Quando o passado não te deixa viver
18 O que vem depois do pesadelo?
Notas iniciais
Renée
— “Não! Por favor! Tá escuro aqui e frio. Não me deixe. Dói... Tudo dói. Por favor”.
— Ah por Deus!
Assustada por ter acordado com o barulho, joguei o cobertor para cima de Charlie, vesti o roupão que estava nos pés da cama e calcei um chinelo. Tudo isso na escuridão de um quarto de fazenda.
Ainda bem, que eu era muito boa em tatear. Vantagens de cirurgiã cardíaca.
— O que foi, mulher? Aonde vai? Está cedo ainda.
— “Não”!
— Bella?!
O grito de desespero veio mais alto e claro dessa vez e foi a resposta para a pergunta de Charlie, que logo também vestiu a calça, do pijama, e correu comigo para fora do quarto.
— Tarde demais.
Reclamou, ao nos depararmos com Jasper e Emmett no corredor que ligava os quartos.
— Ele também acordou. O que está acontecendo? Por que está ali?
A cena era de cortar o coração: Os gritos, de mais um pesadelo de Bella, vinham de dentro do quarto dela. Enquanto, que do lado de fora, um Antony muito assustado e chorando estava sentado, no chão, com os joelhos dobrados e a cabeça baixa, escondida entre eles.
— Querido...
Chamei baixinho quase que também não segurando a vontade de chorar.
— Vovó...
Correu em minha direção quando ouviu minha voz.
Abri os braços para recebê-lo.
— Eu, eu já bati, vovó. Ela não “acolda”. Faz “palar”, vovó. Faz “palar”...
Tapou os ouvidos com as duas mãozinhas e escondeu a cabeça em meu pescoço.
O apertei junto ao peito tentando acalmar seu tremor e sossegar o coraçãozinho disparado. Lágrimas escorriam em abundância pelo rostinho angelical.
— Calma, Tony. É só um sonho ruim. O vovô vai cuidar disso agora.
Mais do que depressa, Charlie atravessou o pequeno espaço e tentou entrar. Acabar com o pesadelo de Bella era o objetivo.
— Está trancada? Por que “raios” Bella fez isso? Ela sabe que não pode, não deve.
Emm e Jas trocaram um olhar, de quem sabiam de algo, mas ficaram quietos. Foi Antony quem esclareceu a situação deixando meu marido mais possesso ainda.
— Tio “Memmett bligou” com a mamãe. Ela tava “tliste”. Não “quelia” que ele “entlasse”.
As palavras saiam entre soluços e mais lágrimas. Era de cortar o coração.
— “Não! Não me deixe. Por favor, por favor”.
Os olhos de Charlie faiscaram em direção a nosso mais velho.
— É assim que me ajuda? Brigando com ela? Fazendo com que se tranque? Se isole? Esqueceu de como pode ser perigoso isso? Já se esqueceu de tudo o que aconteceu?
Contudo, nem a presença de Antony nem de Leah, que acabara de se juntar a nós, fizeram com que Emmett recuasse.
— O senhor não entende, ninguém entende. Ele já está rondando de novo. Começando a jogar. Vai magoá-la de novo. Magoá-los em dose dupla agora. Como o senhor disse, já vimos isso. “Vai passar por cima deles como um trator”.
— Ah, Emmett, você não aprendeu nada. Quando e se isso acontecer, estaremos aqui para recolhê-los do chão, seu desalmado. É isso que uma família faz, ergue.
A resposta de Charlie veio na mesma acidez que à fala do filho.
— Eu não aceito isso!
— “Não”!
— E aceita isso?
Apontou para Antony, em meu colo chorando, e para a porta fechada que escondia Bella e seus muitos problemas psicológicos.
— Quer saber? Saia daqui! Só... Saia! Eu vou buscar a chave reserva e consertar a burrada que você fez. Não quero vê-lo aqui quando voltar. Suma da minha frente. Você já fez demais por hoje.
Emmett não teve escolha. E tudo só piorou quando Leah voltou para o quarto deles com uma expressão de desapontamento. Sua única opção foi segui-la de cabeça baixa e remoendo o que fizera.
