“É uma terra santa. Cheia de mistérios e campos inteiros para explorar. Nós nunca saberemos o que ele realmente tem para nos contar. Nunca fui uma pessoa espiritualizada ou crente nessa coisa de terapia alternativa. Mas tem algo nessa terra, talvez seja o ar ou o simples fato de que magia sempre recobriu essas terras, que faz com que todas as dores sejam esquecidos. Em poucos dias vai ser noite de lua cheia. É um dia especial para os homens lobos, alguns faes comemoram e fazem festas nessa noite também. Os humanos não são permitidos, mas ouvi de alguns dos faes que pode ser perigoso quando estes sobrenaturais comemoram a lua cheia. Os vampiros nem se falam… É época de festejar, por isso coloquem sua melhor roupa durante essa semana e aproveitem a vida. É o que há de melhor para hoje. ”

Tete-a-Tete com S&S

Ele remexeu-se na cama e procurou o calor daquele pedaço de mal caminho. Sua cabeça revirava enquanto se lembrava de ficarem até tarde rindo e bebendo como dois adolescentes que não tinham nada a perder. Ele sentiu o calor dela que estava esvanecendo e o cheiro de mirtilo o fez rir. Ela o tinha feito comer misturado na bebida. Goleuni para ele, whisky para ela. Farejou o ar, com preguiça de levantar para procurá-la. Um som chamou sua atenção e ele finalmente ergueu o rosto para olhá-la. A morena usava um de seus suéters e tinha as pernas desnudas. O homem lobo quis grunhir, pois infelizmente sabia que por baixo do seu suéter havia sua cueca, mas não da maneira que ele preferia.

Meio zonzo com o resquício da bebida ele levantou e percebeu que a cama tinha muitos travesseiros. Começou a rir, o que pareceu despertar sua atenção. Quando o rosto de coração virou-se para ele sentiu que seus lábios erguiam-se em resposta. Era uma bela mulher, pronta para aguentar um homem como ele. Grande em proporções, grande em apetite. Adami levantou e andou com passos graciosos demais para sua altura, enquanto ele ouvia a mulher engolir em seco. Quando parou ao seu lado, percebeu que ela tinha uma xícara de café na mão. Ela lhe deu espaço, e ele sentou-se para por fim apertar sua coxa. Ela deu um tapa em seu abdômen e ele riu novamente.

– Fizemos uma bagunça na cama.

– É… a guerra de travesseiros foi ótima.

Adami gargalhou e afastou seu suéter, expondo um pouco da pele azeviche de Shannon, ele farejou seu pescoço e ela riu com cocegas da proximidade de seu nariz. Quando Adami deu uma lambida demorada até chegar quase ao ombro, Shannon suspirou vencida.

– Não é a toa que todos acham que estamos juntos. Você vive se esfregando em mim… Aposto que nem preciso mais de perfume.

– É tão ruim ser minha, Shannon?

– Já conversamos sobre isso. Eu não quero. Não nasci para me prender a alguém.

Ele quis rosnar para ela e discordar. Poderia fazer com que ela mudasse de ideia. A noite de lua cheia estava chegando, e ele a conquistaria. Tanto ele quanto seu lobo. Não que seu cheiro fosse memorável, mas era uma boa mulher e merecia ser amada como tal. Nunca tinha visto mais do que a pele que ela desejava mostrar e todo esse mistério era como ficar mostrando um doce para uma criança e depois sair correndo. Tentador demais. Adami mordiscou a pele dela e Shannon afastou-se com um levantar rápido demais. Ela também estava meio alheia aos seus passos, vacilantes pelo quarto de solteiro dele. Tomou mais um gole de café, antes de parar em frente a varanda do quarto. Ele novamente avançou para Shannon e a abraçou pela cintura. Ela quis sair de seu aperto, mas Adami a segurou firme contra seu corpo. Sentiu suas costas se encaixarem contra seu peito como se pertencesse à ele. Ao apoiar o queixo na cabeça de Shannon ficaram em um silêncio reconfortante. Como tomar coragem para falar sobre a lua cheia? Como falar que poderia ser um bom macho para ela? Adami esperava há muito por uma companheira, e estava cansado de esperar. Tomou coragem e estava prestes a se explicar, quando Shannon o atropelou falando na sua frente.

– Hoje será o grande dia. Não se esqueça de manter os homens longe tudo bem?

– Claro, claro. Tudo pela sua humana — Adami revirou os olhos — E o que eu ganho com isso?

– Mais uma noitada de filmes?

Ele rosnou e soltou um ligeiro uivo ao final. Shannon estremeceu em seus braços e ele a virou. Adami não foi bruto, mas a força com que colocou-a contra o vidro da varanda a fez soltar o ar que prendia nos pulmões. Ele curvou o corpo para contra o dela e gemeu sentindo seu cheiro. Ele deslizou a ponta do nariz pelo rosto dela até encostar no lóbulo da orelha dela.

– Eu quero mais que uma noitada Shannon. Me deixe te mostrar que vale a pena ficar comigo.

– Não… posso…

– Não provoque um lobo Shannon se não aguenta a mordida, não provoque — Ele voltou a deslizar o rosto até ficar a centímetros de seus lábios — Vou te mostrar o que acontece e o que vou querer quando tudo ocorrer perfeitamente bem hoje a noite.

Adami segurou seu queixo com dois dedos e finalmente aproximou seus lábios de Shannon. Um roçar de lábios, um deslizar de pele contra pele. Ela não se abriu para ele, mas Adami sabia ser persuasivo. Ele lambeu seu lábio inferior, mordiscou e infernizou-a com sua própria boca. A ponta dos dedos deslizava pela sua coxa suavemente, e num movimento brusco, ele a puxou erguendo-a, de forma que ela apenas poderia colocar as pernas ao redor de seu quadril. A ação a fez suspirar e foi a perdição, para que Adami invadisse sua boca com a dele. O beijo não foi mais suave, mas sim sugador. Ele impunha seu domínio, travando uma verdadeira batalha com sua língua e Shannon perdeu-se naqueles lábios. Abraçou-o e depois de muito tempo, quando ambos respiravam ofegantes ela apoiou a testa em seu ombro.

– Prometo que vou pensar com carinho!

Isis estava em silêncio olhando para Kallai dormir ao seu lado. Ela havia sentido que seu corpo estava mudando, estava sentindo seu corpo inchar ligeiramente e desejava poder voltar no tempo e mudar o dia em que pediu ao seu marido por um filho. Ele já tinha tantos… A coiote admirou o rosto angelical do Brenin e, por instantes desejou que não tivesse se sentido atraída por ele como foi no dia em que se encontraram há alguns anos atrás. O que ela faria para mudar tudo apenas para partir com tranquilidade ao lado de Bernard. Todas as noites, Kallai vinha para sua cama, não mais dormiam em quartos separados. Ele a tomava, as vezes sem nem olhar em seu rosto. Estava no automático, e ela não tinha forças para empurrar-lhe e dizer não.

Havia aquele velho ditado de quem tanto fala, atrai. Ela atraiu tudo para si e agora tinha que lidar com isso. Quando ele chegou em casa nos últimos dias e descobriu o que ela e Shannon estavam preparando, acreditou que seria como aquela vez em que eles ficaram presos no quarto por três dias consecutivos. O dia em que anunciou a chegada de Bernard. Não vá por ai… Kallai revirou-se em seu sono e a abraçou, puxando seu corpo para mais perto. Ela tentou forçar a mente para lembrar o que ela tinha visto. Deslizou a ponta dos dedos pelo braço dele, e o homem respondeu gemendo. Estava sentindo as reações do corpo e do cio. Isis subiu com os dedos pelo braço até chegar aos cachos loiros. Lembrou-se de ter pensado que tinha visto um anjo descendo do céu quando pôs os olhos sob ele. Um anjo vingador que a tinha protegido de sua antiga alcateia. Agora ele mais parecia um pequeno querubim relaxado. O tom da pele dele refletia na sua, o cheiro agradável de bosque ainda estava lá, mas o cheiro de areia de Bernard fazia sua coiote uivar como nunca antes.

