“Ela trouxe a magia de volta ao mundo. Antes devoramos histórias sobre o sobrenatural por que ele era tão misterioso. Agora o mistério caiu no esquecimento. Eles vivem conosco. Esses dias tropecei em um fauno comendo Big Mac e quando encarei sua metade inferior por tempo suficiente, ele me perguntou ‘Que é? Nunca viu um fauno antes bebê?’.Tudo já caiu na normalidade, até o dia em que uma mulher humana que ainda acredita em magia como ela era realmente e chorou emocionada achando que eu era uma fada. Eu? Uma fada? Conta outra.”

Tete-a-Tete com S&S

Dougal estava sentado confortavelmente na poltrona que trouxe de sua casa apenas para marcar a edícula com o seu cheiro. Aos poucos Fergus estava criando um pequeno lar para a pequena dama à sua frente. As vezes ele simplesmente ficava parado olhando para Emer fazer o que quer que fosse no dia. Ela não reclamava por estranheza do ato, até mesmo sorria quando seus olhos se encontravam. Ela era a mulher mais forte que ele já conheceu, depois de sua falecida esposa. Dougal franziu o cenho, fazia milhares de anos que não pensava nela. Foi a similaridade. Ela foi morta por um dragão, Emehir sobreviveu a um.

Emer estava sentada diante da lareira, com o fogo a iluminar seu rosto pálido. Há alguns dias, desde que ela havia concluído a tapeçaria da cena da bravura de um lobo contra um dragão, que havia aquele brilho em seus olhos. Dougal tinha milhares de anos nas costas, conhecia a humanidade como à ele mesmo, mas o ser feminino sempre teve esse mistério que ele nunca tentou desvendar. Qual era a graça de conhecer as surpresas da caixa do mágico? Mas o modo como ela bordava agora, parecia que ela transcendia. Dougal desejava colocar-se de joelhos diante dela e implorar para que esse brilho fosse mergulhado em sua alma. O olhar de ambos se encontrou e Dougal rendeu-se a um sorriso. Levou a mão ao coração como se uma flecha o ferisse e Emehir balançou o rosto graciosamente rindo baixinho. O velho lobo ergueu-se e floreou, antes de declamar mais um de seus poemas. Ele nunca sabia quando era um poema conhecido ou algum que um dia ele já tinha escrito.... As palavras perdiam-se com o tempo

Outra vez a chuva me acompanha para casa

o caminho cravejado de estrelas brilhantes

Vou por aqueles que cortam o vento

para os braços de suas amadas

Emer deixou seu bordado de lado e colocou as mãos sob o colo, olhando embevecida pra Dougal. O lobo olhou para a janela e pareceu perder-se por instantes, antes de retomar a prosa, agora narrando em galês, arrancando suspiros de sua musa.

Abandono o sofrimento para voar em liberdade

quando irromper o porta da velha casa

em busca de incessante sabedoria

com o autorretrato da ignorância.

Sophie entrou na edícula e uma paz invadiu Dougal, arrancando um suspiro de puro prazer. O presente da presença de uma psi era algo que um lobo velho como ele apreciava. Ela trazia chá e pedaços de pão. Um pão que sabia, que a massa tinha sido preparada por Emer. A mulher parecia transpor amor por onde quer que tocasse ou com quem falasse. Dougal levou a mão ao peito, antes de ajoelhar-se diante de Emer e concluir o poema, agora no idioma comum, para que Sophie pudesse apreciar sua arte.

O que nos espera noite adentro?

pelos umbrais do firmamento

como um tolo apaixonado toco o solo

percorrido por fadas e lobos

até o pequeno centro de universo

escondido no paraíso de seus braços.

Ao terminar o poema ambas as mulheres aplaudiram, para massagear seu ego. Ele podia ouvir o lobo de Kallai indignado com ele do outro lado. Dougal podia sentir o lobo dele tentar criar um vínculo com Emer. Em tantos anos de vida nunca viu um lobo já vinculado querer outra companheira. Ele sentia seu próprio lobo arranhando a borda de seu corpo, querendo enfrentá-lo. Kal podia ser seu alfa, podia ser seu melhor amigo, podia ser o papa ou um Deus, podia ter sido ele a salvar sua amada, mas ele mataria por Emer. Um rosnado saiu de sua garganta, antes mesmo que pudesse se segurar. Quando virou para desculpar-se com a Emer, percebeu que ela estava segurando um pires estendido para ele. Sua linguagem corporal dizia que ela fez Sophie retroceder.

