Quando o passado não te deixa viver
40 Tatuada em mim
Notas iniciais
Edward
— Pois não? Bella não está ela não vem aqui há dias. Meus sogros também estão fora. Charlie, creio eu, está no barracão, já Renée eu não sei, porque...
— Bom dia, Leah. É um prazer revê-la.
Sorri o máximo que pude tentando acalmá-la e calá-la ao mesmo tempo. O nervosismo era aparente o que não era nada saudável para uma mulher em seus... O quê? Oito meses de gravidez?
— Oh! Desculpe os meus modos é que...
— Tudo bem. Não precisa se explicar. Eu vim sem avisar. Mas temi que Emmett não me recebesse se antecipasse minhas intenções.
— Você está aqui por Emmett?
Assenti não me surpreendendo com o espanto em seus olhos.
— Posso entrar enquanto você o avisa que estou aqui? Seu pai me disse que ele acabou de entrar.
Ela ponderou por alguns segundos antes de se afastar da porta me dando total acesso.
— Venha por aqui. É uma visita formal e Emmett gosta de tratar assuntos importantes do escritório.
A segui, mesmo que tentado a corrigi-la de que não, não era uma visita formal. Passamos pela sala de estar e jantar. Até que adentramos o corredor com inúmeras portas, porém, eu sabia que a do escritório era a única a esquerda.
Eu conhecia cada canto daquela casa. Aliás, conhecia cada canto da Sonho Azul. Metade de minha infância foram passados ali. Na companhia de meus melhores amigos e de meu Amor.
— Sente-se. Ele não deve demorar se quiser te ver. Agora se não quiser...
Respirou fundo, resignada. Teimosia devia ser o sobrenome de Emm, e ela tinha noção disso.
— Eu volto para te avisar.
— Ok. Obrigado.
— Gostaria de beber algo? Fique a vontade.
Apontou para as garrafas no móvel perto da estante, de livros, na parede inferior.
— Não. Obrigado. Estou bem assim.
Sobriedade. Era disso que eu precisava agora.
Ela deu de ombros e se foi. E eu só torcia a Deus para que convencesse o marido a me ver.
— Ele virá. Emmett não é covarde, muito pelo contrário.
Murmurei sozinho enquanto caminhava pelo grande lugar, avaliando as mudanças feitas desde e última vez que estive aqui há... Nem sei quando foi a última vez mais.
— Ah! Tem coisas que nem o tempo muda.
Observei as três paredes altas, ordenadas de estantes, coberta de livros, desde exemplares raros, a antiga coleção de gibis de Jasper.
Tio Charlie tinha orgulho daquele espaço. E a prova viva disso era que, no centro na parede principal, a que se via assim que entrava, habitava uma enorme foto de família, que escondia o cofre pessoas dos Swan’s. E essa foto era nova, pois meu Pequeno Travesso estava ali, sorrindo e fazendo pose nos braços do avô. Bella estava ao lado, segurando a cintura dele pocessivamente.
Lindos e felizes! A grande família feliz.
— Quero uma assim em casa.
Voltei a falar sozinho já visualizando uma das paredes de nosso escritório coberta com um pôster enorme de minha própria família.
— Calma, Edward. Muita calma. A única coisa que você tem agora é uma noiva brava e um filho chateado.
Meus olhos absorvendo o máximo de detalhes, enquanto continuava a divagar sozinho.
— Mas, o que é isso.
Minha atenção parou no fundo. Num móvel escuro e com luz própria, tipo refletor, que iluminava algo que, obviamente, não estava ali quando eu ainda frequentava a casa.
— O quê...
Aproximei-me. E qual foi minha surpresa... Prendi a respiração e a lembrança das palavras de Antony, ditas há algum tempo atrás, vindo à tona, fortes e claras como água, quando me contou que a mãe tinha “um sapato numa caixa” bem parecida com minhas premiações. Na hora não entendi, mas vendo agora...
Deslizei os dedos pela superfície lisa do acrílico impecável de tão limpo e iluminado.
— Ah, Bella...
Lamentei afastando o choque inicial e mais uma vez deixando que o remorso me doesse.
— É linda, não é?
Não respondi e não me virei para ver Emmett. Eu sabia que ele devia sorrir, como um louco, por causa da minha descoberta.
