“E mais uma vez vamos falar com o vovô. Ele não parece um vovô alias, parece um modelo desses desfiles perfeitos de moda...Mas, como estava falando, conversar com esses homens lobos não é fácil e muito menos com um dos mais velhos. Este em particular é uma figura que só. Mulheres, minhas queridas, ele anda nu por ai o tempo inteiro. E o clima da cidade é quase que abaixo de zero. Uma vez perguntei do por que ele não carrega suas roupas na forma de lobo, ou volta ao lugar para onde as deixou como lobo. Tudo que ele disse foi que com o passar do tempo ele parou de se preocupar com tolices como essas… Tolices? Sabe é estranho olhar para um homem tão jovem e ver em seus olhos o tempo passado. Ele tem aquele olhar, aquele que diz que já viu tanta coisa e que nada mais vai impressioná-lo. Quando o inquiri sobre o que ele ainda faz vivo, porque ficar tanto tempo aqui? Oh! Tudo pela vida, tudo pelo viver… Tudo por amor.”

Tete-a-Tete com S&S

Caminhou pela estrada velha como se fossem velhas amigas. O vento frio balançava pelo céu, longe do toucado que usava. O homem lobo a olhava como uma presa, e ela ria por dentro só porque ele acreditava que isso poderia ser verdade. Hansel, como ele havia se chamado, continuava a dar todas as instruções sobre as caminhadas pela região. A reserva de Anaktuvik era muito chamativa e, selvagem, portanto deveria tomar cuidado a cada movimento que fizer. Para não ferir ninguém e para não se ferir. Haviam alguns esportes mais intensos que ele poderia mostrar para ela caso assim o desejasse, e por mais que Trina quisesse estar se divertindo naquela relva branca que encontrou, sua missão era outra. Ela dispensou — por hora — a opção dos esportes radicais. Ela estava se afastando de Wuruihuintown, mas era necessário. Para se passar pela turista perfeita tinha que fingir ao menos que era uma. Já havia comido na cafeteria Choperon Rouge, que alias tinha ótimos brownies, e também visitou o pub Garou, o qual ouviu falar ter uma boate interessante no andar de cima. Mas em nenhum momento viu a tão suposta “esposa” do irmão. Procurou por alguma ruiva, e a única que encontrou estava do tamanho de uma bola. E tinha cheiro de lobo.

– E mais adiante você poderá encontrar… — Hansel parou e rosnou baixo — O que ela faz aqui sozinha?

Trina procurou a pessoa pela qual o homem lobo estava falando e não encontrou ninguém. Respirou fundo tentando encontrar algum cheiro. E tudo que podia cheirar era mel, e bem suave juntamente a este, mais dois cheiros distintos: humana e… Trina apertou os punhos. Uma gravida. Não era a toa que o homem lobo estava preocupado.

– Quem está aqui sozinha? Não vejo ninguém.

– Espere aqui. Eu já volto.

– E vai ME deixar sozinha? Sério? — Trina fez bico, ela era tão boa fingindo — Se é perigoso para esta ela, porque não seria pra mim ?

A dragomir viu Hansel passar a mão pelo rosto e soltar o ar que tinha prendido e nem percebido. Essa mulher devia ser uma companheira de alguém da alcateia. Os homens lobos sempre foram conhecidos por serem muito protetores com sua própria especie… E que se reproduziam como coelhos. Sim, sim, eles deveriam se chamar homens coelhos. Não é a toa que são os mais numerosos entre os sobrenaturais. Idiotas sortudos. Trina esperou pacientemente enquanto Hansel parecia pesar o fato de levá-la ou não a companheira. E finalmente vencido pela necessidade de correr à sua gente, fez um gesto convidando Trina a segui-lo. Ponto para a dragomir! Trina acompanhou o lobo, enquanto resistia ao fato de querer tirar toda aquela roupa pesada de si. Ela era uma dragomir de gelo e estava quente demais. Ela só queria pular nua naquela neve que parecia chamá-la com tanto afinco. Estavam se afastando mais um pouco da cidade quando chegaram a uma especie de clareira. Haviam troncos caidos e sentada em um dos mais distantes estava uma figura encolhida. Trina entrecerrou os olhos, forçando seus olhos de dragão a absorverem tudo o que o homem lobo ou qualquer outra especie na terra não poderia ver. Era como se todos os metros de distancia fossem reduzidos a nada. Ela estancou por instantes. A mulher não usava roupa o suficiente para aquela neve, ela parecia perdida em pensamentos enquanto abraçava o próprio ventre. Murmurava uma canção baixa, sem palavras, apenas balbuciando um ritmo. O cenho franzido, olhos praticamente fechados, ela tinha aquela aura pensativa. Tinha um rosto largo, com traços afiados e um nariz empinado. O cabelo solto espalhava pelo vento, e por vezes, ricocheteava contra seu rosto. Mas o que a fez parar não foi a aparência distinta de uma mulher madura com aspecto frágil em sua postura, mas sim o tom do cabelo. O vermelho fogo que tinha era escuro o bastante e até agora não tinha visto mais nenhuma ruiva na cidade. O cheiro de humana a denunciou. Essa era a “esposa perdida” de Thorian.

– Emer! — Hansel continuou andando ignorando a parada da turista — Você não deveria estar aqui.

Emehir ergueu o olhar e pareceu perceber os visitantes apenas aquele momento. Algo não condizia com o cenário para Trina. Ela viu Emer adotar uma postura completamente distinta, como uma rainha diante de súditos. O modo como ela o fez, só deixou uma resposta a Trina, era uma atitude natural dela e também um casulo. Havia algo por trás de Emer, como se ela estivesse segurando não apenas um bebê em seu corpo, mas toda uma carga intensa demais. Trina deu alguns passos a frente com receio. Emehir era alguém que parecia que não era desse mundo, alguém totalmente deslocado, como um recorte do passado em meio ao mundo moderno. E havia ainda um outro alguem dentro dela. Um alguém que desejava sair e não estava encontrando forças para isso. A dragomir dentro dela quis lutar contra essa forte mulher para saber se assim ela expulsaria esse poder para fora. Mas a irmã desejando uma sobrinha ou sobrinho, queria saber o que acontecia naquele coração.

– Eu estava tomando um ar fresco. Estava precisando de um tempo sozinha. Amo vocês, mas preciso disso.

– Mas não é seguro. Não depois… — Hansel parou e olhou para Trina — … do que aconteceu.

A humana acompanhou o olhar de Hansel e sorriu para Trina. Ela retornou o sorriso e depois se aproximou mais. O cheiro da gravidez tornando-se mais forte a cada passo. Trina queria rugir para a humana e levá-la para algum lugar quente o bastante, mas não poderia agir assim com o homem lobo tão perto e muito menos revelar quem ela era. E pior, não queria ser como seu irmão. Ogro! Ogro! Entendido que ela é forte e tem um ar distinto de dragomir. Estragou tudo! Ahh eu devia ter usado o nabo. Trina se sentou ao lado dela no tronco e olhou para o homem lobo.

