“Quando perguntei o que diabos ela passava no corpo que atraia todo homem a um raio de 100 metros, ela deu de ombros e disse que os homens lobos falam que ela cheira a mel. Mel? Sério? Isso devia atrair homens ursos e não lobos. Mulherada, invistam nos perfumes de mel. Esses lobos são fogo. Pura paixão e proteção. Mas tomem cuidado na dose, as vezes quando a olho, parece que todo esse ‘mel’ só faz mal, que o único pote em que ela quer entrar, não está disponível. Só não sei até quando isso vai durar… ”

Tete-a-Tete com S&S

As mãos se fechavam para em seguida abrir. Estava impaciente enquanto o som do telefone tocava. Ele sabia que o seu líder estava apenas esperando o som do telefone tocar mais um pouco antes de atender. Sempre foi assim. Fazendo-o esperar. O homem lobo bufou antes que o telefone fizesse sinal de que atendiam do outro lado.

– Espero que seja importante — a voz soou zangada.

– As peças começam a caminhar. O alfa ligou para o Brenin.

– Caminhar? A puta tinha que estar morta e os pedaços entregues para o alfa. Mas não, agora ela está protegida por uma alcateia de 65 lobos. Explique-me como que as coisas estão bem. Se não tiver resultados em breve, eu receberei os seus pedaços por correio.

O som do telefone ficou mudo. E o homem resmungou. Detestava responder a alguém acima dele. Mas não poderia contra alguem tão poderoso como seu líder. Saiu da cabine telefônica e se pôs em curso ao aeroporto, onde seu alfa o esperava. Que o show comece.



Dougal olhava para a loba branca pular ao seu redor. Ele poderia transformar-se em seu lobo e brincar ao lado dela. Mas queria lhe dar vantagens, enquanto ela corria próxima a ele e então jogava seu peso contra suas pernas, tentando derrubá-lo. Dougal esquivava-se e então corria para o outro lado. Eles ficaram nessa brincadeira por horas, até que ele deixou que ela o derrubasse. A loba subiu até seu rosto o lambendo. Ele afundou a mão no pelo macio de Avalon. Deitou-a com a força dos braços e encostou o rosto contra seu pelo. Avalon soltou um uivo de contentamento e ele riu contra seu pelo.

– Você é tão macia que dá vontade de nunca mais soltar.

Avalon virou o focinho na direção de Dougal e deu uma lambida em seu rosto. Seguida abanando o longo rabo, batendo contra as pernas do homem lobo. Ela era grande para um lobo, mas menor que qualquer outro macho. Ela tinha aquelas manchas desenhadas em rosa e azul claro. Desenhos no rosto e uma pena de aguia presa no pelo. Dougal deu risada. Avalon era tão vaidosa, mesmo sendo uma loba. E Fergus fazia tudo para agradar a irmã.

– Sabe Ava você é especial para mim. É a única que não me olha como se eu fosse louco já há muito tempo.

A loba bufou, revirou os olhos o que apenas o fez rir.

– A maior parte do tempo… Tudo bem, você sabe… Eu sou sentimental!

Dougal deitou a cabeça para trás e levou a mão ao coração como se tivesse sido atingido por uma bala. Avalon uivou e o cutucou com o focinho. O homem lobo não se movimentou e continuou de olhos fechados. Avalon mordiscou o ombro dele, o que o fez rir. Ela grunhiu novamente e ele virou o rosto para olhá-la.

– Eu tenho um segredo. Você guardaria de Fergus e de todos os outros? Não contaria a ninguém?

A loba abanou o rabo contente e então curvou a cabeça para frente, num gesto que lembrava a um sim. Ele virou-se e apoiou o braço contra o chão, ignorando o gelo da neve. Então assim de frente para Avalon, ele fez um cafuné detrás de sua orelha esquerda.

– Depois de tanto tempo de vida...Oh! Depois de tanto achar que a qualquer momento eu vou cair no esquecimento ou na loucura… Estou apaixonado.

Avalon ergueu-se brevemente e uivou. Sua cauda abanando mais forte. Ela olhava para Dougal diretamente.

– Ela é linda, inteligente e brincalhona. É um pedaço do céu.

A loba aproximou-se mais dele e enrolou-se contra a barriga de Dougal. Ele riu e a abraçou, afundando o rosto dele contra seu pelo novamente. Ele inspirou com força e fechou os olhos contente.

– Eu gosto tanto dela!

– Então deve contar a ela.

A voz da mulher sobressaltou aos dois. Dougal sentou-se bruscamente, com o rosto completamente vermelho. Avalon ao contrário rosnou para a intrusa. Parou quando o cheiro a atingiu e ela olhou para o ventre da mulher. Dougal suspirou e murmurou baixo para que apenas Avalon ouvisse.

– E sim...ela está gravida.

Avalon deu um pulo para o lado, o olhar triste olhando para Dougal. Emehir olhou para os dois e levou a mão ao peito. A loba recuou alguns passos e uivou. Seu uivo triste cortou o coração da mulher.

– Avalon? — Dougal olhou assustado para a loba.

– Oh então você é a irmã de Fergus? — Emer olhou-a e depois se voltou para Dougal — Você realmente precisa melhorar sua habilidade de falar com as pessoas que ama.

Dougal olhou sem entender as duas o que acontecia. Emehir sentou-se numa pedra próxima aos dois e olhou para Avalon.

– Homens podem ser uns tolos, especialmente os mais velhos.

