“Algumas pessoas acompanham minhas redes sociais e criticam, mas fiquei atenta a alguns comentários que geraram a discussão sobre a suposta imortalidade de alguns sobrenaturais. Posso afirmar, por viver com todas os três supostos tipos que tem essa qualidade, que a imortalidade vem com um preço. Ouvi de todos os três que a gravidez em todos os casos é rara e quando não é, cobra um preço alto. Dos lobos, ouvi que quando a companheira morre no parto, mesmo se houver um sobrevivente, o homem se suicida. Isso quando há natimortos. O vampiro que conheço sempre foge do assunto de gravidez da mesma forma que o diabo foge da cruz. Já os faes, não pude deixar de notar o modo como os olhos de alguns deles brilham de emoção diante de uma gravida, mas nunca vi uma com um bebê próprio nos braços. Alguns pensam que ter o poder de viver por tanto tempo é uma dadiva, mas, eu me pergunto a vocês, a que preço? Eu não me vejo imortal, mas se algum dia eu amasse um sobrenatural, não saberia o que pensar do que seria dele quando eu morresse… Inegável como o alfa que vive na região uma vez me disse: ‘Todos temos que morrer, seja hoje, amanhã ou daqui longos anos, mas todos um dia vão’.”

Tete-a-Tete com S&S

Isis até que estava gostando de ficar junto com Shannon. Elas fizeram coisas únicas juntas, briga de travesseiros, comidas estranhas e incomestíveis, além de maquiagens fantásticas. Isis permitiu que Shannon a entrevistasse para seu vlog, onde falei sobre a história da moda e toda a sua mudança no passar dos tempos. Mas a parte que ela mais gostou foi de perseguir os outros sobrenaturais pra ajudar a humana a conseguir entrevistas. Elas deram gargalhadas com algumas tentativas de alguns de fugirem. Kenia até decidiu esquiar, mesmo com medo do esporte. Mas Isis sentia falta de suas coisas e em pouco tempo, o quarto de perucas e acessórios de Shannon estava infestados de vestidos, caixas de jóias, chapéus dos mais variados e conjuntos de sapatos de vários tamanhos tamanho e cores.
Ela também ajudava a mulher a fugir de seus pretendentes, quando finalmente descobriu o passado triste de Shannon. Um passado que beirava a infidelidade e maldade. Ela tomou partido dela e disse que permitiria apenas que um dos dois chegasse perto quando Shannon quisesse.

Elas intercalavam entre visitar as mulheres e desde que Adami estava sendo evitado por Shannon, as vezes eram levadas pelo próprio Sr. Punnu que dizia se divertir com a caçada emocionante que elas faziam. Um dia, enquanto Shannon estava na casa de Sophie ajudando a grávida com alguns afazeres domésticos, Isis foi para casa pegar algumas roupas a mais. Ao passar pelo escritório tentou não fazer barulho, mas sua presença foi notada. Kallai abriu a porta e aproximou-se em silêncio. Parado diante dela, pegou e beijou as costas de sua mão. Ele ficou assim por um tempo, antes de abaixar a cabeça com um grunhido baixo.

– Perdoe-me. Nunca achei que nos seríamos o casal perfeito, mas também achei que ao menos não te feriria tanto no processo.

O lábio inferior de Isis tremeu e ela segurou as lágrimas. Estavam juntos há muitos anos e mesmo que ele sempre disse que não iria amá-la como amou sua primeira esposa, ele a trataria bem. E no início ele tratou. Eles foram companheiros no nome do casamento, mas tal como um remendo feito numa parede, com o tempo desgasta e, o deles já há muito estava desgastado.

– Nenhum de nós esperava por isso. São situações que foram nos moldando com o tempo. Você foi minha salvação de minha antiga alcateia. Não chegaria tão longe sem você.

Kallai puxou-a para um abraço. Ele a apertou entre seus braços e afagou seus cabelos. O gesto com efeito de acalmar. Isis encostou a cabeça no seu coração e respirou fundo o cheiro do lobo dele. Sua coiote não se agitando como fazia antigamente. Ela estava mudada também.

– Existem tantas coisas que eu gostaria de te falar. Mas estou brava demais com você pra dizer.

Kallai sentiu o riso crescer dentro dele. Mas se havia um momento péssimo para rir era esse. Ele a puxou para dentro do escritório e sentou-se no sofá com Isis em seu colo. Algum tempo atrás ele a beijaria e a amaria. Hoje eles não seriam tão hipócritas.

– Eu não podia correr naquela noite. Eu não corri. Mas não queria que você ficasse presa por minha causa. Sei que isso deve ter te machucado.

– Machucou. E muito — Isis ergueu o rosto para falar com ele. — Eu corri com alguém, e não vou dizer quem é. Mas eu jamais te trairia. Só corremos.

Kallai esperou a dor no peito por saber que sua companheira teve companhia. E que provavelmente era de Bernard. Mas ele não sentiu essa pontada, ele acariciou sua bochecha e encostou a testa na dela.

– Eu entendo e confio em você. Eu corri em duas pernas e encontrei com Emer. Ela ficou sabendo pela irmã da criatura que a atacou que ela era um alvo novamente. Eu fiquei mantendo guarda em sua casa.

– Ela estava distante esses dias. Não sabia que era por isso. Achei que fosse porque ela afirmou que o bebê ia... Foi assim que ela soube não é?

O Brenin concordou com um leve balançar de cabeça. Ele sentia o cheiro da coiote mesclado ao corpo da mulher.

– Eu quero que saiba que não te trai também. Eu não a amo. Meu lobo... a deseja. Mas, não há espaço no meu coração para...

– Não precisa mentir para mim. Mas por favor, não minta para si mesmo. Você a ama, não igual a falecida, mas ama. Do mesmo jeito que eu amo Bernard.

Kallai silênciou-se quando ela falou sobre amor. Ele não tinha como refutar as palavras. Uma dúvida se instalou na cabeça dele, mas ele sabia, era o lobo que gostava dela. Não ele.

– Você o ama? Está certa disso?

– A ponto de desejar que nunca tenha conhecido você.

Estava quase anoitecendo quando Shannon entrou no apartamento. Ela deu um pulo quando ouviu um ruido vindo do seu escritório. Sabia que a possibilidade de que alguém entrasse para roubá-la na cidade era muito pequena, mas o ambiente todo escuro e o ambiente propicio se caso fosse um dos pouquíssimos crimes existentes… Shannon pensou em gritar “Qual dos dois está ai?” Mas e se não for nenhum deles? Um arrepio deslizou pela sua coluna antes de um estalo em sua mente surgir e ela por instantes esquecer-se de que estava vivendo com uma loba, e que poderia ser Isis. Todo seu raciocínio lógico foi embora quando ela virou para sair do seu apartamento. Sua mente já pensando em qual outro lugar do mundo ela poderia viver, quando sentiu braços fortes a agarrarem pela cintura. Os pulmões dela se abriram num grito e ao ser levantada, Shannon começou a espernear e chutar tudo que via. Sentiu-se ser levada até o sofá e foi quando ela começou a usar as unhas. Mordeu o braço que tentava segurá-la. Ao sentir as costas no sofá ela deu um salto para fugir, mas um peso caiu sobre si.

– Shanny, sou eu.

Ela continuou a empurrar e gritar, até que alguém a beijou. Lábios esbarraram contra os seus e ela tentou morder uma lingua invasiva. Até que as mãos que a seguravam a tocavam com reverencia, e tentavam não feri-la. Shannon tentou usar todas as armas possiveis, enquanto beijos deslizavam pelo seu pescoço.

– Sou eu… sou eu…

Finalmente entendendo as palavras que seu suposto agressor dizia. Era como um mantra, tentando forçar a realidade goela abaixo. Shannon sentiu o corpo estremecer quando compreendeu quem era. Ela soluçou e deixou que os braços caissem inertes ao lado do corpo. Os beijos continuaram, até que ele parou e encaixou o rosto entre seu pescoço.

