“Os monstros de ferro são assustadores, barulhentos e cheios de artimanhas para trazer a morte. Foi o que ela me disse. Eu falei que cada ‘monstro de ferro’ tem nome e objetivo de vida. As pessoas a ensinavam sobre o que cada ‘monstro’ poderia ser usado, mas tudo o que ela queria era apenas uma coisa... E até hoje, tudo que mais queria saber e nunca tive coragem de perguntar, foi como ela viveu sem tudo isso.”

Tete-a-Tete com S&S

Ela voava! Realmente estava voando! Depois de 32 anos, contando histórias sobre fadas e criaturas voadoras, que podiam ver o mundo abaixo de seus pés. Emehir sentia uma pontada no coração e o sorriso não abandonava seu rosto. E foi a primeira vez que ela viu um sorriso nos lábios de Thorian. Seu tio permitiu que ela partisse e que pudesse voar com suas próprias asas. E ali estava: acompanhada de Petrus, um homem divertido e que conseguiu distraí-la em seu medo do desconhecido, e Thorian, que até agora devia ter grunhido apenas um sim ou não. Eram dois homens distintos, como luz e sombras.

Quando encontrou com os dois comerciantes, Emehir não sabia para onde olhar. Petrus era um homem belíssimo e seu caráter apenas aumentava sua beleza. Tinha os cabelos arrepiados e completamente revoltados, negros, enquanto seu olhar acizentado, tais quais ela mesmo tinha. Eram distintos de se encontrar, mas nunca imaginou olhar para um espelho do seu. Um nariz arrebitado e lábios patrícios. Vestido com uma roupa social, ressaltando um corpo bem cuidado. Ele era a imagem de um verdadeiro homem de família. Emehir gostaria de poder dizer que sentiu-se atraída a olhá-lo pela segurança que ele transmitia, mas ao seu lado havia Thorian. E Thorian engolia tudo com sua presença. Era como um grande buraco negro, sugando a vida ao seu redor. Petrus era alguns centímetros mais alto que a galesa, mas Thorian devia estar na categoria de gigante. Emer chutaria que ele estava em seus plenos 1,95 de altura. Ombros e tronco largos, que pareciam que ele abraçaria umas três pessoas com muita facilidade. Mas ele não abraçaria. Ele era distante em toque e em falas. Os cabelos presos em dreadlocks, que alcançavam a cintura. Alguns prendedores espalhados no cabelo reluziam como jóias, pequenas pedrarias, como ônix e alguns rubis. Qualquer um diria que eram jóias femininas, mas apenas serviam para realçar sua presença. O cabelo multicolorido variando em tons de castanho e preto. As sobrancelhas eram largas e na esquerda, um corte, como uma cicatriz que descia até o olhar. Um olhar duro e marcante. Ele não a olhava diretamente, mas parecia varrer sua alma. O maxilar quadrangular era revestido com uma espessa barba e cavanhaque. Os lábios pareciam apertados e raramente usados. A pele bronzeada contrastando com uma blusa xadrez vermelha e preta. O casaco e calça de flanelas, com as mangas dobradas até o braço superior. Seus braços cruzados contra o peito apenas impunham uma percepção: guerreiro. Ele parecia um verdadeiro guerreiro, e o ar ao seu redor gritava que Thorian era perigoso. Emehir tinha pensado isso, até que o viu sorrir.

Ela olhava pela janela do avião e sua visão que tinha era de fofas nuvens brancas, parecendo pedaços de algodão e vários trechos de água e terra passando ao longe. Petrus pela primeira vez ficou em silêncio, aparentemente incomodado com o balançar daquele pedaço de ferro que flutuava. Mas Thorian fez o inesperado. Até então não havia se pronunciado, como nas ultimas horas que estiveram viajando, mas ali a olhando, esboçou um verdadeiro sorriso, um que prometia coisas que apenas faziam Emehir estremecer em sua pele. Acima de tudo, aquele sorriso demonstrava que o homem gostava da liberdade de estar ali.



