Quando o passado não te deixa viver
44 O que ele quer da vida?
Notas iniciais
Edward
Depois de um café, “interessante” com meu sogro Bella e eu descemos para o barracão das ordenhas.
Dizer que eu estava orgulhoso, era o mínimo. Presenciá-la defendendo nosso relacionamento foi muito intenso e eu podia jurar que me apaixonara um pouco mais pela garota forte e destemida a meu lado.
Quando eu achava que já havia alcançado o pico de amor, vinha ela e tomava mais uma parte de mim.
Era incrível, era majestoso, era amedrontador... Ser tão dependente de um sentimento assustava. Era a certeza de que eu nunca mais conseguiria viver sem ela em minha vida.
Eu estava realmente rendido.
Não, não era bem essa palavra, não transmitia tudo. Estava mais para um viciado. Daqueles considerados caso perdido. Porque não havia a mínima possibilidade de me manter são sem uma dose diário de Bella Cullen.
Por isso, nunca desejei tanto o poder de acelerar o tempo, porque, infelizmente, assim que água baixasse e voltássemos para nossa rotina diária, eu não a teria tão perto.
— Um dólar por seus pensamentos.
— Nem pensar. Valem muito mais. Aliás, creio que não há dinheiro que pague.
Soltei sua mão e a puxei segurando em seu ombro e aconchegando-a mais em mim.
— Preciso ter ciúmes? Sabe como é, dizem que as piores companheiras não aceitam adversárias nem em pensamentos.
— Ah, bobinha!
Beijei seu nariz e a segurei mais perto protegendo-a dos insistentes pingos de chuva e do vento frio do início da manhã.
— Você domina até meu íntimo. Só estava aqui imaginando como te convencer a vir morar comigo já. Antes mesmo de oficializarmos nosso compromisso.
— Quer mesmo irritar mais meu pai? Ele nunca aceitaria isso, Edward.
— Você mesmo disse que Emmett e Leah “viveram em pecado” por anos.
Sorri para a expressão. Era a mais usada por Marcus para descrever meu relacionamento com ela.
— Idiota!
Bateu com o cotovelo em minhas costelas quando ri de sua cara de indignada para minha fala.
— Luto por direitos iguais, Love. Mas, nunca “cutucaria” meu pai a esse ponto. Se será dureza convencê-lo desses dois meses, imagina no “para já”? Não, Edward! Esperaremos o tempo que combinamos.
— Hunf!
Resmunguei com uma criança e fechei a expressão. Como conta-la de minhas necessidades sem parecer um louco possessivo?
Esse era sim um grande problema.
— Dormir sem você está começando a ficar impossível. E preciso das risadinhas de Antony para alegrar minha vida e acabar com todo o estresse dos dias na clínica.
— Ah, que gracinha! Bicudinho!
Virou-se, parando a minha frente. Segurou minha cabeça e colou nossos lábios, no intuito de desfazer meu “emburro”.
— Não tem graça.
Cruzei os braços mostrando mais minha insatisfação com a situação.
— Eu sei, Anjo. Prometo reservar algumas noites para nós durante a semana. Depois prometo que de sexta a domingo, somos todos seus, Edward. Porém, preciso de um tempo com meus pais. Essas brigas com Emmett nos afastaram muito tempo daqui.
Ceder. Pensar no melhor para eles. Abrir mão. Ser compassivo...
Emanei um mantra que fiz nos tempos obscuros, quando prometia a Deus que se me trouxesse-os de volta seria diferente.
— Ok. Vamos encontrar um meio. Não quero ficar sem vocês, mas também não tenho o direito de privar seus pais desses últimos dias com vocês. Vamos encontrar um meio.
Beijei seus lábios, selando a paz. E também porque ela continuava a minha frente, coladinha em mim. E era irresistível demais.
— Ei casal, pretendem nos ajudar nessa vida?
Suspirei alto, mais uma vez pensando nas palavras de motivação.
Privacidade era um dos maiores motivos para eu querer tanto leva-la para casa o mais rápido possível.
Benjamin era insuportável, isso era um fato! E mesmo que tivéssemos “colocados os pingos nos is”, nada mudaria minha opinião.
— Ainda não terminaram? Que moleza! Oh saudades de bons colaboradores.
Ela rebateu, se soltando de mim, segurando minha mão e me puxando para o foço onde transitaríamos pela ordenhadeira.
