Quando o passado vem à tona
3 Capitulo 2
Notas iniciais
“As runas ditam seu caminho. Todo dia de manhã ela acordava, fazia suas preces a suas Deusas, limpara seu corpo e sua alma e jogava as runas. Depois cuidava de seu corpo como se fosse um templo. Não é a toa que pareça tão jovem nessa idade. E mesmo que demorasse o tempo necessário para arrumar-se, sempre estava no centro do vilarejo, onde uma vez o fundador – seu antepassado – sentou-se esperando pelo restante do seu povo. E ao seu redor as crianças sentavam-se para ouvir suas histórias. Quando foi a ultima vez que você ouviu um contador de histórias?”
Tete-a-Tete com S&S
O lobo acinzentado parecia agitado enquanto corria para cada vez mais longe do povoado. Passou pelas cidades, mas as pessoas não pareciam se assustar com sua presença. A mente de Kallai tentou passar calma para o lobo, mas ele parecia concentrado demais para chegar até o lobo solitário. Ele gostava de causar medo, ele adorava o cheiro amargo que era produzido por essa emoção.
Continuou afastando-se das cidades, dos pequenos vilarejos, até que não havia mais vida por perto a não ser os animais selvagens. O lobo farejou o cheiro de motor recém usado. Um carro. O que um carro fazia tão longe da civilização? Seu lobo ganiu baixo. O que estava acontecendo. Concentrou-se nos outros odores ao seu redor, e havia medo. Dois homens, uma mulher. Uma mulher muito assustada. Não estava gostando da situação. E então havia o cheiro de sangue. Espalhado por todo o lugar, mas não sabia de quem pertencia.
Por favor, não seja da mulher. Não seja dela. O lobo ganiu concordando. Mas o que? O que seu lobo queria? Ele não reagia assim desde a morte de sua esposa. O lobo balançou o pelo irritado e inalou bruscamente o ar, vindo ao ar ao redor deles. O cheiro bateu contra o peito dele e balançou seu mundo. O cheiro da mulher parecia com mel, especiarias, parecia com seu lar. Ela tinha cheiro de lar. Uma imagem tomou conta de sua mente. Seu lobo não costumava conversar com ele quando estava caçando. Mas aquela imagem era de um lugar que ele reconhecia e que há muito não via. Árvores recobriam uma campina, pedrarias por onde o olhar poderia cobrir. O cheiro do hidromel fermentando, uma casa no meio da mata. Seus pais... Há muito não pensava nos pais. Eles estavam lá dentro, sua mãe tecendo no tear e seu pai provavelmente fumando cachimbo. Mas havia o cheiro de alguém mais, da mulher. E o lobo queria conhecê-la. Kallai queria chorar, queria gritar de frustração. Por que pensar no passado quando ele jamais voltaria? Ele tinha que se concentrar no aqui e no agora. Ele tentou liberar seu poder de alfa novamente, mas não sentiu mais o intruso. O lobo farejou ao redor até encontrar o motivo do lobo ter sumido. Pedaços de um homem estavam espalhados por um acampamento. Marcas de briga.
A imagem de um lobo em sua mente mostrou que o lobo estava colaborando com ele. Kallai estava se assustando com a reação do seu tão silencioso lobo. Ele parecia querer que ele se empenhasse tanto quanto ele. Era um homem lobo. Era. Estava morto. As patas do lobo não tocaram em nenhuma parte com sangue. Ele subia em cima de pedras e dos pedaços de troncos que eram indícios da briga. Ele tinha lutado contra um elefante? Garras para todos os lados, mas ele não viu o outro homem. Nem a mulher. Muito menos partes de outros corpos. O lobo estava agitado, agora pulando para longe da cena mortal. Algo estava errado, ele sentia em seus ossos. Seu lobo gostava da carnificina. E por não querer ficar e brincar naquela sujeira, algo estava errado. A mulher. A imagem que recebeu em sua mente foi indistinta. Não tinha formato, não tinha definição, mas o aspecto feminino estava lá.
Nós somos casados! Ele enviou uma imagem de Isis para seu lobo, mas o lobo distorceu a imagem para uma Isis morta com o pescoço talhado. Marcas de lobo que arrancaram sua laringe. Não! Você gosta da menina. O lobo grunhiu e continuou a correr. Kallai tentou forçar seu corpo humano sob a pele do animal, mas foi impedido. Nunca se sentiu tão impotente.
