Quando o passado não te deixa viver
47 O plano do mal
Notas iniciais
Bella
— Putz!
Segurei mais forte o volante e pisei no freio devagar, evitando o arranco e consequentemente o travamento dos pneus. Não podia cometer o mínimo erro, ou então a camionete deslizaria e sem dúvida cairia no desfiladeiro. E, por Deus? Devia ter uns cem metros aquela queda. Não sobraria nem pó de Isabella Swan.
Eu só ficava pensando que raios uma pessoa tinha na cabeça de comprar terras “para essas bandas”. Era literalmente quase no inferno. Já que a serra da descida era conhecida como “Garganta de Hades”.
Eu nunca tinha vindo para esses lados sozinha. E faria questão de confrontar Mike, por não ter agendado um horário que eu tivesse companhia. Porque sinceramente, eu estava arrepiada e muito preocupada com a volta. Porque, como dizem: “para baixo todo santo ajuda”, mas e a subida? Creio que nem com a tração no máximo conseguiria sair dali sem esforço.
Ah, mas Mike me pagaria.
— Calma, Bella! Muita Calma! Está chegando!
Exclamei ainda rezando para que nada desse errado. Eu tinha muito o que fazer ainda.
— Graças a Deus!
Sorri grata, quando finalmente terminei a descida e senti a estabilidade da planície do pequeno vale a minha frente. Mais dois quilômetros, de acordo com o GPS e as instruções de Mike, e finalmente chegaria ao meu destino.
E que aquele novo cliente valesse a pena porque trabalho já estava dando.
— Hum, nada promissor, Mike, nada promissor.
Avaliei por alto a parte de frente de uma casa grande, que a décadas atrás provavelmente pertenceu a alguém muito bem sucedido. Porém agora...
A fachada branca era alta e seria imponente se não estivesse tão mal cuidada. O tempo cobrava seu preço. A tinta sumira em algumas partes onde já se via o reboco e os tijolinho, assentados no barro, como antigamente.
O telhado precário, faltando parte das telhas do acabamento. As janelas altas de madeira, antes azuis celeste, agora estavam desbotadas e com lascas grandes soltando por todas as partes, devido as alterações climáticas.
Aquilo era o sinônimo de desmazelo total.
— Promissor, muito promissor.
Resmunguei mais uma vez, lembrando das palavras de Emmett.
— Está mais para “cliente desleixado”, isso sim.
Estacionei bem debaixo de um ipê frondoso que lutava para se manter bonito, bem de frente, ao que um dia foi uma daquelas varandinhas com três bancos de cimento aos lados, que com certeza era o auge da arquitetura nos anos 70 ou 80, não tenho certeza.
— Bom dia! Oi?
Chamei e logo em seguida bati palmas já que não parecia ter ninguém ali.
Um arrepio estranho percorreu minha alma. Não era de ter medo, nunca fui. Porém, tinha que dar o braço a torcer, aquele lugar não tinha uma aura boa.
— Quem é?
Gritou alguém lá do fundo, quando já me preparava para sair dali com urgência.
— Isabella Swan, a veterinária.
— Ah!
Escutei um baque estranho e um arrastar de algo pesado. A voz que respondeu não era familiar. Talvez de um senhor na faixa dos sessenta, arrisquei.
— Já vou... Era só o que faltava... Onde estava com a cabeça quando aceitei essa merda?
Dei dois passos para trás, ficando perto o bastante do carro. E, pela primeira vez na vida, lamentei não ter ouvido Charlie que insistia comigo para sempre carregar uma arma na camionete.
— O que quer?
Acertei em cheio, um homem alto, corpulento, sem camisa, com pelos no rosto e peito. Com um cabelo grande e maltratado, apareceu a minha frente e não parecia nada feliz com minha presença.
— Senhor, bom dia. Como disse sou Isabella, a veterinária. Estou para atender um chamado do senhor...
Tirei do bolso o papel com as informações preliminares que Mike colheu.
— Forge. Waylon Forge.
Ele me olhou de cima abaixo para logo depois cuspir algo que mastigava quase a meus pés.
— Sei. Isso deve ser coisa daquele imbecil do meu filho. Espere aí, veterinária... CORA! CORA! Onde você se enfiou mulher? Traga aquele moleque aqui.
Me deu as costas já gritando. E não passou despercebido como disse minha profissão com escárnio.
Algo não estava certo, e de novo, dei mais um passo para perto do carro e abri a porta. Qualquer coisa, me jogaria lá e sairia dali sem pensar duas vezes.
— Ah, você chegou. Entre! Meu nome é James. Eu que fiz a chamada.
Arqueei as sobrancelhas quando outro homem na faixa dos trinta apareceu. Ele segurava a porta me chamando para dentro.