A mulher fechou os olhos e suspirou vencida. Seu coração dividido entre amor e dever. Havia amor em ambos e também havia um dever para com os dois. O destino gostava de pregar peças. Kallai mexeu novamente em sono, mas dessa vez, Isis sentiu o corpo dele subir sobre o seu. Ela abriu os olhos para pegar Kallai olhando-a fixadamente. Sentiu o peso em seu corpo e o desejo do homem lobo em suas coxas. Ela não estava pronta para ele, mas como advertí-lo sem irritar a besta? Ele não investiu de imediato, mas abaixou-se com seus lábios prontos para tomá-la. Não foi pela sua boca, e quando os lábios dele entraram em contato com seu pele fria, tudo o que ela estava pensando sumiu e apenas o que poderia pensar era em mais. Kallai rosnou e seu peito vibrou contra ela, enquanto ele descia com os beijos. Ele perdeu-se no meio dos lençóis e Isis apenas deitou a cabeça contra o travesseiro e uivou de prazer. Perdeu a conta de quantas vezes fizeram, mas desejava poder se levantar da cama para enfrentar o grande dia. Kallai parecia alheio a estes desejos.

Emer terminou de costurar o ultimo conjunto de mochilas que tinham elaborado pela semana. Bernard e Isis trabalhavam muito bem juntos. Ela inclinou a cabeça contra a cabeceira e percebeu que havia perdido tempo encarando o nada durante a confecção das mochilas. O trabalho desenhado dos lobos estavam bem feito e fácil de idealizar. Quando questionada sobre a demora, ela fingiu ter algumas dificuldades de compreensão. Mas ela desejava passar um tempo sozinha. Por instantes, ela queria que tudo afundasse e que ela pudesse ser tragada para um mundo onde nada poderia machucar seu bebê, onde não precisaria manter as aparências, onde poderia ser ela mesma por dias, sem se preocupar com o que iriam pensar dela. Ainda mais, um mundo, onde ela poderia ter o homem que amava. Não sabia o que amava mais nele, mas sabia que jamais o teria. E essa certeza apenas fazia mais difícil do que nunca, sorrir para todos, como se tudo estivesse bem. A lua cheia estava chegando e todos na cidade pareciam agitados, até mesmo Shannon que não era uma mulher loba estava distante. Emehir nunca ficou tão feliz por estarem esquecidos dela como esses dias.

Ela embrulhou as mochilas com cuidado e ajeitou dentro de uma só sacola, o qual pudesse levar mais tarde para Avalon. Quando saiu para o ar fresco, sentiu o vento soprar em seu rosto, mas logo retornou para casa e pegou um casaco. Aninhou um pequeno manto que havia confeccionado em volta do ventre e voltou ao ar livre. Vivia agora em prol de sua filha, ela merecia viver e ser amada. Tinha que empurrar pra longe aquelas sensações de mal estar que sentia, como se algo lhe faltasse. Não havia mais nada a faltar, ela teria finalmente uma criança para cuidar. Sentou-se na namoradeira da varadinha, preparada por Fergus, e fechou os olhos para apreciar os sons da natureza. Ela conseguia ouvir alguns cachorros latindo à certa distancia, os pássaros que sobrevoavam o bosque perto da casa. Emer implorou a Deusa proteção e que os maus pensamentos pudessem partir junto com o ar que sobrava seus cabelos. Um som de galho se quebrando a fez saltar da cadeira e procurar a origem. Ela sentiu os pelos da nuca arrepiarem e correu de volta para casa. Trancou-se e sentou contra a porta. Não era uma atitude inteligente, mas o coração disparado a impediu de mover um único músculo.

Outro som ao longe e ela sentiu as lágrimas buscarem o exterior para correrem livres e a única coisa que a impediu de realmente se afundar em seu panico foi o som da voz de Shannon, que soava como pequenos sinos.

– Emer, vamos sair para brincar?

Ela respirou fundo e soltou o ar profundamente. Agradeceu mentalmente que não era uma mulher loba ou saberia da confusão em que encontrava agora. Forçou sua mente a funcionar, tinha que recompor e sorrir. Respire e inspire, respire e inspire, RESPIRE E INSPIRE. Como os exercícios de respiração para gravidas, mas sem força, apenas relaxe… E com suavidade, Emehir levantou-se, ajeitou as dobras das saias e se olhou no espelho. Passou as costas da mão pelos olhos e endireitou a postura. Um olhar rápido e se sentiu como ela mesma, ou quase, como todos a conheciam. Ela tomou coragem, abriu a porta e sorriu meigamente para Shannon. A visão da pequena fadinha sempre lhe era um colírio para os olhos e hoje ela transpirava pura felicidade. Riu da combinação do dia: uma peruca que tinha cores vermelhas no topo e finalizavam com verde limão. A roupa era toda trabalhada como se ela fosse um verdadeiro morango.

– Aonde vamos ?

– Ouvi dizer que Abigail está com uma torta fantástica de maçã com nozes e mel e lembrei que você adora doce. Quer vir?

Emer acenou com a cabeça, pegou um gorro e foi caminhar ao lado de uma Shannon muito animada para o seu gosto.

– O que foi que aconteceu com você?

– Oh! — Shannon mordeu os lábios — Apenas tive um ótimo encontro.

Ela olhou de baixo a cima para Shannon e quando a mulher não disse mais nada, apenas pensou no pior. Quem foi o encontro e o que aconteceu? Pobre lobo. Começou a rir e percebeu que o sorriso da amiga morreu quando passou pela clinica de Lothar. Emer olhou para a clínica e suspirou. Lothar, riscado.

Bernard e Adami conversavam em frente ao Chaperoun Rouge. Eles ouviam as mulheres rindo, dentro da cafeteria. Os dois homens lobos tiveram que afastar alguns intrometidos, mesmo que depois da entrada de Emehir fosse colocado o cartaz de Exclusivo para Mulheres, eles ainda ficariam fazendo a guarda. Bernard porque Isis implorou, Adami por que Shannon tinha lhe pedido. Ao longe viram Dougal se aproximando. Sabiam que ele vinha para mostrar proteção a Emehir e a loba branca que acompanhava seus passos parecia ilegível. Quando chegaram, a loba se desvincilhou do árabe e arranhou a porta. Alguns instantes depois, a porta se abriu apenas para que ela entrasse, antes de fechar com um estrondo. Os trés se entreolharam e deram de ombros. Mulheres poderiam ser perigosas quando queriam e ali dentro haviam muitas contra quem lidar. Dougal levou a mão ao peito e suspirou vencido.

– Fui abandonado para ficar com dois lobos maus.

Adami mais acostumado com as brincadeiras do velho lobo apenas bufou e revirou os olhos. Fez um gesto indicando para o árabe, tentando acalmar Bernard.

– Faça como eu, ignore.

– Ei mocinho, respeite os mais velhos — Dougal deu um soco contra o ombro do lobo — O senhor aqui também merece respeito.

Bernard sorriu sem mostrar os dentes. Sua atenção foi a outra esquina, percebendo a aproximação de Isis.

– Eu não sou tão velho assim Guido — Ao falar o velho nome ele piscou para Dougal.

Adami olhou para os dois lobos curioso.

– Guido?

– Sempre trabalhei como comerciante, era mais fácil de nos misturar. No passado vendi muitos tecidos, especiarias, temperos, jóias, enfim o que estivesse na moda. Na renascença, passei uma época gloriosa da Itália. Era o melhor lugar para se fazer dinheiro e aproveitar a vida em seu esplendor. Dougal aqui? Era o famoso Guido, o dom das madames.

– Dom das madames?

– Um verdadeiro Don Juan. Trabalhava como gigolô, e tinha umas mulheres — Bernard ergueu as sobrancelhas e fez o gesto universal para uma mulher com belíssimo corpo — Se é que me entende.

Adami começou a rir e Dougal sacudiu o rosto com as bochechas levemente avermelhadas.

– Foi uma fase meus caros… Ah, quando Guido tudo era tão mais fácil..Saudade dos bons tempos…

Dois rosnados foram ouvidos e os três lobos se afastaram imediatamente. Um deles vinha de dentro da porta e Bernard apostaria sua alma que era a pequena loba branca rosnando, mas não imaginou que o outro pudesse ter vindo de Isis. Ela tinha as feições fechadas e parecia prestes a pular na garganta de alguém. Bernard estava para se afastar quando Adami farejou o ar.

– Isis, parece que Kallai te deu uma canseira hoje. O que faz de pé?

O rosto dela ficou livido por instantes, algo que apenas Bernard — e provavelmente Dougal — percebeu, antes dela se empinar e erguer o queixo para Adami, demonstrando sua superioridade.

– O que acontece na minha cama não lhe diz respeito lobo. Agora dê-me passagem, espero que tudo esteja conforme planejado.

– Claro rainha — Bernard resmungou e curvou-se para ela, antes de dar espaço para que Isis pudesse passar.

A coiote parou por instantes, antes de finalmente entrar. Adami bufou e cruzou os braços sem entender mais nada.

– Mulheres.. Não se pode entender. Ficam zangadas se não percebemos as coisas, mas se comentamos elas ficam iradas.