Thorian rugiu novamente. A mulher contorcia-se em seus braços. Quando estavam chegando perto da civilização Petrus ficou agitado para concluir sua missão, e partir do território do alfa. Ele disso que o alfa descobriu a posição deles. Para o dragomir, não se importava mais a missão. Poderia ter todo o ouro do mundo, mas nada seria completo sem uma mulher e sua prole. Quando Petrus ameaçou Emehir com uma semi-transformação em lobo, o cheiro do medo dela tomou conta de todo o corpo do dragomir. Ele rugiu um grunhido alto e perigoso. Um aviso, que foi ignorado pelo jovem lobo. Ele colocou a mulher atrás de suas costas e deixou que seu corpo mudasse. Ele era um dragomir, uma criatura antiga e poderosa. As escamas cobriram seu corpo, sua altura mudou. Alcançou a altura máxima da raça. Ele ergueu o focinho já transformado e soltou uma labareda de fogo. Emehir não emitia som algum, mas o seu cheiro assustado o chamava atenção. Thorian virou seu rosto para olhá-la e um calafrio passou pelo seu corpo. Mesmo com medo, ela permanecia em pé, encarando-o. As asas dele tremularam de prazer com sua aceitação.
Petrus estava indeciso diante da imagem do gigantesco ser. Mas a sobrevivência falou mais alto. Eles travaram uma briga, quebrando o cenário ao seu redor. Thorian já não sabia o que tinha há sua frente, quebrou tronco, pedras, rasgou a grama com suas garras e também algo macio. Carne humana. Não. Cheirou e percebeu que havia um odor de animal. Lobo. Sim. Petrus já não era mais um lobo ou um homem. Eram pedaços de carne espalhados ao seu redor. Algumas dessas partes com queimaduras, outras incineradas. O coração foi devorado. Thorian lambeu os dentes afiados. Ele protegeu sua fêmea. Agora era hora de cuidar dela. Quando se virou para Emehir, percebeu que ela não estava onde a havia deixado. Ela queria brincar. Ele estendeu suas asas. Thorian era um dos mais poderosos entre os seus, demonstrados pelas asas, que envergavam o dobro do seu tamanho. Tinham ranhuras das brigas contra outros da espécie e ele as usava com orgulho. Era um verdadeiro combatente.
Thorian não precisou voar muito longe. Sua esposa era humana, mas não por muito tempo. Ele iria dar a ela o dom da raça. Uma humana não sobreviveria ao parto da raça. As fêmeas sabiam quando o feto estava pronto e preparavam a própria barriga para auxiliar no parto, para que os filhotes pudessem rasgar o caminho com suas próprias garras. Pensar em seu filho saindo de sua esposa o fez rugir de prazer. Ele desceu para pegá-la no colo. Não chegou a pousar, apenas enlaçou a cintura da mulher e sentiu-a espernear. Thorian queria tranquilizá-la. Em breve ela poderia voar com suas próprias asas. Procurou por um lugar digno de um ninho de amor. Não havia um que o lembrasse seu lar, mas ele a fecundaria aqui e depois o faria em sua casa. Desceu e queimou a neve ao redor, para que a grama servisse como uma cama. Depositou sua mulher com cuidado sobre a grama. Ela virou-se para bater nele. Como uma verdadeira esposa dragomir. Ele afundou seu focinho entre o vinco do pescoço e do ombro e respirou fundo. Emehir ficou parada, percebendo sua pequenez perto do corpo dele. Thorian passou a ponta das garras pelos cabelos vermelhos, contrastando a cor avermelhada com a cor negra de suas escamas.
Emehir olhava-o assustada. Ela sempre contava histórias sobre o mundo mágico, mas para ela, sempre foram apenas histórias. Agora, ela tinha visto um homem transformar-se em um lobo, ou quase lobo. E ele tentou matá-la. E Thorian tornou-se um homem dragão para defendê-la. Mas aquela voz dentro de sua alma dizendo que algo estava errado nessa proteção apenas a fez correr. O modo como Thorian passou a olhar para ela desde que ela entrou no avião havia enviado arrepios a sua coluna. E agora, que ele estava sob ela apenas aumentava seu medo.
