Notas iniciais
Perdão pelo sumiço. Quem me conhece a mais tempo sabe que sou comerciante. Então, quanto mais perto do fim de ano, mais complicado fica.

Dias atuais

Edward

Pisei mais fundo no acelerador, a cabeça a mil ainda tentando entender e processar de quem eram as camionetes que rumaram para a Sonho Azul.

Se minhas noites já eram curtas e insones, essa entrara para a lista das dez piores.

As dúvidas carcomiam: Será que tio Charlie havia, de uma vez por todas, vendido a fazenda? Será que Emm e Jasper estavam aqui para, depois de tanto tempo, uma vistoria? Será que Bella...?

Deus! As perguntas eram tantas... Eu precisava de respostas e daria um jeito assim que chagasse a clínica.

Por isso, exigi mais do carro sentindo a potência do Volvo aumentar e atingir um pouco mais de velocidade.

A sensação era boa, uma das poucas que me animavam. Porém, logo freei. A pista estava molhada e eu não poderia me colocar em risco.

Não! Eu não podia. Tinha muito a fazer ainda.

Virei mais duas ruas até parar, já posicionado, de frente para a garagem subterrânea da “Cullen Med”, a minha clínica e de Esme.

Por lá mesmo subi um lance de escadas e por uma porta estratégica na lateral, adentrei a recepção, hoje, estranhamente vazia.

— Jéssica? Oi?

Apoiei as duas mãos no balcão e procurei pela secretária. Nada!

O lugar estava impecável, como sempre.

O computador, as luzes e a televisão ligados. Contudo, ninguém a vista.

— Stanley? Ooii?

Aumentei o tom de voz, já um pouco impaciente por tamanha irresponsabilidade. Onde estaria a mulher?

— Nossa! Oi, doutor Cullen. Bom dia!

Veio correndo da entrada principal “tilintando” os saltos no porcelanato branco, puxando a saia para baixo e ajeitando os cabelos.

— Perdão! Eu não vi o senhor entrar. Os pedreiros encerraram as obras aí de frente e agora tem duas equipes trabalhando: uma de limpeza e outra montando os móveis e alguns equipamentos.

A mulher falava sem parar, enquanto dava a volta para adentrar seu lugar.

— Ah! E finalmente o mistério acabou. Já estão colocando uma placa de “Sweet Pet e AgroSw” e pelo que meus ouvidinhos puderam captar, será uma clínica veterinária em conjunto com uma loja agropecuária. O que é bom, nada de concorrência para nós.

Agora já sentada, ela tirava as agendas da gaveta, folheava uma e me entrega a outra para conferirmos os compromissos do dia.

Nada de “Medical Forks” hoje. As passadas no hospital ficariam por conta de minha mãe. Eu estava tranquilo.

— Apesar de que, não sei se isso é tão boa notícia assim. A dona Goreti, vizinha da rua de cima, que é prima do amigo de um rapaz que trabalha com isso, disse que esse tipo de loja estoca muita comida para animais. E, o senhor sabe, isso atraí ratos. Ratos enormes! E não seria nada bom para os negócios aqui se eles começassem a se reproduzir e correr por esses corredores. Acho que essas lojas deveriam ser proibidas nos centros das cidades e...

— Tá! Tá bom, Jéssica. Já me atualizou das últimas. Agora desligue a “rádio fofoca” e vamos ao trabalho. E só para você saber, a vigilância sanitária é tão rígida com clínicas veterinárias como são com as médicas. Ou seja, nada de ratos. Agora mexa-se e faça o que é paga para fazer.

Vi com gosto, um pequeno rubor de constrangimento aparecer em suas bochechas.

— Se o senhor diz... Perdoe-me pela saidinha, é que estava com tempo livre...

Virou-se e me preparou um copo de café. Agora ela já estava em modo secretária eficiente. Era só por isso que eu aturava todo aquele falatório. Quando queria, Jéssica era boa no que fazia.

— Sua primeira paciente, a senhora Jhones, remarcou por causa da chuva. Tentei adiantar os próximos, mas sem sucesso. Então, tem uma hora livre até que o senhor Clark chegue.

Acenei em concordância já rumando para minha sala, equilibrando, milagrosamente nas mãos, o café, a maleta e a agenda.

