. Não bastará ir a um lugar seguro. Não me esconderei para sempre. Vive uma vida reclusa, vou querer partir e quando o fizer, que seja para um lugar seguro.

– Então que assim seja — Trina entregou o colar — Basta dizer suas ordens em voz alta enquanto usa o colar. E não importe a distância, mesmo que esteja do outro lado do mundo, ele irá obedecê-la.

Emehir colocou o colar e exerceu todas as ordens, falando pausadamente pensando cuidadosamente em tudo que estava falando, para que ele não pudesse achar um meio de burlar. A loba viu os cabelos dele desmancharem pouco a pouco, e o longo cabelo com dreadlocks se desfez e começou a cair a ponto de ficar com um cabelo espetado para todos os lados, rebeldes e sem uma forma definida. Diante dos olhos de todos, Thorian se tornou uma versão diferente e menor dele, e ao mesmo tempo, ainda estava lá. Ele estremecendo, e caindo no chão, seus olhos desolados, como se uma parte dele tivesse partido com aquelas ordens.



A organização da viagem foi o mais silenciosa possível, e Emehir começou a separar apenas o que realmente precisava. Ninguém poderia saber que eles iriam partir. No dia da viagem, Isis, Bernard, Dougal e Emehir juntamente com sua filha iriam partir na calada da noite, cada um para um lugar diferente, para se reunirem em um aeroporto distante, do qual sairiam em viagens distintas até chegarem ao destino desejado. Aaron era o único que sabia sobre essa empreitada, e estaria preparado para receber Emer na casa que um dia ele viveu.

Emehir estava organizando discretamente alguns dos presentes de Aldott, tomando cuidado para pelo menos pegar uma coisa de cada um, quando ouviu os passos de uma visita. Ainda estava aprendendo a diferenciar o som deles, mas reconheceu o cafungar de Shannon. Guardou a mala e foi recebê-la na porta. Tão logo abriu a porta, Shannon saltou para abraçá-la.

– Oh querida, o que aconteceu? — Apesar de nova o cheiro de medo e o coração disparado — Você está trêmula, meu bem.

– Tudo de novo… sei que são presentes, mas...

– Presentes? De novo? O que esta acontecendo?

Shannon entrou e abraçou a si mesma. Ela estava toda de azul, com uma peruca branca estilo (..aquelas de época que parecem um ninho ou de corte ). Ela parecia uma nuvem com todos os véus que penduravam-se a sua volta.

– Eu parti de casa, porque me seguiam, e… Oh Emer, não sei se posso. Fergus disse que não devo me preocupar, mas é o terceiro presente da semana. Primeiro foram perucas novas e piercings. Depois flores pela casa toda. Hoje tinha um desenho meu na janela, estava usando as roupas que eu dormia. Emer alguém ficou me olhando dormindo e me desenhou.

Emehir ergueu a sobrancelha curiosa.

– Adami está invadindo sua casa? E Fergus não fez nada sobre isso?

– É ai que mora o perigo. Não foi o Adami, e por que todo mundo pergunta ou fala dele? — Shannon colocou o nariz no próprio braço — Por acaso estou cheirando a ele?

A loba aproximou-se e tentou cheirar Shannon, o que a fez rir.

– Você ainda não sabe identificar as pessoas pelo cheiro que eu sei.

– Mas você perguntou — Emer sorriu e mostrou a lingua para Shannon — Mas se está preocupada desse jeito… Tem certeza que Fergus está tranquilo quanto a quem é? Já falou sobre a pessoa estar entrando na sua casa quando está indefesa?

– Ainda não falei sobre isso, mas… — Shannon abraçou Emehir — Estou com medo. Eu quero partir, mas não quero deixar as pessoas que amo aqui.

Shannon passou a mão pela franja de Emehir e a afastou.

– Não consigo pensar em deixar você sozinha, quando está mais precisando de apoio, mesmo que seja apenas um ombro amigo a quem abraçar.

Emehir sentiu uma pontada no peito. Ela suspirou e abraçou com força Shannon, fazendo-a encostar o rosto contra seu ombro. A loba deu tapinhas leves contra a peruca. Como deixar as pessoas que ela passou a amar como família? Como fazer isso com tantos que poderiam pensar como ela? E aqueles que amavam Dougal ou Isis?

– Talvez eu tenha uma solução para seu problema.

– Você vai fazer tocaia e morder o traseiro desse perseguidor? — Shannon pulou para trás e olhou para Emer com expectativa.

– Não, melhor… — Emer sorriu — É melhor você se sentar. Por que acho que a solução não possui tecnologia.

– Oh! Meus Deus. Como isso poderia ser uma solução?