— “Não vá, não me deixe. Eu preciso de você”.
— Ei garotão, porque não vem com o titio pra gente dormir lá no meu quarto, na minha cama grandona? Posso ligar o rádio e vamos ouvir umas músicas bem legais até o sono chegar. Que tal?
Bella continuava em seu inferno particular, enquanto Jasper tentava inutilmente tirar Antony de perto dele.
— Não! Vovó, não me solta. Não “quelo” ir. “Pleciso numir” com a mamãe. O Antony “alfasta” o sonho mau. A mamãe já disse.
Desesperado, ele se apertou mais em mim e o choro intensificou.
Todo trabalho da fonoaudióloga “indo por água abaixo” quando o nervoso e a pressa atrapalharam a dicção e a concentração.
— Tudo bem, meu amor. Só se acalme.
Acariciei suas costas e troquei um olhar com Jasper.
— Tio Jas vai dormir agora. E você e eu ajudaremos a mamãe sim. Mas, para que isso dê certo, precisa se acalmar e parar de chorar. Se entrarmos no quarto com você assim, ela ficará mais assustada. Respire fundo. Relaxe, para a vovó.
— Tá, tá bom.
Soluçou mais um pouquinho antes de, enfim, deitar a cabeça em meu ombro e ficar quietinho.
— Tem certeza? Posso ficar com eles. Sei que tem reuniões até mais tarde, essa semana, no hospital.
— Tenho sim, não se preocupe. Vá descansar. Seu pai não abrirá mãos deles. E preciso que esteja inteiro para ampará-los durante o dia se precisarem. As coisas com Emmett serão complicadas. O gênio dos dois...
— Tudo bem. Eu vou, mas se precisar...
— Eu sei, querido. Boa noite e durma bem.
— Amo vocês.
Beijou minha testa e os cabelos de Antony, se despedindo. Ainda apertou o ombro do pai que já chegava com as cópias das chaves.
Notei um brilho diferente nos olhos de Jasper e guardei essa informação em meu íntimo. Precisava saber mais sobre isso.
Jasper era um amor. Tão parecido comigo assim como Bella. Herdaram o melhor de mim. Sentiam, sofriam, choravam, contudo, não perdiam a compostura. Erguiam-se e aprendiam com os erros e então, voltavam poderosos, sem um fio fora do lugar.
Já Emmett, ah meu Emmett... Tão cópia do pai. Bravo, vingativo. Ama com tudo que tem, na mesma proporção que guarda rancor e dificilmente perdoa.
Meu três amores, as três partes de mim. Tão diferentes... Tão iguais.
— Venha. Vamos acabar com isso.
Quando passamos pela porta, meu coração de mãe teve mais um teste naquele dia e olha que sou cardiologista.
Bella estava encolhida na cama, em posição fetal. No rosto uma expressão de dor e, apesar do frio da madruga úmida de Forks, o corpo, descoberto, brilhava devido a uma fina camada de suor que o banhava.
— Ei, querida? Acorde! Já passou. Foi só um sonho ruim. Está segura agora. O papai está aqui. Acorde, meu amor.
— Pai? Ahh, pai!
Por Deus! Eu já tinha visto tanto aquela cena. Desde o fatídico acidente, desde que recobrou a consciência as noites de Bella nunca mais foram as mesmas. Ela saíra do inferno, quando acordou depois das cirurgias e do coma induzido, mas o inferno jamais saíra de dentro dela.
E mesmo com tantos tratamentos caros, medicações, terapeutas, psicólogos, o pequeno abajur que permanecia aceso a noite toda, nada, mas nada mesmo conseguiu afastar os pesadelos.
É bem verdade que diminuíram, mas acabar mesmo? Nada funcionou.
— Tá tudo bem, já passou. Só relaxe. Relaxe...
Charlie fechou os braços em volta dela. E foi impossível não chorar.
— Mamãe... Não “chola”. Já passou. O Tony tá aqui.
— Oh meu Deus. Perdão, pequenino. A mamãe não queria te assustar. Venha aqui.
