Quando o passado não te deixa viver
46 Um Dia Normal?
Notas iniciais
Bella
— Humm.
Gemi baixo quando os barulhos da manhã invadiram o quarto me acordando e trazendo a realidade de uma segunda-feira para minha vida.
— Quê isso, Isabella?
Sussurrei com a consciência ativa de que algumas partes do meu corpo doíam. Porém, não havia um pingo de arrependimento em mim. Edward e eu matamos a saudade de dois fins de semana, nossos dias especiais, separados. Graças aos preparativos e casamento de nossos irmãos.
E então, uma semana depois, do tão sonhado dia de Alice, estávamos prontos para nos trancar por dois dias aqui na casa dele e nem atender o telefone. Nossa necessidade, um do outro, era tanta que Renée, com toda sua percepção de mãe, convenceu Antony de que dois dias na Sonho Azul sem os pais, seria a melhor das aventuras.
Bom, e mesmo com o coração doendo e amando ser mãe em todo sentido da palavra, confesso que a agradeci por isso. Porque convenhamos, de vez em quando, é preciso tirar um tempo para o casal. É maravilhoso poder aproveitar Seu Amor sem serem interrompidos no meio de qualquer ato. É inexplicavelmente satisfatório não precisar se calar ou se controlar quando a saciedade é tanta que a externar com palavras é quase que uma necessidade.
Ahhh, e Edward e eu havíamos feito demais isso no sábado e domingo. Então não era de se admirar que músculos do meu corpo, que eu nem sabia que existiam, ardiam como o inferno agora.
— Vai, Bonita... Perca a cabeça por esse homem. Agora fica aí... sem nem conseguir dobrar as pernas. Acha que é contorcionista ou quê?
Briguei, baixinho, com a “Safadeza que habita em mim” enquanto lentamente e fazendo um esforço épico para não gemer de dor, me virava para o “maldito, bonito, gostoso e lindo” homem que dormia tranquilamente, de bruços, bem a meu lado.
— Putz!
Foi o meu maior erro! Nem lembrei mais da dor... Edward estava nu, e totalmente descoberto. (Também, quem pensaria em se vestir quando tinha outros planos em mente para a noite toda?)
Os braços descansavam embaixo do travesseiro, fazendo assim com que as costas se elevassem, destacando demais a tatuagem, de chapéu, feito especialmente em minha homenagem.
— Ah, Meu Amor...
Grudei meu corpo, (também nu, já que não me deixou vestir nada mesmo), ao dele. E sem conseguir resistir à tentação tracei, primeiro com os dedos, depois com os lábios o contorno do desenho.
Ele nem se mexeu.
Rá! Também estava exausto. E, de novo eu, a Safadeza em pessoa, se exaltou de alegria em saber que também havia acabado com ele.
— Lindo! Homem do céu, eu te amo tanto.
Depositei beijinhos por todo espaço que conseguia sem me movimentar muito, ou sair do lugar porque, por Deus! Até meus dedos dos pés doíam.
— Vida, se continuar me bajulando e beijando bem aí, juro que aplico umas injeções de relaxante muscular e analgésicos em nós dois, desligo os telefones e dispenso todos os empregados só para recomeçarmos de onde paramos.
— Nem pensar! Ai!
— Nem pensar, é?
Gritei quando ele, de repente, se virou e me prendeu debaixo de seu corpo, com uma disposição e força, que me fizeram duvidar que estava sentindo alguma coisa.
— Posso fazê-la mudar de ideia. Quer apostar?
Segurou meus ombros, se aconchegou entre minhas pernas e sorriu de um jeito canalha e cheio de si, quando me fez perceber o quanto já estava pronto para mais uma rodada de amostra de seus desejos por mim.
— É uma proposta tentadora, Vida. Mas... Hummm!
Gemi descaradamente, quando fui interrompida de meus argumentos por um empurrãozinho de leve, que tocou em partes minhas, que eram devotas implacáveis dele.