Seu pai havia lhe ensinado: quando um animal selvagem te ameaça, você não reage com medo. Tenta assustá-lo. Ele só não a ensinou a assustar um dragão de mais de 2 metros de altura. Ela parou de se movimentar abaixo dele, o que fez Thorian abaixar-se mais sobre ela. Suas garras foram para seu cabelo e ela parou de respirar. Depois ele passou a mão pelos cabelos dele e retirou uma de suas jóias e estendeu para ela. Emehir tentou falar sem que seus lábios tremessem de medo.
– O... O... Obrigada.
Ela lutou para desvencilhar uma das mãos debaixo do corpo dele e prendeu a jóia no cabelo do mesmo jeito que ela estava no cabelo de Thorian. Quando ela colocou o ônix em si, Thorian soltou um chiado, que ela acreditou tratar-se de um agradecimento. Ele tirou mais uma pedra de ônix e entregou-lhe. Eles fizeram esse processo até que não havia mais pedras negras no cabelo dele. Emehir tentou acalmar-se para não irritá-lo. E tudo o que mais queria, era ter recusado a oportunidade de partir da segurança do seu lar. Thorian não voltou a ser homem e aquilo a preocupou mais ainda. Ela ergueu a mão para o peito dele tentando empurrá-lo e ele chiou mais uma vez.
– Por favor... Eu não consigo respirar.
O olhar de Thorian brilhou e ele ergueu-se apenas a tempo de puxar a roupa dela. Emehir não aguentou e gritou assustada. Mas é claro, suas histórias não eram baseadas na imaginação. O que um dragão mais gostava: cavernas (não estavam em uma), ouro (as jóias representavam ele muito bem) e por fim e não menos importante, virgens. Emehir engoliu em seco.
Thorian estava em seu mais sublime estado de felicidade. Nunca antes uma fêmea foi tão atenciosa. A cada joia que entregava ele sentia seu corpo responder ao dela, ela estava divina com suas pedras. Quando tirou as roupas que atrapalhavam seu corpo ele alisou o corpo dela com suas garras. Ele queria mudar e prová-la como um humano, mas precisava de suas escamas para impregna-la com seu ser, para torna-la uma dragomir. Era preciso que ela ficasse totalmente coberta de sua essência do próprio dragomir, seus fluidos corporais. Tomou cuidado com suas garras, preferia preparar o corpo dela para usar a troca consanguínea por último. Ele deveria cortá-la e a si mesmo e seus sangues tomariam a cor dourada se o corpo aceitasse a mudança.
As garras dele desceram até seu quadril e puxou-a contra seu corpo. Quando ela recuou Thorian grunhiu. As fêmeas da espécie sempre lutavam antes do ato. Ela o desejava! Ele abaixou-se diante dela e lambeu seu corpo. Usou sua língua para prepara-la, afinal, ele não era um ogro, era um dragão. Sua língua encontrou uma barreira, seu hímen. Percebeu que ela inalou profundamente, seu corpo estremecido e tudo que ele pode fazer foi erguer o rosto para ela. Virgem. Ela era virgem. Sua mulher estava se guardando para ele.
Ele ergueu o rosto ao alto e golpeou labaredas ao alto. Um vitorioso em seu trunfo. O rito do sangue teria um canal duplo, ela daria e ele também o faria. Thorian afundou-se contra ela, ouvindo-a gritar. A floresta silenciou-se e naquela relva que ele criou para os dois, Thorian amou sua esposa. Ouvia seu choro, ela brigava, esmurrava e ele apertou-se contra seu corpo. Prendeu suas mãos com suas garras, não queria que ela se machucasse ao debater-se contra ele. Haveria tempo para o amor guerreiro quando ela fosse uma dragomir, mas por hora ele verteria seu sêmen e suor sobre Emehir. Depois de milênios sem que alguém de outra raça fosse convertido, ele estava mudando as regras naquela noite.