– Shanny, o que foi isso? — Ele deu um beijo final antes de erguer o rosto — O que foi que te aconteceu?

Lágrimas corriam soltas pelo seu rosto, e Adami desceu para beijá-las, porém Shannon virou o rosto se recusando até mesmo a olhá-lo.

– Eu não posso. Por favor, eu disse a você que, eu não posso…

– O que aconteceu com você meu doce? Quem te machucou?

Apesar do carinho e cuidado, era palpável a raiva que ele sentia pela situação dela. Adami encaixou os dedos pela peruca de Shannon e tirou-a. Em seguida encaixou sua mão nos fios sedosos dela e levantou o corpo para lhe dar espaço para se mover. Quando Shannon não saiu, ele voltou a abaixar e a abraçou.

– Eu não quero reviver isso Adami. Por favor é passado e...

– E é o porque você não tolera violência. Docinho eu e Lothar já propomos trégua. O que aconteceu foi, inevitável ainda mais na lua cheia. Não irá se repetir.

– Eu não quero saber de dança nenhuma — Shannon parecia voltar a cor natural e não tremia mais — Estou falando sério. Não vou me ligar a ninguém.

Adami ergueu o canto dos lábios e soltou um ronco baixo, antes de passar a língua pela boca.

– Eu sou paciente docinho, tenho todo o tempo do mundo. Até lá, você coloca os limites. Quando você vai em casa e assistimos filmes ou quando saímos juntos. Aquilo está bom para você?

– Adami — A voz de Shannon soou como uma advertência apesar de seu rosto demonstrar outra coisa.

– Nós não precisamos ser companheiros como espero, mas deixe que eu cuide de você. Você me assustou agora Shanny. Eu não quero vê-la assim de novo e jamais permitirei que passe disso.

– E quer que eu acredite que não vai forçar a barra pra mais do que apenas passeios?

– Vai me dizer que não gostou dos meus beijos?

– Só um pouquinho... — Shannon riu quando Adami fingiu morder ela em repreensão — Está bem, mas tenho condições. Não me beije sem que eu permita. Sem falar por aí que estamos juntos. Não estamos acasalados, nem namorando, somos só dois amigos curtindo um tempo bom juntos e também matando a coceira.

– Minha coceira está grande.

Shannon gargalhou.

– Eita cachorro pulguento. Vou te dar banho de inseticida.

Adami levou a mão ao coração ferido.

– Assim você me mágoa.

– Você sobrevive.

Eles se abraçaram e Adami ficou com ela até que Isis voltou para casa. A coiote quase voou no pescoço dele, se não fosse por Shannon aparecer no meio deles.

– Eu o perdoei e agora ele nasceu de novo pra mim. Temos que comemorar algo assim...

– Ele é um bebê? — Isis passou os olhos de baixo a cima pelo moreno — Que bebê hein.

Adami sentiu o rosto corar, então virou o rosto para o lado.

– Eu sou o bebê da Shanny e apenas dela...e obvio que ela não vai me chamar assim na frente dos outros não é?

Isis e Shannon se entreolharam cúmplices de um jeito que apenas depois de um tempo morando sozinhas poderia fazer sentido. Adami passou a mão pela careca e esfregou o topo da cabeça.

– Sou um homem morto.

– Que nada — Isis respondeu rindo — Você acabou de renascer bobinho.

– E essa é minha deixa para sair...

– Eu te acompanho até lá embaixo — Shannon indicou a porta antes de virar pra Isis — Já volto e você vai me contar onde esteve mocinha.

Adami passou o braço pelo ombro de Shannon e eles desceram as escadas lado a lado. Não falaram nada, mas o lobo dele estava agitado e louco por uma caçada. Ao chegar na calçada, Adami virou de frente pra Shannon e segurou seu queixo.

– Eu vou cuidar de você Shanny.

Ele abaixou um pouco o corpo e a beijou. Shannon amparou-se em seus braços e retribuiu ao beijo. Quando se separaram, Shannon ainda tinha os olhos fechados. O lobo acariciou sua face direita.

– Vá descansar meu bombomzinho. Amanhã virei te ver.

Shannon deu um beijo no rosto dele antes de subir. Adami porém permaneceu na calçada, olhando para Lothar que tinha um olhar perdido no rosto.

– Ela é minha médico.

Ele segurou o celular se fosse uma bomba. Tudo dependia das oportunidades que o chefe lhe dava. Eles se ligaram por ter um objetivo final em comum, mas para o homem lobo, tudo que bastava era que Aaron liderasse como Brenin ou, quem sabe, ele mesmo. Assim, haveria um lobo europeu e, ele ditaria suas próprias regras. Regras estas que beneficiariam os homens lobos e não outro grupo, especialmente os humanos, um povo ignorante e que foi responsável pela morte de muitos dos seus. Sua primeira tentativa falhou miseravelmente, mas ele tinha um novo plano. Só precisava receber a ligação. Enquanto fazia, virou-se para olhar o enigmático homem que agora abastecia o carro com as provisões. Era um bode perfeito, grande o bastante para ser acusado da morte e distante o bastante dele para que fosse acusado por um crime que não cometeu.

Quando o telefone tocou, Thorian ergueu o rosto em sua direção, com um rosto em semblante fechado, quase como uma careta de irritação.

– Finalmente me ligou.

– Cuidado com a língua filhote. Eu não cheguei aonde estou porque fui conhecido pela minha paciencia. E você já me fez perder a minha há um tempo.

O homem tremeu ligeiramente com a voz do chefe. Ele detestada prestar contas a outro, mas era necessário. Ele sempre viveu assim para sobreviver. Curvar a cabeça para outro mais não faria diferença, enquanto pudesse viver.

– Senhor, tenho um novo plano. O qual vai funcionar eu garanto.

– Do mesmo jeito que o último? — Um bufo irritado — Um lagarto gigante a deixou gravida. O que vai ser dessa vez? Um rinoceronte voador? Poupe-me de seus planos inúteis.

– Dessa vez irá funcionar senhor, o homem que contratei para matá-la conseguiu fugir. Ele é bom se esgueirando. Ele será meu trunfo. E dessa vez não irá matar apenas Emer. Conheço as fraquezas de Aaron. Dessa vez ele irá reagir. Especialmente se Bernard for morto também.

– E como pensa que vai atingir um homem lobo e uma mulher gravida protegida por uma alcateia? E se eles morrerem, o que impede que Aaron não saiba que foi você, já que saiu debaixo das asas dele?

– Eu vim para supostamente ajudar Bernard. Eu mesmo me voluntariei, mas que pena será quando eu matar Bernard e se alguém chegar me ver abraçado a ele, chorando por não ter conseguido salvá-lo.

Outro grunhido do outro lado do telefone.

– Você é mais imbecil do que eu pensei. Nós poderemos cheirar sua mentira. Aaron vai saber que foi você desde o inicio.

– Não, ele não irá. De nossa alcateia original sobrou apenas a mim, meu irmão e Bernard. Ele não vai acreditar que um de nós o trairia. Além do que, eu realmente vou chorar por não poder salvar Bernard, afinal ele tem uma cabeça mais dura do que Aaron. Nunca iria concordar em trazer a alcateia exposta aos outros. Minha mentira será uma verdade.

Um silêncio na linha.

– Faça como bem entender. Não tem minha benção nisso, se meu nome chegar ao ouvido de alguém quando seu plano falhar, negarei tudo.

– Mas não podemos mentir, podemos? — o homem lobo rosnou frustrado com a falta de auxilio — Irá se arrepender disso quando tudo der certo.

– Se der certo, nós brindaremos, mas se não, será apenas sua vida em jogo.

O homem lobo não conseguiu mais dizer nada, pois o chefe havia desligado. Quando ele virou-se para falar com seu bode, mas o encontrou já dentro do carro. Quando foi para o lado do passageiro e colocou o cinto, viu que o homem deslizava um pedaço de rubi pelos seus dedos. Ele não fez menção de ligar o carro ou fazer outra coisa. Irritado, o homem foi estender a mão para parar a pedra, quando Thorian girou a mão e apertou a jóia em sua mão.