— Acho que estou vencendo, Linda. Posso partir para a segunda fase?
— Edward...
Choraminguei quando chegou um pouquinho mais para a frente, adentrado e sorrindo de minhas reações.
— Quer dizer alguma coisa, Bella? Não estou ouvindo.
— Eu, eu... Não podemos.
— Não? Tem certeza? Eu poderia me empenhar só mais um pouco. Quer ver?
Ah eu queria, e como queria, porém...
— Vida, é segunda-feira. Passamos dois dias longe de Antony e...
Perdi o fôlego de vez quando investiu mais um pouco com uma motivação inexplicável.
— Não vamos emendar mais um dia, Linda. Quero só me inundar de você, enquanto posso, para ver se suporto até termos mais um tempinho para nós.
Beijou meu pescoço com mais ímpeto, derrubando todos os meus argumentos.
— Um mês, Vida. Um mês e será minha todos dias. Prometa que teremos pelo menos uma semana de lua de mel. Somente nós. Sem trabalho, sem família, só nós.
— Prometo.
Como não prometer quando as mãos dele passaram por baixo de mim e se fecharam em meus ombros. Segurando mais forte, impulsionando com mais afinco.
Eu já não pertencia mais a mim.
— Quem bom, Linda. Porque serei implacável e insaciável. E só para saber, escolheremos um lugar isolado. Porque se vestir será proibido.
— Combinado.
Sussurrei concordando porque, juro, faria o que ele quisesse naquele momento, contanto que não parasse de se mexer.
— Ah, Bella...
Murmurou satisfeito com minha total falta de coerência e esquecimento dos compromissos diários. Só mesmo Edward Cullen para fazer isso comigo.
Edward
— Que horas sai hoje? Quero te levar na Sonho Azul. Precisamos conversar com seu pai.
Desci e corri no intuito de tentar abrir a porta para ela. Não consegui... mesmo assim dei a mão para que se apoiasse e descesse da camionete alta. Adorava ver seus pulinhos ao saltar do carro.
— Lá pelas dez e meia. Só tenho os três primeiros tempos na faculdade, semana de provas é mais tranquilo. Só que preciso de um tempo com a coordenação. Quero ver se aprovaram as questões que sugeri para o vestibular do início do mês.
Fez menção de me mostrar, porém segurei sua mão, disfarçadamente a impedindo.
Ela entenderia depois...
— Seu irmão já chegou.
Beijei seus dedos e apontei para o carro de Emmett.
— É verdade.
Pareceu confusa, mas deu de ombros e mudou de assunto quando me fiz de indiferente.
— Não sei se dará tempo de falarmos com Charlie hoje. Chegaremos por volta da meia noite. Ele terá dormido há tempos.
Segurei seu cotovelo e a guiei para que atravessasse a rua. Já que suas mãos estavam repletas de material escolar, mais a bolsa e a maleta.
— Não tinha pensado nisso. Talvez devêssemos conversar com ele amanhã de manhã. Podemos atrasar nossa chegada a Forks. Vou falar com Jéssica para desmarcar meus pacientes da manhã.
— Não quero atrapalhar.
— Não vai.
E não ia mesmo. Minhas prioridades eram eles agora.
— Quanto a carona, vou precisar, mesmo que não dê certo de falar com papai. Estou sem carro e...
— Acho que alguém não quer que eu a leve.
Apontei e estacamos, ao virar a esquina para entrar na loja deles e “dar de cara” com a camionete dela estacionada bem na frente.
— Bom dia, bom dia. Quem trouxe meu carro?
— Boa tarde, você quer dizer, né? Tá viva, tem certeza? Todas as partes de você estão aí? Consegue andar?
Emmett olhou de nós para o relógio duas vezes. Depois fez perguntinhas infames, fazendo Bella corar e olhá-lo com raiva contida.
