Quando o passado não te deixa viver
19 Será que ele merece?
Notas iniciais
Edward
Eu estava tremendo, isso era fato! O peso dele, que nem poderia ser considerado um peso, se abatia em mim como uma carga pesada e muito preciosa.
Eu, finalmente, tinha o meu filho em meus braços, de uma maneira íntima.
Eu quis gritar para o mundo, quis ligar para Esme e Alice. Mas, ao mesmo tempo, quis manter segredo e tê-lo só para mim naquele momento.
— Tá fechado. Aquela moça “aninda” não chegou.
Fiz malabarismo segurando-o num braço para poder pegar a chave no bolso, sem deixar a mochila dele cair.
— Ela vem daqui a pouco. Só começo a atender mais tarde.
— A nossa loja “abe” cedo. O que você vende, “tio Edwald”? Aqui é bonito.
Vendi minha alma anos atrás, pensei... Aquele lugar era a realização do sonho, que virou pesadelo, e me afastou dele e da mãe.
— Não vendo nada, Pequeno. Sou médico. Eu cuido das pessoas.
Respondi sem ânimo, jogando as chaves em cima do balcão da recepção e me dirigindo a minha sala.
— Humm, quase “ingual” a mamãe. Ela é médica de “aminais”.
Essa era mais uma das coisas que eu queria saber sobre Bella, ela amava só agronomia. Então, como chegou à decisão de que queria medicina veterinária? E como conseguiu conciliar os dois cursos e mais uma gravidez e depois um bebê?
— Isso mesmo.
Passamos pela minha sala e logo subi as escadas me dirigindo ao loft. Ele olhava a tudo com atenção e muita curiosidade.
— A escada é bonita. Você mora aqui no seu “tabalho”? Nós “molamos” lá na Sonho Azul.
A escada era linda. De mogno puro e sempre estava lustrada e impecável, graças a uma colaboradora que vinha todos os dias à tarde.
— Eu durmo aqui quando tenho que ficar até mais tarde na cidade, ou dar plantão no hospital. Mas, não moro aqui. Sabe uma casa que fica depois da Paraíso, a fazenda do meu pai e da minha mãe?
— É uma bonitona, bem “glande” e de dois “nandares”?
— Essa mesmo. Aquela casa é minha. Aliás, aquela parte da fazenda é minha. Comprei as terras há algum tempo.
Respondi orgulhoso de ele ter achado minha casa bonita. Ahhh, se ele soubesse...
Voltei a segurá-lo com firmeza para abrir a segunda porta, a que ligava mesmo o loft a clínica.
— Uau! Não tem “paledes”.
É, não tinha. Somente no fundo, as que levavam ao banheiro. Era um grande espaço bem decorado, por Esme e Alice. A única maneira de diferenciar os ambientes era pelos móveis.
— É um lugar só para descanso rápido. Por isso é assim.
O coloquei no chão e guardei a segunda chave em cima do aparador. Ao lado da porta.
Queria deixar as coisas bem explicadas, ele era pequeno, mas parecia um falador nato. Certeza que contaria os detalhes a mãe e eu não queria que ela achasse que eu era um irresponsável e desorganizado por causa do estilo daqui.
— Eu não “tlouxe” o meu chapéu.
Apontou para o que me dera, que agora descansava perto das chaves.
Ficou perfeito ali, bem na entrada de casa. Mostrando ao mundo o tamanho de sua importância.
— Você pode usar o meu, por enquanto. Tenho outro.
Peguei a peça e coloquei em sua cabeça, ficou grande e só se via os imensos olhos curiosos.
— Tem? Onde?
Olhou para todos os lados, procurando.
— Sabe guardar segredo? Mas, é segredo mesmo. Não pode contar pra ninguém. Principalmente para a mamãe. Promete?
Ele pensou um pouquinho.
— “Plometo”!
Estendeu o dedo mindinho e o entortou como se fosse um anzol. Suspirei aliviado, eu conhecia aquela maneira de selar uma promessa.
— Tudo bem, então vamos lá.
Balançamos as mãos. Ele se mantinha centrado no gesto, firmando um compromisso de verdade.
— Então...
Dei dois passos para longe dele, me virei de costas e então lentamente o mostrei um dos meus maiores segredos.
— Uau, tio “Edwald”! É “nindo”. E “vemelho”. Igual o da mamãe.
Igualzinho. Nos mínimos detalhes. Até a marca. E tinha um significado que um dia eu pretendia que ela ouvisse de mim.
—É sim. Por isso, posso te emprestar o que você me deu. Tenho outro.
Ele acenou em concordância e havia um brilho em seus olhos perfeitos.
Voltei-me para ele e o peguei de novo, me dirigindo a cozinha.
O sentei na cadeira, enquanto vasculhava sua bolsa. Havia um copo e uma madeira lá. Juntamente com um pote de achocolatado.
Coloquei-os em cima do balcão.
— Sua mãe esqueceu a lata de leite. Não está aqui.
— O leite não fica na lata, tio. Fica na “geladeila”.
Claro! Óbvio! Bella não o alimentaria com leite em pó. Era evidente que leite de vaca era a opção. Ela amava leite, certeza que o incluiria no hábito alimentar do filho.
