Notas iniciais
Edward
— Por Deus!
Gritei pela última vez quando senti as rodas da frente cederem e começarem a deslizar para fora também.
Era o meu fim, eu sabia. Não dava para segurar mais...
Infelizmente, eu decepcionaria Bella mais uma vez...
Uma última vez, pelo que parecia...
— Vamos, vamos...
Gritei alto e com força.
Rapidamente, respirei fundo e virei o volante para a direita, alinhando os pneus. “Acionei a tração” e por um segundo, lamentei não ter pensado em colocar um peso na carroceira da camionete. Ajudaria muito na estabilidade.
Por fim, pela milésima vez naquela noite, agradeci a Deus por Antony ter me convencido a trocar de carro, porque o Volvo já estaria no fundo do córrego há uma hora dessas.
E, rezando para que Deus me ajudasse mais, calmamente afundei o pé no acelerador.
O rugido foi alto, o solavanco veio logo depois, água foi jogada para cima. De novo a traseira quis escorregar, só que agora eu estava preparado. Desacelerei e quando o carro firmou, pisei de novo. E foi o que bastou... o motor ganhou vida para frente e só tive que manter estável para só então conseguir deslizar para fora da ponte e consequentemente sair daquele tanto de água.
Olhando para a esquerda, suspirei alto. O remanso também não era uma boa ideia, se tivesse me arriscado, certeza que estava embaixo d’água. Porque nunca vi tanta correnteza num lugar tão baixo.
— Isso! Obrigada, Pai!
Agradeci avistando a pequena curva para a direita. Era hora de desligar a tração e dar tudo de mim, para chegar o mais rápido possível. Prometi a Bella que estaria lá em quinze minutos e se eu não estivesse muito enganado, já estava há quase 40 minutos atrasado.
Eu precisava me apressar. Ainda bem que agora faltava muito pouco.
Bella
— Nada dele?
Neguei para Emmett, somente acenando com a cabeça. Os olhos concentrados demais ao longe, em busca de algum sinal de Edward. Ele estava atrasado e meu coração parecia parado, de tanta apreensão pelo que poderia ter acontecido.
— Aiiii!
— Bells, por Deus!
Leah gritou de novo e meu irmão se desesperou.
Estávamos os três em seu quarto. Ela na cama se contorcendo de dor e ele segurando-a pelos ombros, como se pudesse amparar seu sofrimento.
— Precisamos fazer isso, irmã. Vamos lá.
— Emm...
— Não, Bella. Agora nem temos mais sinal de internet ou telefone. Por algum inferno, Benjamin não conseguiu ligar os geradores e seu médico não chega. Lamento, irmã, sei que não posso te pressionar a esse tanto, mas...
— Ahhh!
Gemeu de novo. O tempo entre uma contração e outra estava curtinho agora e a bolsa já havia estourado. Era a hora de empurrar, eu sabia. O que não tornava as coisas mais fáceis.
— É meu filho, minha mulher...
— Ahhh! Bella, por favor.
— Bells!
Minha cunhada voltou a gemer e se só isso não bastasse, ainda veio o clamor de Emmett por socorro.
— Ok! Vamos fazer isso. Só me deixe e... Ah, Deus! É ele. Os faróis... é ele. Só mais um minuto, Leah.
Saí correndo. Aos tropeços, passei no banheiro social, peguei uma tolha grande e limpa, de banho, e corri para a entrada da frente. Abri a porta de súbito e foi o tempo de acompanhar os últimos deslizes da camionete até a parte lateral da casa.
— Graças a Deus, graças a Deus!
Entoei baixo vendo-o descer com a maleta nas mãos e correr a meu encontro. Lamentei minha falta de tato em lembrar de pegar um guarda-chuva e resguardá-lo dos pingos fortes e constantes.
— “Demorei, mas cheguei”!
— Graças a Deus! Graças a Deus!
Exclamei de novo já me jogando em seus braços e afundando o rosto em seu pescoço, deixando assim que o cheiro dele me dominasse e espantasse para longe qualquer temor.
— Ei, isso tudo é saudade? Nos vimos ontem, Linda.
A voz dele continha “um Q” de brincadeira. Porém, eu estava ocupada demais segurando as lágrimas para dar-lhe a réplica que merecia.
— Vida, o que foi? Estou aqui. Por que está assim?
Segurando-me mais perto, com uma só mão, colocou a maleta no chão e então me aconchegou com todo o carinho que podia.
— Eu, eu... Tive medo. Você demorou. E eu só pensava na chuva e na cheia do ribeirão. Tive medo de...
— Estou aqui. Não chore, Bella. Nada aconteceu. A chuva só me atrasou. Passou e...
— Ahhh!
Estremeci ao ouvir o grito de Leah.
— Ok, vamos trazer esse bebezinho apressado ao mundo. Me ajuda? Juro que quando terminarmos deixo você me arrastar para seu quarto e me abraçar com toda força.
— Sim. Você precisava de um banho para se aquecer. Mas, creio que não teremos esse tempo.
Relutantemente me livrei de seu agarre e passei a toalha por sua cabeça, bagunçando o cabelo e espantando os respingos que teimavam em pingar sobre a camiseta dele.
— Estou quente só de estar perto de você. Mas, aceito a oferta para daqui a pouco. Agora vamos ver Leah.
Edward
Agarrei-a pela mão nos guiando para o corredor dos quartos. Reprimi a vontade de beber algo forte para espantar qualquer resquício da sensação de apuros de agora a pouco. Eu não precisava aterrorizar mais Bella com meu relato. Precisava dela sã e concentrada.
E só de pensar que poderia despertar gatilhos dos traumas dela... Não! Meus medos ficariam comigo.