Kallai queria bater com a cabeça contra a parede mais próxima. Os conselheiros da alcateia estavam confabulando pela quinquagésima vez sobre como lidar com os humanos fazendo pedidos estúpidos ao bando. Era como correr atrás do próprio rabo. Eles sempre falavam sobre as mesmas coisas, sobre os mesmos assuntos e nunca resolviam nada. Isis estava sentada ao seu lado olhando a cor da própria unha. Seu filho, escondido nas sombras do canto da casa. Encontrado apenas, por que sentada a poucos metros dele estava Sophie. Os cachos vermelhos dela destacavam-se dentro da sala sem cor. Seu outro filho sumido. As pessoas continuavam falando, ignorando totalmente sua presença. Pessoas estavam sumindo, e aqui estavam todos os lobos, brincando de assembléia.

Em uma piscada, o quarto estava tão vermelho quanto os cabelos de Sophie. Havia sangue por toda parte, pedaços de corpos destruídos. O ar rarefeito e ele em pé no meio da sala, sorrindo. Kallai pulou assustado da cadeira. Todos olhavam para Kallai como se tivesse nascido chifres nele. Eles tinham visto sua visão? O lobo dele rosnou feliz. Não, eles não tinham visto, ele que tinha gritado.

Fergus segurava a mão de Sophie, apertando-a como um porto seguro. O grito do pai estremecia no fundo de sua alma. Ele encontrou sua luz no meio da escuridão de seu posto na alcateia, mas Kallai não tinha essa sorte. Fergus tinha os olhos fechados e recusava-se a olhar ao pai, não queria ver o pai quebrar-se. Não na frente de todos. Ele sabia que o orgulho de Kallai não permitiria mais do que isso. Sophie alisava sua barriga, com um gesto protetor para com seus filhos. Com seu marido sem olhar para a situação e todos os anciões calados pelo grito do alfa, apenas Sophie viu o olhar perdido de Kallai. Apenas ela viu que o olhar dele estava diretamente nas mãos enlaçadas dela e de Fergus. Kallai engoliu em seco e procurou o olhar de Isis. Ela mantinha o rosto abaixado, ainda com os olhos em suas unhas, ignorando toda a situação. Kallai não aguentou mais. Ele levantou. Tempo para partir.



Emehir tinha que admitir, que a viagem estava ficando cada vez mais intrigante e misteriosa. Petrus voltou a falar como se o interlúdio do avião não tivesse acontecido. Ela tentou se concentrar para onde estavam indo. Sua primeira viagem para longe de casa, longe do vilarejo Caeth, longe de Hollyhead, longe da Inglaterra, além atlântico, até chegar as belíssimas tundras do Alasca. Emehir tentou concentrar-se na paisagem, mas o medo daquela maquina que estes homens tanto confiavam pudesse em algum momento sair da trilha e cair. Oh! Como alguém poderia se concentrar em algo dentro de um monstro da morte? O carro fez um som alto de breque e Petrus soltou um palavrão. Thorian, que era o motorista da vez apertou os dedos contra o volante.

Fora! Os dois!

Emehir estremeceu com a ordem, mas seu coração pulou agradecido por se ver longe do carro. Ouviu Petrus resmungar enquanto saia do carro. Não entendia como aquele homem podia tentar falar qualquer coisa para a muralha ambulante. Thorian saiu do carro e fez o carro parecer um brinquedo em miniatura. Ele estava simplesmente enfurecido, o cheiro de medo de Emehir rodava-o e nublava seus sentidos. Ele queria queimar toda aquela extensão branca de terra. Detestava esse lugar frio. Thorian era fogo e seu corpo coçava para liberar toda sua força sobre essa terra desconhecida. Quando saiu do carro primeiro olhou para seu contratante. Petrus era uma coisinha inferior a ele. Não era digno de respirar o mesmo ar dele. Thorian seria pago pelo seu trabalho, com seu peso em ouro. Aquilo sim era um trabalho digno. Ele só não precisava de um babá para isso.