A loba olhou-a novamente e abaixou novamente a cabeça em consentimento. Dougal inclinou a cabeça em um gesto lupino de curiosidade. O que ele tinha perdido no meio dessa interação? Emehir estendeu a mão num gesto de quem queria tocar à loba e Avalon trotou até ela deixando que ela afundasse a mão em seu pelo. Dougal se sentiu momentaneamente vazio quando a loba se afastou dele. Emer afagou o pelo da loba e pareceu pensativa por instantes.

– Dougal… Eu tenho uma dúvida. E não saberia mais a quem perguntar.

Ele ficou mudo. O modo como ela falou, o modo quase sussurrante e pensativo que Emehir o questionou fez seu peito doer. O que vinha não era algo direcionado a ele. Percebeu que os três dias que se passou desde que ele saiu do conselho a reivindicando como dele para proteger e cuidar, ela tinha se afastado e trancado-se em casa. Sophie era a única que parecia ter tido contato com a mulher. Ele quis culpar os hormonios, a si mesmo por matar diante dela. Mas algo o dizia que ela não tinha visto a morte, por que estava preocupada com um Kallai que saiu atrás da esposa. E não voltou mais.

– Solta. O que é?

Avalon olhou para a mulher e grunhiu, antes de colocar o rosto contra o colo dela e cheirar o ventre. Emer riu e afagou detrás da orelha da loba.

– Como que é a transformação para um lobo?

– É como respirar. Não sei te explicar o que sinto quando me transformo. Avalon também, mas ela é inversa. Nasceu loba e tem dificuldade de transformar em humana. A mim sou um homem lobo, mais homem que lobo. Mas ele ainda está lá.

Emehir corou e então balançou o rosto. Ela mordeu a própria lingua antes de poder consertar as palavras que iria dizer. Olhou para Avalon que tinha seu olhar fixo nela. Parecia tentar entender sua linha de raciocínio.

– Eu quis dizer… É possível transformar uma humana em uma mulher loba.

Dougal saltou em direção a Emehir. Foi tão rapido em seu movimentar e então antes dele chegar ate ela começou a andar de um lado a outro. Inquieto. Completamente inquieto.

– Não pense nisso Emer. Quando um lobo encontra sua companheira em uma humana, a magia que existe em nós mantém o corpo humano como se parado no tempo. Não revelamos isso para não ter um monte de humanos buscando a imortalidade conosco. Ninguém tem noção do que é ver os entes queridos morrer e você continuar ano após ano, vendo todos partirem… Não é necessário uma transformação.

– E por que não vejo casais assim? Só há casais lupinos.

– É porque com o tempo, você deseja completar-se e ser como seu companheiro. Mas é preciso prender o companheiro longe.

– Por que?

Dougal respirou fundo e parou finalmente de andar para olhar para Emer.

– Porque a pessoa para se transformar tem que estar sem quase nenhum sangue no corpo. Em seu ultimo sopro de vida. A mordida de um homem lobo vai forçar o coração a bombear com força novamente e o sangue será refeito, e junto com o novo sangue, vem a alma do lobo para o corpo humano. Mas nem sempre o resultado é certo. Muitos morrem com a tentativa de se transformar em um lobo — Dougal olhou para Avalon que parecia tremer diante de Emehir — Você… Você quer isso não é?

Emehir assentiu com um movimentar de cabeça.

– E isso não é por mim…

Ela viu o olhar de dor no homem lobo, mas também sabia que ele cheiraria sua mentira se o fizesse. Então olhou para Avalon, que parecia aguardar a resposta dela com a mesma expectativa de Dougal.

– Eu quero por outro motivo. Mas não colocarei meu bebê em perigo.

Dougal abaixou o rosto, e balbuciou coisas que nenhuma das duas entendeu. Ele falou no idioma antigo, em um que estava morto para o resto do mundo. Virou-se para elas e saiu andando. Ouviu Emer chamar, ouviu um uivo de Avalon, mas tudo que ele tinha em mente era sair de perto delas. Não queria quebrar diante delas. Ele caminhou para longe, sem rumo.



Há muito que havia esquecido o que era estar no mundo moderno. Há muito que ele não tinha caminhado para longe de seu alfa. Onde tudo começou como uma fuga para os dois amigos, logo se tornou um propósito e então uma família. Bernard olhava para aquelas pessoas no avião que desconheciam que voavam ao lado de um homem velho. Ele era como um lobo vestido de ovelha. Um vaso bonito guardando terra podre. E a única pessoa que podia impedir que essa terra contaminasse tudo o que tocasse, ficou na pequena cidade de Hollyhead, no velho país de Galês. Ele era necessário lá, assim como Emehir deveria retornar para casa. Mas saber que aquele Brenin tinha sua amada, deve ter sido um belo chute no traseiro. Eles eram primos, distantes e esquecidos, mas acima de tudo, competitivos. Bernard grunhiu, adorava Emehir como à uma irmã, amava quando ela cantava para a vila. Mas sinceramente? Não queria estar no meio daquela guerra.

Quando chegou no aeroporto, depois de pegar suas malas, ele vasculhou o saguão. O Brenin deve ter mandado alguém para busca-lo. Obviamente como era um homem lobo não seria necessário uma placa para identificação. Ele aspirou profundamente procurando pelo cheiro costumeiro de lobos. O ar condicionado, o suor dos humanos e os perfumes das pessoas e das lojas eram um obstáculo gigante, se não fosse pela sua idade ele jamais conseguiria encontrar outro sobrenatural. Sentiu aquele cheiro fresco comum entre os faes e também o cheiro adocicado dos bruxos. Outro cheiro aguçou seu lobo, que uivou como se fosse noite de lua cheia. Ele sentiu o desejo de caçar e lutar. O que instigou tanto ao lobo? Ele procurou pelo saguão mais uma vez, mas nada parecia prender a atenção, até que a viu.