Passando as mãos pelo rosto, ela se soltou do pai, secou as lágrimas e se preparou para ajudar Antony a subir na cama.
O coloquei no chão já sabendo que ninguém o impediria de deitar com ela.
— Já passou. Desculpa, desculpa a mamãe. Vamos dormir agora.
Chegando um pouquinho para o lado e o virando, eles se deitaram em conchinha aconchegadinhos.
Charlie se levantou e sentou na poltrona, perto da janela. Ali ele permaneceria o restante da noite. Eu sabia...
E como não seria capaz de abandoná-los, passei para o outro lado da cama e me deitei às costas dela a abraçando a acariciando seu cabelo.
— Desculpa, mãe. Perdão, pai. Eu não queria... Não pensei direito. Podem ir se deitar. Isso não vai mais acontecer essa noite.
Não ia mesmo porque ela não voltaria a dormir. Era sempre assim.
— Estamos bem aqui. Por que não fecha os olhos e descansa? Cuidamos de vocês agora.
Ela não respondeu, só puxou o filho para mais perto.
— Vovó?
— Oi, meu amor.
— Amanhã, nós podemos “tlazer” a minha caminha “pala” cá de novo? Eu não “quelo” que a mamãe “chole”. Eu posso “cuidá” do soninho dela.
Ele voltou a chorar e Charlie fungou de seu lugar.
— Amanhã a gente conversa, querido. Agora feche os olhos e durma. A vovó e o vovô vão cuidar de vocês. Pode dormir.
— Eu te amo, filhote. Perdoe a mamãe por hoje. Não vai mais voltar a acontecer. Você não precisa se preocupar, nem deixar seu quarto lindo. Os sonhos ruins não virão mais. Eu prometo.
Eu sabia o que ela tinha em mente. Se dopar de remédio para, literalmente, apagar quando se deitar ou se manter o máximo de tempo acordada. Às vezes colocava o celular para despertar de meia em meia hora, para evitar cair em sono profundo. Usava sempre uma dessas táticas quando achava que estava dando trabalho demais.
Não era a solução. E todos nós sabíamos qual era.
Fiquei mais alguns minutos em silêncio e quando percebi que a respiração de Antony se acalmou e ele enfim dormiu disse a ela algo que jurara a mim mesma que nunca diria.
— Você precisa esquecer o passado, Bells. Deixe-o onde está. Comece de novo. Tudo é diferente agora.
Ela não respondeu e duvido que faça. Porém, eu plantei a semente, dei-lhe algo em que pensar...
Edward
— Ah, vamos Marcus, deixe de moleza. Esta ficando velho?
— Que me perdoe à dona Marie, que não tem culpa nenhuma dos netos que tem, mas, velho é a senhora sua avó, “seu bombado”. Tenha mais respeito, sou um padre.
“A senhora sua avó e o bombado” era o máximo de palavrão que eu conseguiria dele. Não tinha jeito.
— Ah que coisa feia, tá falando de uma senhorinha idosa, que senta no primeiro banco de suas missas de domingo às sete da manhã. A comunidade vai saber disso. Minha vó é muito respeitada nessa cidade. Além do mais, se resolva, Marcus. Se te trato formalmente você briga, se te lembro que somos amigos há muito tempo e que tenho direito a certas liberdades, você me rechaça. Fico confuso desse jeito.
Dou um soco em seu ombro e o empurro, brincando, e atrapalhando seu desengonçado alongamento.
— Isso é um sorriso? Edward Cullen rindo do nada para o nada? Obrigado, Pai! Por ouvir minhas preces e as “milhares” de promessas e novenas de Esme.
Dei de ombros e gargalhei perante o ato exagerado dele de levantar as mãos para o céu em oração e agradecimento.
— E olha, a coisa só melhora, ele sabe gargalhar. “Ah! É para glorificar mesmo”!
— O quê? Quer parar? Estou feliz, esperançoso. É pecado um homem sentir isso? Porque se for pode me condenar.
Ainda brincando e sorrindo, dei mais alguns passos até parar na porta do consultório. Era cedo, estávamos fechados, e eu só tinha pacientes depois das 10hs.