Thorian inspirou fundo e olhou a natureza ao seu redor. Ele estava acostumado à regiões quentes, próximo a vulcões ou debaixo de cavernas, procurando pedras. Seu corpo preparado para aquecê-lo em tempos de friagem. Ele não levava casaco, o corpo pegando fogo com cada movimento. As árvores ao redor não ofereciam esconderijo para o trabalho em que foi contratado. Não importava, afinal tinham que deixar tudo à mostra para que o alfa visse seu trabalho. A neve cobria tudo e apenas alguns pequenos montículos de mato insistiam em subir imponentes contra o branco que o ameaçava. Ainda não haviam chegado ao destino em que deveria deixar a mensagem ao dono dessas terras, e ainda tinham tempo. O cheiro do medo e a vontade de queimar apenas o deixou com fome.

Ele virou para olhar para Emehir e um chicote de prazer percorreu seu corpo. Ela era uma mulher intrigante. Até então ele esteve nublado com a corrente de medo dela para com o mundo ao seu redor. Medo e excitação. Emer era como uma criança descobrindo o mundo, como se abrisse os olhos para a vida apenas agora. Humanas nunca antes foram intrigantes. Ela ria baixinho com a conquista de voar. E ele sentiu-se tentado a mostrar para Emer que voar em seus braços seria mais divertido. Até agora, ela apenas movia-se pela sua balança de temperamento e mesmo depois de tudo o que pensou dela, não se incomodaria em matá-la. Afinal, era uma humana frágil e sem utilidade.

Mas nada o preparou para aquela visão. Ela abraçava o próprio corpo e olhava para o além como uma verdadeira rainha dragomir pisando naquela terra desconhecida. Os cabelos vermelhos escuro ricocheteavam pelo vento que insistia em bagunçar sua presença. O rosto tinha um porte de uma mulher sábia, com suas bochechas salientes e nariz delicado, ela era uma misteriosa rocha detenta de uma delicadeza, que ele desconhecia das mulheres de seu povo. Os olhos cinzentos encaravam o horizonte ignorando a presença ameaçadora tanto dos dois homens ao seu lado, quanto da natureza que insistia em empurrar sua força contra a fragilidade do corpo humano. Emehir estremeceu com o vento frio entrando pela sua roupa fina, mas ainda assim permaneceu em pé, ereta. Quando a mulher entreabriu os lábios cheios e beijáveis, para deixar que um suspiro escapasse pelos seus lábios, Thorian teve que segurar a respiração para não deixar fogo jorrar pelas narinas. Ele sentiu-se tentado a cobrí-la com ouro e pedrarias. Tirar suas próprias pedras conquistadas nas lutas entre os machos de sua especie, apenas para que pudesse adorná-la como a rainha que ela era. O olhar de Thorian deslizou pelas curvas de seu corpo. Ela era pequena, com seios empinados e uma cintura não larga o bastante para parir. Emehir deveria comer para carregar seu filho. Sim! Estava decidido, não mataria sua presa. Ela seria sua esposa e a tornaria uma dragomir. Ela receberia o poder de seus ancestrais e… Thorian fechou os olhos com prazer, imaginando que de que cor seriam suas escamas. Seriam douradas como as fêmeas mais belas de seu povo? Ou teria o mesmo tom de seus cabelos? Petrus ignorava os cheiros que Thorian exalava e ele se sentia vitorioso por isso. Lobo estupido. Ele iria cuidar de sua esposa, mesmo que ela não soubesse que ela seria dele.

Petrus chamou a atenção pela terceira vez. Emehir vivia em um mundo da lua. Thorian decidiu parar para comer. Apenas atrasando seus planos. O lobo queria cumprir sua missão e quanto antes pudesse sair dali melhor. Ele era um dos lobos dominantes de seu bando. Não era o beta, mas ansiava por uma posição melhor na alcateia. Seu bilhete dourado? A morte de Emehir. A tola humana os seguia desconhecendo seu destino. E quando ela finalmente virou-se para os sobrenaturais foi pelo som da voz rouca de Thorian. Ele era um tenor e tanto, sua voz assustava tanto quanto sua presença. Petrus tentou encarou o gigante. Não sabia o que aquele macho era. Sentia sua dominante posição, mas cheirava a humano e toda vez que ele tentava sentir algum cheiro que revelasse sua descendência ou sentimento, ele parecia mudar. Seus líderes sabiam o que faziam quando escolheram alguém que ninguém poderia distinguir ou rastrear. O homem quase nunca falava e quando o fazia era assustador.