— Certo! Vou aproveitar para checar os exames dos pacientes de hoje. Envie-os para meu email.

— Sim. Ah! Senhor Cullen?

Voltou a chamar.

Parei já na soleira da porta.

— Sua mãe ligou e pediu para lembra-lo no almoço de domingo na casa de sua avó.

Por um instante, deixei que a lembrança saudosa da família reunida nos almoços de domingo tomassem meu ser.

Há quanto tempo eu não aparecia para aquilo? Cinco anos?

Não suportava ver os olhares de acusação e decepção nos olhos de vovó pelos lugares dos Swan’s estarem vagos na mesa.

E quem poderia julga-la? Eu mesmo me pegava encarando o lugar de Bella com ódio de mim.

— E... A dona Tânia também ligou de novo querendo falar com o senhor ou marcar um horário e eu disse que...

Imediatamente, saí da inércia boa para ser tomado por uma fúria assassina.

— Não me fale dessa mulher, não repasse seus recados, nem marque um horário para ela comigo, Jessica. Quantas vezes vou ter que repetir? Cometa alguma dessas sandices e será demitida por justa causa.

— Perdão de novo, senhor. É que achei que, como faz tanto tempo, o senhor já havia se esqueci...

— Você não é paga para achar. Faça seu trabalho e deixe que eu cuide da minha vida.

— Sim, senhor. Isso não se repitará. E, falando em meu trabalho, o padre Marcus passou por aqui e pediu para lembra-lo do pedido de patrocínio para a festa da matriz na semana que vem.

Sabiamente mudou drasticamente de assunto já prevendo que meu humor havia se perdido totalmente ao mencionar Tânia.

— Ok. À tarde deixo pessoalmente o dinheiro com ele. Agora vamos ao trabalho. Ligue para Jenks e diga que quero atualizações até amanhã.

— Mas, senhor eu fiz isso ontem e ele...

— Ligue para Jenks, Jéssica.

Encerrei o assunto e adentrei minha sala antes que ela dissesse que eu estava alimentando minha loucura de sempre.

O que ela não sabia era que eu não era um homem de desistências. E que algo poderia ter mudado já que vimos movimentação lá pelos lados da Sonho Azul.

“Quem paga pelos seus pecados uma hora terá sua dívida saudada”.

Não é isso que padre Marcus diz toda vez que meu desespero me obriga a ir ao encontro de seus conselhos?

— Calma, Edward! Uma hora dará certo. Tenha fé!

Murmurei baixo, já me livrando da agenda, da maleta e da jaqueta de frio. E só como o copo de café como companhia, subi para a parte de cima onde mantinha um “loft” para as noites em que a solidão de minha casa se tornava sufocante.

Sem demora me dirigi para frente, para o que Alice chamava de janela indiscreta, se referindo à fachada toda em vidro escuro do meu lugar. Eu via tudo, mas ninguém me via, daí a expressão de minha irmã.

Aquilo era mais uma de minhas torturas diárias. Olhar para aquele lugar e deixar-me tomar de saudades por um dos dias em que Bella me fez o homem mais feliz do mundo.

Lembranças on

— Eles chegaram.

Virei-me para a entrada da escola a tempo de ver Emmett, e sua camionete, adentrarem os portões e se dirigirem ao seu lugar de sempre. Exatamente a algumas vagas de onde eu colocava meu carro, presente de Carlisle no meu último aniversário.

— Sua criança chegou, irmãozinho. Agora você vai sorrir, tem muito com o que brincar.

— Rósalie!

— O que, Alice? Só porque você é melhor amiga da “caipirinha de festa junina” não quer dizer que precise ficar cega. Quer apostar que hoje ela está de camisa xadrez, calça jeans e botina? Ou talvez bota, só para variar. Quero ver como ela vai acompanhar o Edzinho aqui nos congressos de medicina que ele pretende frequentar depois de formado e casado.

Rósalie e suas amigas, que estavam a nossa volta, gargalharam alto.

Alice suspirou e eu que não estava no melhor dos meus dias mandei- lhe um de meus piores olhares, mesmo que as palavras dela tivessem me feito pensar por alguns segundos.