— Eu? Condenar-te? Ainda mais hoje que dormiu na cidade e nem agiu como um psicopata perseguindo a ex por todo lado? Não, meu amigo. Nem pensar! Você anda se comportando bem. Quase merece uma estrelinha.
Terminei o alongamento e me sentei no degrau de entrada da clínica. Marcus fez o mesmo, e aproveitando a oportunidade e sem que ele percebesse, puxei seu pulso para mais perto e conferi.
É, eu estava mesmo agindo como médico dele, porém, não me julguem. Há um ano meu amigo me procurou para fazermos um check up. Até então tudo bem, coisa de rotina...
Pedi uns exames e quando saíram os resultados, qual foi minha surpresa ao constatar que tudo estava alterado nele: triglicérides, colesterol e glicemia. Vasculhei mais, pedi exames mais detalhados, dentre eles uma ultrassonografia.
Descobri uma Esteatose hepática e uma leve arritmia cardíaca, nada que não pudesse ser controlado, mas mesmo assim precisavam de cuidados.
O que foi um inferno na terra, porque o homem se negava a fazer dieta, já que é bem magro e se considera saudável. E também, porque não acha espaço em sua agenda corrida para exercícios físicos.
Briguei, fui rígido e fiquei irritado, por fim, decidido a tomar uma atitude, visitei a casa paroquial e tive uma conversa franca com a funcionária dele. Ele podia até ser magro, mas tinha excesso de gordura no fígado e devia fazer dieta.
Quanto aos exercícios, a solução foi me juntar a ele, para influenciá-lo e também porque eu estava sedentário mesmo. Então, peguei os dias em que “O Atarefado” não tinha missa de manhã, que no caso é segunda, terça, quinta e sexta, passo em sua casa e caminhamos três quilômetros e corremos mais dois.
Na maioria das vezes ele reclama que só vendo, mas tem sido um bom paciente.
E para mim, isso era mais do que uma relação assim. Marcus foi uma tábua de salvação nesses anos todos de sofrimento. Seja em confissão, seja com conselhos e conversas mesmo. Ele esteve ao meu lado e sabe demais, de tudo que se passava. Eu devia isso a ele.
— Estou feliz, meu amigo. A vida é linda. Porque não estaria?
Soltei seu braço, ao constatar que estava tudo bem, e apertei sem ombro.
— Está mais do que apaixonado, não é Cullen?
Levantei os olhos para a loja a minha frente. A sacada... Bella de roupão... Nosso filho...
Certeza que sorri de novo.
— Claro que estou! Sempre estive. Mas, agora é diferente. Antony é... É inexplicável! Ele é tão inteligente, tão bonito, tão esperto, tão puro. Parecidíssimo com Bella. Quero ser o pai e não o tio, Marcus.
— Já disse isso à mãe dele?
Neguei passando as mãos nos cabelos.
A loja deles já estava aberta, eles logo chegariam.
— Não nos falamos diretamente ainda. Não quero pressioná-la. Já fiz burrada demais. Não vou me deixar vencer pelo impulso. Já dou graças a Deus por deixar Antony conviver comigo. Posso esperar o tempo dela.
— Hum! Belas palavras. Mas totalmente foras de contexto. Ele é seu filho. O conquiste e então... Converse com Isabella. Ela não pode ter mudado tanto assim. Vai ser racional. Ou essa “convivência” com Antony é o suficiente?
Tranquilo, estiquei os braços para trás e deixei que a brisa fria da manhã tocasse meu rosto.
— Por enquanto é. Eu quero meu filho, Marcus. E para isso preciso que a mãe dele confie e acredite que posso ser um pai.
— Quer que eu fale com ela? Seria mais fácil. Te conheço, sei quem és. E temos a vantagem que ela confia em mim. Além do mais, é seu direito. Pode exigi-lo, nem que tenha que fazer um DNA para isso.
Voltei a sentar ereto e o olhei de esguelha.
Ah, Marcus... Como se eu não te conhecesse.
