Quando o passado vem à tona
8 Capitulo 7
“Quando você vive em um lugar que o clima é frio, o clima parece que influencia as pessoas. Já vive em um lugar assim. Andar de regata onde eu nasci? Impossível. As pessoas eram iguais ou piores que o clima. Muitas coisas aconteceram e eu deveria mudar de lugar e qualquer um iria para algum lugar no extremo oposto. Eu procurei um lugar com semelhanças. E fico feliz pela minha escolha. Aqui neva a maior parte do ano e quando não o faz chove como inferno. Mas o povo é caloroso. As vezes até demais. Eu estranhei, mas em uma das poucas vezes que o senhor P. falou comigo, foi quando eu comentei sobre isso. Lobos precisam se tocar, eles não tem voz para conversar, por isso sempre estão se tocando. Eles precisam do toque para sentir o seu lobo vir a tona. Então se você viver em uma comunidade — que como eu — é cercada de homens lobos, vá se acostumando a receber abraços, ou ver gente de testa junta só pelo simples fato de que estão sentindo um ao outro. Imagino que nós humanos temos que aprender um pouquinho com os lobos... ”
Tete-a-Tete com S&S
Kallai estava sentado no seu escritório. Ele olhava para o ambiente que antigamente era rudimentar e sem vida. Agora, assim como a vida ao redor de sua querida cidade, tudo havia mudado. Isis estava em seu escritório, dedilhando no piano. Fechou os olhos apreciando sua música. Apesar do que falavam, era quando ela tocava que ele a compreendia. Sua música era profunda e era apenas dele. Nunca tocava para outras pessoas, com medo talvez, mas para ele, era como se não precisasse pedir. Ela simplesmente entrava e tocava para ele. Isis tinha mãos de anjo. Kallai apreciou a música, mas seu coração mexia-se incomodado com algo. O silêncio dentro dele. Desde o dia em que Dougal colocou-se como protetor de Emehir, desde que ele passou os três dias seguidos com Isis. O silêncio por mais abençoado que ele poderia desejar, agora era incomodo. Estava acostumado as imagens que seu lobo enviada e até estava se acostumando com as falas rosnadas pelo animal à sua mente.
A música de Isis agora, com a cabeça metida no fundo do poço apenas provocou as lágrimas ao Brenin. Ele era o maldito alfa e não podia chorar. Ele deveria ser forte. Kallai apoiou a testa nas mãos e ficou com a cabeça baixa. Isis aumentou o ritmo da melodia, embalando o som das lágrimas de Kallai. Ele não entendia porque chorava, mas assim o fazia. Ergueu o rosto e encontrou a tapeçaria que Emehir tinha feito. Dele matando o dragão. Na sua mesa, os retratos de seus filhos estavam acompanhados de vasinhos pequenos com flores. Nada disso tinha sido Isis, ele bem o sabia. E sentiu a falta de seu lobo pronunciar-se. Kallai deixou que as lágrimas limpassem sua alma, mas quanto mais ele chorava mais se sentia quebrado. Isis parou de tocar e virou o corpo para ele. Ela foi até o alfa e abraçou-o. Quando o fez, por estar sentado o rosto dele ficou em seu ventre e Kallai a abraçou de volta. Ele deixou que as lágrimas tomassem conta e se apoiou em Isis. O bom de sua esposa, é que o tempo que tinham, eles não precisavam falar para saber o que cada um precisava. Kallai temia que isso fosse um campo de via única. Ele nunca sabia o que sua esposa precisava.
Um som vindo da entrada da casa fez com que os dois saltassem. Isis afastou-se brevemente e então beijou o caminho que as lágrimas que Kallai fizeram. Ele estremeceu com seus toques. Era por isso que ele se casou com Isis. Ela mexeu na própria roupa bagunçando-as e beliscou o próprio rosto. Kallai sorriu para o que ela estava tentando fazer, parecer que eles estavam ocupados fazendo algo mais do que ele chorando. O alfa começou a rir e a abraçou pela cintura. Ele encostou seu rosto na dobra do pescoço e do ombro dela, respirou fundo e depositou um beijo cálido em sua pele.
– Minha coiote linda, seja quem for que estiver subindo, sentirá o cheiro das lagrimas e não do sexo.
– Deixe uma garota sonhar lobão
Isis apertou a coxa de Kallai, fazendo-o rir. Depois da noite em que ele apareceu com o cheiro de Emehir, pensou que o relacionamento deles iria se tornar algo impossível, mas Isis parecia estar levando tudo bem. Havia algo a mais por trás daquilo. Eles se conheciam a tempo suficiente, para saber que ela estava digerindo. Kallai só temia o que viria em forma de retaliação pelo que aconteceu. Emer ter dito que ele imaginava que era ela e o cheiro de bebida em seu corpo ajudou também, mas eles cheiraram a mentira. Ela estava ali, então ela sabia que ele tinha estado pensando em sua falecida esposa. O lobo dele estar em silêncio apenas piorava tudo. Ele temia que a qualquer momento iria perder todos os sentidos do lobo, o olfato apurado, a audição elevada, a visão melhorada. E pela primeira vez, Kallai desejou poder ouvir seu lobo raivoso em sua mente. Mas não havia nada ali.
Quando o cheiro do visitante se fez presente, ambos grunhiram. Dougal, mas ele vinha sozinho. E Kallai temia o que ele estaria fazendo ali. O homem lobo ignorou completamente Isis, o que apenas contribuiu para que ela ficasse mais irritada, e sair batendo o pé. Uma coisa que Isis detestava: ser ignorada. Kallai teria feito algo sobre isso, mas o rosto de Dougal estava tão quebrado, como provavelmente o dele também estava, que ele percebeu que pela primeira vez na vida ele precisava do apoio de um amigo. E Dougal era esse amigo. Assim como o amigo parecia precisar do mesmo. Quando Isis estava longe o bastante, Dougal já estava caído sobre o sofá com o braço sobre os olhos, totalmente encolhido e parecendo uma criança que acabou de passar pro um grande trauma.
– O que houve Doug?
– Ontem foi um dia muito cansativo.
– Você também? — Quando Kallai viu o braço de Dougal erguendo-se ele bufou — Nem pergunte. Você falou primeiro. Solta a bucha.
Dougal levantou do sofá e caminhou pelo escritório. Ele parecia agitado e tomando folego para dizer o que realmente aconteceu. Kallai admirou a figura de Dougal que fazia sabe-se lá o que para manter sua mente em sã consciência. Talvez fosse o caso dele aceitar seu próprio lobo que o permitia aguentar tanto tempo na humanidade. Então ele percebeu que havia algo errado na figura do homem lobo, algo além do olhar perdido dele.
