Quando o passado vem à tona
9 Capitulo 8
“Estou me sentindo tão filosófica hoje. Tenho me perguntado o que é e qual é a sensação de viver tantos anos em um mundo, ter visto tanta coisa e não se revoltar ou desistir. Apesar de tudo acreditar na falibilidade humana. Existem coisas muito belas pelo mundo, mas também muitas se perderam. Existem pessoas de coração puro também, mas são tantas quanto os erros estúpidos? Acho que as pessoas (humanos ou sobrenaturais) superestimam sua própria capacidade e impacto na sociedade. Quando penso no quanto o mundo mudou no passar dos anos, sinto que ele foi guiado e ainda é, por anjos da guarda sem asas. Estes tem presas, ou cabelos ultra coloridos, ou pelo, ou apenas um estralar mágico de dedos... Eu me sinto protegida! ”
Tete-a-Tete com S&S
Sophie era uma pessoa muito mais sensitiva que a maioria dos outros, até porque seu poder de loba psi era distinto e a ajudava a cuidar daqueles ao seu redor. Como a única psi da alcateia de Kallai era um pouco perturbador. Ela sempre soube quando um lobo tinha mais a necessidade de sua ajuda, mesmo à distância. Alguns eram mais fortes que outros, o que requeria sua presença, outros bastava um omega por perto para amenizar suas ânsias. Ela sabia que Lothar precisava dela e também que outro companheiro tinha perdido sua família. Por instantes, Sophie ficou indecisa em quem ajudar, mas todas as três vozes extras em sua mente direcionaram para seu futuro tio. Sophie teve uma boa dor de cabeça, o que preocupou tanto seu marido quanto Avalon que estavam brincando de correr atrás um do outro no jardim da frente. Fergus tão logo percebeu que ela estava com dor transformou-se em homem e foi até Sophie. Em pouco tempo ele estavam na clinica.
A loba estava agitada e inconformada. Não importava o quanto tinha de seu poder, parecia atingir apenas uma borda de Lothar. Ela sabia que não poderia ajudar muito, ainda mais que isso poderia prejudicar seus filhotes, então ela soube exatamente quando Dougal havia ido longe demais. Não teve tempo de avisar, foi brusco e então havia a briga entre os homens lobos. Quando Fergus traduziu a conversa mental com sua irmã, Sophie só tinha olhos para a pequena loba. Ela despediu-se do marido e praticamente arrastou sua cunhada para a delegacia. Como mulher do mediador e decidida a não ter que permitir que o marido tivesse que julgar o próprio irmão e Dougal, que podia ser um chato, mas era amigo de Fergus. Ao chegar na delegacia, onde encontrou o detetive John Bastet conversando com a promotora de justiça Vana Gandr. Eles estavam entretidos em sua conversa e quando Sophie e Avalon entraram, John piscou para Sophie, antes de se despedir de Vana. A mulher podia não ser uma mulher loba, mas era feroz e tinha um ouvido tuberculoso que ouvia tudo.
Eles caminharam para longe e Sophie explicou a situação, evitando os detalhes constrangedores do porque tinha acontecido. Ouviu um ganido de Avalon, que apenas fez John rir.
– Esses homens estão com os nervos a flor da pele. É a chegada da lua Sophie — ele estendeu a mão e parou a centímetros do ventre da loba, até que ela assentiu e ele finalmente acariciou seu ventre — Preparada para correr como loba e com seus filhotes?
– Ansiosa para vê-los correr comigo com suas próprias patinhas — Ela sorriu e piscou para o xerife.
John era um verdadeiro militar patriota e lutou em mais guerras que qualquer outro homem, mas como todo bom lobo derretia-se como um chocolate no sol quando se tratava de gravidas. Ele concordou em patrulhar a região e prender Dougal por um dia na cadeia. Ou melhor, ele iria espalhar que o prendeu e os dois passariam a noite trocando historias do passado e bebendo um pouco para distrair o tempo. Quando John saiu, Avalon rosnou e virou o rosto curiosa para Sophie.
– Sim, o certo seria prender Lothar, mas algo me diz que ainda tem muita história nisso. Vou definitivamente pedir para que ele fique preso essa noite, detrás das grades. Quem sabe ele pense sobre o que ele fez.
Avalon mostrou os dentes em um sinal claro de felicidade, enquanto ambas saiam da delegacia. Sophie deixou que a loba a guiasse até que chegaram a sua toca. Apesar de tudo, a psi nunca havia entrado ali antes. Era um refugio particular para sua cunhada, seu marido, o sogro e, além deles, Dougal. Quando entrou percebeu que a poltrona de sempre estava caída ao chão, com os lençóis e almofadas que Avalon dormia sobre ela. A loba pulou sobre as almofadas, enquanto Sophie olhava para a toca, que permitia que um homem, do tamanho de Fergus, ficassem em pé. Quando virou-se novamente para a loba, em seu lugar havia uma mulher, com cabelos cacheados castanhos, o rosto delicado e arredondado. O corpo dela era pequeno em comparação com seu irmão, mas onde Sophie era magra, ela era cheia de músculos. Um corpo bem definido e sem nenhum tipo de gordura. Uma loba bem exercitada. Sophie contou até dez e esperou que ela voltasse a se tornar uma loba novamente, como o que acontecia com invertidos, porém Avalon permaneceu como estava, uma mulher.
– Avalon, isto é… Perfeito. Quanto tempo consegue manter a forma?
Ela deu de ombros e se ajeitou em um dos almofadões, quando a poltrona inclinou ela rosnou e levantou-se. As pernas estremeceram e ela quase tropeçou, mas chegou perto de Sophie. A dor que rodeava o corpo de Avalon, fez com que Sophie estendesse os braços para que a loba caísse em seu abraço. Ela afundou o rosto contra o cabelo e fungou. Sophie apenas afagava suas costas e fazia murmurinhos para acalmá-la.
– O que realmente aconteceu Ava?
– Eu… eu o amo.
Sophie concordou com um aceno e deixou que Avalon continuasse a falar o que lhe desse vontade. A loba sempre foi muito forte, ela enfrentou inimigos durante muito tempo antes da própria Sophie ter nascido e ali estava chorando por um coração destruido.
– Eu devia ter deixado que Lothar o matasse.
– Sim você devia.
– Mas ele é meu companheiro — A loba fungou e se afastou de Sophie — Eu sou uma tola. Esperei por mais de 100 anos… E agora, não vai rolar.
Sophie encostou a mão nos cabelos de Avalon e elas se sentaram no chão. A loba apoiou o rosto sobre a enorme barriga de Sophie e ficou acariciando-a com as bochechas. Sophie contou mentalmente quanto tempo já havia passado.
– Mostre para ele o “não vai rolar”. Ele não sabe a pessoa maravilhosa que está perdendo.
Avalon ergueu o olhar para Sophie e sorriu, seus dentes deixando de ser humanos, mas ela apenas balançou a cabeça em aceno afirmativo. Ela soltou um uivo, enquanto sua forma voltava à loba branca. Sophie foi até o canto da toca e pegou as tinturas que Fergus sempre deixava ali para retocar a “maquiagem” da loba.
– Ótimo! Hora de brincar de casinha!
Lothar estava ainda enrolado no cobertor se sentindo como uma panqueca. Braços o rodeavam e deslizavam pelas suas costas. Um cheiro de framboesa o inundou e ele quis lamber o doce a sua frente. Era como caminhar pelas campinas da Inglaterra, onde havia se refugiado depois de tanta dor que já havia passado. O lobo dele, que há muito parecia ter morrido, enviava a sensação de estar balançando o rabo, completamente feliz por estar ali. Uma sensação de conforto o mantinha de olhos fechados, aproveitando aquele doce momento. O deslizar pela suas costas o amparava e ele encostou mais o próprio nariz naquela pele. Uma pele macia demais para ser verdade. Aos poucos Lothar ele abriu os olhos e deparou-se com o azeviche de Shannon. A humana não era boba e sabia que ele havia finalmente aberto os olhos.