– Ela deve comer algo, está palida como a neve. Não é bom para uma gravida — Ela olhou para a barriga saltada de Emer — Tem alguns pedaços de carne seca lá no carro. Por que não vai la buscar enquanto eu converso com ela?

– Está me mandando ir buscar comida humana? — o homem lobo rosnou.

– Estou! Você não vê que ela quer ficar “sozinha”. Isso significa longe de sobrenaturais benzinho. Que tal um pouco de espaço? Estarei com ela e não a deixarei ir a lugar algum. Alias tenho certeza que vai adorar nos ouvir falar sobre coisas de garotas…

Hansel abriu a boca assustado com a língua afiada de Trina, e Emer apenas riu. E num piscar de olhos, o homem lobo estava longe o bastante. Trina ampliou seus sentidos auditivos e ao perceber que finalmente estavam em segurança para falar, ela tirou seu casaco e jogou sobre Emehir. Ao perceber que ela iria protestar, Trina apenas a cortou com um gesto de mão.

– Eu não tenho tempo para isto. Você quer matar seu bebê? Mantenha-se aquecida o máximo que puder. Como acha que nós dragomir nascemos?

Se a mulher pudesse empalidecer mais do que já estava ela teria feito. Trina quis bater em si mesma pela idiotice de comentar sobre o fato de que o ogro de seu irmão tinha realmente deixado aquela mulher grávida. Trina olhou para a estrada por onde o homem lobo tinha seguido.

– Nós somos uma raça que prefere o anonimato, mas você foi envolvida. E farei meu irmão pagar pelo que ele fez, mas agora? Não. — Ela respirou fortemente — Vai culpar essa criança por ele??

– Não! — Emer levou a mão aos lábios, percebendo que falou alto demais — Eu vou cuidar do bebê, eu…

– Sei. Precisamos conversar, mas longe de ouvidos e no momento, precisa se manter aquecida. Você tem o cheiro dele, sumiu para os homens lobos. Isso é bom…

– Eles não me machucariam ou ao bebê.

– Não é isso. Significa que você tem chances de sobreviver ao nascimento e a criança também.

O som de passos retornando a apressou, ela não teria muito tempo.

– Amanhã, aqui! Irei te explicar, mas tem que ser amanhã… Não tem muito tempo mulher, esta barriga vai crescer a cada dia mais e mais rápido. Amanhã. E sozinha!

Emer concordou com um aceno e então se cobriu mais aproveitando o casaco, quando viram Hansel retornar com um pacote com comida e um cobertor. Bom lobinho, bem treinado. Trina sorriu e aproveitou o vento frio cortando suas costas.



Dougal estava aparando suas ervas medicinais. Ele tinha todo um cuidado para ajudar a bruxa Ginger, dona da farmacia local. O velho lobo gostava de distrair sua mente tratando das plantas com esmero. Avalon estava entre seus pés como sempre, e de tempo em tempo passava sua mão cheia de terra no torso da pelagem branca da loba. Ela uivava e se balançava antes de esfregar o corpo contra ele. Foram esses momentos de alegria que o mantinham em plena consciência. Dougal estava terminando de arrumar sua bancada quando ouviu um toque sutil na porta da estufa. Avalon rosnou e ele riu da atitude protetora da jovem loba. Dougal respirou fundo para saber quem era. Ao identificar o cheiro sorriu. Aquela pequena pirilampo estava procurando escavar pelos segredos da alcateia aos poucos e com a devida autorização — ou melhor o pequeno apoio moral que teve na assembleia — o permitiria falar mais. Dougal levou a mão para o coração e começou a declamar um poema que há muito havia ouvido. Ou tinha sido ele a compor? Ele sorriu enquanto ouvia o rosnado de Avalon.

Eu vejo um anjo, um rodeado de flores

trazendo a luz para meu coração

que há muito está na escuridão

A porta da estufa foi aberta e uma mulher pequena demais para suas estruturas entrou. O cabelo rosado dessa vez, uma maquiagem com brilhantes e lábios bem pintados. A humana era exótica em todo seu ser, mas esse aspecto de quem não cresceu, aquelas roupas divertidas e aparência de fae, eram uma muralha que Dougal temia saber porque. Quando Shannon sorriu abertamente ao poema, o homem lobo pigarreou sem graça.

– Acho que errei...Devo dizer: uma fada rodeada de flores?

– Adaptando poemas?

– Licença poética — Dougal deu de ombros — Processe-me.

Avalon trotou pelas pernas de Dougal quase o derrubando. O cheiro de medo de Shannon penetrou nas narinas do homem lobo e ele olhou para a loba aos seus pés. Ele andou para trás da humana e fez um gesto para que ela se sentasse em uma cadeira um pouco mais distante.

– Chá?

Shannon balançou os cabelos e apenas se apoiou no balcão. Parecia que não ficaria por muito tempo. Dougal esfregou o rosto antes dele sentar para tranquilizar ambas as mulheres. Ultimamente ele parecia pisar em vidro toda vez que envolvia o sexo feminino. Por acaso elas estavam de TPM universal?

– No que posso ajudar Shanny?

Avalon saltou no seu colo e se ajeitou para deitar. Quando ela era um filhote ele não se incomodava tanto, mas agora? Quem ele queria enganar? Adorava o pelo da loba. Ele passou as mãos pelo torso dela e a outra mão acariciava atrás de sua orelha. Shannon olhava para Avalon, e pareceu pensar bastante antes de responder.

– Eu.. Vim aqui por… Queria saber algumas coisas a mais sobre homens lobos. E não...Sobre isso não vou postar no meu blog.

– Continue…

– É… Só que… — Shannon pareceu totalmente fixa em Avalon — Deixa para lá. Eu só estava curiosa mesmo.

– Shanny!

Ela bufou e cruzou os braços.

– É mais sobre um homem lobo em especifico e não homens lobos.

Dougal começou a rir e quase derruba Avalon no processo. A loba teve que se ajeitar e no processo fincou as patas nas pernas dele. O homem lobo mordeu a bochecha para evitar grunhir. Pegou Avalon no colo e se levantou. A loba tentou se movimentar em seus braços, mas ele apenas a apertou.

– Vamos buscar meu diploma de conselheiro amoroso.

– Eu não sei por que vim aqui!

– Porque eu sou um romântico… Relaxe eu tenho certeza que Adami está muito interessado em você pequena fadinha… Apenas, seja você mesma!!

Shannon abriu a boca e ficou em silêncio. Dougal comemorou internamente. Aquela menina não parava de falar um minuto. Avalon agitou-se e só parou quando estava com o focinho por sobre o ombro de Dougal. Ele caminhou um pouco mais, saindo da estufa. Quando saiu ouviu que Shannon ainda o seguia. Ela fechou a estufa e caminharam pelas ruas da cidade. Enquanto o faziam ambas ficaram em silêncio. O cheiro de medo ainda insistia, mas agora devia ser por algo mais. Dougal deixou que Avalon andasse com suas próprias patas e quando voltou a erguer-se Shannon finalmente soltou a bomba.

– Como vocês acasalam? Como sabem que é a hora?