– Onde está minha bebê?
Dougal travou e Kallai percebeu que os músculos do ombro dele estalaram tensionados. Ele respirou fundo e voltou a sentar no sofá. E mesmo parado, ele parecia tão agitado que parecia que estava se movimentando mais rápido do que de suas passadas pelo escritório.
– Nós brigamos… E eu…
– Como assim nós brigamos? Ela se machucou?
– Ela estava na forma humana.
– Que por acaso não consegue manter por segundos — Kallai rosnou querendo respostas — Não daria tempo de uma briga.
– Aparentemente ela conseguiu por mais tempo — Dougal bufou — Só para morder meu rabo. Mas não vim por isso.
Kallai puxou Dougal pela blusa, apertando a camisa entre os seus dedos. Ele ergueu Dougal do sofá e o empurrou contra a estante de livros. Seria comum que nesse momento, o homem lobo revidasse, mas tudo o que ele fazia era olhar para Kallai. Parecia que ele queria algo, assim como ele, e estava perdido por que não sabia por onde começar. Kallai ergueu o punho para acertá-lo. Seja lá pelo que aqueles dois brigaram, ele provavelmente machucou sua filha e, quem ele queria enganar? Kallai encarou o homem a sua frente e seu soco foi de encontro com a pilha de livros atrás deles. Ele encostou a testa na de Dougal e inspirou profundamente pegando o cheiro de culpa que vinha do homem. O alfa não sabia dizer quem tremia e quem apoiava quem. Dougal apertou a nuca de seu alfa e permaneceram em silêncio absorvendo seus próprios problemas. Eles não souberam quanto tempo passou e quando foi que se separaram. Kallai lembraria apenas que quando se moveu, sentiu o corpo dolorido da posição em que ficou. Dougal apoiou-se nos ombros dele enquanto ambos se sentavam frente a frente no sofá.
– Como isso começou?
– Com Shannon. Ela veio me ver e perguntou sobre acasalamento. Terá que lidar com toda a publicidade disso em breve. Ela é reconhecida na internet pelo seu blog e obviamente vão falar dela se envolvendo com sobrenaturais.
– E o que isso tem a ver com minha filha?
– Deixe-me continuar! — Dougal encolheu em seu lugar, embaraçando seus cabelos enquanto pensava — Eu contei a ela sobre Zahra. Fazia tanto tempo… Tanto tempo Kallai. E eu não podia fazer isso na frente da Ava. Eu a mandei embora.
Num impeto, Kallai estendeu a mão e apertou a de Dougal. O homem ainda mantinha o rosto baixo e se não fosse algo molhado em sua mão, ele não teria percebido que Dougal estava chorando. O que havia acontecido com os dois? Estavam envelhecendo e ficando muito emotivos? Era o passado voltando a tona e cobrando suas memorias. Kallai segurou as mãos do lobo entre as suas e apertou-as em respeito e demonstração de confiança.
– Eu achei que nunca mais iria amar de novo. Temia quebrar na frente de Avalon ao lembrar.
– Mas não na frente de Shannon?
Dougal deu de ombros, mas manteve seu rosto abaixado.
– Eu me lembrei Kal. Lembrei de como foi amá-la, como foi conviver com ela. Não era perfeito, mas era meu. Minha companheira, meu lar. Eu me lembrei de dias que há muito esqueci. E… Bom aconteceram coisas depois e quando eu e Ava nos be… bem depois da briga, as outras memorias vieram. Eu não pude protegê-la Kal. Eu lutei contra aquela coisa e achei que a tinha matado. Ele queria a minha companheira.
Kallai ergueu o rosto para olhar o velho lobo. Ele nunca falou com ninguém sobre o que realmente aconteceu com sua companheira. Disse a todos que foi brutalmente assassinada, mas não contou como ou quando aconteceu. Uma hora eles estavam bem, na outra ele tinha desaparecido e o tumulo de Zahra foi encontrado. E o arrepio em sua coluna apenas lhe dizia que não iria gostar do que ia ouvir. Dougal soluçou uma vez antes de deixar que outras lágrimas caíssem para as suas mãos.
– Achei que era um homem como qualquer outro. Nós nos enfrentamos, eu venci e ele partiu carregado. Alguns dias mais tarde, quando cheguei em casa tinha essa coisa, fazendo Zahra em pedaços e… rindo. Aquela coisa era imensa e cheia de escamas. Olhou para mim e eu reconheci o olhar do homem contra quem havia lutado. Uma fumaça saiu de sua boca e ele voou.
– Isso soa como a criatura que atacou Emehir.
O homem lobo finalmente ergueu os olhos, mas quando o fez o olhar prateado contrastado com a pele bronze dele fez com que Kallai recuasse. O peso do mundo nos olhos animalescos do velho lobo.
– Agora eu sinto o cheiro de lar nela também. Meu lobo quer protegê-la ele fica me dizendo que algo vai muito errado com sua gravidez. Fui procurá-la hoje Kallai e não a encontrei. Havia cheiro dela por toda a parte da cidade, como se tivesse passado a noite andando. Quando cheguei na trilha o cheiro sumiu. Só havia um frescor e nada mais. Kal eu tenho medo, de que um dia vou voltar para casa e não vou encontrá-la. Que aquela coisa vai ter voltado por ela. Só que esse caso é diferente. Você tem certeza que seu lobo o matou não é?
O alfa travou sua própria mandibula. Ela tinha ficado fora de casa a noite? Foi antes ou depois do que havia acontecido na edicula em que ela vivia? Ele esfregou o rosto preocupado.
– Eu não lembro Doug. Queria lembrar, mas… Está tudo em branco. Mas você falou que foi procurá-la. Achou?
– Sim, depois de muito desespero, esqueci de perguntar para os fofoqueiros da cidade. Eles me indicaram onde ela estava. Acho que conheceu uma turista que veio à cidade. Estavam conversando sobre a gravidez. Sabe como são as femeas gravidas, ficam confabulando por ai. Mas sinceramente? Não entendi nada do que falavam.
Os homens trocaram um sorriso cúmplice, seculos de vida e ainda haviam coisas que ainda poderia constrangê-los.
– Você vai protegê-la. — Kallai apertou o ombro de Doug antes de levantar e caminhar pelo escritório pensativo — Eu sei que vai.
