Quando o passado não te deixa viver
17 Eu não aceito um não
Notas iniciais
Alice
“I got the eye of the tiger, a fighter Dancing through the fire 'Cause I am a Champion”
Cantei o refrão. Alto e tão claro que até Katy Perry ficaria com inveja. A música enchia o carro. A melodia alegre invadindo meu ser e tomando minha alma. Eu estava feliz.
“And you're gonna hear me roar Louder, louder than a Lion”
Há quanto tempo isso não acontecia? Há quanto tempo não me deixava dominar por algo tão bobo, tão bom, simples e muito libertador?
“Cause I am a champion And you're gonna hear me roar”
“Batuquei” o volante na parte que eu mais gostava. Os “oh, oh, oh”...
“Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh You're gonna hear me roar”
A esperança palpável, a sensação boa aquecendo o peito.
Eu estava feliz! O sorriso de Bella, a expectativa por poder ver e voltar a falar com Jasper e...
— Droga!
O “mylink” que conectava meu celular ao sistema de som do carro, interrompendo a música e mostrando no visor, perto do painel, uma ligação da clínica de Edward.
— Só podia ser!
No volante mesmo, apertei uma tecla e atendi. Era a única maneira de poder falar ao celular e dirigir, sem ser autuada.
— É bom que seja importante, Edward. Interrompeu a melhor parte da música. Tirando que não estou com um pingo de paciência com você hoje.
— Dona Alice? Graças a Deus! Eu não sabia mais a quem recorrer. O telefone da mãe de vocês está desligado. Tentei seu pai, mas foi dona Rósalie que atendeu, na fazenda, e como sei que o patrão e ela não se dão bem, preferi não falar nada. A senhora era minha última alternativa. Que bom que...
— Jéssica! Jéssica, pare de tagarelar e fale, mulher. Está ofegante como se estivesse correndo. Aconteceu alguma coisa? Edward está bem?
Milhões de pensamentos ruins passaram por minha mente, desde Emmett pegando meu irmão pelo pescoço até Edward enlouquecendo e indo atrás de Bella e Antony.
Sem nem saber como, apertei o pé e pisei mais firme no acelerador. O medo de dirigir, recluso a segundo plano. Algo estava errado.
— Fale! Fale comigo, Jéssica!
— O doutor está bem, pelo que parece. Mas, não posso dizer o mesmo do senhor Jenks. O nariz dele jorra sangue e seu irmão não para. Parece enlouquecido.
— Jenks?
Ah não! Que droga, Edward!
— Sim, senhora. Há dias o senhor Cullen tenta achá-lo e ontem conseguimos. Ele já estava esperando quando seu irmão chegou. Ele estava tão feliz! O chapéu que o menino trouxe o fez sorrir. Há muito tempo que não o via assim. Mas aí o senhor Jenks estava aqui e ele ficou muito bravo e começou a bater e as coisas na sala começaram a cair e se quebrar e...
— Deus, Jéssica! Cale a boca! Você não está falando coisa com coisa. Incoerência pura. Só se acalme. Já estou chegando.
A mulher estava surtando e eu a caminho. E rezando para que os Swan’s não se dessem conta do que estava acontecendo.
Aquele não era Edward. Ele não perdia mais o controle. A não ser, quando o assunto se tratava de Bella e do filho deles.
Edward
— Ai! Você quebrou meu nariz.
— Isso não é nada perto do que te aguarda, seu desgraçado. Eu confiei em você. Coloquei minha vida, meus sonhos em suas mãos. E você me enganou. Desde quando? Desde sempre? Quanto tempo demorou para encontrar os Swan’s? Quinze dias?
O balancei no ar pela gola da camisa, enquanto o idiota segurava o nariz. Sangue frescos descia sem parar da fratura.
Mas, nem isso me fez parar. Eu queria que ele pagasse. Queria descontar em alguém todas as minhas frustrações, todos os anos de espera, dúvidas e ansiedades.
— Calma, Edward! Deixe-me falar. Eu posso explicar. Não é nada do que está pensando.
— Não! Sua vez de falar já passou. Agora eu quero é matá-lo mesmo.
O arremessei, com força, sobre a mesinha de centro bem colocada entre os dois sofás, a esquerda da sala, perto das janelas, que graças ao bom Deus, eram escuras.
O móvel não aguentou o peso e se partiu em pedaços. Cacos de vidro voaram para todos os lados.
— Senhor, pelo amor de Deus! Pare com isso. Vai machucá-lo. Está assustando os pacientes.
— Saia daqui, Jéssica. Dispense todos e vá para casa. O senhor Jenks e eu temos muito que conversar ainda.
Expulsei a secretária assustada, dobrei a manga da camisa e continuei a caminhar para o bastardo jogado sobre os restos do que um dia foi uma mesa. Ele tinha as duas mãos levantadas em minha direção mostrando que estava desarmado e pedindo que eu parasse.
— Por favor, por favor, Cullen. Deixe-me falar. Eu não sabia. Não sabia que estavam no Brasil. Eles trocaram de avião muitas vezes quando fugiram, pagaram bem. Depois “se esconderam” em uma minúscula cidade no interior do Brasil. Não tinham contas em bancos. Não tinham redes sociais. Não usaram os antigos cartões de créditos, nem mexeram no dinheiro que tinham em bancos aqui em Forks. Tenho meus contatos. Os monitorei.
— Já conheço essa história. Tenho relatórios e relatórios dessa balela a cada mês do ano. Durante... O quê? Cinco anos?
Avancei mais um passo e, como um rato, ele se espremeu mais no sofá.
— Por favor, por favor... Eu tenho filhos, Edward.
— Eu também tenho, porra! E sabe como ele me chama? De tio! De tio, sabe o que é isso? Sabe a dor que é não ser reconhecido pelo sangue do seu sangue?
Voltei a agarrá-lo pela camisa e o levantei, pronto para voltar a bater. Eu queria ver a dor nos olhos dele. Queria que ele sofresse um milésimo da dor que sinto por anos.