Sophie, sendo uma loba psi poderia uivar ou cantar e acalmar Dougal, e ela tinha essa necessidade de apaziguar sua alcateia. Com o rosnado e com o obvio conflito acontecendo entre os lobos perto da humana, ela teria ido a seu encontro. Um toque de Sophie e ele seria dissolvido em um gatinho ronronando à suas mãos. Mas Emer impediu, ela tinha esse efeito até mesmo sobre a mais influente loba. Era uma verdadeira encantadora de lobos. Não! Não apenas de lobos. Ele a viu interagir com o povoado da cidade. Todos pareciam adorá-la. Ela era atenciosa, emprestava seus ouvidos para quem necessitasse de um ombro amigo e conversava sobre tudo, entretendo qualquer um dos turistas que vinham pelos esportes radicais que faziam a região lucrar.

Quando ele pegou a xícara, já abrindo a boca para acalmar o lobo dele dizendo que não iria rosnar mais, Emer o impediu perguntando se ele gostaria de comer seu pedaço de pão com mel ou com manteiga. Dougal estirou-se em uma gargalhada gostosa, deixando-se levar pelo riso fácil. Ele brincava com todos, ria com os lobos mais novos, mas fazia anos que não era de um jeito tão verdadeiro. Ele sabia, que os lobos anciões quase não tinham mais motivo de rir, assim como a alcateia precisava desse brilho de vida. E foi preciso uma humana para trazer vida a um grupo mais do que centenário.

– Mulher se você continuar roubando meu coração desse jeito, não haverá mais volta. Eu estarei perdido...

Emehir apenas revirou os olhos e repetiu a pergunta do pão, agora fazendo Sophie rir. Sim. Ela era um mistério, mas todas suas ações, o faziam sentir-se em casa. Como se o passado viesse à tona e tudo que ele já viveu transbordasse pelo copo do tempo.

– Fazia anos... Emer, doce da minha vida, onde você aprendeu a ser assim?

Ela não o deixou se servir. Pediu pão com mel, e enquanto ela preparou um sorriso nostálgico florescia em seus lábios. Seu lar. Sim, ela deveria sentir falta de lá. E só pensar que sua amada poderia desejar partir do lugar que ele considerava seu lar, apenas fazia seu lobo uivar. E sua resposta a isso era, nós vamos, não importa onde. Nós vamos com ela até o fim do mundo. Emer estava reconstruindo seu coração.

Quando terminou de serví-lo, Emer fez o mesmo à Sophie. Ela serviu-se inicialmente apenas de uma xicara de chá. E sentou-se no chão sob suas almofadas. Emehir preferia seu velho tronco ou a pedra fundadora, com o vento frio da manhã e não o calor de uma sala. Mas seus espectadores eram outros. Ela inspirou e procurou uma inspiração. Geralmente quando ela falava sobre as criaturas fantásticas do mundo, usava a mágia para encantar as crianças e adultos. Agora ela precisava falar sobre sua vida, seu povo. Em partes não acreditava que existia magia neles. Mas com o mundo de ferro em que essas pessoas viviam, a magia estava completamente na falta dela.

– Eu moro no clã Caeth. Sim, venho das terras que possuem o meu nome, e a história remota de tempos antigo. O clã foi criado há muito tempo pelo meu antepassado para fugir da inquisição. Então, eu acho que tenho sangue de bruxa.

– Conte algo que não sabemos bruxinha – Sophie revirou os olhos tirando uma risada de Emer – Mas deve ser uma honra morar em uma cidade com seu nome.

– Não é uma cidade É um vilarejo. Nós não usamos o dinheiro como vocês usam, nós trocamos nossos trabalhos. Eu aprendi a bordar e tear com minha tia quando era jovem. Em troca da cerveja que meu tio fazia, eu aprendi a ler com o escritor da vila. Tudo que temos compartilhamos. Plantamos o que comemos e, se eu planto beterraba e ervas, sempre o faço em grande quantidade. O bastante para ter para comer e para trocar por outra verdura.

– Sem chocolate?

– Sophie pare de atrapalhá-la. Continue querida.

Emehir começou a rir. Ela conhecia o tão adorado chocolate e era sua perdição. Ela comprava de três em três meses. Mas iria deixar Sophie na curiosidade. Balançou a cabeça e pensou se deveria falar sobre suas viagens a cidade grande. Pensou bastante sobre o que poderia falar e então continuou sua narrativa.

