Quando o passado não te deixa viver
2 O início
Notas iniciais
Dias atuais
Edward
— Edward! Irmão, você está aí?
Gemi internamente, fechei os olhos e respirei fundo antes de responder. Não era um bom dia. Aliás, existia dia bom desde que ela se foi?
Enfim, eu só não queria companhia.
— Aqui em cima, Lice.
Coloquei a garrafa, quase vazia, da cerveja que bebia sobre a mesinha, me recostei na cadeira e quase sorri quando uma brisa, suave e fria vindo da direção do riacho, tocou meu rosto e bagunçou meu cabelo.
Eu quase sorri mesmo...
Eu amava aquela sensação. Era como ser beijado por ela. Mais do que nunca, agora eu entendia porque Bella escolhera aquele lugar.
Ah, se eu tivesse compreendido antes...
— Sabia que ia te encontrar aqui. Mamãe mandou seu jantar.
Apontou para a vasilha com algo que Esme, com certeza, prepara com muito carinho.
— Coloque aqui. Não estou com fome.
— Como sempre.
Revirou os olhos depois de depositar o recipiente na mesma mesinha que guardava minha cerveja.
— Como sempre... Vivemos a mesma repetição de anos, não é irmã?
Ela se recostou no batente da varanda, que cercava todo o segundo andar da casa, e fechou os olhos. Com certeza sentindo a mesma coisa que eu.
Os olhos vermelhos e inchados me certificavam que havia chorado outra vez, como também fazia todos os dias desde que nossas vidas se tornaram o inferno na terra.
Como disse, minha rotina e de minha irmã, eram uma constante repetição. Eu tinha duas motivações, dois sonhos, duas esperanças. Ela, uma. E era exatamente isso que nos mantinha de pé.
— Sabe, às vezes, se eu fechar os olhos e ficar em total silêncio, posso ouvir as vozes deles, as risadas, as brincadeiras, o cantarolar de Bella, as juras de amor de Jasper ao pé do ouvido...
A voz embargada me fez levantar e me juntar a ela. O céu estava limpo e a noite clara.
— Por que acha que venho aqui todas as noites? Por que acha que dei minha vida para construir essa casa do jeitinho que ela descreveu e desenhou? Eu preciso de algo que me certifique que não foi um sonho, irmã. Eu preciso que algo alimente minhas lembranças. É inaceitável que o tempo e algumas poucas fotos, passem, se acabem e tirem de mim a única coisa que me mantém são: Ela. Por que acha que olho para o céu todas as noites?
Olhei para o alto e contemplei a linda noite de nossas fazendas.
— Porque tenho fé de que em algum lugar, ela olha para esse mesmo céu e se lembra um pouquinho do tempo em que eu não era um idiota.
— Como deixamos isso acontecer, irmão? Como perdemos nossas vidas desse jeito?
— Eu não sei, irmã. Eu não sei...
Voltei a fechar os olhos, recusando que ela visse a mentira ali.
Era óbvio que nos dois sabíamos como havíamos perdido Jasper e Bella. Porém, minha querida irmã sabia o quanto aquilo me afetava.
— Tão linda, Lice. Deus! Está tão claro... Posso te descrever cada detalhe do momento em que deixei de vê-la como a priminha chata, a irmãzinha dos meus melhores amigos, para se tornar a adolescente desejada.
Lembranças On
Era início de noite de um sábado, distraidamente, assistimos a um filme na sala de nossa casa: Emmett, com Rósalie “enganchada em seu braço”, Jasper e eu jogados no tapete disputando cada pipoca do balde que Esme havia estourado.
O lugar estava calmo e só o barulho da televisão e nossas risadas, de vez em quando, quebravam o silêncio.
Bella e Alice não estavam conosco, eis o motivo da calmaria. E isso me alegrava. Eu odiava as risadinhas e comentário, “nada a ver”, de adolescentes delas. Ainda mais que sabia que minha priminha alimentava uma paixonite platônica por mim.
Putz! Ela só tinha treze anos. Uma criança, cheirando a leite.
Ahhh, se eu soubesse que tudo que eu pensava estava prestes a cair por terra, nem tinha ousado, a se quer, pensar em Isabella como uma criança.
— Estamos prontas, Emm.
Antes que a voz invadisse meus ouvidos, o cheiro... Um cheiro novo! Nada do perfume de criança, que ela usava antes, tomou meus sentidos. Contudo, nada havia me preparado para o que meus olhos presenciaram assim que virei à cabeça e foquei nas duas garotas paradas a nossa frente.
Deus! Onde estava o chapéu e as botas? E as calças jeans e camisas xadrez que ela vivia enfurnada?
— Aonde pensam que vão vestidas assim? Alice?
Imediatamente me sentei.
O “aonde vão”, foi uma maneira de disfarçar. Minha irmãzinha sempre fora mais cuidadosa com vestuários e já se sentia uma mocinha há tempos. Eu estava acostumado a vê-la daquele jeito.
Agora Bella?
Aquele vestidinho curto, preto e aquele sapato de salto assassino não pareciam com ela. E aquele cabelão solto e a maquiagem?