– Aprenda a arte de manter silêncio nessas horas Adami — Bernard rosnou ainda dolorido — É o melhor a fazer.

Emer e Shannon finalmente chegaram ao Chaperon Rouge. Viram Bernard, Adami e Dougal conversando do lado de fora. Estavam sentados na porta aparentemente conversando animados. Quando Dougal viu Emer chegar ele levantou-se e correu ao seu encontro. Quando chegou perto dela jogou-se de joelhos e a abraçou pela cintura beijando sua barriga.

– Olá queridas. Como está se sentindo hoje mamãe?

– Estamos ótimas, mas… Por que estão do lado de fora?

– Íamos entrar quando ouvimos vocês se aproximando e decidimos esperar pelas ladies.

Shannon balançou a peruca e correu para Adami e Bernard. Adami enlaçou-a e distribuiu beijos pelo pescoço da blogueira, enquanto Emer mantinha olhava curiosa a cena.

– Então, esses dois..?

Dougal deu de ombros, levantou e estendeu o braço para oferecer apoio à Emer. Ela aceitou e caminharam juntos até a cafeteria.

Mon amour o melhor para você

Quando chegaram a porta, Dougal abriu a porta e os dois homens deram espaço para que Emehir entrasse. Um grito de surpresa das mulheres do vilarejo e todas festejaram com a chegada das meninas. Shannon entrou, puxando Emer antes de fechar a porta na cara dos homens. Não antes de colocar um cartaz de: “Proibido Homens” e uma linha abaixo: lobos, vampiros, bruxos, faes ou humanos. Emer olhava abismada para uma decoração extravagante em tons de lilas, rosa e amarelo. Babados e decorações como mamadeiras, chupeta e fraldinhas nos mais variados tipos e tamanhos decoravam todo a cafeteria. Em uma mesa central havia um bolo de fralda e nas mesas espalhadas um carrinho de bebê com ovelhinhas e algodão doce espalhado. O cheiro de doce dominava o lugar e Emer se pegou sorrindo abertamente para toda aquela decoração. Acima da mesa central foi colocado uma faixa com “Bem Vinda Anjinho”.

Sophie correu a abraçar a mulher que havia se tornado uma amiga especial e acariciou o ventre dela.

– Apesar de tudo, nós queríamos que tivesse uma festa para a pequena. Como não sabia que nome escolheria, nós decidimos por algo… — Apontou para a faixa — mais singelo.

– Obrigada. Está tudo tão…

– Não ouse dizer feio — Isis apareceu ao lado de Sophie com uma carranca.

– Eu ia dizer magnifico — Emer mordeu o lábio inferior segurando uma risada.

– Ótimo. Eu fiz o meu melhor.

– Ei! Eu ajudei — Shannon reclamou enquanto erguia a mão indicando sua presença.

Emehir ignorou quando Isis e Shannon começaram a reclamar sobre decorações e detalhes da festa. Algumas mulheres aproximaram-se das grávidas e começaram a felicitá-las. Emehir fez sua parte conversando e passeando pela cafeteria. Brincou com a bruxa Kenia que estava opinando sobre as roupas de Isis, que desfilava como se estivesse em uma passarela. A juíza Vana e a líder dos bombeiros, Hati, conversavam sobre a segurança de crianças nas casas. Shannon tentava arrancar algum segredo misterioso das faes de Abigail e os segredos da bruxa Ginger, que cuida da farmácia da cidade, que estava acompanhada de sua amiga Ruby. Emer aproveitou que todas estavam distraídas demais e sentou próxima a Avalon e Sophie. As mulheres lobas estavam comendo alguns doces que Abigail havia servido. As vezes a porta abria e uma turista entrava e felicitava as duas gravidas. Em certo momento, Isis subiu na cadeira e começou a bater palmas chamando a atenção de todas.

– Hora das brincadeiras!!!

Avalon grunhiu e tapou os olhos com suas patas. Shannon começou a sorrir e correu pra trás do balcão. Abigail, Grentel e Ruby arrastaram uma imensa caixa para o meio do Chaperon Rouge.

– Por que está tão animada? — Emer ficou receosa com o repentino interesse de Isis.

– Não dá pra brincar com sobrenaturais. Eles são chatos. Por isso vamos brincar de adivinhar de quem é e o que é este presente.

Emer a olhou ainda sem entender.

– Nós temos bom faro...sempre sabemos o que é e quem mandou...Então ela não pode usar dos castigos nas mulheres lobas ou faes ou bruxas — Sophie veio em seu resgate.

– Castigos? — Emer recuou brevemente — Nada que machuque minha menina, não?

– Oh querida, batom na barriga, uma calcinha com pênis de plástico, beber na mamadeira, enfim a velha e boa humilhação pública e divertida.

Emer corou como um pimentão.

– Calcinha com um pênis..?

– Ela finalmente vai realizar um sonho — Sophie revirou os olhos — Coloque você mesma Isis.

Levaram Emehir para uma cadeira e entregaram o primeiro presente. As mulheres lobas farejaram e começaram começaram a sorrir para a imensa sacola que Emer segurava. Ela não pesava tanto e parecia que tinha muitos itens. Emehir apalpou o saco e começou a girá-lo para sentir tudo. Avalon soltou um uivo e bateu com o rabo contra o chão. Emer sentia o material e supôs tratar de roupas. Ela observou bem o embrulho cheio de rendas e em seguida olhou para todas as mulheres que aguardavam ansiosas a primeira das adivinhações.

– São roupas e... tem cara de ser algo que Isis prepararia.

– Puft, por favor... Eu? Com babados tão de mode? — Isis girou o batom e começou a andar na direção de Emer — Vamos desenhar nesse seu rostinho de diz que me disse..mas o que?

– Ei ela errou... fui eu que dei, então eu tenho o total direito de maquiar a Emer — Kenia fez beicinho — Pera lá, o que você quis dizer com fora de moda? Rendas são a sensação do momento.

– Do século passado... — Isis rosnou.

– Meninas! Comportem-se — Vanda balançou o rosto em negação e em seguida entregou o batom para Kenia — Divirta-se bruxinha.

A brincadeira deu-se sequência, e ao final dela Emehir tinha presentes para sua menina, coisas como milhares de conjuntos de roupas para vários tamanhos de Kenia e Isis, de Marie recebeu delicadas bonecas e pelúcias que pareciam artesanais, de Ruby e Ginger recebeu vários pacotes de fraldas e lenços umedecidos, Gretel com todo seu jeito divertido e agitada deu um mobile e uma manta com detalhes da cultura inuite, além de claro um livro de diário para o bebê e várias chupetas, cada uma com uma temática diferente: lobos, fadas, bruxinhas, um verdadeiro kit dado por Shannon, ainda havia o presente de Avalon, que ajudada por Fergus montou um apanhador de sonhos, Hati apareceu com um kit de segurança que era uma babá eletrônica e Sophie deu um chupetrometro e uma mamadeira sem ar. Em contra partida, Emer estava com um véu de grinalda, toda desenhada no rosto com batom, uma chupeta pendurada no pescoço, fralda e uma calcinha com o dito pênis de plastico e em sua barriga desenharam com batom uma carinha feliz. Por fim, Isis a fez beber água de coco diretamente de uma mamadeira e tirou fotos para recordação. Não se admiraria se essa foto estivesse na bolsa de cada uma das mulheres presentes. Mas, apesar de tudo, haviam se divertido como nunca e Emehir sentiu-se querida por todas.

Kallai ergueu um pouco o rosto do travesseiro. Sentiu Isis remexer ao seu lado e então soltou o braço de sua cintura. Já fazia um tempo desde que havia percebido que Isis estava distante dele, mas não esperava que tão perto da lua cheia ela ficaria assim. Ele respirou fundo e o cheiro do sexo que haviam compartilhado tocou seus sentidos. Ela estava ovulando e talvez fosse o momento em que finalmente Isis poderia ter alguém que a amasse da forma que ele não poderia. Isis era uma mulher especial, apesar de toda aquela mascara e jeito deflorado de agir, ela tinha um coração gigante, que ele podia ouvir quando a coiote tocava no piano. Até mesmo quando tocava notas aleatórias, ele sentia no fundo da alma que ela tinha emoções tão distintas… Kallai observou-a levantar e andar pelo chão do quarto, ela estava impaciente e ele sorriu com suas ações tão abertas.

– Volte para a cama e tirarei sua ansiedade.

– Kallai como pode? Não está sentindo? Devíamos correr… Estou sentindo meu corpo agitado e… Hoje é noite de lua cheia! O ápice dela!