Gritos. Gritos femininos ao longe. A orelha do lobo parecia um radar, movendo-se na direção do som. O mato naquela região parecia mais alto que a neve. Marcas de queimada ao redor da área. O lobo ficou em silêncio. Ele não queria denunciar-se ao seu inimigo. O que havia entrado em seu território? Kallai sentiu seu lobo aproximar-se sorrateiro aos gritos. Ele estancou diante do que via. O mundo ao seu redor calou-se. A floresta chorava e o cheiro de dor impregnava em seu focinho. Uma criatura assustadora avultava-se contra um pedaço de pele. Sua grandeza impedindo o lobo de ver algo. Quando o monstro se afastou, Kallai distinguiu o corpo frágil da mulher. Ela estava com o corpo imóvel, sentia sua pulsação e apenas isso denunciava que ainda vivia, mas o olhar travado nela no horizonte, dizia que sua consciência não estava ali.
Minha.Companheira.
O grunhido do lobo fez Kallai estalar. Nunca antes um lobo falou. Eles sempre enviavam imagens do que queriam dizer, ou rosnavam, ou grunhiam, ou uivavam. Mas ele claramente ouviu seu lobo falar com ele. Foi um rosando gutural, formando letras e palavras. Pausadas e com raiva. Kallai não podia acreditar no que ouvia. Ele teve que fazer seu lobo gostar de sua esposa, aceitar seus filhos, tolerar seu povo. Mas aquela desconhecida, bastou uma olhada. Não foi o cheiro. Ele inalou e o cheiro de lar voltou para ele.
Minha.Para.Proteger.
A criatura avançou contra a mulher novamente. O cheiro de sangue fez seu lobo avançar novamente. A visão dele estava desvanecendo. Kallai lembrava dessa sensação. Era a mesma de quando ele destruía nações inteiras com seu poder. Ninguém conseguia pará-lo e nas suas costas sempre ficavam a dor quando ele despertava no mar de sangue. Ele não queria isso, não podia fazer isso de novo. Seu coração não aguentaria. “Peidiwch â chyffwrdd fi” Ela estava rezando? A mulher falava baixo, como uma reza, sussurrando. O lobo ouviu e quando a consciência das palavras veio à mente de Kallai ele congelou. Ela falava galês e estava dizendo para que o monstro não a tocasse. Aquela foi a última coisa que ouviu ou viu algo, antes do lobo arreganhar os dentes e o dragão virar-se contra ela rosnando também. Nós iremos matá-la, vamos despertar sob o sangue dela. Kallai implorou para o lobo, coisa que nunca tinha feito antes. A resposta foi uma imagem do lobo deitado aos pés daquela mulher, com ela vestida e afagando as orelhas dele. E eles estavam na cabana de seus pais.
Lar. Companheira.
A mente de Kallai finalmente voltou a consciência, mas ele recusou-se a abrir os olhos. Ele respirava fundo e demorou mais uns instantes para perceber que estava em seu corpo humano e não no corpo do lobo. O animal dentro dele estava novamente silencioso. Kallai queria arrancar seu coração fora e não ter que olhar o estrago dessa vez. Ele destruiu o Alasca dessa vez ou apenas seu povoado?
Lar.
O lobo falando com ele de novo? Ele abriu os olhos assustado e deparou-se com uma cena devastadora. Ele estava em um círculo de grama, quase perfeito, mas ao redor dele a natureza estava um desastre. Fogo queimava ao seu redor em algumas árvores. Grandes marcas de garras demarcavam todo o lugar. Mas não havia corpo do dragão. Ele sobreviveu? Seu olhar finalmente caiu sobre a mulher. Os cabelos dela esvoaçavam contra o vento, os lábios e o corpo nu marcados com cortes do dragão. O cheiro de sangue dela afundou em sua consciência, o olhar caiu para suas coxas. Virgem. Nenhuma mulher merecia aquilo. Ele fechou os olhos querendo lutar contra o dragão de novo, mas agora consciente disso. Ele queria fazer o monstro em pedaços. Afinal, o que era aquilo? Algum tipo estranho de fae?
Um som de algo caindo ao chão o fez abrir os olhos. A mulher não tinha lágrimas aos olhos, suas mãos tremiam ela tirava os prendedores de ônix e os jogava ao chão. Ela tentou fazer isso rápido, mas era obvio que ainda estava em choque. Quando tentou puxar um prendedor com força demais, ela emitiu um som de dor e o lobo forçou-se a sair do corpo dele. Querendo embalá-la. Kallai apenas queria virar as costas para ela e nunca mais olhar para trás. Aquela mulher em instantes provocou a loucura nele. Ela poderia quebrá-lo em pedaços só com um som. Quando o som de dor e o cheiro de medo, confusão, raiva invadiu seu ser ele aproximou-se dela para ajudá-la a tirar as joias. Se continuasse assim ele realmente perderia a mente.
