Quando o passado não te deixa viver
31 Ah, Edward... O que faço com você?
Notas iniciais
Bella
— Mas... Mas, “pol que” Tony e o “Senor Olhelhudo” não podem ir “tabém”?
O biquinho dele era adorável e comovente, ao mesmo tempo. A vontade de apertar e morder eram quase insuportáveis.
E ainda tinha aquele pijama de ursinho branco e aquelas orelhas, que evidenciavam tanto os olhinhos verdes, meio chorosos que eram a minha perdição.
Seria tão fácil ceder... Já fiz tanto isso.
— Amor, a mamãe já te explicou. É uma festa de adulto.
— Mas... Mas, “pol que plecisa” de vestido “monito” e sapatos tão “estlanhos”? Tony não gosta. Gosta das botas da mamãe.
Abraçou-se mais ao animal de pelúcia e literalmente se jogou de bruços em minha cama enquanto ainda me avaliava com uma atenção nunca antes vista.
— Porque é uma festa de adulto, Tony. A mamãe já disse. Filho, o que está acontecendo?
Comovida, jogueis os Manolo para o lado, sem o mínimo cuidado, me sentei na cama, sem me importar se amarrotaria o vestido e o trouxe para o colo.
— Tony? Converse com a mamãe...
— Eu vou ficar com saudade. Não gosto de ficar sem a mamãe.
Passou os braços curtos por meu pescoço e se rendendo ao que o incomodava deixou que lágrimas silenciosas, e que me destruíam, escorressem do rostinho desenhado.
— Ei, não precisa chorar. É só uma premiação chata, Filhote. Nem vai demorar e rapidinho mamãe estará de volta.
— “Plomete”? Tony não tem papai dele, com ele. Não quer ficar sem mamãezinha “tabém”.
Ah! E mais uma vez, ele havia me deixado sem palavras. Eu aqui pensando que Meu Pequeno estava “fazendo luxo” e na verdade ele está é mais inseguro do que nunca.
— Anjo, a mamãe vai só ali em Forks com o tio Edward. É rapidinho. Ele vai receber mais um quadro para vovó Renée colocar no consultório e mamãe vai receber o primeiro de nossa loja. Depois vamos jantar e voltar para casa. Mamãe nunca deixaria você, filho. Só não te levo porque vai terminar tarde. Mas, para te deixar mais tranquilo, pode dormir aqui, na minha cama e quando mamãe chegar, prometo que te abraço bem apertado, para saber que já cheguei.
— “Plomete”?
— Juro, juradinho de dedinho se quiser.
Estendi o mindinho para ele e esperei até que enganchasse o dele no meu, para depois balançarmos, selando nossa jura.
— Não pode “queblar plomessa” de dedinho ou então a língua cresce e o dedo caí.
— Eu sei. Por isso nunca vou fazer isso, seu Sapeca.
Fiz cosquinha em sua barriga enquanto dissipava os resquícios de duvida e tristeza e ainda gargalhava dos castigos que Emmett havia dado para a quebra de promessa do dedinho.
— Agora deixa a mamãe terminar de se arrumar, porque Edward deve chegar a qualquer momento.
O soltei, não antes de enchê-lo de beijo, e voltei a pegar os extravagantes sapatos pretos de saltos e solados vermelhos.
Eu sabia que os usaria em alguma situação.
— Uau! É melhor colocar um casaco por cima disso aí, antes de descer. Se papai e Emm colocam os olhos em você... Maninha, você não vai nem até a porteira.
Jasper entrou sem ser convidado e se jogou em minha cama também, já puxando Antony para se deitar a seu peito. Ele estava caindo de sono e lutava para manter os olhos abertos.
— Meu pai já me viu, quando estava secando o cabelo no banheiro deles, já que meu secador desapareceu.
Levantei as sobrancelhas em sua direção, sabendo que ele havia pegado-o para Alice, que pela primeira vez, depois de nossa volta, dormira em nossa casa. Já que não estava passando bem e Jasper se recusara a deixá-la sozinha. Contudo, não se sentiu a vontade ainda em dormir na casa dos Cullen’s.
— Hum, desculpe, Bells. Esqueci de devolver. Quando voltar ele já estará aqui.
— Ela ainda está enjoada?
— Está, mas mamãe disse que está tudo bem e que é normal. Agora pare de me enrolar, e me diga como está se sentindo. Não vim aqui para falar de mim.
— Estou ótima, Jas. É só uma premiação de cidade do interior. Não sei por que parece tão ansioso?
— Talvez porque esteja se preparando mais do que o normal. E também porque esta testa franzida nunca significa boa coisa. Talvez se dissesse o que a preocupa...
Rá, dizer que eu estava preocupada com minha aparência ou então que era porque apareceria, de novo, com Edward de frente a alta-sociedade de Forks e região?
Quantas daquelas pessoas nos conheciam? Quantas conviveram conosco no passado e se compadeceram ou riram de minha situação na época? Quais me achariam um idiota por estar com ele outra vez?
— Nada me preocupa, impressão sua.
Virei-me de costa e mais uma vez passei as palmas das mãos pelo lindo vestido vermelho.
Não, ele não ouviria nada daquilo de mim. Minhas inseguranças eram minhas, somente minhas. Por fora eu era “um Everest” de autoconfiança e boa estima. Era como se nunca tivesse me sentido inapropriada para ele.
— Sei... Bonito seu vestido. Tem certeza que papai viu?
— O quê?
Perguntei indignada e ignorando sua fácil credibilidade em mim.
Tá, tenho que concordar. O vestido era bonito mesmo: longo, vermelho, justo, se ajustando como uma segunda pele em mim. Em sua maioria era de cor única, mas em alguns pontos formas geométricas pretas bem sincronizadas se deixavam ver.
Uma fenda vinha bem cortada até perto da parte mais... Indecente da perna.
E as costas? Bem, um pedaço mísero de pano vinha do pescoço até a baixa cintura. Deixado um espaço enorme dos dois lados das costas completamente nus.
Era mesmo perfeito!
Então por que eu me sentia pouco a vontade com ele? Como se a velha Bella que gostava só de calça jeans ainda habitasse esse corpo.
— Você está linda, irmã. Aliás, é linda. Aquele cara da camionete nova...
— Ah, titio Jas, não é um “cala” é o titio “Edwald” E a “camonete” nova, o Tony ajudou a “complar”. Azul, como a mamãe gosta.
Jasper voltou a puxar a cabeça de meu filho para descansar em seu peito e só então levantou a sobrancelhas, claramente divertindo-se, em minha direção.
— Ah, amigão. Eu me esqueci. Você tem razão. Então, onde eu estava... Ah sim... O Edward da camionete nova azul, escolhida por Antony e da cor que Bella gosta, se ele não valorizar essa produção toda... Sei não, hein? Só se for cego.
— Tio “Edwald” não é cego. Ele achou a gente no “esculo”.
— Pare! Está confundindo o menino. Ele não entende seu sarcasmo.
Acertei Jasper com o travesseiro. Enquanto “o babaca” gargalhava da carinha de confusão de Antony.