Correr...Correr como lobos era algo tão especial e tão primal. Ele sempre fugia, lembrava de quando tentava reprimir a transformação no ápice. Era quando ele sentia o corpo tremer e suar como um condenado. Kallai temia a transformação porque as vezes perdia a consciência nesses momentos e quando acordava, havia apenas destruição aos seus pés. Kallai levou a mão ao peito e esfregou sobre o coração. Se Isis estava agitada com toda a pressão da lua, ele deveria estar se dobrando de dor. Isis ainda andava pelo quarto, ela queria correr e a lua clamava por sua coiote. Ele era o alfa e deveria iniciar a corrida, e Isis estaria ao seu lado, como sempre esteve. Lobos solitários corriam juntos, lobos acoplados corriam com seus casais, e as famílias corriam juntas, mas aqui estava ele, sem poder sentir seu lobo. Ele quis rosnar, mas temeu que sua voz tivesse se perdido também. Sentiu o colchão abaixar-se e Kallai percebeu que havia fechado os olhos. A mão delicada de Isis tocou sua testa.

– Você está bem?

– Eu… Estou cansado, apenas isso.

– Correr lhe fará bem! Vamos, temos que ir para mais perto da floresta e…

O colchão voltou a posição normal quando ela levantou, totalmente empolgada em partir quando Kallai grunhiu. Ele olhou para o corpo dela balançando, completamente bem com sua nudez. Isis virou para olhá-lo e ele sentiu que quando ajeitou-se para olhar em retorno, seus cachos caíram pela sua testa.

– Não quero… Eu… Vá correr.

Isis ficou boquiaberta e em silêncio. Era algo difícil de se fazer, especialmente vindo dele o ato.

– E-en-então, eu te espero na clareira e… — Isis agarrou a própria cintura enquanto balbuciava. Ela não deixou de encará-lo.

– Eu não vou correr com você hoje. Pode ir.

Se ele tivesse atirado na própria esposa, provavelmente não teria sido tão amargo quanto ao que acabava de fazer. Ele sentiu uma pontada no peito e ela gritou. Lágrimas grossas caiam pelos seus olhos, e agora ela puxava um roupão para cobrir a própria nudez. Kallai fechou os olhos incapaz de ver Isis partir de seu quarto. Dessa vez para sempre, provavelmente. Nenhuma loba iria aceitar isso, não, nenhuma mulher iria aceitar ser rejeitada desse jeito constantemente. Ao ouvir o som da porta da cozinha fechar, ele finalmente levantou o corpo do colchão. Esfregou novamente o peito e suspirou alto. Onde você está? Ele sentia que estava enlouquecendo. Só poderia ser isso, pois não ouvia seu lobo e muito menos sentia o impulso de sempre de se transformar. Kallai pegou uma calça de moletom e vestiu. Foi mecânico em suas ações, e quando menos esperava estava na neve, sentindo o vento passar pelo seu peito exposto. Ele procurou pelo seu lobo, enquanto corria pela cidade. Não havia nenhum homem lobo mais, todos estavam correndo. Ele ouvia os uivos a distancia. Algumas pessoas gostavam de ficar ouvindo-os nas varandas, mas geralmente evitavam as ruas, então era só ele, a neve e o vento.

Ele continuou correndo e procurando pela sua mente, algum vestígio que aquele sanguinário lobo estaria lá. Mas não havia nada, nem mesmo uma indicação que houvesse existido. Kallai sempre imaginou como seria viver uma vida inteira sem seu lobo, mas agora que vivia, não gostava da sensação. Era como estar incompleto e desejar algo que não pudesse ter. Corria com duas pernas, mas ansiava pelas quatro patas, em sentir a neve fofa afundar ao redor do peso de suas pisadas e até mesmo se impregnar com o cheiro dos mirtilos que pareciam como filhotes de coelhos, que estavam a toda parte. Ele correu até que sentiu um cheiro distinto. Quando olhou na direção em que o cheiro vinha encontrou Emer sentada em uma banco com uma outra mulher. A loira olhou diretamente à ele, levantou, tocou o ombro de Emehir e saiu. Kallai devia correr para o outro lado, fugir ou ignorar a presença da humana, mas tudo que podia fazer era olhar para a humana. Ela abaixou a cabeça e soluçou, seu corpo tremia e provavelmente chorava. Estava prestes a voltar quando sentiu o corpo convulsionar. O lobo estava de volta e agitado, o instinto de proteção imperando sobre ele. Ajoelhou-se e a dor percorreu seu corpo enquanto se transformava. Finalmente!

Seu lobo não tomou controle de tudo e ele ficou tentado em partir para correr com sua esposa, em ir para junto do bando, mas a audição do lobo era mais forte que antes, e agora podia ouvir Emehir soluçar e murmurar em seu idioma natal coisas como “De novo não”, “O que fiz?”. Ele quis rosnar e caçar a mulher, que provavelmente era a causa de sua dor. O lobo pareceu concordar e ele contornou o quarteirão, quando estava prestes a chegar nela viu uma mulher com características similares à criatura que havia atacado Emer. Seu lobo rosnou e o rosto repleto de escamas dela voltou-se para encará-lo.

– Ela está em perigo. Quem encomendou sua morte está chegando. Tem inimigos entre os seus lobos — Ela rosnou — É melhor cuidar da minha sobrinha.

Ele viu que a criatura se tornou completamente um réptil, estendeu suas enormes asas e exalou ar, similar a neve que recobria toda a rua. Ela voou para longe enquanto o lobo acompanhava o movimento. Kallai sentiu o movimento de suas ações travarem e percebeu que seu lobo queria assumir o comando, pensou que ficaria inconsciente e que era o momento em que ele destruiria tudo à sua volta, mas ele o manteve desperto. Correu para o banco e encontrou Emer na mesma posição de antes, com exceção que agora envolvia as mãos protetoras em sua barriga. O lobo cutucou-a e ela finalmente encontrou seu olhar. Estava triste, sem seu costumeiro sorriso e o rosto completamente molhado.

– É difícil me manter afastada, quando você sempre volta para mim.

O lobo uivou e saltou no banco para se deitar ao seu lado. Apoiou a cabeça contra seu colo e sentiu que ela o abraçou. Emehir encostou o rosto em seu pelo e chorou livremente. Kallai permitiu-se sentir o que seu lobo sentia. Ele queria protegê-la e garantir que ela jamais se sentiria assim, mas, ele poderia?

Avalon estava em sua toca, transformando-se em humana e voltando a forma lupina. Detestava estar nessa situação de não poder manter a outra forma. Ela odiava por não poder ser aquilo que o homem que amava, pudesse amar também. Saber que jamais teria o que os casais tinham era o pior. Tentou não sentir pena de si mesma, enquanto sentia o corpo voltando a forma lupina. Ela geralmente realizava certa quantidade de transformações durante a lua cheia e depois podia correr junto com sua família. Geralmente correria com seu irmão Fergus, mas agora com Sophie em tão avançada gravidez, ele estaria com as atenções totalmente focadas na esposa. Avalon parou de sentir pena de si mesma e foi para fora da toca, quando suas patas tocaram na neve sentiu a neve em uma pele totalmente humana. Bufou irritada até que um som a sobressaltou. Dougal estava parado perto dela, ainda em forma humana.

– Olá — Ele parecia não saber o que fazia e evitava olhar para seu corpo, olhando para os próprios pés — Ainda.. mudando?

Avalon grunhiu em resposta enquanto voltava a ser uma loba. Geralmente era com Dougal que passava esses momentos. Ele costumava pegá-la no colo até que ela pudesse ser uma loba por completo, então se transformavam e corriam até Fergus e Sophie. Hoje ele só ficou parado olhando para os próprios pés. Ela rosnou e isso chamou a atenção dele. Quando ergueu o rosto para vê-la, Avalon fez um gesto para chamá-lo para perto. Dougal hesitou antes de aproximar-se.

– Vai ajudar ou ficar só olhando? Se for vá embora — A voz dela saiu falha enquanto voltava a forma lupina.

Era uma situação incomoda e dolorosa. O corpo dela passava por várias transformações a ponto de desgastá-la. Ela precisava de seu companheiro, mas ele não parecia se importar com isso no momento. Dougal parou um pouco, antes de finalmente arrancar a roupa e jogá-la de qualquer jeito na terra. Geralmente ele não estava incomodado com a própria nudez, mas hoje ele escondeu seu corpo de Avalon. Isso doeu mais do que a transformação pela qual passava. Ela fechou os olhos para ignorar o fato de que seu coração queria sair pela garganta. E ficou assim sentindo o corpo mudar mais vezes, só que agora ela sentia um calor na lateral de seu corpo. Ao abrir os olhos identificou Dougal, parado ao seu lado e ganindo baixo. Ele estava como lobo, deitado com a cabeça entre as patas, orelhas dobradas para trás. Com um rápido olhar percebeu que o rabo dele estava encolhido entre suas pernas. Avalon sentiu o corpo parar de mudar quando o calor dele finalmente penetrou em todo seu corpo. Dougal sempre foi o modo pelo qual a dor foi suportável.