– Quando tive altura o bastante para ajudar a usar o fogão, comecei a ajudar meu tio com a fabricação de bebidas. O povo de Caeth são muito festeiros.

– Bebidas no fogão? Infusões?

– Quase Sophie… Fazíamos de tudo: cerveja, whisky, vinho, hidromel e quando meu tio me permitiu brincar com os sabores, criei o Goleuni, e...

– Então foi você que fez a bebida dos deuses annaana?

Fergus entrou na edicula exatamente naquele momento. Um ganido alto a fez saltar das almofadas. Todos os lobos olharam para a janela e então o som de patas se afastando da casa. Emer ergueu-se e olhou interrogativa para o mediador. As pessoas temiam Fergus, por ele ser o distribuidor da justiça, pelo que ouviu aqui e ali.

A aparência e estilo de vida de Fergus ajudava. Ele era aquele gigante de 1,95 que conseguia se misturar as sombras como ninguém, mesmo com sua estatura colossal. A pele clara do pai, distinguida pelas tatuagens tribais que cobriam seu corpo, até mesmo em seu rosto. Cada tribal uma morte. O cabelo longo até o ombro e negro como a pluma de um corvo. Seus traços totalmente inuítes, como se sua falecida mãe vivesse em seu rosto ovalado. Os olhos profundos, afiados e negros pareciam que olhavam dentro da alma. Fergus a chamava de mãe e, como seu irmão, ela sabia se tratar de uma brincadeira. Kallai pensava o mesmo? Emehir olhou para a janela e inalou profundamente. Ela deu passos para sair e Fergus interveio. Ele juntou as mãos em prece para receber uma benção. Emer ergueu os olhos para o gigante, apenas para vê-lo encolher-se. Fergus sorriu, mais parecendo que estava mostrando os dentes em ameaça do que um sorriso, mas então ele tomou o rosto de Emer entre as mãos e passou a ponta do nariz pelo dela. Com o joelho abaixado Fergus esperou sua benção.

– Vamos conversar depois sobre o que aconteceu – Emer segurando as mãos de Fergus e em seguida beijando sua testa – Descanse do serviço e coma alguma coisa.

Emehir foi para Sophie, beijou sua testa também e escovou a barriga saliente da loba. E ao virar-se para Dougal, viu a dor em seus olhos, e um gesto recusando o beijo. Ele se levantou antes dela e partiu sem olhar para trás. Emehir foi porta afora logo em seguida.



Kallai as vezes gostaria de ser um simples humano, preocupado apenas com as contas a pagar e cuidar de sua família e não ter as complicações de ter uma segunda consciência dentro de si. E não uma qualquer, mas a de um animal. Kallai estava andando sem rumo, até que percebeu estar no centro da cidade. Onde tudo acontecia, onde todos estavam. Ele queria mostrar a vida acontecendo ao mundo ao seu redor. Seu lobo tinha que entender, que nem tudo era sobre ele. Kallai caminhava pelo centro e por onde passava, aqueles que sabiam curvavam levemente o corpo, ou mostravam a garganta. Alguns meramente abaixavam o olhar ao vê-lo passar. Os lobos sabia que ele era o alfa e que deveriam respeitá-lo. Os outros seres fantásticos que viviam naquela parte tão distante do mundo, sabiam conviver em comunhão. As bruxas da cidade sempre ajudavam com os problemas climáticos e protegiam seu povo. Os vampiros eram comuns nas épocas em que o sol decidia não aparecer por tanto tempo no céu. E fugiam do Alasca quando o sol ficava a pico durante seis meses seguidos. Apenas um ficava. Ele viu Wilheim e mudou o rumo. De todos os lobos que tinha no bando, não queria ficar perto de um dos gêmeos fofoqueiros.

O lobo dele uivou em sua mente e continuou cantando alegre. Kallai mordeu o lábio. O que era aquilo? Ao seu redor, o cheiro de aceitação era forte. Admiração. E ele inchou como um pombo. Viu lobo estúpido? Nosso povo nos ama e nos admira. O lobo uivou mais uma vez e bateu contra sua consciência, apenas para rosnar uma palavra. Emehir.