Rá! Nem pagando!
— Não, obrigada! Prefiro ficar aqui. Estou com um pouco de pressa. Gostaria de ir direto ao assunto, se não se importa.
Imitando o pai, também me olhou de cima abaixo e pela milésima vez aquele dia, me arrependi de ter ido até aquele lugar.
— Tudo bem então, doutora. É por aqui.
Apontou para a esquerda onde uma entrada precária de madeira nos levaria aos fundos da propriedade.
— Adiante o assunto. Preciso saber se o caso está na minha alçada ou se é preciso esperar meu irmão que também está vindo.
Menti na cara dura. E sim, era uma medida desesperada, contudo, o olhar frio dele, pedia medidas desesperadoras.
James era forte, loiro, com cabelos grandes e desgrenhados. Mas, o que mais me deixou desconfortável foi o olhar de escárnio e talvez desejo que deu a meu corpo quando o respondi sem seguir suas ordens.
— Temos um animal ferido. Uma égua. Ela está mancando e creio que o problema seja na pata. Acha que dá conta ou esperamos seu parceiro?
Ergueu a sobrancelhas, fazendo assim com que os olhos grandes e claros ficassem ainda mais assustadores.
— Depende do problema. Se for musculatura posso ajudar agora se for no casco eu...
— Não vai saber se não olhar, não é? Pode me seguir? Ou é dessas que medica as segas? Porque se for, as informações que recebi de seu profissionalismo, não são verdadeiras.
Era uma provocação e sim, eu não devia cair. No entanto, ele estava certo. Eu tinha mesmo que avaliar o animal.
— Ok. Vamos lá.
Peguei a maleta e o celular, no carro, e me aproximei cautelosamente.
— É por ali.
— Eu te sigo.
Apontou o caminho. Mas, não fiz o que disse. Não lhe daria as costas.
Ele bufou irritado. E não teve escolha a não ser caminhar a minha frente mostrando o lugar.
— É um animal bem velho. Mas é o único que puxa a carroça e meu pai não abre mão dele e...
Tagarelou enquanto atravessávamos a lateral da casa e nos dirigíamos para, o que imaginei, ser os estábulos.
— É por aqui.
Apontou de novo, quando passamos pela varanda da casa, onde o homem que abriu a porta para mim, segurava a pilastra e nos encarava com uma expressão nada boa.
— Não gaste meu dinheiro com aquela égua velha, James. Se a doutorazinha não der conta. Pegue a arma e resolva o problema.
Ele cuspiu, outra vez, e resmungou, como havia feito agora a pouco.
— Relaxe, pai. Ela parece ser boa.
O tal James sacudiu a mão e continuou a caminhar. O pai xingou algo e voltou a gritar com a coitada da esposa, uma senhora baixa, que lavava alguma coisa no tanque.
Ela só me olhou de soslaio e o que aquele gesto transmitiu me fez querer correr dali imediatamente.
Medo e pena. Ela lamentava minha vinda.
— Ali. Aquela é a “Lerda”. Legal o nome, né? Meu pai que deu.
Riu com puro deboche apontando para um animal maltratado e deixado em meio ao desmazelo personificado.
— O que é isso, santo Deus? Um furacão passou por aqui?
Não segurei a língua. Era tudo um caos. Não estávamos numa baia, muito menos num curral ou cercado apropriado.
Era, era... sei lá... um lugar aberto em meio a um maltratado pomar. O chão coberto por um cascalho com pedras grandes que machucariam quaisquer patas e pés. E por fim, uma cerca de arame, farpado, parcialmente caída pelos quatro lados.
— Legal, né? Nós gostamos de tudo “bruto e rústico”.
— Idiotas!
Resmunguei baixinho, querendo que Emmett estivesse ali para poder gritar em alto e bom som, como se tratava um animal de verdade.
— Posse se aproximar, ela é dócil. E se não for...
Apontou para uma vara de madeira com um lança na ponta, encostada perto da parede do que um dia foi um barracão.
— Não precisa disso. Nem se a pata dela estivesse sã, creio que não me consideraria um inimigo.
— Olha aí, Lerda. Trouxe a sua médica. Agora pode deixar de moleza e melhorar logo, porque temos que carrear toda a colheita de milho antes que a chuva volte a cair nesse inferno de lugar.
Bateu com força na parte detrás da égua que chegou a se abaixar de dor, bem por cima da pata machucada.
— Por favor, poderia se afastar. Preciso olhar mais de perto. E parece que ela não está confortável com você aqui.
— Como queira, doutora.
Levantou a sobrancelhas, se afastou, arrancou um pedaço de capim e passou a mastigar de boca aberta, nunca tirando os olhos de mim.