E no fim não dera tudo certo? Estou aqui. E imensamente grato a Deus e a meu Pequeno por ter me convencido a trocar de carro.
— Oi. Tem bebê querendo nascer aqui?
Brinquei ao adentrar o quarto de Emmett, que não tinha mais nada, do lugar que conheci anos atrás.
— Cullen eu quase parti em sua busca. Meu filho não pode esperar.
Resmungou e eu fiz questão de ignorar. Primeiro que era normal, agora, Emmett me tratar com tanta rispidez. Segundo porque eu estaria igual ou pior do que ele se minha mulher estivesse dando à luz em casa e no escuro, enquanto o mundo desabava do lado de fora, de tanta água.
— Não pode mesmo. Vamos ver como estamos aqui. Perdão Leah, mas vou precisar te examinar.
— A bolsa já rompeu e as contrações então com curtos espaços, três minutos no máximo. E durando quase um minuto.
Escutei as informações de Bella, enquanto me aproximava da cama e examinava a barriga, já muito dura, de Leah.
— Ok. Vou precisar fazer um exame de toque. Relaxe por favor, Leah.
Dobrei suas pernas para cima do colchão, coloquei as luvas e com todo o respeito e cuidado que podia a examinei clinicamente.
— Certo! A dilatação está quase no ponto. Vida, preciso que traga toalhas limpas e peça alguém que ferva água e... por que os geradores não estão ligados?
Abri minha maleta, e dispus ao lado todos os instrumentos que utilizaria.
— Não sabemos. Benjamin foi cuidar deles e não voltou.
— Ok. Preciso de mais luz aqui. Traga todas as lanternas possíveis e os celulares também. Aliás, ligue para o hospital e diga que precisamos do helicóptero assim que possível pousar. Leah e o bebê precisarão ir para o hospital para os primeiros exames.
— Não temos sinal.
— Eu tenho. Use o meu. E... onde está Antony?
Interrompi as ordens ao me dar conta de que meu filho não estava à vista.
— Dormindo.
— Isso é bom.
Não precisávamos que ele se aterrorizasse com os fatos daquela noite.
—Agora vamos rápido. Esse neném não vai esperar muito mais.
Emmett
— Ahhhh!
Putz! Eu estava a ponto de estrangular o Cullen e minha irmã. Isso claro, se eu saísse com a mão inteira depois do agarre Hercúleo de Leah.
Santo Deus dos pais de primeira viagem, estávamos nesse dilema há quase uma hora, e cada vez que “aquele ser calmo” dizia que estava perto e que só faltava mais um empurrão e então levantava a cabeça concentrando-se e sem um pingo de temor, eu rugia por dentro e queria mata-lo.
Só mais um empurrão, uma pinóa!
Era evidente que era uma maneira de nos distrair, porque Leah estava a ponto de desfalecer de cansaço e nada do bebê nascer. Eu sabia que era uma má ideia. Devia tê-la enfiado no carro e corrido para Forks.
— EMMETT!
Gritou de novo, rangendo os dentes e forçando o corpo para frente.
— Ahhh! Tá demorando, Cullen. Faça alguma coisa, ela não aguentará.
— Shiii. Respire, Leah. Respire... Descanse por alguns segundos, porque o próximo empurrão será decisivo. Vamos, vamos...
Levantou as sobrancelhas para mim, em recriminação.
Ok, eu assumo, não adiantava meu desespero, estava ali para ajudar minha mulher, não a deixar mais em pânico. Mas, que culpa tinha eu se ele era a tranquilidade em pessoa?
— Está indo bem, cunhada. Falta pouco, bem pouco agora e... Graças a Deus!
Interrompendo Bella, as luzes piscaram e acenderam de uma vez. Até que enfim Benjamin “prestara para alguma coisa”.
— Aí vem mais uma, mais uma. Ahhh.
— Não segure, empurre, empurre com toda força.
— Ahhhh!
— Isso, Leah. Lá vem ele, estamos vendo.
E como veio, a dor se foi e Leah pareceu mais exausta ainda.
— Estou com a cabecinha nas mãos, Leah, mais um, só mais um empurrão e terminamos. Um último esforço é tudo que pedirei a você.
— Ahhhh!
Ela gritou de novo. E Edward e Bella passaram a trabalhar com mais afinco em minha mulher.
Jesus! Eu lhes deveria demais. Claro que já presenciara e até ajudara os animais da fazenda a “parirem”. Porém nada se comparava a trazer um ser humano a vida.
Eles pareciam tão conectados... eu não conseguiria.
— O que está acontecendo? Tem um helicóptero sobrevoando a sede em meio ao temporal. Parece de socorro, com luzes e... Senhor! O que estão fazendo? Essa mulher precisa de um médico e...
— Saia! Leve seu desespero para fora desse quarto.
Edward gritou para um eufórico Benjamin que invadira o lugar sem nem pensar direito.
— Ora! Quem é você para mandar alguma coisa aqui?
— O médico. E está assustando minha paciente. Preciso dela inteira e concentrada e não escutando seu ataque de histerismo. Se quer fazer alguma coisa de útil, sinalize para os socorristas “o terreirão” onde ocorre a secagem dos grãos. É uma ótima opção, eles podem pousar lá. Assim que terminar aqui, Leah e o bebê deverão ir para o hospital.
— Não recebo ordens suas. Emmett...
— Faça o que ele manda. Desapareça!
Fechei a expressão me arrependendo mil vezes de ter chamado Benjamin para nossa casa.
Ele achava mesmo que eu contrariaria um pedido de Edward quando ele tinha meu filho nas mãos?
— Ah!
— Agora, Leah. O último. Respire fundo e empurre.
— Empurre, empurre, Leah.
Ela apertou mais minha mão, fechou os olhos e sobre a influência do casal a nossa frente fez um último esforço e...