O corpo do alfa estremeceu. E procurou no ar o cheiro dela. Impossível. Ela não estaria ali. Estaria? Estava contando sua vida para Dougal. Seu lobo queria avançar contra o velho lobo. E também esfregar-se contra ela enquanto Emer falava apenas com ele. O cheiro de mel o inundou e ele soltou o ar que estava retendo e não sabia que o fazia. Kallai olhou para Wilheim e o velho bastardo parecia babar e só faltava latir. Mas suas reações não eram para Kallai, e sim para alguém atrás dele. E o todo poderoso alfa, ignorando os uivos de protestos, apertou o passo e fugiu. Sim, fugiu como o diabo foge da cruz. Mas o que ele poderia fazer? Pular na cama com Isis e sair apenas no próximo século?

Não prestou atenção no caminho. Até que estava sentado numa mesa de canto, as luzes negras e neon piscando para todos os lados. A sua frente um copo de Goleuni. O canto dos lábios ergueu-se para morrer logo em seguida. Foi Emer que criou aquela bebida? Ela era recente e muito dificil de conseguir. Até mesmo pro ser caseira. Conseguia o estoque apenas no tempo de 4 ou 5 meses de diferença. Caroll, o dono do bar, e um exótico e velho amigo, lembrava-se dos lobos do território e conseguia especialmente para eles. Aquele era o único álcool que parecia fazer efeito em um homem lobo. O vampiro estava em seu bar, vestido com um fraque preto e o monóculo característico em seu rosto, e o típico copo de absinto na mão. Clichê demais? Caroll apenas gostava de ser ele mesmo. O melhor de todos os anos que viveu.

– Essa bebida fica melhor se for armazenada em barris de carvalho.

O lobo uivou de felicidade e Kallai bateu com o rosto contra a mesa. O riso de Emehir o fez erguer o rosto para observá-la. Sob a luz negra e o ambiente totalmente obscuro, o cabelo dela brilhava como fogo no meio da noite sem estrelas. Seu lobo ficou em silêncio para ouvir seu riso. Ela não pediu, sentou-se ao seu lado, deslizando pelo banco. Pegou seu copo e bebeu. Novamente não pediu, não se importou que seu corpo tocava o dele. Por algum motivo, ela só ria perto dele e com ele, ela só chorava quando ele estava lá para ampará-la. Ela agia unicamente só com ele. E seu lobo uivou de contentamento. Quando ela ia virar mais um gole da bebida, Kallai puxou o copo de sua mão e tomou tudo de uma vez. Sentiu a garganta esquentar e seu peito logo em seguida. Ele esperava a tontura, mas tudo que sentiu foi um toque em sua mão. Ao abrir deparou-se com mãos delicadas, mas como tudo nela era revelado apenas para ele, suas mãos tinham calos. Provavelmente do trabalho em sua vila. Seu olhar subiu pelo braço. Imagens de casacos surgiram e ele quis grunhir para seu lobo. Lá fora estava frio demais para ela sair sem uma roupa adequada. Recusou-se a pensar nisso. Se ela fosse Isis, tiraria seu casaco por ela. Ela não era sua esposa. Encontrou o olhar dela, e aquele brilho acinzentado o lembrou do lobo de Dougal. Kallai abriu a boca para falar algo, qualquer coisa inteligente, que demonstrava sua tão vasta idade.

– Porque me odeia?

Por que ele não entregava logo uma arma na mão dela e deixava que ela fizesse as honras? A pergunta de Emer o inquietou. Sim porque ele a odiava? A loucura, vindo bater contra ele. Seu lobo esmurrava as jaulas de sua prisão mental. Ele durou anos criando-as, evitando que o vermelho tingisse sua vista. E ali estava ela. Perguntando algo que fazia seu lobo roer aquela jaula como se fosse feita da mais suculenta carne. Kallai grunhiu frustrado.

– É porque não fui forte quando deveria?

– Você foi estuprada. Você deveria ter chorado Emehir. Não, não isso…

Kallai não sabia mais o que falar. Só queria distrair a mente. E que maravilha. Seu lobo rosnou alto. Seu lobo rosnou para ele! Como um animal rosna para si mesmo? Emehir recuou ferida e ele quis pedir desculpas. Só porque ele tinha um animal em sua alma, não significava que ele precisava ser um asno. Falando no animal, seu lobo enviou uma imagem dele sendo pisoteado por um. Obrigado irmão, nem um asno queria ser Kallai.

Ele passou a mão frustrado pelos cachos e abaixou a cabeça, olhando para seu ventre. Só ele sabia que ela tinha visto sua gravidez nas runas. Mas poderia se referir a uma criança vinda de uma união feliz, não? Emehir enlaçou a barriga, protegendo o corpo. E isso fez com que Kallai olhasse para ela. O olhar dela era feroz, como toda boa mãe loba que levasse adiante um nascimento. Agora, que não havia evidencias, somente ele sabia da gravidez, e aqui estava uma mulher decidida a proteger um bebê que não deveria existir, e ainda assim, quando dentre algumas semanas ela começasse a cheirar como uma gravida. Não vá por ai.