Quando ela se ergueu sobre as quatro patas, Dougal permaneceu parado na mesma posição. Ela não precisava cheirar o medo dele, estava em todo seu corporal. Mas por trás de todo aquele medo ela percebeu a solidão. Bufou e quando seu focinho se aproximou dele, o lobo afastou-se e fechou os olhos. Avalon uivou e lambeu o rosto dele. Por mais que estivesse dolorida, não poderia mantê-lo longe. Quando ela sentiu que o corpo dele se movimentava em conjunto com o rabo, soltou um uivo alegre e começou a correr, sabendo que seu corpo havia finalmente aquietado.

Estavam correndo em direção as tundras, como sempre fizeram todos os longos anos de sua vida, quando Dougal estancou e seus ouvidos pareciam sintonizar algum som no ar. Os olhos prata dele se ergueram para o alto e ele pareceu rosnar. Avalon ergueu o olhar também e não percebeu para o que ele estava rosnando, até que ele virou o corpo e começou a correr em direção a cidade. No passado eram proibidos de correr perto dos humanos, depois de se mostrarem para o mundo, eles podiam correr mais próximos, mas ainda havia aqueles que tinham medo dos lobos. Normal, como distinguir um homem lobo de um lobo comum? Mas o povo de Wuruhuintown estava acostumado a eles. Avalon correu lado a lado com Dougal, até que percebeu que ele não corria para qualquer ponto da cidade, mas sim em direção a casa de Emer. Ela rosnou e parou não gostando do caminho e estava para sair, quando percebeu que o lobo também havia parado. Seu corpo estava abaixado, como a de um lobo submisso da alcateia.

Aproximou-se dele e percebeu o que ele via. Avalon ergueu as orelhas e ficou com o corpo totalmente agitado. O que ela via era incompreensível, a madrasta deles deveria estar correndo com seu pai, mas não, o que ela via era um lobo cinzento andando lado a lado com Emer. Ela parecia se apoiar nele. Estavam próximos a casa de Fergus, e quando o lobo ergueu o olhar percebendo que estava sendo observado, Avalon recuou. Por que aquele olhar não era o de um pai vendo uma filha, era de um lobo protegendo sua família, e por consequência, Emer era a família no caso. Dougal colocou-se diante de Avalon e depois virando de costas para os dois, empurrou a loba com o focinho. Enquanto corriam para longe, Dougal parou uma única vez e olhou para trás antes de correr para as tundras com Avalon.

Lothar tinha saído da delegacia um dia antes do ápice da lua cheia, fugiu de todos e ficou na natureza esperando que a transformação fizesse seu trabalho, mas quanto mais ele forçava a transformação, mais seu lobo uivava e o forçava a manter o corpo humano. Ele se impulsionava cada vez mais a natureza e cada vez mais seu lobo o direcionava a outro lado. Dado por vencido, e com o corpo totalmente ensopado de suor, Lothar correu para a cidade, e enquanto corria seu lobo permitiu assumir a pelagem humana. Era a primeira vez que o lobo não tomava controle dele, que ele não corria em pelo. Ele percebeu que estava se aproximando da pracinha da cidade. Quando chegou nela, o lobo assumiu controle de seu corpo e mudou. Não teve tempo para tirar as roupas então elas rasgaram e deixaram um rastro.

O lobo parecia ter suas próprias ideias e quando totalmente em pelo, correu para o coreto da praça. Ao chegar ele ergueu o focinho ao alto e uivou. Haviam vários tipos de uivos, aqueles que chamam a alcatéia para caçar, aqueles para buscar os outros membros da alcatéia, e havia aquele que ele pronunciava, o uivo de acasalamento. Ele chamava uma fêmea disposta a vir para ele. Quando eram poucas femeas os machos deveriam guerrear entre si para provar-se como um macho ideal. Era difícil um macho uivar assim, e Lothar numa semi-consciência queria matar seu lobo pelo que estava forçando a fazer, ele não queria uma companheira, ele não tinha poder para manter sua violência refreada. Ele temia o dia em que sua verdadeira identidade ressoasse e então ele mataria mais uma pessoa que ele ame. O som ressoou pelas ruas vazias da cidade. Lothar sabia que ninguém viria e isso era o que o mantinha tranquilo. Não importava o quanto ele cantava para a lua pedindo uma mulher, ela não viria. Algumas pessoas saíram as varandas e observaram o lobo cantar. Lothar não entendia porque seu lobo insistia, ainda mais longe de qualquer natureza e femeas. Seu lobo sentiu uma fascinação única e Lothar indagou-o quanto a sua diversão, até que o lobo farejou uma única vez antes de uivar novamente. O cheiro adocicado trouxe agua a boca de Lothar e ele viu a mulher que ele mais queria afastar dele. O lobo lançou-se a correr pela praça, desfilando seu pelo enegrecido para a mulher vestida totalmente de azul. Como se ela fosse um pedaço do céu, Shannon andava com os braços serpenteando pela própria cintura.

– Boa noite exibido — Shannon sorriu para ele — Não importa o que mostre, ainda parece chapeuzinho para mim.

O lobo abanou o rabo contente por ela ter o reconhecido. Chegando perto dela, Lothar jogou-se aos seus pés, expondo sua barriga para ela. Ele esfregou os pelos das costas no chão e soltou um uivo curto, enquanto ouvia o suave riso da mulher. Ela abaixou-se para afagá-lo, tirando outro grunhido curto dele. Lothar se expunha como nunca antes tinha feito por alguém, nem mesmo para seu pai. O homem gritava impotente contra seu lobo que apenas regozijava com as caricias da humana. Outro lobo apareceu ao longe, um com pelagem castanho claro com o torso se mesclando com tons castanho escuro e manchas acinzentadas, no focinho uma mancha branca, mas no momento quase irreconhecível com seus dentes arreganhados. O cheiro do medo de Shannon impregnando o seu focinho e Lothar ergueu-se para ficar em frente a ela, impedindo que o outro lobo avançasse contra ela.

O lobo castanho uivou para a lua chamando a companheira. Os pelos de Lothar eriçaram com raiva, mostrando os dentes para o castanho. Ele cheirou e sentiu o cheiro de Adami. Shannon começou a andar na direção do outro lobo, e Lothar colocou-se à sua frente novamente para impedí-la de ir em frente. Adami rosnou e avançou mais algumas passadas. Geralmente por ordem de seu pai eles deveriam correr e lutar nas tundras, evitar os humanos. Deveriam ser gentis diante dos humanos que poderiam temê-los, por razões obvias, mas nunca dois machos iriam lutar longe de sua companheira. Lothar uivou para Shannon que parou e ficou olhando de um lobo para outro.

– Adami?

O castanho ergueu o focinho num aparente sorriso e soltou um bufo, antes de girar no lugar exibindo-se para Shannon. A mulher recuou um pouco e ajeitou a peruca branca e azul e continuou a ir para longe dos dois lobos.

– Vocês dois deveriam ir para a natureza. Já os vi, agora vão.

Ela deu mais um passo para trás antes que dois borrões passassem por ela. Os dois lobos engalfinharam-se em uma luta com dentes. Lothar visava o pescoço de Adami, enquanto este tentava fugir das mordidas do oponente e investir contra os pés do mesmo. Para os dominantes a ideia era colocar os submissos de barriga para cima, mas naquela hora não era sobre submeter, e sim sobre mostrar ao oponente que aquela mulher era dele. Adami tinha decidido que Shannon seria sua companheira e ele iria brigar por ela. Ambos viam em vermelho enquanto se mordiam e tentavam de alguma forma incapacitar um ao outro. Nenhum deles ouviu a voz desesperada de Shannon tentando pará-los, nenhum parecia nem mesmo ver outra coisa, nem os pedaços do banco que foram destruídos na luta, não viram ou sentiram as bolas de neve sendo jogadas neles. Era efêmero em comparação a brutalidade dos dois machos tentando mostrar sua potencia a mulher. Ainda assim, ninguém além de Shannon estava na praça. Nenhum deles viu quando dois braços carnudos apareceu diante deles tentando empurrar cada um dos lobos para um lado. Lothar parou quando ele sentiu o sabor de sangue, um que ele não queria sentir, assim como Adami. Eles pararam a tempo de apenas arranhar ligeiramente os braços de Shannon. Braços que agora sangravam.