Estavam naquela posição há muito tempo e ele sabia que devia estar muito desconfortável para ela. O frio aumentava e ele se aconchegou mais para perto dela e jogou o cobertor pelos dois. Quando viu que Shannon tentou olhar para seu corpo, ele firmou o queixo dela com a ponta dos dedos para que olhasse apenas para ele.
– O que acha que perdeu aqui embaixo?
– Queria ver seu piercing de novo. Foi bem rápido daquela vez. Ei, falando nisso, quando você se transforma, o piercing fica no lobo?
Lothar revirou os olhos e ajeitou o corpo para aproveitar ainda do cobertor, mas sem tocar completamente no corpo de Shannon. Ela desvencilhou o rosto de seus dedos e mordeu-o.
– Me responde chapeuzinho!
Por instantes Lothar se permitiu brincar com ela, esquecer do trabalho, da dor, da confusão e da quietude do lobo. Shannon era assim, tanto quanto suas roupas, ela tinha essa presença de alegria em seus gestos e fala. Um sorriso decorou o rosto do médico.
– Sim, o piercing vem junto.
– Posso ver?
– Deixa meu corpo em paz bombomzinho!
– Façamos um acordo, você me mostra o seu que eu mostro o meu.
Lothar ficou alguns instantes em silêncio processando o que Shannon disse. Ele automaticamente olhou para os seios dela, o que lhe garantiu um belo tapa. Ele sentiu o rosto arder e incrédulo buscou seu rosto. O tapa não doeu, mas foi tão espontâneo.
– Sem ir pro premio sem antes dar algo em troca trapaceiro.
Os lábios de Lothar tremeram, e Shanon piscou olhando para eles. O médico segurou o máximo que pode até que finalmente começou a rir. A humana tentava manter o semblante sério, falhando drasticamente. Quando eles pararam de rir, estavam deitados lado a lado tentando recuperar o folego. O cobertor cobrindo parte do corpo dele e parte do dela. Em silêncio encaravam o teto.
– Fazia tempo que eu não ria assim — Lothar franziu o rosto e fechou os olhos tentando se lembrar de quando o tinha feito.
– Tanto tempo assim?
– Você provavelmente nem estava nascida ainda.
Isso fez Shannon levantar usando apenas um cotovelo como apoio e encarando o médico. E ele percebeu que lá viria uma de suas perguntas tolas.
– Você conheceu a Cleópatra?
Lothar revirou os olhos.
– Pergunte para o Dougal… Ele é o velho. Eu sou ainda um catatau perto do meu pai ou dos outros anciões.
Novamente o silêncio se tornou confortável entre eles. Lothar tentou lembrar de quando tinha passado tanto tempo assim com uma humana e o pensamento o fez estremecer. Não eram boas lembranças. Shannon parecia pensativa sobre algo, mesmo que seu olhar estava sob o rosto do homem lobo, ela mentalmente não estava ali. Lothar aproveitou essa dispersão e se permitiu guardar os traços da humana em sua mente. Em pouco tempo ela iria definhar e a esqueceria com o tempo. Shannon era brilhante demais para ser esquecida. O homem lobo ergueu a mão para tocar no rosto dela. Ele deslizou a ponta dos dedos pelas bochechas dela e em seguida subiu para a testa. Isso pareceu a despertar. Quando o fez, ela recuou um pouco e ele deslizou o dedo até seu nariz. Apertando-o entre dois dedos.
– Tenho certeza que…
Um brilho distinto no olhar de Shannon apareceu antes dela recuar e se afastar de Lothar. Ele mordeu o própria bochecha para segurar o que ia falar. Lothar sentiu o cheiro do medo dela. Mas é claro. Ela está ao lado de um monstro. O cheiro de medo começou a incomodá-lo, o que fez com que sua mão caísse para o lado de seu próprio corpo. Shannon virou o rosto e ele teve vontade de jogar aquela peruca azul que ela usava para longe e sentir o seu cabelo. Lothar bateu com a própria cabeça contra o chão da estufa e ouviu Shannon se afastar um pouco mais.
– Finalmente você faz bem em se afastar de mim.
Ela parou de se movimentar, mas mesmo de olhos fechados, Lothar sentiu seu olhar sob ele. Já não importava o que ela visse. O cheiro de medo mudou brevemente. Ele franziu o nariz e fungou. Shannon em silêncio era algo novo para ele. Desde que eles conversaram a primeira vez, ele tinha passado a reparar mais nela. E tanto quanto ela falava em suas redes sociais Tete-a-Tete, ela não parava de falar pessoalmente. Quando ele abriu os olhos para ela esperava por tudo: medo, curiosidade, afastamento, mas seu rosto parecia bravo. Shannon parecia querer voar em seu pescoço.
– Você é mais imbecil do que eu pensei Lothar. Você é um omega. As pessoas amam estar ao seu redor.
Lothar abriu a boca e ficou tentando lembrar do blog, o qual ele leu desde o inicio que lançou, e não lembrou dela ter falado sobre a hierarquia dos homens lobos.
– Como você sabe que sou um omega? Espera como você sabe o que eu faço para as pessoas?
– Eu ouço muito e filtro o que eu falo ou não na web. Mas qualé eu vivo numa cidade onde metade da população é lupina e toda vez que eu vou na farmácia comprar algum remédio, a Ginger fala que você é um ótimo médico, que traz tranquilidade e bla bla bla…
Ele bufou baixo quando ela falou sobre ir na clinica. Ele se lembrou que ela nunca tinha ido para uma consulta. Onde ela ia quando ficava doente? Os humanos viviam adoecendo.
– Eu nem sempre fui um omega.
– Com a sua idade? Imagino que tenha mudado em algum momento. E pelo que você disse algo aconteceu para que queira que eu me afaste.
– Eu matei pessoas Shannon, eu nem sempre fui o bom samaritano.
– Deixa eu te dizer uma coisa, ninguém é perfeito e todo mundo já fez algo de errado. Você matou? E quantas pessoas foram torturadas? Quantas morreram? Quantas estupradas? Existem milhares de…
– Shannon! — Lothar berrou e pulou na direção da humana. Ao fazer isso ele colocou ambas as mãos contra a parede enquanto a encurralava no canto da estufa. — Estou dizendo que eu matei pessoas que amo!
O lobo dele veio aos seus olhos, mas ao invés de sentir o impulso de atacar como sempre tinha sido, sentiu que seu animal queria acalmá-la. O cheiro que antes estava fraco, agora era intenso. Mas não conseguiu distinguir o que era. O lobo pela primeira vez na vida dele incitou o homem a se acalmar. Lothar estava ofegante como saído de uma maratona. Ele foi respirando mais devagar, enquanto seu lobo enviava mensagens calmantes. Shannon parecia acompanhar sua respiração. O cheiro agridoce dela começou a mudar e ele sentiu sua boca salivar. O olhar dela estava fixo em seus olhos — até então vermelhos — mas de alguma forma ele sabia que não ficou lá o tempo inteiro. Lothar sentiu o rosto esquentar e Shannon sorriu para o médico. O cobertor esquecido no canto da estufa. Ele abaixou o rosto, perdendo o contato visual com ela. Ele deitou o corpo, apoiando o rosto em seu peito, e a ouviu resmungar ao mesmo tempo que a porta da estufa abriu.
Shannon saltou o que impulsionou o rosto dele para longe. Lothar sentiu o seu lobo querer rosnar e ele mordeu a própria carne para evitar que o som saísse de seus lábios. Ele não precisava virar para saber quem era. Um som de rosnado atrás dele e ele mordeu novamente os lábios para não responder.