Emehir sentou-se no banco que Thorian havia colocado para ela. Ele parecia concentradíssimo no que fazia, enquanto retirava uma caixa — provavelmente com mantimentos — de dentro do porta-mala. Ele ajoelhou-se diante ela e por instantes pareceu que os olhos dele brilharam de divertimento. Tirou de dentro da caixa um cantil com alguma bebida quente e serviu para ela. Emehir meneou seu rosto num agradecimento digno de uma princesa e tomou um gole da bebida. Ele respirou fundo e sentiu o cheiro de chocolate quente. Ela fechou os olhos apreciando a bebida aquecê-la. Porém, juntamente com a bebida o olhar de Thorian a queimava. Emer queria recuar diante daquele olhar, quanto mais atencioso ele ficava, mais preocupada e temerosa Emehir sentia-se. Havia algo nele, uma promessa que ela não queria aceitar. Ela estava para agradecer quando Thorian tirou um pedaço de carne seca e estendeu para sua boca. Emehir fechou a boca imediatamente. Ele franziu o cenho e empurrou de novo a carne em sua boca, mas a mulher apenas apertava mais seus lábios fechados e recuava.

Coma

Ela balançou a cabeça negando. Thorian sentiu o fogo em seu estomago rugir por libertação. Emehir franziu as sobrancelhas também, tal como o homem fazia, e cruzou os braços contra o peito. E para essa reação, ganhou apenas um sorriso de canto de rosto do guerreiro.

Oh deusa! Me permita sair dessa sem estressá-lo mais ainda. Emehir balançou uma última vez seu rosto, recusando a carne oferecida. E quando ele se afastou, ela suspirou aliviada.

Não posso comer carne. A visão das runas se fecham quando ingiro carne vermelha.

Bruxa? Era por isso que queriam matá-la? Thorian inalou forte, mas não sentiu o cheiro de magia. Ela mentia? Não. Emehir era uma mulher digna. Totalmente humana e não uma elemental como as bruxas de seu povo. Ficou tentado em tocar aquela pele branca pálida apenas para ver o contraste que seria contra sua pele. Seu peito chiava pela união. Queria mergulhá-la em sua brasa. Sim, Thorian a marcaria como sua, para que todo dragomir soubesse que ela lhe pertencia. Assim como todo sobrenatural. Eles permaneceriam longe de sua esposa. Mas primeiro deveria fazê-la comer melhor. Olhou para a caixa de suprimentos que trouxe. Só tinham carne. E quis rugir com falta de nutrientes para sua companheira.

O chocolate está muito bom. Obrigada por sua gentileza Thorian.

Ouvir o próprio nome em seus lábios apenas o fazia querer afundar as garras contra a terra abaixo de si, em puro êxtase. Mas se contentou em encher a xícara da mulher. Enquanto o fazia olhava para o pescoço nu de Emehir. Um pescoço digno de um colar de rubis. Sim! Ele iria fazer um colar com rubis ou com as pedras que ela preferisse. Mulheres gostam de diamantes, não?



Kallai afastou-se de sua alcateia. Ele pisava duro para longe dos anciões e de seu povo. Eles eram todos lobos velhos e irritantes. A maioria tinha descoberto um passatempo para driblar a loucura. Kallai sabia que alguns até tinham jogos perigosos como brigas entre si, alguns mais inofensivos como plantações, outros ainda escreviam poesias. Todos tentando manter a sanidade da própria mente e do lobo. Os animais que existiam dentro de suas almas, não era monstros. Mas quando você tem alguns anos — 1000 anos se não mais — e vê o mundo mudar tanto, a mente pode entrar em colapso. Precisam de uma distração. Mas Kallai temia a si mesmo, pois seu lobo, mesmo quando jovem, era um monstro. Sempre foi. Ele apertou a têmpora, prevendo uma dor de cabeça chegando. Muitas civilizações morreram sob suas mãos. E as vezes parecia que ele ainda podia cheirar o sangue ao seu redor.