– Para onde Dunat? — Thorian virou-se para encará-lo — Eu não sou um vidente.

– Vamos para Wuruhuintown.

Lothar acabou escalado para acompanhar Emehir para todos os lugares. Dougal também a acompanhava, com uma loba branca no encalço. Apesar de todos os cuidados, Emehir preferiu não dar tanto trabalho, ficando em espaços em comum para todos os seus três acompanhantes e não se movimentando tanto. Lothar estava agitado com a situação, e por sua estadia constante ao lado da gravida, Shannon não se aproximava tanto. E quando o fazia o ignorava completamente. Certo dia quando Emehir levantou-se para uma caminhada matinal, Lothar a aguardava para acompanhá-la. Ele perguntou se ela gostaria de ir para a estufa. Enquanto caminhavam Emer parou-o, segurando sua mão.

– O que se passa?

– Nada, por que pergunta? — Lothar deu de ombros.

– Você está distante e seu irmão está ficando preocupado. Eu prometo não contar nada a ele, mas por favor, se houver algo que eu possa fazer para ajudar.

Ele sorriu com sua preocupação, mas se virou para olhar para as ruas ainda vazias da cidade. Lothar inspirou o ar das montanhas e o cheiro selvagem de sua casa infiltrou-se em seu ser. Soltando o ar bem devagar virou para olhar para Emer e percebeu que ela mantinha um olhar distante também.

– O sujo falando do mal lavado. — Quando Emehir ergueu o canto dos lábios ele continuou caminhando — Só estou vivendo a vida que mereço. Mas, dói quando vejo que pessoas que me preocupo estarem tristes e eu não puder fazer nada.

Emehir pareceu refletir sobre suas palavras, e isso encheu Lothar com certa calma. Eles diminuíram o ritmo da caminhada, retardando sua chegada à estufa.

– Se puder ajudar sem que a pessoa perceba será valido. A melhor das graças estará preparada para aqueles que ajudam sem esperar nada em troca. Que modo melhor de não esperar um retorno se essa pessoa não souber que é você a fazer?

– Mas como poderia…? — Lothar bufou — Eu estaria invadindo a privacidade dela.

O sorriso de Emer irradiou quando Lothar se condenou. Ela segurou o rosto do médico e beijou suas bochechas.

– Você espera muito de si mesmo. Sei que encontrará um meio de fazê-la feliz ao seu modo. Lothar você é mais especial do que pensa.

Emer deixou um Lothar perdido para trás enquanto voltou seu caminho para encontrar-se com Dougal e Avalon, quando ela parou com uma dor no ventre. Ela levou a mão ao ventre e sentiu mais uma pontada. Lothar estava ao seu lado em seguida. Emehir sentiu lágrimas involuntárias escorrerem e ela contraiu seu próprio corpo na próxima pontada.

– Ela está vindo..Minha Aldott quer nascer..

Lothar ergueu o rosto ao alto e o som de sua boca saiu mais animalesca que humana, enquanto ele uivava por ajuda. Passou o braço de Emer pelo seu ombro e estava prestes a erguê-la no colo quando Sr. Punnu apareceu respondendo ao seu chamado. Ele veio do outro lado de Emehir e segurando-a firme, eles a carregaram para a clinica de Lothar.

Quando chegaram na clínica, eles a colocaram sobre a maca, enquanto a enfermeira auxiliava com os procedimentos iniciais para o parto. Eles iriam tratar o parto mais naturalmente possível, e quando o Sr. Punnu se ofereceu para ajudar em algo, Lothar pediu para que ele avisasse seu pai e Dougal.

Bernard juntamente com Fergus, Dougal e Avalon tinham partido para caçar nas redondezas de Wuruhuintown. Mas Kallai, Sophie e Isis, assim como Shannon estavam na clínica em tempo recorde. Isis entrou na sala, enquanto Kallai amparava sua nora. O parto parecia mais complicado do que pensaram, e os gritos de Emehir deixavam a todos eriçados. Isis saiu branca de dentro da sala e caminhou diretamente para Kallai.

– Ela não vai sobreviver ao parto.

– Ela vai. Emehir é forte e não irá deixar sua criança sozinha. — Kallai rosnou baixo, mas seu lobo não estava nele com seu rosnado.

– Ela não vai. — Isis abaixou o olhar — Venha comigo.

Com certa hesitação, Kallai ergueu-se e acompanhou Isis. Ela o levou a uma saleta onde vestiu-o com um uniforme de hospital, lavou suas mãos e então o guiou para a sala. Emer estava com o rosto inclinado para o alto e tentava acompanhar as instruções da enfermeira para respirar com ela. O corpo dela já estava branco com a falta de sangue. O cheiro do mesmo invadindo o nariz do Brenin, que recuou ligeiramente com a quantidade que manchava a mesa e o chão. Lothar tinha os olhos do lobo em seu rosto, quando ele virou para olhar o pai, Kallai pensou se não teria que segurar o filho com tanto sangue a mostra. Mas Lothar o surpreendeu, com lágrimas nos olhos, o lobo parecia agitado demais. O médico fez um sinal com a cabeça, chamando-o.

– Elas não vão conseguir. Aldott está arranhando para fora… — Lothar parou de falar, sua voz audivel apenas para os lobos na sala — Mas Emer não tem mais forças para ajudar a empurrá-la. Eu poderia tentar morder a placenta ou o que quer que seja isso, mas...

Kallai sentiu o corpo ficar fraco, e ele aproximou-se da mulher. Ela ainda forçava seu corpo a reagir e empurrar. Ele segurou sua mão e ao fazer isso, chamou a atenção dela. Os olhos cinzas de Emer estavam arregalados, como se ela soubesse que havia algo errado.

– Cuide da minha menina. Por favor... — Emer falou entre ofego — Ajude-a a viver.

– Força Emehir, veja sua menina quer viver e vê-la também — Kallai apertou sua mão.

Emehir gritou mais uma vez, e a mão estremeceu entre as de Kallai. Lothar fez um gesto para a enfermeira e, consciente do pedido de Emer, mas com o coração na mão, preparou a cesariana. Ao começar a cortar, ele conseguiu ver pequenas mãos com garras arranhando para fora, e cada vez mais sangue manchava a maca. Um som de choro foi ouvido, e Isis se adiantou para ajudar e pegar Aldott. Ela e a enfermeira levaram a menina para uma mesa apropriada para limpá-la, enquanto Lothar lutava para manter a vida de Emehir. Ele gritou para a enfermeira trazer sangue. Isis ergueu o olhar do bebê que ela estava limpando.

– Morda-a. Ela não vai sobreviver, e essa criança precisa da mãe. Faça Kallai, a mordida de um Brenin deve ser forte o bastante para mantê-la viva e transformá-la.

Lothar ergueu o rosto do corpo de Emer para encarar Isis. O comentário dela fazendo efeito nele. Emehir havia perdido muito sangue, e havia uma possibilidade dela conseguir ser transformada em mulher loba.

– Eu não posso.

– Se não fizer, faço-o eu. — Isis rosnou — Não seja hipócrita pra cima de mim. Como acha que vai viver quando outra mulher que amou morrer?

– Eu não posso. — Dessa vez Kallai gritou para Isis — Meu lobo não está…

Kallai interrompeu-se quando Isis gritou. Ela ajoelhou-se com a mão sobre o coração. Kallai também sentiu uma pontada, seu lobo rosnando e enviando mensagens dele mordendo um fio dourado. Um fio que começava em sua mente, e como se um filme de horas passando por segundos, ele viu o lobo roer tudo até chegar a mente do fio preso a um coiote. Quando o lobo se aproximou o coiote rosnou e protegeu o fio dourado, até que o lobo finalmente conseguiu destruí-lo. Isis estava no chão, com sangue saindo de seus olhos, nariz e orelhas. Ela tremia no chão e Lothar ficou indeciso sobre quem ajudar. A enfermeira segurava o bebê no colo, com os olhos arregalados.