– Oh meu deus. Não irei falar disso com você na frente da Avalon. Ela ainda é um filhote..Só poderá acasalar quanto estiver na faixa dos 1500...Não… 15000.

A loba rosnou para Dougal e o homem lobo deu de ombros. Shannon abaixou o rosto e balançou discordando do que ele falou.

– Eu não quis dizer sexo. Eu quis dizer… Como você sabe que a pessoa é a pessoa certa para se estar? Como Kallai soube que Isis era sua esposa? Como Fergus soube que Sophie era a certa? Amor não é?

Dougal estagnou no lugar e olhou para Shannon. Realmente a olhou, e viu naquele olhar apenas o anseio por algo que não existia. E medo, muito medo. Ela tinha medo sobre o que poderia ouvir. Houve um tempo que ele também teria. Ele balançou a cabeça e afagou o pelo de Avalon.

– Querida, volte para casa.

Os pelos de Avalon eriçaram e ela abaixou o flanco, em posição de defesa. Ela não sairia. Dougal rosnou para ela, deixando seu lobo agir sobre o dela. O poder antigo e do alfa que um dia ele foi e que ele poderia ser imperando sob a vontade da jovem loba. Ela ganiu com o poder.

– Volte para casa! — A voz dele saiu quase como um rosnado. Então seu semblante relaxou — Estarei lá em breve.

Ele viu Avalon encurvar a cabeça, colocar o rabo entre as pernas e correr na direção da floresta. Um atalho. Ele não tinha o poder da voz de Kallai, mas conseguia convencê-la. Ele só esperava encontrá-la em casa quando chegasse. Quando ele se virou para Shannon, a humana parecia ansiosa pela resposta, e ele soube, que apesar do fato dela contar tudo sobre todos os sobrenaturais, apesar dela ser uma pessoa a favor da mudança que a humanidade vinha passando, o que eles iriam falar nesse momento não iria para o blog. Era pessoal demais e, aquilo provavelmente a envolveria. Ele fez um gesto para que continuassem andando. Dougal a guiou para o restaurante da cidade, o Chaperon Rouge, local onde se vendiam os melhores brownies da cidade, se não provável do mundo. Ele pediu brownies para os dois e cerveja. Poderia ter pedido algo mais interessante, mas por hora não estavam ali para comer realmente. Indicou um canto mais afastado, nem por tanto para os ouvidos dos lobos, mas por conta dos outros humanos. Quando se aconchegaram, Shannon tirou a peruca e um cabelo completamente ondulado e negro caiu por cima dos seus ombros. Ela tinha uma beleza única, e Dougal não entendia o que ela fazia escondendo tudo aquilo. Ele apoiou o cotovelo na mesa, deixou a cabeça pender para a mão e ficou encarando-a, até que percebeu que ele era quem tinha que começar. Respirou fundo e pensou nas palavras a dizer.

– Não é algo que se pode colocar em palavras. Eu não posso falar sobre o acasalamento de outros… E alias, onde ouviu essa palavra? Geralmente vocês humanos usam casamento.

– Vivo em uma cidade que a maioria dos moradores ou são lobos ou parentes deles. Há vampiros, faes e bruxas. E apesar do acham de que eu sou a fofoqueira, esta cidade parece a casa da mãe Joana em que todo mundo pode tudo e fuxica a vida de todos.

Dougal deixou a cabeça cair para trás e riu abertamente. Ouviu alguns lobos se afastando, grunhindo sobre humanos enxeridos. Com isso a Shannon havia expulsado qualquer ouvido extra. Dougal secou uma lágrima insistente.

– Certo… Deixe-me pensar por onde começar. Eu vou falar de algo que, eu não falo muito então… — Dougal respirou fundo e fechou os olhos e por instantes ele não estava sentado na cafeteria, mas sim no deserto, sentado na sua tenda enquanto o camelo descansava. Uma brisa e o cheiro ficou forte. Foi quando ele a viu pela primeira vez.- Primeiro existe o que vocês chamam de atração. Essa atração é mais forte ao lobo. Ele tem um olfato mais aguçado sabe… Nós sentimos aquele cheiro que nos é especial. Algumas vezes você o identifica como algo especifico. O meu caso foi mel. Aquela mulher! Ah aquela mulher! Zahra era fantástica. Ela não era bonita como vocês mulheres diriam hoje. Ela tinha presença. Era como Nefertiti.

– Dougal…?Não entendo. Isso é…

– O que quero dizer é que as aparências não importam. Ela tinha defeitos que eram tão chamativos. Eu me lembro do que pensei na hora: “Essa mulher é horrivel. Como pode cheirar tão bem?” E meu lobo só mandou uma mensagem das hienas rasgando minha carne. Totalmente depreciativo para meus pensamentos — Ele ergueu a mão pra impedi-la de interrompê-lo — Lobos se comunicam por imagens. Longa história. Mas o que eu quero dizer é que, eu não me apaixonei perdidamente como muitos acham. Houve atração, mas era o lobo que queria não eu. Ela iria acompanhar nossa caravana mercante e teríamos que passar dias juntos, afinal o pai dela meio que me colocou como seu guardião. O meu lobo cutucava para sentir mais aquele cheiro de mel delicioso. Eu sempre gostei de mel sabe?

– E se você não sabe o que o cheiro significa para você ?

Dougal bufou fingindo irritação pela irritação.

– Sabe quando vocês falam: Oh isso tem cheiro de chuva ou isso tem cheiro de natal? Vocês associam a algo que já sentiram e identificaram como aquele evento ou algo em particular. Você só não sabe definir o que é. É o mesmo, acontece que eu identifiquei o cheiro. Com o passar do tempo, passei a conhecê-la, e não só o lobo quis a mulher. O homem passou a querê-la também.

Dougal fechou os olhos lembrando das noites frias, as quais ele a puxava para seus braços e dormiam encolhidos, debaixo de um cobertor. Zahra era uma mulher delicada e no começo não aceitava seus braços, mas com cada olhar, cada toque sem querer esbarrado por ele. A insistência da fala mansa dela e do jeito grosso que ele pronunciava o idioma não-nativo. As dificuldades superadas aos poucos, até que foi o dia em que ele iria se afastar. Tinham chegado ao destino final, e ele não queria partir.

– Quando o cheiro deixou de ter nome “mel”, passou a significar lar para mim. Eu ansiava por voltar para casa. Eu me afastei, cheguei a subir no camelo e fugir para bem longe. Só para as noites meu lobo forçar o pelo sobre minha pele e voltar correndo em horas o que o camelo tinha demorado alguns dias para se afastar. Eu parei de tentar lutar contra o que deixou de ser atração e virou amor. O lobo tende a dar indícios para nós. Já havia sentido cheiros tão atraentes quanto, mas ela foi quem encantou ao lobo e ao homem.

Shannon engoliu em seco e Dougal estendeu a cerveja para ela. Parecia concentrada demais para fazer alguma outra coisa se não devorar sua história. Dougal suspirou e abaixou o rosto.