– Kal… Você não me disse que está morto.
– Não havia corpo Doug, e eu não lembro.
– Como não lembra de lutar contra um fodido.... — ele praguejou e viu o rosto Kallai escurecer — desculpe, saiu sem querer. O que eu quis dizer é, como você esqueceu se mordeu o suficiente para matar ou não? Kal, o que está acontecendo?
Kallai sentou-se novamente no sofá, deitou a cabeça nas costas do sofá e fechou os olhos. Por onde começar? Ele ia mesmo falar sobre isso com Dougal? Ele não era seu beta, ele era um lobo velho, mas ainda assim não era nem mesmo da família. O alfa procurou na mente seu lobo e nada, vazio. Era como se nunca tivesse existido lobo.
– Lembra-se de alguma da minhas histórias?De como eu era antes de ser o alfa do Alasca, antes de ser o Brenin da América?
– Quem não lembra do lobo que nasceu louco? Oh esquece sou o mais velho de todos — Dougal tentou amenizar o clima brincando, mas suspirou ao perceber que aquilo era mais profundo do que pensou — Kal eu me lembro de nos encontrarmos como lobos nessa época. Seu lobo sempre foi assustador demais. Mais animalesco que todos os que já vi.
– E apesar disso tudo ele sempre foi quieto comigo. Raramente rosnava e quando enviava imagens, era apenas de mortes e… Era horrível.
– Era? Melhorou então?
O lobo percebeu o sarcasmo naquelas palavras e balançou a cabeça negando. Não, não tinha melhorado. O que aconteceu era pior.
– Na noite em que salvei Emehir eu senti o traço da loucura. Ele assumiu e juro que se eu tivesse acordado eu achei que teria revivido aqueles massacres, só que dessa vez pior. Mas… a fera em mim falou. Doug diga que seu lobo fala com você.
– Ele… ele… — Dougal estava sem palavras. Ele demorou para formular qualquer resposta — ele me envia imagens. É como conversam com nossa consciência humana.
– Ele grunhiu e rosnou, e então o grunhido virou fala. Ele falou, eu juro — Kallai levantou-se num pulo e começou a andar como um animal enjaulado — e desde então ele tem falado comigo. Até que…
– Kal o que pode ser pior do que ouvir que o monstro mais demoníaco que conheço, agora fala?
– Ele sumiu! Não o sinto em minha mente. Não é que voltou a ficar em silencio, ele não está lá. Doug, desde que Emehir chegou eu estou em colapso. Sinto que a qualquer momento a loucura vai estalar em mim e… Doug prometa-me, meus filhos não podem quebrar mais. Se eu enlouquecer, se eu chegar ao ponto de…
– Não! Não me peça isso!
O alfa avançou contra Dougal com desespero. Novamente juntou a testa com a dele. Ele sentia o lobo do velho amigo em seus olhos, querendo tomar o controle da pele dele. Kallai prendeu-o, com o rosto em ponto de pranto novamente. Dougal o mesmo, ele recusava com o rosto o pedido que sabia que viria independente do que ele desejasse. Ninguém falava acima de um alfa.
– Se eu tentar machucar alguém, me mate. Por favor, me mate e cuide de todos. Só posso confiar em você. Eu sei que vai protegê-los. Eu sei!
Trina não deixou que Thorian chegasse perto de Emehir na primeira noite em que elas finalmente se conheceram. E a pequena humana que era digna de ser uma dragomir encantou também a dragomir de gelo. Thorian sabia que ela poderia ser uma ótima femea da especie, mas sua irmã andou muito irritada com ele. Eles estavam pisando em gelo fino, enquanto tentavam descobrir um jeito de ajudar a humana. O peito de Thorian se encheu de orgulho, afinal ele viu a distancia, quando a mulher se aproximou da tundra e o cheiro de gravidez nela o impregnou. Ele estava esfregando o peito pela vigésima vez, acreditando que seu coração poderia pular para fora de tanto que batia. Ela estava esperando um filho seu, uma criança que ele iria amar e proteger.
Quando fez menção de sair para poder passar a mão pela barriga da sua esposa e esquentar seu ventre, para cuidar de seu filhote e garantir sua segurança, ele sentiu um ricochetear de gelo em seus pés e percebeu que sua irmã ainda não tinha autorizado sua presença diante de Sophie. Ele ficou assistindo imponente a sua mulher conversar com a irmã, enquanto ela explicava sobre os bebês dragomir e toda a sua raça. E também, de acordo com as palavras de Trina:
– O boçal do meu irmão vai passar por um intensivo de civilização de sociedade, antes de nos vermos novamente. E querida infelizmente só ele poderá te ajudar a manter o bebê a salvo.
E isso explicava o motivo deste boçal estar agora parado no meio de uma festa com um copo de whisky na mão e procurando desesperadamente um jeito de sair daquela cidade. Barrow ficava há certa distância de Wuruihuintown, mas nada que dois dragomir não vencessem rapidamente com algumas batidas de asas, enquanto carregavam a própria roupa. Sua irmã decidiu que ele precisava aprender como viviam os humanos, como se ele já não soubesse. E isso o fez acompanhar velhinhas em compras pela cidade, ajudar com a caça para as famílias carentes, mas o que mais chamou atenção de Thorian foram as crianças. Infelizmente para o dragomir, elas mantinham uma distância considerável dele, assim como todas as mulheres. Não que ele estivesse interessado nelas, ele já tinha sua esposa.
A música era antiquada, ele sentia em seus ossos aquelas marcas de passado. Os mais jovens bufavam impacientes com a escolha dos mais velhos. Aparentemente era alguma comemoração da cidade, uma em que eles queriam recordar os antepassados. Trina apenas se divertia com a situação e forçava o irmão a falar mais e interagir com todos. O dragomir novamente tentou se aproximar das crianças brincando no cercado, mas eles fugiram para longe ao verem o gigante chegando.
Os dois passaram dois dias na cidade e o dragomir estava em agonia para voltar para casa, para ajudar com o crescimento do seu bebê. Já devia contar com um mês e a barriga iria crescer dia após dia, cada vez mais. E ele estava ali perdendo tempo. Thorian percebeu que os mais velhos sentiam o calor irradiando dele, e ao lado dos pequenos idosos ele não precisava falar, bastava que os ouvisse. E através das senhoras ouviu histórias sobre seus casamentos e como criaram suas famílias, e cada nova história que ouvia, mais ele mergulhava em uma escuridão na sua alma. Os humanos não lutavam como os dragomir. Sua esposa o temia? Quanto mais sabia, mais queria rugir e arrancar sangue de si. Mas ele segurava-se, afinal, ele era um dragomir com poder e jamais se rebaixaria a isso. Ele nunca iria curvar-se. Se Emehir não estava acostumada aos seus costumes, ele poderia ensiná-la, assim como ele estava aprendendo sobre seu povo. Afinal, ela tinha aquela atitude, aquela que a definia como digna, como sua esposa.