— Você só tinha que fazer o seu trabalho. Era só encontrá-los. Eu me encarregaria do resto. Talvez se eu tivesse ido até eles, se soubessem que eu estava à procura... Seria mais fácil. Mas, não! Você não me deu a informação que paguei por ela. Mas, tudo bem. Vou resolver isso. Em retaliação vou te matar e depois indenizo seu filho. Ele é tão pequeno nem vai saber quem foi o pai, exatamente como o meu não faz ideia de quem eu seja.
O sacudi com violência e bati seu corpo na parede. Soltei uma mão e me preparei para voltar a esmurrá-lo.
A cegueira dominando...
— Pare! Pelo amor de Deus, Edward! Pare! O que pensa que está fazendo?
Sem que eu esperasse, Alice entrou, como um furacão e colocou a mão sobre meu braço armado para o golpe.
— Saia! Você não será uma cúmplice. Saia daqui!
Gritei e me balancei para que ela soltasse.
— Eu não vou sair! Olhe para lá... As cortinas estão abertas. É questão de minutos até que percebam que algo está errado. Antony está ali, Isabella também. É isso que quer mostrá-los? Quer mesmo que Bella veja que o monstro ainda vive aqui.
Deslizou mais a mão e a plantou por cima do meu coração.
— É assim que pretende que ela confie Antony a você? É assim que quer ser perdoado? É assim que vai reconquistá-la? Esse é seu belo plano, irmão? Esse não é você. Olhe para essa sala?
Acompanhei seus gestos, olhando ao redor.
Mesa quebrada, móveis fora do lugar, vasos e enfeites espatifados, quadros tortos na parede.
Contudo, não foi nada disso que me fez parar e soltar o pescoço de Jenks.
Foi o chapéu. O meu presente permanecia intacto onde o deixara. Parecia que zombava da minha perda de controle.
— Ah!
O soltei, e nervoso, muito nervoso ainda, fui até o frigobar e peguei uma garrafa de água. A tomei num gole só.
Alice, astuta, foi até as janelas e fechou as persianas, depois se encaminhou para a porta e a trancou.
Simplesmente fechou o mundo lá fora.
— Graças a Deus, senhorita Cullen. Ele ia me matar. Ia sim.
O homem ofegava enquanto esfregava o pescoço e estancava o ferimento no nariz.
— Talvez eu ainda o deixe fazer isso, seu mentiroso. Seja homem e “desembuche”. Também quero saber a verdade.
Como uma lady, ela voltou para perto de mim, já tirando o lenço, que cobria seus cabelos e os óculos escuros. Juntou tudo com a bolsa e depositou em minha mesa.
— Eu já disse tudo o que sabia. Só os descobri há pouco tempo quando já estavam de volta marcadas. Achei que nem convinha avisá-los mais. E...
— O que está fazendo?
O idiota e eu perguntamos juntos quando percebemos que ela nem o escutava mais e já pegava o telefone da linha fixa e discava alguns números.
— Ligando para a polícia, depois para o conselho de detetives e logo após para nosso advogado.
— Como? Por que?
Alice era esperta, muito mais esperta que eu. Suas engrenagens funcionavam a todo vapor. Era quase possível notá-las girando.
— Estelionato, fraude, com certeza, falsidade ideológica... E quantos mais crimes pudermos enquadrá-lo. A agressão de Edward não será nada perto do que responderá.
— Não! Por favor, senhorita. Eu falo. Conto tudo que quiserem. Só não envolvam a polícia. Eu tenho família. Sou o sustento deles.
— Pensasse nisso antes de me enganar e...
— Pare, Edward! Cale a boca!
Alice me olhava brava. Era óbvio que tinha algo em mente e que eu estava atrapalhando.
— Comece a falar, Jenks. Meus dedos estão coçando.
Levou a mão até o telefone e foi mais uma vez a deixa para que o homem se assustasse.
— Espere, vou falar... Tá eu confesso. Sabia onde os Swan’s estavam e...
— Ora seu...
Voltei a deixar a raiva me dominar e estava mais uma vez a ponto de arrebentá-lo quando Alice se zangou, e quando eu digo se zangou, é se zangou mesmo.
— Chega! Cale a boca ou saia imediatamente daqui. Deixe de ser um maldito egoísta, só uma vez na vida! Eu também fui afetada em toda essa situação. Estou pagando por algo que nem sei o que é. Quero e exijo uma explicação de Jenks, porque também depositei minhas esperanças nele. Se acha que é capaz de se acalma e escutar, muito bem. Se não “dê o fora daqui”!
Com vergonha e sentindo no âmago tudo que ela desabafara, silenciosamente, acenei em concordância, me sentei atrás de minha mesa e fiquei quieto. A raiva parcialmente adormecida.
— Pois bem, agora fale, Jenks. Porque já deu para perceber que paciência não é uma das características de Edward. E não sei até quando conseguirei segurá-lo.
— Tá. Como eu ia dizendo, sim eu sabia onde os Swan’s estavam, porém não foi tão fácil e há tanto tempo como imaginam. A princípio os relatórios eram verdadeiros. Eles partiram daqui, foram para Port Angeles. E foi de lá que começou a sina. Passaram por Seattle, trocaram de avião, uma UTI mais equipada tecnologicamente os aguardava. Como o avião era maior, podia voar maiores distâncias. Então só aterrissaram em São Francisco onde passaram algumas horas e descansaram enquanto dona Renée levava Bella para o Hospital Presbiteriano e fazia uma bateria de exames. Tenho isso tudo catalogado, vou lhes entregar. Eu sabia que esse dia chegaria.
Mordi a língua e fechei as mãos em punho, a vontade de mandá-lo enfiar os papeis no... Primeiro buraco que encontrasse em seu corpo, foi muita.