A sandália, a maldita sandália que a presenteei em seu último aniversário que estivemos juntos, descansava agora numa caixa transparente e bem iluminada, como um troféu. O lugar que estava exposto também tinha seu significado, era visível de qualquer canto do cômodo, certeza de que passava alguma mensagem também.
— Por quê?
Perguntei a meu ex melhor amigo, porém ainda encarava o objeto que parecia zombar de mim.
— Por que você acha?
Ele adentrou mais o local e parou a meu lado, acendendo outra luz, que a deixou ainda mais visível.
— Nunca perguntamos abertamente, ela evita o assunto. Só chegou um dia com ela assim e colocou aí. O escritório do Brasil é bem maior, ficava no centro. Aqui, e ela fez questão de trazer, resolveu que ficaria bem aí. Cremos que o significado seja para não se esquecer do que passou e de quem não queria ser, mas não temos certeza. Terá que perguntá-la.
— Como chegou ao Brasil? Vocês não levaram nada.
— Quase nada. Na verdade, foi um equívoco.
Corrigiu-me.
— Naquela noite, voltamos correndo para cá, pegamos dinheiro, documentos, uma troca de roupas para cada um. E Jasper, na euforia e pressa do momento, pegou o que viu pela frente, das coisas de Bella, e jogou dentro da mala. Estava novíssima, só foi usada uma vez.
Na noite da nossa primeira vez, me lembrei.
— A parte debaixo está começando a se desfazer. Acho que pela ação do tempo. Ela disse que não mandaria arrumar, que era para deixar acabar. No entanto, a julgar pelo seu anel... É bem provável que, graças a Deus, vá dar um fim nisso.
Observou a mão que eu ainda tinha deslizando sobre o impressionante objeto. Busquei seu olhar tentando ler o que se passava em sua mente, porém, Emmett sempre fora muito bom em esconder sentimentos, quando queria.
— Ela disse sim, Emmett. Não vou esconder isso de ninguém.
— Eu sei... Por que não se senta? Creio que nossa conversa será longa.
Apontou para a cadeira alcochoada de frente a mesa.
— Poderíamos conversar na sala, mas se Leah te trouxe aqui, além de querer que visse isso, é porque teme que possamos nos exaltar. Mas, minha esposa está errada, Edward. Eu ouvirei o que tem a dizer.
Se Leah queria “esfregar em mim” que eu havia destruído Bella, ela com certeza alcançara seu objetivo.
No entanto, aquele velho Edward não existe mais. Eu tinha algo em mente quando tomei a decisão de vir a Sonho Azul.
— Pelo menos nisso estamos de acordo. Também não quero gritos. Estou aqui para selar a paz, Emm, e pedir um conselho.
— Corajoso, você Cullen. Isso eu não posso negar.
— As circunstâncias me ensinaram a ser. Depois de tantas perdas, jurei nunca mais desperdiçar as oportunidades que a vida me dá. Arrisquei vindo aqui e você me recebeu. Então agora parto para a fase dois.
— Que é?
— Encontrar uma maneira de “convivermos”, Emmett.
Fiz aspas com as mãos bem no convivermos para que ele frisasse direitinho.
— Minha presença faz tanta falta assim para você, Cullen? Já não tem Swan que baste em sua vida?
— Não, ela não faz. Por mim...
Dei de ombros. Se ele achava que eu estava ali para implorar, se enganaria bonito.
— Ficaríamos do jeito que estamos. Não estou aqui para pedir perdão outra vez, Emmett. Já tentei me redimir com você, apesar de que errei foi com sua irmã. E como você bem disse, ela já me desculpou.
Fiz questão de levantar a mão para que ele visse minha aliança, de novo.
— Estou aqui porque Bella e principalmente Antony sentem falta de vocês e da fazenda. Nossa vida seria mais fácil se você e sua irmã se resolvessem.
— Antony está dando trabalho, não está? É por isso que está aqui e Bella não. O Pestinha aprontou?
— Sim. E isso entra no segundo motivo pelo qual estou aqui. Preciso de um conselho.
— “Sou todo ouvidos”.
— Antony disse coisas pesadas para Bella e ela...
— Ela se retraiu e sumiu. Quantos dias do acontecido?
Ou Bella era previsível demais ou significava que fazia isso com frequência.
— Desde domingo. Mas, ela não sumiu. Só está evitando todo mundo, inclusive Antony que está desesperado para pedir desculpas.