Graças a Deus que eu também havia aprendido a gostar.
— Ah, é mesmo. Esqueci!
Disfarcei e peguei a caixa que havia aberto na noite passada.
— Seu leite é “estlanho”. Na minha casa eles ficam numa “galafa” bonita que a vovó “complou”. Não numa caixa.
Lógico que ficava, porque provavelmente vinha in natura para ser fervido. Nada de industrializado. Eu só esperava que ele não notasse a diferença.
— Esse também é bom.
Peguei a caixa e fiquei olhando sem saber o próximo passo. Então, despejei um pouco no copo, meio atrapalhado e sem saber a medida certa.
— Eu não gosto “flio”. Tem que por no fogo. E...
Fez biquinho e olhou-me de uma maneira chorosa.
— Eu “quelia” na “dedeira”. Tem “celteza” que sabe como “arrumá”? Eu posso chamar a mamãe e...
— Não!
Respondi alto e o peguei quando já pulava da cadeira no chão.
— Você me ajuda. Vamos deixar a mamãe descansar.
— Tá bom.
Mais uma vez o peguei e o sentei na cadeira. Eu precisava vencer a mamadeira. Como poderia ser seu pai se nem sabia como alimentá-lo?
— Essa “cadeila” é baixa, tio “Edwald”.
Peguei uma vasilha, de alumínio, na parte de cima do armário. Despejei um tanto que achei que daria para encher aquela barriguinha e então, como ele me instruiu, coloquei no fogo para aquecer.
E só depois disso me virei de volta para ver só a cabeça dele por cima da mesa.
É aquilo não estava funcionando.
— Acho que você que é pequeno, Antony. Ainda senta num cadeirão na sua casa?
— “Clalo” que não! Aquilo é para bebê.
Revirou os olhos de indignação e precisei muito segurar a risada. Era tão Bella aquele ato.
Percebi também que quando nervoso, ou chorando, ou a beira das lagrimas ele trocava mais as letras. O que significava que podia não ser só problemas de fala ou dicção, podia ser só psicológico.
— Meu vovô mandou levantar o... O... Ah, esse lugar aqui onde a gente coloca o bumbum.
Virou um pouquinho de lado e colocou a mão no assento da cadeira.
— “Polque” você sabe, né tio “Edwald”, isso aqui “maciinho”, onde as mamães e vovós gostam de “mordê”, chama bumbum e não bunda. Quem diz bunda são “ogoros” igual o “Sherek”, tio Memmett e tio Jas. Rapazinhos bem educados, igual o Antony, não falam isso.
— É? Eu não sabia.
Peguei duas almofadas do sofá, o levantei com uma só mão, e coloquei debaixo do seu... Bumbum. Fiquei pensando se fora Bella ou Renée que lhe dissera aquilo.
Bom, com meu ajuste, agora sim eu o via melhor e ele alcançava a mesa.
— É sim. A vovó “Mesme” não te ensinou? “Pleciso” pedir a mamãe Bella que explique as coisas para ela.
— Precisa mesmo.
Sorri para ele, achando a ideia de Bella ensinando minha mãe, a coisa mais divertida do mundo.
— Copo ou mamadeira?
Levantei os dois para ele, quando já tinha aberto a lata de achocolatado.
— Humm, eu “tloquei a dedeira” pelo copinho bonito do Simba com o papai dele, mas hoje eu... Eu “quelia”...
A mamadeira! Ele estava vulnerável e abatido, queria conforto, proteção e normalidade. Ele queria ser cuidado como quando ainda mamava no recipiente de bebê.
— Sabe, às vezes a gente pode ter medo, ficar triste, chorar, querer colo. Isso não é errado. Faço isso de vez em quando e olha que já cresci.
Desliguei o fogo e testei a temperatura do leite nas costas da mão constatando que estava morninho. No ponto de tomar.
Despejei na mamadeira, coloquei duas colheres, pequenas de chocolate, ele pediu mais uma e eu cedi.
Fechei tudo, entortei o bico de silicone para baixo, segurando firmemente com o polegar, e balancei a mistura arrancando mais um sorrisinho dele.
— Você é “englaçado”, titio. Não é assim que a mamãe faz.
E lá estava... A tristeza ao lembrar-se da mãe.
— Imagino! Sou mesmo atrapalhado nessa coisa de ser... Tio. Mas, vou aprender. Tenha paciência. Agora, a mamãe não. Ela é forte, delicada, corajosa. Sabe de todas as coisas. Você não precisa se preocupar tanto. Ela se cuida direitinho.
Segurei a mamadeira com uma mão e o peguei com a outra. O chapéu já deixado sobre a mesa.
Seus olhos estavam marejados. E ele caindo de sono.
— Ela é “folte de dia”, titio. “De noite” ela “chola” e tem sonho ruim. Ela não “descaunça”, não dorme.
Com o coração apertado pela nova informação, o deitei em minha cama. E, ignorando totalmente o fato de estar sujo e suado, por causa da corrida de hoje mais cedo, me deitei ao seu lado e lhe entreguei o leite.
Deus! Bella tinha pesadelos. O psicológico dela tão ou mais afetado que o dele.
O que eu havia feito? Como atos impensados de um adolescente mal- criado puderam machucar tanto pessoas inocentes?