— Depois de umas quatro horas, eles pegaram outro avião e aí já não usavam mais seus documentos originais. Uma série de identidades falsas foram usadas. O que dificultou demais a minha vida. Enfim, de São Francisco voaram até Los Ângeles, a última parada em território americano. Porque depois o senhor Charlie alugou um avião maior. Eles tiveram autorização para sair do país três dias depois da saída daqui. A situação toda é muito sombria e podem apostar que meios escusos e nada legais foram utilizados para essa liberação, afinal tinha uma mulher doente embarcando. Mas, dona Renée tinha tudo sob controle e as15: 30hs daquele dia, eles partiram e só pararam na Cidade do México. Ainda descobri que pararam em Bogotá, na Colômbia, para reabastecer e o destino final dessa aeronave, foi em Manaus, já no Brasil onde minha pista se perdeu de vez. Nem sei como chegaram ao interior, que foi onde os encontrei. Mas, todo esse roteiro eu só consegui descobrir dois anos depois de começar a trabalhar para o senhor. Porque até então, eu não tinha nada. Eles foram espertos, deixaram muita pista falsa por onde passaram. Precisei subornar pessoas em três idiomas e cada pequena vitória vinha acompanhada de mais um monte de possibilidades. Foi um inferno. E eu ainda não tinha o destino final deles. Só a possibilidade de estarem no Brasil.
Ele falava de inferno? Isabella passou mais de três dias dentro de um avião, com certeza, dopada, com dores, lesões gravíssimas, correndo risco de morte e colocando nosso filho em perigo, tudo para estarem o mais longe possível de mim.
Se isso não era o inferno eu não sei o que era.
— Continue.
Murmurei entre dentes. Meus pensamentos não ajudavam o tal do autocontrole.
— Então, em um belo dia, depois de muito pesquisar e esmiuçar, descobri em uma cidade pequena, no interior do estado do Mato Grosso, no Brasil, uma família estrangeira que estava revolucionando a cidade, os Higginbotham. E como já vinha pesquisando muito a árvore genealógica de toda família deles, a assinatura, igual a dos pais de dona Renée, me chamou a atenção e resolvi investigar e eis que... Deparo-me com os Swan’s.
Respirei mais forte e senti o primeiro sinal de dor de cabeça.
— Investiguei, os segui, tirei fotos e juntei provas. Estava pronto para voltar com a informação, quando num erro primário, o sol pegou na lente da câmera, fez reflexo, e delatou minha presença a Emmett Swan, quem eu seguia no momento. Ainda tentei fugir, mas ele gritou os peões e fui pego antes de chegar à saída. O engraçado é que a primeira reação dele foi igual a do senhor.
Jenks abriu um sorriso medonho, ao que parece se lembrando de algo. O rosto já começando a se deformar por causa dos ferimentos causados por mim.
— Coloque isso!
Alice lhe entregou um pacote de gelo que eu sempre deixava no frigobar para eventuais socorros na clínica.
— Obrigado. A senhora é boa.
— Não se engane. Só quero que tenha condições de terminar a história antes do inchaço tomar todo o seu rosto.
— Então é melhor eu continuar. Ai...
Resmungou quando a gelo entrou em contato com a bochecha.
Meu senso de médico me mandava socorrê-lo. Mas, meu senso de homem enganado foi mais forte e fiquei quieto em meu lugar esperando que continuasse.
— Emmett me bateu. Bateu forte e muito. Queria que eu dissesse quem me mandou e se já havia os delatado. Nossa! Perdão, senhor Cullen, mas seus socos são como plumas perto dos dele. No entanto, me mantive firme. Não disse uma palavra. Isso o deixou insano. Acho que teria me matado se o senhor Swan não tivesse entrado no galpão de armazenamento dos insumos e nos encontrado. Ele me salvou, de certa maneira. Chamou um veterinário, lá da fazenda mesmo, e ele cuidou dos meus ferimentos. Fiquei uma semana, nos alojamentos dos empregados no retiro. Bem longe da casa principal. E quando consegui abrir os olhos de novo, fui encurralado pelo tio de vocês. Tentei me manter fiel a minha palavra. Calei-me. Porém, uma coisa é ser ameaçado e ser agredido. Outra é ter sua família colocada em jogo. E, só para constar, o senhor Charlie sabe ser persuasivo. Ele aproveitou enquanto me recuperava e mandou levantarem tudo sobre mim. Ele sabia dos meus filhos, da minha esposa. Onde frequentavam, o dia a dia certinho. E não se importou em usar isso contra mim.
Duas lágrimas grossas escorreram do rosto machucado.
— Não pensei duas vezes. E lamento dizer, mas faria de novo. Contei-lhe tudo que queria saber, entreguei vocês. Ele ficou possesso. O homem falou mal até a oitava geração passada de vocês. E quando achei que era a vez dele descontar seu ódio, fui surpreendido. Ele triplicou sua proposta, Edward. Me fez jurar que nunca contaria a localização deles e que o manteria informado caso mudassem de investigador ou de tática. E eu fiz e fiz bem porque vocês nunca desconfiaram. Até o dia em que liguei para casa e minha esposa contou que os Swan’s haviam retornado. Eu sabia que os dias estavam contados até o prestar contas a vocês. A “mina secou”. Não tem mais dinheiro dos Swan’s nem dos Cullen’s. Só duas famílias destruídas pelo ódio. E eu contribuindo para que isso se agravasse.
Fiquei quieto. No lugar da raiva, indignação e tristeza. Tristeza pela ganância do homem. Tristeza pela falta de piedade de tio Charlie.
— Isabella e Jasper eles... Eles...
Alice agia como advogada, já que eu estava mudo.
— Os dois mais novos? Não! Eles não sabem da minha existência. Aliás, nem o senhor Emmett sabe. Ele só me pegou. Depois o pai tomou conta da situação. Antes disso, os vi de longe e fotografei. Não tenho mais essas fotos, Charlie ficou com elas.
— Quanto tempo demorou, ao todo, para encontrá-los desde que o contratamos?