— Eu nem devia estar aqui, você sabe. Sou o veterinário. Pago só para cuidar dos animais. Não dizia nada sobre ser peão no meu contrato... Bom dia, Linda! Edward!
De súbito, deu um beijo estalado no rosto dela e gargalhou pra a expressão de indignação que ela fez.
Era óbvio que mesmo que tivéssemos selado uma trégua, ele nunca perderia a chance de me provocar.
E eu tive vontade de... O mantra, Edward. O mantra...
— Interessante porque se li bem seu contrato que eu assinei, e pode crer, eu li, dizia que em troca de casa e comida você se dispunha a “auxiliar” no que precisasse. O que inclui ordenhar os animais duas vezes ao dia. E... encoste em mim de novo e, juro por Deus, quebro seu nariz.
— Odeio mulheres poderosas que assinam pela Agropecuária Swan. Elas leem demais.
Levantou as sobrancelhas em minha direção.
— Eu as amo. Dão ordens, deliciosas, em todos os lugares. É incrível. Não era assim com você?
— Hum, essa doeu, Cullen!
Entendeu muito bem o que quis dizer.
— Querem parar? Estou aqui ainda se não perceberam.
Dei de ombros e sorri inocentemente para ela. Se ele achava que eu aceitaria todos os seus joguinhos em silêncio, estava redondamente enganado.
Se não sabe brincar, não devia ter começado.
— Tony também está aqui. Bons dias! Papai!
Me abaixei para pegar um pequeno homenzinho todo agasalhado, com toca e luva inclusive, que vinha correndo em minha direção segurando um enorme cachorro pela orelha.
— Oi, filho. Deus te abençoe!
Fiz menção de segurá-lo, porém a fera marrom mostrou-me todos os seus dentes e passou a rosnar como um louco para mim.
— Chocolate!
Ele e Bella falaram ao mesmo instante. Fazendo assim com que o animal se sentasse. Porém os olhos continuaram vidrados em mim.
— Ah, Chocolatinho. Esse é o papai do Tony. Não precisa ficar bravo. Ele cuida do Tony como você. O leite que ele faz não é tão gostoso como o da mamãe, mas isso não é motivo para você mostrar os dentes. Ele é bonzinho. E eu sempre vou te amar. Olha, vou “ablaçar” você primeiro, depois o papai. Assim você acredita que Tony sempre vai te amar.
Esperei pacientemente enquanto ele fechava os braços pequenos em volta do pescoço do cachorro.
O tal Chocolate era maior do que ele.
— Isso. Agora eu vou ver o meu papai e você fica aí.
Se soltou do bicho e eu me contentei em ser o segundo da fila e ainda receber um carinho com cheiro de cachorro molhado.
— Não fica triste, papai. O Chocolate é um cachorrinho muito bom. Ele só tava com saudade do Tony. Ele me ama, sabia?
— Claro que sabia.
Alisei suas bochechas e beijei sua testa contente porque ele só havia tropeçado em uma palavra até agora. Era maravilhoso ver o quanto estava mais seguro a ponto de falar com concentração e calma.
— Todos amam o Tony. Você é especial, filho.
— Obrigado, papai.
— Ok. Chega de bajulação. Vamos terminar com isso aqui porque estou com frio e quero voltar para dentro.
Bella, disfarçadamente, secou uma lágrima e se afastou rumo ao primeiro animal a direita.
Benjamin já não estava mais a nossas vistas.
— Acho que a mamãe também quer um abraço. Corre lá.
O incentivei e fiquei de longe só observando quando se jogou nos braços dela e beijou com carinho.
E vocês ainda têm alguma dúvida do porquê quero desistir da medicina? Meu egoísmo não permite mais que não vivencie aquilo todos os dias. Quero tudo deles. Quero viver no mundo em que se sentem à vontade e amam.
Bella
— Essa não aceita ordenha?
— Não.
Respondi Edward enquanto me abaixava pronta para a ordenha manual de uma das vacas novas que ainda não havia se adaptado ao sistema de coleta do leite.
— É a primeira cria dela. Todo dia, na tirada da tarde, a colocamos aqui, um pouquinho, para que se acostume com o barulho e a sensação. Creio que até semana que vem já esteja apta também.
— É que a “Lamparina”, papai, ainda tem medo, porque estava lá no outro pasto. Mas, ela logo se acostuma.