A mulher estava atrás de alguns homens, um dos quais estava segurando um cartaz procurando um tal de Sr. Anderson. Ele aspirou de novo, mas não houve cheiro vindo dela, quase como se o instigasse a caça — lá. Um sorriso maldoso em seus lábios antes que ela sumisse de sua vista. Como? Ele era um caçador, como poderia perder a visão de uma loira tão formosa? O lobo dele uivou em concordância. Eles teriam que caçar, a missão por Emehir momentaneamente esquecida, sabia que o Brenin não iria ferir a dama. Bernard começou a caminhar pelo saguão procurando pelo cheiro que havia sentido, um que ele não conseguia identificar. Como seu nariz parecia falho na busca pela mulher, confiou em sua visão. Ela era baixa, e pela rápida olhada, ela usava um vestido tubinho preto channel, com um bolero de renda.. O sapato era um loubotin preto com pequenos brilhantes enfeitando-o.. Ele podia entrever os brilhos de joias, e arriscaria o pescoço que vieram da Tiffany, espalhados pelo corpo: pescoço, cabelo, orelhas, pulsos e também no tornozelo esquerdo. Era uma verdadeira realeza no meio dos pebleus. Seu lobo uivava ansioso pela caça. Ele gostava de dilacerar suas presas, mas a imagem que vinha a sua mente, era de dois lobos se misturando, onde nenhum sabia onde um começava e outro terminava.

Ele percebeu que estava sendo levado para um lugar com menos pessoas. Menos olhares, mais intimidade. Ele parou em um corredor em pleno desembarque. Sentiu seu lobo oprimido e irritado com novos cheiros atrapalhando sua caça. Bernard foi caminhando para encostar contra a parede quando um corpo esbarrou-se contra ele. Segurou um rosnado quando percebeu que quem se roçava contra ele era sua presa. Ela estava de costas para ele, empurrando-o mais contra a parede. Seu coque na mesma direção do nariz do lobo. Bernard passou a mão pela cintura dela, sentindo o material grosseiro do tecido sob suas mãos. Ele queria tocar sua pele e não o vestido. Ouviu-a suspirar enquanto ele a puxava mais contra seu corpo. Seu lobo uivava de satisfação.

– Não precisa fazer isso para me conquistar lobinha.

Ela rosnou baixo, de modo que os humanos presentes não ouviriam. Bernard desceu com a ponta do nariz sob a pele dela. Sentindo a fragrância forte de seu perfume de pimenta e canela. Uma ótima forma de mascarar o cheiro de sua pele. Ótimo contra predadores. Era uma loba inteligente. Ele tentou pegar o cheiro natural dela, mas não conseguiu. Ele parou com o nariz na dobra de seu ombro e do pescoço e rosnou baixo antes de morder aquele pedaço de carne. Era uma marcação de dominância, e a sentiu estremecer ao seu toque.

– O alfa me mandou um belíssimo presente para recepcionar.

Um rosnado que veio de outrem o sobressaltou. Ao erguer o olhar encontrou o homem lobo de punhos cerrados. Seu velho gosto por moda despertou, mesmo que ele desejasse apenas arrancar a cabeça do lobo, não pode deixar de reparar na roupa do jovem lobo. Ele se vestia como um modelo, apesar de que sua postura corporal dizia outra coisa dele. Usava um jeans com aspecto de velho da Coolci, o sobretudo azul-marinho da Tommy estava entreaberto mostrando uma polo da broksfiled e um polouver de cachemirra preto. O sobretudo tinha um capuz que estava sobre sua cabeça. A barra do capuz, o tipico toucado com pelos, impedia de ver muito do rosto do homem. O lobo de Bernard fungou irritado. Algo estava de errado no que ele via. Ele aspirou e sentiu o cheiro de um lobo velho, apesar de não ser tanto quanto ele. E logo ele entendeu o que havia de distinto na postura, ele não era dominante, era um omega.. Seu lobo estava frustrado porque não conseguia forças para enfrentar o omega, não por não ser mais forte que o outro, mas sim porque somente lobos loucos atacavam omegas. O pouco que via no homem era o formato do rosto ovalado do povo inuite, mas também havia os traços galeses nos lábios, nariz e olhos..Olhos de um azul marcante os quais pareciam brilhar de raiva. Bernard colocou a jovem loba atrás de seu corpo para protegê-la, pois aquele olhar não era dirigido à ele, mas sim a pequena dama.

– Cuidado senhor. Essa mulher não deveria ter vindo… E vou fingir que não vi o que aconteceu aqui.

– Não precisa fingir. Tomarei-a como minha…

– Cale-se tolo — O lobo balançou os cabelos negros de um lado a outro quando recusou bruscamente as palavras de Bernard — Essa loba é a companheira do Brenin. Quer mesmo enfrentá-lo por ela?

O músculo da mandibula de Bernard saltou. Ele olhou por cima dos ombros para ver sua loba. Ela estava com o queixo erguido, como se o desafiasse a criticá-la. Mas havia mais naquele olhar, algo que Bernard não gostou de ver. Havia muitas emoções conflitantes nela. Mas Bernard veio a Muruhuitown por uma mulher, que não era aquela. E ambas as mulheres que ele queria levar dali, com certeza apenas provocaria uma briga pelos lobos. Bernard conhecia Emer e sabia que teria que lutar para levá-la dali. Era sempre foi assim, querida por todos. Se estivesse como um lobo agora, ele teria caminhado até o omega com o rabo entre as pernas. Uma luta pela companheira do Brenin não era algo que ele gostaria de enfrentar. Não ainda, não sem planejamento.