– Meu avô me falou o que aconteceu… Trouxe uma roupa.
Tão logo ele terminou, uma frouxa de roupas foi jogada ao seu lado. Irritado com a interrupção, Lothar forçou seu lobo para voltar a sua mente, e para controlar seu lado mais obscuro. Ele virou de costas para Shannon e pegou as roupas. Ouviu outro rosnado vinda de Adami.
– Shannon, meu docinho de mel, vem cá.
Lothar esperou que ela recuasse ou brigasse com o jeito que Adami falou com ela, como provavelmente ela faria com ele. Mas Shannon se ergueu, pegou o cobertor e caminhou para Adami, que a envolveu em seus braços. Ele não apenas a abraçou, mas sim a aconchegou em seu corpo. Adami era um homem alto, com seus 1,80 corpo bem estruturado pelos esportes radicais que pratica, além das corridas com seu lobo. Aquele lobo sempre teve uma presença e um charme que faziam as turistas suspirarem, e até as mais medrosas praticarem bungee jump apenas porque ele era um dos responsáveis pela atividade. Lothar virou de costas para o casal e começou a se vestir. Adami passou os braços ao redor do ombro de Shannon, abriu a porta da estufa e esperou por Lothar.
Eles caminharam durante algum tempo em silêncio. Adami a esquerda de Shannon, enquanto Lothar ia a direita. O silêncio começou a incomodar Shannon que ergueu o rosto para Adami e ergueu a mão para seu rosto. O homem lobo acostumado com suas ações, abaixou um pouco o corpo e ela esfregou sua careca. Ele começou a rir.
– O que foi docinho?
– Frio — Ela esfregou a careca dele novamente — Não sente frio? Está com cara de que vai nevar e esse cabeção ai desprotegido. Vai ficar resfriado. Não é chapeuzinho? Você é médico não devia adverti-lo?
Ele não é meu namorado ou meu filho para cuidar dele. Lothar sacudiu o rosto e a ignorou, aumentando o passo. Ele andou bem a frente deles para deixá-los para trás quando sentiu um cutucão na traseira e então Lothar estava de quatro no chão. Ele ergueu o rosto para ver Shannon com a perna voltando ao chão. Ela me chutou?? Quando ele olhou para Adami viu que ele estava se segurando miseravelmente para rir. Lothar se levantou com calma, bateu com as mãos pelo joelho e mãos para limpar a sujeira acumulada no corpo. Quando ele voltou para olhar para o casal, Adami estava com rindo à vontade, enquanto Shannon tinha as mãos em seu quadril e batia o pé contra o chão.
– Não me ignore chapeuzinho.
– Eu tenho nome! E não quero ficar de vela para o casal de pombinhos.
– Eu fiz uma pergunta técnica. Por que te chamar pelo nome se age como uma criança?
Adami riu mais alto com o comentário, mas soltou o ar muito rápido quando Shannon deu um tapa em seu abdômen. Ele parou de rir, porém seu rosto demonstrava que queria rir mais.
– Quietinho Jordan ou também falo o quão infantil você é.
Uma risada forte interrompeu o trio e todos olharam para quem chegava. Senhor Punnu balançava a cabeça enquanto se aproximava do trio. Ele olhou primeiro para seu neto antes de virar o rosto para Lothar. Ele grunhiu e em seguida pigarreou. Punnu cruzou os braços e inclinou um pouco a cabeça para o lado direito, analisando Shannon com o olhar.
– Vocês são os lobos e é ela quem está distribuindo mordidas?
Os dois homens abaixaram a cabeça para Punnu com a evidente repreensão. O velho lobo ainda com a mesma pose, olhou para Lothar.
– Está melhor? Ouvi que seu pai esta lidando com o macho.
– Estou... Pensei em me entregar na prisão pelos meus atos... Acho que mereço pela falta de controle.
– Por ter virado lobo e atacado Dougal por ser Dougal? Oh! Você fez o que muitos desejariam ter feito filho. Ele age como um filhote de lobo quando já é um velho caduco. — Punnu fez um gesto para seguirem andando — Além do que, Sophie providenciou uma prisão para ele já.
Shannon caminhou um pouco mais atrás de Punnu, ao lado de Adami que agora mantinha certa distância dela. Lothar estranhou a ação até que percebeu que Punnu a estava ignorando também. Ele rosnou, e os dois lobos o olharam curiosos.
– Perdoem — no, ele deve ter batido a cabeça quando atacou Dougal.
Shannon soou como se estivesse com pena, o que fez que sorrisos enfeitasse os lábios dos lobos. Ela andou um pouco a frente, ficando lado a lado do lobo mais velho.
– Ei Sr. Punnu você conheceu Cleópatra?
– Qual delas?
– Como assim? — Shannon arregalou os olhos ao comentário de Punnu.
O velho lobo deu de ombros com a pergunta de Shannon.
– Está vendo meus cabelos grisalhos? Não é apenas enfeite filhote.
– Tiveram sete princesas querida. — Adami piscou para ela.
– Oh oh a de César — Shannon batia palmas e pulava como uma verdadeira criança que recebeu um presente de natal antecipado — a de César!!
Punnu bufou e acenou com a cabeça para continuarem andando.
– Por que quer saber?
– Queria saber se ela era tão bonita quanto falam.
Adami começou a rir e Punnu resmungou algo sobre crianças sendo inconvenientes e que ele não tinha mais idade para cuidar de filhotes.
– Ninguém é mais bonita que você meu docinho de mel
Lothar contou até dez enquanto segurava um rosnado. Ao perceber o que fazia, revirou os olhos e foi diminuindo o passo para ficar para trás e não ter que ouvir o casal. Enquanto se afastava ele deixava que a solidão que o lobo o tinha deixado envolvesse seu corpo como o cobertor tinha feito. Lothar ignorou os lobos falando com ele, ou as pessoas dando os pêsames pelo parto mal sucedido. Ele caminhou sem rumo até que percebeu estar na delegacia. John o olhava curioso, até que ele percebeu o que o lobo tinha ido fazer lá.
– John eu quero que você me prenda até o primeiro dia de luz cheia.
Três da tarde, o balcão do Chaperon Rouge estava cheio de turistas que estavam voltando de alguma trilha com um dos trigémeos. Alguns homens lobos acompanharam o grupo para verificar por onde poderiam correr como lobos com a chegada da lua cheia. Sophie sentia a agitação com a chegada da lua cheia, e sua cabeça explodir de dor e precisando de um pouco de alguma bebida forte o bastante para amenizar, sem maltratar seus filhos. Com essa desculpa, Sophie se viu arrastando Emehir para a cafeteria. Emehir olhava para o copo de 500ml que fumegava à frente de Sophie, enquanto ela tomava o liquido de canudinho.
– Tem certeza que isso é seguro?
A bebida multicolorida parecia não acabar, mas quando o fazia, Sophie erguia a mão e pedia mais um copo. Emer tomava um chá de erva-doce e estava completamente enrolada em roupas quentes.
– É claro!! Espere, essa bebida maravilhosa é ótima para sobrenaturais e feita por uma fae. E você sabe como faes AMAM gravidas e bebês. Então super seguro. Mas não sei se você aguentaria um desses, ou… — Sophie parou de falar e olhou para a barriga de Emer — E como não sabemos o que é, não podemos arriscar.
Emer balançou a cabeça e afastou-se imediatamente do copo fumegante. Sophie sorriu sem jeito e voltou a tomar a bebida. Ela pediu por comida, o que fez Emer rir.
– O que? Estamos grávidas. Nós temos permissão para comer por mais...Ei eu como por 4.
– Quatro? Como sabe? E como … Como é? — Emer olhou para a barriga imensa de Sophie tentando imaginar como seria — Eles já estão se movendo?