Era final da tarde, quando ele estava junto de Ila, o dono da tabacaria da cidade. O velho gostava de falar sobre como era a cidade antes da chegada de cada vez mais turistas, apesar de o próprio Thorian ser um turista. Estava distraído ajudando a carregar os jornais velhos para queimar, quando ouviu uma voz baixa e melodiosa.
– Moça?
– Onde você está vendo uma moça?- Ila resmungou e guspiu o fumo na neve.
– Ali. A moça!
– Que desrespeito. Aujaq volte para casa. Sua mãe deve estar preocupada.
Thorian virou o corpo e procurou pela dona da voz, mas não encontrou ninguém. Por acaso ouvia espíritos agora? Esses humanos eram distintos. Sentiu um leve puxar de roupas em suas calças e olhou para baixo. Se ele não soubesse teria achado que aquilo era um pequeno filhote de urso. Na altura abaixo de seus joelhos tinha uma pequena menina, vestida com roupa de pele de animais, que dava a ela uma aparência maior do que ela provavelmente seria. Ela olhou para o alto para ver Thorian e o dragomir sentiu algo dentro dele derreter por alguns instantes. O olhar repuxado e negro da menina inuite era como olhar para o céu escuro sem estrelas. E mesmo assim ele pegou aquele brilho e poder. Um pigarrear e ele se virou para observar Ila, que o olhava assustado. De relance ele viu seu reflexo no carro atrás do velho e Thorian percebeu que sorria, mas não tinha sentido que o fazia. A pequena menina puxou novamente sua calça, mas dessa vez Thorian não apenas ajoelhou-se, como deixou sua bunda esparramar pela neve, para ficar a uma altura confortável da criança.
– Ei! Você não é uma moça, você tem barba.
– Aujaq! — O velho comerciante gritou de novo — Senhor Thorian por favor, perdoe a impertinência da menina.
Thorian ergueu a mão para interromper Ila, sem nunca tirar os olhos dela. A menina o olhava curiosa e seus olhos percorriam o que não tinha conseguido ver quando ele estava em pé. Sem medo algum, Aujaq se aproximou do dragomir e estendeu a mão pelo rosto barbado dele. Passou a mão no cavanhaque, puxou os dreadlocks dele e ficou olhando joia por joia que ele usava presa nos cabelos. Depois inspecionou os brincos, colares, braceletes e aneis. Thorian se deixou inspecionar, enchendo o peito como um garanhão vitorioso que é exibido no pódio. A menina demorou-se em sua inspeção e quando terminou colocou as mãos na cintura, imitando uma postura que ele lembrava de ver sua irmã fazer muitas vezes. Humanas são engraçadas, se parecem muito com as fêmeas dragomir.
– Você usa mais joias que as vovós. Você é como aqueles homens que se vestem de mulher?
– Não — Thorian respondeu, abrindo mais seu sorriso, dessa vez consciente que o fazia.
– Você fala!
Aujaq bateu palmas e deu um pulo de alegria. Ao fazer escorregou no gelo, mas foi amparada por Thorian, que ergueu a menina que tinha um peso pena e a colocou em seu colo. Toda sua ação foi realizada com zelo e cuidado, temendo quebrar aquela criatura tão frágil. Humanas são frágeis. As crianças devem ser mais. Aujaq passou sua mão pela bochecha de Thorian fazendo um carinho, mas ele se sentiu um animal nas mãos dela. E por mais detestável que parecia o pensamento de ser tratado como um cachorro de estimação, ele gostou do fato que a menina não tinha medo dele.
– Eu me chamo Aujaq. Mamãe disse que sou assim por que nasci no verão.
– Sou Thorian.
Ela virou o rosto para a direita e ficou o encarando esperando mais. Quando ele não respondeu mais nada ela o beliscou. Thorian sentiu o cheiro de medo de Ila, mas ele apenas riu. O gesto da menina não era ofensivo. E ele jamais feriria uma pequena tão adorável. Na noite em que esteve com Emehir, ele desejou tocá-la com as mãos e fazer carinho, coisa que não teve chances de fazer. Ele nunca teve um desejo desse e agora com Aujaq a vontade retornou. Ele ergueu a mão e afastou o capuz do rosto da menina. Com cuidado Thorian passou a mão na cabeça dela e passou de um lado a outro. Quando Aujaq respondeu ao toque com um burburinho de alegria, Thorian deixou a mão dele passar pro rosto e passou a imensa mão pelo seu rostinho o que a fez rir. O dragomir riu com ela e voltou a fazer cafuné em seus cabelos. Eram macios em sua mão e ele sentiu novamente a fragilidade da menina nesse gesto. E naquele momento ele decidiu, que se pudesse influenciar em algo na gravidez de seu filhote, por mais que desejasse um menino varão para ensiná-lo a lutar, ele desejou algo como a pequena criança em seu colo. Uma menina frágil que ele pudesse proteger. Um som conhecido veio pelas suas costas e ele sorriu. Trina devia ter visto tudo, mas quem se importa. Ele veio para se socializar, não?
– Ele é um bobão que não fala muito. Thorian é como um trovão, nasceu rápido assim — Trina riu se aproximando dos dois — E é muito difícil fazer amizade com ele Aujaq.
– Mas nós já somos amigos — A pequena sorriu para Trina e depois virou seu rosto para Thorian — Não é?
Thorian concordou com um gesto de cabeça e levou outro beliscão.
– Sim. Já somos amigos!
– Oh! Você responde a beliscões. Bom saber.