— Tá, tá, já parei. Suspensa a agressão.
Escondeu-se, brincando, nos braços do sobrinho.
— Tudo bem. Estou pronta. Só preciso passar um perfume e...
— Um carro, um carro...
Antony deu um pulo da cama e correu porta afora ao ouvir o barulho do veículo se aproximando. Foi inevitável, fiquei mais nervosa ainda.
— Jas, talvez eu devesse...
— Ir até o banheiro e passar mais um pouco de perfume? É, talvez. Se quiser sufocar o homem. Porque tenho certeza de que até o filho de Emmett e o meu estão sentindo seu cheiro. Oras! Se acalme, mulher! Você está ótima.
— Mas, ele nunca me viu tão produzida assim. E, se achar vulgar e...
— Aí Emmett e eu partimos a cara dele. Agora vamos lá...
— Mãmãããeee?
— Antes que seu filho derrube a casa. Porque aí sim teremos um problema. Estou quebrado... Vou ser pai. Tenho que economizar.
— Idiota!
Bati em seu ombro, quando agarrou minha cintura me guiando para a sala, onde provavelmente Edward já me esperava.
— E bonito. Agora vamos de uma vez, sua medrosa.
Eu conhecia Jasper. Era evidente que só estava ali para me encorajar, e Deus, eu o amava tanto por isso.
— Jas, perdão por ter te colocado em maus lençóis com papai. Se eu imaginasse que aconteceria o que aconteceu... Teria te esperado.
— Acho que é a milésima vez que pede desculpas, maninha. Pare! Se tem alguém errado nessa situação toda, ela literalmente, não é você. Só me incomoda que papai, não confie mais em mim para te esperar e trazer para casa. Emmett ou ele fazendo isso, me irritam. Preciso de nossas conversas.
É aquele era o castigo de Charlie para o que julgava irresponsabilidade de Jasper.
E sim, era um castigo. Minha ligação com meu irmão é algo fora do comum.
— E temos que aproveitar, já que estamos com o tempo contado.
Arrependi-me assim que as palavras saíram de minha boca. Ele parou-nos no meio do corredor e olhou-me intensamente.
— Nada vai mudar, eu juro. Não precisa se preocupar.
— Eu sei. Agora vamos lá antes que minhas pernas ganhem vida própria e saiam correndo em direção contrária.
Duas criaturas que se enganavam para evitar o sofrimento do próximo. Assim era Jasper e eu, dois irmãos que se amavam prestes a se separar por consequências adoráveis da vida.
Edward
— Mãmãaaeee? O titio chegou!
Antony gritou, de costa para o caminho de onde veio, porque sua atenção já estava totalmente voltada para mim.
— Não precisar gritar, querido. Sua mãe já sabe. Dê a ela um minuto para terminar de se ajeitar. Enquanto isso...
Tia Renée segurou mais a porta e me avaliou de cima abaixo. O sorriso lindo que abriu, me acalmou e certificou que, sim, eu tinha acertado em vir o mais formal que consegui. Terno cinza escuro, camisa risca de giz preta e gravata lisa, também cinza.
— Ela já tá “plonta”, vovó. Tony viu.
Parou a minha frente e foi com uma dor no coração que percebi que ele me avaliava esperando que o pegasse no colo ou o abraçasse. Porém minhas mãos estavam cheias.
— “Floles”? Tony não gosta de “floles”.
— Antony!
Tio Charlie, que estava sentado em uma poltrona perto da janela o repreendeu.
— Não tem problema, senhor Charlie... E Pequeno, essas flores são para a vovó...
Sorri, beijei a avó dele no rosto e lhe entreguei um lindo arranjo de orquídea branca.
— Obrigada! Não precisava se preocupar, Edward.
Fiz um gesto de “precisava sim”, para ela e continuei a conversa com Antony.
— Para titia Leah... Seja cavalheiro e entregue a ela, por favor.
Emmett e a esposa estavam sentados no sofá, e ela recebia uma massagem, nos pés, do esposo.
Como minha situação com ele não estava das melhores ainda, pedi para que meu filho a agraciasse com um arranjo bem feito de Copos de Leite.
— Obrigada. São lindas!
Leah educadamente, foi cordial. Totalmente o contrário do marido que só “sacudiu” a cabeça em minha direção.
— E essas?
— São para a mamãe e...
— O que são para a mamãe? Ela já está aqui.
Prendi a respiração e, tenho certeza, abri a boca e petrifiquei.
Por Jesus, Maria e José! A mulher estava estonteante, de tirar o fôlego. Totalmente produzida de uma maneira que eu nunca tinha visto.
— “Floles”. O “Seu outlo” amor, além do Tony, “tlouxe floles”. Não se come “floles”, mamãe.
No fundo de minha mente tentei processar com mais atenção que Antony acabava de me chamar de “seu outro amor”, porém estava embasbacado demais para lidar com isso no momento.
Contudo a expressão de graça de tia Renée e Jasper, foram difíceis de ignorar.
— Flores são para enfeitar e perfumar, filhote. Mulheres gostam de flores. Aprenda isso.
Bella parou de frente para ele e sorriu tudo que podia para mim.
Deus! Ela estava de vermelho e de saltos finos. O que era aquilo?
— Acho que ele perdeu a voz. Mãe, devemos buscar sua maleta? Ou ligamos para tia Esme?
Jasper brincou cutucando Bella com o braço. Mas, foi mesmo o “raspar” de garganta de tio Charlie que me fez reagir.
— Perdão, eu... Eu... Não tenho palavras. Você esta deslumbrante.
Estendi as flores em sua direção e, com muita emoção, vi um lampejo de contentamento maior brilhar no tom de marrom preferido por mim.
— Obrigada. Rosas vermelhas, as minhas preferidas.
— Previsível e sem criatividade. Não seja bajuladora Bella.
Voltei para a realidade quando Emmett soltou um comentário ácido.
— Ainda bem que as flores não são para você. Não é, filho? E, aprenda, o básico nunca erra, Emmett. Aposto que Edward fez sua esposa mais feliz do que você em meses. Quando foi a última vez que a surpreendeu com flores?
— Mãe? De que lado está?
— Não é do seu, pode ter certeza. Porque não se cala e vá se deitar?
— Está me expulsando de minha casa, mãe?
— Quer que eu diga com todas as letras? Aliás, a casa é minha. E sua rabugice contamina o ambiente.
O embate de mãe e filho era duro e apesar de odiar a ocasião, amei saber que tinha alguém por mim naquela casa.
— Tudo bem, eu já estava mesmo indo me deitar. Venha, Tony! Vou te colocar na cama. Se despeça de sua mãe.
Ah, mas me afrontar era uma coisa, agora envolver meu filho? Isso eu não aceitaria.
— Ele...
— Tony não vai, titio.
Atravessou o Pequeno antes que eu destilasse a Emmett todo descontentamento pelas atitudes dele. O que poderia ser um erro, já que mesmo sendo um idiota, ele não deixava de ser um Swan.
— Mamãe deixou Tony “espelar” no quarto dela. Vamos “dolmir” juntinhos quando ela chegar.