Sophie suspirou e acariciou seu ventre, o sorriso dela começou a erguer-se e um brilho distinto no olhar fez com que Emer erguesse a mão e segurasse a dela.
– É complicado como você deve ter ouvido falar. É comum quando temos bebês, ser em grande número. É raro ter apenas um de uma vez. Nem sempre são todos idênticos, mas… Não precisamos de testes para saber quantos são Emer, a mente dos seus lobos vem para a mãe. Por isso preciso disso — Sophie apontou para a bebida — Eu tenho uma loba em mim, uma que eu conheço e estou acostumada a lidar. Agora eu tenho três filhotes a rodeando, mas eles não tem controle e eu tenho que ensiná-los desde agora. Ou então terei péssimos momentos durante a infância com três lobinhos correndo por ai.
Emer abriu um sorriso imenso.
– Três meninos?
– Não! Terei uma menina para estragar e encher de pelúcias, lacinhos, renda e todo o fru-fru de boneca que encontrar.
– Oh! Quem sabe nossas filhas poderão brincar juntas!
– Filha? Como sabe?
Emer corou e abaixou o rosto, mexendo com um fio imaginario em sua calça.
– Eu só sei...Eu…
Sophie segurou a mão de Emehir novamente e apertou-a como sinal de força.
– Desculpe. É só que, estou tão ocupada com três mentes novas, que não percebi… Oh e para piorar ai vem a lua cheia. Eu diria que você vai receber a visita de Dougal. Lobos são super protetores então não se assuste se um lobo parecendo um pastor alemão aparecer na sua porta.
– Lobo ou pastor?
– Ainda não descobri.
As duas reviraram os olhos, antes de começar a rir. Quando a comida chegou e Sophie suspirou, Emer mordeu a ponta da unha, antes de dar um leve cutucão no pé da loba para chamar sua atenção.
– Tem mais não é?
– Sim, mas… Vamos comer ou vou começar a rosnar logo.
– Acho que já me acostumei com rosnados por aqui — Emer revirou os olhos.
– Você não devia ter se acostumado a isso.
Ao som da voz de Bernard, Emer deu um pulo e levou a mão ao peito. Quando se virou para olhar para o homem lobo ele parecia arrependido pela ação. Levou a mão ao coração e inclinou-se brevemente. Apenas ergueu o corpo quando a mulher indicou para que ele se sentasse junto com elas.
– O que faz aqui Bernard? — Sophie olhou ao redor procurando por alguém antes de finalmente olhar para o homem lobo.
Bernard ergueu a mão e chamou uma das garçonetes, e tão logo ela chegou, pediu uma xícara de chá inglês e um croissant de peru. Ele perguntou se elas queriam algo mais antes de dispensar a garçonete.
– Estava com os outros lobos da cidade. Fui averiguar o perímetro e ver se… Encontro algo — Ele olhou para Emer e passou a mão pela sua barriga em um gesto protetor — Além disso, fui ver por onde posso correr.
Sophie inclinou a cabeça e seus cabelos escovaram por cima do ombro. O cabelo quase caiu no copo e ela afastou-se um pouco da mesa.
– Você pode correr conosco no ápice da lua cheia. Poderá correr a vontade pelo nosso territorio.
Bernard pigarreou brevemente e então agradeceu. O som de saltos ressoando pela Chaperon Rouge fez com que o grupo olhasse para a entrada. Apenas uma pessoa estaria usando saltos — correção — botas de cano alto castanhas, calças brancas de montaria, uma blusa de lã vermelha com um casaco off white. Bernard assoviou e apontou para Isis que jogou os cabelos soltos para trás com as costas da mão para trás. Para finalizar o look brilhantes sobre o cabelo indicando que estava com uma tiara.
– Que estilo! Que entrada — Bernard ergueu uma sobrancelha e analisou-a de baixo a cima — Está perfeita querida.
– Obrigada! Você também não está nada mal. Adorei este seu sobretudo de veludo. Eii combina com a minha bota.
Emer e Sophie entreolharam-se e seguraram outra risada. Esses dois tem tudo a ver. Isis está até um pouco menos víbora. Sophie deu espaço para que Isis sentasse. Quando ela se ajeitou, Sophie contou até três e esperou que ela soltasse alguma das suas, mas tudo o que ela fez foi chamar a garçonete para pedir cappuccino e bolo inglês de maçã com nozes.
– Tenho novidades! — Isis bateu palmas suavemente sem que saísse qualquer tipo de som — Kallai me contou que Avalon está mantendo a forma humana por mais tempo! Temos que celebrar!
Sophie quase engasgou com a bebida. Tossiu um pouco e Isis deu umas batidinhas nas suas costas, enquanto a loba limpava a boca com um guardanapo.
– Eu perdi um pouco a informação… Quando que você falou com Kallai? Ele tem passado o dia inteiro correndo pra baixo e para cima com o conselho, falando com os noticiários, enfim, publicidade de novo. Entrou na semana louca de workaholic dele, e você me diz que conseguiu falar com ele?
Isis ficou erguendo as sobrancelhas com um sorriso sapeca nos lábios. Ela ia falar quando a garçonete chegou com os pedidos. A loba esperou pacientemente e quando estavam sozinhos novamente ela respondeu.
– Você tem ideia de que ele mora comigo e que todas as noites quando ele volta cansado, sou eu que espero na nossa cama, e depois de uma noite de calor…
– La, la, la, la, não quero ouvir — Sophie imediatamente tapou os ouvidos e começou a falar em voz alta interrompendo Isis — Não quero saber os detalhes do sexo.
Emehir engoliu em seco e abaixou a cabeça enquanto mordiscou um pedaço de brownie, enquanto Bernard virou o rosto para o salão como quem procura algo muito mais interessante para fazer. Sophie viu que Isis ficou ligeiramente vermelha, mas disfarçou, tomando um gole do cappuccino. Isso vai ficar pior que enredo de novela dramática…
– Mas por que o assunto de repente? — Emer decidiu mudar de assunto antes que ficasse pior, e Isis realmente contasse os detalhes.
– Sophie você não é mais uma mocinha, além do que dona Emehir, mulheres falam sobre sexo normalmente.
– Eu vou deixá-las conversar em paz — Bernard fez menção de sair quando Emer o interrompeu, segurando-o pela mão.
– Estou perguntando do assunto da Avalon — Emer ressaltou a mudança do assunto.
– Oh! Isso — a coiote deixou que um sorriso malicioso emoldurasse seu rosto, antes de continuar respondendo — É que pensei que agora ela poderia querer andar em duas pernas...E precisará de um celular e uma muda de roupas. Mas como ela poderia andar como uma loba carregando uma mochila para cima e para baixo? Pelos dentes? Não! Totalmente frustrante. Poderíamos elaborar algo para que ela use.
Houve um momento de silêncio. Bernard tinha voltado a se sentar e se serviu de um brownie que foi oferecido por Emer. Entretanto, ele permaneceu alheio a conversa, nem prestando atenção no que elas diziam. Sophie suspirou, ao perceber a distância que o lobo empregava. Ela arrepiou-se e o observou mais um pouco, percebendo que ele assumiu uma postura semelhante ao que Kallai tinha quando se sentava no conselho para ouvir os anciões. A voz de Emehir a tirou de seu devaneio.
– Eu acho que posso fazer algo manualmente, mas não tenho a menor ideia de como montar um projeto desse nível. Ou que material poderia ser o mais adequado…
Emehir pareceu preocupada com o assunto e Sophie percebeu que Isis franziu o cenho para a humana. Ela sentiu um rosnado sair e quase se assustou. Aquilo foi um dos seus filhotes? Geralmente ela era muito mais controlada. Isis batucou com suas unhas na mesa impaciente.