E a pergunta mais importante disso tudo: Como eu faria para ajudá-los a se curarem?
— Isso vai passar, Pequeno. A mamãe vai fazer o tratamento que a psicóloga mandar e aí devagarzinho, de pouquinho em pouquinho os pesadelos vão sumindo, sumindo... E quando você menos esperar... Se foram para sempre.
Fui baixando a voz e acalmando a carícia que fazia no cabelo dele.
O cheiro bom, de bebê, inundava minha cama e meus sentidos.
— Mas, eu gosto de “cuidá” da mamãe. Igual o Simba cuida da “Salabi”.
Jesus, Maria e José! Quem era esse tal de Simba e essa Sarabi? Só pude supor que era um personagem criança que cuidava da mãe. E isso atiçou minha curiosidade quanto a um assunto que eu ainda não estava pronto para ouvir da boca dele.
Eu precisava urgentemente me atualizar quanto ao mundo infantil.
— Antony?
— Humm!
Não soltou a mamadeira. Só me encarou com os mesmos olhos verdes que me julgavam sempre que me olhava no espelho.
— Onde está o papai do Simba? Por que ele não cuida da família?
Testei na esperança de que ele só me desse uma pista do que sabia sobre pais.
Porém, eu não estava pronto para a resposta dele.
— Ah, tio “Edwald” como você é bobinho. Todo mundo sabe que o Mufasa foi “molar” lá no céu “pala” ajudar Papai do céu a “ploteger o palaíso”. É “pô lisso” que o Simba cuida da mamãe dele. “Ingual” a mamãe e o Tony.
Era isso? Bella havia dito a ele que eu havia morrido igual o tal Mufasa?
A mágoa dela chegara a esse ponto?
Não! Deus do céu, não!
Bella não era assim? Era? Não que eu merecesse alguma piedade, porque pelo visto, meus erros a afetam até hoje. Mas, Antony não tinha culpa de nada. Ela não seria capaz de mentir para ele somente para me atingir. Seria?
Trinquei os dentes, respirei fundo e segurei a vontade de especulá-lo mais sobre o que sabia do pai.
Não! Aquela não era uma conversa que eu teria com ele. Não agora. Aquele era um assunto para Bella. Por isso, me acalmei e mudei o rumo da conversa.
— Eu sei que gosta de cuidar da mamãe. Mas, quem cuida de você, Pequeno?
Ele não respondeu, então me virei, posicionando-me de lado, para observá-lo melhor.
Ele dormia. Havia se entregado totalmente. As sugadas ficando lentas até pararem.
— Pode dormir, filho.
Sentindo-me calmo e em paz, puxei o edredom e nos protegi da manhã fria. Sabia que deveria aproveitar o sono dele e tomar banho. No entanto, era a primeira vez que eu tinha “o dono da metade do meu coração”, tão perto.
Eu aproveitaria o momento.
— Descanse, Campeão. Pode ficar tranquilo que o papai está aqui cuidando e te protegendo.
Tirei a mamadeira das mãos dele e o puxei para mais perto. A plenitude me dominando...
Hoje eu cuidaria só dele e, se Deus me ajudasse, logo seriam mãe e filho bem aqui, debaixo de minhas asas.
Bella
— Ei! Tá aprendendo é? Ficar vigiando é mania do maluco do Cullen. Você não precisa de mais essa loucura no seu currículo. Papai piraria.
Não o respondi, continuei observando aquela maldita fachada de vidros espelhados do segundo andar da clínica de Edward.
— O que acha que é lá? Será que ele tem um... Sei lá... Um “matadouro” de pegar mulher? Porque se for e ele tiver levado meu filho para um lugar assim eu... Ah, que saber? Melhor buscá-lo. Foi uma má ideia. Onde eu estava com a cabeça. E...
Jasper não se conteve, riu alto e quando eu já ia me virar brava para encará-lo e socá-lo, seus braços me rodearam e o nariz passou a remexer em meus cabelos.
Jasper estava feliz.
— O Cullen pode ser um babaca, Bells, mas um “matadouro”? Não é a cara dele. Só se tiver mudado demais e pela rádio fofoca da loja, isso não aconteceu. Pelo contrário, as mudanças, aparentemente, foram boas.
— Hum! Não quero saber. Parabéns pra ele, então. Vai ganhar uma estrelinha por bom comportamento.
— Cinismo? É isso que uma noite mal dormida faz com você, irmãzinha?
Sorriu mais e beijou o topo de minha cabeça. Eu amava a leveza de Jasper. Tão diferente do turbilhão que era Emmett.
— Jas, você acha que Emm está certo? Que estou cometendo o mesmo erro do passado? Será que Antony não precisa mesmo dessa aproximação com o pai?
Dei voz a meus medos. A nova Bella não os deixava transparecer, mas aquele era Jasper, poxa! Ele me entendia.
— Vem cá, Bells.
Tirou-me da porta da sacada, segurou minha mão e me guiou de volta para a sala.
— Deite aqui.
Sentou-se numa extremidade e bateu, com a mão, no sofá.
— Não! Deixa isso pra lá. A loja precisa de nós e não quero dormir, porque Antony pode chegar a qualquer minuto e...