Falou Antony abraçando o pescoço do animal, três vezes maior do que ele, e o acariciando. O inseparável Chocolate ao seu lado não perdendo um detalhe daquela interação.
— Cuidado aí, Pequeno. Essa novilha não está habituada a você. Pode estranhar e atacar.
Eu discordava de papai. A vaca nunca pareceu tão calma. Era óbvio que estava amando os carinhos de Antony.
— Posso tentar?
De súbito, levantei a cabeça para observar melhor meu noivo. Ele estava falando sério?
Uma coisa era se sair muito bem na ajuda com a ordenha mecanizada, o que acontecera com ele mais cedo. Agora, outra muito diferente era se arriscar na manual.
— Sério?
Perguntei só para ganhar tempo, enquanto dava as primeiras puxadas “nos úberes” novos, pequenos e duros da novilha. Se ele faria aquilo mesmo, facilitaria sua vida ao máximo, com as primeiras puxadas.
Se minhas mãos, tão acostumadas aquilo, protestaram de início, imagina as dele?
— Claro.
— Essa eu quero ver.
— Papai vai conseguir. Ele é o melhor, vovô. Não precisa duvidar.
Antony fez careta para a falta de fé de Charlie em Edward.
Eu, me levantei, tirei o banquinho que me auxiliava a ficar abaixada, coloquei nele e dei as primeiras instruções, rezando a Deus para que saísse o leite dali. Calar a boca de papai era questão de honra.
— Não tenha receio. Só aperte e puxe para baixo ao mesmo tempo. Ela não vai sentir nada. Está muito ocupada remoendo a deliciosa ração produzida pela indústria da nossa loja, para gado leiteiro.
Acariciei as costas do animal, o acalmando mais, e deixando que Edward fizesse o trabalho.
Porém, não obteve resultado.
— Rá!
Fuzilei papai com o olhar. Ele precisava mesmo ser tão cético? Contudo, Edward não se abalou. Continuou tentando.
— Calma, respira. Relaxe a mão e contraia, depois puxe para baixo, mirando o balde a seus pés.
— Isso, papai. Não precisa de muita força, só jeitinho.
Antony continuou influenciando e Edward insistindo. E então, lá pela décima tentativa, ele conseguiu. O líquido branco desceu lentamente.
— Isso! Reveze as puxadas. Um peito, depois o outro... só os da frente, os detrás logo em seguida.
— Parabéns, papai!
Antony passou o braço pelos ombros dele e apertou. Eu não sabia quem sorria mais, pai ou filho.
— Algo a dizer, papai?
Provoquei, Charlie. Que só pode dar de ombros e sorrir.
— Muito bem, rapaz! É assim que começa.
— Obrigado.
Edward limitou-se a dizer, porque estava mais concentrado ainda na tarefa, agora que o balde estava quase cheio.
— Quantos desse ela dá?
Perguntou se levantado e me entregando o vasilhame antes que derramasse.
— Três.
Me seguiu enquanto despejava tudo no tanque de esfriamento na casa de máquinas.
— Nossa! É muita coisa.
— Não é, se levarmos em conta os animais mais velhos. Porém, ela está só começando. Chegará lá em breve.
O estendi o balde, mas recuei quando ele estendeu a mão para pegar.
— Deixa que eu termino.
As mãos dele estavam muito vermelhas e já podia se notar as primeiras formações calosas.
— Nem pensar!
Tirou o objeto de mim.
— Edward, você não precisa provar nada a ninguém. Olhe para você? Se isso piorar como clinicará? Suas mãos são essenciais. Eu já estou acostumada.
Timidamente mostrei-lhe minhas mãos. A calosidade em certos pontos me fez escondê-las de imediato. O que não passou despercebido por ele.
— Mãos de quem dá o sangue por isso aqui. Não se envergonhe. Nunca se envergonhe de ser quem é. Te amo exatamente assim.
Puxou as palmas para perto do rosto e as beijou com carinho e muito cuidado.
— Além do mais, não se preocupe comigo. Quero aprender e ajudar. Só me guie.
Tocou meu nariz, encostou os lábios nos meus e se afastou já voltando para continuar a tarefa.
Eu fiquei inerte ainda não entendendo quais suas reais intenções. Sabia que estava tramando algo, suas ações e palavras levavam a isso. Porém se mantinha quieto e misterioso.
E eu só podia torcer para que não fosse uma loucura. Porque, sinceramente estava amando a normalidade e calmaria dessa nossa nova vida.