— Oi, garota. Está doendo, não é? Vamos cuidar disso?
Procurei por algo que pudesse apoiar a maleta, porém como não encontrei, coloquei tudo no chão mesmo.
— Vamos aliviar essa dor para que eu possa avaliar melhor?
Com os dedos, peguei uma grande quantidade de pomada a base de Canfora, e passei a massageá-la, desde a anca até perto do tornozelo esquerdo, muito inchado.
— Isso, calma. Vai aliviar.
Repeti o gesto mais algumas vezes, até que por fim, senti que um pouco da tensão a deixava. Sabia que era temporário e o método paliativo, porém era o máximo que podia fazer para ajudá-la antes de um exame completo.
— Muito bom! Agora fique tranquila, só vou olhar mais de perto o que tem aqui.
— Pode parar de falar com essa besta, doutora. Ela não vai te responder.
— Já respondeu!
Grunhi, me referindo a ele que não parava de tagarelar besteiras.
— Hum, isso não é bom.
Sem dificuldades, já que ela estava magra demais, levantei a pata, firmei em minha perna e avaliei o casco.
— “Tem uma broca e uma inflamação” aqui, garota.
Me recusava a chama-la de Lerda.
— Em estágio muito avançado, diga-se passagem. Já vem sofrendo com isso a tempos, não é?
Apertei o local e ela se contraiu. Sangue e “pus” vazaram da ponta do casco quebrado.
— Quando foi feito o último “casqueamento”, senhor?
Me referi ao processo de cuidado e limpeza dos cascos dos animais.
— Ah, meu pai passa o facão aí de vez em quando.
Deus!
— Certo!
Voltei a colocar a pata dela sobre o chão e virei pegando o que precisava na maleta.
— Ela precisa de um “casqueamento” completo e profissional. Para encontrarmos a ferida, limpar e então tratar com antibiótico e depois anti-inflamatório.
Levantei com uma injeção na mão e a apliquei antes que ele dissesse mais alguma besteira.
— Isso aqui é para tirar a dor. Vou deixar mais duas para que aplique de 12 em 12 horas. Sabe fazer isso, não é?
Juntei minhas coisas, guardei, pronta para sair dali.
— Claro que sei! Mas, é só isso? E o “casqueamento”? Não vai fazer? Acha que não temos dinheiro para pagar? Porque se for...
Coloquei as ampolas em suas mãos e ignorei demais a vontade de manda-lo para o inferno.
— Escutou o que eu disse, senhor? O animal precisa de um profissional. Não é algo fácil e que se aprende somente numa faculdade. Graças a Deus, meu irmão é o melhor da região. Então voltamos amanhã. E aí sim, poderei cuidar dela melhor. Enquanto isso, a deixe descansar. Coloque comida e água em abundância e não deixe que “nenhum outro animal” ...
Inclusive você e seu pai, acrescentei em meu íntimo.
— Se aproxime.
— Descansar? Ela é uma égua, sabia?
— Claro que sei! E será uma égua morta até quarta se não fizer o que digo.
Lhe entreguei a guia de atendimento e uma caneta, e esperei enquanto assinava.
— Meu pai não vai gostar disso.
— Então acho melhor o senhor acalmá-lo e dizer tudo o que recomendei. Porque senão não poderei ajudar.
Peguei o papel de sua mão, joguei dentro da pasta e recomecei o caminho de volta até meu carro.
— Então é isso?
Assenti com a cabeça, andando rápido demais, já que dessa vez ele estava atrás de mim.
— E quanto ao seu pagamento, quanto é? Preciso pegar o dinheiro.
— Nossa empresa enviará os boletos depois que meu irmão e eu concluirmos o atendimento. Até lá façam o que recomendei.
Quase corri quando passei de volta pela varanda da casa, completamente vazia e fantasmagórica agora.
— Certo. Então... não quer almoçar conosco? Já está tarde. Vai chegar a Forks só lá pelas quatro.
— Não, obrigada. Tenho outro atendimento na fazenda de um amigo, aqui perto. Ele está me esperando para almoçarmos.
Menti.
— Uma água então? Você parece suada.
Sem que eu esperasse, ele deslizou o dedo por minha nuca e eu dei um pulo e me virei já com a maleta levantada pronta para acertá-lo caso se atrevesse mais.
— Não estou com sede. E não me toque. Não tem liberdade para isso.
— Tudo bem. Foi só instinto. Não precisa ficar bravinha.
Não respondi, voltei a andar e quase respirei aliviada ao avistar o carro.
— Passe bem, senhos James. Amanhã estaremos de volta.
Entrei no carro e travei as portas. Abaixei dois dedos do vidro. Só o tanto para que ouvisse sua despedida.
— Aguardarei ansiosamente.