O dragomir revirou os olhos. Uma mulher a distância se aproximou relutante do grupo. Trina cumprimentou-a com um acenar e pelo modo como o medo refletia em seu olhar, Thorian percebeu que aquela era a mãe de Aujaq. A menina sorriu para a mãe, mas não saiu do lado do dragomir. Novamente ele sentiu algo mole dentro dele, e depositou-a com um cuidado imenso no chão. Subiu o capuz dela e a encarou. Não satisfeito com o fator dela estar passando frio, ele tirou o próprio cachecol e enrolou-a, o que a fez rir. Ela respirou forte no tecido e o sorriso que chegou até aos seus olhos fez Thorian querer soltar fogo pelas ventas em comemoração. Mas precisava ser discreto e manter seu dragão adormecido na frente dos humanos. O dragomir tirou sua pulseira de ouro e pegou a mão da pequena Aujaq. Ele abriu sua palma e colocou a correntinha sobre ela, para em seguida fechar os dedos da menina sobre a corrente. O olhar dela ficou imenso e depois ela saiu correndo na direção da mão contente para mostrar o presente que havia ganhado. A mãe tentou devolver a Thorian, mas ele negava com um acenar de cabeça. Era um presente. Trina resolveu interceder.
– Ele é um cabeça oca e não aceita não como resposta. Aceite por favor, ele raramente dá presentes assim. É para Aujaq. Hoje não serve, mas um dia talvez sirva. Por favor, nós insistimos.
A mãe da menina ficou completamente vermelha e olhou finalmente para Thorian que permanecia sentado na neve. Ele apontou para a menina.
– Nós somos amigos. É um presente.
Aujaq deu um gritinho de alegria e correu para Thorian pulando em seu pescoço. O dragomir ficou travado, sem reação, enquanto a criança o abraçava. Os olhos de Trina brilharam vitoriosos. O seu irmão tinha um sorriso em seus lábios, e ele veio natural. Um sorriso que há muito ela não via. Desde que ele tinha idade para lutar, ele havia parado de sorrir. E ali estava, uma criancinha desarmando o grande dragão de fogo. Ela realmente representava o verão naquela terra de frio. Como Thorian.
– Quantos anos você tem pequena? — Trina perguntou ajoelhando-se ao lado do irmão e ficando na mesma altura do rosto de Aujaq.
– Tenho quatro — Ela respondeu sem afastar-se do abraço. Ela virou o bracinho e esticou os dedos para Trina, sem olhá-la — Faço cinco semana que vem.
– Então este é seu presente adiantado. E no seu aniversário receberá uma surpresa nossa. Tudo bem para você ? — Quando a menina acenou e olhou para Trina, ela sorriu de volta — Mas que tal ir com sua mãe agora. Eu tenho que levar meu irmão para jantar também.
Aujaq concordou com um acenar de cabeça, mas antes de se afastar tirou seu elástico de cabelo, estendeu a mão de Thorian, deixou seu prendedor sobre sua palma e fechou os dedos dele. Deu um beijo estalado em seu rosto e correu para sua mãe. Trina olhou a cena, enquanto seu irmão prendia o elástico em um de seus muitos dreadlockes.
– Tchau amigo
Aujaq erguia as mãozinhas despedindo-se de Thorian, deixando os irmãos dragomir boquiabertos para trás.
Emehir caminhava ao lado do senhor Punnu pelas ruas da cidade. Apesar de sua aparência mais envelhecida que a maioria dos lobos que ela conhecia, ele não era tão devagar quanto deveria ser. Ela gostava de conversar com o mesmo sobre trabalhos artesanais, já que ele disse que quando jovem, costumava montar vários itens com suas próprias mãos para cuidar de seu vilarejo. Eles não conversavam assim quando Shannon estava por perto — que coincidentemente agora estava com uma câmera fotográfica tentando tirar fotos da pequena Kênia, a bruxa estilista da cidade.
Já fazia alguns dias que a fatídica noite aconteceu. Quando ela finalmente havia beijado Kallai e quando quase tinha sido afastada da única que poderia ajudá-la com o bebê. Punnu a levou para a lanchonete, cumprimentou Ginger e levou Emehir para comer alguns dos brownies da cidade.
Eles sentaram em uma das mesas e Punnu quebrou os brownies em pedaços e estendeu o prato com pedacinhos para Emehir. A humana sorriu e pegou um dos pedaços para comer.
– Era assim que nós dividíamos a comida lá na Africa. Meu povo vivia assim, unido. Assim como os homens lobos vivem agora.
Emehir sorriu e pensou no quanto Shannon iria adorar estar aqui. Ela suspeitava que a garota não podia perder uma história, não por que desejava escrever ou narrar histórias, mas sim por que como ela, amava uma boa história. Queria conhecer cada vez mais intimamente as pessoas, mas além de tudo, queria poder sonhar.
– E como era viver assim?
Punnu respirou fundo e olhou para a cafeteria, como quem absorve o lugar para si. Mas quando voltou a olhar para Emehir, era como se não estivesse lá.
– Nós acordávamos para cuidar dos nossos animais. Mas a primeira coisa que eu fazia ao levantar era olhar ao horizonte e me sentir tragado pelo mundo. Para onde eu olhava era como se eu não fosse mais do que o grão de areia em que pisava. Não havia fim nem começo. Eu me sentia deslocado e como se algo estivesse faltando dentro de mim.
Punnu pegou um pedaço do brownie e mastigou com calma enquanto pensava no que poderia falar. Ele estremeceu em meio a uma lembrança.
– Levantar dia após dia era perigoso, por que o perigo nos rodeava. Ali havia leões esperando você deixar de prestar atenção em seus pés, havia animais venenosos rastejando ao nosso lado. E mesmo assim, havia vida — Punnu olhou para o ventre de Emehir — Havia pelo que lutar.
– Sempre há um por quem lutar.
– No seu caso, há uma alcateia inteira… E alguns lobos em especifico não?
O semblante de Emer mudou bruscamente e ela se afastou da mesa, encostando as costas contra o espaldar da cadeira. Ela acariciou o ventre, que não parecia que estava apenas de um mês. O sorriso do senhor expressou foi suave e ele estendeu o prato novamente para a humana.
– Eu não sei o que você pensa sobre isso. Mas Dougal não vê a verdade estampada em seu rosto e que o que sente é uma ilusão.
– E Aaron?
Emer franziu o cenho para ele e inclinou um pouco o rosto para o lado.
– O que tem Aaron? Alias por que vocês vivem falando dele? A cada trimestre eu viajava com meu tio para vender nossas bebidas na cidade grande, e foi lá que o conheci. Não sabia quem ou o que ele era até que Bernard veio a mim.
– Nessa cidade não existe segredos. Mas é estranho que nosso alfa aceite a presença de Bernard, ainda mais que ele está abanando o rabo para cima de nossa rainha.