— Muito bem, rapaz. Você está quase me convencendo. Agora deixe-me dar-lhe umas dicas. Bella usa o jeito, já que as mãos e os dedos são pequenos. Você pode usar a força e tamanho das suas a seu favor. Deixe-me mostrar.
Charlie se abaixou e começou a falar com ele, mostrando e exemplificando maneiras para que se adaptasse melhor, me distraindo assim das mil coisas que se passavam em minha cabeça.
— Onde tio Billy vai?
Olhei para onde Antony apontava. A camionete, da fazenda, subia a pequena colina rumo a saída da Sonho Azul.
— Provavelmente buscar algum maluco que se aventurou a cruzar o remanso de canoa.
Charlie respondeu sem nem levantar ou tirar os olhos do trabalho de Edward.
— A chuva deu uma trégua, pai.
— Por meia hora, querida. As previsões não são nada animadoras... Isso, rapaz! Agora mantenha o ritmo.
— Amo a chuva, mas essa notícia não é boa. Eu tinha esperança de que a frente chuvosa se desviasse antes de chegar aqui. A soja já está quase no ponto de colheita.
Reclamei tirando o celular do bolso e consultando sites especializados em previsões do tempo.
— Na primeira trégua, colhemos rapidamente. Depois usamos o secador, não se preocupe, querida.
Eu odiava isso! Forçar “o fruto” não era algo que me agradava. Era daquelas que tinha prazer em usar a natureza a meu favor.
— Não me conforta, pai.
— Eu sei. Mas, natureza é natureza. Não terá jeito.
É, de acordo com as próximas previsões teríamos um mês e meio de muita chuva. A soja não esperaria tanto.
— Aquela é a bisvovó?... Chocolate!
De novo, nos interrompeu Tony ao avistar o cachorro sair em disparada rumo a um corpo pequeno, escondido por uma enorme capa de chuva amarela, vindo calmamente em nossa direção.
— Deus! Todos perderam o juízo hoje? Alguém precisa colocar bom senso na cabeça daquela velha.
Charlie soltava a vaca, que Edward acabara de ordenhar, quando se deu conta de quem vinha.
— Vou te mostrar quem é velha aqui, seu moleque atrevido. Acha mesmo que uma chuvinha dessa me seguraria? E juízo, você precisa colocar é na cabeça de vento do seu filho do meio que atravessou a filha de Esme, grávida, pela enchente do córrego.
— Alice?
Edward me entregou o balde já vazio.
— Essa mesma. Ou ele engravidou a outra e ainda não me contaram?
— Vovó!
— O quê, Isabella? Estão tão modernos que nada mais me surpreende. Ou acham que não fiquei sabendo das peripécias de vocês fazendo parto em casa? Perderam a noção?
Ela estava brava, muito brava. Era óbvio que não ficou contente de não ter sido avisada antes ou talvez sua chateação fora poque não participara de nossa aventura da madrugada.
— Vó...
— Nada de vó para você, mocinha. Trate de deixar isso aqui a cargo daquele, “come e dorme”...
Apontou o dedo em riste para Benjamin que se aproximava sem entender nada.
Edward escondeu uma risada com um início de tosse.
— E me acompanhe para dentro. Já que terei meu almoço de domingo cancelado graças a chuva e a falta de compromisso de vocês, almoçarei aqui. E exijo companhia desde já. Enquanto isso, aproveitamos e vemos se esse seu noivo aprendeu alguma coisa todos esses anos no meu hospital, porque juro que abrirei a cabeça de seu irmão para ver que tido de “estrume” tem lá dentro.
— Mãe, por favor, nós...
— Fique aí. Ajude o Molenga a terminar. Quero meus netos e bisneto, já que eles não me chamam de velha. Vamos, Edward. Me dê esse braço. Pelo que ainda lembro, Bella já sabe caminhar sozinha... Vamos, Antony! E deixe esse cachorro aí para ver se ele vigia esses dois para que não enrolem mais do que o necessário.
Como soldadinhos seguimos cada ordem.
Uma coisa que sabíamos, quando dona Marie queria uma coisa, ela conseguia. Nem que para isso precisasse usar do sarcasmo e a da sua posição em nossa família.
Uma vez matriarca, sempre matriarca!
Alice
— Aqui.
Peguei o copo de água com gás e limão que meu irmão me oferecia.
— Obrigada.