Não ousei falar mais nada, nem respirar direito, enquanto a camionete não se afastou uns dois quilômetros.
— O que foi isso? Senhor!
Desacelerei e só então dei lufadas altas em busca do ar. Eu não conseguia relaxar. O medo ainda tomava conta e eu tremia de tensão e nervoso.
— Ah, Mike, eu mato você. Isso se Emmett e Edward não o fizerem antes, quando descobrirem pelo que eu passei.
Murmurei, acelerando mais, usando toda potência e tração que o veículo me permitia, até que alcancei e estrada principal, mais movimentada e longe o suficiente da “família terror”.
— Graças a Deus! E...
Contudo, meu alívio não durou nada. De repente a camionete emitiu um sinal sonoro de alerta e logo uma luz passou e piscar no painel.
— Putz! Era só o que faltava.
Guiei por mais alguns metros até encontrar uma clareira a direita da estrada. E então lamentando profundamente não ter ficado na cama aquele dia, desci para avaliar os estragos.
— Ah, não!
O pneu detrás estava esvaziando rapidamente, furado!
— Eu mandei olhar semana passada, não é possível. Eu... o quê?
Exclamei espantada ao me abaixar e passar os dedos pela borracha grossa até encontrar uma abertura considerável na parte de dentro do objeto.
— Ah, James!
E que Deus me perdoasse se estivesse pecando, mas parecia muito com um rasgo feito por algo cortante.
E de novo aquele arrepio passou pela minha espinha.
Eu estava sozinha no meio do nada, o celular não tinha nem um risquinho de sinal e minha intuição gritava para que corresse dali o mais rápido que pudesse.
Porque obviamente, ou alguém me queria ali ou não me queria em Forks e eu não sabia o que mais me aterrorizava.
Edward
— Edward, precisa de mais alguma coisa, ou posso ir almoçar?
— Pode ir.
Com um aceno dispensei Jéssica, que enfiara só a cabeça para dentro de meu consultório. Nem a olhei. Estava ocupado demais adiantando o trabalho da tarde, para que tivesse o tempo livre assim que pegasse Antony na escola.
— Bella ligou?
Perguntei antes que ela sumisse.
— Não. Insisti a manhã toda, o celular só deu fora de área. Já sua irmã Rósalie...
— Não quero saber. Pode ir, Jéssica.
Eu queria era falar com Bella, algo me incomodava e precisava demais ouvir sua voz para me acalmar.
Quanto a Rósalie, o que quer que quisesse comigo, não me interessava. Que ela se ferrasse com seus problemas.
— Ok. Mandei pro seu e-mail o restante dos exames que chegaram. É só avaliar. Imprimo quando chegar.
— Certo.
— Quer que traga alguma coisa para você comer?
Putz! Por que ela não ia de uma vez?
— Não, obrigado! Como qualquer coisa depois.
Finalizei a conversa ao virar de costa para pegar algo, imaginário, na gaveta atrás de mim, para ver se ela desconfiava.
Começava a entender a irritação de Bella por minha secretária.
— Até mais tarde.
Não respondi. Meu humor estava péssimo.
— Calma, Edward. Muita calma. Está parecendo um louco possessivo e obsessivo. Vai assustar sua mulher desse jeito.
Resmunguei não aguentando a espera, pegando o celular e digitando os números que já sabia de cor a essa altura.
Nada. Só uma mensagem irritante de que ainda estava fora de área.
— Senhor, o que é isso?
Esfreguei o peito enquanto abria o aplicativo de mensagem. Aquela sensação não me deixava.
— Vida, já chegou? Estou com saudades. Me avisa quando estiver aqui? Quero fugir para te beijar. Te amo!
Não era o que eu queria dizer. Pretendia gritar para que me ligasse assim que obtivesse sinal e escutasse minha mensagem, todavia, assustá-la não era uma opção. Bella não tinha culpa se eu andava “sensivelzinho” demais.
— Ela está bem, ela está bem... Faz isso todos os dias. Ela está bem.
Murmurei, como uma oração, enquanto tentava voltar ao trabalho.
E as pessoas ainda perguntavam o porquê de eu querer abandonar tudo para viver seu mundo. Se tivesse tomado essa atitude antes, há essa hora Bella não estaria sozinha no meio do nada. E eu não estaria aqui a ponto de perder o juízo e ir atrás dela.
— Ah, mas, isso não vai mais acontecer, eu juro, Vida! Eu juro.
Segurei o porta-retrato, com a foto dela e de Antony em minhas mãos, rezando para que eu estivesse muito errado quanto aquela sensação.
Rósalie
— DROGA!
Gritei batendo no volante enquanto esperava o maldito sinal abrir.
— EDWARD, SEU BURRO! ATENDE ESSA MERDA!