— Alguém a viu? Ou ela está chegando a 1 da manhã e saindo às cinco?
— Ninguém a viu. Está fazendo esses horários mesmo. Jasper até tentou, mas...
— Então ela sumiu, Cullen. Droga!
Emmett se levantou, firmou as duas mãos na mesa e olhou fixamente para baixo, creio eu, buscando alguma ideia do que fazer.
— As pessoas da loja têm falado com ela. Pegou todos os atendimentos nas fazendas das redondezas. Depois, à tardinha, vai direto para a universidade e só volta a noite. Antony precisa ser castigado pelo que falou, isso é fato, mas, é de cortar o coração, Emmett. Por isso, estou aqui. Ajude-me a ajudar sua irmã.
— Ela não está castigando Antony. Está se castigando. E lamento, de verdade, se o que vou dizer te incomodar, mas, Antony com certeza disse algo que a está fazendo questionar sua postura como mãe. Bella surta quando isso acontece. Os acontecimentos do passado deixaram cicatrizes profundas, Edward. Ela tende a se achar inadequada, insuficiente. E isso acaba com ela.
— Ela é uma ótima mãe.
— Eu sei, você sabe, mas ela não vê desse jeito quando algum gatilho aparece. Droga! Eu precisava estar lá. Ela não vai parar de se esconder até que alguém a traga para a realidade. Jasper não dá conta disso. Mas, por Deus, ela não quer nem falar comigo, quanto mais ouvir umas poucas e boas. Você terá que fazer algo.
— Como?
— Mostre a realidade. Faça-a saber, que Antony está sofrendo e se culpando. Essa dor será pior do que a que está sentindo. Bella precisa parar de fugir.
— Fugir?
Emmett respirou alto e me encarou profundamente tentando reorganizar as ideias e o que precisava dizer.
— A psicóloga do Brasil disse à mamãe que Bella não quer mais enfrentar desilusões e tristezas e que quando foge é como uma maneira rápida de resolver os problemas. Lembra? A primeira vez foi quando vocês terminaram e ela fugiu pela mata, aí apareceu meu pai e a cercou de cuidados. Então veio o acidente. Depois nós partimos o que também pode ser considerado uma fuga e como resolveu-se a história de vocês... E por aí vai. Ela se debruça no trabalho quando contrariada. Ou, nesse caso, some. Vira dias e noites fora e quando resolve aparecer já acalmamos as coisas com quem quer que seja sua rusga; isso precisa parar, Edward. E se ela confia em você o bastante para te perdoar... É certeza de que é a pessoa certa para trazê-la de volta para vida.
Até porque eu era o responsável por criar esse mau hábito nela.
— Acho que sei como e quando fazer isso. Mas, e se não der certo?
Uma ideia sólida se formando em minha mente.
— Então ligue para meu pai e conte tudo. Charlie sabe o que fazer, até porque Bella não tem mais 16 anos. Ela precisa parar de agir assim. Além disso, Tony é pequeno demais para se martirizar por sua falta de tato.
Isso era verdade.
— Certo!
Levantei-me pronto para sair. Meu assunto com ele havia terminado, como disse, não estava ali para pedir-lhe desculpas por algo que fiz com sua irmã. Porém, se tinha uma coisa que eu tinha muita certeza na vida, era do amor de Emmett pela irmã.
— Obrigado pela ajuda, Emmett.
Estendi a mão em sua direção. Ele me olhou com intensidade antes de repetir o gesto.
— Tudo bem. Faço qualquer coisa por eles.
— Então pare de besteira e procure-a. Bella sente sua falta.
Caminhei em direção a saída que eu bem conhecia.
— Está enganado.
Ele me seguiu.
— Ela está sofrendo por estar restrita a cidade. Mas, quanto a mim? Eu sou um bruto! Disse coisas no auge da raiva.
— Peça desculpas.
— Pedirei. Mas, Bella não é a mesma, Edward. Tenha isso em mente se resolver fazer uma burrada. Ela guarda rancor e tem dificuldades enormes em perdoar. Acho que é por isso que me ressenti tanto dela ter deixado você se aproximar tão rápido.
— Quase cinco anos? Isso é rápido para você? Porque para mim pareceu uma eternidade e no inferno.
Passamos por cada cômodo da casa, ainda vazio, e triste.
— Certo. Você tem um ponto.