— Dá um tempo, Rósalie. E aproveite os três segundos de Emmett antes que ele agarre Leah no meio de todos e te faça babar de inveja.

Alfinetei antes de ajeitar a mochila no ombro e ir ao encontro dos irmãos Swan’s.

Alice me seguiu.

— Bom dia.

— Bom dia, cunhado!

Emmett passou o braço por meu pescoço e me puxou para perto dele.

— Emm!

— O que, irmãzinha? Também senti saudades do Edwzinho aqui.

Emmett brincou piscando matreiro para Bella, que descia do carro e vinha a nosso encontro, vestida do jeitinho que Rósalie havia dito.

Por dois segundos, vislumbrei-a, futuramente, no meio da auto-sociedade médica exatamente daquele jeito.

Aquilo me incomodou... Porém...

— Oi gatinho.

Logo a boca dela estava na minha e o corpo pequeno se abraçando ao meu. O toque das mãos imediatamente em meus cabelos. E a sensação boa me fez esquecer o futuro...

Eu só queria estar nos braços dela. Ah, se o mundo fosse só nós dois...

— Tá bom, irmã. Chega, não é? Está dando um show.

Jasper, de mãos dadas com Alice, tocou o ombro de Bella fazendo com que nos afastássemos.

Como uma criança, ela estirou a língua para ele.

Mais uma vez as palavras de Rósalie...

— Lembra que essa de quem segura à mão é minha irmã, Jasper.

Alfinetei já parando e segurando Bella para que nos afastássemos e tivéssemos um pouco de privacidade.

Emmett já estava em companhia dos Quileutes segurando possessivamente a cintura de Leah, sua atual namorada, para desgosto total de Rósalie.

Uma coisa que eu sabia dos Swan’s, eles perdoavam e perdoavam, porém quando chegavam ao limite nada os fazia voltar atrás.

Emmett havia gastado todo seu estoque com Rósalie. Ela nunca mais teria uma chance. Isso era fato!

Ah, se eu tivesse prestado atenção em minhas próprias conclusões...

Além do mais, Leah não tentava competir com Bella pela atenção de Emm. Pelo contrário, ela conquistara totalmente minha namorada. Chegando até a causar pequenas “crisesinhas” de ciúmes em Alice.

— Pode segurar a mão de Bella também... Não se atrasem, temos prova no primeiro horário, Edward.

— Já vamos.

Virei-nos no primeiro corredor e nos guiei até um dos banquinhos do estacionamento. Longe dos olhares maldosos e também dos irmãos ciumentos, Swan’s.

— Está melhor? Passou a chateação?

Perguntou doce, minha namorada, quando me sentei no banco e a trouxe para meu colo. Meu nariz imediatamente se infiltrou em seu pescoço inebriando-me com seu cheiro peculiar de orvalho, morango e cítrico.

Bella, que com certeza havia acordado bem cedo para ajudar no cuidado com os animais e na vistoria diária das lavouras da Sonho Azul, havia acabado de tomar banho.

— Não! Meu pai não cedeu nem quando Esme intercedeu. Bella, aquele terreno é meu sonho. Uma clínica ali seria o ideal, “o local”. Ele tem o dinheiro. Seria um empréstimo, ou um investimento. Mas, Carlisle não quis nem conversar. Disse que sou instável. Que só acredita que serei médico quando lhe entregar o diploma.

Contei sobre a conversa em família que tivemos na tarde de ontem sobre o terreno, que Bella e eu vimos no centro da cidade quando estávamos indo embora no fim das aulas, e que estava à venda.

O terreno era grande, de esquina, e bem no centro da cidade. Pude claramente vislumbrar, no futuro, minha clínica ali.

Contudo, Carlisle não quis conversa. Disse que poderíamos pensar nisso no futuro. Que eu nem havia entrado na faculdade ainda e que poderia mudar de ideia até lá.

Eu sabia que era uma desculpa. Aquela fora a oportunidade perfeita dele externar sua frustração com minha escolha.

Carlisle não me queria médico. Me queria administrador ou agricultor para cuidar da Paraíso e de seus investimentos nessa área.

Ele não entendia que eu não tinha vocação para aquilo. Eu odiava tudo que se relacionasse a fazenda.

— Hum, não fica assim, amor...