Um trotar interrompeu sua linha de raciocínio. Um lobo ignorava suas ações, se aproximando dele. Quem seria o tolo que caminhava para a morte? Kallai virou o corpo para o recém chegado e reconheceu aquela pelagem mesclada. Dougal sempre pareceu um grande pastor alemão. Ele tinha a pelagem marrom escura, com toques vermelhos na luz, mas sob todo o flano e até sua cabeça, o pelo negro sobressaia. Mas a semelhança com um pastor terminava ai. Os olhos eram de um prata muito distinto. Seu tamanho era quase similar a um pequeno urso, maior que muitos lobos por ai. Dougal era um lobo que não gostaria de encontrar sozinho em qualquer lugar. E ele escolhia seu nome e idade de tempos em tempos. De todos os lobos que conhecia, era o mais velho. Ele muito bem poderia ter 2 mil anos como 12 mil. Kallai sabia que eles poderiam brigar a qualquer momento pela liderança, mas por algum motivo, Dougal apenas abanava o rabo alegre por estar na alcateia. Quando estava há poucos metros de distancia o lobo ergueu-se nas patas traseiras e num movimento gracioso demais para uma criatura assustadora, ele voltou ao corpo humano. Revelando um homem de uma possível ascendência egípcia. Olhos castanho claro e antigos. Olhar nos olhos de Dougal era como olhar para uma máquina do tempo. Um arrepio passou pelo corpo de Kallai, ele não queria lembrar do passado. O cabelo de Dougal estava molhado, ondulado até os ombros. O rosto pontiagudo, com as bochechas salientes, Dougal realmente escondia o passado no rosto de um jovem árabe. A barba por fazer despontava no queixo e maxilar. E seus lábios como sempre moldados em um sorriso sádico. O homem era a loucura em pessoa.

Ouvi dizer que gritou feito uma mocinha lá na assembleia.

Loucura em pessoa, loucura em pessoa, loucura em pessoa”. O lobo de Kallai rosnou irritado. Imagens de um lobo rasgando a pele de Dougal piscaram na mente do alfa. Ele balançou a cabeça querendo afastar as imagens. Kallai evitou rosnar junto com seu lobo.

Você não está ajudando.

Era para ajudar? Devo ir buscar o meu diploma de terapeuta do ano de…

Você nunca fez faculdade de psicologia Dougal.

Fiz sim, mas na época eu tinha outro nome. Será que devo voltar a ser Flynn o médico?

Kallai se afastou em passadas rápidas. Não era hora para discutir trivialidades com Dougal. Não estava a vontade para brincar com o velho lobo. Dougal bufou e inclinou a cabeça num gesto tipicamente lupino. Se ele pudesse teria abaixado as orelhas em submissão. Mas era tudo uma encenação. Em rápidas passadas chegou ao lado de Kallai e caminhou sem se importar com a raiva que cheirava em Kallai. Além da raiva, havia também o cheiro de sangue. Ele sempre cheirava a sangue, mas poucos eram os que sentiam. As vezes, Dougal achava que só ele sentia.

Você tem que colocar uma roupa Dougal. Naturismo não é bem visto pelos humanos.

É bem visto quando você tem um corpo divino como o meu.

Kallai não respondeu, apenas revirou os olhos.

Agora está preocupado com o que os humanos pensam?

Sempre me preocupei.

Então por que não faz algo com o que está acontecendo.

Você também ? Apareça nas assembleias e fale sua opinião.

Para que? Se quem realmente precisa ouvir e tomar uma decisão é você. Posso simplesmente vomitar pra você Kal.