Não, eu não deixaria que ele menosprezasse minha dor. Não foi fácil, não foi pouco tempo, só eu sei.
— Peça perdão, Emm.
Esperei que ele abrisse a porta da frente para mim.
— Pedirei. Mas, será em vão. Pode apostar. Bella terá que digerir sua mágoa primeiro.
— Rósalie não compensa, Emm. Conheço você e ela. Não sabe o tamanho da sua sorte por ter se livrado. Ela nunca mudará.
— Foi da boca para fora, Edward. Eu queria ferir minha irmã. Leah é a mulher da minha vida.
— Bom saber.
Toquei seu ombro num aperto rápido e só então atravessei a porta pronto para colocar as ideias em prática.
Eu via um futuro em minha relação com Emmett. Talvez o que estivesse faltando era mesmo eu parar de agir todo “cheio de cuidados” com ele. Como disse, eu devia desculpas a Bella e somente a ela.
— Ora, ora, vejo que a casa começa a ficar mal frequentada. Será que preciso avisar o controle de animais.
Putz! Por pouco não esbarro no tal sujeito, que Emmett havia trazido do Brasil. É, talvez eu tenha dito cedo demais que via um futuro para nós.
Ele precisava mesmo ter trazido esse babaca para cá?
— Realmente! Tio Charlie já foi mais seletivo com suas visitas. Quanto ao controle de animais...
Tirei o celular do bolso e puxei para frente, com a mão direita por cima e bem a mostra. Eu queria esfregar minha aliança na cara dele.
— Acho mesmo que devemos acioná-los. Deixe-me ligar para minha noiva, certeza que ela tem o número.
— Ai... Essa doeu.
Emmett colocou a mão na testa. E fez cara de dor em direção a seu amigo.
Já eu, em minha melhor pose de quem está por cima, dei-lhes as costas e segui para meu carro. Porque eu tinha muito que fazer por Bella e Antony em vez de discutir com aquele idiota.
Rósalie
— Olá. Não trabalha mais? Não vou cuidar daquilo sozinha. Decidiu-se “viver de brisa” com seu noivinho? Então, é melhor avisar para que eu arranje outra sócia. Não sou obrigada a dividir os lucros com você se não faz sua parte.
Disse alto assim que entrei em casa e encontrei Alice sentada no sofá esfregando a testa como se não tivesse nada para fazer.
Meus nervos estavam em frangalhos e eu não deixaria passar mais um dia de falta dela.
— Não vai dizer nada? Olhe para mim!
Joguei a bolsa no sofá e me aproximei mais.
— Um bando de inconsequentes sem responsabilidades você são. Não aprenderam nada com meu pai. Quer saber? Que se dane!
Sai dali quando não me respondeu de novo. Ela me ignoraria também? Já não bastava Edward?
— Aprendemos com nosso pai a ter respeito pelo próximo e educação. Aprendemos a amar as pessoas. Nosso pai...
— Meu pai!
Gritei voltando para ela, quando ouvi que falava para mim. Eu não queria ouvir suas lições de boa moça hoje.
— O que disse?
— O que ouviu. Meu pai. Carlisle é meu pai. Só meu!
Um silêncio constrangedor tomou o lugar. Ela me olhava como se não acreditasse no que eu havia dito.
— É isso, não é, Rosie? Você se recente por nossos pais...
— Meus pais!
Voltei, perigosamente, para perto dela. A ira tomava conta de mim. E eu precisava descontar em alguém.
— Isso! Seus pais. Você nunca nos engoliu. Acostumou-se com a ideia, mas aceitar não. Por isso, fez e faz questão de nos atingir de alguma maneira. Não se conforma com nossa felicidade.
— Estou pouco me lixando para o que fazem ou deixam de fazer, Alice. Só não aceito que me prejudiquem ou tenham regalias que não tenho. Seu irmão e você são uns parasitas sugadores que só querem o dinheiro da minha família. Mas, eu não vou deixar. São os meus pais e não o de vocês!
Gritei apontando o dedo em sua direção que sabiamente, recuou dois passos.
— Rósalie!
Assustamos-nos com o grito de Carlisle. E para minha surpresa Esme o acompanhava. Provavelmente vindo de algum lugar da cozinha.
— O que pensa que está fazendo?
— Ela só está mostrando o que é de verdade, mãe. Já conseguiu fazer Edward e Bella se chatearem um com o outro de novo. Agora é minha vez...