– Eu não acredito… Seus… seus… — Os olhos dela estavam marejados, recusando-se a deixar que as lagrimas escorressem — Eu prometi que iria pensar Adami, mas aqui vai a resposta: NUNCA.

Shannon virou-se e praticamente correu deles, mas logo dois lobos corriam ao seu lado. O castanho choramingava e cutucava seus pernas enquanto o cinzento apenas a seguia com o rabo entre as pernas.

– Eu estava realmente pensando nisso, mas não, você tinha que agir como um possessivo. O que deu em vocês dois? Vão! Eu não quero saber de nenhum de vocês. Eu juro que quando ver um dos dois na minha frente, eu vou virar mais do que uma loba, eu vou fazer picadinho de lobo e servir na quitanda.

Lothar grunhiu e mordeu ligeiramente o calcanhar de Shannon que deu um salto de medo. Mas quando ela parou, ele mudou. Seu corpo acostumando-se com a pele humana. Shannon já havia virado de costas e Adami também voltava ao corpo humano.

– Deixe-me ver seus ferimentos Shannon — Lothar grunhia, ainda com o lobo em sua voz.

– Vá cheirar o rabo do Adami nas tundras — Shannon voltou a andar em direção a sua casa.

– Meu docinho, desculpe, mas é instintivo, ainda mais na lua cheia… — a voz de Adami estava quebrada enquanto ele andava para ela — Não se precipite. Foi uma coisa de “homem” sabe? Testar a força e tudo o mais… Eu tentei parar antes de…

– Oh é você que quer cheirar o rabo dele ao invés disso? Você diz que me ama? Some da minha frente AGORA — Shannon virou-se para ele, com algumas lágrimas insistentes em seu rosto.

– Só vou se me prometer ir ver Ginger para cuidar dos braços.

Adami tinha um rosto que Shannon conhecia como cachorrinho sem dono. Ela bufou e concordou, antes de indicar com o queixo para que ele partisse. Adami aproximou-se mais uma vez, numa tentativa de perdão e ela deu umas batidinhas na careca dele, antes que ele voltasse a ser um lobo e correr para longe. Lothar estava parado com a boca aberta para a interação dos dois enquanto Shannon literalmente ignorava sua presença. Quando viu o lobo castanho afastando-se ele adiantou-se para a humana.

– Vai embora Lothar.

– Você tinha vindo por mim… Como sabia?

Ela finalmente olhou para ele, mas agora ela chorava, e isso fez o lobo de Lothar rosnar e querer mudar para agradá-la. Shannon olhou para o homem lobo, e ele sentiu como se ela pudesse ver os dois.

– Lothar suma da minha frente também. Só faça isso.

– Ganho um tapinha na cabeça? — Lothar mordeu o lábio inferior não acreditando que tinha deixado escapar algo como isso.

– Saia. Adami é meu amigo antes de mais nada.

– Parecia um amante — um rosnado de fundo e Lothar quis socar-se por isso, o lobo totalmente no comando durante a lua cheia.

– Quer saber mais? Ele queria muito ser, e estou seriamente pensando se ele não merece uma chance. Agora se me da licença, eu tenho que cuidar de um certo machucado feito por dois lobos…

– Eu posso cuidar disso, eu sou médico caso você não saiba.

– Lothar eu nunca vou deixar você me tocar. N.u.n.c.a. Então vá correr que vou ver Ginger.

Lothar sentiu como uma faca sendo enfiada em seu corpo e então torcida, só para ter certeza de que ficaria ali. Ele abaixou o rosto e seu lobo assumiu, forçando seu corpo em pelo. Quando lobo trotou com Shannon, que afastou-se dele, mas permitiu que ele o acompanhasse. Quando ela entrou na farmácia de Ginger, o lobo ficou parado na porta. Ele uivou triste para a lua, durante todo o tempo em que Shannon estava lá dentro. Quando a porta abriu-se, e a bruxa saiu para encará-lo, ele rosnou.

– Shannon disse que não vai sair daqui se estiver aqui na porta.

Lothar rosnou novamente.

– Não estou dizendo para não acompanhá-la. Vá escondido e não ao lado dela, mas não a deixe saber que está lá. Ela está chateada lobo. Eu preciso fechar a farmácia, mas se ela se recusar a sair eu não me incomodo em deixá-la dormir no meu sofá.

Ginger dormia no andar de cima de sua farmácia e Lothar preferiu não deixar que Shannon dormisse desconfortável em um sofá. Ele trotou para a noite escura e apesar de seu lobo querer seguir a humana, ele sabia que uivaria para ela e só a deixaria irritada. Com passadas rápidas ele se afastou. Quando chegou nas tundras, ele começou a disparar numa corrida sem fim ou caminho. Ele farejou o ar e sentiu um grupo aproximar-se dele. Ele queria rosnar, pois queria ser um lobo solitário naquela noite, mas a alcateia nunca o deixaria. Era para isso que existia uma alcateia. Um lobo castanho avermelhado apareceu e ele percebeu se tratar de Baas, irmão de Adami. Logo Adami e um lobo menor dos três, Chipo, apareceu. Eles correram a noite toda e caçaram alguns pequenos animais, antes de se encolherem numa caverna e dormirem pela noite. Sentindo os corpos quentes dos outros lobos ao seu lado ele ergueu o focinho e olhou para a lua. Um olhar dourado focou-se nele e então mostrou os dentes. Adami sabia que não tinha acabado ainda, mas eles eram um só, uma alcateia. Lothar mostrou os dentes para ele antes de voltar a afundar o focinho contra o lombo de um dos irmãos. Eles iriam dormir como seus irmãos selvagens aquela noite, e só voltariam no dia seguinte à cidade.

Isis sentia seu corpo perder o rumo, enquanto caminhava para longe de Kallai. Ela sabia que seu coração tinha enegrecido há muito tempo e que Bernard estava curando-a aos poucos. Mas aquele abandono ela não esperava de ninguém, muito menos de alguém como Kallai. Ela lembrou-se de quando estava solitária no mundo, percorrendo os desertos como a coiote solitária que era. Quando ela fugia de alcateias, quando o menor de sinal de lobo era motivo de brigas e dor. Geralmente dor para ela, e brigas para eles. Encontrou alguns grupos de coiotes, mas raramente ficava por perto deles. Havia encontrado uma alcateia em que o alfa sentia falta de uma filha, que estava há muito perdida, a ponto de não se preocupar com o fator dela ser de uma especie diferente da dele. Pelo alfa ela era tratada e cuidada com tanto carinho, que provavelmente tinha sido a única vez na vida dela, em que ela conheceu o amor. Porém com os outros da alcateia, ela era tão maltratada, que sua personalidade foi moldada para se proteger de pessoas como eles. Ela lembrou-se quando o alfa que cuidava dela como um verdadeiro pai, foi desafiado e foi morto por outro dominante. Ela ainda era do bando e quando Kallai ela estava quase morta pelo bando, que a detestava a ponto de atacá-la com a morte do alfa. Ele foi seu anjo protetor, o homem por quem ela se apaixonou, que ela imaginava que jamais a machucaria. Que engano.

Isis nem percebeu para onde ia quando ouviu um uivo longo de um lobo imenso. Ele era tão grande quanto Dougal e Kallai. Eles eram um dos lobos mais altos que ela tinha visto. E se sentindo ferida e maltratada, ela correu para aquele que lhe deu o coração. Ela jogou-se no chão e abraçou a pelagem cinzenta de Bernard. Ele bufou e lambeu seu rosto, então o lobo farejou no ar e olhou pela natureza selvagem. Ela ergueu o rosto e percebeu que eles eram os únicos naquela área, longe de tudo e de todos.

– Ele não vem. Ele… Nós corremos juntos sempre, mas hoje… Não ele me mandou correr sozinha. Eu não quero correr sozinha.

Isis balbuciava e chorava ao mesmo tempo. Ela sentia uma feiura imensa em seu ser, mas Bernard não via isso. Ele uivou para ela e então jogou-se contra o chão erguendo suas patas ao alto. Ele se ofereceu a ela, até que ele voltou a engatinhar para ela e colocar a cabeça contra seu colo. Isis sentiu um velho medo sendo afastado. Aquele imenso lobo jamais a machucaria. Ela percebeu usar ainda apenas só o robe de seda que colocou antes de sair, mas o cheiro de Kallai ainda estava em sua pele. Bernard deve ter sentido, mas mesmo assim ele se despojava de toda sua gloria deixando-se invulnerável para ela. Isis ergueu-se e correu com Bernard aos seus pés. Ela não queria que Kallai ficasse entre eles, e antes que o lobo pudesse impedi-la, ela tinha se jogado no lago. Esfregou seu corpo com a agua fria do lago. Em seguida mãos cobriam as dela.