Quando Bernard aproximou-se do omega, ele percebeu que o lobo mantinha a postura de ataque para a mulher. Ele parou servindo de muralha para ela.

– E sendo ela uma rainha, deveria tratá-la como tal.

– Meu pai a trata como uma rainha. Ela poderia agir como tal e não se… — ele parou de falar e olhou para Bernard — É só que o respeito deve ser mutuo. Alias, sou Lothar, filho de Kallai e seu guia até a cidade.

A loba bufou atrás de Bernard. O omega não falou mais nada, apenas se virou e ando na direção da saída. Quando a mulher passou por ele, Bernard a abraçou por trás, longe da vista de Lothar, aproximou seus lábios do ouvido dela e sussurrou para que apenas os dois ouvissem.

– Vim por uma missão por hora, mas voltarei por ti e então discutiremos sobre sua dor e eu a aliviarei.



A sala estava em um silêncio estranho. Kallai estava sentado na ponta da mesa enquanto cortava o frango recheado que Sophie havia feito para a família. A sua direita estava Isis, a esquerda estava Lothar. Ao lado de Lothar estava Fergus com uma cara de poucos amigos e sua esposa ao lado. A frente do casal estavam Dougal e Emehir. Nos pés do homem lobo Avalon era a única a abanar o rabo. Na outra ponta da mesa estava Bernard. Ele tinha o cenho franzido para o velho lobo.

Quando Kallai terminou de cortar o frango, com ajuda das mulheres, eles serviram e finalizaram os pratos. Então como numa procissão ele trouxe uma terrina e entregou as mãos de Dougal.

– Faça as honras.

Dougal resmungou algo na velha língua e começou a servir a terrina com um pouco do caldo de batatas e partes do frango. Ele estendeu a terrina para Avalon e e ela uivou. Dougal resmungou um "exigente" e serviu mais um pouco de frango. Emehir dessa vez segurou um riso e olhou para Avalon.

– Quer cenouras?

Rosnado.

– Ela não quer cenouras.

Agora foi a vez de Dougal segurar a risada. Ele colocou uma cenoura na terrina e ouviu um rosnado. Ele riu, levando a família a rir junto.

– Se resmungar mais um pouco cortarei em pedaços para não ter escapatória mocinha — Fergus disse numa voz mais seria, sendo o único a não rir da brincadeira — E colocarei mais...sei você não é um coelho, mas faz bem para para a pele.

Quando Bernard olhou para a invertida, Fergus atreveu — se a uma piscadela para a loba. Avalon apenas saltou no colo de Dougal e ficou olhando para a terrina, lambendo o focinho. Ao ver a cena Bernard rosnou baixo e olhou para Emehir, que aparentemente mantinha a calma.

É uma fêmea. Como isso pode acontecer? Bernard perguntava ao seu lobo, que por hora mantinha-se em silêncio. É uma invertida isso é correto, não consegue manter a forma humana, ou então estaria conosco na pele humana. O que uma dessas faz viva? Tem cheiro de velha. O lobo enviou imagens de vários nascimentos em que presenciaram. A maioria dos filhotes que sobreviviam ao nascimento lupino, nasciam como homens, e a consciência do lobo deixava que eles aprendessem com mais rapidez do que um ser humano comum. As vezes, nasciam crianças como lobos. Estes tinham mais dificuldades de manter a forma humana, e no passado, era muito comum que estes filhotes fossem sacrificados. O lobo enviou novas imagens a mente, dele mesmo, tendo sido convocado para matar os filhotes. Nenhum pai gostaria de matar seus próprios filhos, especialmente as femeas. Elas eram graciosas até mesmo como filhotes de lobos. Mas ela tem cheiro de velha...Como pode ter sobrevivido? Não, como pode ter mantido essa consciência tão humana? Sua inteligência é perceptível daqui.

– Vai deixar essa invertida ficar em cima da mesa?

Kallai se ergueu com um estrondo. O barulho foi maior, pois Fergus quase que imediatamente reagiu de forma similar. Apenas o som das suas mãos contra a mesa impediu que Bernard continuasse a falar. Os dois homens lobos não fizeram mais nenhum barulho. Havia apenas a sensação da dominância na mesa. Avalon mostrava os dentes em sinal de desagrado. As mulheres estavam de cabeça baixa, com exceção de Sophie. Bernard recuou alguns centimetros da mesa. Mas foi Dougal que interrompeu o poder dos dois alfas da sala. Mesmo com uma psi e um omega na mesa, aquilo poderia terminar em sangue se não fosse bem controlado. Dougal alisou o pelo de Avalon que grunhiu e se ajeitou em seu colo, encostando o focinho contra o pescoço dele. Emehir finalmente ergueu o olhar para Bernard e quando estava prestes a falar, a voz de Kallai se fez presente. Era um tom único, o poder do alfa imperando na mesa. Não qualquer alfa, mas o Brenin, e com o peso dos séculos, todos estremeceram às suas palavras. Até mesmo Sophie, que assentiu com um menear de cabeça.

– Fale de novo nesse tom com minha filha e farei que você volte em pedaços para meu primo. Pode ser seu beta, mas não tem meu respeito.

Bernard mordeu o lábio, respirou fundo e por fim olhou para Emehir. Ele virou o rosto, estendendo seu pescoço em um claro sinal de submissão ao Brenin.

– Perdão pelas minhas palavras, mas de onde vim… Bem não temos o privilégio de ter uma invertida com tamanha inteligencia e comunicativa como sua filha. Nem todos tiveram o poder de manter uma invertida na alcateia.