— Ah, relaxa, Isabella. Os funcionários sabem que estamos aqui. Um chamado ali da escada e ouviremos. E Antony, há essa hora, já deve ter se rendido ao sono. Então, pare de protelar. Deite aqui e feche os olhos por trinta minutos. Anda logo!
Insistiu aumentando o tom de voz.
Incrédula cruzei os braços e o enfrentei.
— Agora!
— Ah, seu chato!
Ainda fazendo birra, de cara amarrada, me deitei no sofá e descansei a cabeça em seu colo. Sem precisar pedir, os dedos dele vieram para meus cabelos e passaram a fazer carinhos lentos.
— Feche os olhos.
— Jas...
— Feche os olhos e conversamos. Mantenha-os aberto e começo a cantar.
Gargalhei e me rendi. Jasper era pior que “gansos roucos” cantando.
— Respondendo a sua pergunta anterior, eu não acho que Emmett esteja certo. Tony tem tudo o que precisa de nós, isso é fato. Mas, ele tem um pai, Bells. E amor de pai é diferente de amor de tio. Mesmo que ele chame Emm de pai. Não é a mesma coisa. Isso sem falar que se o idiota do Cullen quiser, ele tem direito. Acho que você está certa em deixar que se aproximem. E se ele fizer uma besteira, damos um jeito. Sempre foi assim.
— Não quero dar um jeito, envolvendo Antony. Não quero que meu filho se decepcione.
— Então converse com o pai dele. Exponha seus medos. Exija. Imponha regras. E no menor deslize dele... Zás! Entramos com uma medida protetiva e o afastamos de vez de vocês.
Pensei no que ele disse. Eu me arriscaria assim? Edward merecia essa chance? Uma medida protetiva não apagaria a dor da desilusão.
— Mas, eu acho que não vai precisar disso. Converse com ele, anjo. Conte a verdade. Deixe-o saber o que aconteceu. Despeje em cima dele toda dor e tudo pelo que passou. Por que o poupa?
— Eu... Eu...
As mãos de Jasper pararam perante minha falta de palavras.
— Deus! Como não percebi isso antes. É óbvio. Você o ama. É evidente que não quer que se sinta culpado. Ahhh, irmã! Você não muda. É só casca essa fachada toda.
O encarei assustada. Era isso? Eu tinha pena de Edward?
— “Although loneliness has always been a friend of mine I'm leavin' my life in your hands People say I'm crazy and that I am blind Risking it all in a glance And how you got me blind is still a mystery I can't get you out of my head Don't care what is written in your history As long as you're here with me”.
— Tá, tá. Idiota! Já fechei os olhos.
Voltei a fechar os olhos, quando a primeira parte de As long as you Love me do Backstreet Boys, começou a ser entoada por ele. Era uma catástrofe!
— Boa menina!
Os dedos voltaram à carícia inicial. O susto de sua suposição havia passado.
— Não tenho pena dele e não estou poupando ninguém. Só não acho que saber de tudo vá acrescentar em alguma coisa. Não quero que pense que sou fraca e que quase morri um monte de vezes por causa do abandono dele.
— Acho que a última coisa que ele pensa de você nos dias atuais é que é fraca. A verdade liberta, Bells.
— Ela te libertou? Está me mandando perdoá-lo, tão rápido, como fez com Alice?
Não era meu objetivo jogar aquilo nele. Aliás, Jasper nem me contou como foi a conversa deles. E não precisava, estava claro, como água de nascente, que eles haviam se acertado.
Meu irmão sorria para o nada agora.
— Isso te incomoda, não é? Eu não pensei em você agi como um adolescente apaixonado reencontrando a namoradinha do colegial. Conversamos, nos perdoamos e eu... Desculpe? Vou conversar com ela.
É, se eu fosse pensar só em mim, deixaria as paranóias o dominarem. Deixaria que a culpa o dominasse e ele terminasse o que nem começou. No entanto, Jasper vive em minha função e defende minha causa desde que fugimos. Eu não podia fazer aquilo com ele.
— Você fez bem em não pensar em mim. Agiu com o coração. É sua vida, Jas. Precisa vivê-la. Amar e ser amado.
— Mas, não vai me apoiar, não é?
— É claro que vou! Nunca que pediria para deixá-la de novo. Alice te ama. Só que...
Baixei a voz e respirei fundo.
— Não estou pronta. Sei que eu era uma insossa e ingênua no passado, mas ela era minha melhor amiga, era a irmã que não tive. Se Rósalie instigava Edward, Alice o encobria. E eu não enxergava. Ainda preciso me curar dessa descoberta, irmão.
— Ele é irmão dela, Bells. Irmãos se protegem.
Os dedos agora vieram para meu rosto.
— Eu sei. E é por isso, que desejo o melhor para vocês dois. O sentimento mútuo que sentem merece ter continuidade.
— Mas, não quero que isso signifique nos afastar.
— Não vamos nos afastar, eu prometo. Só me dê um tempo. Vou me acostumar com a ideia.
— Todo tempo do mundo, Bells. Todo tempo do mundo.
Ele não inseriu outro assunto, nem eu. Deixei minha consciência vagar perante tantos pensamentos e conversas que tivemos.