Deu dois passinhos para trás e segurou minha mão. O que inchou meu ego e inflou minha autoconfiança.
— Sua mãe, pelo que parece, vai demorar.
Insistiu.
— Tony vai cochilando enquanto “espela”.
A cara de indignação dele foi muito boa de ver.
— Vocês que sabem, eu desisto. Vamos, Leah!
— Estou bem aqui. Obrigada, querido!
— Ah! Quer saber? Boa noite!
Enfureceu-se quando até a esposa o confrontou. Era bom saber que não se deixavam influenciar.
— Desculpe-nos por isso, Edward. Emmett ainda não aceita bem esse perdão de Bella quanto a você. Muito menos essa reaproximação. Terá que ter paciência.
— Eu tenho, senhor Swan. Esperei o insuportável por uma segunda chance. Não é um irmão ciumento que acabará com minhas esperanças.
— Pode me chamar de tio. Você, antes de qualquer coisa, é filho de minha irmã. Família não se desfaz.
Tá, fiquei muito surpreso. E não era só eu. Bella e tia Renée pareciam atônitas. Jasper sorria meio de lado.
O que não discordávamos era que aquela atitude dele era, no mínimo, surpreendente.
— Obrigado, tio.
Estendi a mão e apertei a dele na minha. Trégua.
— O que não impede de eu ainda querer ter uma conversa séria. Preciso mesmo saber quais as suas intenções agora. Não vou errar dessa vez.
— Pai! Quer saber? Vamos logo? Estou ficando constrangida.
O que deixava suas bochechas vermelhas e adoráveis. Combinando em tudo com o lindo vestido.
— Não me julgue por ser pai.
Respondeu a uma Bella indignada. Então foi minha vez de fazer diferente agora.
— Prometo ao senhor que teremos essa conversa assim que as coisas forem ditas e resolvidas. Não sou o mesmo, tio. Posso provar.
— Conto com isso.
— Isso, todos contamos. Agora parem de se constranger e constranger a Bella e vão logo. Preciso mesmo de mais uma placa em meu consultório.
Fomos empurrados e incentivados por tia Renée e logo estávamos do lado de fora, na varanda da frente.
A noite estava quente e clara. Um fenômeno para Forks.
— Tudo bem. Pequeno, seja bom e não teime. Vá para a cama. Mamãe te ama e volta rapidinho.
— “Plomete”?
— De dedinho, lembra?
Estendeu o mindinho e jurou para nosso filho, que terminou a promessa a abraçando e se escondendo em seu pescoço.
— Ei, não precisa chorar. Logo, logo, sua mãe estará em casa. É só dormir. Quando acordar ela já chegou.
— Tony sabe, mas vai ficar com saudade. Cuida dela, titio?
— Com minha vida.
O abracei também e beijei sua testa. Eu não sabia se a reação dele era ciúmes ou insegurança.
— Alice?
— Dormindo como um anjo. Mamãe a examinou. Não se preocupe. Está tudo bem. Cuide da minha irmã que eu cuido da sua.
— Temos um acordo.
Prometi a Jasper. Alice era meu esteio. E uma parte de mim já estava completa por saber que ela estava feliz e já frequentando, de novo, a casa dos Swan’s, apesar da ainda distância de Bella e frieza de Emmett.
— Fiquem com Deus. E não se preocupem. Voltamos logo!
Ah, eu não contaria com isso. Por isso, só acenei um “tchau” silencioso. Era a primeira vez que ela e eu tínhamos um encontro de adultos. Juro que sugaria o máximo da companhia dela que pudesse.
Bella
— Se comporte e seja bom.
— Tony “semple” é. Te amo! Volte “pala” mim.
— Sempre!
Imitei suas palavras, beijei seu rosto, dei um aceno coletivo a todos e saí antes me rendesse aos caprichos de Antony.
Eu só precisava me lembrar de agradecer a mamãe, por colocar Emmett em seu lugar. E a Charlie pelo que disse a Edward.
Começo a crer que agora as coisas estão mesmo perto de se ajeitarem.
— Vamos?
Edward estava lindamente parado, de terno combinando com a gravata borboleta, perto da porta do passageiro, que gentilmente já abria para mim.
— Feche a boca, maninha. Sua baba está ponto de molhar seu vestido.
— Idiota!
Bati,de novo, em Jasper, com minha bolsa de mão, que o próprio me estendia. Já que a trouxera do quarto para mim.
— Também te amo. E não se preocupe com nada aqui. Aproveite a noite e...
Sorriu... Deus! Ele sorriu daquela maneira que só ele sabia fazer quando estava pronto para me envergonhar com uma de suas besteiras.
— Abasteci sua bolsa com algo que... Vai precisar. Não que tenhamos nada contra outros “Antonys”, mas agora é minha vez e de Emmett. Você foi rebaixada ao cargo de tia solteirona. Então, trate de usar proteção e...
— Ahhh. Chega, Jasper!
Exasperei-me batendo em seu peito, mas por dentro me divertindo e muito feliz com suas piadinhas. Ele andava amuado depois da bronca de Charlie. Então, vê-lo fazendo piadas, era maravilhoso!
Alice Cullen é o nome do remédio.
— Vá de uma vez, ou vou à cozinha pegar um pepino para te dar uma aula de como usar.
— Tchau, Jas. Vá dormir porque acho que o cansaço subiu para sua cabeça. Leve seu tio, Antony.
Resmunguei mais, antes de ir ao encontro de Edward e segurar na mão que me estendia, ajudando-me a subir no carro novo e alto.
— Obrigada!
— Disponha!
Ainda tive tempo de ver minha mãe pegar meu filho no colo, porque ele fazia um bico e uma lágrima silenciosa já escorria dos olhinhos.
Engraçado, não era a primeira vez que eu saia depois que ele alcançara certa idade. Ele já me vira fazer aquilo. E em todas às vezes fizera a mesma carinha, dissera as mesmas coisas e demonstrara o mesmo descontentamento.
Mas, achei que com Edward seria diferente, já que são tão amigos.
Ledo engano!
— Coloque o cinto, por favor.
Pediu já afivelando o seu e fazendo cara feia para o sinal sonoro que o carro insistia em fazer por minha culpa.
— Se o ar estiver muito frio, pode regular. Esse paletó está fritando meus braços.
Reclamou tirando a peça e jogando-a no banco detrás, bem encima da cadeirinha que comprara para Antony.
Ele ficava mais lindo ainda, com aquela camisa preta. O cabelo esta levemente domado para a esquerda.
Sei que parecia uma adolescente deslumbrada com o primeiro namorado, a mesma adolescente deslumbrada de sempre. É bem verdade que não deixava transparecer mais com tanta facilidade, porém era impossível negar o quanto ele mexia comigo.
— Está bom assim. Está quente hoje.
Saímos dos limites da Sonho Azul alcançando a via principal que nos levaria a Forks.
— Bela camionete.
Puxei assunto quando a escuridão nos tomou de uma vez. Estávamos tensos e calados. Um mais tímido do que o outro e aquilo não parecia em nada conosco.