Gritei mais alto, assustando o motorista do carro parado ao lado do meu.
— O QUE É? NUNCA ME VIU NÃO?
Rosnei para ele, e fechei o vidro ignorando os seres medíocres de Forks.
— ABRE LOGO!
Voltei a esbravejar.
Eu precisava chegar à clínica rapidamente. Monitorei Tânia a manhã inteira. Ela havia passado na porta do trabalho de Edward umas quinze vezes, e toda vez, ou tinha alguém ou estava fechado para almoço.
Contudo, agora a pouco, me distraí comprando uma água e ela, logicamente percebeu e se afastou, rumando para o centro da cidade.
A víbora atacaria o filho de Esme e eu precisava fazer alguma coisa, porque a louca estava armada.
— Até que enfim!
Enfiei o pé no acelerador, chegando a fritar pneus, e voei por entre as ruas estreitas e movimentadas pelo horário. Faltava alguns minutos para as cinco, a clínica estava quase fechando e algo me dizia que ela avançaria naquela hora.
— Ah, não.
Freei bruscamente, bem na porta da loja de Emmett assustando as pessoas ali presente. Porém nem me importei, porque Tânia, agora, parava de frente a clínica e pegava alguma coisa no banco do passageiro.
— JÉSSICA!
Gritei correndo e entrando na recepção, que graças a Deus estava vazia.
— O que foi? Eu falei com o doutor “um milhão de vezes” que você queria falar com ele, só que...
— Ah, esqueça isso. Me dê essa chave. Vá embora daqui.
— Ei! Não posso, preciso fechar e...
Arranquei as chaves de suas mãos, olhando pela porta de vidro freneticamente. Tânia descia.
— Eu fecho. Preciso falar com meu irmão. Vá embora.
— Mas, ele...
— Vá de uma vez, inferno!
Empurrei-a até a saída. E quando viu o carro de Tânia bem ali, ela empalideceu e só então entendeu que algo não estava certo.
— Edward está no consultório.
— Eu sei. Vá embora!
A empurrei para a calçada e fechei a porta, tranquei e desci as persianas assim que ela saiu.
— Ah, Rosie, Rosie... Eu sabia que ia me trair. Mas, não tem problema. Tenho a tarde e noite inteira. Quem sabe não “mato dois coelhos com uma bala só”.
— Vá embora, Tânia. Deixe de loucura. Chamarei a polícia.
— É, faça isso. Chame a polícia e atiro daqui mesmo. seu irmãozinho está na sala ao lado. Consigo vê-lo daqui. Sabia que esses vidros não são resistentes o bastante? Claro! Por que seriam? Numa cidadezinha ralé dessa, quem ousaria a atirar no vidro, não é?
Mostrando que estava ali para tudo, ele bateu com o cano da arma da porta e me assustou mais.
— Só eu mesmo. Pow! Pow!
Fez barulho com a boca.
— Vá embora, Tânia. Edward não te fez nada. Não merece ser o alvo de sua loucura. Ele é meu irmão. Estive sempre com você, leve isso em consideração.
— Não fez? A humilhação pública dele ter escolhido a Caipira não conta? Ah, Rósalie, você literalmente não me conhece. Vocês pagarão! Eu tenho o tempo todo, querida!
Escutei a porta do carro abrir e o barulhos de seus saltos tilintando até lá. Com certeza ela havia se sentado para nos esperar e evitar que os pedestres desconfiassem de seu comportamento.
— Por Deus! O que eu faço?
Dei mais alguns passos para trás e firmei numa pilastra grande, que servia de suporte para uma estátua bonita de Esculápio o deus da medicina na mitologia grega.
— Mas, o que isso? O que faz aqui?
Dei um pulo e abri os olhos nem me lembrando de quando os havia fechado.
— Edward, eu...
— Saia! Não é bem-vinda.
Sem nem esperar por uma explicação, ele atravessou o restante do espaço que nos separava, se dirigindo a saída e sacudindo a porta.
— Por que está trancada? Onde está Jéssica?
— Eu a mandei para casa, ela corria risco aqui também e...
— Você o quê? Quem acha que é para mandar em meus funcionários? Enlouqueceu de vez? Saia ou não respondo por mim.
A raiva dele era tanta que se não me escutava em estado normal, imagina agora?
— Não! Você não pode sair. Tânia ela...
— Ah, então é isso? Estão de conluio de novo? O plano é me trancar aqui com ela até Bella aparecer? Ah, tão adolescente e previsível, Rósalie!
— Não é isso. Você está enganado eu...
— Não me interessa. Saia da minha frente! Tenho um compromisso agora.
— Não. Você não pode sair. Ela vai tentar...