– Eu levei apenas alguns dias sendo um adolescente estúpido e meu lobo sendo um pai tentando repreender o filho e guiá-lo para o caminho certo. Foi a união dos dois entende? Com cada lobo se passa algo diferente, mas quando nós nos acasalamos nós marcamos nossa companheira com nosso cheiro. Para que os outros saibam que é nossa. Nós a mordemos e, para elas, deve ser uma honra carregar a marca.

– Isso é tão nerdental.

Os cantos dos lábios de Dougal ergueram-se e os dentes afiados dele ficaram a mostra. Ele parecia um menino sapeca prestes a aprontar alguma.

– Oh! Mas eu também carregava marcas dela. Várias. Vocês humanos não andam com marcas de chupões como se fosse trofeus?

Shannon riu com a comparação. E então seu sorriso morreu com a lembrança de algo.

– Existe divorcio?

– Não! Geralmente o lobo tem a necessidade de acasalar depois de anos da morte do companheiro, mas só acontece depois de algum tempo do lobo chorando pela companheira perdida. O vinculo que se estabelece com a companheira é único. Alguns tem até mesmo dons. Como é o caso entre humanos e lobos vinculados. O mesmo acontece entre as raças. Já ouvi de bruxos terem uma longa vida ao lado de seus companheiros lobos.

Shannon mordeu o lábio inferior, e remexeu-se na cadeira. O olhar dela estava fixo na cerveja, mas sem realmente olhá-la.

– Sinto pela sua falecida companheira.

Dougal apoiou o queixo contra as mãos e sorriu para a humana. Levantou-se, pagou a conta e beijou a testa de Shannon.

– Seja como Zahra. Conquiste-o. Mostre o quão especial é minha querida Shanny — ele segurou o queixo da mesma e o levantou para olhá-lo nos olhos — E então não o deixe escapar. É assim que se conquista um lobo. Mostre que ele não poderá viver sem você. Mas acima de tudo, ame-se.

Dougal piscou para Shannon e foi até o balcão. Deixando uma Shannon boquiaberta para trás. Ele falou com Abigail — dona do restaurante — e deixou a conta paga.



Kallai estava deitado contra o sofá de Fergus. Seu filho havia saído novamente para o julgo. Antigamente, quando os humanos não sabiam sobre sua existência, os homens lobos tinham alguns códigos — os quais a maioria permanecia — e alguns deles eram pelo cuidado de manter-se a escondida. Outros era pelo fato de que a maioria dos Brenin sabiam que deixar lobos loucos por sangue sem correção, seria como provocar os humanos a ponto da caça. Uma das regras era que a morte de humanos, e outros da raça, eram proibidos. E se fosse descoberto, haveria um julgamento. O mesmo sendo presidido pelo mediador da alcateia. E quando o mediador fosse o responsável, o alfa julgava.

Por mais que Kallai soubesse que aquilo matava a seu filho, que além de mediador era o beta da alcateia, não havia nenhum outro lobo com o poder para assumir este posto. Era preciso não se apegar a ninguém, o que tornava a parte da execução mais fácil. Ele sabia que não era fácil. Matar alguém com as próprias mãos. Geralmente os mediadores mandariam outros fazerem isso, mas seu filho era honrado demais para isso. Ele queria que outros fossem poupados de verter sangue. E lá estava ele. Cada morte ele tomava como sua responsabilidade. O corpo todo tatuado de seu filho era a resposta disso. Cada morte simbolizada em uma parte de tinta negra na pele. Ele viu as marcas aumentarem, ele viu o olhar do filho morrer com cada marca nova. Mas Kallai não poderia matar alguém, não poderia fazer isso no lugar de Fergus, pois se o fizesse ele jamais poderia parar.

O alfa agradeceu a presença de Sophie. Não por ela ser uma loba psi, mas pelo fato dela ser uma mulher poderosa e uma mulher que amava seu filho. Ela dava a ele o amor que precisava para curar a escuridão que apossava o coração de uma criança quebrada. Fergus era uma criança quebrada, assim como seu filho, assim como ele. Kallai viu novamente que quebrava seus filhos. Ele era um nascido. Nascido em uma época triste, uma época distante, no meio da neve. Kallai não lembrava de nada, apenas da neve e do sangue. Sempre tinha sido assim. Ele temeu perpetuar o que ele era, nunca quis filhos. E se manteve assim até o dia que conheceu sua primeira esposa e mãe de seus filhos. Ele fugiu tanto, andou de alcateia em alcateia. Ele correu como solitário, mas por mais que quisesse, sempre havia alguém atrás dele. Os lobos eram atraídos a ele. Foi o primeiro alfa a ter uma alcateia com mais do que quinze lobos — que era a media de lobos por matilha — e ao perceber a imensidão do seu povo, ele teve que procurar um lugar fixo. Uma residencia para todos seus lobos. Viajou até que chegou ao Alasca e onde conheceu Anik. Ela era uma mulher incrível. Não foi seu lobo, foi ele quem a escolheu. Quanto mais ele a amava, mais seu lobo ficava irritado, mais ele ansiava por sangue. Isto só parou quando ele descobriu que ela estava gravida de Lothar. Seu lobo uivou de alegria. Filhos. Era algo que ele nunca quis e lá estava ele, descobrindo as maravilhas de ser pai. Kallai bufou — voltando ao presente — não era um bom momento. Nesse exato momento, seu filho mais novo, chorava nos braços da esposa. Era outra morte cometida pelas suas mãos. Ele olhou para as garrafas de bebida caseira. Os vidros vieram da bruxa local responsável pela confecção os mesmos, mas desde a chegada de Emer, elas começaram a confeccionar juntas. Kallai pegou algumas garrafas e afastou-se da sala. Ele sentia que estava falhando com o filho. Falhando feio. Kallai falhou com ambos os filhos.

Ele caminhou para a edícula, onde atualmente estava o lugar onde Emehir morava. Sabia que ela não estava e agradeceu mentalmente por isso. A ultima coisa que precisava era enfrentá-la. O lobo não estava presente, ele não grunhiu por estar entrando na casa da humana, ele não mandou mensagens, nem rosnou palavras para ele. Abriu e o cheiro fresco de gravidez o invadiu. Voltou ao passado, quando Lothar nasceu. O primeiro bebê a nascer veio morto. A segunda criança era Lothar e tão logo estava fora da barriga ele abriu os olhos. Tinha olhos tão azuis e tão brilhantes. Ele via-se naquele bebê, que tinha os olhos do seu lobo. Kallai segurou o filho que estava respirando, vivo, enquanto a parteira ajudava a nascer o terceiro filho. Ele parecia muito com a mãe. O filho em seus braços ganhou o nome de Lothar, o que ficou nos braços da mãe, Tikaani. Sua esposa deu um nome para o filho morto, mas ele nunca quis saber. Temia se apegar a uma criança que nunca teve chance de respirar. Kallai deitou-se no chão, no lugar onde ele havia ouvido sobre a gravidez da humana pela primeira vez. Ele queria voltar ao passado e ter aproveitado sua esposa, ele queria não ter cometido os erros que fez. E pela primeira vez ele pensou em terminar sua própria vida. Uma vida de erros. Mas haviam amarras agora. Pessoas que precisavam dele, sua família… Emehir. Ele respirou forte, procurando o cheiro dela. Não poderia estar ali quando ela voltasse. Forçou o corpo a levantar-se e o cheiro de bebê veio novamente. Ele voltou a deitar — ou melhor, caiu — e procurou a garrafa que ele havia trazido. Um som de vidro caindo e ele vociferou. Odiava palavrões, ou melhor, Anik havia o ensinado que não devia amaldiçoar, afinal os espíritos poderiam ficar zangados. Kallai bufou e viu que uma das garrafas já estava vazia. Ele não lembrou de ter bebido tudo. Não importava, contanto que ele pudesse esquecer. Ele pegou a outra garrafa, mas ela já estava na metade. Ele virou o conteúdo e procurou pelo quarto. O cheiro do Goleuni enchendo suas narinas. Achou mais.