Minha. Lá estava, o lobo reivindicando a criança. Ele esqueceu que eles tentaram destruir o dragão? Alias, havia vencido? O lobo de Kallai calou-se. A mão de Emehir acariciava o próprio ventre. Seria um gesto inconsciente? A mão de Kallai foi também involuntariamente na direção dela, quando Emer soltou um grito. Puro instinto de alfa fez efeito. Kallai pulou para frente de Emer empurrando contra suas costas. Ele procurava pelo perigo que ameaçava sua princesa. Caroll mostrava as presas de seu posto, e ele percebeu, uma arma na mão. Mas o mais letal eram seus dentes.

Emer enlaçou a cintura de Kallai e tudo se quebrou. O lobo não gritou. Ele estava calmo, aceitavel e não pulou para proteger a mulher que ele dizia ser sua companheira. Por que? O lobo grunhia um som que parecia com uma risada. Por que? Kallai gritou com seu lobo.

Eu.A.Conheço.

Isso não explicava muito, até que Emehir ainda abraçada a cintura de Kallai apontou para a pista. O alfa seguiu seu dedo e não reconheceu nenhum perigo. Nada.

– É uma fada!

Uma fada? Ele ouviu o riso de Caroll misturando-se com os grunhidos de seu próprio lobo. Ele apertou o cenho e respirou fundo. Não havia cheiro de fae. Eram perigosos perto de grávidas e o lobo deveria ter ficado preocupado, mas ele parecia muito contente com Emehir. Ele congelou, ela ainda estava apoiando-se nele. Não havia nada demais naquele gesto, mas algo quebrou dentro dele. E seus lábios ameaçaram subir.

– Onde está a fada?

– Ali!

Emehir não usou os dedos para apontar. Ele sabia que ela não apontaria, mas ela indicou com um gesto de cabeça erguendo o queixo. Ao fazer isso ele viu a pequena e robusta negra olhando-a sem emoções. Kallai inspirou novamente e sentiu apenas para se certificar. Humana. Sem cheiro algum de fae no recinto. Tentou lembrar do que sabia da mulher. Seu lobo ajudou, lançando uma imagem de um computador aberto em um navegador. Era uma das moradoras e não uma qualquer. A blogueira da cidade.

– Ela é uma humana. Shannon Smith? – Kallai a chamou com o tom de voz mais alto. Seu poder de alfa fazendo-se presente. E mesmo sem ser loba, ela conhecia a alcateia, e por respeito, e à magia da matilha, ela aproximou-se – Esta é Emehir Caeth. Esta sob a proteção do bando. Emehir, esta é Shannon, uma humana.

– Não! Ela é uma fada. Veja que cabelos lindos.

– Oh! Eu sou o que você quiser belezura – Shannon sorriu para Emer.

– Humana

– Fae! – Emer olhou para Kallai e ergueu o queixo como se não aceitasse outra palavra.

Kallai ainda ouvia seu lobo grunhir. Caroll ria tanto que caiu da cadeira em que se sentava. Então ele não resistiu. A inocência de Emehir. Ela sabia fazer bebidas alcoólicas para derrubar gigantes lobos, ela não chorava pela intrusão de seu corpo, ela amava uma criança que nem sabia que existia, Emer fez seu filho Fergus sorrir e Lothar a voltar a uivar para a lua. Emehir fez uma alcateia de 65 lobos se curvar, mas não conseguia distinguir uma fae de sua própria especie? Ele riu a vontade e todos olharam para ele. A boate pareceu momentaneamente deixar de existir. O lobo dele uivou animado. Kallai percebeu, fazia muito tempo que ele não ria. Que ele não se preocupava. Quando ele finalmente parou, Emehir não parecia perceber seu feito. E se o percebeu, manteve ignorância. Ela somente tinha olhos para Shannon.

– Ela é tão bela. Não pode ser humana.

Oh e era assim que ela conquistava seu povo. Pequena grande bruxa. O lobo estalou a língua e uivou. Os olhos de Shannon brilhavam, admirados.