Por Deus! Eu não conseguiria. Ele estava decidido. Vasculhava os bolsos, provavelmente, em busca das suas chaves.
— Me impeça?
Olhou-me do alto, com a empáfia e ódio tão característicos dele em relação a mim, desde, desde... desde que ajudei a acabar com sua vida há tempos atrás.
— Edward...
Choraminguei uma última vez tentando comovê-lo até que me ouvisse, só ouvisse.
Porém, não tinha jeito. Ele já me empurrava para o lado e enfiava a chave na fechadura.
Era o fim!
Tânia o mataria e eu seria responsável por essa tragédia também. E consequentemente, acabaria com duas famílias. Já que nem meus pais e tios nunca me perdoariam.
— Edward...
Nada! Ele nem se dignou a me dar uma última olhada.
Trinquei os dentes e apertei as mãos em punho, só então me dando conta de que ainda segurava a pilastra do objeto que adornava a recepção.
— Me perdoe, irmão.
Foi instintivo, peguei a estátua e com toda força que tinha a acertei na cabeça dele por trás.
— Me desculpe! Eu não sabia o que fazer para te parar e...
Num primeiro momento, quando se virou para mim, segurando onde eu o havia acertado e me encarando surpreso, achei que não havia surtido efeito, que era fraca demais e que não era um golpezinho que o faria desabar.
Contudo, três segundos depois, os olhos dele, começaram a se revirar e suas pernas bambearam.
Só tive tempo de soltar minha arma improvisada, e passar os braços para sua cintura tentando minimizar a queda.
— Oh Deus!
Sim, minimizar. Porque Edward era grande e pesado demais para que eu sustentasse todo aquele corpo desfalecendo.
— O que você fez, Rosie?
Sussurrou e por fim, desmaiou.
— Graças a Deus.
Com muita dificuldade, o ajeitei sobre o carpete, e debrucei sobre seu corpo, conferindo a respiração e os batimentos cardíacos.
— Tudo bem, tudo bem. Pensarei nas consequências depois.
Me escorei na porta silenciosamente, forçando a mente a acalmar e tentando ouvir os barulhos de Tânia.
— Rosie... Oh Rosie... Vai se esconder até quando? Sabe que tenho todo tempo do mundo, não sabe? Se seu irmãozinho não foi meu, não será de ninguém.
— Você vai pagar, Tânia. Eu juro que vai.
— Ou não. Estou bem aqui, Rosie. Sentada no carro. Chame a polícia, ou avise alguém e eu alvejo esse lugar com minha arma.
Fechei os olhos e pela primeira vez, em anos, rezei, implorei, roguei para que Deus nos tirasse dessa ilesos. Se Ele fizesse isso eu jurava que as coisas seriam diferentes.
Tânia
Devagar e tentando ao máximo não fazer barulho, me afastei da rua, a pé, e corri para o carro de meu pai, que havia deixado na rua debaixo da clínica Cullen hoje de madrugada, quando chequei os últimos detalhes do meu plano.
— Pronto! Com três idiotas fora de combate. Agora é hora da terceira etapa do plano.
Conversei comigo ao chegar no carro, entrar e só então parar para respirar e checar, no celular, a foto que James havia me enviado do pneu de Isabella completamente estragado.
— Muito bom!
Valeu pagar pelo serviço daqueles idiotas. Isabella demoraria a voltar para a cidade e Edward estava fechado com a tola da irmã na clínica. Tudo saiu como pensei que sairia.
Rósalie caíra “como um pato” achando que eu atacaria o irmão dela.
Rá! Seria fácil demais matar um deles tão rapidamente. Sem dor demais.
Eu queria lágrimas, desespero, sofrimento, esperança e só então acabaria com aquilo dando um fim no que mais os unia. E de quebra, ainda sairia com o dinheiro que roubaram de nós.
Era o plano perfeito. Só faltava pegar a peça principal. Por isso, não esperei mais. Acelerei o carro até perto da escola do Pirrallho e com toda calma do mundo disquei o número da portaria que havia anotado da última vez que estive ali.
— Forks School, boa tarde!
— Oi, Boa tarde. Aqui é Isabella Swan. As crianças já estão liberadas?
Disfarcei a voz e olhei para o relógio constatando que já se passava dez minutos do horário de saída. Sabia porque tinha monitorado por dias.
— Sim. A maioria das crianças já foram.
Idiota novato. Isso era informação de se dar por telefone?
— Ah, sim! É porque eu queria avisar que não poderei pegar Antony aí e que minha cunhada Rósalie o fará. Porém, está atrasada e não poderá descer, será que o senhor pode colocá-lo no carro, por favor? No banco detrás, óbvio?
— Ah sim, dona Isabella. Claro que sim. Aliás, ele está aqui comigo sentadinho esperando.