— Não fica assim? Bella, você tem noção do que está me pedindo? Ontem quando te liguei para contar da negação dele eu estava com ódio mortal. Carlisle só não comprou porque fui eu que pedi. Se fosse Rosie ou Alice...

— Não pensa assim, Ed. Ele te ama. Só precisa digerir suas escolhas. Reflita... Você é o filho homem que ele sonhou. É normal que queira que siga seus passos.

— Eu é que preciso digerir as escolhas dele. Qualquer pai teria ficado orgulhoso de mim.

— Teria mesmo. Meu pai tem orgulho de você. Aliás, tenho uma coisa para te mostrar.

Contra minha vontade, se afastou um pouquinho e pegou a mochila que havia deixado no chão quando a trouxe para meu colo.

— Não, Bella. Só fica aqui. O sinal vai tocar em três minutos. Só quero te abraçar. Aliás, o que eu disse sobre chegar mais cedo? Emmett faz de propósito.

Comentei irritado tentando afasta-la do que quer que fosse que iria me mostrar. Poderia esperar... Eu só queria beija-la até esquecer qualquer dúvida que tivesse sido implantada sobre meu pai, nosso relacionamento, o futuro...

— Espera, Edward! Preciso te mostrar isso.

Empurrou minhas mãos e pegou um monte de folha e me entregou.

— O que é isso?

Folheei por alto até ver assinatura de tio Charlie.

— É um contrato de compra e venda. Vá para a última página.

Fiz o que ela mandou e fui absorvendo cada palavra que lia, no fim só pude levantar a cabeça e lhe olhar nos olhos.

Bella sorria com toda a alegria, de menina, que tinha.

— Ontem, quando ligou e disse que tio Carlisle não havia comprado o terreno, comentei com meu pai. Ele achou prudente sua ideia e disse que era um bom negócio. Então, hoje de manhã fechou o acordo com o senhor Ateara. O terreno é nosso! Papai ainda disse que quando estiver pronto para começar a construção da clínica ele te vende ou então, se já estivermos casados até lá, nos dá de presente.

Conscientemente, ignorei a parte do “casados”. Bella estava louca. Eu pensava em uma clínica para daqui a cinco anos. E nunca que estaríamos casados.

Eu tinha muito o que viver ainda...

Porém, aquela notícia...

— Linda, eu não acredito que fez isso. Você é demais.

Coloquei-me de pé e, com ela nos braços, nos rodei de alegria.

— O quê? Só porque estou investindo no nosso futuro? Papai sabe que você é brilhante. Ele também confia que fez a coisa certa.

— Ah, tio Charlie merece um prêmio. Vamos, vamos para a aula. Porque mais tarde preciso passar no empório e comprar para ele aquela cerveja artesanal que ama.

— Ah, Edward. Você é uma graça!

Lembranças Off

Naquele dia eu beijei tanto Bella. E quis, demais, joga-la numa cama e agradecê-la com a boca, os dedos, o corpo...

O que obviamente não aconteceu. Apesar de querer, com toda minha força, minha namorada era muito nova. Eu não podia, ainda, inicia-la no mundo do sexo... Era uma promessa a Jasper e Emmett... A mesma que Jasper me fizera em relação a minha irmã.

Enfim, eu a agradeci como pude.

Infelizmente, não percebi que aquele gesto também significava que Bella seria capaz de tudo por mim...

Deus! Eu nem havia dito que a amava... E ela fazia isso com palavras, gestos, toques...

E quando ela se foi... Tudo foi junto...

Por isso, eu me torturara também quando comprei o terreno em frente ao que tanto almejara e agora, principalmente, observando a nova construção.

Aquele lugar era para ser nosso. Fora comprado para isso...

E agora? Seria de outra pessoa.

Tio Charlie o havia vendido, segundo informações coletadas por Jéssica com os pedreiros que ali trabalhavam. Ao certo decidira se desfazer de tudo que fazia Bella se lembrar de mim. Eles queriam distância.

Por isso, era minha sina olhar para aquele lugar, para minha casa, para mim... E ver, com olhos de dor e sofrimento, o que eu poderia ter sido e não fui...

Bella

Dias atuais

— Oi, irmã. Bom dia. Mamãe está te convocando para o café da manhã. Tudo bem por aqui?