— O quê?
Esme estava horrorizada. Ela ouviu a pior parte da conversa.
— Alice, filha... Pode nos dar licença? Seu pai e eu precisamos conversar com sua irmã.
— Ela não é minha irmã. E não me importo, nem um pouco, se a caipira está magoadinha. Problema de vocês!
— Chega! O que está acontecendo com vocês duas? Rósalie! Preste atenção no que está dizendo.
Não baixei a guarda, não podia. Não agora.
— O que aconteceu? O que aconteceu? Pergunte a sua filha, Carlisle. Pra mim, chega! Vou me encontrar com meu irmão para ver se conseguimos amenizar um pouco do estrago que essa aí causou domingo. Ela se esquece que agora tem Antony envolvido nisso tudo e que ele é só uma criança.
— O quê? Do que está falando? O que Antony tem? Alice, volte aqui!
Mas, já era tarde. Ela já rumava, como um touro bravo, para fora de casa. O que foi pior porque minha consciência agora “berrava alto” que eu não pensara no “Pestinha Loiro”.
— Esme a impeça! Ela está hiperventilando e não tem a mínima condição de dirigir.
Nem precisava dele ter pedido, minha mãe já corria atrás de Alice. E eu quis morder a língua ao lembrar também da gravidez já aparente.
— E você? No meu escritório. Agora!
Carlisle não esperou por uma resposta, era uma ordem. E eu acatei pronta para dar-lhe mais uma amostra da filha cadela que tinha em casa.
Porque sim, mesmo que eu fizesse tudo, eu sabia que nunca seria vista com os mesmo olhos, de amor e admiração, como que olhavam meus irmãos.
Porém, não havia espaço para lamentações eu escolhi esse caminho anos atrás quando decidi que se eu não era feliz, nenhum deles seria também.
Bella
— Graças a Deus!
Murmurei baixo ao trancar a porta da garagem que dava acesso a nosso apartamento. Eu estava exausta e clamando por um banho e cama. Mesmo que não fosse “pregar os olhos” pela segunda noite seguida, só de saber que estava em casa já acalmava um pouquinho todo stress e cansaço dos últimos dias.
— Só mais alguns passos, Isabella. Vamos, você consegue.
Encarei os degraus acima e lamentei a falta de um elevador. Emmett bem que quis colocar um, mas quase aumentaria o orçamento da obra em 100%. Jasper e eu o barramos. Porém, agora pensando que eu precisava me arrastar por dois lances de degraus altos, me fez lamentar minha decisão.
— Quase...
Parei de frente a porta e vasculhei a bolsa em busca da chave. Equilibrar, bolsa, celular, notebook e livros não era fácil até mesmo para alguém acostumada a lidar com trabalhos braçais como nós.
— Onde? Onde? Ahh!
Agarrei o metal frio na mão, reconhecendo o chaveiro grande em forma de botas de equitação que havia ganhado do representante de uma grande empresa que queria que revendêssemos seus produtos na região.
Nem gostei muito dos produtos, mas que o chaveiro era lindo, isso era...
— Obrigada, Senhor!
Agradeci de novo, ao adentrar o apartamento e livrar-me de todo peso, na mesa de jantar. Deixaria tudo ali, ao alcance das mãos já que sairia em pouco tempo para a lida de novo.
— Vejamos o que tem aqui.
Vasculhei a geladeira em busca das sobras do jantar, só que infelizmente, nada chamou minha atenção. Aliás, comer quando sua mente estava um caos era impossível. Por isso, só peguei uma garrafa de água e fui para o quarto. Tomaria um banho, veria Antony e depois forçaria alguma coisa “boca abaixo”. Porque eu ainda teria uma longa semana pela frente e precisava de descanso.
— Odeio escuro e silêncio demais.
Murmurei passando por cada cômodo acendendo e apagando as luzes enquanto avançava casa adentro. Eu odiava a sensação de “sufocamento” que o falta de luminosidade causava em mim.
— Enfim!
Tateei a parede, já dentro do meu lugar.
— Ahh!
Prendi a respiração quando, de uma vez, a luz se ascendeu, antes que eu encontrasse o plug.
— Eu, Bella, calma! Sou eu!
Rapidamente Edward levantou-se da cama e veio pra perto de mim, segurando-me pelos braços para que eu me recuperasse do susto e não caísse no chão.