Será que Emm e Jasper não percebiam que ela seria um alvo fácil para homens como... Como... Nós?
— Vamos ao cinema e depois comer alguma coisa com alguns colegas da escola, Edward. Eu te contei. Até te disse que Bella pediu a Emmett para nos levar.
— Emmett não vai! Estamos na metade do filme, não é, bebê?
Rosie fez voz de manha e se apertou mais ao braço do namorado. Tentando persuadi-lo.
Droga! Ela começaria com aquilo de novo.
— Ah não, Emm! Você prometeu! Esse filme, que estão vendo, é seu. Podem assisti-lo depois.
Bella se jogou nos braços do irmão, o abraçou pelo pescoço e apontou para a TV.
Deus! Aquilo estava curto demais. Era mesmo um vestido?
Jasper estava ocupado demais, sorrindo feito bobo para Alice, pra perceber o que estava prestes a acontecer.
— Podemos, mas não vamos! Se virem. Peça para Jasper.
— Rosie! Eu prometi a meu pai que levaria e buscaria as meninas. Olhe para elas? Acha mesmo que vou deixar que saiam daqui ou voltem com qualquer um? E você sabe que Jasper não tem carteira ainda. Isso é minha obrigação.
Já irritado pelo jeito que a namorada falou com a irmã, Emmett se soltou dela e, com Bella ainda no colo, se colocou de pé.
— Vamos lá, “Bi”. Vamos pra cidade.
— Ah! “Que merda, Emmett”! Se sair por aquela porta, não precisa voltar. Odeio essa sua mania de fazer tudo o que essa daí quer. Odeio você, Isabella Swan!
E sem deixar que ninguém falasse mais alguma coisa, ela saiu sapateando e batendo cada porta que encontrou pela frente.
Emmett somente deu de ombros e sorriu para a irmã que também deu de ombros, com certeza achando que Rósalie era louca.
Estava claro que o relacionamento deles não passava de mais essa noite.
Rósalie estava tão paranoica com a ideia de perder Emmett, que agora andava implicando e competindo com Bella pela atenção dele.
E era aí que se ferraria. Porque não é segredo, para ninguém, que Bella era a menininha, a queridinha dos Swan’s.
— Vamos então?
— Quê? Enlouqueceram? Emm, Jas olhem como estão vestidas? Essa duas só têm treze anos.
— Edward!
Alice se indignou. Porém, Emm e Jasper só riram com gosto.
Bella franziu o cenho e fez cara de indagação.
Se eu não estava me entendendo, imagina ela? Nunca alimentei sua paixonite. A achava uma “aborrecente chata”. E agora resolvo dar um ataque?
— Calma ai, Edzinho! Nunca foi nossa intenção deixar Bella e Alice irem sozinhas. Alias, estou mesmo “afinzão” de assistir a estreia de hoje. Vamos lá?
— Ah não, Emm!
— O quê “baby Bi”? Só queremos ter uma noite agradável juntos. Vamos lá...
Naquela mesma noite, bem mais tarde, rendido, dei a Isabella seu primeiro beijo. Assim como Jasper fez com Alice. E quase como que combinado pedimos as meninas em namoro.
Por parte de meu amigo, eu sabia do sentimento intenso e verdadeiro que nutria por minha irmã há tempos.
Agora por minha parte, naquela época eu juraria que fora um ato de ciúmes, impensado.
Ahh, se eu pudesse prever que naquela noite eu descobrira o amor... Pena que a mente era pequena demais... Prepotente demais...
Ah! E como previsto, Emmett terminou seu relacionamento com Rosie, naquela mesma noite. Já que ela fez um escândalo e atirou nele um vaso de porcelana grega que Esme deixava sempre na sala com flores frescas.
Lembranças off
— Às vezes fico imaginando como estão hoje? Será que mudaram muito?
— Bem provável que seu Jasper esteja careca e com uma barriga enorme de cerveja. Aposto que nem consegue mais ver o...
— Ah! Seu imbecil!
Meu deu uma tapa nas costas fazendo com que minha gargalhada só aumentasse.
— Agora, minha Bella... Com certeza, só melhorou. O cabelo deve estar grandão. E preso num rabo de cavalo, como sempre, para não atrapalhar o rosto enquanto cavalga. O corpo? Ah, as curvas devem estar mais acentuadas ainda. Porque não há como não se manter em forma, com tudo que ela faz. E...
— Edward!
Cessei minhas divagações, abri os olhos e encarei Alice que parecia ter visto um fantasma.
— O que foi, Alice? Está sentindo algo?
Lentamente e, mais branca do que de costume, ela apontou para a estrada. Que ficava a uns quinhentos metros a frente de minha casa.
— Aquilo são faróis?
— São... São...
Tão espantado, quanto ela, contemplei dois veículos passarem ao longe e em alta velocidade. Levantando poeira.
Deus! Nossa fazenda era a penúltima antes da curva do rio. A última era a dos Swan’s. Os caseiros que cuidaram de lá esses anos todos, não tinham uma... Uma...
— Camionetes, Alice. Duas camionetes.
Seria possível?
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