Tirei os olhos dos dedos que encarava, mas verdadeiramente, não via. Minha mente estava muito longe... E Voltei-os para Jasper disfarçando qualquer evidencia em minha face que pudesse denunciar meus sentimentos conflitantes.

— Já vou descer. Está tudo bem, Jas. Só senti falta de Antony no quarto, não foi uma das minhas melhores noites. Acho que não estou preparada para a independência que vocês insistem em já dar a ele.

Dissimulei, tocando noutro assunto que, de verdade, também me incomodava. Antony dormia comigo desde que nascera, porém agora insistiam que ele estava crescendo e que merecia seu próprio lugar.

Meu homenzinho amara essa ideia, já mãe dele...

— Humm! Sei...

O problema é que aquele era Jasper, não Emmett.

Enganar quem espelha você em raiva, decepção e ódio, é muito fácil.

Agora, mentir para quem se partilha amor, como Jasper...

E essa era exatamente a situação que eu compartilhava com meus irmãos em relação aos Cullen’s. Totalmente extremos.

— Tá, e foi essa falta de Antony, que te fez ficar na cama até as oito? Achei que estava louca para cavalgar pela fazenda. Papai até mandou selar o “Tempestade” bem cedo, pensando que você apareceria. Irmã, sou eu aqui...

Sem pedir licença, adentrou o quarto e se sentou a meu lado, segurando a mesma mão que a pouco eu encarava.

Jasper sempre tentava internar-se mais, mas não... Eu não deixava.

A Bella sofrida, existia só dentro de mim e nas caladas das madrugadas, nos momentos de solidão.

Com a família não! Eles já haviam sofrido e passado por muitas coisas por minha inteira culpa.

Por isso, me livrei das mãos dele, me levantei e mudei totalmente de postura.

— Pare com isso. Eu sei que é você aqui. Está tudo bem. Eu só não dormi e estou sonolenta. Vamos logo tomar café, porque o tempo está fechado e quero dar uma olhada nas terras da lavoura, antes que o céu desabe. Precisamos pensar no plantio.

Ele semicerrou os olhos, me avaliou de cima abaixo, concentrado principalmente no vestido jeans que eu usava.

Por fim, deu um suspiro frustrado, contudo não voltou a insistir no assunto.

Jasper sabia que eu não falaria de mim, enquanto pudesse evitar.

— Então vamos logo, porque Antony já desceu e está ansioso para conhecer tudo. E está mesmo com cara de que vem um temporal por aí. Não está pronta para ver seu homenzinho com lama até o pescoço, ou está?

Como um trovão e um raio, as palavras de Jasper me atingiram me remetendo a um tempo que eu fazia de tudo para esquecer.

Lembranças on

— Aonde vai?

Virei-me para ele e sorri o mais travessa possível.

Era por volta de uma hora da tarde de um sábado tranquilo. Havíamos acabado de almoçar, na casa de tio Carlisle, e eu me preparava para ir para casa com Jasper, já que Edward tinha um trabalho escolar para fazer com alguns colegas e eles estavam prestes a chegar.

E como tia Esme não estava em casa, Alice e a chata da Rósalie é que preparariam o lanche da tarde para todos.

Jasper e eu não queríamos atrapalhar...

— Olha só isso, Edward. Está chovendo.

Comentei já colocando a mão para fora da varanda da frente e sentindo os primeiros pingos grossos molharem minha mão.

Como boa filha de fazendeiro que sou, eu amo a chuva.

— Eu sei, Bella. Tira essa mão daí. Você estava lá dentro, quentinha. Vai se resfriar.

— Ah, Edward! Eu não fico doente. Olha só isso. Que lindo!

Sorri mais descendo os três pequenos degraus que separava a casa do gramado da frente.

— Você está maluca? Saia daí, Isabella.

Abri os braços, levantei o rosto para cima e sorri recebendo em cheio os pingos no rosto.

— Isabella!

O ouvi gritar e com gosto aparei alguns pingos nas mãos, em forma de concha, e joguei em sua direção.

— Sua louca! Está me molhando. Pare! Venha se secar, Bella.

Resmungou rabugento se afastando até a parede.