– Deixe o projeto comigo. Já até sei até quem poderia ajudar — ela olhou para Bernard e piscou o olhar. Quando ele não respondeu ou olhou para ela, Isis o chutou na canela por debaixo da mesa — Eu disse, já até sei quem poderia ajudar!
– Claro. O que quiser Isis — a voz de Bernard soou distante.
– Ótimo! E vocês duas — Isis apontou para Sophie e em seguida para Emehir — fazem o operacional. Vamos começar a desenhar imediatamente.
Dito isso, Isis pulou de seu lugar e praticamente arrastou Bernard para fora consigo. As duas que ficaram sentadas olharam-se sem saber como reagir. Sophie bufou irritada e cruzou os braços.
– É impressão minha ou isso não me cheira bem?
Emehir deu de ombros.
– Eu não sei. Diga-me você. É você quem tem o olfato melhor.
Isis praticamente arrastava Bernard para fora da cafeteria. Ela sabia que de alguma forma ele se deixou levar por ela. Ela parou de puxá-lo quando percebeu que ele agora acompanhava seu passo. Isis parecia empolgada com sua própria ideia.
– Então você tem alguma ideia de por onde podemos começar? Acho que ela vai precisar de ajuda para colocar a bolsa, mas..
– Eu não tinha ideia — Bernard a interrompeu e parou de andar.
– O que? Que seria difícil? É claro que seria… — Isis parou e finalmente olhou para Bernard.
Os olhos deles se encontraram e ela reconheceu aquele olhar. O olhar que ela sempre teve, um olhar de dor por saber que jamais seria amada. Ela sentiu-se menor do que ela já era, como se fosse do tamanho de uma formiga. Bernard realmente parecia perdido.
– Não querida. Eu não tinha ideia de como seria doloroso ter o coração arrancado fora — Ele passou por ela e ia seguir em frente quando parou e virou o rosto por cima dos ombros para olhá-la — Achei que eu aguentaria, mas com a chegada da lua cheia, eu não sei…
Bernard seguiu em um passo mais rápido e seguiu em direção ao hotel em que ele estava ficando. O hotel ficava perto da casa de Fergus e para ele era a melhor posição que conseguira. Ficar perto de Emehir sem ter que dormir na mesma casa que ela, afinal, ela foi reclamada como protegida de um lobo e vivia com o beta. Isso servia para algo, não servia?
Isis correu para alcançá-lo, e quando finalmente chegou ela passou a marcar os passos com ele.
– Desculpe-me. Estou há tantos anos fazendo isso, essa coisa de tentar agradar Kallai, que… eu não percebi que poderia ter ferido seus sentimentos e… Eu os quero. Eu não vou devolver seu coração Bernard, por que ele me pertence. Entende isso?
Bernard estancou e olhou ao redor e quando percebeu que não havia ninguém ao redor, a empurrou para um beco, onde a encostou na parede, tomando cuidado com sua roupa. Ele estava com a testa encostada na dela.
– Você não está fazendo isso pelo Kallai querida. É pelo seu coração bom e pelo fato de você realmente se importar com aquela loba — Ele levou dois dedos até o queixo dela para erguer o rosto dela mais contra o dele — Não se subestime… Eu não quero que você devolva, mas se o fizer, não o devolva quebrado.
Eles estavam com os lábios muito próximos, respiração forte e irregular por parte dos dois. Ela suspirou e enviou seu ar para os lábios entreabertos dele. Até que ele recuou, recuperando um pouco do juízo.
– Eu não devolverei. Eu… não devolverei. — lágrimas escorriam pelo seu rosto — Mas eu não queria magoá-lo...De verdade eu…
Bernard passou a mão pelos cabelos e bagunçou-os. Ele sacudiu o rosto e encostou contra a outra parede do beco.
– Querida, foi tudo um balde d´agua fria para mim. Estou apaixonado por uma loba fantástica que já está acasalada com ninguém menos que o Brenin da América. Viajei para ajudar a menina de Aaron, que está grávida e em perigo, por isso não posso voltar. Ouço a mulher que amo falar sobre o sexo com o seu marido e tudo o que quero é mostrar que posso fazer mais, que posso fazer amor com você… E como gota final, vem a lua cheia, estou numa alcateia desconhecida e longe do meu povo. Isis, minha doce e querida loba, desde muito antes daquela noite em 1190 em que Ronan aceitou fundar a vila, eu sempre corri ao lado de meu alfa e melhor amigo e com outros lobos que passaram a ser a minha família. E hoje? Depois de tanto tempo, vou correr sozinho… A lua não irá sorrir pra mim nesse dia.
Quando Bernard parou de falar, percebeu que havia começado a andar de um lado a outro. Só o fez, pois uma Isis muito chorosa pulou em seus braços e beijou-o. Seus lábios se encostaram e então ela distribuiu beijos pelo rosto dele. O lobo gemeu e ele foi em conjunto, mas se continuassem assim, ele estaria com a vida contada. Bernard tentou se afastar, mas Isis não o deixou sair.
– Vamos, não deixarei você correr sozinho. Virei para ti… Mas vamos para casa, tiramos a roupa e correremos. Você não está sozinho Bernard. E quando chegar a hora, partirei com você.
Eles olharam-se cheio de promessas e começaram a se afastar lentamente, relutantes com a necessidade da quebra de contato. Ele respirou fundo e então um sorriso iluminou seus lábios. Isis sorriu de volta e passou por ele, caminhando com gingado para fora do beco. Quando ela passou por Bernard, ele deu um tapa na bunda dela que a fez pular, antes dele correr para a entrada do beco.
– Vamos correr e depois desenhar essa sua mochila.. Pegue-me se puder lobinha…
O dragomir estava agitado, toda vez que fechava os olhos recordava-se do toque no ventre de sua esposa. Ele queria bater contra seu peito toda vez que lembrava do chute do bebê que o reconhecia como seu pai. Mas Thorian sabia que se falasse qualquer coisa para sua irmã sobre o fato de ter tocado em Emer sem sua permissão só traria péssimas consequencias. Até porque nabos eram seu vicio particular e ele não queria lhe dar uma oportunidade para brigarem novamente. Suas mãos ainda formigavam com o toque que havia proporcionado e tudo o que ele queria era tocá-la novamente. Ainda mais, agora ele a queria de vez e fazer sua família com ela. Mas não pararia com apenas uma filha. Ele queria uma família grande. Era dificil para o povo dragomir, mas ele queria e tentaria.
Infelizmente, ter tocado Emehir tinha sido um desrespeito as regras impostas pela sua irmã. E Thorian estava ficando bom em quebrar regras. Quando percebeu o que tinha acontecido e que se sua irmã descobrisse ela ia parar de provocar e iria realmente agir. E para seu azar, sua irmã vivia mascando pedaços de nabo, o que significava que ele não iria gostar do resultado final da vingança particular de Trina. Eles eram irmãos que viveram em uma família complicada, mas apesar de seu tamanho e seu poder, Thorian sempre respeitou sua irmã que praticamente o criou o tempo que conseguiu como uma verdadeira mãe. E para lhe dar tempo de pensar, o dragomir decidiu partir para Barrow sozinho dessa vez. Se ele quisesse cuidar de sua família e expandi-la ele deveria mostrar para Trina que podia ser capaz de consertar seus erros.
Motivo o qual ele voou sozinho para a cidade. Quando estava chegando perto da cidade, ele pegou uma carona em um dos aviões, mudou para o corpo humano, vestiu-se e desceu do avião como se tivesse sido um dos passageiros. Thorian não era mais um estranho nos arredores, já que havia passado um tempo pela cidade. Ele caminhou a esmo pela cidade, e recebeu cumprimentos por alguns que havia conhecido da ultima vez. Fez seu caminho até chegar ao hotel que havia se hospedado com sua irmã. Quando veio com ela, foi sua irmã que havia pago todas as despesas. Thorian tinha dinheiro, muito na verdade, mas sempre quem cuidou de suas finanças e questões mais burocráticas humanas era Trina. Ele ficou parado diante da porta do hotel olhando para seus próprios cartões de credito que carregou numa bolsa.