Eu nem me dei ao trabalho de ficar envergonhado. Era só oito e quinze ainda. Que culpa tenho de termos sidos distraídos duas vezes essa manhã por nossos desejos e necessidades?
A cama e o chuveiro são testemunhas de que bem que tentamos nos afastar e... ou melhor, não eram testemunhas mesmo. Porque se tinha uma coisa que eu não queria nesse mundo era me afastar de Bella.
Nunca!
— Quanto a seu carro, eu trouxe. Leah veio guiando o meu, já que temos uma consulta de Annie agora as nove. Porém, os meninos me ligaram bem cedo...
Apontou para Mike que me olhava de cara feia. Abracei Bella pela lateral, “esfregando na cara dele” que ela já tinha dono desde sempre.
— Temos uma chamada de urgência de um produtor rural novo, candidato a cliente bom. “Uma fêmea premiada” está mancando e eles precisam de uma avaliação nossa. Só que não posso ir, terá que fazer isso. Por isso, trouxe seu carro. Jasper já chegou também, está no escritório com a papelada.
Falou tudo de uma vez, enquanto lhe passava um papel que eu supus ser informações do chamado do tal produtor.
— E Antony? Ele tem aula. Devia ter vindo com vocês e...
— Veio. Está com Jasper, no escritório. Manhoso e emburrado porque não queria ter vindo.
— Vamos vê-lo... Emm sabe se estará aqui a tarde? Preciso de alguém para pegá-lo na escola?... Mike prepare minhas coisas, sairei em seguida.
Me puxou pela mão para os fundos da loja, fazendo mil coisas ao mesmo tempo. O irmão nos acompanhou e continuou falando.
— Provavelmente não. A consulta é em Port Ángeles. A tarde temos um teste, desses de bebês, e uma seção de fotos que Leah teima em fazer. Daquelas que as criancinhas ficam enrolados em “paninhos de fazer queijo” parecendo mendigos sem eira nem beira.
Levantei as sobrancelhas tentando entender do que falava. Bella só sorriu e sacudiu a mão me incentivando a ignorar. Emmett era absurdo demais quando queria.
— Nosso irmão também não estará disponível. A secretária da prefeitura ligou avisando que os fiscais ambientais visitarão as obras das represas. Jas quer estar lá para que eles não inventem nada para nos multar ou embargar as obras.
— Hum. Então terei de pedir a Charlie ou...
— Eu busco.
A interrompi bruscamente.
— Não quero te atrapalhar. Pode ser que esteja atendendo e...
Apertei, de leve, sua mão e a impedi de continuar falando.
— Não é o caso. Ele é meu filho, Bella. Em um mês precisaremos adaptar nossos horários já que estaremos em nossa casa. Pode ir tranquila para seu atendimento. Dou um jeito.
O que era uma verdade. Não poderíamos depender de seus irmãos e pais para sempre. Seríamos nós em casa. E era a hora de sermos nós por nós mesmos.
Amo nossas famílias, porém, precisávamos tomar todas as rédeas.
Minha esposa, meu filho, minha família. Eu daria um jeito em tudo a partir de agora.
— Ok.
Respondeu meio apreensiva, porém dando o voto de confiança que eu tanto necessitava.
— Ele sai as 15:45hs. Fica sentadinho esperando com o porteiro. Não pode se atrasar muito, senão terá um rapazinho irritado e choroso quando chegar.
— Sim, senhora! O que mais chefe?
— Ih, acostuma cunhado... Mandona!
Emmett imitou um espirro no “mandona” e eu bati continência.
— Idiotas! Acho que gostava mais quando se odiavam. Havia me esquecido como era chato quando eram cumplices.
Deu um tapa em nós dois e depois fez uma “expressãozinha” de emburro que, por Deus, eu morderia demais, se não estivéssemos bem em frente a seu irmão mais velho.
Antony poderia ser a minha cara, contudo o gênio era da mãe. Ele fazia daquele jeito quando contrariado.