Eu estava exausta psicologicamente. E os dedos suaves dele sabiam disso porque em questão de minutos eu já me rendia ao cansaço bem ali, nos braços de meu irmão. Onde nenhum pesadelo poderia me alcançar.
Jasper
Lentamente, encostei a cabeça de Bella no sofá e me levantei. Fui até o quarto dela, peguei um travesseiro e um cobertor e a deixei confortável, ali mesmo na sala.
Não era o mais apropriado, porém não a transportaria para lugar algum correndo o risco de acordá-la.
Ele precisava descansar...
No maior silencio possível, fechei a porta da sacada e de entrada deixando minha irmã sozinha. Era dia, ela estava a salvo. Os pesadelos nunca vinham enquanto o sol estivesse brilhando. Era a noite que o pior acontecia.
— Bom, Bella está lá em cima e não deve ser incomodada por nada neste mundo. Vou arquivar umas notas fiscais no escritório, se precisarem de algo podem me chamar. Se for alguma dúvida veterinária, liguem para Emmett, ele está na fazenda, mas saberá o que fazer.
Direcionei o recado a Mike já que Rebecca tinha uma expressão raivosa no rosto.
Vai entender!
— Pode deixar. E, você tem visita, Jasper.
Sorriu malicioso e apontou rumo aos fundos onde fica meu escritório e os consultórios.
O que estava acontecendo com esses funcionários hoje?
— Certo, eu já vou. Cuidem de tudo.
Sai dali. Forks era “uma azeitona” e eu odiava a capacidade que as pessoas tinham de “cuidar” das vidas dos outros.
Eu não alimentaria o vício deles.
— Oi. Bom dia.
Rá! Eu e minhas convicções. Maldita boca! Agora podia contar as horas até que todos soubessem que Alice me visitou dois dias seguidos.
Droga! Agora eu entendia as fisionomias dos funcionários.
— Oi, Alice.
Saldei baixo já tirando a jaqueta e jogando em cima de minha cadeira. Eu precisava respirar calmamente e disfarçar a cara de surpresa.
— Desculpe-me por ter vindo sem avisar. Sabia que devia ter ligado. Mas depois de ontem... Deus! Estou pensando e agindo como meu irmão. Fiquei apavorada de medo de fugirem de novo. Eu não suportaria, Jas.
Cheguei mais perto, segurei sua cabeça e tracei os lábios com o polegar.
Ela estava macia e cheirosa como sempre.
— Ei, se acalme. Ninguém vai embora, Alice. Perdão por não ter entrado em contato. Tivemos uma madrugada difícil e uma manhã complicada lá em casa.
Empurrei o corpo pequeno para trás até encurralá-la entre a mesa e meu corpo saudoso.
Lembranças ávidas de ontem vindo com força, me fazendo desejá-la muito e dolorosamente.
— Posso ajudar? Queria que confiasse em mim de novo. Não vou decepcionar vocês, Jas. Eu juro.
— Ah, você pode me ajudar. Pode sim.
Coloquei-a em cima da meda, igual ao dia anterior, e ataquei sua boca. Eu estava morto de saudades!
As mãos, com vida própria, foram para os botões frontais de sua blusa. Eu necessitava ver Alice em toda sua glória.
— Linda, Alie! O tempo foi generoso demais com você.
Terminei de tirar a peça superior e me afastei para contemplá-la semi nua e de saltos sob meu local de trabalho.
Era a visão mais magnífica do mundo.
— Vem aqui, Jas.
Jogou a bolsa, que ainda segurava, no chão. Cruzou sensualmente as pernas e me chamou provocativa.
— Deixe-me cuidar de você.
Minha consciência gritava que eu estava agindo como um canalha. Havia tomado-a daquele jeito anteriormente e fazia de novo agora. Sabia que ela merecia mais. Flores, chocolates, vinho, romantismo.
Alice era dessas.
No entanto, a ansiedade e a saudade me dominavam quando a tinha a meu redor. Foram anos de privações. O que me transformava num alucinado fora de controle quando colocava os olhos e, principalmente, mãos nela.
— Calma, Alie! Está nervosa por que? Temos tempo.
Seus ombros estavam tensos e suas mãos tremiam.
— Não consigo. Faça-me sua. Preciso ter certeza de que está aqui, que não é um sonho.
As mãos inquietas tiraram minha camisa, abriram minha calça e baixaram minha boxer.
Eu já pulsava por ela.
— Alice...
— Agora, Jas. Acalme meu coração. Por favor, preciso de você.
Seus olhos tinham súplica. Sua voz não passava de um sussurro.
— Estou aqui. Sou todo seu.
Dobrei sua saia até a cintura. Arranquei, de qualquer jeito, a roupa íntima e, pelo segundo dia seguido, a fiz minha.
Quente e acolhedora, ela tinha um sabor de casa, de lar. E cada vez que eu investia e a sentia vibrar sabia que nunca mais o termo “fazer amor” teria o mesmo significado.
Porque sim, eu não sou um santo. Tive outras mulheres no Brasil, uma até que quase me ganhou, mas... A quem eu quero enganar? Não tinha sentimento. Não tinha plenitude. Isso só Alice conseguia de mim.
— Ah, Jas.