Me recostei no sofá enquanto ele voltava a se sentar, no tapete, e se aconchegava entre as pernas de Bella. Pareciam tão confortáveis que até senti uma invejinha. Porém, minha barriga, recém adquirida, já me impedia de fazer aquilo.
— Ah, isso é bom! Está acalmado o estômago.
— Graças a Deus.
Jasper segurou minha mão e pela primeira vez, desde ontem, respirou aliviado. Eu estava um caco. Tinha consciência da palidez e da fraqueza. Tudo devido as intensas náuseas dos últimos dias. Nada parava em mim. E meu noivo já estava surtando, quando por fim clamei por meu irmão. Jas não pensou duas vezes, e eis que aqui estamos, para desespero de todos.
— Rá, como se isso diminuísse a sua irresponsabilidade Jasper Swan.
Vovó Marie, sossegada a nossa frente, com seu inseparável copinho de dose, bateu o pé em repreenda.
— Não tinha mais alternativas, vovó. Tentei tudo e mais alguma coisa, do que disseram que melhoraria o estado dela, nada resolveu. Quando chorou por Edward... eu sabia onde encontra-lo.
Deu de ombros.
— E você nem pensou duas vezes...
— Eu...
— Eu teria feito a mesma coisa se Bella clamasse pelo irmão.
Edward beijou os dedos de Bella e interrompeu Jasper. Era evidente que tentava aliviar a nossa situação.
— Claro que teria! Dois paus mandados! Deus, que netos são esses que o Senhor me deu?
— Inteligentes? Espertos?
Bella piscou para mim provocando vovó.
— Papai é “initeligente” mesmo, bisvovó. Por que você tá tão “blava”?
Antony, que tomava um refrigerante, ao lado de Bella, se incomodou com o rumo de conversa.
E foi como água no fogo, logo vovó Marie mudou o tom e falou mais baixo.
— Seu pai é o mais esperto dos três, querido, sem dúvida. E bisvovó não está brava, só chateada por tio Jasper ter atravessado a titia por aquele tanto, tanto de água.
— Vovó, eu não tinha mais escolha e...
— Tá, tá, já entendi. Agora fiquem aí com essa cumplicidade de vocês, enquanto meu bisneto e eu vamos até a cozinha ensinar aquelas cozinheiras de Charlie a fazer algo gostoso no almoço.
Com uma agilidade apreciável, ela se levantou esticou a mão para Antony, que eu já havia percebido, não dispensava comida, e então desapareceram em direção a cozinha.
— Vocês sabem que ela tem razão, não é?
Bella se encostou mais no sofá levando Edward a se aconchegar totalmente nela. As mãos, de minha cunhada, deslizavam preguiçosamente sobre os cabelos dele, ao mesmo tempo que a boca dele dava beijinhos calorosos ao longo do braço dela.
Uma melação só...
— Diz isso para ela. Até parece que você não tem um Cullen aí grudado em você, irmãzinha. Quando querem alguma coisa... ai do mundo se não conseguirem.
Meu irmão e eu sorrimos de lado.
Jasper, para me bajular, puxou minhas pernas para seu colo, tirou meus sapatos e passou a massagear meus inchados pés.
— Eu sei. Edward atravessou o remanso em meio a tempestade para me ajudar com Leah. Mas era um caso de urgência. Já o de vocês...
Dei de ombros.
— Quem culpa tenho eu se o neném, para se acalmar, só precisa do tio? Para mim, é um caso de extrema importância.
— Ah, bela desculpa, irmã.
Nos provocamos. Porém todos ali sabiam que o que eu precisava mesmo era do mimo de Edward. Me sentia muito perdida sem ele.
— Já que estamos aqui, podemos mudar de assunto agora? Jasper e eu precisamos de ajuda nos últimos detalhes do casamento.
— Rá! Eis o real motivo do estômago nervoso. Faltam o quê? Duas semanas para o grande dia? E ainda tem o disparate de culpar meu sobrinho.
Sorrindo, neguei e baixei os olhos. A velha conexão de irmãos nunca pareceu tão certa ali.
Jasper e Bella/ Edward e eu. Ah, que nossos filhos sejam tão companheiros como sempre fomos.
Bella
— O que precisam?
Fiz uma pergunta afim de que os irmãos Cullen parassem de se provocar.
— Estou insegura quanto a recepção.