— Se acostume, Baby By. Edward e eu estamos em trégua permanente agora.
Demos um soquinho um no outro e ela só pode revirar os olhos e arfar de desgosto.
— Homens!
Finalizou a conversa quando entramos no escritório do outro irmão.
— Mamãe! Papai!
Antony gritou e correu a nosso encontro, pulando nos braços da mãe que logo se abaixou para pegá-lo.
— Tony estava morrendo de saudades.
— Mamãe também estava. Parece que cresceu demais desde sexta.
Fechou-o nos braços e encheu seu pescoço de beijos.
— Para, mamãe! Para! Tá “sufolcando” o bebê.
— Como? Quer dizer que é bebê agora? Nada de peão?... Deus te abençoe, Filho.
Fiz o sinal da cruz em sua testa e beijei seus cabelos ainda molhados de um possível banho, já que estava muito cheiroso.
— Hoje Tony tá um pouquinho bebê da mamãe. Já que sentiu muita saudade. Mas é só hoje e só para a mamãe.
— Ah, você tá é muito sapeca.
Peguei-o dela e mordi sua barriga trazendo de volta as altas gargalhadas.
— Não, papai! Para! Tony sentindo a “balrriga” doer.
— Não paro!
Dei mais umas mordidinhas nele só para ouvir mais um pouco de um dos sons mais lindos do mundo.
— Delícia! Você é saboroso, Campeão.
— “Ingual” a mamãe.
— Ah, totalmente igual. A maior verdade de todas.
Insinuei para Bella já o colocando no chão.
— Palhaço! Deixe de gracinhas. O que deu em vocês hoje? Precisamos trabalhar.
Voltou a me estapear na barriga e se afastou indo para perto de Jasper que já lhe estendia um monte de outros papeis e uma caneta.
— Vem, papai. Vem ver o desenho que fiz do “curral” e dos estábulos que vamos fazer lá na nossa casa nova.
Putz!
Meu coração perdeu duas batidas e só não chorei de emoção, porque sabia que não passaria despercebido de meus cunhados.
Porém, ver que ele já considerava minha casa como nossa, era o céu. E o melhor, que já tinha planos para as eventuais mudanças que faríamos.
— Claro! Vamos ver. Depois mostramos para mamãe e se ela aprovar mandamos para o engenheiro.
Bella revirou os olhos e eu dei de ombros. Claro que eu realizaria todas as vontades deles sempre que pudesse. Bastavam estalar os dedos.
— Ignore seu noivo babão e assine os papeis, Bells. Preciso sair.
— Bom dia para você também, Jasper. Que bom que voltou da lua de mel. Também estava morrendo de saudades...
— Ah, chata! Falei com você ontem. Está tudo igual desde então. Só assine. Quero ver se chego rápido da vistoria da prefeitura. Alice e eu temos uma casa para visitar hoje. E espero que ela goste dessa. Porque juro, se não escolher depressa, eu desisto. Edward, você bem que poderia me ajudar. Convença sua irmã a escolher qualquer uma, nem que seja provisório. Depois que o bebê nascer construímos uma do jeitinho que ela quiser. Eu vou ficar louco com as exigências dela para um simples lugar de morar.
Coitado! Tive pena.
Jasper puxava os cabelos e parecia desesperado. E eu só não ri daquilo, porque certeza de que me acertaria com o grampeador.
— Olha, papai. Aqui será a cerquinha e aqui...
Acenei em concordância para Antony, enquanto tentava animar meu cunhado.
— Falarei com ela. Mas, não se preocupe tanto com isso, Jasper. Assim que escolherem ela fará o resto. Alie é ótima em decoração. Montar uma casa será como brincar de casinha para ela.
— Tomara, ou eu... Aqui e aqui, Bells.
Interrompeu a conversa de novo mostrando a irmã mais um monte de folhas.
— O que é isso? Não assinarei mais nada enquanto não explicar.