— Nasceu! Isso! Parabéns, Leah. Você foi incrível!
— Obrigada, Senhor! Obrigada.
Bella e Edward comemoravam, eu poderia jurar. Contudo, minha mente e meus olhos estavam concentrados demais, no que meu cunhado tinha nas mãos.
— É uma menina. Uma linda garotinha Swan. Com uma cabeleira de dar inveja.
O berreiro veio logo em seguida e juro por Deus, era o som mais escandaloso e lindo que alguém poderia fazer.
— Aqui. Segure-a, Amor. Só por um minuto.
Então Bella estendeu um cobertor e recebeu o minúsculo corpinho de minha filha. Por míseros segundos, senti inveja e ciúmes de minha própria irmã. O sentimento de posse era doentio e eu quis gritar que aquele direito era meu.
— Oi, Linda. Sou sua titia sabia? Pode ficar calminha, já te levo para seus papais.
No entanto, ainda fui capaz de me conter. Porque Edward cortara o cordão e agora ainda trabalhava em minha esposa ajudando-a na dequitação. Enquanto minha irmã, delicadamente, acalentava minha garotinha.
— Leve-a até eles, Vida. Está tudo bem aqui.
Ela assentiu e com o maior cuidado, como se carregasse o bem mais precioso do mundo, trouxe minha pequena para os braços de Leah.
— Oh, Deus! Ela é linda, Emm. Linda!
— Mais Swan impossível. Olhe esses cabelos.
Sorri, em meio as lágrimas, enquanto admirava o bebê mais lindo que já havia visto. Um tanto de cabelo castanho e grosso se destacava.
— Pronto! Os primeiros cuidados foram feitos, agora precisamos leva-los para o hospital e...
— Por aqui... Eles estão aqui.
A voz nervosa de Benjamin interrompeu a serena de Edward. E logo, nosso quarto foi invadido por três socorristas do corpo de bombeiros de Port Ângeles?
— Perdão por invadirmos assim, senhor Swan. Recebemos um chamado do hospital de Forks que precisavam de assistência médica com urgência.
Edward se afastou, deixando que eles se aproximassem e entendessem melhor a situação. Bella se postou a seu lado.
— Estávamos mesmo. Porém, meu cunhado nos socorreu. Porque com essa tempestade não dava para tirá-los daqui.
Apontei para minha mulher e a bebê.
— Isso é muito bom, senhor.
Respondeu o mais alto dos três.
— Sim. Mas, eu ficaria mais aliviado se os levassem assim que possível. Gostaria que especialista examinassem mãe e filha. Há muito, não faço partos. Posso ter deixado algo passar...
— Duvido muito, doutor Cullen, o senhor fez um excelente trabalho. Contudo, as doutoras Cullen e Swan já estão com uma equipe a nossa espera no hospital regional de Port Ângeles e a única razão que as impediu de embarcarem conosco foi saber que mãe e filha estavam sob seus cuidados. Mas, agora se nos permite, precisamos alçar voo enquanto a tempestade deu uma trégua. De acordo com as previsões só temos meia hora antes que o “mundo volte a desabar” sobre Forks.
— Ok. Eu fiz...
Então Edward voltou a se aproximar e começou a narrar todos os procedimentos que havia realizado em minha esposa.
Enquanto isso, os outros dois profissionais trouxeram uma maca e a colocaram na cama, ao lado de Leah, se preparando para transferi-las.
— Bella, por favor, pegue as duas malas no closet? Eu já tinha deixado tudo pronto. Emmett, você precisa ajeitar algumas coisas para você se está disposto a nos acompanhar.
— Claro que vou. Nunca deixaria irem sozinhas.
Me preparei para sair de perto delas, quando minha irmã me barrou.
— Fique aí. Eu arrumo suas coisas.
— Obrigado!
Murmurei baixo, porém com intensidade, sem nunca tirar os olhos dela, e como boa entendedora que é, percebeu que eu agradecia por tudo. Pela sua iniciativa, por Edward ter vindo, pelo seu perdão...
— Temos muito que conversar quando voltarmos. E quando digo temos, incluo seu noivo na conversa, tá?
— Aguardarei ansiosamente.
Murmurou baixo antes de desaparecer dentro do closet.
Era hora de recomeçar. Eu tinha outra motivação agora. Uma pequena e frágil que havia vindo ao mundo pelas mãos de duas pessoas ais quais eu fiz questão de magoar muito nos últimos tempos. Contudo, isso chegara ao fim.
Eu, no lugar de Edward, não seria tão benevolente a ponto de enfrentar um temporal para socorrer a mulher do irmão mal-educado de sua noiva. Só que, graças a Deus ele não era como eu, e muito menos como o Edward que conheci no passado.
Ele foi benévolo. E eu o agradeceria pelo resto dos nossos dias.
Edward
Minutos depois o helicóptero levantava voo. E eu podia então respirar aliviado.
Havia conseguido!
Por Deus! Há anos não fazia um parto e, apesar de disfarçar muito bem, nunca me senti tão nervoso e pressionado desde que assinei “aquele maldito diploma”.
Eu não podia errar. E, graças a Deus, deu tudo certo. E agora mãe, filha e Emmett estavam nas mãos dos socorristas rumo as de Esme e tia Renée. E eu não poderia estar mais feliz. Cansado, exausto, mas completamente feliz, afinal um importante Swan havia nascido com minha ajuda. E, ainda que não por muito tempo, eu sentira um enorme orgulho de ser quem eu sou.
O olhar de admiração de Bella e Emmett quando levantei a pequena garotinha, com certeza ficará gravado em mim como fogo.