— Insegura? Ela perde o sono todas as noites, Bells. Uma hora cisma que a comida não vai dar, depois surta porque acha o bolo pequeno. Ah, e a última, ninguém vai aparecer.
Jasper revirou os olhos e Edward escondeu o rosto em minha barriga para poder rir das paranoias da irmã sem que ela percebesse.
— Chato! Diz para ele que isso é normal, Bella. Diz... afinal vai casar logo também. Duvido que essas dúvidas não passem por sua cabeça.
— Hum...
Hesitei na resposta quando Edward se endireitou só para me observar melhor.
— Para ser sincera, Alice, não começamos a planejar nada ainda. É tudo muito recente. Nem comunicamos nossos pais. Charlie surtará se imaginar que já temos algo em mente sem nem ser oficial ainda.
— Ah, isso não é desculpa. Tenho certeza que meu irmão fará questão de aceitar e realizar todos os seus sonhos. Vamos, diga o que imaginou...
Arrastou a bolsa para perto de si e tirou a agenda e caneta, pronta para anotar o que eu dissesse.
— Edward, contenha-a.
Gemi.
— Na verdade, Vida, estou bem interessado nessa conversa.
Virou-se mais para mim de uma maneira que encararia cada uma de minhas expressões.
— Ah, parem com isso! Não sei o que dizer. Acho que nunca pensei nisso.
— Hum, duvido, Cunhadinha. Para quem planejou um lar, desenhou cada detalhe daquela casa... Não é possível que nunca rascunhou algo, mesmo que mentalmente, da cerimônia de casamento. Lugar, decoração, festa... me dê algo.
Edward continuava atento e eu começava mesmo a duvidar se aquela conversa não era influência dele sobre a irmã para que arrancasse algo de mim.
— Nunca pensei nisso.
Dei de ombros puxando memórias e literalmente não encontrando nada.
— A casa era... diferente.
— Como assim?
Fechou a agenda e se concentrou mais em mim enquanto eu vagueava por um passado distante.
— Não sei explicar. E Marcus que me desculpe, mas, acho que nunca foi a cerimônia, o sacramento. Quando desenhei e sonhei com a casa, eu pensava no compromisso, na cumplicidade em Edward.
Acariciei o rosto dele apaixonadamente.
— Eu só queria seu irmão. Não importava como oficializaríamos aquilo, se oficializaríamos. Contanto que ele estivesse comigo...
Desdenhei.
— Eu não desenhei uma casa, Alice. Eu projetei um lar... Tinha esperanças de que Edward e eu seríamos “para sempre” e era só isso que importava.
Suspirei ao mesmo tempo que me assustei quando ele, de repente, se levantou, sentou-se à minha frente e segurou meu rosto com carinho.
— Sou grato por Deus realizar seus sonhos, sabia? Te amo tanto, Minha Vida! Tanto... Prometo que teremos o nosso lar, do jeitinho que sonhou.
— É só o que quero, terminar os dias ao pôr do sol nos seus braços, contemplando o que construímos e o que ainda faremos pelos restantes dos nossos dias.
— É uma promessa! Para sempre!
Eu até assentiria se não estivesse ocupada demais retribuindo o beijo avassalador que recebi.
Se isso não era felicidade plena, eu sinceramente, não sabia o que era.
Rósalie
Toc, toc, toc...
O atrito dos meus saltos finos com o porcelanato impecavelmente branco fazia um barulho irritante, eu sabia.
Em outro lugar talvez passasse despercebido, porém, em um hospital... o silêncio era lei e eu a estava quebrando. Mesmo assim, ninguém ousou me parar. Minha postura, altiva, superior os amedrontava? Quem sabe?
Também poderia ser o título: a filha da doutora Cullen, sobrinha da doutora Swan, neta de Marie Swan, acionista majoritária? Bem provável.
Contudo meu ego acreditava piamente que o que mantinha “os subordinados” longe era ser quem eu era: Rósalie Cullen, a fria, esnobe, arrogante e inacessível filha de Carlisle e Esme. Essa era eu. Fazia questão de manter a pose. Sempre impecável com os cabelos limpos e escovados. As unhas feitas e grandes. Roupas e sapatos sempre de marcas famosas e sem um único amassado ou arranhão.
Era assim que me conheciam e era assim que eu gostava de me mostrar. Os mantinha afastados. Achavam-se inferiores, o que de fato eram, e nem se dignavam a me dirigirem a palavra, a não ser que eu tomasse a iniciativa. O que era ótimo, evitava confronto, perguntas sem sentido, bajulação e acima de tudo, falsidade.