– Pare com isso minha rainha.

– Não! Eu não sou rainha alguma, deixe-me tirar o cheiro dele… Eu não posso...

– É minha rainha. A dona do meu coração — Bernard virou o corpo dela contra o dele e deixou que seus lábios roçassem contra os dela — Eu vou impregná-la com meu cheiro minha rainha. Seja minha. Esqueça dele, vamos correr juntos, e vou te mostrar o que é ser um verdadeiro companheiro.

Bernard segurava o queixo dela, quando ele deixou que seus lábios finalmente tocasse os dela. A crua e selvagem vontade de ficarem juntos, e tal eles ignoraram a agua fria, o silêncio da floresta, eles ignoraram tudo a não ser eles, debaixo a luz do luar. Bernard a levantou no colo e levou para a grama da tundra, sentindo o mirtilo cobrí-los, oferecendo um abrigo natural. Seus lábios nunca a deixando, exigindo dela algo que ele sabia que não seria fácil ter. Ele lutaria contra um brenin, mas não poderia nunca mais permitir que ele machucasse sua rainha. Seu lobo e o coiote dela imploravam para brincar e correr por aquela natureza única. Bernard esfregou seu corpo pelo de Isis, garantindo que seu cheiro percorresse toda sua essência. Quando terminou e sentiu-se satisfeito, mordiscou seu ombro com cuidado.

– Eu não posso fazer isso permanente ainda. Mas eu farei minha rainha. Venha, vamos correr.

Sob o poder da lua, eles mudaram e foram correr. O coiote era mais esguio e ágil, assim como o lobo era forte e brutal. Mas ambos correram lado a lado, seus pelos tocando um ao outro, seus uivos à lua sintonizados. Eles correram até que a lua estava abaixando-se no horizonte. O dia seguinte finalmente clamando em poucas horas. Bernard levou-a para as tundras novamente, guiando para onde ele havia deixado suas roupas, e Isis permitiu-se ir. Quando voltaram à forma humana, Bernard desabou contra a grama alta rindo. Ele estava liberto, sentindo saudades de casa e da alcateia dele, mas não totalmente sozinho. Quando Isis caiu ao seu lado, ela tinha esquecido sua tristeza do inicio da noite. Eles tinham não apenas corrido, mas brincado como dois filhotes, coisa que ambos não eram há anos. Bernard brincava com os seus, mas fazia tempo que não o fazia sem se preocupar em receber uma bocanhada um pouco mais forte. Bernard deitou-se de lado, apoiando o cotovelo para olhar diretamente pra Isis.

A coiote também se apoiou e observou-o intrigada, enquanto Bernard aproximava-se mais. Ambos estavam novamente a centímetros, com todo o corpo se tocando. Ela segurou as costas de Bernard firmemente, arranhando-o quando ele começou a beijar sua mandibula e a barba por fazer dele roçava sua pele ainda sensível da transformação. Eles arfaram quando ele mordeu o ponto mais sensível da jugular dela e seus corpos acabaram esfregando-se em resposta. Bernard encerrou os olhos e deu um ultimo beijo antes de erguer o rosto para ela.

– Eu não posso — Ambos falaram ao mesmo tempo.

Isis começou a rir e Bernard escondeu o rosto em seu ombro rindo em retorno. Ele esfregou a mandibula com a barba por fazer no pescoço dela, antes de cair ao seu lado, com os olhos para o céu.

– Eu não sou assim Isis. Eu não seria o homem certo para você se a colocasse nessa encruzilhada. Eu encontrarei um jeito. — Ele passou a mão pela dela entrelaçando seus dedos — Eu prometo.

– Obrigada Bernard — Ela trouxe as costas da mão dele para ser beijada — Eu não quero que você seja meu amante.

Bernard travou e afastou-se brevemente, tirando uma risada da coiote.

– Eu quero que você seja oficialmente meu — Ela mordiscou o queixo dele enquanto ele engolia em seco — Que nenhuma sirigaita possa ficar rondando o meu homem.

Isis abraçou-o fortemente, ele respondeu, embalando-a entre seus braços.

– Então fique aqui comigo. Não como um amante, nem como um marido. Deixe-me ser seu rochedo que a segurara contra a maré. Permita que eu seja sua força para o que a aguarda em casa. Não posso suportar mais uma vez aquele rosto que vi hoje de noite. E se não puder aguentar, venha a mim e iremos correr. Para bem longe para que você deixe todos seus problemas para trás.

Isis afundou o rosto no peito de Bernard ouvindo o batimento do coração dele. Sendo um compasso calmante para a corrida que tiveram. Ela suspirou e roçou o nariz contra a pele dele.

– Vou abusar de você então.

Bernard começou a rir, o que a fez tremer em seus braços. Ele deslizava as mãos pelas suas costas, embalando-a.

– Então o que você será? Uma muralha para mim?

– Não apenas uma muralha — Bernard beijou o topo de sua cabeça — Eu também quero ser seu amigo e te apoiar. Permita-me isso minha rainha.

– Sempre.

Foi a ultima palavra antes que Isis caísse no sono. Eles dormiram embalados no respirar e no batimento um do outro. Esquecidos do restante do mundo.

Emer estava aflita com tudo que Trina havia contado a ela. E sentia que seria impossível sorrir por meses, impossível manter a mascara de sempre. Mas ali estava seu lobo, amparando-a, mesmo que ela soubesse que tão logo ele voltasse a forma humana, ele iria ignorá-la e magoar o seu coração até que ela só quisesse arrancá-lo fora do corpo e entregar ao alfa. Emehir voltou para casa e permitiu que o lobo a acompanhasse, deixou a porta aberta enquanto ele entrava e por fim trancou-a. Ela aumentou o termostato para deixar a casa mais quente e tirou as roupas mais pesadas que a envolviam, então subiu na cama e se cobriu com um cobertor muito quente. O lobo acompanhava seus movimentos com o olhar. Ela não falou nada, não deixou que mais lágrimas escorressem, mas sua mente não parou um segundo. O que fazer? Para onde ir? Era realmente seguro ali? O lobo bufou, quase como se ouvisse seus pensamentos, mas Emer percebeu que era por que ela o ignorou. Ela manteve um olhar bravo para ele.

– Você sumiu, tenho o direito de ficar em meu silêncio.

O lobo bufou de novo e girou em seu próprio corpo, antes de deitar e apoiar a cabeças nas patas, continuou a encará-la. Ela ergueu a manta e afastou-se, dando espaço na cama para que ele subisse.

– Venha cá. Eu preciso abraçar alguém. Pode permanecer como lobo se preferir assim.

Por instantes ela pensou se aquele que estava lá era apenas o lobo, ou Kallai também estava, consciente de tudo o que ela falava. O rosto de Emer estava fechado, sem os costumeiros sorrisos, sem a fala mansa, ela era quase como um cubo de gelo, apenas reagindo conforme. O lobo grunhiu, mas ainda assim pulou na cama e ajeitou-se para ficar ao seu lado, e quando estava completamente estendido no colchão, ele sentiu as mãos de Emehir cobrir seu dorso. Ele fechou os olhos e ela encostou o nariz contra o pelo dele, respirando o cheiro de bosque e ervas. Ela se agarrou nele como se ele fosse sua âncora e adormeceu. Em algum momento da noite, homem e lobo relaxaram em sua vigília e deixou que o sono batesse na porta.