– Leve-a daqui. — Lothar indicou a bebê. Olhou para o pai e depois para Emer, e decidiu que era hora da escolha do pai. Ele correu para apoiar Isis e levá-la a outra sala — Eu vou sair e levar Isis daqui, se você não fizer nada pai… Eu faço. Não verei… Não verei Shannon triste por perder a amiga.

Dito isso, ele saiu com Isis, deixando Emehir já desacordada com Kallai. O homem lobo estremeceu com as imagens que o lobo havia mostrado, e percebeu que não sentia mais Isis próximo a ele. Não porque ela não estava na sala, mas não havia a sua essência nele. Como se nunca tivesse existido.

Minha.Companheira. A voz do lobo agora rosnando para Kallai. Morda.Minha. Uma imagem agora, de um lobo correndo para a velha cabana dos pais de Kallai. Saindo pela porta, Emehir carregava um embrulho nos braços. Ela ergueu o olhar, mas seus olhos não eram cinzas.

– Isis — Kallai disse em voz alta para seu lobo.

O lobo entretanto mostrou de novo a imagem de Emer e dessa vez um vulto de dois lobos correndo. Ele não conseguia distinguir as cores dos animais, mas de alguma forma ele sabia que era de Emehir que se tratava. Ela abriu os olhos como se pressentisse seu lobo, e em um ofego ergueu a mão para ele. O bebê chorava agitado na sala ao lado, enquanto a mãe chorava diante dele.

– Minha menina… Minha Aldott.

Kallai aproximou-se dela e apertou a mão de Emehir. Ela virou seu olhar para ele, respirando com dificuldade.

– Deixe-me vê-la antes de partir.

O lobo dele uivou um som triste e tentou forçar o pelo sobre sua pele. Kallai sentiu o corpo esquentar e ele tentou se manter consciente e o lobo dentro de sua própria prisão. Emer parecia ansiosa pela criança, enquanto o lobo implorava por ela.

– Feche os olhos. Eu já a trarei.

Kallai passou as costas da mão pela bochecha de Emehir e quando ela obedeceu, ele descobriu seus caninos e o lobo finalmente assumiu seu corpo. Ele estava sobre Emehir em seguida. Ela sentiu o peso sobre ela e o pelo roçar sua pele, mas manteve os olhos fechados. Até que o lobo aproximou o focinho de seu pescoço. Ela sentiu uma picada, nada tão forte ou brusca quanto o que ela havia passado, mais como se ele tivesse cuidado com sua pele dolorida. Em seguida outras mordidas seguiram: nos braços, nas pernas e na lateral do tronco. E a ultima coisa que Emehir ouviu foi o uivo do lobo.

Kallai voltou a pele, e quando estava prestes a sair para procurar uma roupa, Sophie entrou na sala com Isis ao seu lado. Sua nora estava carregando algumas roupas sobressalentes, que Lothar mantinha na clinica para seus pacientes lupinos. Isis ignorou Kallai e foi até a maca de Emer. Segurou-a no colo e carregou para um quarto ao lado onde tinha uma cama para que os pacientes pudessem se recuperar das cirurgias. Kallai vestiu a roupa e logo em seguida foi atrás de Isis, para encontrá-la deitada ao lado de Emehir. A coiote estava abraçada à mulher, acariciando seus cabelos. Um desejo de se juntar à elas era grande, mas seu lobo parecia ter outra coisa em mente. Era como se ele soubesse que ela já estava bem, que Emehir iria abrir os olhos como loba. Minha.Menina.Família. Aparentemente o lobo dele parecia aprender alguma palavras novas, e saber que o lobo havia aceito a criança como alguém de sangue. Aquela era uma situação inusitada. Sophie já não estava a vista, e ele agradeceu por isso. Era difícil ter que explicar a uma psy o que ele estava sentindo, porque com toda certeza, ela saberia que havia algo de errado com ele.

Aldott já havia parado de chorar, e o lobo rondava em sua mente querendo ir até ela. Kallai queria rosnar de raiva para si mesmo. O lobo estava sumido todo aquele tempo de sua mente, porque estava tentando quebrar o vinculo com Isis. Ele jamais esqueceria o grito de dor dela quando o vinculo foi desfeito. Kallai não a amava. A escolheu porque sabia que jamais a amaria e, a dor de perdê-la um dia, jamais iria enlouquecê-lo, mas seu lobo sabia que tudo seria contra ele. Que ele acharia um jeito de perder a sanidade naquela morte, como sempre o fez. Medo o arrebatou como uma faca jogada bem no meio do peito. Pois agora ele perdia sua sanidade, pela espera da transformação de Emer e pelo cheiro da dor de Isis. Acima de tudo, sentia como se o mundo tivesse aberto em uma fenda e o tragado para que ele nunca mais conseguisse sair nem respirar.

Saiu do quarto, deixando suas duas mulheres para trás. A mulher do humano e a mulher do lobo. Não tinha mais como negar. O lobo dele iria matá-lo de dentro para fora só para conseguir Emehir. Ele não permitiria. Estava tão distraído que não percebeu Lothar segurando a menina no colo. Kallai ainda não tinha olhado para Aldott. Sabia que se Emehir saísse com vida nisso, iria querer vê-la. Ele mesmo havia prometido levá-la para ela.

Lothar ergueu o olhar para encontrar com os de Kallai. Havia várias insinuações naquele olhar: dor, felicidade, amor, carinho, a vontade de lutar para defender aquele ser indefeso. Ele segurava o bebê como se a criança fosse erguer-se e voar para longe dele. O que bem poderia ser uma verdade, dado a natureza de seu pai. Kallai estendeu os braços para segurar a menina, mas Lothar balançou a cabeça para o pai. Incompreensão permeou Kallai, até que um rosnado saiu sem sua permissão, e Lothar respondeu em mesmo tom. Quando Kallai deu um passo a frente, percebeu seu reflexo no espelho e viu que o lobo estava em seus olhos. Ele fechou os mesmos e tentou concentrar-se para expulsar a criatura para o mais profundo de sua jaula mental, e quando voltou a abrir, havia apenas o seu olhar.

Seu filho encarava-o e assim ficou até pelo que pareceram anos para Kallai que ele apontou para o sofá. Kallai sentou-se e dessa vez estendeu as mãos. Seu filho entregou o pequeno pacote com todo o cuidado do mundo, deu uma última olhada para seu pai e saiu do quarto, deixando-os sozinhos. Aldott se movia desgovernada, com seus bracinhos inocentes balançando no alto. A menina tentava chegar até o rosto de Kallai enquanto ele tentava embalar Aldott no cobertor que a mãe havia feito. Enquanto a olhava, Aldott, pequena e indefesa, fechava os olhos ligeiramente, como quem está caindo no sono.

– Tanto para falar, mas vou esperar para quando me entender.

Ao som de sua voz, ela abriu os olhos esbugalhados. O olhar castanho dela rivalizaram com os de Kallai, e ele percebeu que de alguma forma a cor dos dois eram parecidos. Ele franziu o cenho e Aldott imitou o franzido. Ele tentou odiá-la, tentou com todo o coração, mas quando ela estendeu os braços mais uma vez ele suspirou frustrado.

– O que você quer?

Ele a segurou apenas com uma mão e a outra ele levou até seu rosto para fazer um cafuné. A menina estendeu sua pequena mão e apertou o dedo de Kallai. O lobo dele uivou de contentamento. Já o alfa sorria todo bobo para aquele embrulho em suas mãos. Mostrou a língua para o bebê e a criança riu. Era esperta.

– Eu não posso acreditar que você está aqui.

Kallai aproximou a menina até seu rosto e beijou suas bochechas rechonchudas. Os braços da menina encostaram em seu rosto. Seu lobo satisfeito, só faltava ronronar de felicidade. Deu um beijo na sua outra bochecha e fingiu morder. A menina esperneou contente e deu um gritinho, antes de gorgolejar para Kallai. Ele aproximou o rosto de seu ouvido e praticamente sussurrou, sem saber de onde tinha saído tudo aquilo. O peito explodia, seu coração disparava e ele não conseguia soltá-la. Era tão similar quanto ao dia em que carregou Lothar em seus braços a primeira vez.