Pelo menos uma vez na vida, eu me sentira agradecido por ter feito aquele maldito curso e pelos anos desperdiçados em sua busca. Não que fosse algo espetacular, certeza de que Bella e Benjamin poderiam ter trazido aquela bebezinha ao mundo, porém eu fora o escolhido. A confiança deles tinha sido depositada em mim.
E eu era um bastardo feliz agora.
— Quer uma bebida? Acho que merece depois de impressionar tanto a minha garota.
Olhei Benjamin de lado enquanto se servia de uma grande dose do líquido âmbar que, com certeza, desceria rasgando por sua garganta.
— Não, obrigado. Eu não bebo.
— Claro que não bebe. Príncipes não bebem.
Ignorei, pela segunda vez, sua tentativa de provocação. Eu não cairia naquele jogo.
Pela postura e posição, parado perto do bar, da sala de estar, era evidente que me esperava. Eu havia acabado de embarcar a família feliz e voltava para dentro, rumo ao encontro de Bella, que havia deixado ajeitando o quarto do irmão.
— Não, não bebem. Agora se me der licença, minha noiva me aguarda.
Pois é, eu não atacaria primeiro, nunca, ainda mais na casa de meus sogros. Porém, não significava que não me defenderia.
Quem ele achava que era?
— “Eu os teria feito feliz, você sabe, não é”? Se não tivessem voltado.
Parei o passo e me virei para trás. Seus olhos faiscavam.
— Não, não teria. E também sabe disso. Lá ou aqui, sem mim Bella e Antony não estariam completos.
— Engano seu. Eu estava conseguindo. Se o pai não a tivesse obrigado a voltar.
Levantei a mão, direita, e passei pelos cabelos. Eu queria mesmo esfregar o brilho reluzente do ouro, de meu dedo, em sua cara.
— Se conhece Bella tão bem, como diz, saberia que ninguém a obriga a nada, Antony talvez. Mas, o pai e os irmãos não. Se aceitou voltar era porque não estava 100% comprometida com o sentimento que você diz que tinham.
Ele crispou os lábios e logo depois sorveu outro gole grande. Logo estaria embriagado.
— Eu colei cada pedaço daquela mulher. Estava totalmente despedaçada, por sua culpa, quando a encontrei. Deveria ser minha, só minha.
Respirei fundo me negando a deixar que a amargura dele me atingisse. Ali, a minha frente, era só um homem inconformado com a perda. Eu estaria e faria pior em seu lugar.
Só de imaginar que Bella poderia ter lhe escolhido... o ar me faltava e a dor carcomia.
— E agradeço por ter estado lá quando não estive.
— Não fiz por você.
— Eu sei. Mas não impede que eu seja grato. Devo a você, mesmo que me destrua dizer isso. Porém, e volto a repetir, você sabe que Bella sempre foi minha Benjamin. Meti os pés pelas mãos em uma época que prefiro esquecer, só que ela me perdoou, caro amigo. E não há nada, nem ninguém capaz de nos separar agora. Passarei por cima, sem piedade, de cada um que tentar.
Ele ficou em silêncio se limitando a beber mais e me avaliar de cima abaixo.
— Isso é bom.
Disse segundos mais tarde, deixando a máscara cair e apresentando para mim a face de um homem tão cansado e desanimado que fazia questão de ocultar na maioria das vezes.
— Bella e Antony são especiais. Merecem ao seu lado quem lute e os ame acima de qualquer coisa. E se está disposto a isso... não serei eu a ser um obstáculo. Só não seja idiota a ponto de perde-los de novo. O universo pode não ser tão bondoso com você da próxima vez. E eu sou o menor dos seus problemas. Você não faz ideia da fila que existe atrás de mim, à espreita pelo menor dos seus erros.
— Imagino.
E imaginava mesmo. Bella era linda e especial. Quem não daria a vida para merecer sua atenção?
— No entanto, ela nunca mais estará à disposição. Porque passarei o restante dos meus dias compensando-a pelo tempo que perdemos.
— Se está tão disposto, acho que podemos recomeçar. O que mais quero é que sejam felizes.
— Eu também.
Fiquei surpreso quando um pequeno sorriso despontou de seus lábios e eu retribui.
O que aquilo significava, eu não fazia a mínima ideia.
— Amor, preparei um banho para você e...
Bella parou, surpresa, no corredor. Seus olhos iam de mim a Benjamin em busca de algo que não entendia.
— Está tudo bem por aqui?
Atravessou a sala e se colocou a meu lado, como uma guerreira pronta para o embate.
— Claro que está. Só estava oferecendo uma bebida ao “príncipe”.
— Benj...
— Tá, tá. Não precisa me olhar com essa cara. Já estou indo. Tenham uma boa noite.
E, covardemente, com muito medo de ser rechaçado pela Minha Linda, fugiu corredor a fora, nos deixando sozinhos e meio atordoados.
— Ele, ele...
Bella ficou sem palavras, só apontando em direção ao indivíduo fujão.
— É meio maluco esse seu ex. prefiro mil vezes o seu atual.
Brinquei querendo mais do que tudo estreitá-la nos braços e beijar até perdemos os sentidos.
Contudo, estava suado, com respingos do “ócio do ofício” e precisava mesmo de uma boa ducha, antes de mais nada.
— Nem se compara ao atual. Se bem que tem um ex que seria páreo para o atual. Aliás o primeiro namorado que virou ex. Ele era incomparável.
Eu quis levar o assunto para um rumo mais sério e dizer que ela estava completamente enganada, que o atual batia o antigo em todos os sentidos. Só eu mesmo sabia como era repugnante no passado. Todavia, era uma noite feliz, apresar da hora, e preferi continuar levando as coisas no tom de brincadeira.
— Ah é, sua danadinha. Assim que eu tomar um banho vou te mostrar como posso fazê-la esquecer qualquer outra pessoa com um simples toque dos meus dedos e de minha língua. Se prepare...