O sol entrava pela fresta da edícula, e Kallai sentiu um corpo macio contra o seu. Ele passou a mão pelos braços dela, e afundou a mão em seu seio. Um grunhido alegre e um toque fantasma como um rabo sacudindo todo o corpo. O corpo aproximou mais ainda e encaixou-se na curva que ele dormia. Dormir de conchinha estava ganhando outro sentido quando a mão deslizou para o ventre e sentiu a protuberância. Ele afagou e sentiu como se houvesse uma barreira forte e não um bebê. Ele alisou em círculos brincalhões com a ponta dos dedos até espalmar a mão aberta no centro e sentiu o empurrão do bebê contra sua palma. Aquele pequeno chute invadiu o seu ser e fez uma marca em sua alma. Ele abriu os olhos quando sentiu um segundo chute e seu coração disparou de emoção. Ele deparou-se com seu nariz enfiado em fios avermelhados como uma labareda e sua audição pegou a respiração única dela, e ele soube que ela estava acordada. Kallai imaginou que ela não tinha percebido que ele estava acordado. Aproveitou que ela não saberia e deixou seu rosto ainda naquelas mechas, respirando o doce mel e a lembrança de um lar. Seu lobo respirando com ele e sentindo o corpo quente dela como se fosse um cobertor na mais fria geada. Sua palma esfregou novamente o ventre ansioso por outro chute, até que o cheiro salgado o fez parar. Kallai ergueu-se no cotovelo saindo daquela fonte preciosa de calor e viu que Emer mantinha os olhos fechados, recusando-se a despertar. Mas ele sabia mais e as lágrimas silenciosas na lateral de seu rosto contavam outra história. Kallai suspirou vencido, se não saísse daquela cama, ele nunca mais iria para casa como o mesmo homem. Ele levantou com cuidado para não movimentar tanto a cama. Emer não saiu do lugar e numa aspiração profunda, parou de respirar, procurando por forças enquanto ele se afastava. Kallai não soube quanto tempo ficou parado esperando por uma reação dela.

– Se for ficar e começar a agir como um imbecil, vá... Só vá.

Uma punhalada e uma verdade. Kallai virou-se para Emer, e ela tinha na face uma expressão fechada, ela não aguentaria uma rejeição e, muito menos desistir. Ela parecia querer forças, frágil e um verdadeiro pedaço transparente de vidro. A única força real, quem ela era agora, era a forma como segurava seu ventre. Como se ela tivesse desistido de viver há muito tempo, assim como ele. Como se Emer existisse moldada pelas situações que a rodeavam. Emer era um bebê no mundo perto dele, e já existia por existir. Sem esperanças. Kallai abaixou o rosto, vencido e ainda temeroso, mas ele deu o passo decidido. Ele perdeu o olhar arregalado de Emer enquanto deitava de volta na cama, abraçando-a apertado contra seu corpo.

– Quieta! — Ele retrucou quando percebeu que ela começou a se mover para empurrá-lo, e quando ela continuou ele colocou seus lábios sobre a nuca dela após afastar os cabelos da frente — Eu preciso, você precisa também. Só vamos deixar assim por hora.

Emer parou de movimentar-se e Kallai sentiu um pouco de paz encher-se em seu coração recém apunhalado. Ele fez carinho na nuca dela com a ponta do nariz enquanto suas mãos voltavam para seu lugar de origem, escovando o ventre dela, ansiando por mais reações da menina.

– Mas… — Emehir ficou em silêncio antes de virar o rosto para encará-lo — Você está nu.

Kallai ergueu uma sobrancelha e então olhou para baixo, voltou a encará-la e uma linha teimosa dos lábios de Emer ameaçaram erguer-se. Ele deitou a cabeça para trás apoiando-se no travesseiro e começou a rir.

– Só agora você percebeu?

– Desculpe se eu estava irritada por você ter levantado antes do tempo — Ela deu uma cotovelada no quadril dele — Mas e Isis?

Kallai parou de rir e suspirou pesarosamente. Ele voltou a apertar um pouco o corpo contra o dele, e escondeu o rosto dela.

– Só estamos deitados.

– Kallai! — Emer tentou virar novamente e quando não conseguiu, ela bufou e voltou a deitar de lado, com intenções de sair da cama — Eu prometi a mim mesma que eu iria… Não! Não estamos só deitados, por favor, não diga que isso, nós, não é nada.

O lobo uivou e ele sentiu-se completo novamente. Apesar de que nunca imaginou seu lobo tão em paz. Era algo novo para Kallai e como poderia explicar para ela? Como trazer as trevas e sangue para a cama de uma humana que passou pela sua própria escuridão?

– Eu estou com medo Emehir. Tenho medo de tudo que sou, de tudo que represento, de… tenho medo de nós.

– E acha que eu não tenho? — Ela virou-se e dessa vez conseguiu movimentar o corpo — Vivi um longo tempo da minha vida achando que nunca iria casar e ter uma família, por que não encontrei a pessoa que eu amo. E então quem eu amo, tem uma família e eu não quero ser o tipo de monstro que destrói o mundo que ele tem por mim.

Emer havia virado de frente para Kallai, e ele não conseguiu resistir a voltar a circular seu corpo e acariciar suas costas. Ele encostou a testa contra a dela e fechou os olhos, esperando a dor vir, ou qualquer coisa que pudesse anunciar a loucura. Quando as mãos de Emer acariciaram seus cachos ele estremeceu.

– Eu sempre senti um imenso desejo por sangue Emer. Quando eu era jovem e deixava que o lobo comandasse, quando eu despertava tudo que havia ao meu redor era uma carnificina como nunca você poderia imaginar. Eu criei o termo “Era das Trevas”, fui responsável por chacinas sem igual e a história foi marcada com lendas sobre mim.

– Desculpe-me, mas eu perdi as aulas de história — Emer revirou os olhos e Kallai deixou escapar uma risada — Mas Kallai o que o passado tem a ver com o hoje? Você deve aprender com os erros do passado e não cometê-los no futuro. Ainda mais você que tem tempo.

– Não é tão fácil. Quando meus filhos nasceram, eles se tornaram o único motivo pelo qual eu não caia mais, ou tanto, na tentação. Eu matava menos até e aquilo era como respirar ar fresco depois de fugir de horas na fumaça de um incêndio. Quando eu perdi a mulher que eu amei eu senti que nada mais me seguraria, nem mesmo meus filhos, por isso eu me forcei a encontrar alguém, para mostrar ao lobo que eu não sucumbiria.

– Isis.

Kallai concordou com um movimentar leve de cabeça, mas havia mais, ele sentia que retirava roupas e mostrava seu verdadeiro eu, mas ali, era como se tirasse camadas de pele. O lobo afastando-se novamente, mas de longe ele sentia a promessa de que ele estaria de volta. Inquietou tanto ao homem quanto ao próprio lobo. O animal pelos motivos de não querer afastar-se da sensação de estar nos braços do lar.

– Então você apareceu e meu lobo quis mostrar que ele também tem uma escolha — Quando Kallai abriu os olhos e encarou o cinza de Emer, engoliu em seco — Não podia aceitar que ele escolhesse por mim. Mas o que mais me assustou Emer, foi que eu senti a loucura, eu senti que ia me perder no lobo e nunca mais voltar. Nunca mais voltar para a sanidade, nunca mais voltar para a família.

– Então porque está se forçando aqui? — A dor na voz dela era palpável — Está se testando?

Kallai tocou os lábios de Emer com o dedo indicador, ele pedia silêncio e não queria que ela sofresse com stress durante a gravidez. Ele sabia, aquilo devia doer.

– Estava achando que a loucura era o pior, até que algo aconteceu. Eu sei que Lothar passa por algo, mas sei que não é igual. Meu animal sempre esteve aqui, enjaulado de uma forma que eu criei na minha mente, mas ele sempre foi barulhento. Não mais. Estava em silêncio, um tão sepulcral que eu me assustei.

Emer ergueu-se no travesseiro e ele deixou que um braço deslizasse por seu pescoço, para servir como apoio. Foi algo tão automático que ele resmungou baixo, sem tempo de pensar no que estava entregando. Agora o cafuné em seus cabelos mudou para o peito e ele sentiu os olhos fecharem e um grunhido baixo saiu quase como um ronco de sua garganta.

– Lothar diz que ainda o sente, mesmo em silêncio, ele disse que se transforma em lobo para correr, só para saber que o lobo ainda está vivo.

– Emer — Kallai ergueu a mão e acariciou a bochecha dela — Eu estava tentando correr como lobo. Ele não estava lá. Eu não o sentia, ele tinha ido. Não sei para onde, mas ele não estava mais lá.

– Não o sentia? Mas isso não era melhor? Sem mais massacres, sem mais loucura.

– Sem mais alma — Kallai ergueu o olhar — Eu sou o massacre e a loucura também, sem eles não sou Kallai. Eu achei que eu não queria mais isso, mas ficar no silêncio do lobo foi… mais que assustador. Eu sou o brenin e mantenho não apenas minha alcateia, mas também vários outros lobos. Sem o lobo? Quem sou eu?

Emer sorriu e retornou o carinho a ele, acariciando seu rosto. Ela roçou a ponta dos lábios contra a bochecha de Kallai.

– Você continuaria sendo quem você é: o teimoso homem que protege e cuida daqueles com quem realmente se importa. Você continuaria sendo o pai de crianças adoravéis e o líder que nasceu para ser. Você seria o Kallai.

Notas finais
* Mon amour : Meu amor em francês * De mode: Fora de moda.