— Três anos. O pequenininho era só um tanto de cabelo loiro ralo correndo de um lado para o outro em meio à lavoura e os animais. Era a diversão do dia encontrá-lo. Os tropeços do caminhar inseguro. As palavras saindo pelas metades e...
— Saia! Vá embora! Suma daqui e não volte nunca mais. Juro que te coloco na cadeia pelo resto de sua medíocre vida se o ver perto de nós ou dos Swan’s de novo.
Aos gritos, me coloquei de pé e firmei as duas mãos na mesa.
Eu aceitara tudo depois que Alice chegou aqui, contudo, o maldito falava do meu filho. Pelo relato os encontrara quando ele estava mais ou menos com dois anos. E não me contara. Vira mais e sabia mais do meu bebê do que eu. E isso eu não aceitaria.
— Senhor Cullen, eu lamento. Gostaria que me perdoasse. Tem um filho, sabe o que faríamos por eles.
— Não! Eu não sei! Conheço meu filho a pouquíssimo tempo por sua culpa. Então, não. Não te perdôo ou desculpo. Suma da minha vida!
Fiquei mais bravo ainda. E foi a vez de Alice intervir de novo.
— É melhor você ir, Jenks. Não tem mais nada o que fazer aqui e é questão de tempo até eu não conseguir controlar mais meu irmão. Portanto, vá embora. Só vá!
— Tudo bem. Eu só queria que soubessem que o senhor Charlie não é mau. Eu faria a mesma coisa, ou até pior se alguém tivesse feito o que o senhor fez com a filha dele.
— Vá embora!
Fui até a porta e abri. Ele não pensou duas vezes. Saiu sem dizer mais nada. Algo me dizia que o veria de novo, mas no momento me senti aliviado ao escutar a porta da frente bater e o silêncio voltar a dominar o ambiente, já que a recepção estava totalmente vazia.
— E agora?
— Agora vou ligar para Jéssica e pedir que volte e confirme meus pacientes da tarde. E você?
— Edward, você precisa de um plano. Tem que parar de agir como um troglodita perseguidor e partir para a conquista. Nesse marasmo não terá Bella e seu filho contigo.
Sorrindo como uma criança em dia de Natal, olhei para o chapéu. Ele era a chama de esperança que eu precisava num dia como hoje.
— Fique tranquila, irmã. Tenho um plano. Agora porque não vai para a loja e ocupe um pouco do seu dia. Vou ajeitar as coisas aqui e tomar um banho. Para depois começar mesmo, a trabalhar.
Fechei meus braços em volta dela e beijei sua testa. Ela expirou alto. Muito frustrada com tudo que eu fizera.
— Não sou sua babá. Não vou ficar correndo para cá a cada ato desesperado seu. Aprenda a se virar, irmão.
— Eu não te liguei, Alice.
— Não, mas teria matado aquele homem se Jéssica não o tivesse feito. Da cadeia seria muito fácil conquistar Bella e Antony, não é? Você precisa parar de agir como um desesperado.
— Vou parar, eu prometo. Agora vá embora, ou então terá que me ajudar a arrumar essa bagunça.
Ela olhou por todo o lugar, prestando bastante atenção ao vaso de folhagens tombado a esquerda, tinha terra para todo lado.
A caretinha que fez foi hilária. Alice estava impecável em um terninho rosa claro, era óbvio que não pensava em se sujar.
— Eu passo! Aliás, tenho assuntos do papai para resolver e vou começar agora. Deseje-me sorte.
— Agora?
— Agora. Não vou adiar. Quero ver Jasper e resolver nossa situação.
Voltei a apertar meus braços em volta dela. Como se pudesse fazer com que só coisas boas saíssem daquele encontro.
— Vá lá! Mostre para aquele Swan o que perdeu. E depois de falar muito, o perdoe. Seja feliz, irmã. Você merece.
— Você também merece, Edward. Pare de fazer burrada e comece a lutar. Tem um futuro te esperando.
— Eu sei... E vou começar a cuidar disso.
Bella
“- Então, assim... Se eu “pelgar” uma coisa “emplestado” na loja... Não, “espela” se eu pegar duas coisas na loja, “emplestado”, mas que não vou devolver. Não é “loubo” né, mamãe? “Polque” se “fô” eu “to enlolado”.
Droga! Droga!
— Antony Swan! O que você fez?”
— Você “cholou”?
— O quê? Esta desviando o assunto. Quero saber o que pegou da loja? Isso não se faz a mamãe já te explicou.
Ele me olhava bastante sério, o ar de diversão de agora a pouco nublado perante a carinha de preocupação me avaliando com os olhos verdes, que herdara do pai.
— Eu sei. Me “peldoa”? Antony não “quelia” que mamãezinha “cholasse”. Não “telia” pegado os chapéus se soubesse que “ficalia tliste”. Eu devolvo. E peço o tio “Edwald” o que deixei para ele e...
— Espera! O que está dizendo? Que chapéus?
Caminhei, com ele ainda no colo, para mais no fim do corredor. Não queria que Emmett, que ainda estava na sala de Jasper, ouvisse do que falávamos. Eu suportaria sua ira, mas nunca permitiria que ela se virasse para meu filho.
— Dos chapéus de “blinde” dos clientes que peguei na caixa lá na loja. Peguei uma “pala” mim e outro para tio “Edwald” e fiz o tio Mike me levar lá e “deixá pala” ele, “polque” a moça disse que não tinha chegado. E “agola” você tá “tliste e cholou”. Desculpa o Antony, mamãe? Eu busco de volta.
Lá no fundo minha consciência alertava de que um presente para Edward era algo que eu devia dar mais atenção e me preocupar. Porém, meu pequeno tesouro estava em meus braços pedindo perdão por algo tão infantil, achando que a culpa de minha dor ela dele.
— Oh, meu amor! Não precisa se desculpar. A loja também é sua, os brindes são seus. Pode dá-los a quem quiser. Mamãe só quer que avise a algum adulto quando o fizer. Certo? Não precisa se desculpar por isso. Não estou triste por isso. Só estou cansada. Levantei bem cedo hoje.