Ele havia clareado o quarto usando o sistema de luz ao lado da cabeceira da cama.
— Por Deus! Eu, eu...
— Shiii! Tudo bem. Eu sei, só sei.
Fechou-me em seus braços e embalou devagar até que meu coração voltasse ao compasso normal.
— Isso! Respire, só respire, amor. Escute o som do ar entrando e saindo. Devagar! Relaxe! Não precisa se assustar. Sou eu! Respire, assim... Isso...
Subiu os dedos para meus cabelos e os acariciou com tanto carinho que quase me fez perder o foco para a surpresa de encontrá-lo ali.
— Está tudo bem, Bella. Tudo bem.
Tranquilizou-me e acariciou meus cabelos até que eu respirasse aliviada e pudesse então olhar em seus olhos e avaliar a situação de outro ângulo.
— O que faz aqui, Edward? Não quero ver ninguém. Preciso ficar sozinha.
Livrei-me de seus braços e impus uma distância segura entre nós.
Ele me observou atentamente por alguns segundos não acreditando que eu havia sido tão direta. Não depois dele ter me amparado em seus braços.
— O que se faz na casa da sua noiva quando ela some por dois dias, não atende telefone e nem te deixa explicar? Eu até entendo que mereço o castigo da sua ira, agora Antony...
A acusação doeu porque eu sabia que ele estava certo. Porém...
— Não estou castigando ninguém. Só preciso de um tempo para pensar e faço isso melhor quando estou sozinha.
— Fere nosso filho melhor quando está sozinha também?
— Ei! Pode parar aí.
Dei mais dois passos para trás e estendi o dedo, em riste, em sua direção. Eu já estava me sentindo “uma merda de uma mãe” sem sua ajuda.
— Você não tem o direito de me julgar. Está chegando agora em nossas vidas. Não tem noção de tudo que passei para chegar até aqui.
Uma pontada de dor e arrependimento passou por seus olhos e eu me odiei por ser uma cadela sem coração.
— Não é um julgamento, Vida, é só um fato. Sei que não tenho direito algum de exigir algo. Por isso, estou aqui para implorar. Antony está sofrendo. Ele não disse por mal. Só estava chateado por Jasper tê-lo trazido da fazenda quando queria ficar mais. Por favor...
— Eu preciso pensar. Vá para casa, Edward. Eu quero ficar sozinha.
Respirei alto e me virei de costa evitando que visse mais do que eu pretendia mostrar. Bella Swan não mais demonstrava fraqueza.
— Não vou! Não te deixarei mais, Bella. Entenda isso.
Sem pedir, se aproximou e me abraçou por trás. Não o rechacei, eu estava cansada.
— Perdão se fui um idiota não te contando do congresso. Não queria que se sentisse pressionada a ir. É meu ultimo e...
— Como?
Fiquei de frente para ele. Que só fez questão de me segurar mais forte.
— É isso que ouviu.
Colou a testa na minha, encarando meus olhos com intensidade. Marrons nos verdes.
— É o último evento que vou representando o hospital, eu pedi demissão, Bella. Não queria te obrigar a me acompanhar, não queria...
— Ser visto com a caipira.
Ignorei a parte mais importante da fala dele, porque na verdade a raiva e mágoa são bichinhos que carcomem qualquer coerência.
— Não, minha Linda. Não queria que presenciasse a vergonha de um homem ao admitir um erro.
— Não entendi.
— Só um minuto.
Foi até minha cama, pegou algo e me entregou: era um folder com a programação completa do evento.
— Aqui.
Apontou para a marcação das 20hs, horário da última palestra do evento.
— “Profissionais frustrados e sem talento, como evitá-los”?
Continuei sem entender e foi então que Edward se abriu totalmente para mim.
— Posso falar desse assunto sem pesquisar, Bella. Sou um deles.
— Está enganado. Você ama a medicina.
— Você está enganada, Vida. Eu amava o status que a profissão me daria. Tornar-me médico, de renome, era uma obsessão, um sonho que acabou se tornando um pesadelo. Seu eu tivesse ouvido meu coração e cursado algo que realmente desejava, não teríamos passado pelo inferno. E assumir isso publicamente para você é “esfregar na minha cara”, de novo, o quanto fui otário. Não ter te convidado, tem haver com vergonha sim, mas diferente do que pensa, é um sentimento puramente meu. Eu que temo que se arrependa a qualquer minuto, que olhe com intensidade e veja o homem fraco que fui por me deixar manipular. Se eu tivesse cursado outro curso, Rósalie e Tânia não teriam cismado comigo. Seríamos felizes desde aquela época e você e Antony não teriam desenvolvido tantos traumas.