– Ei rapaz! Bem vindo de volta.
Ao ouvir a voz de Ila, o dragomir virou para encará-lo. O velho parecia o mesmo da ultima vez. Ele tinha um charuto na boca e baforava fumaça como uma chaminé. Estava bem agasalhado como a maioria dos humanos da vila. Thorian estendeu a mão em um gesto universal de cumprimento. Ila sorriu e cuspiu um pouco de fumo.
– Você continua bem falante, não? Sua irmã não tinha dito que você tinha que se articular mais?
– Falou — Thorian deu de ombros e apontou para uma caixa grande que estava abandonada no chão — Precisa de ajuda?
– Isso seria de grande ajuda Thorian. Essa caixa está pesada.
Não era comum que o dragomir se sujeitasse a uma atividade tão banal quanto essa, mas ele olhou para os braços franzinos do velho e percebeu que ele não conseguiria dar mais do que dois passos sujeitados com aquele peso. Bufou e pegou a caixa dele, seguindo Ila em silêncio. Como todo bom e velho conversador ele começou a falar sobre o que Thorian perdeu na cidade e relembrar os bons tempos.
Thorian acreditou que Ila estava seguindo para a tabacaria, mas aparentemente era alguma encomenda particular. Eles andaram até uma casa próxima ao aeroporto. Ao chegarem próximo à casinha vermelha, Thorian se deparou com a simplicidade da vida de Ila. Ele comparou sua casa de veraneio em Miami, sua casa no país de Galês, e sua favorita no Texas, além de um excelente sistema de segurança e um jardim bem tratado pelos melhores paisagistas que sua irmã pode contratar, internamente todas elas com as mais preciosas pedras e riquezas que ele colheu ao longo de sua solitária carreira. Ali não havia pompa, não havia segurança, mas Ila olhava para ela como se estivesse na porta do paraíso. Thorian caminhou curioso para saber o que havia de tão precioso que o velho inuite tanto ansiava. Não precisou esperar muito, pois a porta de entrada abriu e uma senhora, da idade de Ila, saiu carregando um bebê de colo. Ila inchou como um galo de briga e cuspiu fumo no chão.
– Aquele nos braços da minha esposa é meu neto e vai herdar tudo que tenho. É meu precioso menino.
Thorian deixou a caixa um pouco mais baixa para ter uma visão melhor da cena. Ila aproximou-se de sua esposa e beijou sua tez, antes de pegar o bebê no colo e erguê-lo ao alto como um verdadeiro príncipe. O bebê arrulhou divertido com a sensação de estar no alto e estendeu estendeu às mãos ao alto, descoordenado. Ele fez um gesto com a cabeça convidando para que Thorian entrasse.
Quando se aproximou, eles entraram na casa, e Thorian viu-se novamente comparando as casas em sua posse com com a do velho Ila. Não tinha ouro, não tinha estátuas, haviam quadros com fotografias de família, tapetes femininos e bordados à mão. Faltava muita riqueza naquela casa, mas havia algo que Thorian não conseguia dizer o que, mas que o fazia querer morar naquela casa e não em suas casas super equipadas.
Um calor encheu o peito de Thorian quando ao deixar a caixa ao chão, Ila estendeu o neto para ele. Com muito cuidado como se ele segurasse um frágil cristal ele segurou o menino nos braços. Thorian travou e parou de se movimentar enquanto embalava o bebê próximo ao torso. Ila começou a rir e indicou o sofá para que o dragomir pudesse se sentar. Thorian balançou a cabeça energicamente recusando-se a sair do lugar.
– Ele pode se machucar.
A esposa de Ila bateu no ombro quando viu o marido rir e aproximou-se de Thorian.
– Você já segurou um bebê antes?
– Não senhora.
– Entregue-me e vá sentar no sofá, fica mais fácil de segurá-lo.
Thorian balançou a cabeça se recusando a entregar o menino. Então olhou para o sofá e tomando como uma missão pessoal, ele deu os primeiros passos vacilantes.
– Preciso aprender.
– Por que querido?
– Vou ser pai em breve.
A mulher felicitou-o com um sorriso maior do que o mundo. Ela o acompanhou até o sofá e indicou como ele poderia sentar sem incomodar o bebê. Thorian também esboçava um sorriso enquanto olhava para o menino. Ila tinha sumido na casa e voltou com seu charuto, sendo enxotado pela esposa para fumar lá fora.
– Alias, eu me chamo Desna. E este pequeno em suas mãos se chama Kemi. E como será o nome do seu menino?
– É menina. Nascerá em breve. Muito em breve.
Desna sacudiu o rosto intrigada. Uma mãe prestes a dar a luz e o marido longe? Ela olhou para o modo como Thorian segurava Kemi e percebeu que era muito cuidadoso, seria um bom pai.
– Você está longe de sua mulher rapaz, vai perder o nascimento de sua primeira criança?
Thorian desviou o olhar para a janela e sentiu um aperto no coração. Ele sabia que não veria o nascimento de sua menina. Desna tinha razão, ele teria que ficar por perto para qualquer complicação, mas como explicar isso a mulher que tremeu diante dele?
– Nós brigamos. E minha irmã está ao seu lado agora. Mas tive que me afastar pelo bem da minha menina.
– É muito nobre de sua parte. Mas...
– Meu pai me ensinou bem. Alguém como eu? Sirvo a mim e à realeza apenas.
Desna olhou para o rapaz e sentiu pena dele. Brigar tão logo na véspera do nascimento? Nada bom.
– Mas não seria bom estar por perto? Mesmo que não no mesmo recinto?
– A vida dela corre perigo — Thorian olhou para o bebê em seus braços.
– É uma gravidez de risco? Mais um motivo para voltar Thorian. Por mais raiva que ela tem de você, o homem da família deve mostrar-se forte e proteger não apenas o físico, mas o mental. Mostrar que a apoiará, não importa o que aconteça.
– Além da gravidez. Alguém quer matá-la e eu vou destruí-lo. Já fiz isso uma vez por ela, farei de novo.
A mulher estremeceu ao ouvir sobre um homicídio, mas observou bem o homem e analisou sua constituição. Ele deveria ser um sobrenatural.
– Era um assassino?
Thorian lembrou-se de Pietro e então de que ele era um dos assassinos também.
– Dois. Um contratante e o assassino. Eu sei quem o contratou. O assassino está morto.
– Ela é uma sobrenatural?
Thorian virou para olhar Desna nos olhos. Ele suprimiu um rosnado para a mulher. E talvez seu rosto deva tê — lo condenado, porque ela levantou as mãos aos céus em rendimento.
– Desculpe. Meu marido sempre me trouxe muitos romances policiais. Sou praticamente uma perita nisso.
Thorian acentiu mais calmo.
– Ela é uma bruxa.
– E você vai caçar o contratante? Vai matá-lo?
– Devagar só para que ele saiba como ela poderia ter sofrido.
Desna pareceu pensativa com esse comentário. Se a esposa dele era uma bruxa a probabilidade dele ser um bruxo era grande. Não tinha ouvido falar sobre bruxas com dificuldades na gravidez, mas sempre poderia ter uma exceção.
– Tome cuidado. Interrogue-o antes. Ele poderia ter mandado outros para matar sua esposa se ele não conseguiu de primeira.
– Ela está junto a uma alcateia e bem protegida. Mas acha que poderia ter mais?