– Eu me chamo Kallai…. — Ele suspirou e respirou fundo, sentindo o cheiro da recém nascida, e de fundo, aquele cheiro de mel que enlouquecia seu lobo. Lágrimas encheram seus olhos e fugiam pelo seu rosto — Eu queria que você me chamasse de pai.

Sophie olhava a distância, passando as mãos pelo seu próprio ventre. Kallai estava tão concentrado na pequena, que não a ouviu ou cheirou. Ela ouviu suas palavras, e tudo que pode fazer for sorrir sem humor. Ela sentiu as energias e sentimentos de todos na clinica, e rezou para que Emehir acordasse. Puxou a porta da sala com cuidado para deixar o alfa com sua cria. Por que era o que a pequena seria. Sophie temia apenas, que com as emoções tão conflitantes que lia em seu sogro, ele acabasse se perdendo no meio do caminho.

Quando os lobos chegaram na estufa, Dougal esperava encontrar com Lothar e Emehir esperando-os. O lobo farejou ao redor percebendo que eles não haviam nem sequer chego na estufa. Dougal soltou um grunhido, mas sentiu um focinho em seu flanco. Ele encolheu as orelhas para trás e a loba branca lambeu seu rosto. Um lobo de cor whisky apareceu atrás dos dois. Ele soltou um uivo curto e depois balançou o rabo, antes de lançar-se para fora da estufa. Estava correndo na direção de sua própria casa quando parou no meio do caminho. O Sr. Punnu apareceu segurando um pacote nas mãos. Ele trazia uns cobertores coloridos nas mãos.

– Um presente para a recém nascida. — Quando os lobos inclinaram a cabeça para o lado questionadores, o Sr. Punnu riu — A menina nasceu, mas eu não fiquei na clinica. Sua esposa foi para lá, pois o Brenin está prestando assistência ao médico.

Os lobos dispararam para a clinica, sendo recebidos por Sophie. Ela abaixou-se, com lágrimas nos olhos e abraçou Fergus bem apertado. Ele lambeu seu rosto e ela começou a rir. Dougal e Avalon estavam um pouco atrás, ansiosos por noticias, mas permitiram aquele momento entre o casal.

– Oh Fergus, havia tanto sangue… Tanto…

Dougal ergueu o focinho e uivou, Avalon virou as orelhas para trás e abaixou-se com a barriga estendida no chão. Sophie passou a mão pelo rosto, secando as lágrimas.

– Kallai a mordeu. Estamos esperando ela despertar. Sabe que se ela sobreviver será rápido, coisa de horas. É o tempo de um lobo assentar em sua alma e o sangue lupino criar-se no corpo. Ela está bem, e a menina, Aldott está bem. Está com Kallai agora.

Dougal recuou e deitou-se ao lado de Avalon. Fergus caminhou para dentro da clinica e foi para o escritório do irmão que era onde ele mantinha roupas extras para os lupinos. Eram roupas neutras e de vários tamanhos, mas eram o necessário para ele agora. Sophie o acompanhou para ajudá-lo a se vestir. Há muito tempo ele não permitiria nenhuma ação como essa, especialmente com audiência, mas Fergus percebeu que os dois lobos ficaram do lado de fora. Sua esposa já estava acostumada com sua nudez, mas era algo que ele ainda ficava incomodado na frente de outros. Sophie esperou que seu pelo deixasse o corpo e aproximou-se dele para abraçá-lo.

– Tenho medo que seja você na mesa, não tem como transformar alguém que já é uma loba.

Fergus foi direto com Sophie, pois de todas as pessoas que ele conhecia, ela era a única com quem podia ser franco com todas as dores de seu coração. Ele sempre poupou sua irmã com quem conseguia falar mentalmente, mas como esconder algo da pessoa que o trouxe para a luz? Sua irmã sempre foi alguém que podia acalmá-lo, mas só até certo ponto. E Sophie fazia além, e isso não era apenas pelo tipo de loba que ela era, mas pela mulher que demonstrou ser.

– Eu sei que você teme por minha vida, mas se algo acontecer comigo, você terá três anjinhos para cuidar de você.

– Não quero três anjos. Eu quero você Sophie. Eu vou amá-los, mas... Quando falou sobre o sangue, eu só conseguia pensar em você.

Sophie começou a beijar o rosto de Fergus, distribuindo selinhos pelo rosto dele até chegar aos seus lábios. Ela o abraçou apertado o melhor que pode sem afundar sua barriga nele. Fergus a virou de lado e carregou no colo, sentando-se no sofá do escritório, com Sophie em suas pernas.

– Não sei se estou pronto para ser pai.

– Fergus você tem 250 anos de idade – Sophie começou a rir – Mas ainda tem a cabeça de qualquer humano... Ninguém está pronto para ser pai. Ser pai de primeira viagem é assustador. Eu também estou com medo, não vou mentir para você. Até a algum tempo atrás eu limpava banheiros e vendia meu corpo. O máximo que cheguei perto de fraldas foi quando ia para a farmácia comprar medicamentos para as meninas do bordel.

Fergus passava sua mão pelas costas de Sophie, acariciando-a. Ele escondeu seu rosto em seu ombro, e foi abraçado em retribuição.

– Você cuidou de mim quando ninguém mais pode. Será ótima.

– Sim, eu cuidei de um marmanjão ferido, que precisava de ajuda e, além disso, já tinha toda uma personalidade construída. Estamos falando de crianças que precisarão de mim... Não! De nós. Para tudo.

Fergus abriu um sorriso, um dos raros que poucas pessoas tinham conseguido ver. O tipo de sorriso que iluminaria multidões.

– Acho que aos trancos e barrancos, nós conseguiremos.

Sophie ergueu as sobrancelhas e sacudiu-as, antes de sorrir de volta.

– E tenho certeza que Emehir não se incomodará que nós possamos dar uma mãozinha no começo. Você ainda precisa aprender a trocar fraldas.

– Essa eu vou querer ver – Lothar abriu a porta do escritório.

– Estou sem roupas Lothar, espere. – Fergus colocou Sophie no sofá ao lado, para poder finalmente se vestir.

– Não me diga que você está sentado no meu sofá... – Lothar entrou mesmo sendo avisado – Oh! Você está. Mas esquece-se irmãozinho, que eu cuidei de você, te dei banho... Não há nada ai que eu já não conheça. – Lothar beijou a bochecha de Sophie – Cunhadinha linda, meu pai ainda não deixou Dott.

– Dott? Já deu um apelido pra ela? – Sophie ergueu a sobrancelha.

Lothar segurou a risada, enquanto Fergus colocava a roupa.

– A pobre menina tem um nome longo demais. Merece um apelido bonitinho.

– Como ela é? – Fergus perguntou.

– Ela é linda, pequenininha e gorduchinha. Tem alguns tufos de cabelo vermelho, e já abriu os olhos. Castanhos. – Sophie abaixou o rosto – deve ser do pai...

– Mas o que mais é do pai? – o mediador coçou o queixo – Temo pelo que ela poderá ser.

– Quando ela nasceu suas mãos tinham garras e algumas escamas pequenas pela pele. Ela ajudou a quebrar a placenta de dentro pra fora.

– Quebrar? Você não quis dizer rasgar? – Sophie ergueu o olhar enquanto recordava-se da menina que tinha visto – Eu não vi nenhuma garra, só dedos de bebê.

– Elas se retraíram quando saiu, como se não quisesse me machucar. – Lothar sorriu sem jeito – Dott é esperta, tem um olhar inteligente. Mas sobre rasgar...a placenta estava dura, similar à casca de um ovo. É uma espécie de réptil.