Emmett escolheu esse momento para sair da sala de Jasper, seu olhar parou em nós e a preocupação ficou evidente em sua expressão.
— O que está acontecendo?
Perguntou ameaçando vir até nós.
— Não é nada!
Respondi rispidamente. O parando.
Eu não precisava que Antony contasse que deu um presente a Edward. Eu não precisava ouvir que estava amolecendo e levando meu filho comigo. Eu não precisava das palavras ferinas de Emmett na presença de Tony.
— Antony, você está bem? Está sentindo algo?
Meu pequeno se soltou dos meus braços e com astúcia olhou de Emmett para mim, três vezes.
— Mamãe “cholou”, papai “Memett”. Algo não tá bem. E quando ela fica “tliste” eu “tabém” fico. A gente “quê filcar” sozinho, “pô favõ”.
A expressão de preocupação foi substituída pela de culpa. Só Antony conseguia algo tão rápido. Só meu pequeno esperto, para atingir as pessoas de forma tão simples e letal.
— Vou voltar para a fazenda. Acho que já fiz demais por um dia. Gostaria de conversar com você quando chegar.
Não era uma pergunta, por isso não me dei ao trabalho de responder.
Apertei mais Antony junto a mim.
— Mamãe começa a dar “laulas” hoje. Acho que não vamos “dolmir” na fazenda. Vai “chegá” cansada. Titio Jas não vai se “impoltar”.
— Bella?
Continuei em silêncio só pensando em como Antony sabia das coisas mesmo com pouca idade.
— Está bem. Eu já vou. Depois conversamos. Não esqueça que Antony tem fonoaudióloga.
Sem se despedir direito e pelas portas de acesso a garagem, ele saiu. O alívio veio de imediato.
— Foi o tio Memmett. Você me pediu “pá tê” paciência. E “agola” tá “cholando” por culpa dele. Isso não é legal. Ele não pode “bigar” com você.
E dizem que crianças não entendem. Nada passa despercebido de Antony.
— Olha, mamãe está bem. Você consegue esse milagre em mim. Tio Emmett só está cansado também, já, já passa. Não precisa se preocupar com coisas de adulto. Agora por que não vai brincar lá no fundo? Deixei sua fazendinha e seus animais lá, ontem à tarde.
— “Celteza”? Posso te “ajudá” na loja.
— Vai ajudar fazendo coisas de criança só um pouquinho. Daqui a pouco é hora de tomar banho e ir para a escola.
— Tá bom. Mas, se “plecisar” “plomete” que me chama?
— Prometo, seu sapeca.
O beijei antes que escapulisse de meus braços.
E como previ, ele saiu correndo assim que o coloquei no chão.
Aproveitei e rumei para minha sala. Precisava lavar o rosto e retocar a leve maquiagem antes de voltar a trabalhar. Não queria que as pessoas soubessem que a nova Isabella chorava.
Contudo antes que conseguisse alcançar meu objetivo, Antony me deu a segunda surpresa do dia.
— Mãe, olha quem eu achei na loja. A tia Rebecca não “quelia” deixar ela “entlar pala” falar com tio Jas. Você “pelsisa convelsar” com ela, mamãe.
E ali, bem ali em meu corredor sendo arrastada por Antony estava Alice Cullen, muito corada, creio eu, de raiva e até pouco de vergonha, mas, ao mesmo tempo com um sorriso orgulhoso e muito feliz pela atitude do sobrinho.
— Oi. Eu não queria invadir, estava só pedindo à moça que os chamasse, mas ela se recusou. Então Antony entrou e...
— Tudo bem. Não se preocupe. Antony, solte sua tia.
— Tá. Eu vou lá “bincar” com meus “binquedos”. Foi bom te ver Tia Lice. Você fica “bolnita” de “losa”.
Galanteador, ele ainda a puxou pelo braço para que se abaixasse e beijou seu rosto.
— Obrigada! Você é muito esperto, rapazinho. Sua mãe fez um ótimo trabalho com você.
— Um lindo “tabalho”.
— Antony...
— Tá mamãe. “Zá vou”.
Frente a frente. A saudade era tanta... Ela parecia à mesma. Nenhum fio fora do lugar. Linda e delicada como sempre.
— Ele é uma peça. Fico admirada com tanta inteligência.
O nervoso vinha dos dois lados. Ela, segurava a bolsa na mão e a apertava como se aquilo fosse salvá-la de uma inundação.
Eu, me mantinha parada, totalmente congelada e sem graça. Sem saber o que fazer.
— Um sapeca, isso sim. Enrola todo mundo com duas palavras e...
— Ele se parece com Edward.
Surpresa pelo rumo que ela tomou, dei dois passos para trás.
Droga! Quando acho que estou preparada... Simplesmente travo.
— Olha, Bella...
— Bella, quando for levar Antony na escola pode passar no banco e fazer esse pagamento para mim?
Como nada em nossa vida pode ser tranquilo, Jasper escolhe esse momento para abrir a porta.
Certeza de que minha expressão era estranha, porque assim que tirou os olhos dos papais e me encarou, notou que algo não estava certo.
E então, sem alguém se manifestasse, ele olhou para o outro lado e viu Alice.
Quem não o conhecia diria que ele foi forte, que não teve a menor reação ao encontro inusitado, porém, era meu irmão ali. O leve balançar das folhas o entregou. Jasper tremeu.
— Jas, Alice veio fazer o pagamento dos serviços prestados a Paraíso hoje de manhã. Emmett já deve ter de deixado a par de tudo que fizemos.
Emmett! Graças a Deus ele havia ido embora.
— Tá, eu vou fazer a somatória e já levo para a loja em um minuto. Podem esperar lá.
Rá irmão, se eu não teria o meu “felizes para sempre” você teria, se dependesse de mim.
Não dava para fugir. Nem sua voz trêmula me compadeceu. Nunca concordei com a atitude dele. E agora os ajudaria. Era meu dever.