Quando ele estava abrindo sua terceira — ou seria a quinta? — garrafa da bebida enlouquecedora de lobos, a imagem de sua esposa no segundo parto de sua vida. Anos mais tarde, agora era Lothar que assistia ao parto, e não uma parteira qualquer. Seu filho ajudava seus irmãos a nascer. Vieram dois, e apenas dois. Fergus nasceu primeiro e enquanto Kallai segurava seu pequeno menino, tão parecido como seu irmão Tikaani, há muito morto, Lothar ajudava no parto do próximo bebê. Quando Avalon nasceu, invertida, uma loba branca, Kallai sentiu seu lobo uivar de felicidade enquanto o grito de dor de sua mulher cobria os uivos. Ele não mataria sua lobinha. Kallai entregou o bebê nos braços da esposa e com cuidado segurou a pequena bolinha de pelo. Encostou o nariz em seu corpinho e a sentiu respirar. Seu lobo em seus olhos, feliz. Anik vendo a cena sorriu, abriu os braços e toda a família se encaixou na mulher que levava a todos nas costas. Eles iriam sobreviver, eles seriam felizes. Mereciam.

– Kallai?

A voz veio como um nevoeiro. Ele quis responder, mas sua cabeça girou, sua boca seca. Ele sentiu os músculos do corpo não responderem. Por instantes Kallai temeu seu lobo, até que percebeu que ele não estava lá. O que havia acontecido? Alguém arrancou o lobo dele? Uma imagem veio a mente, mas não era o lobo, eram as lembranças. Ele acordando em sua casa e seus filhos Fergus e Avalon, ambos como lobinhos, encolhidos no canto. Cada um com um focinho sobre o outro. O cheiro da tristeza o embalando. Ele cambaleou para fora, sem saber o que aconteceu. Lothar estava diante de um grande quadrado desenhado pelas pedras brancas. Um trabalho artesanal feito por Dougal, na época ele usava outro nome, mas ainda assim o mesmo artista de sempre. Demorou para ele entender o que estava acontecendo, até que reconheceu as pilhas perfeitamente empilhadas, o cheiro dos incensos e os desenhos dos animais desenhados, para simbolizar que sua mulher deixou de existir e partiu para a terra dos espíritos. Agora na forma animalesca de seu espirito. Kallai caiu no chão de joelhos e gritou. Sua esposa estava morta e, ele tinha estado dormindo. Seus filhotes na cabana chorando e Lothar em pé diante do tumulo de Anik. Ele grunhiu, seu lobo uivou e tudo o que mais queria fazer era cavar a terra e dormir ao lado do corpo da esposa para que seus espíritos corressem juntos na aurora do Alasca. Mas ele não podia, ele tinha uma família que criar e proteger.

– Kallai?

A voz de sua esposa, sua doce esposa. Kallai sentiu o pedaço de pano molhado em sua testa. Sua esposa fazia muito disso. Ela cuidava dele quando o lobo agitava-se em sua mente, quando ele suprimia o lobo nas noites de lua cheia, quando seu lobo queria correr e matar, e tudo o que ele fazia era lutar contra a sua própria mudança. As mãos sobre seu cabelo o reconfortando, o pano escorregou de sua testa ao levantar. Kallai sentiu o cheiro de mel penetrar em suas narinas e ele queria mais. Levantou o máximo que pode e então sentiu a maciez sobre seus lábios. Ele tocava uma pele. Por instantes sentiu as garras na mente. Garras arranhando e o barulho de algo sendo roído. Kallai subiu mais um pouco, tonto com a mente em branco novamente. Não haviam mais lembranças, só a sensação da pele contra a sua. Ele respirou fundo, arfando de dor. Sua mente piscava, pinicando da testa até a nuca. Seu corpo em pura febre e tudo o que ele precisava era de seu remédio. Kallai deitou novamente, sentindo o corpo fraquejar. Mas não caiu contra o chão duro. Debaixo de si algo macio, como a pele que tocou. Ele encostou a testa em uma curva. Seios. A concavidade, o monte o qual repousava era aconchegante e ele respirou fundo novamente. O corpo abaixo do seu respirava com tanta dificuldade quanto a dele, como se tivessem corrido quilômetros juntos. Minha Anik. Ele queria agradecer aos Deuses para devolver sua amada. Kallai virou o rosto e mordeu a pele abaixo da sua. Um suspiro e ele continuou subindo, procurando os lábios de sua amada. O cheiro de lar invadindo seu corpo. Ele chegou ao queixo e mordiscou novamente. O rosto dela procurando o dele, Kallai antecipando o próximo gesto, procurou por ela também. Queria aproveitar seu tempo com sua amada. Ele lambeu os lábios. Primeiro os seus, depois os dela. A recepção que recebeu o fez grunhir. Queria se afogar naquele pedaço de céu. Deu atenção aos lábios inferiores, deslizando a ponta da língua por toda sua extensão, colocando-os totalmente em sua boca, antes de finalmente tomar aqueles lábios sob os seus. Sua língua finalmente encontrando o lar. O gosto de gelo, doce e frescor invadindo sua mente. Um estremecimento com um som provocado por ambos. Kallai apertou as mãos em uma carne macia e subiu tocando aquele corpo que tanto sentiu saudades. O beijo era correspondido, com tanta saudade quanto a que ele tinha. As mãos dela sob seus cabelos animando-o a continuar. Ele sentiu um gosto salgado em seus lábios. Interrompeu seus beijos para lamber a lágrima que escorria pelo rosto dela. Subiu beijando até chegar aos olhos e depositou um beijo em suas pálpebras. Outro estremecimento e sentiu um beijo sob seu pescoço. Voltou ao lar, tomando os lábios de mel contra os seus. Sua mão subindo até chegar em seu ventre. Kallai deslizou a mão pela região e estranhou, mais um toque e um estremecimento. Ele parou de se movimentar. Inspirou mais uma vez, agora com a nevoa longe. Encostou sua testa na dela e ficou naquela posição, ofegante. Ele precisava de mais. Mais tempo com sua amada, antes que sua mente retornasse ao presente. Estava lembrando dela e agora queria mais do que apenas lembrar.

– Kallai!