– Você deveria dizer: nem todos deixaram de ser preconceituosos — Dougal resmungou, antes de dar um tapa amigável contra o lombo de Avalon — E essa loba comunicativa tem nome. É Avalon.

– É um belo nome — Bernard concordou, mas manteve seu olhar sobre a loba, antes de se virar para Emehir — Parece bem ao lado de uma loba, achávamos que teria medo se nos visse em nossas peles lupinas.

Emehir sorriu, levou o dedo ao queixo pensativa, antes de finalmente voltar a olhar para Bernard.

– Eu acho que se fosse antes de viajar, eu teria medo sim. Mas foi um lobo que me salvou. Por que teria medo de Avalon ou qualquer outro lobo agora?

Bernard olhou para o ventre de Emer e rosnou irritado. Ele não queria ser quem levaria ao seu alfa que a mulher que ele amava tinha acasalado com outro lobo. E era óbvio que pelo jeito que Dougal estava proximo a ela, quem seria o pai. E pior, salvar? Do que ele a salvou? De sua inocencia? Bernard soltou num bufo negando o que a humana havia dito.

– Salvado? Sei — Ele fez um gesto com a cabeça para o ventre dela — Acho que discordo de suas palavras Emer.

Dessa vez os rosnados masculinos foram alto o bastante para fazer a mesa tremer. Bernard colocou-se em posição de defesa instintivamente. Sophie ergueu-se e bateu uma palma, que ressoou acima dos rosnados dos homens da mesa.

– E…...Essa é a deixa para começarmos a jantar.

Emer concordou com a cabeça, levemente pálida com o comentário. Como explicar para o homem que apenas foi gentil com ela lá em sua vila, que na verdade ela tinha sofrido um ataque? Pelas palavras dele, será que iria aceitar o bebê da mesma forma em que ela aceitou? Os rosnados foram baixando, até que sobrou apenas Fergus rosnando, a ponto de Sophie dar um chute por debaixo da mesa. Quando finalmente o silêncio foi conquistado, Isis que até então tinha ficado observando tudo que aconteceu começou a rir. Todos olharam para ela como se tivesse nascido chifres em sua cabeça. Avalon também acabou descendo do colo de Dougal soltando uivos que imitavam a uma risada.

– Isis!!! Avalon!!! — Kallai rosnou para que elas parassem de dar risadas.

– O que? — Isis falou entre risos, secando uma lágrima enquanto o fazia — Ele não deu uma dentro desde que pisou nessas terras. Tenho pena só de pensar se ele vai sobreviver a mais alguns segundos nesse jantar.

Lothar olhou de Isis para Bernard e por fim para Emehir. Quando seus olhares se encontraram ele fechou-os e depois de alguns segundos, como se estivesse pensando se valeria a pena ou não comentar, o médico finalmente soltou.

– Você não deveria rir, especialmente porque você sabe…

– Sim, sim, eu sei. Que a humaninha está carregando um filho de chocadeira ou quem sabe uma lagartixa, mas o que me deixa curiosa é, porque você não contou isso no telefone para seu primo querido. Assim teria evitado que o lobinho aqui cometesse tanta gafe.

Dessa vez foi Emehir que interferiu, pois a mesma levantou-se num ato e olhou feio para Isis. A loba mostrou a língua para ela. E foi prontamente ignorada.

– Vamos fazer uma oração e agradecer pela comida. Depois poderemos discutir sobre… — Ela ergueu a mão para Bernard que parecia querer saltar sobre ela — D.E.P.O.I.S.

Sophie sorriu meigamente e se levantou também para pegar a mão de Emehir por cima de um Dougal muito irritado. Sophie entendeu a deixa de Emer, para enfim cantar uma breve oração. Sua voz carregada do poder de uma psi acalmou um pouco os ânimos para que finalmente eles pudessem jantar. Aquela seria uma longa noite.



… Haviam algumas coisas com as quais ele não se dava bem. Uma: traição. Duas: dor. Três: Roubo. Oh! Espere, a terceira era apenas uma continuação da primeira. Ah! Sim! Três: Frio. Só havia um tipo de frio que ele tolerava, mas isso era porque ela era família. Apenas por isso, e agora, o que ele mais desejava era isso. Sua família. Ele encontrou uma caverna com fontes termais. Quem diria, em pleno Alasca, no meio do lugar mais frio que encontrou, havia um paraíso como esse. Não era longe de onde sua esposa estava. Ele estava mergulhado nas aguas pela terceira vez desde que conseguiu realmente abrir os olhos. Thorian deixou que seu corpo encontrasse o lugar mais quente naquelas terras, já que seus olhos estavam tão inchados que era impossível de enxergar.

Ele nunca viu um homem lobo como aquele. E para piorar se interpôs entre sua esposa e ele. Ela estava com o ritual de acasalamento e transformação quase concluído. O dragão que existia dentro dele gritava de indignação porque ela estaria insegura e longe de sua proteção. E família sempre foi importante pra Thorian. Entrava entre a lista de coisas que ele gostava: joias, calor, família. Ele excluiu virgens do tópico, já teve a sua. E era o que ela era: sua. Sua Emehir.

Um som característico o fez abrir os olhos e virar para a entrada da caverna. Um som de puro prazer saiu de seus lábios. Ela caminhava como se comandasse o mundo e Thorian sabia, que o poderia fazer. O cabelo encaracolado era castanho como o seu, assim como os olhos de mesmo tom, o rosto era ovalado e um pouco mais curto que o próprio. Ela era mais baixa que Thorian, mas seu corpo gritava guerreira. E mesmo não tendo nada que chamasse atenção, nada que a destacasse, ele sabia que sua irmã nunca precisaria disso. Quando ela chegou na beirada da terma, ele se levantou e caminhou na direção da irmã. Ela enrugou o nariz enquanto analisava o corpo dele.