— Na verdade, irmão, Alice está precisando tomar uma água. Acho que Rebecca não foi legal com ela. Por que não a leva para sua sala e oferece algo refrescante? Vou conversar com nossa funcionária.
Ele voltou a me olhar e eu não sabia se tinha mais indignação, surpresa, raiva ou dúvida em sua expressão.
Dei de ombros como se aquilo não fosse nada.
— Certo! Venha, senhorita Cullen. Vou te ajudar. E você? Conversamos mais tarde.
— Entre na fila. Emmett já me intimou.
Ele segurou a porta para uma Alice cheia de postura, era óbvio que também estava nervosa, mas uma coisa que minha amiga nunca fora era medrosa. Ela enfrentava as situações. E era chegada a hora de enfrentar o passado. Ela aproveitaria a oportunidade, eu sabia disso.
Jasper ainda fez uma mímica de “traidora” antes de fechar a porta atrás deles. Ok, eu poderia conviver com aquilo se pelo menos eles se acertassem.
Por isso, com a consciência tranquila, parti para a loja a fim de trabalhar um pouco e aproveitar e dar uma bronca em Rebecca, que aparentemente estava deixando seu amor platônico por Jasper interferir em seu trabalho. E Também em Mike que andava se deixando levar por Antony e suas peraltices.
É, hoje seria um dia longo, muito longo.
Alice
— Sente-se! Temos água, suco, refrigerante e água de coco. O que prefere?
— Água com gás, por favor.
Ele deu um mínimo sorriso antes de vir até mim e colocar um copo e uma garrafa a minha frente. Antes que eu tivesse a chance, a abriu e me serviu.
O Jasper educado que eu conhecia.
— Têm os dados da fazenda aí?
— Como?
Ele se sentou e começou a mexer no computador. Minha mente vagava tanto que juro, estava perdida na pergunta dele.
— Os dados da fazenda: razão social, número do cartão do produtor, inscrição estadual, CNPJ, endereço. Preciso disso tudo para tirar nota fiscal.
— Ah, sim.
Tirei um cartão da bolsa e o entreguei. Carlisle não mentira quando disse que eu cuidava das finanças da fazenda.
— Isso só vai levar um minuto. Só preciso cadastrá-los como clientes e...
Segurei mais forte o copo em meio as mãos. Ele nem me olhava.
— Eu senti sua falta, Jás. Aliás, eu sinto sua falta. Só Deus sabe como queria arrancar esse sentimento de dentro de mim, mas não posso. Sinto sua falta todos os dias. Sonhei com o dia em que voltassem. Agora sonho com o dia em que poderemos conversar e nos resolver. E você está aí, sentado, sem nem me olhar. Falando de burocracia quando sabe que isso é uma desculpa para conseguir a chance de falar com você. Então porque não para de agir como um idiota e começa a me dar as explicações que eu mereço? É o mínimo que pode fazer por mim depois de ter fugido e parado com minha vida por quase cinco anos.
Então, com meu rompante, ele parou. Deixou de digitar e voltou o rosto para mim. Tinha um milhão de sentimentos expressos ali, mas, cansaço e decepção eram mais evidentes. Se ainda tinha amor estava bem escondido atrás de tanta dor.
Contudo, eu não me compadeceria. Deus sabe se terei outra chance como essa.
— Deixe o passado no passado, Alice. Somos adultos agora. Magoar-nos mais para quê?
— Nos magoar mais? Isso é possível, Jasper? Deixar o passado? Por um acaso ainda vivo nele. Porque minha vida está parada. Eu ainda sou sua namorada. Que eu me lembre, ninguém terminou com ninguém naquela noite.
Não eu não me calaria. Estava ali para saber o porquê de ter sido castigada, juntamente com Edward, já que eu não tinha nada a ver com as confusões dele.
— Você foi embora! Desapareceu sem dar noticias. Estávamos bem. Eu tinha te consolado horas antes. Eu estava sofrendo também. Era minha amiga ali. Meu tio. Minha família.
— Ah, poupe-me! Estava, Alice? Você realmente estava sofrendo? Por que não foi isso que descobri quando saiu pela porta daquele hospital naquela merda de noite.
Sem querer, algo que eu falara despertara a fera, porque, não tinha mais disfarce. Ele dispensara os papeis e o computador e se virara totalmente para mim.
— Como assim? O que está dizendo? É claro que eu estava sofrendo. Esta duvidando dos meus sentimentos por você, por Bella, por sua família?
— Olhe, deixe isso para lá. Já temos mágoas o suficiente, não quero alimentá-las mais. Nós estamos bem, vocês estão bem. Vamos viver nossas vidas em paz.
— Bem? Todos estão bem, Jasper? Em que realidade vive que não percebe que nossos irmãos ainda se amam e vivem sofrendo separados. E nós? Se viver esse tempo todo esperando é sinônimo de viver bem para você. Então estou desatualizada.
Ele não se abalou com minhas palavras, pelo contrário foi direto ao ponto. Sem gritar, sem se deixar dominar pelo sentimento. Só o Jasper ferino e bravo que eu conhecia quando atiçado.
— Não se faça de dissimulada e boa moça, Alice. Estamos só nós aqui, não precisa. Se quiser a verdade, terá a verdade. Naquela noite, assim que foram embora, a polícia chegou com os pertences de Bella e papai, recolhidos do local do acidente. Era tudo um caos de plástico queimado, misturado a sujeira e fuligem. Contudo, o celular de Bella permanecia intacto. Aparentemente estava no bolso dela e caiu quando socorreu nosso pai. Emmett e eu não queríamos invadir a privacidade dela, porém, o vasculhamos. Precisávamos de respostas. Ela não estava bem há dias. Enfim, mexemos. E qual foi nossa surpresa ao ler todas as mensagens de aplicativo dela. Como te pediu ajuda, Alice. Implorou para que ajudasse a entender o que estava acontecendo com Edward. E você nunca respondeu com franqueza, eram sempre respostas curtas e evasivas. Nunca disse a ela que Rósalie e Tânia estavam tramando por suas costas. E você sabia, Alice! Sempre soube, avisou a seu irmão para tomar cuidado. Eu tinha o seu aplicativo baixado em meu computador, porque você o baixou quando perdeu seu telefone e demorou até que comprasse outro. Nunca havia entrado sem você, nunca havia mexido, mas naquela noite... Comparei as mensagens, Alice. Você deve ter se divertido demais as custa de Bella e sua inocência.