— Ok. Minha cunhada deve tá chegando aí, o carro dela é um “Chevrolet Spark azul”.
O chinfrim carro popular de Aro.
— Sim, senhora. Deixe comigo.
— Obrigado e boa tarde.
— Eu que agradeço, senhora.
Sem esperar mais, coloquei o maior par de óculos que tinha, puxei o cabelo para frente, tampando a maior parte do rosto, fechei o vidro, deixando só uma frestinha mínima para que ele visse só a parte de cima do meu rosto, e agradecendo a minha inteligência por nunca ter dito ao porteiro meu nome, e contando com o rancor de Isabella e Edward de nunca terem deixado “o moleque” se aproximar de Rósalie, coloquei de novo o carro em movimento e logo parava de frente ao portão da escola.
Dois toques leves na buzina e foi maravilhoso constatar o olhar de entendimento do funcionário mal- treinado da instituição.
Destravei as portas traseiras e por um minuto achei que tudo não daria certo quando o garoto parou e olhou o carro com estranheza.
— Quem é aquela? Não é a mamãe.
O homem parou, segurou sua mão e arrastou um relutante menino louro e bonitinho, a cara do pai, ao meu encontro.
— É sua tia. Sua mãe acabou de ligar e disse que ela viria. Vamos logo. Você é o último e tenho que trancar a escola.
O puxou com um pouco mais de força, não dando atenção ao que ele falava. Já que teoricamente Isabella havia ligado.
— Não conheço o carro.
— Criança não entende carro. Vamos logo!
Respirei aliviada quando ignorou totalmente o “Trombadinha”, abriu a porta e o colocou lá dentro.
— Não trouxe a cadeirinha?
Putz! Havia esquecido daquele detalhe.
— Não. O trajeto é curto. Só até a loja, lá ele passará para o carro da mãe.
— Certo, acho que não tem problema. É só a senhora dirigir com cuidado.
Abaixei a cabeça para que não visse demais meu rosto, mesmo que estivesse atrás.
— Mas, tio. Ela não é minha...
— Sei, sei. Obrigada. Estamos com pressa.
Cortei a conversa fiada e falei um pouco mais alto, para que não ouvisse o menino.
— Certo! Até amanhã então e...
— Tchau!
Guiei para fora dali assim que ele fechou a porta detrás. O clic dos acionamentos das travas foi como um cantar dos céus para mim.
Eu havia conseguido.
— Você não é minha tia. Eu “quelo” ir para casa. E não é por aí.
— Não, não sou. E você não vai para casa. E é melhor se comportar e calar antes que eu corte sua língua só para não ouvir sua voz irritante.
— Tony quer a mamãe e o papai dele.
Soluçou já deixando as primeiras lágrimas escorrerem pelo rosto.
— E eu quero apertar seu pescoço se não se calar.
Sabiamente os olhos dele se arregalaram e se aquietou encostando no banco e apertando os dedos de nervosismo.
— Se me obedecer em tudo, daqui a pouco te deixo falar com sua mãe. Ela vai adorar saber que está comigo e onde estamos.
Atirei os óculos no banco do passageiro e pisei mais no acelerador, queria chegar o quanto antes a Port Ângeles e abrir uma garrafa de champanhe.
Comemorar era tudo que eu merecia naquele instante.
Bella
— Graças a Deus!
Exclamei quando, até que enfim, cheguei a Forks, ou melhor em casa. Já que estava parada de frente a loja. E só pensava em entrar e me jogar na banheira por duas horas, até que a água lavasse os resquícios daquela droga de dia.
— Dessa vez nem é exagero.
Murmurei, descendo e olhando para a camionete coberta de poeira. Aquele dia entraria para a história como um de meus piores.
Vocês já trocaram um pneu? Ou melhor, já trocaram um pneu de um carro grande?
Não? Pois eu digo, é um inferno. É tudo muito pesado. Faz-se um esforço hercúleo. E quando mais se precisa de ajuda, não passa uma alma viva na estrada para te socorrer.
O celular? Não dava um piquezinho de sinal. Porque do contrário teria acionado o seguro e mandado guinchar o carro.
Mas, nem isso eu pude fazer no meio daquele nada. A única alternativa foi trocar o pneu.
E eis o motivo de minha exaustão.
— Passou. Amanhã é outro dia.
Peguei minha bolsa e caminhei para o portão, deixaria o carro de fora, porque estava sujo demais para colocar na garagem.
E que Charlie me perdoasse, mas ficaria por aqui mesmo hoje. Estava cansada demais para dirigir por mais um metro que fosse.
Só queria pegar Antony e me deitar agarradinha a ele e dormir pelo resto da noite. Talvez fizesse isso no flat mesmo. Os braços acolhedores de Edward seriam bem-vindos.