— Bonita, no máximo. Bela só você. Por Deus, Bella! Está linda. Não me deixe esquecer te dizer isso todos os dias.
— Ah! O quê?
Disfarcei não querendo pensar muito no trocadilho que acabávamos de usar, muito menos no elogio dele.
Eu estava com vergonha.
— E ainda pergunta? Misericórdia, mulher! Você está perfeita! Pronta para testar meus limites e novas concepções. Eu não resisto.
Tá, confesso, não entendi a maior parte do que ele falou. E tudo só piorou quando reduziu bruscamente e parou, de qualquer jeito, no meio do nada. Nem quando acendeu as luzes internas do carro eu consegui prever suas intenções.
— Preciso beijar você, Amor. Só Deus sabe como me segurei para não fazer isso em sua casa. Mas, agora se tornou doloroso. Preciso de você, Bella. Preciso...
Às pressas, desafivelou meu cinto e o dele, virou-se para meu lado e segurou meu rosto com as duas mãos.
— Linda, demais! A mais linda. Eu te amo tanto! Com minha vida!
Seus dedos eram delicados em minha pele, a intensidade do olhar é que me deixava atônita.
— Beije-me, Edward. Estou aqui. Sou sua.
Não precisou falar duas vezes. Logo a boca estava na minha. Lento e suave. Saboreando, sentindo...
Não tínhamos pressa, a noite era nossa.
— Você é maravilhosa, Bells. Sou tão sortudo. Tenho tanto que agradecer a Deus.
Beijou meu ombro e inalou profundo em meu pescoço.
Se o intuito era dar tempo para acalmar nossas respirações... Bom, falhou miseravelmente.
— Tenho tanto para dizer, mas, não dá. Só quero sentir você, só você.
Olhava-me, meio bobo, e depois me beijava de novo. Com carinho. Como que apreciando um momento, uma iguaria.
Era meu mundo de dúvidas... As sensações que me causava aquele olhar. Ele conseguiria tudo de mim, era só pedir.
Porém, a Bella desconfiada de cada dia, que ainda habita em meu íntimo, queria gritar e dizer que era uma casca. Vestido, saltos, maquiagem... Era tudo uma tapeação. Porque por dentro eu ainda era a que usava botinas, calças jeans e camisas xadrezes.
Ele não amaria essa segunda opção. Nunca amou! Porque mudaria agora? E sim, depois de pensar e pensar, era exatamente esse o motivo que me deixava tão insegura, com isso que temos.
— Namore comigo, Bella? Por favor, dê um nome ao que temos. Quero tanto deitar tranquilo a noite sabendo que temos algo mais concreto.
Putz! Logo agora, Edward? Bem no meio de minha crise existencial de cada dia, ele vem com uma dessas.
— Para quê mexer com o que está dando certo? Sou sua, Edward. Minha palavra não basta?
Foi minha vez de acariciar seu rosto e contemplar as esmeraldas mais verdes que eu tinha a honra de ter um par exclusivo, só que em versão menor.
— Segurança...
— Minha palavra.
Insistiu e repliquei.
— Certo. Sem pressão. Agora vamos lá, ou sua mãe não receberá seu ansiado troféu.
Deu mais alguns beijinhos doces em meus lábios antes de respirar fundo e se afastar.
Nem as decepções evidentes por causa de minhas palavras me tocaram. Ele queria segurança? Eu queria certeza. Já passei por isso antes.
— Converse comigo. Conte-me como foi seu dia. Não foi para a loja hoje.
— Hum...
Educação ou interesse? Eis a questão! Porque, para mim, ainda era muito difícil acreditar que Edward se interessaria por meu dia a dia.
— Ok. Foi bom. Não fui para a loja, mas trabalhei muito em casa.
— Seja mais específica, Amor.
Tá, não funcionou minha tentativa de deixar o assunto para lá.
A dúvida era: ele queria mesmo saber?
— Para variar, foi corrido. Deu sol, e estamos torcendo para que permaneça assim por uns três dias. Precisamos passar um “dissecante” na soja para ajudar a chegar ao ponto de colheita. Choveu demais esses dias e estávamos quase perdendo a produção.
Comentei distraída olhando pela janela a lavoura a nossa direita.
A luz da lua lançava uns brilhos maravilhosos nas centenas de hectares.
— O produto químico não interfere na qualidade do grão?
Pegou minha mão na dele e a levou aos lábios quando voltei a “especulá-lo” com o olhar.
— Se for manuseado no tempo e em quantidade certa de acordo com as indicações de um bom profissional, não.
Emmett e eu estudamos muito até chegarmos a um denominador comum, que não interfira negativamente em nada no grão.
— A “lavoura branca” requer mais cuidado. Ainda bem que tio Charlie tem vocês. Acho que por isso Carlisle não arrisca. Falta de informação e medo do prejuízo, apesar de ter tanta terra.
Beijou meus dedos e os colocou sobre sua perna quando precisou manobrar para entrarmos na rodovia pavimentada.
— É tudo uma questão de planejamento, informação, acessória, tecnologia e, claro, ajuda divina. Quanto a essa última, só com muita oração, mas, nas outras questões podemos orientá-lo. Além do mais, quando as represas ficarem prontas, o prejuízo será praticamente inexistente.
— Uau! Vou dizer a Esme, para que o convença a procurá-los.
Passamos pelo local do “meu acidente” e talvez por instinto ou proteção mesmo, a mão dele voltou a segurar a minha com firmeza.
— Por que você mesmo não diz?
Indaguei mais por querer continuar aquela conversa fácil, do que por curiosidade. Porque era óbvio que a relação dele com o pai continuava péssima.
— Ainda é complicado, Bella. E acho que ele ficará encantado com as explicações de vocês. Isso facilitará sua adesão a novas ideias.
— Duvido. Pense no poder que Antony tem sobre nós... Acontece o mesmo com seu pai e você.
— Não, não acontece. Não sou, nem de longe, o sonho de filho que Carlisle queria. Já você e Emmett...
Deixou a questão no ar e graças às luzes de entrada de Forks, pude ver, em suas expressões, o quanto aquela questão o desagradava também.
— Bobagem! Cada um é o que é.
— Você que pensa. Mas, não se preocupe, já estou pensando em uma maneira de fazê-lo se orgulhar.
Sorriu de lado como uma criança arteira.
— E posso saber como?
— Claro que não. Ainda é surpresa.
Tocou meu nariz com o indicador, brincalhão.
Depois encostou um lábio nos meus. Distraindo- me para que voltássemos aos assuntos fáceis.
— Além disso, já chegamos. E estou louco para exibir você.
Edward
Estacionei, desci e dei a volta para ajudá-la a sair do carro. Aproveitei e dei uma expirada longa e pausada no ar fresco e puro da noite de Forks. Aquilo era bom para me acalmar porque do jeito que estava era bem capaz de dizer-lhe muito mais do que queria.
Eu tinha ideias, muitas ideias. No entanto, elas ainda precisavam amadurecer em minha mente.