Isis estava preparando suas coisas para sair não apenas da casa de Kallai quanto de sua vida. Ela tinha urgência de partir, e tudo o que havia ganhado dele parecia ser coisas erradas de se levar para uma nova vida. Ela temia estar tendo surtos de hormônios, pois já era a terceira vez que preparava a mala e jogava as coisas que estavam dentro para fora, por que foram presentes dele.

A coiote jogou mais uma vez as roupas para o alto e pulou contra a cama, rosnando contra o travesseiro. Ela mordeu o tecido e bateu com as mãos em punho contra o colchão.

– O que o travesseiro fez para você, pequena?

Ela se sobressaltou com a voz de Kallai. Ele estava parado encostado no batente da porta, braços cruzados e lutando contra um sorriso. A vontade dela era de bater com o punho contra ele e ver se mantinha o sorriso nos lábios. Isis levantou-se para ir até Kallai, mas ele já havia entrado no quarto e estava pegando as joias dela, analisando-as e as colocando de volta a comoda. Isis ficou observando as ações de Kallai com curiosidade.

– É estranho. Saber que você não vai mais estar aqui. — Kallai suspirou — Não sei o que teria feito sem saber que havia alguém lá, para esperar…

– Você tem seus filhos, Kallai. — Isis sentou-se no bau que tinha em frente a cama. — Foram anos, mas agora eu terei alguém que me amará, e você tem que encontrar forças em si mesmo, não mais nos outros.

Kallai sentou-se ao seu lado e apertou a mão dela contra as suas. Ela sentiu ele fazer um carinho em sua mão, e deixou que sua cabeça encostasse em seu ombro. Kallai também encostou a cabeça contra a dela.

– Promete que vai ser feliz? — Kallai perguntou inesperadamente — E se ele a fizer infeliz vai me avisar?

– O que te falar sobre isso faria diferença?

– Eu iria ensiná-lo a não te fazer chorar nunca mais. Você já teve sua quota de dificuldade na vida. É sua vez de ser feliz.

Isis fungou ligeiramente, e Kallai sorriu.

– Você sempre soube como me deixar sem jeito — Isis reclamou.

– Agora vamos pegar os seus vestidos favoritos e acessórios favoritos. — Kallai sorriu de novo — Me diga o que quer que envie depois, que deixo tudo organizado. E não se esqueça de levar suas pastas de modelitos. Sei que conseguirá refazer os seus modelos para onde forem.

Isis sorriu, mas permaneceu sentada, enquanto observava Kallai andar pelo quarto e separando algumas roupas. Aquelas que ela mais gostava e usava. Ele as vezes erguia duas peças e as analisava, antes de separar aquela que ficaria e a que iria para a mala. Isis observou-o por mais um tempo, até que o viu fazer uma careta no closet para sapatos.

– Kallai?

– Sim, querida?

– Me promete uma coisa?

Kallai abaixou o par de sapatos que carregava e olhou para Isis preocupado com seu tom de voz.

– O que quiser Isis, o que quiser…

– Seja feliz também.



Danut estava furioso. Todo o seu plano de finalmente atingir seu líder com a perda de Emehir estava indo por água a baixo. Pior ainda, seu chefe estava furioso, porque não conseguiu cumprir com nenhuma das metas. E se não bastasse, o idiota que ele contratou foi levado pelo monstro que atacou Pietro. Agora ele estava numa terra onde Bernard conseguiria identificá-lo. Ele sempre poderia dizer que ficou preocupado com ele, que ele foi para o Alasca porque queria ajudar, mas ele sabia melhor do que ninguém que existia um mundo de distância entre Bernard e Danut. Apesar da alcateia unida, todos sabiam que Bernard só estava na alcateia por causa de Aaron e sua lealdade a ele. Ele não gostava dos gêmeos e a possibilidade dele desconfiar era grande. Apesar do socialite, de sua vida no ramo da moda, de sua distancia dos outros, Bernard tinha aquele olhar de quem sabe tudo.

Para piorar Danut alguns da alcateia de Kallai já tinham chego até ele um ou outra ez. Se não fosse seu chefe, que havia lhe dado o frasco de anti-cheiro, ela estaria mais do que morto. O lobo sabia que a alcateia do Brenin era grande, mas nunca esperou que fosse tão grande. Era como se todos os sobrenaturais do Alasca estivessem sob seu comando. Onde ele pisava, alguém perguntava quem ele era e o que tinha ido fazer lá. E foi depois do quarto lobo que encontrou e que achou que ele estava aprontando, que ele acabou entrando numa briga. Os dois lobos entraram em conflito e Danut sentiu que o tempo recluso lhe deu grande vantagem de briga. Era por isso que ele lutava, por poder voltar a velha era, onde os sobrenaturais eram superiores que os humanos, que não se danificavam com a falta de utilização de seus poderes, do controle para evitar que esmagassem criaturas mais frágeis que eles. O lobo contra quem estava lutando também não tinha uma posição alta na hierarquia dos lobos. Deveria ser um instrutor, um lobo de pouca dominância, mas o que ele não esperava era que o lobo uivasse chamando a alcateia.