– Será que o pai é alguma criatura que muda para um animal como nós, só que possui um réptil no lugar do lobo? – Fergus sentou-se novamente no sofá e esfregou os joelhos – Muitas espécies como nós acabaram morrendo com o tempo ou entrando em extinção. Assim como tantos outros, podem ter morrido caçados por humanos que os confundiram com animais comuns... É uma possível explicação.

– Se for, será mais fácil de explicar a ela como mudar e controlar o animal dela, apesar de que ela tem mais controle que um filhote de lobo. A mãe deve ensinar a mente dos lobinhos durante a gestação, mas Emehir não conseguiu sentir nada em sua mente, ou ela teria falado conosco. – Lothar sentou-se também – Vamos ter trabalho, repteis não vivem em lugares tão frios assim.

A porta do escritório abriu-se e um Kallai segurando um embrulho nos braços entrou com o cenho franzido.

– Suas tricotadeiras, eu consigo ouvi-los do quarto. Aqui, venham conhecer Aldott Wynne.

Fergus olhou para Lothar e ele deu de ombros.

– Eu disse. Dott venha cá pequena – Lothar levantou-se se segurando para não rir, enquanto pegava o embrulho dos braços de Kallai. – Quer segurá-la Fergus?

– E se eu a deixar cair?

Sophie revirou os olhos enquanto Kallai e Lothar riam.

– Não deixará meu bem. – Sophie deu um soco no ombro de Kallai – Parem com isso.

Kallai estendeu as mãos à sua frente e afastou-se. O sorriso dele morreu e ele indicou a cabeça para os quartos da clinica.

– Eu vou vê-la.

Dougal sentia uma dor que ele não conseguia distinguir. O lobo dele estava tentando balancear as sensações que estava agitando seu corpo. Se Emehir morresse ele estaria falhando novamente para proteger alguém que prometeu proteger. Mas seu lobo apesar de indignado com a situação não chorava. Avalon ao seu lado trotava com o corpo encostado no seu.

Quando ele começava a correr para longe dela, os passos da loba o acompanhavam. Ela não rosnou, não o mordeu ou o questionou. Quando Dougal levantou e correu para longe da clínica, ela permaneceu ao seu lado. Ambos os lobos correram pelas tundras sem se importar com destino ou motivo. A neve falhando em algumas partes, o cheiro das frutas silvestres espalhando-se no ar. Eles correram em silêncio. Quando o lobo uivou, a música foi complementada pelo som de Avalon. Ela poderia ter parado-o e exigido algo dele, mas tudo que fez foi prestar sua solidariedade.

Quando chegaram no alto de alguma colina, eles deitaram sobre suas patas cansadas. A lua no céu iluminando a relva que servia de cama para os dois. Avalon tinha os olhos fechados com o rosto sob suas patas. Ela sentiu lambidas detrás de sua orelha, mas manteve os olhos encerrados. Dougal uivou para a lua, e apenas isso a fez abrir os olhos e uivar com ele. Um sorriso lupino e ele lambeu de novo sua orelha. Avalon soltou um uivo rouco e retribuiu suas lambidas. Eles deitaram apoiando um corpo contra o outro, sentindo o calor deles como um suporte. O focinho de Avalon deslizou devagar pelo rosto de Dougal, e ele fechou os olhos aproveitando o carinho da loba. O carinho foi lento e tão suave quanto o bater de borboletas. O lobo grunhia de felicidade, seu rabo abanando de um lado à outro.

Eles ficaram juntos a noite toda, esquecendo-se do mundo exterior. Ali só existia a natureza e seu lado animal. Quando o sol começou a despontar no horizonte e iluminando a pequena cidade, Avalon ergueu as orelhas atentas e endireitou o corpo, antes de erguer o focinho pro alto e uivar para o sol nascendo. Dougal pulou nas patas dianteiras e uivou ao seu lado. Ele mordeu a orelha de Avalon e estagnou o corpo com as orelhas em pé, rabo erguido e corpo tremendo de ansiosidade. Avalon fingiu atacar, mas o lobo não saiu do lugar. Ele virou um pouco o rosto de lado e remexeu o rabo. A loba branca investiu nele e num piscar de olhos Dougal estava longe, correndo e latindo divertido. Eles repetiram essa sequência de movimentos, até que Avalon finalmente o derrubou e eles rolaram no chão.

Já era meio do dia, quando eles correram de volta para a cidade, Dougal sempre mantendo um passo firme ao lado de Avalon, não deixando de tocar seu pelo. Ele empurrou a porta da cozinha e deu passagem para que ela pudesse deitar no sofá como ela sempre fazia. Mas a loba permaneceu ao seu lado. Por instantes o lobo ficou observando-a, até que ele esticou as patas, uma a uma e posteriormente, enquanto caminhava na direção do quarto, o pelo virou pele e quatro patas viraram dois pés. Quando Dougal parou no limiar da porta do quarto, ele encostou a testa na madeira e olhou para baixo. Seu rosto estava em completa paz quando sorriu.

– Obrigado. Eu não sei o que faria sem você.

Supostamente para todo o restante da alcatéia de Kallai, Bernard era um lobo solitário. A maioria dos lobos não acreditava que ele tinha um povo com quem correr. Quando ele correu com Avalon, Dougal e Fergus para patrulhar a cidade, o que ele mais sentiu falta foi de seus irmãos ao seu lado. Lembrou-se de como era patrulhar a vila de onde Emehir nasceu. Ele às vezes corria com os lobos da primeira alcatéia, com Aaron ao seu lado e os gêmeos do outro lado. Mas ele também gostava de correr com o vampiro, que gostava de brincar com os lobos e satirizar, fingindo imitar o grito de outros animais. A saudade apertou mais forte quando ouviu o uivo de Avalon convocando para uma caçada ao sentir o cheiro de um animal próximo a eles. Eles estavam correndo há algumas horas já e precisavam repor as calorias, e não havia nada melhor do que a adrenalina da caçada para deixá-los mais animados.

Porém tudo que vinha na cabeça de Bernard era Abracham gritando sons de animais enquanto ele corria durante uma patrulha. Então quando estavam retornando para casa, ele uivou uma despedida e correu para seu apartamento. Ele estava com o coração dividido. Nunca antes, Bernard teve que escolher entre partir e ficar, mas assim como havia a saudades de casa, havia alguém por quem lutar. Ele jamais desrespeitaria Aaron, e por tudo que eles haviam passado, ele não poderia tolerar que o seu alfa ficasse mal sabendo que falhou em proteger a família Caeth. Primeiro foi quando chegaram tarde para proteger a família da Inquisição, depois foi quando os pais de Emehir morreram na floresta que eles juraram cuidar, onde o lugar que eles conheciam como lar e as pessoas que nela viviam jamais sofressem como no passado. Agora a criança que daria continuidade a família Caeth. Ou a que estava por vir. Mas tudo que tinha em mente não era apenas o sucesso da sua missão, agora sentia-se dividido com a mulher que amava. Ele não era um santo, e não saberia quanto tempo mais poderia manter-se em pé diante da mulher que amava sem tocá-la. Sua honra o questionava e seu coração exigia mais. O lobo então, apenas uivava. E estava em todo seu conflito, enquanto terminava de colocar a roupa, quando ouviu os passos apressados de alguém. Logo alguém tentando derrubar a porta com murros. E tudo que pode fazer foi resmungar sobre humanos sem noção do perigo.

– O que foi? — Bernard disse ao abrir a porta e desviar de um possível soco na cara.

Shannon franziu a testa e colocou suas mãos contra sua cintura. Seria assustador, se ela não viesse vestida como uma mistura de algodão doce e nuvens como se tivesse pego um pedaço do céu e colocado sobre seu corpo. De todos no Alasca, ela tinha sido como um raio de sol no meio de sua saudade, pois de alguma forma, talvez no modo divertido de extravasar o que quer que fosse, ela o lembrava de um ou dois de seu povo.

– O que está fazendo aqui? Por que não apareceu com Fergus?

Imediatamente Bernard colocou-se em sobressalto.