Kallai não estava querendo ouvir nada, mas mesmo se recusasse, Dougal falaria de qualquer forma. Nada impedia o velho lobo de falar. Bom quase nada, se Kallai usasse seu poder de alfa sobre ele e mandá-lo para o Japão, o lobo iria. Mas havia uma certa loba que gostava da presença do velhote por lá. Dougal se calou enquanto caminhavam pelas casas de madeira e alguns iglus um pouco mais distantes. Kallai observava seu povo, os humanos e os lobos, passarem e cumprimentarem aos dois lobos com respeito. Mesmo que um deles andasse como veio ao mundo em plena neve. O alfa parou de repente olhando para um iglu. Seu lobo ganiu. Não vá por ai! Ele implorou a sua mente. Mas não podia evitar.Ele lembrou-se da pequena e adorável mulher. Sua esposa, mãe dos seus filhos. Ela era uma humana adorável, até que ele a transformou para viverem juntos para sempre. Lobos vivem para sempre, mas lobas sempre podem morrer na gravidez. O lobo de Kallai ganiu novamente e então uma imagem de sua esposa em sua mente, envolta por um grande lobo cinzento quase branco. Ele sentia falta dela tanto quanto ele. Ele havia convencido o lobo que ela era deles. Demorou, mas aos poucos ele a aceitou, e agora sentia sua falta tanto quanto ele. Kallai estava perdido em seus pensamentos quando Dougal finalmente falou.

Quando nos revelamos aos humanos foi para poder viver em paz com eles. Mas essas mortes, esses sumiços. Não estão matando apenas humanos Kal. Há faes sendo arrastados das florestas, as bruxas estão sendo tão caçadas quanto na época da revolução. Esfolam lobos. Kal quem é que consegue prender um lobo por tempo suficiente de esfolá-lo?

Podem ter feito isso depois de mortos.

Dougal negou com a cabeça. Uma sombra passou por seu olhar.

Eu cheirei os corpos. Eles sofreram ainda vivos Kal. Eles foram esfolados vivos. Nosso povo está sendo torturado e você está sentado deixando-os impunes.

Temos que obedecer as leis humanas.

Sempre aplicamos nossas leis. Fergus poderia caçá-los.

Não! Ele tem que ficar ao lado da companheira. Ela está…

Ambos os homens lobos engoliram em seco. A gravidez das lobas eram perigosas. Um risco tanto para a mãe quanto para os filhotes. Elas poderiam ter um, dois ou até sete crianças. Que corpo humano aguentava? Kallai apertou o cenho. A dor de cabeça viria pior do que o normal. Um lobo uivou ao longe, clamando por atenção. Os dois homens lobos viraram-se para o som e fecharam os olhos apreciando a música em seus ouvidos. Outros lobos uivaram em retorno. O corpo de Kallai vibrou e ele concentrou-se em sua alcateia. Ele precisava sentir-se vivo e por isso fechou os olhos e procurou pelos lobos que uivavam. A terra tremia aos seus pés, ele sentiu as presenças de seus lobos, um a um, surgindo como uma luz em sua alma. Seu lobo calado novamente. Ele era silencioso, ao contrario dos outros lobos. Kallai não sabia o que devia temer, quando ele se pronunciava ou quando se calava à sua mente. A presença mais forte era a de Dougal ao seu lado e ele sempre vibrava mais intenso que todos os outros. Então um brilho distinto. Lobo solitário. Rosnou e Dougal saltou ao seu lado.

Vou pensar no que me disse Doug. Agora vá aos anciões e exponha sua opinião.

Kallai usou seu poder de alfa fluir pela sua fala. Dougal rosnou irado quando virou-se e rumou em direção à assembleia. Quando um alfa ordenava, todos obedeciam. Era natural e, apesar de ser de seu direito, Kallai raramente usava. Mas alguém veio ao seu território, e não se apresentou. Ele não queria ter que enviar Fergus. O mediador precisava de uma folga e Lothar era um médico, um curandeiro, não um assassino. Ele verificaria por si mesmo, o que o lobo solitário fazia em suas terras. Ele deixou o lobo tomar conta de sua pele, mas não antes de orar ao divino, seja ele quem fosse, para que a loucura ficasse longe de sua alma por hora.

Ele queria ver o nascimento de seus netos.