Respirou com dificuldade e deixou o olhar parado por alguns segundos, como se relembrasse de algo doloroso.
Deus! Era esse o motivo. A minha omissão. Eu pecara por omissão e estava pagando.
— Jasper...
— Não! Não me venha com Jasper! Edward e você sempre foram confidentes na calada da noite. Tinha isso nos arquivos de suas mensagens também. Os imensos conselhos que seu irmão dava a respeito de nosso relacionamento, Alice. O nosso relacionamento! Que até então era completo para mim. Ele me julgava, achava que eu te dava pouca atenção. Achava-me pouco para a irmãzinha perfeita dele. Tem uma parte que nunca vou esquecer, dizia que eu “sempre teria terra debaixo das unhas”. Hipócrita de merda! Quando ignorava uma namorada já grávida.
A raiva o dominava e minha vontade de desabar aumentava na mesma medida que as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.
— Ele não sabia, Jas.
— Não sabia porque não quis saber. Bella nos contou, meses depois, quando Emm e eu já havíamos desistido de matá-lo, que lhe deu um exame. Ele ignorou. Preferiu terminar com Bella e humilhá-la beijando Tânia. Bella quase morreu muitas vezes naquela semana, Alice. E meu pai se culpa por isso! Minha linda irmã, podia ter sofrido um acidente na mata ou, pior, ter desistido da própria vida, tomada pela depressão. Mas, não! Foi a maldita fatalidade que transformou nossa vida. Meu pai estava dirigindo. Sabe o que é isso? Ela não deveria estar com ele. Deveria estar na universidade ou gastando dinheiro com futilidades, mas então não seria Bella, não é? Preferiu se fechar em dor, e meu pai fez de tudo para distraí-la. Até a colocar em risco naquele dia infernal. Sabia que há poucos dias ele mandou, do próprio bolso, reformarem e sinalizarem toda aquela curva? Bella e Antony poderiam ter morrido. Seria nosso fim se isso tivesse acontecido.
Os olhos dele também se encheram de lágrimas. Quis demais consolá-lo.
— Jas...
— Não me chame de Jas! Nunca mais! Você perdeu esse direito! Vocês nos destruíram. Cada um, fez sua parte. Edward e Rósalie foram os maiores culpados, mas você e seus pais foram coniventes. Isso é família, não é? Um apóia o outro. E foi exatamente isso que fizemos. Emmett e eu lemos as mensagens de Bella e não foram só as suas, tinha as inúmeras que mandou para seu irmão e foi ignorada logo depois da primeira noite deles. E por fim, quando o médico disse que o caso de Bella se agravou muito porque ela se esforçou demais para tirar papai da camionete. Não teve o que pensar, Alice. A colocamos em um avião e fomos embora. Escolhemos nossa irmã. Ela teria como recomeçar.
— Emmett levou Leah, se você tivesse me avisado, Jasper... Eu também iria nem pensaria duas vezes.
— E não me arrependo. Você não foi amiga de Bella, foi irmã de Edward. Agi da mesma maneira. Não fui seu namorado, fui irmão e logo depois tio de Antony. Sabe quantas noites dormimos num hotel quando chegamos ao Brasil, Alice? 91 noites! Até que Bella saiu de risco, tanto de vida quanto da gravidez. E foi só aí que colocamos a cabeça no lugar e começamos a procurar um lugar para viver. Você me perdeu. Eu perdi uma vida, um futuro planejado. Optei por minha irmã e faria de novo. Não foi isso que fez sempre? Optou por seu irmão?
Foi, foi isso que fiz.
No fundo, sabia que esse era o motivo, sempre soube. Só não quis dizer em voz alta para que não se tornasse verdade e agora estava ali sendo jogado em mim, como um balde água fria.
Então fiz a única coisa que me restava. Implorei.
— Desculpa, Jas? Me perdoa? Edward é meu irmão. Passamos por coisa demais juntos.
— Eu sei. Por isso, não te julgo, nunca julguei. Só desisti. Bella também é minha irmã e protegemos a família. Ela nunca teria a chance de recomeçar aqui. Antony vem acima de qualquer coisa em nossa família. Até mais do que esses sentimentos idiotas de amor.
Agora que o desabafo acabara só restava tristeza, ele parecia melancólico e muito abatido.
— Não são sentimentos idiotas e você sabe disso. Nos amamos desde o momento que nos conhecemos. Errei muito e você também errou por não ter me dado a chance de me explicar.
— Sei disso e assumo minha parcela de culpa. Mas, Bella não aguentaria, Alice. Ela precisava se curar para ressurgir e sua presença não ajudaria. Eu fiz uma escolha. Não se culpe. Seja feliz! Se for isso que espera para seguir em frente, eu te libero, Alice. Seja feliz. Eu te perdôo.
Indignada e sofrendo com ele, não resisti. Estendi a mão e segurei a sua.
— Não posso ser feliz sozinha. Não posso seguir em frente sem você. Porque eu te amo, Jasper Swan. Assumo meus erros e imploro seu perdão se quiser. Mas, não pense que sairei por essa porta e agarrarei o primeiro que ver pela frente. Eu te esperei, sabia que voltariam e aí então recomeçaríamos. Negue que me ama? Negue que não sente nada quando me vê?
— Isso não importa.
Desafiando o primeiro passo, me levantei e fui para seu lado.