– Brincando com uma dragomir que desconheço?

Thorian abriu a boca, mas logo a fechou. Olhou para baixo para ver os cortes imensos que iam de um ponto a outro do seu corpo. A carne ainda não estava totalmente fechada, mas aquilo obviamente não eram marcas de uma dragomir. Algumas escamas ainda estavam no corpo, mantendo a proteção do mesmo, para que ele curasse por completo. Diferente das outras especies que contavam com curandeiros e médicos, os dragomir tinham que forçar o próprio corpo a elevar a capacidade de cura e em contrapartida ficar completamente indefeso. Trina não se incomodou com a falta de fala do irmão, conhecendo como ele é tão fortemente conversador. Ela tirou a mochila que trazia as costas e tirou um cobertor e uma garrafa com cheiro de várias ervas. Thorian apenas resmungou ao ver aquelas coisas. Trina abriu a garrafa e começou a encharcar o cobertor antes de se aproximar do irmão. Ela jogou o cobertor sobre ele e começou a esfregar as feridas. Ouviu um guincho e em seguida o cobertor aquecendo.

– Não ouse queimar esse cobertor!

O cobertor parou de aquecer e Trina continuou a esfregá-lo. O silencio da caverna era reconfortante para o dragomir, mas sabia que por pouco seria mantido. Sua irmã gostava de barulho. Ele contava mentalmente quanto tempo demoraria aquele silêncio.

– Você escolheu um lugar distinto para montar residência. Eu AMEI!

Trina parou de esfregar o cobertor contra o corpo do irmão. Ele nem tinha contato até três. Thorian afastou o cobertor apenas para ver que sua irmã tinha uma mala largada na frente da caverna. Quando olhou para o rosto da irmã, ele percebeu que ela queria falar algo. Mas a curiosidade dela seria sanada logo. Ele precisava de ajuda, e quando alguém da família pedia, todos se moviam. Só que a família deles, eram apenas os dois contra o mundo.

– Por que achou que era uma dragomir? — Thorian resmungou as palavras rápido demais. Detestava falar.

– Por que cheira a acasalamento. Exala esse cheiro de sexo. Até mesmo por cima do cheiro da violência.

Ele concordou. Mas ambas ações não aconteceram ao mesmo tempo.

– Acasalei, depois briguei.

– Ela é uma dragomir de gelo? Quer alguém como eu irmãozinho? É o minimo que posso imaginar, por escolher um clima como esse. Você é um dragão de fogo.

– Não lutei contra minha esposa.

Trina exalou forte e estalou a língua. Então bateu palmas contente com as palavras do irmão.

– Terei uma irmã igual a mim? E com quem lutou? Vamos desembucha Thor

– Não. Era um homem lobo.

A boca da dragomir escancarou. Ela balbuciou algo e então aproximou do irmão. Farejou-o e ele num impulso tentou afastá-la. Trina passou a mão pelos ferimentos do irmão analisando cada marca. Ela cruzou os braços e empurrou o irmão para que ele sentasse. Sua irmã era alta, mas perto dele sempre foi menor. Como não gostava disso, sempre quando ia agir como seus pais, ela preferia que ele estivesse olhando-a de baixo.

– Eu quero sobrinhos. Não me importo se queira se relacionar com um macho.

– Eu disse esposa.

Trina riu e concordou com a cabeça.

– Eu sei. Tem cheiro de femea ao seu redor. Por isso você vai ter que falar mais irmãozinho. Pode vomitando a história. Eu quero saber como um lobo poderia ter feito um ferimento como esse.

– Era um lobo do meu tamanho.

– Então era um urso.

– Não! Era… é um lobo. E ele a tem.

Trina ergueu a cabeça desafiando o irmão a continuar a falar sobre o que realmente aconteceu. Ela percebeu que havia algo errado. Como irmãos eles tinham essa ligação, ainda mais quando eles cresceram juntos com tantas diferenças. Ela era uma dragomir do gelo, preferindo lugares mais frescos e, Thorian como um dragomir do fogo prefere lugares quentes. Quando ele a chamou para trazer suprimentos e para pedir ajuda, coisa que o orgulhoso de seu irmão jamais faria, ela se preparou para o pior. Mas uma esposa? E uma que lhe foi tirada?

Thorian respirou fundo e se preparou pra contar como havia encontrado Emer, a contratação para matá-la, seu medo para com tudo que a cercava. O modo como resplandeceu ao voar e comentar que tinha sido sua primeira vez. A voz de Thorian era emocionada quando percebeu como ela se preocupou em explicar que não podia comer carne. O fator de achar que ela poderia ser uma bruxa, só que ela não cheirava a tal magia. Ele contou quando o lobo tentou atacar sua esposa e ele a protegeu. Por fim quando ela brincou com ele no ar e como tinha compartilhado sua virgindade com ele. Quão bela estava sua esposa com as jóias que ele deu para enfeitar seus belíssimos cabelos vermelhos. Ele estava chegando na parte em que o lobo atrapalhou a última etapa do ritual de acasalamento quando Trina gritou.

– Ao que ela cheirava?

Thorian balançou a cabeça irritado. Havia gastado voz, falou sobre sua esposa e sua personalidade marcante, o modo como ela era digna de ser uma dragomir e tudo que a irmã queria saber era sobre o cheiro dela?

– Cheirava a mel.

– Algo mais?

– Humana.

– Imbecil!