— Ed...
Acariciei seus cabelos querendo espantar a angustia que emanava dele. No final das contas, nos dois sofremos mais do que um ser humano pode suportar.
— Pare de se culpar. Nós prometemos deixar o passado no passado. Se eu não te culpo, porque faz isso?
Puxou-me para seus braços, de novo, me segurando apertado. Como se qualquer espaço entre a gente o ferisse.
— Porque vi o quão destruída está sua autoestima. E também o quanto Rosálie ainda a afeta. Você fugiu de Antony e não me deixou explicar do que a maluca falava.
— Meus pontos fracos são minha culpa, vocês não têm nada a ver.
— Antony não pensa assim, nem eu.
— Desculpe-me. Não pensei, só fugi. Não sei o porquê de Rósalie ainda conseguir me atingir tanto. Sou fraca demais quando diz respeito a ela.
Virei à cabeça e a deitei em seu ombro querendo muito o conforto e carinho que ele prometia.
— Não se desculpe, nunca. Eu que preciso fazer isso a cada minuto. Quanto a Rosie, esqueça-a. Ela não passa de uma vadia mal- amada.
— Passado...
Sussurrei o lembrando do que disse há minutos.
— Não dá para esquecer assim. Estive na sua casa. Bem, no escritório, para ser mais exato. Leah fez questão de me acompanhar até lá. Vi que tem uma coisa que lembra a mim.
Droga! Droga! Não era para ele ter visto “a motivação”. Eu devia ter me livrado daquilo assim que resolvi cair em seus braços novamente.
— Aquilo foi um momento de desespero. Não era para ter visto. Por favor, Edward... Eu vou jogar fora assim que voltar a fazenda, esqueça aquilo. Foi uma idiotice de menina mimada.
— Sei...
Disse se afastando e começando a desabotoar a camisa. O que ele estava fazendo?
— Edward, o quê...
— Sabe, Linda. As coisas também foram difíceis para mim.
— Eu sei disso. Mas no momento só pensava na minha dor. Não estou entendendo aonde quer chegar tirando a roupa... Quer parar? Está me distraindo não consigo completar o pensamento.
— Shihhh, só preste atenção. Observe. Aprendi na prática que cada um usa as armas que tem. Você tinha uma sandália. No meu caso, só tinha um “frio” exame de gravidez e as lembranças, às vezes nem tão boas assim, para me fazer acreditar que tudo foi real e não coisa da minha cabeça.
Falou sério.
Ele estava pensando mesmo que me distrairia com sexo?
—Pois bem, eu também tenho algo para lhe mostrar. Algo que prova que você está marcada em mim, desde que me deixou. E que nada, mas nada mesmo, é mais importante que você e meu filho. Ou que eu me envergonho de quem são. Eu te amo, Bella. E se uma aliança, hoje, não prova para você que sou o maior sortudo do mundo por tê-la em minha vida, espero que isso prove.
Terminou de desabotoar a camisa e a desceu por seus braços. Depois respirou alto umas três vezes antes de se virar de costas, dando-me a visão de algo surpreendente.
— Ah, Deus!
Aproximei-me e foi impossível não delinear o contorno com as pontas dos dedos.
— Sábado fiz questão de tomar cuidado para que não visse, queria que fosse numa ocasião especial. Contudo, hoje quando estive na sua casa... Tomei a decisão. Eu precisava te mostrar.
Jesus! Era linda!
— Eu sou seu, Bella. Sempre fui. Uma pena que me dei conta disso tarde demais. Porém, não me deixei vencer, por isso, fiz isso. Precisava de você em mim, me marcando. Mostrando a todos que eu também era seu, mesmo que fossem só em minhas ilusões. Então, literalmente, está tatuada em mim, Vida.
Era isso, eu estava representada na pele dele. Uma tatuagem de uns 30 cm de altura por uns 20 cm de largura cobria boa parte de suas costas. Era um chapéu, o contorno de um chapéu bem feminino e delicado de cowboy mesmo.