Emehir virou o rosto para a janela e encarou a paisagem, ignorando as palavras do homem lobo. Ela não deixou de passar a mão pelo seu ventre para mantê-lo aquecido. Ela tinha percebido o jeito como o homem olhava para Iris, mas pelo pouco que o conhecia, sabia que era digno o bastante para não se envolver com uma mulher casada. Ela suspirou com o raciocinio. O que ela estava fazendo com Kallai?
– Bernard está aqui para me levar para casa. Mas enquanto não souber quem encomendou minha morte eu não partirei. Confio em seu poder, mas no momento tenho que pensar no melhor para meu filho.
– Você seria uma bela mãe loba, Emer.
A mulher engoliu em seco. Ela fechou os olhos e deu um adeus silencioso ao seu salvador e aquele que mexeu com os sentimentos que ela não sabia existir. Ela se virou para Punnu, com os olhos em brasa.
– Eu nunca serei uma loba. Eu serei mãe, é diferente.
Lothar estava esfregando suas mãos novamente. Seus olhos derramavam lágrimas insistentes. O corpo tremia com cada passar de palma sobre a outra. Suas mãos vermelhas, tanto quanto o sangue que havia estado ali há pouco tempo. Sua enfermeira era uma velha bruxa, e por compaixão ao médico era ela quem sempre cuidava dos natimortos. Lothar não sabia o que mais detestava, cuidar dos natimortos, da mãe que faleceu em sua mesa ou se contar para o pai, que provavelmente já sabia o que aconteceu, graças a excelente audição do lobo e a quebra do vinculo. Lothar voltou para a sala de operação e no piloto automático limpou o corpo da mulher loba, costurou a barriga da tentativa de cesária, o qual ela havia insistido.
– Salve meus filhos! Salve-os!
Não importava que ele já vivia há 450 anos. Não importava que ele já tinha matado muito antes de se tornar o que ele era hoje. Não importava que ele já havia salvo milhares em mesas de operações e também que essa não fosse a primeira fêmea lupina que não havia sobrevivido na sala de parto. Sempre era difícil. Especialmente quando elas imploravam por algo que ele sabia que não seria fácil de realizar. Ele era um maldito lobo e não um milagreiro. Terminou de arrumar o material e saiu da sala. Procurou pelo cheiro do marido da loba, mas nada. Ele já havia partido. A clinica estava vazia e ele conseguia ouvir a enfermeira trabalhando com os corpos dos bebês na sala ao lado em que a mãe estava. O comum era preparar todos os corpos para cremar ou enterrar de acordo com o desejo da família. Mas a família já tinha partido e ele imaginava que Fergus teria que dar o aval. E conhecendo sua enfermeira, já teria ligado para o seu irmão, o que explicaria o som do carro dele estacionando.
Fergus entrou em silêncio na clinica. Ele estava sendo seguido por Sophie e Avalon. Não era um bom lugar para trazer sua esposa gravida de cinco meses. Sua mãe sempre foi muito supersticiosa e um pouco dela ficou em Lothar. Mas Fergus não permitiu que ele permanecesse em sua própria desgraça. Seu irmãozinho, tão mudado pela companhia da companheira, tão logo viu Lothar caminhou firme em sua direção e puxou-o para um abraço. Não deu tempo para que ele protestasse. Lothar afundou no abraço desejando que o homem lobo que perdeu sua esposa hoje, pudesse contar com o apoio de uma família nesse dia, assim como Lothar tinha o da sua. O medico ajoelhou-se e deixou que a loba viesse a ele. Quando ela estava com as patas sobre seus ombros ele a enlaçou e permitiu que ela o lambesse. Ele começou a rir quando a língua dela lhe fez cocegas no rosto.
– Bom vê-la irmãzinha.
– Ela disse que também é bom te ver — Fergus inclinou o rosto na direção dos dois — E que nós vamos sair para espairecer. Faz tempo que não relaxamos juntos.
Sophie sorriu para os irmãos e foi em direção a porta. Lothar estava prestes a negar quando a enfermeira abriu a porta e praticamente os expulsou, dizendo que tinha tudo sobre controle. E lá foram os quatro, caminhando em silêncio. Avalon andava roçando o pelo na perna de Lothar, e atrás deles iam Sophie e Fergus. O beta abraçava a mulher que cantarolava baixinho. Os nervos de Lothar sendo aliviados com o som daquela melodia sem letra. Eles passearam sem rumo pela cidade até passarem perto da estufa em que Dougal geralmente trabalhava. Lothar parou e olhou para a estufa e em seguida para Avalon.
– Quer ficar por aqui irmã?
A loba rosnou e mordeu o calcanhar de Lothar em resposta. Fergus não precisava traduzir aquilo. Sophie segurou uma risada e os irmãos se entreolharam curiosos. Como quem fosse conjurado, a porta da estufa abriu e Dougal saiu parecendo que havia acabado de atropelar alguém. Ele estancou ainda segurando a porta e ficou olhando para os dois irmãos. Em nenhum momento ele olhou para Avalon ou Sophie. Finalmente, depois do que pareceu anos ele fechou a porta e foi na direção dos irmãos. Avalon rosnou mais uma vez e isso fez com que ambos ficassem em posição de luta.
– Vocês não vão fazer o que penso que vão fazer — Sophie resmungou — Não neguem isso a uma mulher grávida.
Fergus passou a mão pela cintura de Sophie e a colocou atrás de seu corpo. A mulher loba rosnou e todos os três olharam para ele enquanto Avalon se afastava do grupo, mantendo-se afastada daquele mar de testosterona.
– Nós estranhamos que Avalon está longe de você Dougal, e ela não querer vê-lo. Você poderia colocar em palavras antes que estes dois avancem em você? Hoje não é um bom dia.
Dougal abriu a boca para falar e um soco veio junto de seu maxilar. Dessa vez Avalon rosnou quando o homem foi ao chão. O velho lobo balançou o rosto e massageou o rosto enquanto olhava para Lothar que respirava ofegante. Um brilho avermelhado em seu rosto, demonstrando que seu lobo estava a margem. Dougal ergueu uma sobrancelha, curioso com a reação de Lothar.
– E isso foi por que?
Lothar travou o próprio maxilar, respirou fundo e fechou os olhos. Ele tentou controlar-se e quando seus olhos voltaram a abrir eram apenas o azul profundo de sempre. Mas ainda havia aquele brilho perigoso do lobo, prestes a saltar sobre sua presa.
– É quase raro vê-los separados. E não estou num bom momento.