Thorian ergueu o olhar para a irmã e mostrou os dentes afiados de seu dragão. Trina também mostrou os dentes para o dragomir totalmente frustrada. Seu irmão desafiou as ordens básicas de todo dragomir. Pior revelou sua verdadeira forma a alguem lá fora. Trina tinha uma idéia de como seu irmão era anti-social e isolado do mundo, mas não imaginava que tanto a ponto de ignorar ao fato que havia estuprado a alguma pobre humana. E pior, pela ingenuidade que ele falou sobre ela se assustar com coisas comuns... Trina resmungou.

– Você não perguntou pra humana se ela queria ter sexo com você?

– Não foi sexo. Foi amor.

– Não foi não. Ela estava com medo. Você mesmo falou.

– Estava com medo de Petrus no minimo

– Você já se olhou no espelho?

O brilho de dúvida no olhar de Thorian era tão evidente que Trina soltou outro palavrão. Como ele tinha sido tão estúpido ao ponto de agir como um homem das cavernas? Esquece. Ele é um homem das cavernas...não, é um dragão.

– Irmãozinho, sei que ficou muito tempo longe da civilização então… Quando se conhece alguém vocês conversam, falam sobre o que sentem, saem para jantar e depois de algum tempo juntos vocês casam… Quanto tempo você passou com uma humana e sem contar o que era? Ahn… dias?

– Ela é minha esposa.

– Esposa? Você por acaso iria gostar que alguem enfiasse um nabo na sua bunda ? Aqui vai, meu novo ritual de acasalamento. Nabo no rabo.

– Ela É minha esposa. E nabo não.

– Não terminou o acasalamento grandão. Ela não é sua e jamais será.

Thorian rosnou e a água da terma estremeceu com sua bronca. Ambos os irmãos estavam de pé, com sua linguagem corporal em posição de luta. Os pés fincados no chão, mãos fechadas em punho, corpo inclinado para frente.

– Vou consertar isso. Vou buscá-lá. Enviei um presente para ela até.

– Você o que?

Trina bufou e começou a andar de um lado a outro pela caverna. Num pulo ela puxou o poder de gelo dragomir e prendeu os pés do seu irmão no chão. Ele estava ferido ainda, e portanto mais lerdo. Ao fazer isso, ela o deixou indefeso contra ela, com o gelo tomando posse do copo de Thorian. Ele cuspia fogo contra o gelo e Trina apenas retomava. A caverna virou uma névoa. O dragomir parou de investir fogo quando escutou sua irmã se afastando pra frente da caverna. Um barulho dela procurando algo na mochila que tinha sido largada na frente. Devia ser a que ela trouxe mantimentos. Trina ficou com fome depois da briga? Ele tentou farejar algo no ar, mas inalar era duro com os pequenos fragmentos de gelo que circundavam o corpo de Thorian. Trina voltou segurando um nabo imenso. Thorian rugiu para que ela mantivesse distância.

– Vou casar com você irmãozinho, vai sentir a impotência da humana enquanto estiver preso e sem poder se defender. Assim como ela esteve...

Thorian arfava com os ferimentos recém abertos com o esforço de tentar se defender da irmã. Ele tentou lembrar melhor dos detalhes da noite de seu acasalamento. O que ele tinha feito? O dragomir abaixou a cabeça rendido.

– Oh não irmão. Não farei isso. Vou procurar essa humana e se ela estiver viva, entregarei este nabo na mão dela. Vai recompensar pelo que ela teve que passar. Tenho a idéia perfeita para isso. Fará?

Thorian apenas acenou com a cabeça e Trina repetiu a pergunta. Ele ergueu os olhos para enfrentá-la.

– Eu farei. Mas irmã, eu ainda a quero. Ela é digna de...

– Não ouse. Como se ela fosse querer ser o monstro que a estuprou. Não! O que importa é que concordou. Agora vou buscá-la.



Emer estava caminhando com Bernard por Wuruhuitown, mostrando a cidade e o apresentando ao povoado. Depois do encontro tão frustrante para o homem lobo, ficar aos arredores da humana foi tranquilizante. Bernard nunca foi o falante quando se viam. Alias, geralmente era Aaron quem interagia com Emehir, ele apenas os acompanhava a distância. Emer parecia estar lidando bem com tudo, seja lá o que o tudo queria dizer. Bernard decidiu fechar a boca para não arriscar mais nenhum erro.

Fergus, o mediador de Wuruhuitown e da alcateia de Kallai, autorizou que Emer caminhasse somente com o lobo, visto que ele era alguém em que a humana confiava. Desde o fatídico jantar, ninguém mais ouviu a voz de Bernard e esse tinha sido o primeiro passeio entre os galeses.

Emehir parecia deslumbrante e caminhava com poderio, tanto como ela o fazia em casa. Bernard percebia que ela havia se estabelecido na cidade. Mas sempre foi assim. Emer era uma pessoa chamativa, com seu jeito amoroso para com todos. Ela estendia sua mão para ajudar a quem necessitasse. Ela mantinha a mão sobre o ventre enquanto caminhava animada contando sobre um tal senhor Punnu, que era um velho lobo da loja de esportes. Dizia que adorava passar algumas tardes em sua companhia, pois a lembrava de sua avó, detalhe o qual ela pediu para manter em segredo do velho lobo. Mesmo sem humor, Bernard sempre sorria com algo que a jovem dizia.

– Emer, nós precisamos conversar…

A mulher inclinou o rosto levemente para a direita. Sua postura tão lupina que Bernard recuou num repentino susto. Ela estava tão acostumada a viver com os homens lobos que ela não deve ter percebido, mas havia pego alguns trejeitos do povo.