— Era para ter preenchido de vermelho. Bem da cor do seu. Mas, quando vi assim, gostei do trabalho. Ficou a minha cara e a sua.
Não respondi, estava ocupada demais traçando cada detalhe.
— Eu, ainda não entendo, Edward. Não é possível que nossa fuga tenha significado tanto a ponto de transformá-lo totalmente. Porque era tudo que você queria, “cortar o mal pela raiz”. Era sua chance de se livrar por inteiro. Mas, aí você se isola, vira um celibatário e me tatua em sua pele. Eu... Não faz sentindo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, creio eu que pensando na resposta, ou talvez só se deliciando com meu toque mesmo.
— Tive muito tempo para pensar sobre isso e cheguei a duas conclusões: a primeira é de que perdê-la, para sempre, nunca foi meu objetivo. Porque sim, o idiota que habitava em mim, queria mudá-la, não perdê-la. Eu sempre soube que te amava.
Rá, jeito maluco de amar que ele tinha.
— A segunda é de que saber da existência de nosso filho fez com que a melhor parte daquele Edward, que estava escondida não sei aonde, ressurgiu. Eu sabia que queria ser o melhor para meu filho. Queria seguir o exemplo de Carlisle, não do genitor ordinário. E é por isso, que me despi, literalmente, para você, Vida.
Girou até se encontrar novamente cara a cara comigo, em meus braços.
— Não se feche! Não fuja! Não nos afaste! Antony e eu ficamos perdidos sem você.
— Emmett te aconselhou a implorar?
— Não. Ele mandou sacudí-la. Mas, gosto mais da tática de beijinhos e insistência.
Sorriu torto, enquanto encostava a testa na minha.
— Acho que funciona melhor mesmo.
Edward
E foi então que eu venci. Com coerência, conversa e muito, muito amor.
— Obrigada!
— A seu dispor.
Sussurrei a resposta a milímetros de seus lábios. Eu precisava aquecer nossas almas. Eu precisava ter certeza de que ela estava mesmo em meus braços.
E quando a boca quente tomou a minha, eu me rendi.
— Ah!
Não consegui controlar o suspiro. Era mesmo um fodido apaixonado e não me envergonho.
Quando a língua buscou a minha, exigente, faminta e toda deliciosa, eu quis mais é que ela me tomasse todo.
Foda-se o título de dominante! Eu era dela e pronto. Imploraria se precisasse. Contanto, que nunca mais me privasse de sua companhia.
— Deus! Linda, eu quero tanto você.
Acariciei seus braços e migrei a boca para seu pescoço, puxei uma de suas pernas para cima e a prendi em minha cintura. Porque a mão já passeava livremente pela perna desnuda graças ao vestido justo, de algum tecido fino que usava.
— Também estou com saudades, Edward.
Interpretou certamente meu rompante, quando a afastei só para contemplar como as botas longas se ajustavam nas pernas, as deixando assim mais longas e desejáveis.
Pai do Céu! Ela precisava mesmo ir para a universidade vestida daquele jeito?
— Então venha aqui. Quero você e quero agora.
Fiz menção de puxá-la. Porém...
— Também te quero, Edward. E só Deus sabe o quanto está me custando Pará-lo. Porém...
Colocou a mão em meu peito e me encarou, o que de novo me fez sentir a rendição. Eu faria qualquer coisa por ela.
— Preciso tomar um banho decente, que não seja no banheiro minúsculo da loja. Também quero ver Antony e dar um beijinho, para matar a saudade e por fim, preciso comer algo substancial. Há dois dias que vivo de barras de cereais.
— Ok, eu entendi.
E entendi mesmo, ignorando totalmente partes doloridas de meu corpo. Ela estava cansada, com saudades do nosso filho e com fome. Eu resolveria suas necessidades primeiro, depois... Se ainda estivéssemos acordados e bem- dispostos resolveríamos as nossas.
Porque é isso que amor nos faz. Pensar no seu cônjuge como prioridade.
— Pizza, macarrão instantâneo ou ovos mexidos.
Dei mais um selinho em uma boquiaberta noiva, enquanto já rumava para fora dali.
— O quê? Pare de me olhar assim. Você está com fome e eu irei alimentá-la. Se acostume com isso, Linda. Porque o novo Edward faz tudo pelos Amores de sua vida.
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