A voz branda, suave, implorando pelo mesmo que o dele. E o alfa queria mergulhar na imagem de sua esposa enquanto voltasse a beijá-la. Ele a queria de verdade ao seu lado. Abriu os olhos devagar, e sentiu que pareciam colados. Ele balançou o rosto suavemente de um lado a outro, esfregando seus narizes. Um riso delicado e ele retribuiu o riso. Ele ergueu o rosto e beijou a ponta do nariz dela. Voltou a apoiar suas testas e por fim abriu os olhos. Procurou os olhos negros e repuxados de sua Anik, mas ali só encontrou o cinza do céu. Céu… cinza… Um uivo alto em sua mente. Emehir.



A toca não ficava longe dali. Dougal caminhava com cuidado e devagar. As lembranças do seu tempo as margens do rio Nilo. O sol ao pico sob sua cabeça e a noite as visitas de seu velho amigo Amit. Eles eram ícones do passado. Viram o mundo crescer e mudar com o tempo. Bem, Dougal viu seu mundo crescer e mudar, ele as vezes nem lembrava se um dia ele teve um nome único e diferente. Um só dele, não um que foi escolhido a esmo. Ele precisaria voltar ao presente enquanto tomava tempo para chegar na toca de Avalon. A loba cavou sua própria toca, perto da casa de Fergus e depois permitiu que seu irmão fizesse as melhorias necessárias para que algum homem entrasse. Mas somente aqueles que soubessem onde e em que lugar entrar. Dougal era um dos poucos que sabia… Um dos três que tinha noção daquele lugar escondido do resto do mundo.

Ele deixou que a imagem de Zahra entrasse naquela caixa do tempo que ele mantinha na cabeça, uma que ele evitava abrir para não enrolar-se em uma bola de pelos e chorar pela perda da companheira e pela sua fraqueza em não conseguir protegê-la. Dougal parou perto da entrada e inspirou. Não precisava saber que o cheiro dela estaria lá, ouvia o som de passos. Dougal entrou e deparou-se com a loba branca andando em círculos. Ele foi até sua cadeira. Uma das poucas coisas humanas que havia na toca, juntamente com alguns cobertores estrategicamente posicionados.

Ao se sentar, esperou que a loba pulasse em seu colo como sempre o fazia. Esperou e nada. Olhou-a que agora estava sentada aos seus pés, encarando-o. Dougal deu uma batida de leve em suas próprias coxas e a loba virou-se de costas para ele. O homem lobo bufou e enlaçou a cintura da loba, enquanto a erguia para ajeitá-la em seu devido lugar.

– Minha loba favorita. Era preciso, eu não podia…

A loba em suas mãos deixou de ser loba, ele teve o impulso de soltá-la, mas ao fazer isso, Avalon se machucaria. Ela raramente usava a forma humana, apenas porque aquela forma tomava toda a sua energia para transformar. Dougal quis amaldiçoar quando percebeu a pele dela toda suada. Puxou-a e a confortou em seu colo, abraçando o corpo que tremia em seus braços.

– Por que fez isso Ava? Isso ainda vai te machucar.

Avalon arfava e ele abaixou a vista para olhar. Somente para seu rosto. Ele iria respeitar sua nudez. Algo que ela não estava acostumada em pele humana. Ele encarou aquele rosto em formato de coração, a pele no meio termo entre o pálido de Kallai e o bronze do povo inuite. O cabelo cacheado do pai, mas castanhos da mãe, os olhos abertos e curiosos do homem lobo, e o castanho, que brilhava mais claro dos de Anik. Ela não respondeu, pigarreou e parecia acostumar-se com a garganta que raramente usava. Seu movimento fez com que Dougal olhasse para seu pescoço.

– Minha querida está doendo? Eu posso pegar algo para ti. O que houve? Não é noite de lua cheia.

Ela ergueu o braço e tocou o rosto de Dougal. O homem lobo sorriu para a pequena. Dessa vez, foi mais bruto do que gostaria. Viu a pequena loba crescer e a presença dela era um calmante adorável. Ela era a alegria que poucos conseguiam investir em seu lobo. E aqui estava ela, em dor por sua mudança, e ainda assim preocupada com ele. Os dedos dela percorreram todo o rosto de Dougal e ele fechou os olhos em apreciação. O homem lobo falando mais alto, a necessidade do toque para acalmar. O respirar calmo dele, agora era o dela. Respirava devagar, aproveitando o ar e agora ela mantinha a respiração controlada. A pele ainda suada e o corpo dolorido.

– Ukiuk — a voz dela ainda rouca da falta de uso, mas a sonoridade inuite presente em cada letra, e ele lembrou-se que foi com esse nome que ela o conheceu — Nunca mais me trate como um bebê.

– Você sempre será meu bebê, Ava.

Ela grunhiu e o modo como o fez, apenas deixou o homem lobo sorrir mais. Ele se recostou contra o encosto da poltrona e afundou mais nela. Dougal afrouxou o aperto sobre o corpo de Avalon para que ela pudesse caminhar para longe dele, fazer exercícios e alongar o corpo quase nunca usado. Ele sentiu a mulher loba remexer no seu colo, e apoiou a cabeça contra o espaldo da poltrona. Dougal pensou no nome que ganhou de Lothar, um nome brutal para ele, inverno, ele um homem do deserto conhecido como o frio em pessoa. Um nome que ele mudou tão logo ele o ouviu. Mas lá estava Avalon, sempre o lembrando do inverno. Dougal estava perdido em pensamentos, quando percebeu que o peso de seu corpo apenas mudou. Avalon havia se aproximado mais dele.

– Ava, doce da minha vida, você precisa mexer-se…

Ele foi interrompido por um dedo. Dougal suspirou e mordeu o dedo que ela tinha usado para silenciá-lo. Ouviu o riso dela e então a puxou para si. Estava prestes a cobrí-la com cocegas, como sempre fazia, como sempre a tratava. Até que sentiu o corpo dela vindo mais do que o costume. Até sentir os seios dela esmagados contra seu peito. Até que o peso de ambos e a impulsão que ela deu derrubou a poltrona, até que seus lábios tocaram os dela e ela intensificava um beijo. Um beijo desprevenido, roubado. Os lábios dela aproveitando o susto do impacto da poltrona no chão da toca. Dougal congelou por uma fração de segundos. Sua menina, a pequena que ele viu crescer estava beijando-o. Ele...Estava respondendo? Um uivo de seu lobo e num salto ele girou o corpo, rolando ambos e ficando por cima dela. Avalon gemeu de felicidade. O som o pegou com mais surpresa que o normal. Ele afastou-se e o olhar arredondado dela pareceu aumentar um pouco mais que o normal. Suas pupilas totalmente dilatadas, seus olhos quase negros. E foi apenas ali que ele viu o que tinha se negado a ver durante os anos. Avalon ergueu o rosto para o dele e Dougal afastou-se de novo. A loba grunhiu e ele rosnou. Novamente o choque, agora de ambos.

– Nunca.Mais.Faça.Isso — Dougal tremia, as narinas abertas, respirando com dificuldade — Nós? Não vai dar.