— Só mais um pouco, Bella. Aguente.
Arrastei os pés até o portão. As luzes da loja estavam acesas, porém já havia fechado. Certeza de que deixaram assim, pois sabiam que eu passaria lá antes de ir para a faculdade.
Ah, a faculdade!
Frustração tomou conta de mim ao lembrar de como liguei para a coordenadora, assim que obtive sinal, e a contei de meu dia. Não havia condições de ir até lá hoje.
Zafrina bufou e foi ácida. Ela odiava faltas. Mas o que eu poderia fazer?
— Banho, só banho. Esqueça o resto.
Entoei o mantra e arrastei mais os pés. Contudo, nada está tão ruim que não possa piorar, não é o que dizem?
— VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUE FEZ? JÁ ESTÁ ESCURO.
Do outro lado da rua, exatamente na porta da clínica, Edward gritava irado e saia como um louco desnorteado segurando a cabeça.
— Eu, eu não sabia...
Uma mulher? Rósalie? O acompanhava.
— SE ALGO ACONTECER A ELE, EU VOU MATAR VOCÊ, RÓSALIE. EU JURO QUE VOU. VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO.
Minhas pernas amoleceram e meu sangue gelou. Ele gesticulava e ainda segurava a parte detrás de sua cabeça. A camisa com respingos de alguma coisa viscosa e vermelha.
Algo estava muito errado.
— Edward? O que foi? O que ela faz aqui? Onde está Antony?
Olhei para atrás dele tentando enxergar alguém em meio a escuridão do início da noite e da falta de luminosidade da recepção.
— Bella... Eu...
Não sei como cheguei até eles, estava no automático. No entanto, eu sabia que o pior daquele dia ainda estava por vir.
Edward se virou, no susto. Não me esperava ali.
— Você? Por favor, por favor...
Choraminguei já prevendo a resposta.
— Eu...
Suspirou cansado e aparentemente sofrido.
— Não sei. Eu não sei.
Perdi o fôlego e vi pontos negros nublar minha visão. Se era um pesadelo, eu precisava acordar.
Edward
— Deus! O que é isso?
Esfreguei o rosto tentando lembrar o que havia bebido para tamanha ressaca agora.
— Me desculpe. Eu não sabia como fazê-lo parar.
Aturdido, me sentei, só agora me dando conta de que estava estirado no chão da clínica.
— O quê? Ai! O que faz aqui, Rósalie?
Uma pontada ardeu atrás de minha cabeça e quando tateei, encontrei um calombo, com um pequeno corte e resquícios de sangue.
— Perdão mesmo. Mas, foi preciso te apagar. Tânia queria te matar e você não me escutava.
— Ah, droga! Quantas horas são?
Forcei as mãos no chão e com muita dificuldade e dor, me levantei. As lembranças vindo em ondas gigantescas, me fazendo ficar tonto e ofegar.
— Não sei. Seis e meia talvez.
— O QUÊ? ANTONY! EU TINHA QUE TER PEGADO ANTONY ÀS QUATRO E QUARENTA NA ESCOLA.
Gritei já saindo do prédio e tentando me situar e pensar no que fazer. Estava tudo tão confuso.
— VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUE FEZ? JÁ ESTÁ ESCURO.
Forcei as pernas a dar mais alguns passos. E busquei nos bolsos pela chave do carro, eu tinha que correr para lá e torcer para alguém ainda estivesse com ele. Ou que algum dos Swan’s o tivesse pegado quando não apareci.
— SE ALGO ACONTECEU A ELE, EU VOU MATAR VOCÊ, RÓSALIE. EU JURO QUE VOU. VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO.
Esbravejei apontando o dedo e jurando-a, de verdade. A ira e a raiva me dominavam e se não estivesse tão apavorado torceria mesmo o pescoço dela naquele instante.
— Edward? O que foi? O que ela faz aqui? Onde está Antony?
Arquejei! Bella! E estava sozinha! Deus! O que eu havia feito?
— Bella... Eu...
Não me aproximei, não ousaria. A vergonha e a dor me assolavam. Uma única vez que ela me pediu algo e eu, eu... Não o fiz.
— Você? Por favor, por favor...
Vi o exato momento em que ela teve consciência do que eu havia feito, ou melhor, do que não havia feito.
Instintivamente, deu dois passos para trás, cruzou os braços e esfregou, como se sentisse frio. Como se pressentisse que eu falaria o pior a qualquer momento.
— Eu...
Resignação, era tudo o que eu sentia. Nem a dor de cabeça me afetava mais.
— Não sei.
Confessei sentindo a dor vir com tudo e o medo dominar a ela e a mim.
Estávamos perdidos.
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