— Edward!
Gritou satisfeita quando pincei suas costelas com os dedos, fazendo cócegas e levando-a a gargalhar.
— Pare! Vamos acordar o Antony.
— Duvido. Sem nem os gritos de Leah o fizeram... Amor, nosso filho é bom de cama.
Ela concordou e tomando a iniciativa estendeu os braços para me abraçar.
— Banho, Vida. Estou imundo.
Com muito custo segurei suas mãos, a restringindo e me afastei.
— Ok.
A afirmação não condizia em nada com o revirar de olhos.
— Deixei tudo pronto para você, em meu quarto. Peguei um pijama de Jasper, está sobre a cama. Pode vestir.
— Acho que tenho uma muda de roupas na camionete.
Não queria dar algum trabalho a ela.
— Amanhã pegamos. Agora vá. Enquanto isso, preparei algo para você lanchar. Algo que lhe apeteça?
Se afastou, mas o olhar matreiro não me abandonou e funcionou como combustível na minha libido.
— Bella ainda Swan futura Cullen está no cardápio?
Ela fez cara pensativa ignorando meu olhar lascivo por cada pedacinho do corpo recém banhado e cheiroso dela.
— Talvez você mereça uma sobremesa. Acho que tudo combina com calda de chocolate. Vou ver se ainda tem alguma por aqui.
E com essa eu só tive que correr para o quarto e apressar o tal banho, porque juro, se ficasse mais um minuto respondendo suas provocações, juro que ignoraria as normas de higiene e a jogaria em cima da mesa da sala de jantar.
E certeza de que tio Charlie não ficaria nada feliz com essa possibilidade.
Bella
Certo, era fato: eu não havia nascido para cozinha. Claro, sou uma garota de fazenda que mexe com animais maiores do que eu, que dirige tratores e colheitadeiras monstruosas tanto tecnologicamente quanto no tamanho, no entanto, quando o assunto era comida de verdade, eu não poderia me gabar.
Óbvio que se precisasse de emergência eu me viraria, mas só num caso de vida ou morte, e como não era o caso agora, optei pelo básico que agradava a todos: um sanduiche.
Por isso, enquanto fatiava o tomate e esperava a carne chegar ao ponto, rezava para que Edward não se importasse com isso. Era difícil, em certos momentos, ainda achar que alguma inabilidade minha poderia afetar seus sentimentos.
Era a maldita insegurança de sempre. Que mesmo que aparece pouco agora, nunca desapareceria de vez.
Ainda mais vendo-o atuar, como aconteceu hoje.
Deus! O homem havia nascido para aquilo. E mesmo que em meu íntimo me deleitasse por vê-lo dizer que fizera a escolha errada e por influência ruim. Não podia negar o talento nato que fluía em cada ato, em cada palavra calma e de conforto em uma situação que teria se tornado o caos se eu tivesse assumido sozinha.
Ele era a serenidade e concentração em pessoa. E quando, por fim, levantou a pequena nas mãos, não ouve como não o admirar mais. E foi ali, que decidi que tocaria no assunto mais uma vez.
As coisas haviam mudado, nós tínhamos mudado. A profissão dele não ficaria entre nós. Eu me conhecia melhor agora. Sabia que tinha capacidade de acompanha-lo em qualquer lugar. Não me sentiria deslocada, nem humilhada por minhas escolhas. Quanto a minha profissão, sou muito bem resolvida. E quanto a aparência?
Bom, não há nada que banho, roupas, sapatos, cabelo e maquiagem não resolvam.
Era só ele dizer que queria continuar clinicando e teria todo meu apoio.
Então com esse assunto em mente, equilibrei os dois sanduiches e mais um copo grande de suco de laranja numa bandeja e rumei para meu quarto.
A caminho, apaguei todas as luzes da casa, que ainda eram alimentadas pelo gerador, já que a energia não voltara até aquele instante.
Passei pelo quarto de Antony, o cobri e beijei sua testa, agradecendo a Deus pelo sono de pedra. Para só enfim adentrar um quarto a meia luz.
Edward não saíra do banho ainda.
E eu ignorando totalmente os modos e limites de que as pessoas gostavam em certos momentos, fui atrás dele no banheiro.
E certamente, não haveria, no mundo quem me fizesse arrepender de tal ato.
Como um Deus, ele se recostara na banheira, que eu havia deixado preparada, e fechara os olhos. Claramente apreciando o ambiente semi- iluminado por pequenas velas espalhadas. O vapor subia e se misturava a essência de sabonete e sais de banho.
E tudo isso somado a música, que soava baixa da caixa de som em cima da pia, dava ao ambiente o ar mais romântico e relaxante que alguém poderia imaginar.
E para finalizar com chave de ouro, ele ainda cantarolava baixinho e calmo, como se nada no mundo fosse mais importante do aquele momento.
— Espero que esteja pensando por qual peça de roupa começará a se despir. Porque juro, se demorar mais um segundo para se juntar a mim, eu mesmo vou aí e te livro delas.
E eu que achei que ele “nem estava nesse mundo” quanto mais que tivesse percebido minha presença.
— É seu banho. Já tive o meu. Aproveite, descanse, você merece.
— Mereço mesmo. Venha aqui...
Abriu os olhos, sentou mais ereto e estendeu a mão em minha direção. O sorriso de lado só tornava o convite mais difícil de recusar.
— Só para você.
Fiz de difícil, mas no fundo já sabia onde terminaríamos.
— E eu, como bom samaritano, dividirei com você. Ao mesmo tempo que sou egoísta o bastante para exigir você aqui.
Insistiu.
— Quero companhia. Quero você nos meus braços, Vida. Ansiei por isso o dia todo. Preciso me sentir completo.
Como eu disse, não havia como dizer não.