— O bom e velho clube de Forks. As festas ainda continuam iguais?
A guiei para a entrada, já retirando nossos convites, do bolso interno, do paletó que resgatei do banco traseiro antes de descer.
— Pode ter certeza. Se prepare para muitas fitas, balões e cetim. Espero que não tenha perdido o bom gosto, do interior, lá no Brasil.
Brinquei enquanto empurrava-a delicadamente para a entrada. Minha mão, com vontade própria, deslizava pelas costas nuas.
Aquele vestido...
— Doutor Cullen, Isabella, a mesa de vocês é a 22.
— Obrigado!
Respondi seco, a uma das amigas de Jéssica, que nessa noite trabalhava como recepcionista, no evento.
Eu a reconheci de imediato, porque não fora uma, nem duas vezes que consultara, sem necessidade, diga-se de passagem, simplesmente para se insinuar para mim.
— Acho que deve emprestar o lenço, a pobre coitada, para que limpe a baba. Óbvia demais, sua amiga.
— O que posso fazer se você está belíssima? Eu também ficaria embasbacado de inveja se fosse mulher. Mas, como sou homem e conheço bem esse universo...
Voltei e colocar a mão no maldi..., ou melhor, no bendito vestido provocante de uma figa.
— E não se assuste, porque sim, vou deixar claro para eles que sim, você voltou. Porém, não está, nenhum pouco, disponível.
— Arcaico!
Divertiu-se, enquanto eu puxava uma cadeira para que sentasse.
— Mas, que funciona, funciona.
Posicionei-me o seu lado. Passei muitos anos afastado, nunca mais perderia a oportunidade de aproveitar sua companhia.
— Temos vinho, uísque e cerveja. O que desejam?
— Água.
— Uma coca, por favor.
Respondemos ao mesmo tempo.
— Se quiser beber... Eu dirijo, na volta. Só preciso que esteja acordado, não sóbrio.
Ah, se ela soubesse quantas vezes recorri a bebida para aliviar as dores e até mesmo fugir da realidade, que era o sofrimento de não tê-los mais em minha vida.
— Prefiro sóbrio e bem acordado.
Pisquei em sua direção e beijei sua mão, precisando, mais do que nunca, que seu toque afastasse lembranças ruins.
— E aí, surpresa? Os caipiras continuam, ou não continuam mestres em decoração?
Seus olhos percorreram o salão, avaliando, e o que demonstrou foi puro contentamento.
Isso era bom. Significava que não tinha percebido como todos a olhavam com absoluto interesse e cobiça.
Bella sempre fora muito relapsa nesse sentido. Sempre fora linda, belíssima. Mas nunca se dava conta do quanto isso afetava as pessoas a seu redor. E eu era muito idiota e relapso para contar a ela isso na época.
Isso nunca mais aconteceria.
— Mestre em decoração, eu não digo, agora a arte de serem discretos... Continua um zero a esquerda.
É, ela percebeu.
— Não os culpe. Eu ainda fico atônito toda vez que te vejo. Parece um sonho.
— Bajulador e exagerado, você Cullen.
Afastou-se, dando espaço para que o garçom acomodasse uma tábua de frios, em nossa mesa. Enquanto isso, no pequeno palco improvisado, o cerimonialista dava início ao evento.
Era evidente que Bella não levava muito, meus elogios, a sério. E eu sabia que era porque nunca os fizera no passado e que até a magoara demais por seus gostos. Mas, por Deus! Eu “enxergava a luz” agora e nunca deixaria de elogiá-la mais.
Ela que se acostumasse com isso.
— Só trago verdades.
Sem perceber o que fazia, voltou a se aproximar quando ficamos sozinhos e em silêncio de novo. Somente aplaudindo os primeiros homenageados da noite.
— Olha, se esse evento fosse meu dar-lhes-ia um prêmio por ser o casal mais elegante da noite.
É, não foi surpresa encontrar Marcus ali. Não era novidade que ele frequentava quase tudo em Forks. Onde houvesse fieis, lá estava ele. Como dizia sempre: “era sua maneira de pastorear as ovelhas”.
— Só se tiver um prêmio para o melhor vigário de todos. Padre, é um prazer revê-lo.
— Mesmo, Isabella? Porque ainda não a vi em minha igreja desde que voltou.
Sem cerimônia, a abraçou apertado e carinhosamente. Contudo, não perdeu a oportunidade de cobrar-lhe.
— Falta de tempo, padre. Mas, prometo ajeitar isso logo, logo.
— Arranje mesmo esse tempo e aproveite e leve esse “desgarrado” para a casa de Deus.
— Boa noite para você também, Marcus. Que bom que veio. Por que não se senta com a gente?
Peguei sua mão, em forma de cumprimento, primeiro, para logo depois apontar-lhe a cadeira a meu lado. Que, obviamente, foi completamente ignorada. Pois nunca que ele perderia a oportunidade de me provocar.
Lógico, que se sentou ao lado de Bella.
Bella escondia seus sorrisos, perante minha indignação.
— Não tenho tanta certeza de que esteja mesmo feliz com minha presença, Edward, já que desapareceu da igreja. Então é assim? Agora que Deus ouviu e atendeu seus lamentos e preces, desaparece?
— Ah! Achei que não podia revelar os segredos das pessoas. Belo padre você é!
— Rá! Suas lamúrias são domínio público. Está na Wikipédia. Pode consultar.
Continuamos a nos provocar. Só que ele sabia meu ponto fraco, e como sabia...
— Mas, voltando à atenção a quem verdadeiramente interessa...
Voltou-se inteiramente para Bella e segurou sua outra mão.
— Onde está meu “futuro coroinha”? Fiquei sabendo das “proezas” dele essa semana. Já que Esme, que passou na igreja na quinta...
Voltou a me dirigir aquele olhar de repreenda.
— Não cansa de se gabar que tem o neto mais inteligente de todos.
Típico de mamãe mesmo. Se bem que... Antony merecia mesmo ser elogiado.
— Em casa, padre. E eu espero que, dormindo a essa hora... E só Deus sabe como foi difícil convencê-lo a ficar. Quanto a ser coroinha... Creio que não seja uma boa ideia, por enquanto. Antony não consegue ficar em silêncio, padre. Certeza que te atrapalharia mais do que ajudaria.
— Fico imaginando a quem ele puxou. E, quem pode condená-lo? Também não deixaria minha mãe sair com qualquer um.
— Sabe, Marcus, vão chamar nossa atenção se continuar com essa conversa alta. Estamos aqui para receber um prêmio. Se não sabe.
— Mesmo? Achei que estavam aqui, porque você se aproveitou dessa situação para criar coragem e chamar Isabella para sair?
— Sou inocente dessa vez.
Levantei as duas mãos para cima com as palmas voltadas para ele.
— Ideia de tia Renée virmos representá-las.
Olhei-o sugestivamente, esperando a resposta afiada, que certamente viria se não tivéssemos sido interrompidos quando Bella foi chamada ao palco.