— É você passando todos os seus bens para mim, sua idiota!
— Titio!
Antony e eu nos indignamos. Porém, meu filho verbalizou. Eu só olhei para eles com estranheza.
— Ignore seu tio, Antony. Os hormônios de Alice estão contaminando o bom senso dele. Agora venha aqui, se despeça de seus pais e vamos lá para minha sala. Preciso de sua ajuda com alguns gráficos que precisam de cor.
Emmett disfarçou e pegou-o. era evidente que queria tirá-lo de perto de Jas.
— Se cuida, Amor. Nos vemos mais tarde.
— Seja um bom aluno e faremos algo legal a noite, enquanto esperamos a mamãe.
Beijamos sua testa e eles nos abraçou em retribuição.
— Tony sempre é!
E então ele se foi. E lamentavelmente aí, nesse instante, cometemos o primeiro erro do dia.
Perceberam?
Bella
— Desculpa! Não quis ser mal-educado. Respondi sem pensar.
— Dobre a língua. Ninguém tem culpa do seu mal- humor.
Joguei as folhas em sua direção, não assinando mais nenhuma.
— Bells, eu preciso que...
— Mais tarde assino. Preciso sair agora e você também. Esfrie sua cabeça e lembre-se que, da porta para dentro do trabalho, seus problemas pessoais ficam lá fora. Assim como deve deixar aqui os percalços relacionado a empresa. Nem nós, nem Alice e seu filho merecem pagar pelo que não fizeram.
— Bells...
— Passe bem, Jasper.
— Edward...
Revirei os olhos para ele já saindo. Disposta a deixa-lo com sua consciência pesada.
— Acalmarei a fera. Mas, você hein Jasper? Conhece Bella melhor do que eu, sabe que ela não suporta falta de educação.
— Eu sei.
Respondeu Edward, bem baixo. Contudo não fiquei mais lá para ouvir o que diziam. Precisava sair para o atendimento antes que fosse tarde demais para o pobre animal.
— Ei, Linda? Me passa seu número?
Edward se apressou a meu encontro e enlaçou minha cintura. Levantei a mão direita para ele.
— Não posso. Sou noiva.
— Graças a Deus!
Sorriu lindamente para mim e juro que se não tivesse que sair, me trancaria com ele em minha sala.
— Bella, me dê a chave? Precisamos carregar a camionete.
Mike nos interrompeu quando Edward leu meus pensamentos e já ia me puxando para seus braços.
— Ah, ok. Não esquece de colocar o aparelho de ultra portátil.
Fiz menção de me soltar, porém meu noivo ciumento, foi mais rápido, me apertou de encontro a si, com um braço, enquanto usava a outra mão para tatear meus bolsos em busca das chaves que eu havia pegado a pouco em cima da mesa de Jasper.
— Hum, lugar bom de guardar.
Disse pegando o objeto no bolso de trás. Sua provocação a Mike não passou despercebida, já que fez questão de dar um apertão indecente antes de jogar-lhe, com um pouco mais de força, a chave.
— Obrigado!
— Babaca!
Edward sussurrou um insulto, assim que o outro se afastou,
— Olha! A boca de vocês hoje está impossível.
Despreocupadamente, deu de ombros, pegando de novo minha mão voltando a andar de volta para a loja.
— Não posso fazer nada. Se ele quer briga, vai ter briga. Você é minha, e faço questão de que entenda isso. Fico pensando...
Fez cara de inocente e segurou a fonte do nariz.
— Será que terei voz ativa nessa loja quando nos casarmos? Porque se tiver... juro, por Deus, coloco esse sujeitinho para correr assim que assinarmos os papéis.
— Faça isso e me dará o direito de expulsar Jéssica também.
— Ela te incomoda tanto assim? Porque eu posso nos livrar dela agora mesmo e...
— Não, Edward...
Segurei seu rosto que parecia aflito com algo que poderia me chatear.