— Seu pedido é uma ordem.
Sem tirar os olhos do dele, passei o vestido por cima da cabeça, me livrei da lingerie e quando ele se levantou estendo a mão para me ajudar a entrar, eu, interiormente, agradeci a “deusa dos homens bonitos” pelo belíssimo espécime com o qual havia sido presenteada.
— Agora sim está perfeito.
Tornou a sentar me colocando, de costas, entra suas pernas. Suas mãos logo encontraram o caminho dos meus ombros.
— Era para você apreciar e relaxar, não eu.
— Estou fazendo isso. Ou acha que algo me descansa mais do que a visão que tenho agora? Por Deus, Vida! Você é linda demais!
Depositou um beijinho no meu ombro e quase desfaleci de tanto carinho.
Os dedos mágicos desfazendo todos os nós dos meus ombros.
— Sou é sortuda. Sonhei tanto com esse momento. Tem noção de que está no meu quarto?
— Eu tenho. Seu pai é que não pode, se quer, imaginar uma coisa dessas.
— Rá, a essa hora ele já sabe. Ou acha mesmo que ele acredita que coloquei você no quarto de hóspede? Charlie Swan não é bobo. E pode crer que Emmett será interrogado sobre como nos deixou.
— Ainda bem que acho que ganhei alguns pontos com seu irmão. Acredito que me defenderá um pouquinho quando seu pai quiser me “escalpelar”.
Era a hora...
— Você ganhou todos os pontos com meu irmão. Foi perfeito, Anjo. Sua calma, os trejeitos. Quando a neném chorou e você a levantou nos meus braços, eu quase fraquejei para pegá-la. Você parecia um Deus fazendo aquilo.
— Exagerada! Bem que dizem que o amor nos torna cegos.
Brincou voltando a beijar meu ombro. Não dando crédito a meus elogios.
Porém, eu não estava pronta para desistir do assunto.
— É a realidade, Edward. Nunca me senti tão orgulhosa da sua profissão. Você trouxe uma vida ao mundo.
— De parto normal. Grande coisa! Qualquer um faz isso.
Deu de ombros.
— Não é verdade. Pare de se menosprezar. Eu não conseguiria. Fazer em animais é uma coisa, em seres humanos é outra. Você foi perfeito, Vida. Será que mamãe e tia Esme me deixariam vê-lo atuando algum dia?
Joguei a isca mesmo sabendo que ele já havia pedido demissão.
— Pare, Bella! Eu sei o que está fazendo. Sem chances, sem possibilidade. A decisão está tomada. Saí do hospital e saio da clínica assim que der um rumo na vida.
— Edward...
— Não! Não quero falar disso, nem discutir. Podemos só relaxar? Eu estava morrendo de saudades.
Passou a boca por meu pescoço me fazendo reclinar para o lado e quase gemer de alegria. Era óbvio que estava tentando me distrair.
— Humm... Posso só saber qual é esse rumo então?
— No momento certo, Linda. No momento certo! Venho me preparando há tempos para isso, Bells.
— Ok. Mas, não pense que deixarei esse assunto de lado. Pode até não clinicar mais, mas, se tivermos outro filho quero que nasça na nossa casa e por suas mãos.
O senti retesar no mesmo instante.
— Nem nos seus sonhos ou nos meus piores pesadelos, Vida. Você nunca terá nosso filho longe de um hospital ou de socorro médico, muito menos por minhas mãos. Eu enlouqueceria no mínimo descontrole da situação. Sei o que é quase perde-la, nunca mais, e escute bem, nunca mais deixarei que aconteça uma situação dessa.
Voltei a ficar em silêncio, seu discurso foi com tanta ênfase que achei melhor não falar nada. Quem poderia julgá-lo por seus medos?
— Hummm, a mais linda e deliciosa. É preciosa demais para correr qualquer risco, Vida.
Voltou a me adular depois de me virar para sua frente e passar os polegares por meu rosto.
— Posso fazer uma pergunta agora? E saiba que será nosso último diálogo da noite, porque logo depois minha boca estará ocupada demais explorando cada parte de você.
— Então fale enquanto ainda é tempo.
Sorriu para minha pressa.
— Por que seu ex me chama de príncipe?
— Benjamin, o nome dele é Benjamin. E faz isso porque é um idiota e sabe que me irrita.
Ele não acreditou minha explicação, tanto que levantou a sobrancelha e virou a cabeça para o lado, exigindo, do jeito Edward Cullen de ser, que eu desenvolvesse a resposta.
— Tá, tá. Ele te chama assim, porque quando me conheceu eu não “dava moral”. Quando confrontada, dizia não estar disponível. E Emm e Jas reforçavam falando que eu tinha um conto de fadas aqui nos Estados Unidos. Então, como ninguém lhe contou seu nome, ele passou a se referir a você assim.
Edward não esboçou reação.
— Agora, acho que faz como meio de provocação. Mas, se acha que me incomoda, está muito enganado. Você era, é, e sempre será meu príncipe encantado.
— Acho que não gosto do título. Soa como se eu fosse inacessível para você. Prefiro algo que nos una, não nos diferencie.
Juro que não havia entendido o rumo dos pensamentos dele até que por fim, esclareceu quando questionei.
— E prefere que se refiram a você como?
— Hum, ainda estou decidindo: Seu Anjo, sua Vida, seu Amor, seu Cowboy, já que temos uma fazenda e pretendo investir nela, todos soam melhor do que príncipe.
A parte do Cowboy foi elucidativa. Era claro que comparava a profissão de Benjamin com a minha. Na visão dele, éramos sim compatíveis.
— Mas acho que pode se referir a mim como: Seu. Só Seu e isso basta.
Sorriu grande.
— Gosto desse também.