Ela suspirou mais alto quando perdi o controle e passei a arremeter forte. Beijando sua boca, pescoço, ombro. Eu sugava, mas a vontade mesmo era de mordê-la, marcá-la como minha.
A sensação maravilhosa vinha, vinha... E eu queria demais atingi-la.
— Isso! Ahh!
Joguei a cabeça para trás quando ela se deixou levar e me deu o que eu queria e então foi a minha vez de sentir a maravilha que era ser possuído pela chama do amor.
— Isso foi, foi... Sublime.
Não respondi, só concordei com um gesto de cabeça. A mente ainda anuviada depois do orgasmo glorioso.
— Jas...
— Xiii. Não quero falar agora, Alice.
Encostei a cabeça entre os seios dela e respirei forte, procurando de novo o controle sobre mim.
— Mas...
As mãos pequenas e ansiosas acariciaram meus cabelos.
— Estamos mais calmos agora. Sei que algo está errado. Eu quero ajudar. Disse que tiveram uma noite difícil. O que foi?
Fechei os olhos. Eu queria ficar aqui trancado para sempre. Longe dos problemas, longe da vida lá fora.
— Bella tem alguns problemas que ainda lutamos contra. E essa noite eles se manifestaram fortes e não fomos capazes de socorrê-la imediatamente.
— Que problemas? Ela está ferida? Foi meu irmão, de novo? Eu o mato dessa vez. Deixe-me falar com ela? Talvez consiga ajudar. Vim aqui para isso também. Resolvi nossa situação, agora vou resolver-me com ela.
— Não!
Fui enfático e até um pouco rude. A lembrança de minha conversa com Bella hoje mais cedo ainda estava fresca em minha memória.
Ela se assustou, com meu tom, e a também pelo ímpeto com que me soltei e passei a vestir as roupas.
— Droga! Desculpe, desculpe. Não quis ser mal educado. Estou enferrujado com essa coisa de relacionamento. Mas, Alice...
Segurei seu rosto entre minhas mãos tentando passar algo em que nem eu acreditava que estava fazendo.
— Bella não está pronta. Ela guarda coisas que... Sei lá! Ainda a afetam muito. E não quero adicionar mais peso em suas costas. Já basta Emmett.
— Ela não concorda que você tenha me perdoado? Não concorda com nosso relacionamento?
Sua voz embargou. Era evidente que aquilo a magoava e muito. Porém, essa era uma situação em que eu não interferiria. Eu preciso dela, mas preciso de minha irmã também. Eu seria a Suíça, pelo menos nessa questão.
— Claro que concorda. Bella e eu somos muito parecidos. Mesmo longe compartilhávamos da dor de ahhhn... Ehh, a dor de ter deixado tudo para trás, sem explicação.
Disfarcei, quase revelando demais. Não era bom que ela soubesse que Bella ainda tem sentimentos fortes pelo irmão. Edward teria que traçar aquele caminho sozinho.
— Ela nos entende sim. Apóia-me e sabe que estamos juntos de novo. Estará comigo quando chegar o tempo de revelar tudo. Porém, eu queria muito que, por enquanto, você tivesse paciência e tomasse cuidado para que ninguém descubra sobre nós.
— Está me pedindo para namorar em segredo? Quantos anos você tem, Jasper?
Peguei as roupas dela no chão e a entreguei. Minha vergonha por aquele pedido me fazia querer fugir da conversa.
— Eu sei, é ridículo. Só que não posso forçar a barra agora. Meu pai e Emmett serão totalmente contra nosso envolvimento. Poderão tomar medidas drásticas e... Droga! Você não entenderá! Não pense que é questão de escolha, porque não é. Mas, não posso bater de frente com eles agora. Sair de casa agora e deixar Bella e Antony lá está fora de cogitação. Eles precisam de alguém que acredite no amor, no perdão, no deixar para trás. Emmett não é assim. Ele fará qualquer coisa para que Bella siga em frente, mas sem algum Cullen em volta e...
Deus! Como falar algo que a convença sem dizer que minha irmã ainda ama o irmão dela?
Eu queria confiar em Alice, mas algo me dizia que ela não pensaria duas vezes, antes de revelar isso a Edward.
— Antony precisa do pai. Quero que Bella perdoe e deixe o Pequeno conviver com vocês. E preciso estar lá para que Emmett não endureça ainda mais o coração dela. Eu sou o oásis, Alice.
— Eu entendo, Jasper. Juro que entendo. Mas, porque não posso falar com Bella se ela sabe de nós.
— Porque...
Passei nervosamente as mãos pelo cabelo.
— Porque ela ainda não consegue olhar para você sem sentir tudo de novo. Ela sentiu-se traída duas vezes. Ela precisa de tempo.
— Vocês já tiveram tempo demais.
Fechou a expressão e pulou da mesa já se vestindo.
— Só que vocês não estavam convivendo com a gente. Mamãe ligou para a terapeuta que atendia Bella, no Brasil, e contou dos pesadelos, que eles se intensificaram. E ela disse que é normal, porque agora as situações estressantes afetarão Bella mais, porque o convívio será praticamente diário. Ela disse que Bella regrediria e que quanto mais a forçarmos pior fica. Não vou fazer isso, Alie. Perdoe-me. Ela disse hoje que não está pronta. Se quiser manter nosso relacionamento em segredo, por enquanto, eu agradeço e me sentiria o homem mais feliz do mundo. Mas, se não puder, temo que tenhamos que esperar mais um pouco até que tudo se ajeite.