— “O destaque empresarial de 2020 vai para um empreendimento novo. Porém respaldado pela união familiar, profissionais especializados e bom atendimento. A Agro-Swan chegou com o intuito de sempre colocar seus clientes em primeiro lugar. Por isso, chamamos ao palco Isabella Swan para receber nossos cumprimentos e agradecimentos por encolherem Forks como sede de seu empreendimento”.
— Com licença.
— Vai lá.
Fiquei de pé e ajudei-a a se levantar. Sua face tingida de um rubor rosado, quando uma salva de palmas acompanhou sua ida até o palco.
— Feche a boca, Cullen. Desse jeito todos vão descobrir que está loucamente apaixonado.
Dei de ombros não perdendo-a de vista nunca. Ela estava envergonhada perante tanta atenção.
— Não me importo, Marcus. Quero mais é que saibam que estou totalmente rendido e compromissado.
Ela estava sublime.
Em toda sua glória agradeceu a comissão do evento e o chefe da Associação Comercial, que, diga-se de passagem, não perdeu a chance abraçá-la.
Eu era agraciado! Ela me deu mais uma chance.
—Não pense no passado, amigo. Viva o presente. Aproveite!
— Estou fazendo isso, Marcus. Mas é muito difícil quando todos tentam te derrubar, mas lutarei até o fim.
Sim, eu faria isso.
— Jasper vai gostar disso. Certeza que colocará num lugar de destaque na loja.
Disfarçamos e mudamos de assunto quando ela retornou para junto de nós.
— Aposto que gostará mesmo.
O “prêmio” era a “personificação da breguice”: Um triangulo de “aço inoxidável” ou no máximo, “inox”. Seguro por uma base, do mesmo material, de uns 20cm por 10cm. O nome da premiação vinha em “caixa alta” no centro do “troféu”. Enquanto o do premiado, mais baixo em itálico.
— O primeiro de muitos. Diz para ele arrumar uma prateleira bem grande.
Bati minha taça na dela, brindando e feliz por nos imaginar, no futuro, anos após ano participando daquele tipo de coisa.
— Agora premiando a Excelência e o cuidado com o ser — humano. Sempre inovando e buscando os melhores diagnósticos e tratamentos, temos o renomado Forks Medical, aqui representado pelo Doutor Cullen, Edward Cullen.
— Sua vez de ser envergonhado.
Bella me instruiu e por mais que estivesse ali para aquilo, lamentei perder segundos preciosos de sua companhia.
— Volto já! Não leve em consideração nada do que Marcus lhe disser na minha ausência. Ele mente!
Encostei meus lábios nos dela, numa pequena despedida e, só então, me dirigi para cumprir minha missão.
Eu odiava o fato de representar o hospital. Não devia, nem merecia. Ser médico se tornara um fardo. Contudo, adorava a ideia de estar ali representando minha mãe e minha sogra. E o melhor? Com a mulher que amo.
Sim, Edward Cullen era “um poço” de controvérsias.
Mas, quem poderia me julgar? Estar com Bella me tornava um incoerente nato. Era um misto de felicidade plena e insegurança ao mesmo tempo.
Porque uma coisa era namorá-la sabendo que ia dos estudos para casa, de casa para os estudos. E que durante o restante do tempo estava na fazenda ocupada demais com a lida. O passado fora fácil.
Porque outra coisa era tê-la e não tê-la, como atualmente. Nossa relação não tinha um nome, nem certeza. Bella se recusava a fazê-lo e, sério, eu a entendia. Havia transformado-a nisso.
E para minha total angústia, ela não era mais a mesma mesmo.
Renovada, linda, super-confiante. Do tipo que sabe que, num estalar de dedos, terá o mundo a seus pés. E tudo isso sem “amarrotar os malditos vestidos ou descer dos saltos”.
— Parabéns, doutor.
— Obrigado!
No modo automático, já que minha concentração estava em outra parte do salão, recebi a homenagem, tirei foto para só então retornar a meu lugar, meu coração.
E qual foi minha surpresa em encontrar Mike Newton de pé, entre Bella e Marcus, praticamente “devorando-a” com os olhos.
E dai se ele trabalhava para ela? Isso não o dava o direito de encarar com cobiça, dava?
— Vamos jantar, Amor? Já está servido. Ah, Newton...
Segurei a mão dela já impulsionando-a a se levantar e me acompanhar. Fingir não ter visto “O babaca” ali, foi a parte mais fácil. Nem me importei em ser cordial. Ele queria o que era meu... Ou melhor, o que não era meu.
— Não percebi que estava com tanta fome.
Escondeu o sorriso, sabendo mais do que ninguém, que o que movia naquele instante, era outro sentimento.
— Estou faminto.
Sem cerimônia a levei para a área do Buffet.
A mente funcionando a mil e dando forma a outra ideia. Uma dolorosa e frustrante ideia maluca que... Certeza... Seria nossa redenção ou perdição para sempre.
E que Deus me ajudasse
Bella
Ahh, os eventos... Eu literalmente os odiava.
Aquela pompa toda.
E a falsidade? Isso sem falar na competição de quem ostenta mais. Porque era um desfile de vestidos brilhosos e sapatos chamativos que, certeza, refletiam até em Júpiter.
Porém, se tinha uma coisa que ainda me atormentava mais, era a lembrança de Edward dizendo que eu não seria adequada para acompanhá-lo nos eventos em que participaria como médico.
Então, quando entrei nesse salão e percebi que seríamos o centro das atenções, algo dentro de mim se revirou. Mesmo que eu estivesse impecável, para eles, por dentro, abafada em meu íntimo, a Isabella Caipira brigava por seu lugar.
Claro que a companhia de Marcus ajudou, ele e Edward travavam uns olhares que até pareciam ter 16 anos. E depois ainda teve a ceninha que ele fez quando Mike veio falar comigo.
Ele teve ciúmes. E eu me senti aliviada.
Contudo, não foi relaxante. Suportável sim, agradável não! E nem teve dança. O que deixou Marcus e eu decepcionadíssimos, porque amávamos a liberdade que a troca de passes nos dá.
Por esses e mais motivos que, quando Edward me chamou para ir embora, eu nem pensei duas vezes. Já havíamos “feito a social”. Agora eu queria mesmo era aproveitar com ele o resto da noite.
— Está tudo bem? Parece chateada?
Rá, ele não precisava saber que a Isabella insegura ainda me habitava.
— Tudo bem. Só uma leve dor nas pernas.
Sem pensar muito no que fazia e me assustando, ele parou bruscamente.
— O que foi? Esqueceu algo? Por que paramos?
Ele não respondeu, mas desligou a camionete.
Estávamos na rua lateral à loja e a clínica. Um local tranquilo e vigiado por câmeras e um guarda noturno que de hora em hora fazia a ronda, de bicicleta, no quarteirão.
É, eu disse bicicleta, vocês não leram errado. Estávamos em Forks, poxa! Tudo aqui era estranho.
— Você não precisa mais deles.
Puxou meus pés para seu colo e retirou meus sapatos jogando-os de qualquer jeito sobre o banco traseiro.
— Melhor assim?
Massageou, com pressão, mas muito cuidado, os dedos, calcanhar e “planta” dos pés.