— Bom, muito bom. Porque agora o assunto acabou. E o Seu Edward tem algo muita mais prazeroso para fazer com a boca. Sinta... só sinta.
...
Edward
— Mamãe, mamãe, bom dia. O “calijó” já cantou “tlês” vezes a gente precisa levantar, porque a Mimosinha já berrou e...
Fiquei quieto, completamente quieto, fingindo dormir enquanto o “Furacão” em forma de pessoinha invadia o quarto da mãe e nos flagrava dormindo juntos, agarradinhos.
Eu precisava ouvir a reação dos dois.
— Mamãe?
— Oi, Amor.
Bella respondeu baixo, porém não fez menção de se afastar de meus braços. Estávamos tão juntos que era impossível saber onde um começava e o outro acabava.
— É o papai? “Pol que” ele tá aqui no seu “carto”?
O senti se aproximando mais e parar ao lado dela, bem de frente, de onde dava para ver bem nós dois entrelaçados.
— Shiii, fale baixinho, Anjinho. Papai chegou ontem à noite. Ele ajudou a levar titia Leah para o hospital. O neném nasceu.
Amenizou a situação.
— Hum! Tony tava dormindo. Não viu nada.
— Graças a Deus!
Bella murmurou e Antony ignorou, creio eu de propósito, a informação de que o neném de Emmett havia nascido.
— Choveu muito. O córrego derramou e represou, filho. Não teve como papai passar de volta para a Paraíso.
— Hum. E “pol que” ele tá com a camisa do titio e “pol que dolmiu” aqui? O vovô não gosta que Antony “dulma” com a mamãezinha, por causa dos sonhos ruins.
O ciúme dele foi muito difícil de disfarçar. Era a minha hora de agir. Não deixaria nunca que meu filho me visse como um adversário.
No entanto, antes que me manifestasse Bella disse algo que aqueceu minha alma.
— Papai não trouxe roupas. Ele veio nos ajudar apressado e se esqueceu. Peguei do tio Jasper emprestado. E quanto a ele estar aqui, é porque vamos nos casar, filho. Ele é seu papai. E assim como você, espanta os sonhos ruins. Faz a mamãe se sentir segura.
— Você “dolmilá” com ele para sempre?
— Claro que sim, filho.
Saí da posição de mero ouvinte abrindo os olhos e o encarando.
— Por isso comprei uma cama tão grande para nossa casa. Precisa caber nós três nela.
— Hum, todas as noites?
Ah, e dizem que as crianças não sabem das coisas.
— Todas as noites não dá, filhote. Acho que aquele quarto lindo que o papai ainda está preparando para você se sentirá sozinho se ficar abandonado. Não concorda? Então acho que uma vez por semana é o bastante. Concorda?
Dei opção e não dei. Claro que o queria grudadinho em mim, precisava mesmo recuperar o tempo perdido. Porém, as noites seriam de Bella, afinal eu tinha muito que compensá-la também.
— Tony “plecisa” pensar “soble” isso. Mas, acha que concorda.
Inclinou a cabecinha, pensou e só depois chegou a uma conclusão plausível. E eu concordei, porque sabia que para ele não seria fácil também dividir a mãe, mesmo que fosse com o pai.
— Tá bom, Amor. Então porque não comemoramos esse acordo com você se juntando a nós aqui para um cochilo? Mamãe e papai dormiram muito tarde, ainda precisamos de mais alguns minutos.
Bella se apertou mais em mim, dando espaço para ele. Porém...
— Ah, mamãe, Tony vai “lecusar” o Carijó já cantou e a Mimosinha já berrou...
Começou a se afastar, rumando para fora.
— Ah, e Tony já ia esquecendo, o vovô Charlie mandou dizer que a “senhola” tem cinco minutos para se juntar a ele no café.
— O vovô?
Bella pulou de pé e eu me sentei, no susto.
— Sim, ele “acoldou” Tony e acho que tentou fazer o mesmo com a mamãezinha, só que voltou para fora, assim que “entlou” no se quarto. Ele parecia bravo. Antony não entendeu nada.
Putz! Meu sogro nos pegara! Era claro o porquê de sua irritação.
— Só obedeceu, quando ele mandou que Tony “acoldasse” a mamãezinha. Agora que já cumpri a missão, vou encontrar o vovô. A gente vai para a ordenha.
E sem mais, nos deixou a sós e muito indignados.
— Eu não esperava que ele viesse. Como passou pela cheia?
Dei de ombros já me levantando também, o que a surpreendeu.
— Não precisa se levantar, deve estar exausto.
— Bobagem!
Segurei seu rosto com carinho e beijei seus lábios delicadamente.
— Vamos enfrentar “a fera” juntos. Depois vamos a seus afazeres, quero ver de perto para aprender e ver as modificações que faremos na nossa fazenda.
— Edward...
— Nem mais uma palavra, Linda. Começaremos nosso dia bem.
Segurei sua mão e a puxei para o banheiro. Charlie que me desculpasse, mas é bem provável que nos atrasaríamos. Cinco minutos não eram o bastante para apreciar a beleza de Isabella Swan nos primeiros minutos do dia.
Charlie
— Bom dia, paizinho. Dormiu bem?
Levantei as sobrancelhas e a olhei de lado. Era sério mesmo?
— Acho que você dormiu melhor do que eu.
Respondi seco não me deixando render quando ela beijou meu rosto e nos apertou em um abraço desajeitado de lado. Estava cheirosa, de cabelo molhado e com semblante feliz.
E eu quis demais gritar e esbravejar.
— Duvido muito. Quase não dormimos e...
— ISABELLA!
Bradi alto. Ela estava mesmo falando o que eu imaginava que estava?
Precisava mesmo “esfregar na cara de um pai o que fazia com o maldito namorado”?