– O que acontece? — Ele já estava no corredor, com Shannon correndo ao seu encalço. Ele tentou manter um ritmo que ela pudesse acompanhar, mas sabia que estava indo rápido demais para a pobre coitada, mas ainda assim, talvez pela emoção do momento, ela o acompanhava, de salto e tudo.

– Emehir entrou em trabalho de parto, ninguém me deixa entrar e depois de ouvir o grito de Isis e ninguém me explicar mais nada do que estava acontecendo, eu achei que você seria o príncipe encantado perfeito. Também ouvi Aldott chorando, então nasceu, mas…

Bernard sentia o coração na boca, o que aconteceu para sua Isis gritar?

– Não me deixam ver Emer ou Isis.

Um rosnado brusco em sua garganta, e então ele apenas via vermelho. Tinha acabado de colocar roupas, mas sentiu o corpo mudar. Bernard mudou para o pelo e correu, deixando uma Shannon irada para trás. Sentiu que ela não tinha parado de correr, mas não podia mais se segurar por ela. Ele mal viu a porta da clinica, e as pessoas fugiam do seu encalço. Ao longe um lobo cinzento observava tudo bastante curioso. O cheiro no ar foi a única coisa que fez Bernard travar e erguer o focinho ao ar. Fergus foi recebê-lo na porta, mas ao perceber que o lobo tinha parado e estava em estado de alerta, o próprio mediador vasculhou o ambiente.

Bernard rosnou baixo e, por instantes, acreditou ter se tratado apenas de seu cérebro lhe pregando peças. Só podia ser uma brincadeira de muito mal gosto, ou talvez algo para que ele pudesse relaxar antes de entrar. O modo calmo de Fergus, quando tinha ido recebê-lo ditava que tudo poderia estar bem, mas ele sabia também como as pessoas olhavam e lidavam com sua coiote. Ele precisava vê-la e também saber o que se passara com Emehir. Afinal, ele foi enviado para ela e como Shannon havia realçado, ele seria o herói perfeito. Fergus deu uma ultima olhada nos arredores e deu espaço para que o lobo entrasse, não antes de dizer que havia roupas extras no escritório. Se houvesse um único arranhão em suas duas garotas, o lobo não queria encarar as consequências sem as garras, mas se nada tivesse acontecido, seria uma tolice precisar conversar e não poder porque estava em pelo. O cheiro de sangue estava forte, mas também ouvia o som de uma respiração curta vindo do quarto, do mesmo que vinha o cheiro de Isis. Bernard foi para o escritório e começou a colocar a roupa. Quando estava terminando de vestir a blusa ouviu a porta abrir. Ele não precisou virar para saber que era Kallai. O Brenin estava em silencio, e Bernard aproveitou esse tempo para terminar e vestir-se com a maior calma do mundo. Quem não o conhecesse acharia que era porque estava querendo esnobar do lobo, mas ele apenas segurava o próprio temperamento para que não atacasse o alfa.

– Fiquei sabendo que Emehir teve a criança. Como se passa?

– Aldott está bem. Só demonstrou ter garras para sair da placenta, mas agora tem todos os dedos gordos de uma bebê saudável. — A voz do Brenin inspirava orgulho.

Mas Bernard soltou um grunhido. Não queria saber sobre a criança, pelo menos não agora. Ela estava sob suas asas agora também, mas a preocupação pelas suas garotas era mais forte. Emer e Isis ele já conhecia.

– Isso é bom. E onde ela está? — Seria o certo a perguntar, quando soubesse que tudo ia bem com Emer, ela gostaria de saber também — Emehir já a viu?

O silêncio que se instaurou na sala foi desconfortável. E um bolo se formou no estomago de Bernard.

– Kallai. — a voz saiu mais lupina que humana.

– Ela viu Aldott antes de… Sente-se. Temos que conversar.

– Estamos conversando. — Bernard mantinha o rosto impassivel, mas sentou-se.

– Sem garras de preferencia. — Kallai sorriu, mas a alegria não estava presente em seus lábios, muito menos chegou aos olhos — Acha que sou quem sou sem saber o que acontece na minha alcateia? Muito menos em minha própria casa?

– Perdoe-me se não digo o que acho — Bernard ergueu a sobrancelha. — Mas gosto do meu rosto do jeito que ele é.

– Sei o que acontece entre você e Isis.

– O que acontece? — Bernard parecia uma paisagem de praia deserta.

Kallai riu e então sentou-se na poltrona que tinha de frente do sofá em que Bernard sentou. Ele esfregou as mãos e então afundou de um jeito na poltrona que não parecia que ele era um rei ou um alfa. Por instantes Bernard achou que Kallai era seu próprio coveiro, terminando de fazer sua cova. E o suspiro que ele soltou mais parecia um lamento funebre.

– A pior tarefa é quando alguem pede algo achando que o alfa garantirá um final diferente. Quando sou apenas um homem. Há muito pelo que falar e sinceramente não sei nem por onde começar. Só queria que o dia de hoje não tivesse acontecido, ou quem sabe fosse diferente.

– Mas não pode fugir dele já que estamos no meio do dia. — Bernard mostrou-se solidário — Estou perdido nessa conversa Kallai. Serei sincero, eu preciso saber como vai Emehir agora que sei sobre Aldott. Além de que ouvi dizer que Isis gritou, e não importa o que acha que temos, nós não temos nada. Mas, não sou homem de ficar de braços cruzados com uma dama ferida.

– Quem? — Kallai resmungou. — Quem falou?

– Shannon.

– Porque não me espanto? Essa menina sabe mais do que eu mesmo do meu próprio povo.

Os dois deram um sorriso sem jeito, mas para Kallai não ter percebido que a humana estava entre os que estavam na clinica no momento do parto. Bernard suspirou, mas manteve o silêncio. Já tinha colocado em mesa tudo o que queria saber.

– Como dizia, sei o que se passa entre vocês, mas preferia me fazer de cego, por que ao menos sabia que ela teria uma luz no fim do tunel de tudo isso. É errado, mas… Não pensava em como terminar tudo entre nós sem que acabasse na morte minha ou sua, e não me permitirei morrer, não tão cedo. Gostei que manteve sua posiçao de que nada aconteceu, só demonstra o quão se importa com ela.

– Engana-se — Bernard resmungou, mesmo que tenha preferido manter silêncio — Eu não estou me mantendo em silêncio para honrar sua posição como a mulher que é. Não aconteceu nada de verdade, deveria conhecer Isis, ela não iria traí-lo, mesmo que vocês dois não estivessem se dando bem, ela não o trairia.

Kallai assoviou.

– Homem, você é de ferro… Não imagino o que tenha passado, todo esse tempo…

– Kallai, vá direto ao ponto. — Bernard cruzou seus braços.

– Não haveria um jeito, mas parece que meu lobo achou. Isis gritou quando ele rasgou o nosso vinculo. Ele estava comendo o vinculo a um tempo, desde minha mente, até que finalmente conseguiu chegar nela. E isso aconteceu quando ela me disse que eu deveria transformar Emehir antes que ela morresse.

Bernard engoliu em seco. De todas as possibilidades que imaginou, nunca pensou que algo como o que aconteceu pudesse ser a salvação deles. Mas junto com a salvação, Bernard tentou não temer a retaliação que viria. Eles eram o primeiro casal que estava juntos há muito tempo e com o vinculo fortemente enraigado, que tinham se separado sem que envolvesse a morte de um dos dois. Mas acima de tudo, Bernard se colocou no lugar de Kallai, e como deve ser receber pedidos que transformem alguém, por que a possibilidade diz-se ser maior que de certo vindo de um Brenin. Quando na verdade, apenas deixava que o alfa ou Brenin ficasse mais apreensivo.

– Você fez?

Kallai ergueu o rosto assustado, talvez esperando outra pergunta.

– Tive que fazer. Aldott precisa de uma mãe pelo menos. — Kallai mordeu os lábios e mastigou um pouco — Não vai perguntar por Isis?

– Se algo tivesse acontecido com ela, você não estaria falando comigo agora. — Bernard inclinou o corpo para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos — E se algo acontecer com ela depois que isso se espalhar, eu juro que mesmo estando aqui como convidado, matarei com minhas próprias mãos quem ousar feri-la.