Eu o amava e jurava que quando nos casássemos controlaria aquele lado ranzinza dele.

— Olhe isso, Ed. Já tem lama.

Apontei para uma poça perto da camionete de Jasper.

— Não! Pelo amor de Deus, Bella!

Mas, já era tarde. Eu já estava correndo e pulando, como os dois pés, no meio da água lamacenta.

Barro voou até a raiz de meu cabelo. Era tão divertido.

— O que está acontecendo aqui?

Acenei para meu irmão, Alice e Rósalie que acabavam de se juntar a meu namorado.

— Venham ser felizes. Está chovendo. Papai vai amar, Jas. E a lavoura de milho agradecer.

Meu irmão sorriu para mim junto com minha melhor amiga, porém a irmã deles...

— Seus amigos estão chegando, Edward.

Apontou para a estrada onde um carro se aproximava.

— É isso que quer que eles vejam? É essa garota que vai levar nas suas reuniões de amigos-médicos quando se formar? Poupe-me.

Com toda arrogância que tinha, Rósalie jogou os cabelos, se virou e saiu.

Foi notável como as palavras dela atingiram Edward. Sua resposta foi imediata.

— Pegue sua amiga e, pela porta dos fundos, leve-a ao banheiro dos empregados. Limpe-a para que possam ir embora. Rosie está certa, não quero me envergonhar perante meus amigos.

Foi instantâneo, minha autoestima e a alegria do momento foram ao chão. Eu só estava me divertindo.

Baixei a cabeça arrependida de meus atos.

— Deixe Alice. Nós vamos pra casa.

Respondeu Jasper quando a namorada ficou desconcertada pela atitude dos irmãos.

— Bella está suja, Jas. Vai sujar seu carro. Deixe-me ajudar. É por vocês.

Comentou triste já sabendo que Jasper e eu havíamos sido afetados por Edward e Rósalie.

— Não precisa, Lice. Tem uma toalha na camionete. Eu forro o banco. Depois ajudo Jas, a lavar tudo. Destrave o carro, irmão. Quero entrar. Não quero que os amigos de Edward me vejam.

— Bella?

Jasper fez menção de me seguir de imediato.

— Não tem problema, irmão. Se despeça. Eu te espero.

Lembranças off

Aquele fora um dia ruim, pela primeira vez eu sentira a dor de me achar pouco... Era o prenúncio de que eu não serviria para Edward.

Deus! Como fui tola.

Contudo, o que eu sentia era verdadeiro e mesmo que odiasse cada vez que ele me mandava vestir mais saias, ou deixar de usar botas e chapéus, eu sempre o desculpava e voltávamos às boas. Ainda mais quando Rósalie não estava por perto.

Porém, um dia depois de minha festa de quinze anos foi que o amargor da perda tomou totalmente o meu ser.

Lembranças on

Havia sido uma noite linda. Toda a cidade comparecera a minha festa num dos salões mais badalados de Forks.

Papai e mamãe não pouparam esforços e eu tive o melhor aniversário que essa cidade já viu. Segundo Alice, melhor até que o de Rósalie e dela.

Porém, nada me preparara para o que me aguardava na tarde seguinte...

Eu estava exausta e rodeada de pacotes de presentes, prontos para serem abertos quando fui avisada por nossa ajudante, que Edward estava me esperando na sala.

Refletindo felicidade, fui a seu encontro.

Eu queria demais falar e falar de como ele estava bonito no dia anterior e que tinha realizado meu sonho ao dançar comigo a valsa do príncipe... Ele era meu príncipe na verdade. Sempre fora.

— Oiii.

Assim que o vi me dependurei em seu pescoço e o beijei de leve. Eu estava feliz... Plena...

O que mais uma garota de 15 anos poderia querer da vida? Tinha um namorado lindo. De cabelos cobreados e olhos claros que era o sonho de toda garota da região. Uma família maravilhosa e uma vida espetacular para viver.

— Oi. Quero conversar. Podemos dar uma volta?

— Tem certeza? Eu queria abrir meus presentes. São tantos... Estou precisando de ajuda. Estava pensando em trazê-los aqui para baixo, para que pudesse me ajudar.

Já que papai não o deixava subir para meu quarto. Oh mentalidade...