– Não sei o porque ele a mandou matá-la, mas todos tem um motivo. Descubra o motivo e saberá se ela continua correndo perigo de vida. Ah! E não deixe a polícia descobrir.
A mulher piscou para ele e foi arrumar o jantar. Ele ficou admirando a mulher caminhar com graça pela casa, completamente dona de si. Ila adentrou posteriormente com um casal distinto. O rapaz tinha um rosto parecido com Ila, em uma versão bem mais jovem.
– Thorian este é meu filho Anik e esta é minha nora Tapeesa. Eles vieram para jantar. Por que não se junta a nós?
A mãe pegou Kemi dos braços de Thorian e afastou-se para amamentar. Anik puxou a poltrona para mais perto da lareira e chamou o pai para se sentar. Quanto mais a interação familiar procedia, mais o dragomir sentia o dragão que existia nele rugir de felicidade. O animal que existia nele exigia algo dele. Um algo que Thorian não conseguia identificar. Quando um cheiro familiar veio da janela, ele segurou o ronco do seu dragão, que parecia feliz com o reencontro. Coisa que ele particularmente preferia adiar. Tapeesa entregou seu filho para os homens e seguiu para ajudar Desna na cozinha.
Na hora do jantar, Thorian viu-se sentado naquela pequena mesa redonda, ouvindo as histórias das trapalhadas de Kemi com fraldas e homens babões para cima do pequeno bebê. Desna arriscou algumas histórias do filho quando ainda era jovem e Thorian aproveitou para sanar duvidas sobre o trato de bebês. E quanto mais ele sentia um vinculo formado pela família, mais seu dragão se revirava nele em busca de revindicação. Ele não tinha se sentido assim nem mesmo com Emehir. E além de tudo, ele sentia o poder correr pelas suas veias. Um poder primitivo, algo muito distante e poderoso, que só falavam nas lendas contadas de seculos em seculos sobre os dragões que dominaram o mundo no passado.
Quando o jantar terminou, Desna acompanhou Thorian até a porta. Ele havia falado mais do que o normal e estava sentindo a garganta dolorida. Desna por sua vez mantinha um silêncio reconfortante enquanto caminhavam a saída. Quando chegou na porta, Thorian foi surpreendido com Desna tentando abraçá-lo. O dragomir ficou imovel sem reação alguma, enquanto o aperto do abraço ficou mais forte.
– Querido, você será um grande pai. Mas agora vá atrás desse cafajeste que ameaçada sua família e o esprema até ter total certeza de que ninguém virá pela sua mulher e filha.
O dragomir sentiu o impacto das palavras de Desna. Reagindo instintivamente, com o poder que ainda corria em suas veias, Thorian curvou-se diante da mulher e quando seu corpo elevou-se, ele bateu com o punho fechado contra o peito.
– Por todo o sangue real que corre em minhas veias eu cumprirei esta promessa de proteger e cuidar de Emehir e minha filha.
Uma onda de poder correu entre os dois, selando o destino de Thorian. Um forte vento rodeou-os e Thorian sentiu o poder de seus ancestrais rugir em seu peito em resposta ao rugido de seu dragão pedindo por controle. Desna olhou para o homem completamente boquiaberta. Mesmo sendo uma humana, ela conseguiu sentir o poder zunir pela sua pele e uma opressão invadir seu peito.
– Sangue real?
Thorian fez um gesto com a cabeça negando qualquer coisa. Era melhor ele não quebrar mais regras do que ele já havia vindo quebrando. Afagou os cabelos de Desna, como se ela fosse uma criança.
– Obrigado pelo apoio Desna. Sempre lembrarei do carinho de sua família e um dia espero poder ter o mesmo.
Ao longe, Trina esfregava as mãos percebendo o tesouro que tinha em mãos. Ela ignorou completamente a onda de magia rodeando perigosamente ao redor de Thorian. Mas percebeu assim que Thorian disse as palavras, que o que ela planejava iria correr com mais facilidade do que ela pensou. Percebeu que seu irmão fez um gesto para que ela o seguisse enquanto ele se afastava da casa. Eles caminharam rapidamente na direção do aeroporto, quando o dragomir estagnou e farejou o ar. Foi algo sutil, mas Trina reconheceu aquele movimento de cabeça. Quem o olhasse acreditaria que ele estava olhando o céu e tentando de acalmar de algo. O que não deixava de ser mentira. Ela sentiu sua raiva, mais do que farejou. Os dragomir não exalavam emoções, e somente quando seu corpo o fazia era para se disfarçar perto de outros sobrenaturais. Eles eram uma incógnita até mesmo para os povos mágicos existentes do mundo. Thorian apertou os punhos e mudou a direção de sua caminhada. Eles seguiram para as tundras e se afastaram de olhos e ouvidos inapropriados.
Quando estavam longe Trina o olhou questionadora. Ele parecia prestes a explodir e ela sabia que só iria jogar uma carga maior em seus ombros.
– Fará mesmo o que prometeu? Vai fazer o que é certo para Emehir?
Um grunhido veio como resposta e Trina o beliscou. Isso pareceu diverti-lo e evitar que ele se transformasse. Seja lá o que seu irmão sentiu, o enfureceu e ele parecia se transformar em um demônio e não em um dragão.
– Por que partiu?
– Ela veio me ver.
Trina sabia. Sentiu o cheiro e percebeu que Thorian esperava alguma reação irritada, segurou o riso. Ela provavelmente o teria matado, mas quando chegou em Baslow tudo que pode ver foi seu irmão confraternizando com humanos. E por vontade própria. Sua fúria havia passado, por hora.
– Ela precisa ser cuidada. Precisa ter a garantia de que nada vai atingí-la.
– Os lobos farão isso por ela — Concluiu Trina
– Ela é minha!!
Thorian praticamente rosnou esta frase e percebeu que dessa vez tinha ido longe demais. O rugido de Trina em retorno o fez torcer o rosto em sua direção. Trina bateu o pé contra o chão e seus olhos assumiram um tom dourado. Algumas escamas surgiram no lugar de sua pele e o ar ao redor diminuiu em temperatura mais do que parecia ser possível.
– Ela não te pertence. O que foi que você aprendeu com os humanos durante essas ultimas semanas?
– Sobre amor — Thorian balbuciou sem vontade.
– Exato! E se isso não bastasse para demonstrar que ela não é sua. Basta recordar do papai e da mamãe. Como acha que sua filha se sentiria? Como acha que Emehir se sentiria? É essa família que deseja? A nossa? Enganasse que dará outro filho a ela. Emehir irá se afastar e prometo ajudá-la nisso se necessário.
Por pouco a mente de Thorian piscou em branco. A menção de sua família o desarmou. Ele respirou fundo, seu peito subiu e desceu como uma avalanche. Recuou de Trina e um olhar desarmado foi a gota d’água quando o mesmo tentou uma ultima vez.
– Eu poderia completar o ritual. Ela poderia se tornar uma de nós.
– Ou ela permanece humana. Assim como mamãe não mudou. E então o que?
– Vou protegê-la!
– Vai protegê-la dela mesma? Vai protegê-la da dor? Diga e como ousaria reparar o que fez?
Thorian começou a andar em círculos. Frustação por estar impotente contra os argumentos da irmã e raiva pelo cheiro que havia sentido. Ele urrou e bateu os punhos contra o chão. Seu próprio corpo assumindo as escamas vermelhas e negras.
– Dei a ela uma família!
– Ela não teve escolha nisso. Thor, irmão, pela sua falta nas leis seria preso. Na nossa? Morto! E se alguem descobre? O que seria de você? Dela? O que seria da criança que não tem nada a ver com a provável guerra que surgirá por isso?
A menção das leis Thorian arregalou os olhos, que agora brilhavam em um tom esverdeado.
– Iria me denunciar?