Emer estava se tornando verdadeiramente uma mãe para ele. Começou com uma brincadeira, mas agora era tão real que doía ver o olhar sonhador e quebrado dela para com seu pai. Kallai estúpido. Lothar sempre teve o peso de carregar seu pai nos ombros. Sabia que Kallai era o melhor alfa do mundo, o melhor pai, mas tinha o lobo mais sacana e cruel que já pode encontrar. O lobo de Lothar sempre foi divertido, enviando imagens agradáveis e constantes à sua mente, mas com o passar do tempo o Ômega dentro dele morria, e o que dizer da proximidade do lobo de Kallai? As vezes Lothar acreditava que seu lobo estava morto, pois ele nem se pronunciava.

As pessoas adoravam Lothar e diziam que ele tinha aquele ar humano. Que o cheiro de seu lobo era tão brando que suas fêmeas se sentiam confortáveis perto dele nos exames físicos. Pobre Lothar, mal as pessoas sabiam que estavam certas. Ele as vezes se sentia mais do que um lobo, as vezes pensava que era um humano e esqueceu de envelhecer apenas. Quando pensava nisso no começo seu lobo rosnava, mas agora? Silêncio.

Lothar suspirou vencido. A única coisa que garantia que ele ainda era um lobo, eram suas corridas diárias sob quatro patas. Motivo o qual ele estava nessa situação. Sua camisa já estava ao chão, e prestes a tirar a calça quando o som da porta abrindo o sobressaltou. Cheirou Emer chegando e parou o movimento. Todos sabiam do estupro e ninguém falava muito sobre. Mas os lobos, que antes estavam acostumados a tirar a roupa com naturalidade, evitavam fazer isso diante da mulher. Droga, ela conquistou o bando em questão de instantes. Não parecia que apenas se passava meras semanas. Ele estava pegando a blusa de volta quando a ouviu.

– Ah meu Deus! Você tem um piercing no mamilo.

Lothar quase saltou uns bons metros para trás. Ele ergueu o olhar e encontrou o bombom de chocolate mais apetitoso que ele já tinha visto. Seu lobo uivou concordando. Ei! Seu lobo uivou? A mulher tinha curvas e pele macia onde seu olhar tocava. Ela era baixa e seu rosto oval tinha uma expressão impactante. Os lábios cheios, pintados de roxo e uma peruca toda desfiada em tons de roxo, vermelho e preto — aquilo tinha que ser uma peruca. Ela vestia uma blusa de gola alta e uma calça jeans. Mas a blusa parecia fina para ela, mostrando seios fartos e um corpo que implorava por ele.

– O lobo mau comeu sua língua?

Lothar escancarou a boca novamente. Espera onde está Emehir? Seu olhar vagou procurando pelo cheiro que havia sentido. Ela estava em um canto afastado ignorando completamente a situação. Mas ele podia ver um sorriso em seus lábios. Ele gostava de ver felicidade no rosto dela, mas tinha que ser as custas dele?

– Eu sou um lobo senhorita.

A mulher ergueu a sobrancelha intrigada. O que ele tinha falado de errado? Emer escolheu essa hora para socorrê-lo. Aproximou-se e passou as mãos pelos ombros de Lothar, empurrando-o para fora da casa. Ele podia perceber que ela evitava olhar para baixo. Uma gentileza ou medo de reviver o passado. Seu lobo respirou fundo, mas não sentiu o cheiro do medo. Era sua decência e criação que a fazia tratar sua nudez com pudor.

– Não queria atrapalhar sua transformação. Vá, corra, mas não vá muito longe. Há uma tempestade de neve chegando – Então Emer olhou da mulher até ele e sorriu quando seus olhos se encontraram – E venha com uma boa caça para nós. Temos visitas. Não volte tarde.

Um sorriso gigantesco iluminou o rosto de Lothar e ele sentiu-se aquecido. Há quanto tempo que alguém não se preocupava com ele como Emer o fazia agora. Por tudo que é mais sagrado, ela fazia com que se sentisse um filhote de novo. Seu lobo era um idoso, não tão velho como Dougal ou seu pai. Mas ele era velho. E o modo como Emehir o tratou fez seu lobo reagir. Ele não enviou uma imagem ou fez um som sentiu um toque fantasma de um rabo abanando de um lado a outro. Lothar segurou a risada, beijou a bochecha de Emir, tirando-lhe um suspiro.

– Está bem mamãe.

Ele deu uma última olhada para trás e viu que seu bombomzinho o olhava divertida. Seu lobo enviou uma imagem dele trazendo a caça para casa. Só o melhor para suas mulheres.



Notas finais
annaana: mãe em inuite