— Eu vejo, Jasper. Está aí em seus olhos em sua postura. Me ama. Me ama tanto que não seguiu em frente também. Me ama tanto que prefere me deixar livre a pedir que eu espere o tempo de sua irmã. Que é evidente, e eu e você sabemos disso, perdoará meu irmão algum dia. Porém, Jasper, a ausência afetou sua memória. Então, vou te lembrar, eu não desisto. Sou uma Cullen e luto pelo que quero. Vou implorar seu perdão, e depois farei o mesmo com Bella e cada membro de sua família, se quiser. E então recomeçaremos... Do zero. Porque te amo, e luto pelos que amo e não estou disposta a abrir mão disso.
Antes que ele dissesse mais alguma coisa, puxei sua cadeira para trás, me sentei em seu colo e beijei sua boca...
Edward
— Então Lauren, você faz para mim esses exames e saberemos, com detalhes, o que está causando esse mal estar.
A mulher sorriu e se debruçou mais em minha mesa. Os enormes peitos siliconados saltando quase que inteiramente da blusa indecente de alcinha.
Um dia ainda descubro o que a faz pensar que aquilo me atrairia.
Lauren era cliente de todas as semanas. Ela nunca tinha nada, mas não desistia. Estava disposta a me conquistar por bem ou por mal.
Ah se ela soubesse que eu sempre tive uma dona.
— Tá bom, doutor. Mas, eu também estou sentindo umas dores no quadril. O senhor podia avaliar? Tem me incomodado bastante.
A mínima saia subiu mais, quando ela se virou de lado e colocou a mão pouco acima dos glúteos.
Provocativamente, lambendo os lábios ao falar.
— Não é preciso, os exames que pedi também identificaram o problema daí.
O que era uma verdadeira mentira, caso ela estivesse com dor mesmo. Porque problemas no ciático e coluna só poderiam ser identificados com ressonância.
— Ah, seu pestinha. Olha o que fez? Eu vou reclamar com sua mãe.
De imediato o grito de Jéssica me fez parar de perder tempo com ela, algo estava acontecendo lá fora.
— É isso, Lauren. Faça os exames e volte. Obrigada e tenha uma boa tarde.
Passei-lhe a folha, evitando tocá-la, e mais do que depressa fui para a recepção.
O que vi a seguir me fez esquecer o resto do mundo e até onde estava.
Jéssica gritava com um Antony assustado, com uma margarida, do canteiro da recepção na mão.
— Pare! Está louca! Não grite com ele. O que está acontecendo aqui?
Nem era preciso perguntar, havia terra para todo lado.
— Esse moleque, doutor. Entrou aqui e comunicou que ia levar uma flor para a mãe. Quem ele pensa que é?
— Chega! Vá pegar uma vassoura e um pano. E Antony não é um moleque. Repita isso e pode procurar outro emprego. Ele pode pegar quantas flores quiser e vai ajudá-lo sempre que quiser uma nova. Agora mexa-se.
A mulher meio atônita saiu correndo para seguir minhas ordens. Lauren aproveitou e também saiu. Perceberam que não era uma boa hora para argumentar.
— Ela ficou “blava”. Desculpa, tio “Edwald”. Eu não “quelia atlapalhar”, mas mamãe Bella tá “tliste” e “quelia” dar umas “floles” pala ela. Mas tio Jas e tia Alice estão “tlancados” na sala dele há um tempão. E não tem ninguém “pla” me levar na “flolicultura”.
Sorrindo como um bobo, perante a ingenuidade linda dele, me ajoelhei, e ficando da sua altura o abracei. Flor e terra espremidos entre nos dois.
— Não precisa se desculpar. O que eu disse é verdade. Pode buscar uma flor sempre que quiser. Só não pode atravessar a rua sozinho.
— Eu sei. Tio Mike me olhou. E está me olhando até agora.
E estava, o funcionário, de dentro da loja, não tirava os olhos dele. Porém, não percebeu que Jéssica o maltratava.
— Sua mãe está triste? O que aconteceu.
É, o desespero de um homem chega ao limite quando ele usa o próprio filho para obter informações. E só para constar não passou despercebido que ele disse que Jasper e Alice estavam ainda conversando.
— Ela disse que não é nada. Mas, “cholou”. Acho que foi tio Memett. “Polque” ele “tabém palecia” chateado quando foi embora.
Emmett e Bella brigados não era certo. Eles se completavam.
Sempre que discutiam ela precisava de colo. Lamentei não poder dar-lhe isso no momento.
— Não se preocupe. Eles vão se acertar. É coisa de irmãos.
— “Inda” bem que não tenho “rimãos”. Eles são chatos! “Agola” tchau, tio “Edwald”, eu “pleciso” ir. Mamãe vai sair e “quelo entlegar” a flor antes disso.
— Espere, só um minuto. Vou buscar uma coisa e volto para te ajudar a atravessar a rua.
Corri de volta para meu consultório, peguei o chapéu e o coloquei.
— Precisava agradecer o presente. Fique bonitão como você?
— Quase “ingual” eu. Vem, mamãe “plecisa” ver.
Saímos até a entrada da clínica e antes que eu perguntasse o que significa a “mamãe precisa ver” ele passou a gritar.
— Mãe! Mamãe, Bella!
Bella
— Mamãe! “Manhêê”!
De roupão e com uma toalha no cabelo, porque eu havia terminando de tomar banho, e estava pronta para me vestir e ir para a universidade. Me dirigi à sacada do apartamento.
As portas duplas, de blindex, se abrindo para a rua. Onde Antony aparentemente estava e gritava.
— Aqui mamãe! “Pá” você!
Ah, meu Deus! Ele estava do outro lado da rua com uma flor, com raiz e tudo, e segurando a mão de Edward, que usava o bendito chapéu da loja.
Minha boca se abria e fechava, sem reação. O sorriso e a expressão divertida dos dois eram idênticos.
Eu estava perdida! Totalmente perdida.
Enquanto isso, na fazenda...
— Alô, Benjamin? Sou eu, Emmett. Preciso que venha para Forks... É imediatamente. Ajeite a coisas aí e venha. Estamos te esperando.
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