– Nós estamos conversando Bernard.

– Eu quis dizer sobre… Sobre o que aconteceu. Você é nossa para proteger Emehir.

Ela ergueu a cabeça e levou as mãos aos céus. Bernard sorriu com a indignação dela.

– Vocês tem que parar de dizer isso. Qual o problema com vocês lobos e proteção?

– Desculpe! Só disse a verdade. Apesar que falhamos com você. — Ele olhou para a barriga já pronunciada de Emer, o que não fazia sentido algum pelo tempo que tinha passado — mas eu vou te explicar tudo. Tudo que você e todos do clã Caeth desconhecem.

Emehir abaixou a cabeça e ficou assim por um tempo. Bernard inspirou e sentiu o cheiro de vários homens lobos ao redor. Ele preferia ter aquela conversa longe de ouvidos alheios. Ele resmungou baixo e olhou para as trilhas. Indicou com a cabeça naquela direção e Emer concordou. Eles caminharam em silêncio até dois lobos, os quais se apresentaram a Bernard. Dois homens lobos, não tão velhos, conforme o olfato dele indicou. Hansel e Gretel praticamente enrolaram Emehir com equipamentos a ponto dela parecer uma panqueca bem recheada. Depois de prometer que nada de ruim aconteceria à ela, Bernard andou em silêncio ao lado de Emer em direção as tundras. Eles ficaram na trilha correta e por alguns instantes sentiu-se em casa. Achou estranho, mas poderia culpar o fato de estar mais perto da natureza que de produções humanas. O lobo de Bernard queria correr livre pelas tundras e Emer parecendo adivinhar lhe deu um tapinha no ombro para indicar que ele fosse. Ela estava muito acostumada aos homens lobos. Rápido demais. Será que o restante de seu povo seria assim tão receptivo?

– O que achou do mundo?

Emehir foi pega de surpresa pela pergunta. Depois de tanto tempo em silêncio, Bernard deveria ter retomado a conversa anterior, mas tudo que ele tinha em mente era no dia em que viu seu amigo perder toda uma família por conta do preconceito do homem para com bruxas. Por um erro, seu amigo tinha perdido a mulher amada e filha, e demorou muito antes de recomeçar.

– É perigoso e empolgante.

– Foi pelo perigo… Que tudo começou.

– O que começou?

Bernard respirou fundo e caminhou até um pedaço de tronco e deu batidinhas nele para que Emer sentasse com ele.

– Há muitos de nós que são deixados de lado, sejam quais os motivos, um bando de loucos, perigosos, mas que ainda querem viver. Que querem encontrar algo de bom nesse mundo. Querem encontrar o empolgante. Mas… Por que arriscar com o perigo?

– O equilibrio é necessário Bernard.

O velho lobo bufou e concordou com ela. Mas olhou para sua barriga.

– Mas quando há o perigo é isso que acontece.

– Uma vida foi gerada. Pela forma errada, mas ainda assim é uma vida. Não faça como aqueles velhos lobos e condene.

– Desculpe. Eu geralmente sou pessimo quando se trata de filhotes. Mas, Emer, foi por situações perigosas como essa que Aaron decidiu criar um lugar único onde vocês e nós pudessemos viver em paz, tendo apenas o empolgante. Para isso tivemo que afastar os meios de comunicação, bem, a tecnologia em si de perto de vocês…

– Mas nós nos conhecemos em Hollyhead. Eu tinha que sair com meu tio para vender as nossas bebidas para o mundo “aqui” fora.

Bernard concordou com a cabeça. Ele esfregou os cabelos, afastando a neve que havia se formado sobre ele.

– Mas Emer, foi por termos permitido que fizessem isso, que… Desculpe sei que não gosta disso, mas… Aaron gostou de você. Quando nós achamos que apenas manter a vila Caeth em segurança iria deixar nossos lobos em paz você apareceu. Sabe, nós temos uma hierarquia entre nós lobos. É uma hierarquia de presença e magia, mas as vezes os humanos tendem a ser como nós, motivo pelo qual as vezes alguns são transformados. Você é como uma loba psi, é um calmante unico. E você foi a luz na vida de Aaron.

– Estou cansada disso. De vocês me cercarem como se não houvesse escolha.

– Emer! O que estou dizendo é que não somos como essa alcateia. Não somos como Kallai. Lá você tem escolhas, por que você é nossa luz. Nós cuidamos de você porque você é nossa família Emer. Mesmo que nunca tenha nós visto, todos te conhecemos e, quando você quis partir de Caeth, não a seguimos para te proteger, por que… Quando o pássaro está pronto para voar, alguns pais empurram a ave do ninho para que voe com suas próprias forças entende… Não queríamos prendê-la lá.

Quando Bernard olhou para Emer, ela tinha lágrimas por seus olhos. Ele respirou fundo e abriu os braços para ela. Não a forçaria a vir até ele, sabia que ela precisava desse apoio. Olhou mais uma vez para seu ventre, e fechou os olhos. Os humanos da vila eram como filhos para ele, e Bernard protegeria seus filhos. Ele estremeceu quando sentiu que ela veio aos seus braços. Apertou-a contra ele e deixou que ela chorasse. Enquanto as lágrimas rolavam ela contou tudo o que aconteceu. Ele afagou seus cabelos enquanto ela soltava toda a história, em detalhes. Quando ela terminou Bernard afastou um pouco o corpo do dela e passou a mão sobre seu ventre.

– Nós vamos dar um jeito nisso. Alguem tentou matá-la. E não..Não me interrompa. Esse alguém vai morrer. Eu só espero encontrá-lo antes que seja tarde demais.