Ele levantou-se num impulso e andou em círculos, como antes a loba havia feito. Avalon ainda estava deitada contra o chão. Ela não se pronunciou, o corpo voltou a tremer.

– Ukuik…

– Não me chame assim!

E quando ele se virou para falar com Avalon, não havia mais uma mulher, mas sim uma loba. De dentes arreganhados e o pelo eriçado. Ela rosnou e avançou, e tudo que o lobo pode fazer para não ser feito em pedaços foi correr para fora da toca. Ele avançou pela neve e olhou para trás. Nenhuma loba pulou em seu pescoço, ela não saiu da toca. Dougal levou a mão pelos cabelos e bagunçou-os mais do que estava. Não aconteceu! Amanhã será como ontem, e nada disso… Oh! Por favor, não aconteceu. Dougal ajoelhou na neve e levou a mão ao peito, ele subia e descia com força, como se ele tivesse corrido uma maratona, não, como se tivesse corrido milhares maratonas. Ele caiu de cabeça na neve e gritou para ela, precisando do frio da neve para pensar direito. E quando parou de gritar, o que pareceu seculos para ele, foi que Dougal percebeu que Avalon ficou mais do que um curto tempo na forma humana. Ela aguentou a transformação por muito mais tempo do que o normal, mas agora, ele não poderia comemorar sua vitoria. Agora ele tinha que ter o traseiro chutado por um certo alfa e seus dois filhos.



Bernard estava sentado diante de uma bancada cheia de revistas de moda. Havia Vougue, Purple, Jalouse, Harper’s Bazaar, Cosmopolitan, Elle, GQ, Fashion, Glamour, Gloria, entre outras que estavam misturadas naquela montanha de papeis. Havia alguns desenhos próprios de manequins e pedaços de tecidos espalhados por aqui e ali. Isis falava alegremente sobre o ultimo desfile realizado em Paris, destacando a tendencia das pessoas de tentarem agradar aos homens lobos. Bernard coçava a barba por fazer e ria quando a pequena coiote extrapolava em alguma risada mais afiada. Ela se empolgava e gesticulava, enquanto pegava alguns dos pedaços de tecidos e apontava suas falhas, colocando um sobre outro.

– Mostre-me sua coleção — Bernard finalmente disse quando ela andava desfilando pela terceira vez ao redor dele — Está inquieta. Mostre.

Isis colocou os punhos sob a cintura e bateu o pé contra o chão.

– Bernard seu danado, não pode entrar no quarto de uma dama.

Ele levou a mão para o peito e inclinou o rosto em uma postura de submissão. E sem sair da posição, ergueu a lateral direita do rosto, num semi sorriso. Isis sentiu as pernas fraquejarem com o gesto, enquanto ele erguia uma sobrancelha.

– Toma tão mal juízo de mim. Já disse, eu voltarei por ti. Mas por hora, vou me comportar. E estava pensando em… um desfile. Vá, vista-se para mim — Ele finalmente ergueu os olhos — E mostre-me a sua tendencia.

Bernard cruzou a perna e sentou o corpo totalmente relaxado contra o sofá. Isis sentiu o rosto em fogo, o que fez o lobo sorrir mais abertamente. Ela balançou o rosto e rosnou brevemente, virou o corpo e rebolou para a escada que levaria ao seu quarto. O lobo de Bernard uivava e ansiava por seguí-la. Cada coisa em seu tempo. Nós viemos para a caça. Viemos pelo Aaron, lembre-se disso. O lobo dele acalmou-se um pouco, mas não antes de uivar um som entristecido. Sim, ele foi por Aaron, mas não iria trazer a dor para sua alcateia. Quando viesse ao Alasca uma segunda vez, seria como um lobo solitário que vinha pela sua femea. Ele não precisou esperar muito, pois a voz dela, mesmo por detrás do comodo era audível. Mesmo que não fosse um lobo, ele sempre a ouviria. Isis tinha deixado a porta do seu quarto aberta, para não ter que gritar, mas a única coisa que desejava era subir e dizer adeus a sua missão naquele exato momento.

– Sabe, adorei vê-lo usando esse terno slim. Não imaginava que você saberia sobre a verdadeira arte de se vestir bem.. Sem ofensas, mas para o Aaron estar sumido assim, só poderia imaginá-los vivendo no meio do nada.

Bernard resmungou algo sobre mosquitos e falta de internet, mas concordou com Isis.

– Fico feliz que a surpreendi. Tenho um bom gosto. Acredito que um lobo deve saber manter as aparências. Alias, ter dois botões é muito mais prático para muitas situações — Ele parou ao ouvir um rosnado e sorriu com a reação da coiote — E da um caimento melhor a minha forma.

– Não exagere lobinho — Isis soltou de dentro do quarto enquanto terminava de ajeitar o cabelo, num coque semi preso no topo da cabeça — Todos os lobos com suas constituições robustas ficam ótimos nesses ternos. Lhes dá uma leveza única. Como verdadeiros lordes…

O lobo puxou um charuto de dentro do terno e levantou-se para acender longe do sofá e das preciosidades da loba.

– Eu sou um verdadeiro lorde. Não preciso me fingir ser um com minhas roupas.

Bernard acendia o charuto, de costas para a escada. Ele poderia ter se virado, pois ouvia o som dos saltos de Isis. Por mais que assim o desejasse, queria que ela o surpreendesse. Ouviu-a suspirar, e ele bateu uma bituca do charuto no cinzeiro de cristal em cima da lareira. Ao se virar para Isis, Bernard segurou o impulso de uivar ele mesmo. Isis usava um look vintage, usando um vestido de mangas cheias que cobriam seus ombros, um faixa preta logo abaixo de seus seios, apertando e dando uma elevada em seu peito. O vestido ia até uns bons palmos acima de seus joelhos, mas não era o tipo de tecido — que até era simples e jeitoso — mas pelo tecido. Era um plaid nos tons vermelho, preto e branco. O vermelho predominante. E o gales nele quis impor o plaid de sua casa. Ele quis vestí-la com as cores da casa, marcá-la por cima da mordida de Kallai. Bernard não deixou de perceber ainda que o roxo, azul e preto cairia muito bem com o tom de loiro do cabelo da coiote. Suas narinas inflamaram e quando ele soltou o ar pela boca, a fumaça soltou sem forma de sua boca. Ele deu um passo na direção dela quando um som assustou aos dois.

A porta do atêlie da coiote abriu imediatamente trazendo para os dois um cheiro de raiva. Bernard prostou-se diante de Ísis, com os pés paralelamente abertos e firmes contra o chão. As mãos fechadas em punho pronto para atacar qualquer um que viesse pela rainha do alfa. Ele rosnou alto, até que o intruso rosnou de volta. Bernard sentiu um poder do alfa e a vontade do seu lobo de curvar-se ao lobo mais dominante. O que Kallai estava pensando em entrar daquele jeito? Está certo que aquela era sua casa, mas não devia tratar uma mulher como Isis dessa forma. Isis tentou afastar das costas de Bernard e ele apenas se ajeitou para protegê-la novamente. Quando o alfa entrou no comodo, ele não tirou os olhos de sua esposa. A forma como ele a olhava só fez com que Bernard quisesse saltar sobre o alfa ali mesmo.