— Foi só um exemplo, Vida. Se acalme. Não faz sentido tirarmos de nossa convivência cada pessoa que nos frustra ou que demonstrem uma admiração excessiva.
— Admiração excessiva? Eu chamaria de outro nome.
— Anjo...
Passei os dedos por suas têmporas lentamente, tentando trazer a serenidade de volta para ele.
— Passamos anos separados e ninguém alcançou nossos corações. Acredita mesmo que isso seja possível logo agora que estamos juntos de novo?
Acariciei seu nariz com o meu. Não me importei se estávamos a centímetros dos balcões da loja, a olhos vistos de nossos funcionários. Eu só precisava que ele entendesse que nada interferiria em nosso sentimento.
— Bem que tentaram te conquistar.
Suspirou fundo claramente se lembrando de Benj.
— Tentaram...
Dei selinhos carinhosos nele e acariciei seus cabelos.
— Por favor, não deixe que tirem nossa paz.
Encarei seus olhos e clamei baixo.
— Está certo. Desculpe. Acho que já estou com saudades.
Me apertou mais escondendo o rosto em meu pescoço absorvendo ao máximo meu perfume.
— Nem vai dar tempo disso. A noite estaremos juntos. Além disso, terá tanto trabalho que nem se lembrará em mim.
— Rá!
Se afastou e então foi a vez dele me encarar como se tentasse alcançar minha alma.
— Não duvide, nem por um minuto, que lamentarei cada segundo desse dia sozinho. Não há nada que eu queira mais, Bella, do que passar 24hs com vocês.
Não respondi, não podia, não sabia como. De uma maneira quase que vulnerável ele abria-se todo e eu só pude lhe abraçar mais apertado.
— Prometo rever meus horários assim que nos casarmos e o ano letivo terminar. Talvez deixe as aulas ou diminua meus dias aqui na loja. Vamos ver. Encontremos um meio termo. Eu prometo e...
— Não! A universidade não! Daremos um jeito. Não se preocupe com isso. Não precisamos pensar nisso por enquanto.
Não entendi sua relutância. Também não fiz questão de prolongar o assunto, por enquanto, tinha trabalho a fazer e ele também. Porém, fiz uma nota mental de voltar àquela conversa assim que pudesse.
Mal sabia eu que Edward tinha tudo arquitetado e que só seria informada de suas ideias mirabolantes bem mais tarde.
Edward
— Fique tranquila. Cuidarei de tudo e pegarei Antony. Se não der tempo de nos vermos a tarde, antes de ir para suas aulas, nos veremos a noite. Se cuide. Não corra muito, as estradas estão péssimas. Beba água, coma e...
— Sim, papai...
Revirou os olhos me respondendo quando fechei sua porta, assim que os funcionários terminaram de carregar a camionete.
— Teimosa!
— Paranoico! Está tudo bem, Edward. Não é meu primeiro atendimento. Sei me virar.
Sabia disso perfeitamente, porém, algo me incomodava. Eu só não sabia o quê.
— Não é essa a questão, Vida. É que esse lugar fica “onde o Judas perdeu as botas”. É no fundo de um vale com muitas montanhas e serras. A estrada é puro buraco. Você demorará uma eternidade só para chegar lá, sem contar a volta. Não venha muito tarte. A noite fica praticamente intransitável. A poeira sobe e as carretas jogam o farol alto e...
— Edward... Se acalme. Ficarei bem. Volto assim que puder e te ligo para certificar-se de que estou viva.
Sorriu levando minhas preocupações como se não fossem nada.
— Não brinque com isso.
Respondi ríspido.
— Ok.
Ficou séria vendo que eu não tinha achado nem um pouco divertido sua forma de me tranquiliza.
— Vai dar tudo certo. O Brasil é cheio de morros, Vida. Estou acostumada. Volto rápido. Não se preocupe. Agora deixe-me ir. Quando mais rápido sair, mais rápido volto.
— Tá.