– Espere, eu estou com Bernard. Vim por ele. — Danut decidiu falar as meias verdades que possuia para evitar mais estardalhaço — Estou aqui para ajudá-lo.

– Bernard? — O homem lobo rosnou — E quem é esse?

Danut pestanejou. Seria tão sortudo a ponto de encontrar com o único homem lobo que não sabia da presença de Bernard nas redondezas da alcateia de Kallai?

– Bernard Singler. O lobo que veio ajudar Emehir. Veio da Europa.

O lobo rosnou ao som do nome da humana. Isso estava se tornando cada vez mais inconveniente. Ainda mais que ele só queria partir para bem longe o quanto antes.

– Ele veio da alcateia do País de Gales. — Danut tentou novamente, dessa vez se afastando mais do outro homem lobo.

Um segundo homem apareceu. Ele era imenso, devia ter quase 1,98 de altura, contrariando a clara descendência inuíte presente em seus cabelos negros e lisos e os olhos negros como carvão. Mas o assustador naquela aparência dele não era sua presença imensa, mas a pele toda tracejada com tatuagens negras e o semblante fechado. O olhar de quem presenciou muitas mortes e de quem matou tanto quanto viu. Fergus passou o olhar pelo ambiente antes de se fixar em Danut.

– E quem seria você?

Danut não sabia como se apresentar, pois poderia entregar-se. E como todo bom lobo que sabe dançar com a lua, ele sorriu e fez um meneio com a cabeça em cumprimento ao recém chegado.

– Sou o quarto em comando da alcateia de Bernard. Vim porque estou preocupado com ele.

– Bernard é um lobo solitário — Fergus pronunciou sem nenhum tom de mentira em suas palavras — Quem é você?

Danut sentiu o chão falhar em seus pés. Não podia acreditar que Bernard havia se apresentado como lobo solitário.

– Isso é impossível — Danut decidiu mudar de assunto enquanto se afastava — Droga e a cadê sua boa educação? Não vai se apresentar?

Fergus rosnou baixo, o som propagando pelo ar, fazendo com que o corpo de Danut estremecesse. Ele sentiu a magia da alcateia de Kallai naquele homem.

– Eu sou Fergus, o segundo em comando e Mediador do Brenin da America. Agora diga-me intruso, porque veio até o território desta alcateia e não se apresentou ainda a um alfa?

– Era o que estava tentando fazer, mas vocês mordem primeiro e perguntam depois — Danut sentiu o corpo curvar-se sem desejar realmente — Como disse estou a procura de Bernard, que tem sim uma alcateia. Meu alfa é Aaron e ele é o primo de Kallai.

Fergus guardou silencio, sua mente trabalhando no que o homem lobo havia dito até agora, mas também no fato de que ele não tinha se apresentado.

– Como pode comprovar o que me diz? — Fergus se manteve impassível — Em nenhum momento que conversei com Bernard ele disse ter uma alcateia.

– Eu vou voltar para meu hotel e ligar para ele. — Danut resmungou — Provavelmente ele fez isso por segurança. Agora se me dá licença…

– Não dou não. — Fergus adiantou-se dando duas passadas ficando a centímetros de distância de Dunat — Você não cheira bem para mim.

Num impulso, o lobo rosnou alto e mostrou as garras. Fergus não preparado para a reação, recuou ligeiramente enquanto Danut transformava-se em lobo e saltava para uma corrida longe dos dois. Fergus mandou o outro lobo voltar e avisar o que tinha acontecido enquanto corria atrás de Danut. Ele também transformou-se em lobo, e sentiu o corpo moer de dor pela rapidez da transformação. Danut ouviu o lobo de Fergus uivar, e apertou o passo. Ele era conhecido por ser mais ágil que qualquer outro lobo da Europa. Porém, por mais que disparasse, parecia que Fergus estava sempre perto. Quando Fergus chegava perto demais, ele abocanhava o que tinha a sua frente. Motivo o qual Danut sentia o sangue manchar a terra por onde seguia.