Eu não queria ninguém perto. Nunca!
— Senhorita Cullen sua mãe...
De lado, olhei de cima abaixo “o ser” que ousou tentar interromper meu passo. Ela se calou... eu conhecia o caminho da sala de minha mãe, não precisava deles. Aliás, não preciso de ninguém.
Uma coisa era fazer um favor a Esme, trazendo uma pequena mala de casa, para ela, já que estava presa no hospital há três dias por causa de um caso importante. Outra muito diferente era parar para ouvir “a ralé”.
— Sei o Caminho.
— Mas...
Sacudi a mão, fazendo- a calar e continuei a caminhar pelos corredores até a área da administração onde minha mãe estava.
Quando me ligou, ontem à noite, pedindo que trouxesse algumas coisas de Forks, não me importei. Tinha mesmo que vir a Port Angeles, ver o contador. Não afetaria minha rotina fazer um favor. E claro, eu precisava melhorar minha moral com meus pais depois do estúpido ataque a Alice.
— Até que enfim.
Murmurei ao avistar a porta. Não entendia a necessidade delas de comprar outro hospital. Aliás, nem sabia o que faríamos com os hospitais quando mamãe e titia resolvessem se aposentar, porque pelo que parece Edward não quer mesmo saber de medicina. Acho que sobrará para Jasper administrar tudo até saber se um dos bisnetos de minha avó se interessaria por aquilo.
— Mãe, eu trouxe sua mala e...
Entrei sem bater, eu nunca batia, e não poderia ter me arrependido tanto por um ato tão a minha cara.
— Bom dia. Estou procurando minha mãe e...
Antes mesmo que ele se virasse eu sabia quem era. As costas, o porte, a tensão, a presença... Emmett Swan era inconfundível.
— Desculpe. Não sabia que Esme havia mudado de sala e...
E então ele se virou e eu não estava mais em mim... o clima mudou e eu sentia todo ar fugindo dos meus pulmões.
— É a sala dela.
A voz dele retumbou, porém não foi isso que me fez inerte, nem a beleza que sempre fizera parte dele, quiçá a expressão fechada e de desgosto por estarmos no mesmo ambiente. O que de fato travou-me inteira, foi o pacotinho, de cobertores, cor de rosa que ele segurava com tanto carinho e cuidado. Que parecia minúsculo em meio as mãos imensas.
— Eu trouxe... ahn... ela pediu...
Não havia coerência no que eu dizia, eu sabia. Contudo não conseguia pensar e raciocinar. Só olhar e sentir minhas pernas trêmulas e meu coração despedaçando mais uma vez.
— Deixe aí. Ela já vem. Está com minha mãe e minha esposa fazendo alguns exames.
Esposa, esposa, esposa...
Meus olhos arderam e foi preciso que usasse todo resquício de força e dignidade para não derramar lágrimas ali em sua frente.
Nunca uma palavra doeu tanto. Uma coisa era saber, outra era comprovar e presenciar a devoção dele ao falar de outra mulher.
— Ok. Eu já vou e... Adeus. Emmett.
Ele não respondeu, tirou os olhos de mim e deixou de me dar o mínimo de atenção quando o bebê resmungou em seus braços. Ele já não ouvia e via o exterior. Totalmente apaixonado e focado em fazer o seu novo mundo se acalmar.
E então eu corri... corri e corri... passei por cada corredor como uma louca e só parei quando cheguei ao carro. Porém não poderia me entregar ainda, tirei-me dali, dirigindo a toda pela autoestrada até parar em um ponto onde as pessoas estacionavam seus motorhome para passar a noite.
E foi só então que me dei ao direito de libertar: gritei, chutei, arranquei os cabelos e por fim, desabei no chão e chorei.
Chorei alto, sem o mínimo pudor. “Tirei a capa de forte, me despi da máscara” e entreguei a dor como há muito não fazia.
Eu não era nada! Não tinha nada! Enquanto Emmett, o grande e único amor de minha vida, estava casado e agora se tornara um pai.
Um filho... Era a plenitude de duas pessoas que se amam. E eu não teria isso com ele, porque já era de outra. E nada machucava mais do que ter a certeza de que a única culpada era eu, somente eu.
E eu, só podia chorar e chorar...
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