Emehir recuou involuntariamente quando o homem rastejou para perto dela. O corpo dela doía, a mente queria partir para outro mundo e jamais voltar. Sentia que sua alma se espedaçava. Ela não queria confiar em ninguém, mas seus instintos diziam que aquele homem não a machucaria. Deveria sentir medo de sua nudez, deveria sentir medo por ele ter se transformado em um animal, mas ela sabia em seu íntimo que poderia confiar nele.
Quando ela recuou, o homem parou e resmungou algo baixo. Parecia bravo com algo. Com ela? O homem lobo pigarreou antes de falar algo.
– Desculpe. Não tenho nada para me cobrir, mas.... Não a tocarei, só me deixe.... Tirar isso de você.
Aquele homem era uma contradição ambulante. Ele tinha os cabelos em cachos altos e loiros, um rosto ovalado com os maxilares levemente pronunciados. Olhos castanhos sinceros e se olhasse bem para eles, poderia ver a sabedoria por trás deles. Enquanto toda sua aparência gritava anjo, apesar de seu corpo bem estruturado sem músculos o suficiente, sua voz era rouca e madura. E ele se transformava em um lobo. E não um qualquer. Emer não sabia dizer o que era aquela coisa, mas quando ele se virou para ela, uivou e seu uivo parecia de adoração para ela. Ele estendeu seu pescoço em sua direção e deitou-se a sua frente. Não se moveu até que seu corpo virou o do homem a sua frente e, ficou assim por longos minutos, se não, horas. Sua imobilidade lhe deu estabilidade. Ele aguardava que ela respondesse e ainda permanecia imóvel. Emehir respirou fundo e fechou os olhos. Seu anjo guerreiro não iria machucá-la. E só de pensar nisso, seu corpo permitiu-se desabar. Ele abriu os olhos para dizer algo, apenas para agradecer, falar qualquer coisa, mas caiu na escuridão.
Isis caminhava de um lado a outro e sua loba rosnava o tempo inteiro. Ela estava diante de sua cama e uma estranha, nua e com sangue nas coxas dormia como se aquele fosse seu lugar por direito. Sua loba rosnou e quis vir à tona para rasgar a garganta da humana insolente. O único que a impedia de atacar era a presença de sua nora no quarto que a olhava enfurecida. E nunca, nunca irrite uma fêmea psi. Alguns comparavam seus poderes as peeiras da mitologia. Eram lobas muito distintas e Sophie poderia ser um pé na bunda quando queria. Afinal, ela era apenas a esposa do Mediador. Lobos mediadores poderiam ser perigosíssimos e suas companheiras tanto quanto.
Sophie mergulhava um pedaço de pano em uma bacia de água quente com ervas para cicatrização e aliviar as dores e em seguida limpava devagar o corpo da mulher estendida. Kallai apareceu com a mulher e ele não conseguia nem mesmo olhar para ela. E como todo bom alfa distribuiu ordens para todos e não se incomodou de responder nenhuma. Sophie tomou partido porque o seu queridíssimo sogro ordenou a esposa para cuidar da mulher.
Os homens estavam na sala e, com seus ouvidos ávidos de lobo, poderiam escutar tudo. Mas Kallai manteve todos em silêncio. Eles esperavam a mulher despertar. A única coisa que o alfa ordenou foi que as joias fossem retiradas e deixadas longe da vista dela. Ele impediu até mesmo o filho, que era médico, entrar no quarto. Somente mulheres, ratificou. Sophie tratou da humana até que ela abriu os olhos cinzentos para encontrar com os azuis da psi. O silencio entre elas foi reconfortante. Sophie percebeu que a mulher olhou para o próprio corpo, que agora só tinha as marcas vermelhas, sem sangue. Quando passou a mãos nos cabelos, estavam sem nenhum adereço. A mulher loba ergueu-se e pegou um conjunto de roupas para o frio intenso do Alasca. Ela pensava no que dizer para aquela mulher, pensava no que ela deveria ter passado. Não sabia como iniciar uma conversa ou tentar descobrir o nome dela, de onde veio ou se tinha um lugar para onde voltar. Enquanto ajudava-a a se vestir ela pensava no que fazer, até que elas se olharam novamente. O olhar dela caiu na barriga já enorme de Sophie e ela soube o que dizer.