Segurei seu rosto e me despedi, pela milésima vez, beijando seus lábios e acariciando o pescoço que agora era adornado por uma corrente grossa sustentando o anel e a aliança de noivado. Ela os tirara evitando acidentes de trabalho já que trataria de um animal de grande porte.
— Volte o mais rápido que puder para mim.
— Prometo. Te amo!
— Não mais do que eu te amo.
Sorri e bati em sua porta quando ela deu partida e se afastou.
Uma angustia inexplicável me apossou no mesmo instante. Um medo, um pressentimento, sei lá.
Só sei que de alguma maneira, eu sabia, que aquele dia não acabaria bem.
Ah, seu eu tivesse ouvido meus instintos!
Rósalie
— O que foi? Está me olhando como se eu fosse um fantasma.
— Nada. Está bonita hoje.
— Ai, Rósalie. Você é estúpida demais as vezes. Eu sempre sou bonita.
Jogou os cabelos para o lado, se exibindo. Graças a Deus, não enxergando minha tentativa de descobrir o que pretendia.
— Eu sei. Mas hoje está diferente.
Voltei a sondá-la.
Estávamos num café em Forks. Ela bebia e comia tranquilamente, como se nada a incomodasse. Eu, porém, não havia conseguido nem tocar na xícara a minha frente.
Um bolo se formava em minha garganta. Ela tramava algo.
Foi uma surpresa quando me ligou as seis da manhã, exigindo que nos encontrássemos imediatamente na cidade. Na minha cidade, não na dela.
Em Forks. Tânia odiava Forks. E se estava ali tão cedo é porque tinha algo maligno em mente.
— É porque o dia de hoje é especial. Tenho que me preparar para as comemorações.
— Comemorações? De quê? Nem é seu aniversário.
Levei o líquido aos lábios. Não conseguindo beber ainda, só fingindo. Dando a impressão de naturalidade ao momento. Porém, por dentro, eu começava a me desesperar.
— Humm, muitas coisas.
Continuou misteriosa. Mas, o que mais me incomodava era o sorriso cruel que não abandonava sua face.
— Por exemplo?
— Nada muito especial. Só estou feliz. Sabia que tenho um emprego novo? Ah, isso sem falar que estou fazendo uns servicinhos de secretária por fora, até já agendei um atendimento, para uma pessoa, hoje cedo. Sabe como é, né? Sua família fez o favor de nos deixar na ruina. Então, qualquer dinheirinho que entrar é lucro.
Por Deus! O que ela estava fazendo?
Não havia verdades em suas palavras. Era óbvio que mentia e falava em enigmas. O problema era que eu não conseguia decifrá-los.
— Isso não é motivo para celebrar, Rose?
— Claro que é.
Voltei a xícara para o lugar, logo depois, ajeitei o cabelo, tentando parecer a mesma Rósalie que ela conhecia. Precisava que confiasse em mim e falasse mais.
— E onde é esse novo trabalho? O que faz lá? Não vai mesmo tentar clinicar em alguma cidade próxima?
— Rá, Rosie! Você é hilária. Quem me daria emprego depois que as doutoras Cullen e Swan espalharam tantas coisas a respeito dos Volturi? Nem uma clínica particular. Então tive que usar da criatividade. Mas, te conto outra hora. Agora tenho que ir, preciso me preparar. Ah, e talvez te veja mais tarde. Farei uma visitinha a seu irmão, na clínica, passe por lá.
Levantou-se e como se quisesse destruir meu mundo, abriu a grande bolsa e a revirou, deixando uma arma, isso mesmo uma arma, a mostra.
Minha alma congelou.
— Ah, esqueci a carteira. Pague a conta, Rosie! Beijinhos!
Acenou cinicamente e saiu. Deixando-me tonta e completamente inerte por alguns segundos.
Seja o que for que estivesse tramando, eu não ficaria de fora. Era a minha chance!
E que Deus me perdoasse e ajudasse!
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