— Pode parar de me testar, seu padre! Não vou cair nessa. Esse Edward aí não existe mais. Não vou bater de frente com Isabella, muito menos conseguir nada dela com exigências e direitos. Vou aceitar o que me der até convencê-la de que posso ser o que nosso filho merece. E, só para constar, DNA é para quando se tem dúvidas da paternidade. No meu caso a única certeza que tenho na vida é que aquele sapeca é meu.
— Tá. Não está mais aqui quem falou. Mas, e depois?
— “O depois a Deus pertence”, não é assim que você diz.
— Sabe que isso parece um plano, não é? Tudo minuciosamente pensado e calculado.
— E é um plano. Não vou ser hipócrita e dizer que não a quero. Claro que quero! Só penso nisso. Mas, Antony é muito mais do que o amor da minha vida. Ele é meu próprio amor. Eu o fiz num dos poucos dias que fiz algo certo naquela época, apesar de me arrepender completamente pelo modo que aconteceu. Hoje percebo como Bella merecia mais. Mas, ele está aqui e é dono desses meus sorrisos, como você frisou. E vou lutar por ele e pela mãe dele também, se tiver a oportunidade.
Marcus era previsível demais. Sua expressão delatava o quanto ficou satisfeito com minha resposta.
Eu havia passado no teste, seja ele qual fosse.
— Sabe, meu amigo Cullen, posso te dizer uma coisa: Você terá os dois. Acredite em mim e tenha paciência. Um futuro muito bonito os aguarda.
Segurou meu ombro passando credibilidade. E nem precisava porque eu acreditava 100% nele.
— Tá bom, tá bom. Agora que tal entrarmos e tomarmos um café fresquinho, e sem açúcar, que prepararei para nós? Você merece depois dessa seção de desabafo.
— E você aprendeu a ligar a cafeteira, Cullen? Isso pode ser considerado um milagre, sabe disso, não é? Posso mexer meus pauzinhos. Esme testemunharia de boa.
Dei um empurrão no ombro dele e fiz cara de contrariado.
— Não, seu idiota! Não sei apertar os botões da cafeteira ainda. Mas, sei acender o fogão e colocar água na chaleira e pó no coador. Moro sozinho, esqueceu?
— Naquela casa belíssima no encontro da Paraíso com a Sonho Azul? Não, não esqueci. Ah, e eu vou mesmo querer esse café. Pode ir entrando. Vou só ver se consigo arrebatar umas ovelhas perdidas, ou melhor, fugidas, para meu rebanho. Ainda não os vi em nenhuma celebração. Quero mudar isso e darei o primeiro passo agora.
Ele nem precisou explicar, lá no fim da rua, a camionete de Jasper apareceu. Deslizou com cuidado e a paciência que só meu ex-cunhado tinha, até parar e estacionar do lado de fora da garagem deles.
Preparei-me para ver o carro de Bella logo atrás, contudo, isso não aconteceu. O que era uma surpresa porque se tem algo que já aprendi com esses novos Swan’s é que cada um dirigia seu próprio veículo, devido a seus horários malucos e desregulares.
Mas, não naquele dia. O que me deixou em dúvida e preocupado. Muito preocupado.
Ainda mais quando Jasper desceu e abriu a porta traseira para que uma Bella abatida, com um Antony grudado em seu pescoço, desceu.
— Ele está doente!
Sussurrei já pensando em mil possibilidades para o que poderia ter acontecido e como poderia ser resolvido.
Eu precisava ligar para Esme...
Bella
— Não! Não “quelo”! Não me desce, mamãe. Não, “quelo” o titio Jas. Não.
— Tá bom, tá bom. Não precisa chorar. Estou aqui.
Firmei mais o corpo dele e dei a mão a Jasper para que conseguisse dar um pulinho e descer da alta camionete. Com Antony grudadinho em mim, era mais complicado do que se imagina.
— Vem comigo, só um pouquinho? Vamos lá na padaria comprar algo bem gostoso para você e a mamãe tomarem café?
— Não “quelo”. Só a mamãe.
Fiz que não para Jasper, quando ameaçou pegá-lo. Era culpa minha que Antony estivesse tão vulnerável. Era missão minha trazer a confiança dele de volta.