O Brenin acenou com a cabeça concordando com Bernard.

– Farei todos saberem que tem meu aval para matar quem a feri-la. Não poderia ter escolhido alguém melhor para cuidar dela.

Bernard fez uma careta.

– Não foi você que me escolheu.

– Não, não foi. — Então Kallai sorriu de uma forma que prometia morte — Mas se não me agradasse o fato de que a escolha dela pudesse lhe trazer dor, eu iria despedaçar o pretendente antes de dar tempo para ele se defender.

Eles se encararam e deram aquele olhar que dizia que estavam de acordo firmado. Bernard ergue-se num pulo.

– Diga-me onde está minha mulher?

Kallai também havia se levantado, mas sua atenção era totalmente na rua através da janela.

– Junto com Emehir.

Bernard deixou Kallai sozinho com seus devaneios e foi para o quarto em que sentiu o cheiro de Isis. Ele não bateu na porta, apenas entrou e encontrou-a deitada contra o corpo de Emehir. Isis tinha os olhos marejados, mas não tinha como olhar para mais nada além dos cabelos da humana. Isis apenas ergueu a mão na direção da porta, esperando que Bernard a segurasse, e foi o que ele fez depois de fechar a porta atrás de si. Ele sentou-se na cadeira que tinha ao lado da cama, e apertou a mão de Isis com a sua. Ela soluçou, e sua voz saiu fraca, que ninguém mais deveria ter ouvido, mas ele sim. Bernard levantou e beijou sua bochecha, depois acariciou a testa de Emehir.

– Ela é forte, vai viver. E nós também. Mostre para ela sua força, ela precisa disso.

A menina era calma, já haviam preparado uma mamadeira para ela se necessário e o que seria supõe-se que ela iria chorar. O que Lothar mais sabia era cuidar de crianças. Como ajudou a família a cuidar dos irmãos, e dos filhos de amigos, além de ser um médico. Ele deveria estar preparado para tudo, mas não estava preparado para o fato de que a menina não queria beber o leite, ou que não queria chorar, ou que não se incomodava de pular de colo em colo. Na verdade adorou essa atenção toda, e alternou entre cochilar e fazer graça para quem quer estivesse com ela no colo. Agora ela dormia no seu colo, enquanto seu irmão levava Sophie para casa. Ele comentou sobre algo que o inquietava, assim como provavelmente a Bernard. Sophie insistiu em levar Dott com eles, mas Lothar recusou, pois imaginou que assim que Emehir acordasse, ela iria querer segurar sua filha.

Lothar estava sentado no seu escritorio agora vazio, olhando para a rua com o pequeno pacote em seus braços, quando ele viu Shannon vir andando como quem não tem rumo. Adami veio logo atrás dela e Lothar sentiu o corpo ficar tenso. Não queria ver novamente um beijo entre eles, não queria mais a pontada no coração que doía desde o dia em que percebeu que foi rejeitado e não recebeu nenhuma satisfação sobre isso. Ele estava prestes a sair da janela, quando viu o olhar de Shannon, que parecia mais perdida que cego em tiroteio. E um instinto protetor despertou nele, juntamente com o choro de Dott. Lothar pestanejou com a menina nos braços.

– Shiu! Dott quietinha querida, eu tenho que ajudar, não acha?

A criança parou de chorar e olhou para Lothar curiosa, e por instantes o lobo acreditou que ela era dotada de mais inteligência que um bebê comum. Porém esse vislumbre durou pouco, pois o rosto dela se comprimiu novamente e ela abriu a boca para chorar. Lothar saiu da janela e pegou a mamadeira que tinha deixado a postos. Ele balançou o embrulho em seus braços antes de levar o bico até a boca dela. Dott pegou a mamadeira e começou a tomar com força. Lothar admirou a força daquela boquinha antes de voltar a caminhar com cuidado para a janela. Nela, Shannon mantinha o rosto cabisbaixo com cara de choro. Adami a abraçava com cuidado, mas nada fazia para que ela parasse de chorar. Os lábios de Lothar franziram em uma linha única no rosto.

– Ele não a fara feliz.

Uma mãozinha tocou os dedos que seguravam a mamadeira, e Lothar admirou o fato que ela o olhava.

– Você também acha?

Os dedos de Aldott deslizaram pela mão dele como um carinho. Ele sorriu sem jeito para a pequena e vislumbrou o canto dos lábios de Aldott erguerem-se com ele.

– Eu sabia que você era mais inteligente do que aparenta — Lothar grunhiu — E tenho certeza que concorda comigo, que não podemos ficar de braços cruzados com toda essa tristeza.

Aldott borbulhou de alegria, antes de voltar a mamar. Lothar riu e ao fazer, sacudiu a pequena que voltou a erguer as mãos para o alto e bater ligeiramente contra a mão que segurava a mamadeira.

– Já entendi. Mais leite, pequena comparsa.

Thorian amava o silêncio, ele não se incomodava de passar horas se não dias sem falar nada. Mas estar ao lado de Dunat estava se provando ser uma tortura perigosa de silencio. O homem lobo era como ele, silencioso, mas não o suficiente para que Thorian não percebesse sua impaciência, ou ouvisse a conversa no telefone. Ele sempre lembraria da voz do outro lado do telefone, foi baixa, mas o suficiente. Se ele encontrasse com aquele que aprovou que caçassem sua mulher, ou melhor, Emehir. Ele realmente deveria começar a se acostumar a isso, algo lhe dizia que não iria dar certo entre eles, mas talvez fosse apenas sua irmã ameaçando-o com nabos ou simplesmente com aquele olhar de piedade que as vezes ela lhe lançava, como se soubesse de algo que ele não.

Dunat não entrou em contato com mais ninguém, mas nem precisava, era como se tivesse tudo arquitetado em sua cabeça. Thorian deveria dar um jeito de avisar sua irmã sobre o que tinha descoberto até agora, mas o lobo também parecia insistente em manter-se ao seu lado custe o que custar. O pior foi quando teve que parar o carro para se aliviar e o lobo o seguiu. Aquilo já era demais, e Thorian começou a tentar conversar com o homem apenas para irritá-lo, afinal, Dunat havia demonstrado como ele que apreciava o silêncio.

Quando isso provou-se acertado, na próxima parada que fizeram, em uma lanchonete na cidade anterior de Wuruhuintown, Thorian já havia mandado uma mensagem através de um celular descartável que sua irmã tinha comprado para ele. Se a vida de sua filha não estivesse em risco, ele poderia jurar que sua irmã estava se divertindo fingindo-se de espiã. Quando eles finalmente chegaram na cidade, Dunat foi aventurar-se como turista, sempre tomando cuidado com lugares onde Bernard poderia cheirá-lo, o que deixou Thorian curioso. Como ele sabia onde estava seu companheiro de alcateia? E foi durante essa caminhada que Dunat parou e escondeu-se nas sombras. Thorian o acompanhou por instinto, e foi quando um lobo apareceu. Em pouco tempo, quando o lobo entrou, viu que Dunat estava para se retirar e Thorian fez um gesto que iria esperar. E o dragomir esperou, ansioso, com um zumbido em seu ouvido, dizendo que ele seria recompensado. Ele entrou na cafeteria e sentou-se próximo a janela para ter uma visão da rua e da clinica. E sua espera foi recompensada, quando um homem apareceu na janela da clinica carregando um embrulho, e foi quando Thorian soube. Aquela era sua menina. Ele aprumou o ouvido, mas estava longe demais para ouvir o que o homem falava. O viu dar mamadeira para sua menina e depois de um tempo ele a ergueu ao ar com cuidado e a criança balançou-se parecendo adorar a brincadeira. Quando ele virou-se para sair da visão da janela, Thorian teve um vislumbre do rosto de sua filha.

– Ninguém vai tocar em você — o dragomir murmurou — Eu juro. Nem que seja a última coisa que eu faça.