O pesar e o significado de minhas palavras a fizeram parar o que fazia e me olhar.
Mil sentimentos se passavam ali e ela os avaliava com muita atenção.
— É aceitar ou esperar?
— Infelizmente.
Sussurrei sentindo uma dúvida e uma dor ameaçarem minha sanidade. Por que ela estava pensando? Não me amava a ponto de fazer isso por nós?
— Droga, Jas. Droga!
— Como isso dará certo?
A puxei para meus braços e aliviado senti sua aceitação ao me abraçar de volta.
— Não se preocupe, eu tenho a solução.
...
Bella
O Carinho era suave e delicado, como se tocasse algo precioso e muito frágil. E eu conhecia aquele toque.
Tinha plena consciência de que era hora de deixar o mundo do sono e voltar para a realidade.
Mas aqui era tão bom! Tá certo que não tinha sonho, nunca tinha. Por outro lado, nada de pesadelos e medos também.
Era o puro sinônimo da inércia ou talvez do limbo.
— A gente já pode “acoldar” ela? Não era “pla dolmir”. Ela “plometeu”.
— Vem cá, Pequeno.
Apesar de sussurradas, as vozes eram nítidas. Eu as conhecia, ahhh, como conhecia. Amava as duas, mesmo sabendo que o dono da segunda era o meu “prego na cruz”.
Deus! Era chegado o momento de abrir os olhos, mas...
— A mamãe está bem. Não precisa se preocupar, nem fazer beicinho. Ela só está descansando um pouquinho, assim como você fez. Por que não vamos lá para baixo e você fica com tio Jasper até que ela acorde?
O mundo paralelo era tão bonito, tão doce! De uma suavidade que dava até vontade que fosse real.
Ali eu conseguia visualizar a carinha de choro, porém também conseguia ver um pai amoroso que faria o possível para que as lágrimas não descessem.
— Humm! Acho que não, tio “Edwald”. Já fiquei com você, agora quero ficar com a mamãe bonita.
— Ei, Campeão. Não precisa disso. Não precisa chorar. Vamos resolver isso, tá?
— Mas, eu... Eu “quelo” a mamãe...
É Isabella, bem vinda a realidade. Hora de enfrentar o mundo real.
— E a mamãe está aqui. Isso aí é manha, Antony Swan?
Abri os olhos e me sentei. Rapidamente, passei a mão no cabelo colocando no lugar tudo que estava bagunçado.
Por Deus! Edward estava ali.
Bom, não era bem ali... Ele estava parado na porta, do lado de fora, com Antony no colo. Era a cena mais linda que eu já havia presenciado. A aparência dos dois deixava claro que eram pai e filho.
— Não é manha, mamãe. É “sodade” mesmo.
Remexeu-se nos braços do pai, até que ele o colocou no chão.
Os olhos de Edward cravados em mim.
— Oiii. Você “Dolmiu”.
— E você também.
Toquei seu nariz e beijei sua bochecha.
— Você se divertiu?
Ele só acenou com a cabeça, mas não entrou em detalhes. Os orbes claros, me observavam com atenção. Pareciam que buscavam algo... Como se informação demais pudesse me atingir.
Ele estava escondendo algo.
— Ok, vai pro quarto e pega o material. Vamos fazer o dever lá na loja enquanto mamãe trabalha. Daqui a pouco já é hora de ir pra escola.
Voltei a colocá-lo no chão.
— Tá bom! Tchau, tio “Edwald”.
Correu até o atônito pai e abraçou suas pernas, tirando-o da inércia.
— Tchau. Cuide-se, Pequeno. Eu... Eu gostei muito de hoje. Podemos repetir qualquer dia desses?
Antony pensou um pouquinho, depois se virou para mim, esperando aprovação.
Sorri em concordância.
Edward havia dado o primeiro passo.
— A mamãe deixou. Então, tudo bem. Agora vou buscar minha mochila do rei leão, titio.
Saiu correndo, como uma flechinha, rumo ao quarto no fim do corredor e me deixou ali, numa situação nada confortável.
— Parece que se saiu bem.
Coloquei a máscara de Isabella forte e puxei conversa.
— Fica fácil com ele. É tão esperto. Você está fazendo um ótimo trabalho, Isabella.
— Tenho ajuda. Minha família está sempre apoiando.
Ele abaixou a cabeça e só quando as palavras saíram foi que percebi o peso.
— Olhe, eu queria conversar. Por favor, Bel..., perdão! Por favor, Isabella? Quero fazer a coisa certa a partir de agora. Vamos conversar? Quero falar sobre ele. Sobre você, sobre nós.
— Não existe nós, Edward.
— Mamãeee! Cadê o “calderno” de linha?
— Aqui não é um bom lugar. Por favor, vamos conversar? Só me dê à chance de falar e de ouvir. Preciso saber o que aconteceu. Se você quiser, fico na minha. Só escuto. Mas, por favor, por favor... Pelo nosso filho.
Desespero e sofrimento. Ah, se ele imaginasse como entendo disso.