– Saia lobo

– Está com raiva e não deixarei que machuque alguém nesse estado.

O alfa rosnou novamente, e ele sabia que sairia muito ferido nessa brincadeira. Kallai aproximou-se com os punhos fechados. O primeiro soco Bernard não conseguiu segurar, nem o segundo ou o terceiro. Eles caíram por cima da mesa, com os gritos de Isis cobrindo seus ouvidos. O lobo de Bernard estava rosnando, mas por algum motivo desconhecido não vinha aos seus olhos. Ele mantinha sua força escondida, apenas retornando os golpes e respeitando a dor de Kallai. Dor? Bernard segurou um punho que vinha na direção de seu olho, enquanto sua outra mão ia contra o abdômen de Kallai. Havia algo estranho no cheiro do homem lobo, um cheiro que estava deixando seu lobo inquieto.

– Ela é minha!

Kallai rosnou e tentou ir em direção a Isis. Bernard resmungou e saltou novamente para evitar que o alfa fosse para sua esposa. Um som baixo de rosnado veio da fêmea e ambos os olhos saltaram para olhar para Isis. Ela estava diante de uma Emer muito pálida. Lágrimas escorriam pelo rosto dela e parecia em choque. Aquilo não devia fazer bem para o bebê. Isis rosnou mais uma vez, assumindo a posição que ele tinha feito para com ela. Que mulher! Ela estava protegendo Emehir dos dois machos brigando. Ele se sentiu aquecido com os cuidados para com a outra mulher. A quem ele realmente devia estar protegendo. Seu lobo rosnou em resposta.

– Vocês dois. Já chega!

Kallai respirou fundo e rosnou uma vez mais antes de virar-se para Bernard.

– Leve-a para casa. Ela pertence a vocês.

– Não! — Isis rosnou e virou para Emer cheirando-a — Você não tem o direito de mandar a humana embora só porque vocês resolveram me trair. Antes dela ir, eu quero saber. O que aconteceu?

– Nada! — Kallai rosnou e não viu o golpe do punho de Bernard — Por que fez isso?

Bernard avançou contra ele, mas parou e olhou para as duas mulheres. Foi na direção delas, e Isis ergueu o queixo para que ele não a olhasse como inferior. Bernard abaixou a cabeça em respeito a ela, antes de passar para perto de Emehir. A humana estava tremula e quando ele chegou bem perto, percebeu que ela tinha o cheiro do alfa por todo o corpo. Bernard estendeu os braços para ela, que apertou-se contra o homem lobo encaixando o rosto em seu peito e respirando fundo. Se ela não fosse humana, ele diria que ela estava procurando proteção no cheiro de seu lobo.

– Kallai! O que você fez?Acha que pode vir aqui e exigir minha mão diante de outro lobo, sendo que não respeita nossa união?

– Eu… Ela deve partir...Eu…

– Não! — Dessa vez foi a voz de Bernard — Agora eu também quero saber porque atacou minha protegida.

Kallai rosnou e girou, andando pela sala e os pedaços da mesa que foi derrubada no processo. Ele passava a mão pelos cachos do cabelo. Emer respirou fundo e apertou o corpo de Bernard.

– Ele está bêbado. Não disse o meu nome… Ele me beijou e chamou por você Isis.

Quando Emehir falou, Kallai parou de se movimentar e olhou para os três. Seu olhar arregalado apenas confirmando algo que cheirava a mentira para Bernard. Mas porque ela estava mentindo pelo alfa? Realmente era mentira? Isis engoliu em seco, percebendo que o que a humana dizia eram falsas palavras para acalmar os ânimos. Alguma coisa aconteceu entre os dois, algo que ela não diria. Bernard balançou o rosto se negando a acreditar.

– Eu devo levá-la para casa Emer. Seu tio sente sua falta.

– Eu quero ficar. Preciso ficar. — Emer olhou para Isis e depois ergueu o olhar para Bernard — Por favor, nós não voltaremos aqui, ficarei a distancia. Podemos ficar com Shannon, eu não sei, eu não…

O cheiro de medo de Emehir deixou aos três inquietos. Isis fez um gesto para que eles saíssem. Bernard tinha os olhos marejados e não queria deixar que o alfa visse. Já bastasse o sangue de ambos pelo rosto e roupas. Ele resmungou algo sobre manchas difíceis de sair enquanto levava Emehir para fora. Kallai não olhava para eles e Isis apenas via os dois saindo.



Era meia noite e sair de uma casa rodeada de lobos era terrivelmente difícil. Emehir enrolou uma das grandes echarpes que ela tinha bordado ao redor do ventre. Em seguida ela colocou um casaco, luvas e um gorro. Envolveu um cachecol no pescoço e olhou para seu reflexo no espelho. Havia muita coisa no dia, em especial o fato que depois que chegou em casa depois do encontro com a irmã de Thorian, ter sido beijada por Kallai,...., Emehir suspirou lembrando dos beijos dele. Havia tanto naquele beijo apaixonado dele. Mas ela sabia que não tinha sido para ela. O fato dela desejar um homem que já tinha tudo: uma família, era o que mais doía em seu peito. Emehir deixou que as lágrimas viajarem pelo seu rosto. O modo como Kallai olhou para ela ao perceber que quem ele estava beijando era Emer e não sua esposa. Chega de auto piedade, ela passou a luva pelo rosto secando as lágrimas. Andou até a porta e rezou para não ter nenhum lobo a espreita.

Quando estava do lado de fora da cabana, ao invés de seguir na direção da casa principal ela foi na direção das árvores atrás da edícula. Caminhou um longo caminho, evitando os lugares mais usados pelos moradores e evitou as proximidades do pub, onde o vampiro Caroll trabalhava e vivia. Não queria explicar o que fazia longe de casa sem um acompanhante. Quando chegou no início da trilha, parou para olhar para a cidade. Havia algo naquele encontro que a deixava inquieta, mas depois do modo como Kallai quis mandá-la embora, ela sentiu aquele gosto amargo na boca. Acima de tudo, a mulher ofereceu uma ajuda com o bebê e agora ela tinha que pensar no que era o melhor para a criança. Ela tinha que pensar em criar no melhor para sua família de dois, e somente a dragomir, como ela tinha se chamado, tinha as respostas.

Quando ela chegou a trilha ela viu a mulher ao longe. Ela estava com roupas de verão, como se não estivessem em pleno inverno. Toda a linguagem corporal dela gritava poder, mesmo que estivesse parada no meio do nada com roupas tão frágeis. Emehir caminhou na direção da mulher e percebeu que ela mastigava alguma coisa, e quando estava a alguns passos, percebeu tratar-se de um pedaço de nabo. A dragomir olhou-a de cima a baixo e fez um gesto de afirmação, como quem quem gosta do que viu.

– Deixe que me apresente novamente e do jeito correto: eu sou Trina e vim aqui para te levar para que meu irmão seja punido pela burrice dele. E também para ajudar meu sobrinho ou sobrinha a vir ao mundo.