Um cheiro lhe chamou a atenção e ele desviou de seu caminho e seguiu embrenhando-se cada vez mais nas tundras, entrando na mata fechada do Alasca. Sua velocidade se manteve, mas logo sentiu que o mediador ficava para trás. E quando chegou na clareira um papel com um número de telefone. Ele memorizou o número e comeu o papel. Continuou correndo até chegar a um lago, banhou-se nele e voltou a correr, até chegar ao seu esconderijo. Voltou ao corpo de homem, vestiu uma roupa mais quente e ligou para o número.

– Parece que sobreviveu ao mediador. Vá embora seu imbecil, a alcateia de Kallai está agitada. Eles não se importam com a mulher, o que os está incomodando é um inimigo em suas terras. Se isso tomar proporções maiores, tenho certeza que ao invés de garantirmos que os sobrenaturais voltem a supremacia, só vai torná-los mais heróis do que já são para os humanos.

– Eu senti isso — Danut enfaixava-se enquanto falava com o chefe — Mas eu sei que Aaron vai assumir como Brenin e se o fizer, os sobrenaturais terão um lugar seguro e mais natural para viver e…

– E você estará morto se der com a língua nos dentes agora. Desista de Emehir e de Aaron, eles não servirão para os nossos propósitos. Aaron demonstrou que está mais desejoso em se esconder do que servir à causa.

– Mas.. — Danut sentiu a voz falhar.

– Sem mas, pare imediatamente. Não usarei mais Aaron, a não ser que ele prove-se forte o bastante para fazer dos lobos o que eles realmente são, os senhores da humanidade.

A outra linha silenciou. Danut olhava para o celular como se tudo lhe tivesse sido tirado. Tudo por que um lobo incompetente não conseguiu matar uma humana. Danut rosnou irritado.

– Eu vou te matar Emehir, nem que seja a última coisa que eu faça.



Fizeram as malas em tempo recorde. Iriam sair na calada da noite, quando ninguém mais da alcateia tivesse conhecimento. Os únicos que tinham o conhecimento da partida eram os lobos da família de Kallai e Aaron. Quanto menos pessoas soubessem melhor. Avalon estava sentada ao lado do pai, com a cabeça sobre o joelho dele enquanto Kallai afagava seu pelo. Isis passou com duas malas ao seu lado, apoiou-as no chão e beijou a bochecha de Kallai.

– Estou saindo.

– Tome cuidado. — Kallai sorriu sem jeito.

Isis concordou com um aceno e depois coçou atras da orelha de Avalon

– E você, cuide do seu pai.

Quando Isis ia pegar a mala, Bernard apareceu e pegou uma das malas, enquanto com a outra mão enlaçou a cintura dela.

– Irei cuidar delas — Bernard antecipou-se — Shannon concordou em dar uma despistada para nós, enviando publicações que não dê pistas sobre nosso paradeiro.

Kallai balançou a cabeça.

– E se alguém verificar o IP dela?

– Já resolvemos isso. Shannon vai ficar com outra humana que conhece nossa alcateia. Ela já lançou uma publicação que vai visitar uma amiga. Shannon já partiu há dois dias e estamos preparando sua chegada.

– Ela já foi? — Kallai ergueu uma sobrancelha — Essa garota é rápida.

– Mais rápida do que esperamos. — Bernard concordou e depois indicou com a cabeça — Nós devemos sair agora, se quisermos aproveitar a calada da noite.

Kallai se levantou e abraçou Isis, segurou-a apertado contra o próprio corpo e afagou seus cabelos. Em seguida olhou para a porta, encontrando-a vazia.

– Onde está Emer? E Aldott?

Bernard trocou um olhar com Isis, e a coiote saiu, quase como se esperando por isso. Kallai bufou.

– Vocês já são um casal. Eu demorei para que Isis entendesse meu olhar — observou o caminhar de Isis — Ela foi buscar as duas? Eu posso ir…

– Emer já foi na frente com Dougal. Não vamos viajar juntos, mas se quiser se despedir, eles não estão muito longe.

Kallai ouviu um grunhido de Avalon, então a loba saiu da sala para o quarto que era de Isis. O Brenin gostaria de fazer o mesmo. Ele não veria a menina uma ultima vez.

Bernard se aproximou e estendeu os braços. Kallai viu-se nos braços do europeu, que o abraçou fortemente. Suas mãos amparando-o, enquanto o lobo uivava em sua mente. Depois de muito tempo de silencio, ele percebeu que não veria mais seu lar. Uma imagem dele correndo para ela surgiu na mente de Kallai, e em resposta, o Brenin enviou uma imagem dela morta. O que foi motivo para o sossego do lobo. Ele sentiu que havia afundado com o rosto próximo a jugular de Bernard, mas o lobo apenas afagava seus cabelos. Ao se afastar, Kallai percebeu que o lobo dele estava nos olhos, amparando no momento de tristeza.