– Você está segura aqui.
Isis estalou os lábios chamando a atenção para ela. Seu olhar percorria a mulher de baixo a cima. Quando a estranha estava vestida, ela finalmente viu a diferença entre elas. Aquela com toda certeza era uma mulher vivida. Onde Isis tinha a delicadeza de uma bela adolescente, ela tinha a altivez de uma mulher. Onde a mulher do alfa era uma perfeita bonequinha de porcelana, a desconhecida era uma rainha de gelo. Mesmo tendo sofrido algo bem intenso, ela parecia manter o olhar acima de todos. Havia algo nela que fazia Isis querer arrancar seu couro fora, mas também se jogar em seus braços e ser aconchegada por ela. Com um rosnado, Isis girou o corpo com toda a graça de sua loba e abriu a porta fazendo de proposito que a mulher visse todos os homens esperando por elas.
O lobo de Kallai enviava imagens o tempo inteiro para sua cabeça. Imagens dele deitado ao lado da ruiva, mexendo em seus cabelos. Eles abraçados nus debaixo das cobertas nos dias mais frios. Às vezes, imagens dela correndo solta pela cabana de seus pais e ele atrás, perseguindo-a enquanto ela ria. Mas o riso não tinha som. Seu lobo não queria imaginar, queria ouvir a voz dela. Kallai estava batendo a cabeça contra a mesa, querendo que seu lobo parasse de mostrar cenas tão boas assim. Nós somos casados. COM ISIS. E toda vez que falava isso para seu lobo, mais imagens dele rindo com a mulher das tundras. O ruivo dela rivalizando com a neve, enquanto ela brincava pela sua terra. Bom, pelo menos ele não tinha enviado imagens de Isis morta. Era um começo.
Lothar e Fergus olhavam para seu pai bater a cabeça contra a mesa novamente. Eles ouviram uma voz direta dizendo: não quero nem um pio de ninguém dentro dessa sala. E desde então, até que a ordem fosse desfeita ou até que Kallai ordenasse o contrário, eles não podiam falar nada. Lothar não sabia se ria do Dougal rindo em silêncio com a mão apertada contra o estomago, se chorava com a ideia de seu pai preocupado a ponto de perder a cabeça ou se deixava seu lado de curandeiro agir pensando na mulher ferida no quarto. O cheiro de sangue ainda insistia na casa, apenas fazendo seu lobo agitado. E o lobo dele também estava preocupado. Afinal, quem era essa mulher?
Quando Isis abriu a porta, todos os quatro homens saltaram para olhar para o quarto. Fergus afastou-se para usar as sombras da casa para se esconder. Sophie não gostava que ele agisse assim, mas ele era o mediador, e inspirar medo era sua profissão. Dougal parecia hipnotizado pela mulher, quando ele deu um passo na direção do quarto, um rosnado irrompeu a sala. O rosnado veio de Kallai e os olhos dele brilhavam em amarelo, seu lobo à tona, prestes a voar no pescoço do velho lobo. A mulher não se encolheu com o som, mas sim andou até Kallai. Quando parou frente à ele, os joelhos dela cederam um pouco, e num gesto delicado de uma reverencia, ela falou pela primeira vez desde que o dragão a havia tomado.
– Obrigada por ter me salvado.
Isis não tolerou a presença da mulher dentro de sua casa, e como Sophie estava preocupada com Emehir, insistiu que ela morasse com ela até descobrir um jeito de devolvê-la em segurança a sua família. Depois de uma breve apresentação e uma explicação do que Emer fazia tão longe de casa, Kallai contou aos presentes como foi o seu encontro com a mulher, obviamente deixando de lado a parte obvia do estupro, mais para que Emehir não lembrasse do que aconteceu. Os sumiços dos humanos, as mortes indevidas e ocorridas em territórios de sobrenaturais, obviamente era um aviso. E se ela foi escolhida para sofrer e se salvou, Fergus insistiu em ressaltar que ela poderia ser perseguida novamente.