– Oh! — Dougal levantou-se com cuidado, bateu as mãos na calça e tomou um bom tempo para isso, enquanto afastava a neve das roupas — Achei que foi porque ontem, sua irmã me beijou quando se transformou…
Como um borrão um lobo cinzento avançou sobre Dougal. Roupas rasgadas foram esquecidas na calçada, Sophie emitiu um guincho com a velocidade do ataque e Avalon rosnou. Fergus avançou para os dois. Mas Dougal apenas esquivou antes de rolar com um lobo na neve, tentando usar as mãos para afastar os dentes de Lothar e evitar que o mesmo atingisse sua garganta. Por instantes, o lobo não era o mesmo omega que todos conheciam. Avalon eriçou todo o seu pelo e pulou na direção de Fergus. Os irmãos olharam-se por muitos instantes, enquanto a briga acontecia as costas da loba. Algumas pessoas corriam na direção deles para tentar entender o que estava acontecendo. O beta resmungou alto e então correu contra o lobo cinzento. Seu poder dominante e parte da força do beta sobrepujando a raiva do irmão.
– Chega! Estamos em vias publicas. E… Aparentemente Avalon disse que não aconteceu nada.
Olhos vermelhos enfocaram em Fergus, mas os dentes do lobo ainda estavam arreganhados. O mediador virou-se para olhar para sua companheira, que agora afastava os curiosos. Fergus pegou Dougal pelos braços e o levantou, empurrando-o para a estufa. O lobo cinzento rosnava para os dois. Quando os homens lobos entraram o lobo cinza virou-se para uivar para sua irmã, mas ela afastou-se dos machos, acompanhando sua cunhada para longe.
– Elas foram respirar um ar livre de machos — Fergus riu — É o que Avalon diz.
Dougal balançou a cabeça e cuspiu dentro de um jarro esquecido no canto. Ele ainda estava de cabeça baixa, observando o nada quando eles ouviram Lothar voltar ao normal. O homem enrolou-se em uma bola e ficou de costas para os outros dois.
– É mentira. Avalon só fez isso para protegê-lo. Eu vou te matar Dougal. Dessa vez você foi longe demais.
– Foi ela quem me beijou! — Dougal resmungou — Depois de ter passado uns bons minutos transformada.
– Na verdade, ela me mostrou uma imagem de vocês dois caindo depois que ela estava contente por manter a forma dela por mais do que alguns segundos… E quando caiu, sem querer ela ralou em você parecendo um beijo. Depois você sendo um imbecil e ralhando com ela sobre isso. Esqueci de algo mais?
Dougal virou-se para Fergus e ficou com a boca escancarada. Ele tentou falar algo, mas parou e então abaixou a cabeça. O rosto do velho lobo ficou vermelho e Fergus grunhiu. O mediador respirou fundo.
– Estou certo?
– Maldita seja sua comunicação empática com sua irmã.
Lothar ainda estava encolhido no canto da estufa respirando ofegante. Ele bateu com os punhos no chão e rosnou alto. Algo estava de errado em toda aquela história e ele não estava em seu melhor gênio para tentar descobrir o que era. Fergus também sentia isso, mas ele não podia deixar que os dois lobos resolvessem isso a moda antiga. A moda antiga estava fora de forma, e agora eles teriam que respeitar as leis humanas. Ele bufou e virou-se para Lothar.
– Não quero ter que pegar meu irmão pelo colarinho e jogá-lo na prisão. Se não estivesse por perto isso significaria que comprometeu nossas leis. Sem brigas que os humanos possam achar que somos irracionais demais para conviver com eles.
– Sim senhor — Lothar resmungou — Não irá se repetir.
– Eu…
– Você nada Dougal! Não acredito nem um pouco nessa história de Avalon. Mas em nome dos meus filhos que estão para nascer eu espero que você resolva isso com minha irmã. Ela não te quer morto ao menos, então significa que basta vocês conversarem.
Fergus respirou fundo e bufou quando percebeu que eles não estavam sozinhos. Não muito depois a porta da estufa recebeu duas batidas. Dougal foi até ela e a abriu. Punnu e Shannon entraram. A menina era uma profusão de cores, mas ela não olhou para nenhum dos homens lobos, apenas o que estava ajoelhado em uma bola no canto mais profundo da estufa. Punnu tinha o cenho franzido para a cena e fez um gesto para que Fergus e Dougal saíssem. Shannon andou até o homem lobo encolhido, enquanto o som da porta da estufa se fechando fez com que Lothar saltasse incomodado.
– Ei chapeuzinho!
– Shannon — ele virou o rosto para ela — Saia eu não estou vestido.
A mulher revirou os olhos e estendeu um cobertor para ele. Shannon fechou os olhos enquanto se aproximava, e quando Lothar grunhiu ela abaixou-se passando o cobertor por cima dos ombros dele.
– Eu já vi seu piercing. Não há o que esconder de mim chapeuzinho.
Lothar grunhiu e olhou-a novamente.
– Chapeuzinho?
– É. O lobo mau vai comer você chapeuzinho. Você não viu o lobo cinza que estava por ai até agora de pouco? — Shannon piscou para Lothar o que arrancou uma gargalhada dele.
– O que faz aqui?
– Nós encontramos com um homem lobo e… O senhor Punnu me contou que talvez precisasse de alguém para conversar.
Lothar olhou para Shannon, que agora sentou-se ao seu lado. Ele não queria quebrar diante da humana. Ele queria mostrar o quão forte ele poderia ser, mas tudo que ele pode fazer foi se arrastar para mais perto dela e encostar o rosto em seu ombro. Shannon não falou nada, apenas passou o braço por ele e o puxou para repousar sobre seu corpo. Lothar se aconchegou em seus braços e deixou que o cheiro dela penetrasse o cheiro do sangue e morte que ainda insistia em seu nariz.
Ela estava em plena escuridão no quarto. Parada diante do espelho ela acariciava sua barriga. Estava imensa e mal completava dois meses. Quando Lothar tinha tentado ver ou sentir o bebê, ele disse que os equipamentos não mostravam nada. Como se o bebê não estivesse lá ou quisesse fugir da tecnologia tanto quanto ela queria. Mas de alguma forma ela sentia que lá havia mais do que um bebê de apenas 2 meses. Emehir encostou a testa contra o espelho e exalou profundamente, percebendo o suor surgindo no vidro. A voz de Trina a envolvendo como um manto, cobrindo as profundezas de sua alma.