Kallai segurou o rosto de Bernard com ambas as mãos e encostou sua testa na do lobo.

– Cuide delas.

– Cuidarei.



Danut está se recuperando das mordidas de Fergus, que se provaram ser piores do que aparentavam, quando o telefone tocou. Ele se sobressaltou e ficou relutante em atender até que viu o número de Aaron na tela. Ele deixou tocar um pouco mais.

– Danut. — Ele atendeu tentando parecer o de sempre.

– Posso saber o que você está fazendo no Alasca? Achei que tinha ido visitar sua família.

Danut apertou a lateral da testa. O mediador deve ter ligado para Aaron, ou então o próprio Bernard.

– Eu fui. Mas estava preocupado com Bernard e decidi vir atrás dele. Mas, me perdi…

– Você tem noção da dor de cabeça que me deu?

– Eu posso voltar se quiser.

– Não. Quero que fique e ajude a caçar o infeliz que está tentando matar Emehir.

– Acho que o mediador não foi com a minha cara. Vou ficar longe da cidade. — Danut resmungou — Posso?

– Sim, vou avisar Kallai que deixei você por aí.

E sem dar tempo de que Danut responder, Aaron desligou. O lobo deitou contra a relva e sentiu sua cabeça latejar. Estava ficando cada vez mais difícil. Ele precisaria bolar um jeito de matar a humana sem levantar suspeitas. Danut decidiu correr para aliviar a mente quando o telefone tocou novamente. Atendeu sem nem olhar o visor, achando que seria Aaron retornando.

– O que ainda está fazendo aqui, seu imbecil — a voz truncada e zangada do chefe congelou sua espinha. — Saia do Alasca imediatamente, eles decidiram caçar. Advinha quem está louco para morder o seu couro?

Danut estremeceu se lembrando de Fergus.

– Estou partindo.

– E se der com a língua nos dentes, é melhor encontrar outra dimensão para viver, porque eu mesmo viu caçá-lo.

O som do bípe de fundo foi a última coisa que ele ouviu antes de pegar suas coisas e partir.



Não adiantava ordenar ao lobo que ficasse em seu lugar, pois ele parecia ter vontade própria. Tão logo Bernard saiu, Kallai sentiu o lobo forçar a pele ao pelo. Foi uma das transformações mais rápidas que ele sentiu. O lobo pulou a janela da sala e correu pelas tundras, guiando-se por um cheiro que parecia que apenas ele sentia. Kallai estranhou essa trilha, algo que ninguém mais deveria sentir.

Ele corria pelas tundras como se sua vida dependesse disso. Quando saltou sobre uma pedra, seu olhar seguiu para a lua, distante e cheia, iluminando o caminho. O lobo ergueu o focinho a lua e implorou num canto antigo para que sua companheira ficasse. Suas patas seguiram contra a terra, usando-a como impulso para seu destino. Ele não ouviu outro lobo responder, mas ele sabia que ela havia ouvido.

Sua corrida terminou no topo de uma pequena elevação de terra. Kallai através dos olhos do lobo viu Dougal andando na frente de Emehir de forma protetora, e a jovem loba seguia olhando seu pequeno embrulho.

Lar. Seu lobo rosnou em sua mente. Nossa. Kallai não fez barulho algum, mas como se ouvisse a voz do seu lobo, Emehir virou o olhar para o lobo. Mesmo na luz da lua cobrindo apenas a ela, mesmo à distância, ele sabia que ela o via.

O lobo ergueu o focinho prestes a uivar, quando Emehir sorriu. Ela acenou com um ligeiro menear de cabeça, olhou para a filha e seus lábios se separaram ligeiramente. Ela parecia indecisa, mas então, fechou os olhos e cantou. Emehir invocou uma música antiga, cantada pelos seus pais, que fala de terras antigas. A terra de ursos e pessoas que viajavam fronteiros para retornar ao lar. Sua voz límpida como o som de um riacho, cantando as estrofes de um casal que retornava para casa, para o seio da família, após uma longa jornada de caça. Uma música simples e antiga, mas que Kallai conhecia. Dougal havia parado no lugar, fechado os olhos e apreciado a música, mas o lobo sabia, que aquela música não era para o guarda que lhe acompanhava, mas sim um presente de despedida.

Emehir e Dougal continuaram vagando, com ela cantando. Kallai permaneceu parado no lugar, até que a música ficou distante, e por fim a música sumiu. O lobo ergueu-se para a lua e cantou pela partida da companheira.