— Estou aqui. Vamos lá para cima. Mamãe vai preparar um leite bem gostoso e até colocar na sua mamadeira se quiser. Só hoje pode.
Ele continuou com a cabeça escondida em meu pescoço e nem respondeu a minha oferta.
Nem a proposta da querida mamadeira, que havíamos, com muita dificuldade, trocado por um lindo copo do rei leão, o entusiasmou.
Droga! A culpa era minha. Eu havia tido um maldito pesadelo e assustado meu pequeno. A estúpida ideia de fechar a porta para manter Emmett de fora, não dera certo.
Achei que estava curada. Há dias não sonhava com nada.
Amarga ilusão!
— Vou subir. Se precisar de mim, mande chamar. Vou ver se consigo fazê-lo dormir. Não passe aperto. É bem provável que Emmett não apareça hoje. Mande me chamar.
— Tá. Não se preocupe. Aproveite e descanse também. Você merece e precisa. Tem um dia cheio pela frente.
Com a mão em minhas costas guiou-nos até a entrada da garagem.
— Isabella?
Ah não! Agora não.
Continuei andando, ignorando o barulho dos passos rápidos que eu sabia, vinham até mim.
— Por favor, por favor...
Repeti baixo, como um mantra. Eu não queria vê-lo. Não precisava olhar naqueles olhos verdes e relembrar que me assombraram com desprezo e abandono a noite toda.
— Espere. Bella!
— O que quer?
Virei de uma vez, e respondi secamente. Todos os muros em volta de mim dobrando de tamanho em proteção.
— Se afaste, Cullen. Não é um bom momento.
— Tá. Eu entendo. Não quero nada. Só...
Levantou as mãos em sinal de paz e cuidado e então, como não o rechaçamos, deu mais alguns passos em nossa direção, até estar bem perto de mim.
Imediatamente baixou a guarda e esfregou as costinhas de meu filho.
— Tudo bem, Jasper.
Só agora dei conta da presença de Marcus, quando segurou o braço de Jasper o impedindo de chegar mais perto de nós e segurar Edward.
— Ei, amigão. O que está acontecendo? Está dodói? O que te incomoda?
Antony não se mexeu, mas deu um soluço baixinho e eu sabia que recomeçaria a chorar.
Meus olhos também se inundaram.
— Está febril? A garganta tá ruim? Conta para mim. Somos amigos, não é?
Antony sinalizou que sim, com a cabecinha. Contudo, não se virou para ele.
— O que ele tem, Bella? Por que está assim? Já foi medicado?
Respirei fundo espantando a imensa vontade de deixar que as lágrimas caíssem. A nova Isabella não chorava... A não ser... A não ser quando o assunto era meu filho.
— Não se preocupe. Está tudo bem com a saúde dele. Só tivemos uma noite mal dormida e aí ninguém serve a não ser mamãe. Está tudo bem.
Ele não se deu por vencido e sem que eu esperasse, puxou Antony um pouquinho, tirando-o de seu esconderijo e expondo seu rostinho.
— Ei, campeão. Tá tudo bem. Todo mundo tem o direito de se sentir assim. Não precisa se esconder. E nessas horas não há nada melhor do que colo de mamãe, não é? Eu sei porque preciso do da minha até hoje.
Antony derramou mais lágrimas, mas não se escondeu. Edward aproveitou a oportunidade e apalpou a testinha dele, conferindo a temperatura.
— Nada de febre mesmo, graças a Deus.
— Eu disse. Já liguei para a psicóloga. Temos uma consulta daqui a pouco. Só preciso que ele se alimente antes.
— Psicóloga? Não foi só uma noite mal dormida?
Acariciou os cabelos deles, mas dessa vez os olhos estavam em mim. Eu sabia que falara demais. Ele tem o dom de fazer isso comigo.
— Noites mal dormidas precisam de uma psicóloga. Não se preocupe, tenho tudo sob controle.
— Sei...
Instintivamente, estendeu a mão rumo a meu rosto, era evidente que tocaria minhas olheiras.
— Não! Não ouse!