– Não! — Trina respirou fundo e percebeu que seu irmão derreteu toda a neve ao seu redor. Apurou os ouvidos para ver se não tinham chamado muita atenção. Quando percebeu que estavam sozinhos ainda continuou — Quero lhe propor uma punição. Uma para que nada disso aconteça novamente… E vai pagar à Emehir o que fez.
– O que é?
– Saberá no tempo certo. Por hora vamos caçar o imbecil que te contratou e provavelmente poderá ferir minha futura sobrinha.
Thorian sentou contra o gelo e indicou com um gesto de cabeça para o aeroporto.
– Não precisamos caçá-lo. Senti o cheiro dele no aeroporto. Ele está aqui.
– Ele sabe o que somos?
O dragomir negou com a cabeça e lembrou-se do dia em que foi cercado pelos homens lobos. Ele queria que nunca tivesse acontecido, mas graças a ele pode conhecer Emehir e estava para ter sua filha.
– Não. Ele acha que sou um bom assassino.
– O que não está me contando?
Ele deu de ombros antes de se explicar.
– Ele me viu matar um homem lobo com minhas mãos nuas. Não usei armas, mas também não usei minhas garras. Era um lobo fraco. Achou que eu era o bastardo certo para me usar. Concordei por causa do que ganharia e, afinal, era para matar uma femea que ele dizia que era crucial para uma ascensão ou algo do tipo. Mais tarde ouvi o lobo que ele contratou para me acompanhar falar com seus comparsas no telefone. Achou que eu era humano e portanto, não ouviria, mas percebi que eles me queriam por que não tinha cheiro de sobrenatural. Eles estão usando pessoas assim para causar as mortes que leu nos jornais aparentemente.
Trina admirou-se pela forma como seu irmão se abriu e explicou tudo. Mas ela sabia que era por que envolvia a criança e ele necessitava. Pensou sobre o que ele disse. Estremeceu ao perceber o que aquilo parecia.
– Não parece ser nada aleatório e não parece que foi escolhido ao acaso. Vamos… Temos que bolar algo e mostrar a ele que você está ignorante quanto ao motivo dele ter escolhido você ou Emehir.
Ao longe o homem lobo farejou o ar e ficou cismado. Ele havia sentido esse cheiro antes e recordar de sua falha apenas o enraiveceu. Seu chefe estava zangado e tudo o que ele queria era ter o poder da sua alcateia mais livremente. Era um alfa e tinha que se submeter. Não apenas a um, mas a vários outros machos. Mas ele sabia que poderia mudar isso, tudo que bastava fazer era matar aquela mulher, arrancá-la debaixo da alcateia e tinha o momento perfeito para isso. A lua cheia estava chegando. Ele estaria longe, mas precisava de algum bode expiatório. E o cheiro o dizia que o tinha muito perto.
– Meu querido assassino. Por onde andou? Eu achei muito estranho que não tive retorno nem seu nem de Pietro.
– Pietro está morto.
O homem passou a mão pela careca e esfregou enquanto olhava pro alto.
– Acha que não sei? Mas sabe, ainda posso pagar por você pelo que foi encomendado.
– Um monstro apareceu e a estuprou, matou Pietro e eu seria o próximo. Vai ter que aumentar a oferta.
– Sem problemas. O dobro do seu peso em ouro assassino. Vamos eu não posso me aproximar da vila, mas você sim. Só uma dúvida, como fugiu do monstro?
– Avisei pro idiota que tinha alguma sombra estranha no chão. Eu sai de lá assim que pude. Achei que aquilo poderia matar a mulher por mim.
O homem começou a rir e bateu contra o ombro de Thorian, o qual reprimiu a vontade de rugir. Ele detestou ter que mentir, apenas queira despedaçar aquele imbecil que o contratara, mas Trina o advertiu. Era melhor manter um olho no contratante. Uma hora ele iria fraquejar, e quando o fizesse, não saberia o que foi que o atingiu.
As imagens permeavam sua mente e ela já sabia distinguir de quem era o que. Sabia que seriam três crianças e sua loba distinguia o sexo dos bebês. Estava quase chegando na metade da gestação e sua mente queria destruí-la. Faria tudo pelos bebês e não reclamaria da dor. Fergus já estava agitado sobre isso e detestava vê-la sofrer. Mas era por um bem maior, por três bens maiores. Sophie sentiu a cabeça rodar novamente, não havia silêncio e a dor insistia em se fazer presente. Ouviu a porta abrindo e queria gritar com o barulho da cafeteria. Sentiu uma mão gentil e um drinque foi colocado a sua frente. O cheiro bateu e acertou em cheio em seu ventre. Sentiu os lobos uivarem em sua mente.
– Mãos santas. Você devia ser consagrada a rainha das lobas.
Ouviu a risada fina de Abigail enquanto ela se afastava. A vista de Sophie embaçava e ela quase não conseguiu tomar do drinque. Quando deu o primeiro gole sentiu a cabeça clarear imediatamente e os lobos serem aquietados pela sua própria loba. Percebeu que Abigail retornou agora com uma torta de mirtilo. Um sorriso amarelo surgiu no rosto de Sophie e pode ouvir uma risada de Shannon.
– Se ela não quer eu aceito. Adoro mirtilo.
– É uma boa que não vai acabar tão cedo! — Abigail saiu rindo divertida enquanto ouvia alguns grunhidos ao redor da cafeteria.
– O que foi que eu perdi? — Shannon indagou intrigada e Sophie riu.
Fez um gesto para que ela se sentasse. Estavam ficando mais próximos da humana. Além de alguns outros habitantes da cidade. Apesar de estarem se misturando ao povoado, não permitiam-se muitas proximidades. Os arredores mudavam e, Sophie podia sentir isso em suas entranhas. Os lobos também estavam agitados. Ansiava por um pouco de paz nessa próxima lua cheia.
– Nós temos mirtilo até dizer chega ao nosso redor. Aqui eles realizam o maior festival desta fruta e a época dele está chegando. Mas se tem muitos, imagine como é cheirar isso por toda parte. Nós… Nós lobos não gostamos muito.
Shannon começou a rir e então mordiscou a torta.
– Bom saber que serve como ferramenta de tortura.
– Pobre Adami.
Shannon abriu a boca, mas logo a fechou. Outro som de sino e Isis adentrou arrastando Bernard. Eles encaminharam-se para sentar junto com as outras lobas. Quando Abigail veio servi-los franziu levemente a testa e olhou para o redor da cafeteria.
– Onde está Emer?
– Trabalhando nas nossas encomendas — Isis deu de ombros — Ela também disse que queria fazer algo para o bebê agora que tinha uma ideia de que seria uma menina. Hunf, deve ter tirado naquelas pedras que ela joga. Ainda acho que ela é uma bruxa.
– Uma menina? Oh! Então fica mais fácil para comprar um presente para o bebê. — Shannon puxou o celular já procurando por algo em alguma loja online.
– É uma pena, é o primeiro bebê dela e terá que conseguir tudo sozinha… — Abigail comentou triste e olhou para sua cafeteria — Eu poderia preparar coisas para ela caso ela sentisse vontade de algo, mas é tão reservada.
– Ela terá uma boa vida em casa, tenho certeza que a vila e a minha alcateia irá cuidar dela quando tudo isso acabar — Bernard deu de ombros.
Todos viram que Isis ficou rigida, com exceção de Shannon que de repente deu um grito de felicidade.
– Eu tive uma ideia. Uma ideia excelente.
– Humanos tem ideias estupidas — Isis retrucou e fez seu pedido.
Mas dessa vez todos retornaram sua atenção a Shannon que simplesmente falava pelos cotovelos e todos pareciam concordar e querer apitar na ideia. Bernard gemeu preocupado. Aquilo não seria nada bom.
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