“Nosso povo sempre foi reconhecido como um símbolo de realeza. Em várias partes do mundo somos a destruição dos povos ou sua proteção. .. Nós nos proibimos de nos mostrar tanto aos humanos quanto aos sobrenaturais. Sempre soubemos que eles existem, mas eles não tem a menor ideia de nós. Sempre que alguém se envolve com o desconhecido há mortes… E destruição de um povo. É assim que acontece em toda história”
Emehir alisou o ventre e em seguida começou a vestir a roupa. Lágrimas lembrando do dia em que teve sua virgindade tomada de maneira tão brutal.
“As leis do povo dragomir são severas e rígidas por um motivo. Sobrevivência. Uma delas é jamais envolver alguém de fora sem que esteja completamente disposto a adentrar em um mundo tão oculto quanto o nosso. E há apenas uma única maneira de contornar isso. Meu irmão será obrigado a isso, mas creio que ainda seja muito cedo. Até porque você precisa dele para manter seu bebê a salvo.”
Por que? Duas palavras perigosas a se fazer. Trina havia engolido em seco e olhou para suas próprias mãos.
“Eu nasci em um lugar como esse. O frio para mim é fantástico, mas foi meu pai que controlou a temperatura do corpo da minha mãe. Foi ela quem pediu por um bebê de gelo. E foi ele quem decidiu que eu seria uma menina. É assim para os dragomirs, é preciso o poder de um macho para manter a vida dentro do ovo”
Ovo? Emehir novamente tocou seu ventre. Ela tinha um ovo dentro de si? Ela era humana, as concepções deveriam ser naturais, mas então ela olhou para seu próprio corpo. Não era uma barriga de dois meses. A agonia das palavras de Trina serpenteavam por sua mente, e foi o ultimato para ela pegar suas coisas e fugir novamente da edícula. Que os lobos a perdoassem, mas ela tinha que cuidar de seu futuro bebê. Ela precisava encontrar forças nas mãos do desconhecido. Emehir foi na direção da clareira, onde tudo começou. Onde ela e Bernard conversaram e onde ela encontrou Trina. A luz da lua iluminava o caminho e ela agradeceu que não era lua cheia. Ou então teriam muitos lobos correndo pela floresta nesse exato momento. Ela caminhou pela trilha até chegar a caverna de Trina. Algumas poças de água que soltavam o vapor de agua quente. Uma banheira termal natural. A trilha de pedras guiavam para a entrada de uma caverna e de dentro a luz de uma fogueira a guiava. Emehir tomou cuidado nas pedras com medo de escorregar e cair, estava olhando para o chão quando ouviu o som de passos vindo encontrá-la.
– Estou chegando Trina, eu só estou com medo de… — Emehir travou quando ergueu o olhar e viu Thorian.
Emer gritou e deu um passo para trás. O passo em falso a desequilibrou e estava prestes a cair quando Thorian veio como um trovão em sua direção. Ele a segurou pela cintura e a ergueu como uma boneca de pano. Emehir gritou e empurrou as mãos contra ele, mas o dragomir continuou firme em seu agarre. Ele caminhou na direção da caverna e colocou-a ao lado da fogueira. Quando a colocou no chão, Thorian recuou alguns passos para trás.
– Monstro! Nunca mais me toque — Emehir cuspia as palavras totalmente irada — Eu não permito que isso…
Thorian rosnou e ela sentiu o corpo gelar e tremeu em resposta. O dragomir respirou fundo e segurou o ar, quando ele exalou, abriu a boca e uma labareda de fogo saiu de encontro a fogueira ao seu lado fazendo com que o fogo dela aumentasse de tamanho. Emer calou-se e encolheu-se cada vez mais para dentro da caverna e longe de Thorian.
– Meu bebê — Thorian apontou para o ventre dela — Deixe-me tocá-la.
– Não!!
– Trina falou. Ela te contou sobre os bebês!
Emehir tremia cada vez mais e mesmo o fogo que ele exalava não parecia dar fim no frio de sua alma. Thorian balançou a cabeça e apertou o vão entre seus olhos. Ele pareceu pensar um pouco antes de finalmente sentar-se na caverna e não olhar para Emer.
– Não me olhe se ajudar. Feche os olhos.
Ela balançou a cabeça repetidamente em gesto negativo. Jamais fecharia os olhos diante deste monstro.
– Eu não falarei nestes encontros. Não haverá calor que dê a temperatura ideal para nossa menina. Ela precisa de meu poder e calor para vir a vida. Se não, estará morta antes de completar o tempo ideal, e está perto. Ela está morrendo.
Ela? Seria uma menina? Os lábios de Emer tremeram, ela levou a mão a eles para evitar um soluço. As lágrimas que há muito segurava fugiam em liberdade. Thorian em nenhum momento ergueu o rosto, mas agora ele estendeu a mão para Emehir. Sem olhá-la, sem falar, com aquele gesto ele pedia permissão para se aproximar. Ele falou muito, mas de alguma forma, Emer sabia que nenhuma outra palavra sairia da boca do dragomir.
– Será uma menina?
Thorian balançou o rosto confirmando, mas como prometido nenhum som saiu de seus lábios. Ele se arrastou para aproximar-se mais. Emehir sentiu as costas esbarrarem contra a parede da caverna. Thorian já estava perto o suficiente para tocá-la, mas parou com a mão a centímetros de seu ventre. Emer ergueu a blusa e como um mantra, ela ficou murmurando para si mesma “É por ela!” Enquanto repetia, tentava não lembrar daquelas mesmas mãos a tocando antes. Thorian finalmente tocou-a, e ela esperou sentir a repulsa e a bile subindo, mas o calor a preencheu. Como nunca antes havia provado. Era uma sensação inexplicavel. A palma dele brilhou, enquanto ele aproximava o nariz de seu umbigo. Thorian deslizou a ponta do nariz pelo ventre, e suas mãos acariciavam todo o ventre abrangendo o volume. Emer olhou para aquele gigante enquanto o fazia e suas mãos em nenhum momento deixaram de brilhar. Thorian mordeu a própria mão e o sangue brilhava, mais vermelho que vinho, e derramou pelo ventre dela. Emer ia gritar quando percebeu que o sangue não ficava em seu ventre. Um cheiro doce encheu seu nariz, e ela jurou ouví-lo murmurar “Minha menina” para sua barriga.
Nada disso importou, por que quando ele parou de circular seu ventre, quando a mão parou de brilhar e o calor que havia percorrido não só seu ventre, mas todo o corpo. Thorian permaneceu com uma das mãos no centro do ventre e ela sentiu pela primeira vez seu bebê chutar.
Fale com o autor