Dei dois passos para trás, e logo me arrependi. Antony voltou a ficar apreensivo e se segurou mais firme em mim.
Mas, ele iria me tocar? Como podia ficar quieta?
— Desculpa! Foi involuntário. Não vou encostar em você, eu juro. Só quero cuidar de Antony.
Fechei a expressão, mas não o desestimulei. Tinha plena consciência de que pai e filho mereciam isso.
— Pequeno, porque não vem comigo? Tem umas coisas bem gostosas e saudáveis ali no loft. Posso prepara o que gosta e se não tiver nada, podemos ir até a esquina e comprar.
— Não. Não “quelo”! Mamãe...
— Ah, mas a mamãe vai estar bem aqui de frente. Posso te trazer assim que acabar. Além disso, acho que ela precisa fechar os olhos por cinco minutos também. Vem comigo?
— Não! A mamãe não pode “numir” sozinha. O Tony tem que “ablaçar” ela. Mamãe...
Choramingou mais.
— Ei, tá tudo bem. Fique calmo. A mamãe não vai dormir. Tenho muito trabalho. Não precisa se preocupar.
— Não adianta. Desista, Cullen! Todos lá em casa tentaram. Hoje é só Bella que serve. Será um dia grande para essa coluna aí.
Jasper, calmo o que me espantou, apontou para minhas costas.
— Ouviu isso, Antony? As costas da mamãe estão doendo. Que tal darmos só um tempinho para ela descansar? Vamos lá em casa. Você come. Depois te trago de volta e fica tudo bem.
Como quem não quer nada, Marcus segurou Jasper pelo braço e o levou rumo à loja, nos deixando sozinhos, os três.
— Vamos? Somos amigos, não é?
Antony não respondeu, só esticou o corpinho e colocou as duas mãozinhas em meu rosto.
— Mamãe tá cansada?
— Não, amor. Mamãe nunca vai cansar de você. Pode ficar grudadinho aqui para sempre. Está tudo bem.
— Mas, a “conuna” vai doer. A vovó “tabém” disse. Tony não que ir na “psigolaga”. Ela é chata! Se Tony for no titio Edward e tomar leite na “dedeira” a gente não vai na “psigolaga”? A “conuna” de mamãe vai descansar e a mamãe “tabém”.
Eu quis negar. A psicóloga era essencial para mim e para ele naquele momento, porém, eu queria demais que ele comece. Então negociei ignorando todos os instintos de proteção que a Bella, ex namorada largada tinha. Aquele ali, era Edward, o pai. E isso deveria bastar de alguma coisa.
— Se você comer, mamãe vai remarcar a psicóloga para mais tarde. Isso é tudo que posso prometer.
— Tá bom, eu vou. Mas, não pode “numir”. “Polmete” para o Tony?
Edward nos olhou com curiosidade. É certo que aquela conversa de não dormir o deixara preocupado.
Porém, se manteve quieto. Só esperando a decisão do filho.
— Eu prometo, amor. Pode ir tranquilo.
Beijou-me devagarzinho e demoradamente, como se quisesse provar de que nada mudaria entre nós, mesmo indo com Edward. Como se soubesse quem é, de verdade, a pessoa a nossa frente.
— Vamos, tio “Edwald”.
Estendeu os braços para o pai e, de uma vez, puxou a mochila dele, de meu ombro, onde estava tudo que precisava para uma mamadeira.
— Isso! Vamos comer. Descanse. Sei o que fazer.
O segurou com firmeza.
— Tudo que ele precisa está na mochila. Estarei no sofá que fica perto da sacada. Se precisar é só chamar. Não apronte, Cullen. Não terá outra chance. Ele não sabe se defender. Não estrague as coisas.
— Não vou. Confie em mim...
— Não mais.
Ele acenou em concordância antes de virar as costas e caminhar devagar até a porta da frente da clínica.
Antony me deu tchau até desaparecer porta adentro.
Meu coração estava apertado, era um passo grande e eu não tinha certeza se era certo.
Mas, depois de uma noite que eu assustara meu filho, tinha certeza de que ele merecia mais.
E, pelo que parece, havia escolhido Edward como esse mais.
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