— Mamãeeee.
— Eu preciso ir. Depois falamos.
Aproximei-me e estendi a mão para pegar a mochila de Antony que ele ainda segurava.
— Baby...
Segurou minha mão, quando tentei me afastar já com o objeto em mãos.
— Por favor... Eu só quero falar. Dê-me uma chance. Só uma chance de conversar.
Golpe baixo de merda! O “baby” sempre era usado quando queria algo de mim. Ele se lembrava do quanto me afetava. Do quanto eu amava ser chamada assim.
— Não tenho tempo durante a semana. Então, domingo. Antes do almoço na vovó. Podemos dar uma caminhada e conversar. Sem toques, sem enganação e sem mentiras. Só eu e você.
— Seu pai e seus irmãos?
Acariciou minha mão com a sua e falou baixo.
— Eu cuido deles. Agora, se me permite, tem um garoto ansioso me gritando.
— Tá. Até lá, então.
Tá, mas não me soltou.
— Obrigada pelo dia de hoje. Não mereço, mas agradeço a Deus por ser sempre tão boa. Antony é perfeito. Quero fazer parte disso, Baby.
— Preciso ir, Edward.
Murmurei baixo. Sentindo o efeito de seu toque bem no coração, num lugar pequeno e apertado onde em guardava a sete chaves tudo que sentia por ele.
— Eu sei. Só queria agradecer mais um pouquinho.
Também disse baixo e só aí me soltou. Ele permanecia do lado de fora e eu do lado de dentro. Dei graças por ele ter sido bem educado e não entrar sem ser convidado, porque se estivéssemos mais próximos...
— Tenha um bom dia.
— Bella?
Despedi-me e já rumava para quarto quando um fio de voz dele se fez ouvir e parecia tão baixo, tão triste, que me vez virar para lhe olhar nos olhos.
— Eu também estou no céu ajudando o Papai do Céu a proteger o paraíso, assim como o Mufasa?
Não entendi de início sua pergunta, contudo num estalo a história do desenho me veio à mente. E eu sabia do que ele estava falando.
Meus olhos se abriram mais e eu tive certeza que havia incredulidade em minha face.
— Por Deus! Não! Óbvio que não. O que pensa que eu sou?
Foi instantâneo, um chama de brilho iluminou todo seu rosto levando para longe a tristeza de agora a pouco.
— Desculpe. Foi só um pensamento idiota. É bom saber que o papai do Antony não teve o mesmo destino do papai do Simba. E respondendo a sua pergunta, eu penso que você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Tenho orgulho de ser a mãe do meu filho.
E sem mais, sorriu torto e estonteante, e se foi.
Ahh, droga! O que estava acontecendo comigo?
...
Edward
Entrei no bar sorrindo de orelha a orelha. Já passava das dezoito horas e ali estava bem vazio, por causa do início das aulas noturnas da universidade.
Foi um dia muito corrido, porém produtivo e muito, muito bom.
Eu precisava comemorar.
— O que vai beber, doutor? O de sempre?
Apertei a mão do garçom e confirmei com a cabeça.
— Sim, amigo. Uma água com limão e gelo. Vou me sentar bem ali.
Apontei para a mesa de sempre, perto da vidraça, mas não longe do balcão. Eu gostava de escutar as conversas jovens dos universitários que passavam por ali antes das primeiras aulas.
Patético, eu sei. Mas frequentar aquele lugar era um modo de me divertir à custa de jovens, sem preocupações.
Se eles fossem como eu era nessa idade, tenho pena do que os reserva. Eu sou um mau exemplo.
— Bill, uma coca, por favor.
Dois rapazes, na casa dos dezoito, entraram e se sentaram no balcão.
Outro garçom os atendeu. Era agora que começava a diversão.
— Ei cara, você viu a professora nova?
— A de “Bioética e Bem estar-animal”? Impossível não ver. Cara! Sonhei com aquela bunda passando matéria no quadro.
— Ela é gostosa demais. Aqueles vestidos apertados e aqueles saltos causam coisas em mim.
Disfarcei uma risada e Bill também. O assunto da hora era a professora nova.
— Ahh, seu eu a pegasse... Faria estrago nela. Eu seria o professor e ela a aluninha safada.
— Ei, lá vem ela. Disfarça, disfarça.
Eles se aquietaram e eu levantei o pescoço e observei para ver quem era o “mulherão” capaz de fazê-los sentarem eretos e mudarem de postura tão rápido.
— Por favor, uma água mineral. Meninos...
Ah? Não é possível!
— Professora, Swan. Boa noite.
Senti o sangue abandonar meu rosto.
— Boa noite. Não se atrasem. A aula de hoje está muito boa.
Ela não me viu e eu agradeci a Deus por isso. Meu queixo devia estar no chão e meus olhos arregalados. Diferente dos rapazotes que sorriam bobamente e depois a secaram, de cima abaixo, quando saiu.
Mais essa agora?
Eu estou é muito ferrado!
É Edward Cullen isso é para você aprender que quando se erra, a vida dá voltas, dá voltas e cobra em dobro. Ou melhor, três vezes mais.
Ou melhor, cobra em forma de vestidos justos, saltos altos e cabelos soltos.
O que foi que eu fiz?
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