— O quê, pai? Eu ia dizer que ficamos até tarde ajudando sua neta a chegar ao mundo. O que está acontecendo?
Estava pronto gritar de novo quando um, um...
Ah Deus! O “projeto de genro” também tinha o cabelo molhado e cheiro de banho recém tomado.
Era demais para um mim!
— Bom dia, tio.
Tio? Tio? Eu queria mata-lo. Era a minha menininha que ele tinha naquelas mãozonas quando adentrei aquele quarto.
— Bom dia.
Respondi bravo.
— Pai, por favor... Tivemos uma noite assustadora. Edward se arriscou para ajudar. Eu não poderia manda-lo de volta. Deixa-lo descansar era o mínimo que poderia fazer.
Por Deus! Agradeci que Benjamin já tivesse levado Antony para as baias, assim meu neto não se assustaria quando eu “escapelasse” o pai dele.
— Três quartos de hóspedes temos nessa casa, Isabella. Três! Posso saber o que aconteceu com eles? Inundaram?
— Tio...
— Não! Não caia nessa, Edward. Não vou deixa-lo fazer isso conosco. Cansei de ser alvo dos julgamentos dele e de Emmett.
Estendeu a mão calando o rapaz.
Era a minha garotinha brava ali, pronta para defender seus direitos.
— Edward é meu noivo. Íamos oficializar isso amanhã. Mas, pelo visto não haverá almoço na vovó, graças a inundação. Aliás como o senhor chegou aqui? Não importa!
Respondeu a própria pergunta me deixando atônito e completamente sem palavras.
— O que importa é que, Edward e eu, temos um compromisso, um propósito de vida. Ah, e sim, um filho. Então é de se acreditar que já ultrapassamos alguns limites há muito.
Estalou os dedos se referindo ao tempo.
— Peço desculpas por tê-lo acomodado em meu quarto, sei que não é a cena que um pai gostaria de ver. Mas, é só isso que terá de mim. Não vou me desculpar por amá-lo e ser dele. Se vai brigar por isso, então vou expor para o senhor que Emmett viveu anos com Leah debaixo de nosso teto sem casar. Ah, e Jasper que nos “empurrou garganta abaixo” a desagradável presença de Maria por anos, na mesa de café da manhã? E olha que ele nem a amava. Por acaso somos diferentes?
Engoli em seco, suprimindo a vontade de dizer que sim, que ela era diferente, que era a minha menininha ali.
No entanto, num último instante, lembrei da última grande discussão que tive com ela sobre direitos iguais quando me recusei a comprar-lhe uma camionete. Os fatos posteriores aquele dia, nos levaram a um iminente desastre e a um dos maiores arrependimentos de minha vida. Bella se tornara uma avessa a “ganhar algo” a partir dali.
E isso era algo que eu nunca poderia “consertar” em nossa relação.
— Não, você não é diferente de seus irmãos.
Respirei fundo e apontei a cadeira ao lado dela para que Edward se sentasse.
— Obrigado, Edward por ter socorrido meus filhos ontem.
Agradeci desviando o foco e, de verdade, me sentindo feliz que ele tivesse se arriscado pelos meus.
— Não fiz nada demais, tio. Viverei em função dos desejos de Bella e Antony. Prometo isso ao senhor.
— Você se arriscou. Eu só atravessei porque Billy me buscou com o barco. Deixei meu carro do doutro lado.
— A água estava mais baixa quando passei.
Bella ainda me olhava em desafio, ela queria uma resposta final para nossa discussão.
— Mesmo assim, você se arriscou. Obrigado! Eu surtei quando processei tudo pelo que passaram. Por isso, dei um jeito de atravessar para cá enquanto Renée ficou por conta de Emmett e a esposa.
Ele assentiu.
— E quanto a você, mocinha...
Continuei firme apontando-lhe o indicador.
— Não precisa aumentar o tom. Os direitos são iguais nessa casa, já me convenceu disso. Porém, não ache que é fácil para um pai ver que agora está perdendo mesmo sua garotinha.
— Pai...
Os muros dela caíram e não sei se foi pela falha em minha voz, ou pela expressão torturada que, com certeza, eu apresentava.
— Como, tenho certeza, não foi fácil para sua mãe ver seus irmãos trazendo companhia para casa. Posso voltar a conversar com você sobre isso em alguns anos, se quiser provar meu ponto. Quanto a você, rapaz...
Voltei a olhar para Edward que agora me retribuía solidário.
— Vou rezar para que o próximo filho de vocês seja uma menina.
— Desculpa, pai. Isso não voltará a se repetir.
— Também peço desculpas, tio. Não imaginávamos que voltaria hoje. Eu nunca seria desrespeitoso a esse ponto. Bella só estava agitada demais por causa dos fatos de ontem. Tive medo que não tivesse uma boa noite de sono.
Assenti já colocando mais café na xícara e pronto para encerrar o assunto. Afinal, ele tinha uma boa desculpa. A preocupação com Bella seria um ponto a favor, contudo eu sabia o que... Droga! Eles não haviam só dormido. Aquelas caras de felicidade não eram de alguém que só dorme com o namorado.
— Então quer dizer que só lamentam por eu ter chegado?
— Pai! Não pergunte o que não quer ouvir.
— Claro!
— Edward!
Bella chamou nossa atenção, certamente com medo de aquilo virasse uma discussão.
Só que tanto Edward quanto eu sorriamos amigáveis. A animosidade havia acabado.
— O que, Amor? O que “os olhos não veem o coração não sente”. Seu pai precisa aprender isso.
Deu de ombros carismático e tranquilo. Como, acho, que nunca tinha visto.
O que só provou que sim, ele havia mesmo mudado e sim, eu o entregaria meus amores sem medo.
— Ah! Homens!
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