— Depois fazemos isso. Vamos andar um pouco.

O fitei, mas foi impossível decifrar o turbilhão que se passava por sua face.

Edward estava estranho.

— Tudo bem.

Peguei a mão que me estendia e saí para frente de casa.

Demos alguns passos a mais até que estávamos totalmente escondidos em meio à mata preservada que servia de jardim intocado de nossa propriedade.

— O que foi? O que precisamos conversar que não pode esperar que eu abra meus presentes? Sabe, preciso encontrar o seu.

— Vamos nos sentar ali.

Sério, sem nem levar em consideração a minha tentativa de aliviar o clima, apontou para um tronco de árvore caída bem a nossa frente.

— Edward, está me assustando. O que foi? Por que não se senta?

Apontei para meu lado, quando ficou de pé a minha frente andando para lá e para cá, remexendo no cabelo furiosamente.

Até que...

— Eu não quero me sentar. Preciso fazer isso de uma vez, antes que perca a coragem.

— Coragem para quê? Fale! Está me assustando. Posso te ajudar no que estiver acontecendo. Sabe que eu te amo e...

— Eu quero terminar, Bella.

— Como?

Perguntei baixinho, mais por instinto, porque havia ouvido direitinho o que havia dito. Sentindo o peso das palavras quando eu acabava, de mais vez, me declarar sem receber nada em troca.

— Droga, Bella! Não me faça repetir! Isso não é fácil. Porra!

Baixei a cabeça e friccionei as mãos nos braços de repente sentindo muito frio.

— Não precisa se fazer de vítima. Somos novos. Não é possível que achou mesmo que isso seria para sempre? Tenho dezessete, você acabou de fazer quinze. Temos uma vida pela frente. E ano que vem vou para a faculdade. Quero aproveitar a vida. E não seria justo fazer isso compromissado com você. Até porque, Emmett e Jasper estarão lá. Então...

Deu de ombros com se não fizesse a mínima diferença.

— O que eu fiz, Edward? É por que ainda não transamos? Eu queria esperar mais. O momento certo... Deus! Estávamos tão bem ontem. A sintonia foi... Foi...

— Encenada. Foi isso que você viu ontem. Há tempos tenho pensado nisso e venho adiando, protelando. Não é porque não transamos... Por Deus, Bella! Pare de chorar. Bem que Rósalie vive dizendo que você é criança demais e...

No mesmo instante levantei a cabeça e o encarei com raiva.

— Rósalie!... Sempre Rósalie! Quer saber? Termina mesmo. Vá para a faculdade e o “raio que o parta”. Sua irmã está certa. Sou mesmo muito nova. Não posso me prender a ninguém. Tenho mais dois anos de ensino médio. Vou aproveitar minha vida também.

Era mentira! Deus como era mentira.

Mas, como meu pai sempre dizia, se tem uma coisa que Renée e eu sabemos fazer é esconder nossos sentimentos e demonstrar só o pior de nós.

— Será melhor assim, Bella. Você precisa entender que medicina requer muito do estudante e...

— E que eu nunca poderei ser esposa de um médico. Sua irmã já me contou isso também. E sabe, bom mesmo terminarmos agora. Não quero ser esposa de um médico. Quero ter vida própria. Quero agronomia. Terra, lavoura, mato... Liberdade... Seja feliz, Edward.

Coloquei-me de pé. Abanei a terra da calça e sem espera sai andando rumo a minha casa o deixando parado e sem ação com o meu rompante.

Era o primeiro fim...

Depois daquele dia fatídico, Edward e eu não tivemos mais um relacionamento, muito menos uma recaída.

Víamos-nos, óbvio. Afinal, partilhávamos a mesma família e os almoços de domingo na casa de vovó eram sagrados. Porém, eu sempre dava um jeito de chegar bem quando a comida já estava para ser reservida. Mal cumprimentava, almoçava e saia de volta para casa.

As idas à casa de tia Esme passaram a ser quase nulas ou então sempre em horários que sabia que nem ele ou Rósalie estariam em casa.

Falando em casa, na minha, Edward era assunto do passado. Ninguém mais fazia questão de lembrar-se do que tivemos. Então, sempre surgia um burburinho ou outro dos assédios que ele e meus irmãos sofriam. Mas, pelo que parece, nenhum dava muita “trela” para isso.