Eu sentia a tensão se esvaindo e o cansaço aliviando.
— Muito melhor. Fez uma especialização nessa área?
— Nada de especialização. Só anos de prática.
Involuntariamente, quis puxar os pés de seu colo. Porém, ele os segurou e continuou massageando.
— Anos atrás, Alice inaugurou a loja quase na mesma época em que me mudei para “nossa casa”. Então, toda noite aparecia por lá com a desculpa de que os pés estavam doendo. Mas, eu sempre soube que a intenção era nos manter sãos. E, uma forma de agradecê-la por isso era massageando seus pés. Por isso, me tornei um profissional.
Explicou percebendo minha relutância.
No mesmo instante minha consciência gritou: Hipócrita! Eu não tinha o direito de sentir ciúmes do seu passado. Eu tinha um passado.
Ah! E não passou despercebido que ele disse “nossa casa”. Eu só não queria pensar naquilo no momento.
— Não precisa se explicar, Edward.
— Mas, eu quero.
Fechei os olhos, encostei a cabeça no banco e relaxei. A covarde em mim, fugindo da reverência e de algo mais que ele demonstrava, e que eu não queria ver.
Não podia me iludir de novo. Conhecia aquela tática. Ele já a usara tantas vezes... Não dava para curtir o momento?
— Seus pés são lindos. Macios, cheirosos, delicados.
— Surpreendente para uma caipira, não é? Nenhuma unhazinha encravada.
— Eu... Eu não disse isso.
Mas, pensou... Quis acrescentar. Porém, não o torturaria como nossos erros do passado.
— Por isso das botas e botinas dia e noite. Proteção e conforto. Não a pé que resista a terra, esterco, calcário, defensivos e assim por diante...
— Não sabia disso.
— Isabella Swan também é cultura.
Não, não era aquilo que eu queria dizer. A vontade era de gritar que ele “nunca perguntara”. No entanto, não o fiz.
Recomeçaríamos.
— Você é incrível, Bella. “Bellíssima”! Seja de saltos, botas ou descalça. Amo cada parte sua.
O clima mudara na hora.
Usando de seu charme e audácia puxou meu pé para cima e o beijou apaixonadamente.
Meu corpo reagiu de imediato. Tanto que tive de me segurar no banco para não estremecer visivelmente.
— Você me deixa louco de amores. Pronto para fazer loucuras, Vida. Te quero tanto. Tanto...
Buscou minha mão, e então puxou-me para perto.
— Preciso beijá-la como se deve. Desde que voltou sonho em fazer isso. Preciso que se entregue, Bella. Que deixe o instinto falar. Tenho que “acender” de qualquer maneira a chama que apaguei em você. Preciso que volte a acreditar em nós.
— Beijei- me, Edward. Beijei agora.
Autorizei e instiguei. Estava com louca de vontades de fazer isso também.
Começou suave e lento. Parecia uma caricia doce. Era maravilhoso saborear a adoração que ele demonstrava em cada ato.
E eu retribuía, retribuía com sofreguidão. Porque uma coisa era disfarçar meus sentimentos, outra muito diferente era ignorá-los quando ele estava tão perto.
— Te amo! Que saudades, Bella.
Mas então, com o passar dos segundos, tudo parecia pouco. Os beijos doces já não eram suficientes, as mãos do rosto? Muito menos. A vontade de se aproximar mais e mais e mais, era quase que palpável.
— Muitas saudades, Edward. Como sonhei com esse momento.
Desci as mãos por seus braços, sentindo a textura, acariciando. Levando-o a não refrear seus atos já que deslizou as deles por meus braços e parou em minha cintura, acariciando e fazendo com que eu desejasse mais, muito mais.
— Delícia. A minha delícia.
Por Deus! Eu queria mais, muito mais.
Beijei-o com mais força sentindo o calor intensificar. Nossas respirações estavam ofegantes e altas. O carro parecia pequeno e abafado, no entanto, nada me tiraria dali naquele instante.
— Ah, Edward.
Gemi quando passou a mão para trás, apertando-me, querendo-me.
E Foi como colocar álcool no fogo. Eu queria mais contato, eu queria mais pele com pele. Tudo parecia pouco.
Por isso, me deixei levar. Eu queria e ele também.
Com ciência do que fazia deixei que minhas mãos, o mostrassem o que eu desejava.
Elas já tentavam livrá-lo da gravata.
As dele voltaram a meu rosto, fortes. Impedindo de afastar. Ou virar para qualquer outro lugar que não fosse colada a sua.
— Ah, Bella!
Segurou meu lábio inferior com os dentes, depois sugou com intensidade.
Aquilo foi como acender a lareira de uma vez.
— Não aguento, Edward. Preciso de você.
Bruscamente, o soltei, virei, joguei as pernas por cima do câmbio e, me sentindo a Anna Grey, sentei em seu colo. “O cara perdeu o juízo”, com minha audácia.
— Linda demais!
Suas mãos levantaram meu vestido e seguraram firme em minha cintura, friccionando.
O desejo dele era evidente, assim como o meu.
— Não pare! Não pare!
Finalmente o livrei de sua gravata e de uma vez, abri a camisa, já expondo o peito.
— Que saudades de sentir você.
Desci as mãos sobre seus músculos, sentindo, apreciando, desejando. A boca dando beijos no pescoço o causando suspiros altos.
— Hum! Ah!
Gemi mais quando ele me impulsionou a ir mais rápido.
Mas... Ahhh! Eu não podia. Estávamos vestidos e no meio da rua, logo o senhor Ronald passaria com sua bicicleta barulhenta e a lanterninha intrometida. Ele nos pegaria.
— Delícia, como você é maravilhosa.
As mãos se infiltrando em meu vestido, de costas nuas, e descendo a meu bumbum. Apertando forte.
— Deliciosa. Perfeita. Desenhada para mim.
Ele era mestre com as palavras. Deixava-me louca. Insana.
E foi assim que me senti quando desci a mão a nosso meio e comecei a desabotoar sua calça. Ele me deseja eu sentia na ponta dos dedos. E, confesso, me senti poderosa.
Edward desejava a ex- namoradinha.
—Ahhh, misericórdia! Não! Por Deus, Bella! Temos que parar. Estamos na rua. Não podemos fazer isso aqui.
Sua boca dizia que não, mas suas mãos continuaram a me impulsionar.
— Está escuro. Não se preocupe. É um bairro comercial. Droga de zíper!
Murmurei em meio à explicação. Aquilo estava emperrado?
— Por Deus, Vida! Pare! Assim eu não consigo... Não podemos fazer isso aqui. Não assim, não agora.
Creio que minha braveza com o aviamento tenha trazido uma pequena parte da consciência dele para o que fazíamos e como fazíamos.
Ele era forte. Fez o que eu não consegui. Parou-nos.
— Eu sei, eu sei. No meu apartamento ou no seu loft?
Mordi seu queixo e passei a língua logo em seguida. Ele gemeu e se contraiu.
— Ah Deus!... Nenhum dos dois. Eu não posso, Bella.