A semana passou, e todos esperavam o dia em que ela desmoronasse. Mas ela não se quebrou por conta de lembranças. Emehir era um mistério que todos os que a conheciam queriam desvendar. Ela era gentil e admirável, mas se assustava com coisas cotidianas como a televisão ou um celular. Lothar a visitava e trazia ervas para o corpo, pois ela não confiava em seus aparelhos médicos ou pílulas. Sophie se divertia com Emehir ensinando algumas lições de boas maneiras a Fergus, que se sentia um ogro, morando agora com as duas delicadas mulheres. E para a loucura do lobo de Kallai, Dougal a visitava constantemente, trazendo presentes: flores, pelúcias, e até mesmo um tear, quando ele descobriu que Emehir gostava de tecer.
Kallai evitou Emer durante essa semana, e Isis não desgrudou de seu pé nesse ínterim. Seu lobo insistia em mandar imagens da ruiva, e uma opressão em seu peito, as vezes o fazia arfar de dor. Mais uma semana passou e quando Isis pareceu convencida de que ele jamais iria visitar a “outra”, que era como ela insistia em chamar Emer, ela lhe deu um descanso. E no primeiro raiar do dia em que Isis deixou o seu lado, o lobo cobrou espaço em sua mente e corpo. Kallai sentiu seu corpo mudar e sentiu-se impotente para voltar a forma humana.
Seu lobo queria correr livre, mas tão logo pisou fora da casa, ele correu para a casa de seu filho Fergus. O lobo farejou o ar e percebeu que ela estava fora da casa. O que ela faz sozinha longe da proteção de Fergus?
Companheira. Seu lobo grunhiu. Ele precisava urgentemente ensinar outra palavra para seu lobo. Kallai quis correr para a floresta e perder-se nela, mas o lobo queria sua “companheira”. Ele seguiu o cheiro dela por uma trilha que levava para a edícula. Ele arranhou a porta e ela abriu-se com seu impulso. O lobo entrou e Kallai sentiu-se transportado ao passado. Um tear com um belíssimo tapete estava quase acabado, a riqueza dos detalhes da peça mexeu com ele. Na cena retratada, um lobo enfrentava um dragão. A estrutura do bordado e as cores o lembravam nitidamente da tundra. Mas o tapete não foi o que chamou sua atenção.
Emehir. O grunhido do lobo foi apaixonante, ele sentia o rabo abanar em sua traseira. Aparentemente o lobo conhecia outra palavra. Emehir estava diante dele, parada no centro da edícula. Estava de joelhos, um penhoar de seda que nada impedia de mostrar suas curvas. Os cabelos dela, sem nenhum penteado, caindo pelos seus ombros, como se ela tivesse acabado de se levantar. Seu lobo teria grunhido de felicidade, pois ela parecia a amante perfeita saída da cama, mas ele não o fez porque seus olhos estavam fechados e lágrimas corriam soltas pelo seu rosto. Emer soluçava de ombros e rosto baixos. Ela não era uma loba, era uma humana. Não tinha ouvido a porta abrir, achava que estava sozinha. Kallai forçou o lobo a partir, mas seu lobo queria consolá-la. Ele aproximou dela e quando estava perto, a pata bateu em pedras. Seu lobo ignorou, apenas sentando-se diante dela, lambendo suas lágrimas. Emer não abriu os olhos, não verificou quem era. Era como se soubesse que era ele o tempo todo. Um calor percorreu seu lobo e chegou até sua consciência humana. Kallai sentiu-se enlaçado como nunca, desde a morte de sua esposa.
Emer soluçou por minutos até que ela afundou o rosto no pelo macio de Kallai e levou as mãos as runas no chão a sua frente. O lobo acompanhou seu movimento e olhou para as runas. Ela pegou uma das pedras e respirou fundo, olhando fixamente aquela pedra como se segurasse sua vida.
– Joguei três vezes e todas elas deram a mesma coisa...
Ela olhou ao lobo e engoliu em seco. Fechou os olhos e ergueu o rosto ao alto. Uma lágrima solitária desceu uma última vez.
– Estou grávida.
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