Emm porque ainda estava de “rolinho” com Leah, uma amiga e filha do nosso gerente de produção.

Já Jasper, seguia firme e forte com Alice, mesmo com ela ainda no ensino médio. Meu irmão era cavalheiro demais para se prender a esse detalhe. Ele amava Alice.

Agora Edward era a maior incógnita. Se ele havia terminado o relacionamento para aproveitar, não estava fazendo isso direito.

Minha resposta para essa indagação só veio dois anos depois quando também fui para a faculdade... Ali começava o fim da Isabella Swan, a menina moleca, que todos conheciam...

Lembrança Off

— Ei irmã? Acorda! O que foi?

Jasper estralava os dedos a minha frente, me trazendo de uma inundação de lembranças, que agora, junto com as outras eram dolorosa demais.

— Perdão! Perdi-me aqui.

Sacudi a cabeça jogando aquilo tudo para um canto bem afastado em minha mente teimosa que não me deixava esquecer.

— Isso tudo porque eu disse que Antony vai pular na lama? Ah, irmã! Se acalme. Mamãe está paranoica demais com o novo piso. Nunca que ela o deixará fazer isso.

— Como se ele fosse pedir. Como se mamãe fosse brigar com aquele pestinha.

— Você têm alguns pontos.

Sorrimos um para o outro ao lembrarmos quantas travessuras Antony já havia feito, achando, que fora em segredo.

Ele era meu bálsamo.

Por ele, eu me levantava todos os dias. Por ele, eu havia colocado uma pedra sobre o passado e decidido me tornar o que sou hoje: inteiramente mãe e profissional. Só isso.

— Mãe, mãe, mãe!

— Oi, oi, oi.

Respondi sorrindo o pegando no colo quando veio correndo em minha direção.

Eu amava ouvir aquelas palavras do meu “furacãozinho loiro”.

— “Papai Memett”, vai me levar para cavalgar na chuva. Ele disse que é coisa de homem. Mas, só depois de tomar café, porque a “vovó Nenée” fez bolo de cenoura com chocolate. Homens podem comer bolo, não podem, mamãe?

— Homens podem comer bolo, meu amor. Agora cavalgar na chuva... As noites de resfriado ficam para a mamãe. Então como faz?

— Eu disse que ela não ia deixar.

Disse meu irmão, assim que adentramos a cozinha, que era onde fazíamos nossas refeições não formais.

— Mas, mamãe... É sou um pouquinho assim. Um banhozinho pequenininho de chuva.

Soltou meu pescoço e fez, teatralmente, a quantidade com o mindinho e o polegar.

Segurei mais firme em suas costas o impedindo de cair para trás.

Papai insistia que ele estava grande demais para que eu o pegasse, porém ainda não estava pronta para soltá-lo de meus braços.

— Hummm....

Avaliei aquela carinha de anjo loiro de olhos verdes que me trazia tantas memórias. O meu próprio exemplar de amor puro, intenso e sofrido.

Quem poderia resistir?

— Tudo bem.

— Ahhh, mamãe! Você é a melhor.

— Mas...

— Eu sabia. Senta que lá vem...

Emmett continuou me provocando.

Charlie veio até mim, beijou meu rosto e tirou Antony dos meus braços. Seus olhos me avaliaram, porém não disse uma só palavra. Não tocar em assuntos complicados era meu lema e de meu pai.

Eu nunca mais queria vê-lo carcomido pela culpa.

— Cinco minutos só e depois vai direto para o chuveiro quente.

— Mas mamãe, eu vou tá limpinho. Não sei pra que tanto banho...

— É isso ou nada.

Beijei Renée e acariciei a barriga de Leah. Apertei o ombro de Emmett e logo me sentei ao lado de Jasper com Antony ao meu lado.

— Tá bom, tá bom! O que eu não faço pela mamãe bonita? Tomo até banho.

Tomava até banho, alegrava meus dias e cuidava da minha sanidade.

Meu menino... O meu dono... O meu salvador.

Notas finais
Acho que mais três e então... Dias atuais. Próxima postagem será penúltimo extra de Três Príncipes Três Princesas. Beijos e comentem, por favor...