— Claro que pode. Eu te ajudo.
Pisquei forçando o maldito zíper de novo.
— Não posso, querida! Você merece mais. Eu mereço mais.
Beijou minha testa e se afastou, minimamente. Respirando fundo e colocando distância entre nós afim de que nos acalmasse.
Não adiantou, eu o queria e queria agora.
Por isso, mexi os quadris em cima dele, fazendo-o gemer e segurar minha cintura.
— Ahh, por favor, Bella. Por favor. Não faça isso, não sou tão forte. Sonho com isso desde que tive você pela primeira vez.
— Eu também, então vamos logo sair daqui.
Com a decisão tomada, voltei a meu lugar, dei uma ajeitada no vestido e já segurava a maçaneta, quando ele segurou meu braço, refreando-me.
— Quê? No seu ou no meu?
Sorri. Sabendo que era por isso que ele havia me segurado. Nossa decisão mais urgente do momento.
Porém, nada no mundo me preparara para aquele momento.
— Em nenhum lugar. Eu não quero, Bella.
Sério, eu não estava pronta nem acreditando no que ele me falava.
— Como assim... Eu achei que... Eu... Você...
Perdi a linha do raciocínio. O que ele estava fazendo? O que eu estava fazendo.
— Você pensou errado. Não é isso que quero, Bella.
Havia uma certeza e determinação em cada palavra proferida que fez com meus instintos de proteção e consciência me acusassem na hora por ser tão ingênua e baixar a guarda.
— Claro que não quer! Porque ia de querer, não é?
Fechei a expressão. Bati com a mão em minha própria cabeça e deixei que as frustrações e vergonha me tomassem.
— Burra! Idiota! Caiu de novo no papinho. Ele não muda. Por que mudaria? Rá, mas dessa vez foi até “camarada” avisou antes de te levar para cama e fazer outro filho em você. Ah, mas Emmett te aviou.
Envergonhada, fechei os olhos.
— Bella? O que está fazendo? Pare! Vai se machucar! Amor?
Ignorei as mãos dele tentando segurar as minhas.
— Solte! Que droga, Edward! Não preciso da sua pena. Deixe-me. Quero ir para casa, só isso. Me leve daqui.
— Não com você assim. Se acalme eu...
— Não! Pare! Não quero te ouvir. Não quero suas lamentações e muito menos sua piedade. Fui uma boba apaixonada de novo. Mas, deixa! Te prometo que não se repetirá. Eu devia saber. Não há sentimento não é, Edward? A aproximação foi toda por causa de Antony? Ahh, mas era só você ter falado. Eu estava disposta a apresentar-lhes sem nada em troca.
— O que está dizendo? Vida?
Tentei puxar as mãos, mas o agarre dele só aumentou.
— Me solte, Edward. Me leve para casa de uma vez. Ou melhor, me solte vou ficar aqui. Não posso chegar em casa nesse estado. Meu pai foge com a gente outra vez. E mesmo me achando uma idiota iludida, Antony merece um pai. Como pode? Como pode fazer isso comigo de novo? Já não magoou o bastante?
— Por Deus! O que está dizendo e fazendo, Bella? Pare!
Soltou minhas mãos e travou as portas quando tentei abrir.
— Amor, olhe para mim? Vida?
— Não.
Abaixei a cabeça e respirei fundo. Se o olhasse nos olhos choraria. A dor da rejeição mata. Porém, jurei que nunca mais choraria por ele.
— Amor, você estendeu errado. Não me deixou falar. Acha que não te quero, Bella? Acha que não sonho todas as noites com seu corpo colado ao meu? Acho que me esqueci de como é tê-la de corpo e alma? Ahh, você não ouviu nada mesmo do que eu te disse desde o dia que voltamos a nos falar, não é? Eu te quero mais do que tudo. Se não acredita, é só olhar o que causa em mim, Bella. Estou pronto para você. Não nego e nem me envergonho disso.
Ele estava excitado. Grande novidade. Homens se excitam até com um espirro.
— Mas parece que nem assim te convenço do quanto te quero, não é?
— Por que convenceria? Nem meu corpo foi capaz de segurá-lo no passado, Edward. Por que eu acreditaria agora?
— Porque sou um celibatário, Bella.
— Como?
Incrédula e achando que não escutara bem, me virei aproximei-me mais dele que agora segurava os cabelos e encarava o nada: lembrando.
— Há anos tive a melhor noite de amor que um homem pode imaginar. Foi tão especial que geramos uma vida naquele momento mágico. Porém, fui otário. Perdi tudo. Fui ao inferno e só voltei quando os reencontrei. Durante toda ausência, dia após dia, eu tomava mais consciência de que nunca aceitaria ser tocado por outra mulher, porque eu tinha uma dona. E mesmo que ela estivesse longe, eu ainda a pertencia. E foi exatamente assim. Não consegui me aproximar de ninguém. Não conseguia nem conversar com mulheres, a sós, direito, quanto mais me interessar a ponto de beijar ou ter relações. Por isso, numa de minhas longas conversas com Marcus, contei-o de minha decisão de nunca mais ter uma mulher que não fosse você. E é daí que vem o nome de celibatário. Depois de caçoar muito de mim, ele aprovou minha ideia e até se compadeceu. Então, não coloque minhocas nessa sua cabecinha. Eu te amo. Te quero mais do que posso imaginar.
Eu queria rir, gargalhar, na verdade. Contudo, estava atônita demais com aquela informação.
— Então, eu não entendo. Estou aqui agora. A disposição, bonita, de banho tomado e depilada. O que está esperando?
Os olhos dele se abriram mais quando eu disse “depilada”. É, ele me queria mesmo.
— Compromisso!
Foi enfático.
— Como?
— Quero algo concreto, Bella. Não uma noite. Namore comigo. Seja minha. Deixe-me mostrá-la que sou outro e prometo que nossas horas de amor serão as mais prazerosas possíveis.
De novo com aquela história.
— Está me pressionado. Disse que não faria isso.
— Não estou. Tome o tempo que precisar para decidir. Te amo! Posso esperar.
— Enquanto isso...?
— Enquanto isso, vamos só nos beijando. Porque beijar não é pecado e Marcus vai poder certamente segurar minha vaga no seminário.
— Ah, Edward! O que faço com você?
Dessa vez não foi possível segurar a gargalhada. Eu estava muito enrolada e confusa agora.
Pov Especial
— Oi, Emmett.
— Oi, Benjamin?
— Isso aí. Estou ligando para te passar o número do me vôo. 851. Pode me pegar no aeroporto na segunda? Chego por volta das cinco da manhã.
— Claro que te pego. Não se esqueça de colocar roupas quentes na mala. Está frio aqui.
— Ok. Então boa noite e até segunda. Beijei Leah, dona Renée, Isabella e Antony por mim. Vemos-nos em breve.
Escutei sua gargalhada ao fundo e então desliguei.
Até que fim minha documentação ficara pronta e eu embarcaria. O que era o céu porque eu já estava a ponto de enlouquecer sem minhas duas fontes favoritas de alegria.
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