Quando o passado não te deixa viver
32 Prazer
Notas iniciais
Bella
— Celibatário? Celibatário?
— Jasper!
Resmunguei antes de esconder o rosto entre as mãos já completamente arrependida de ter compartilhado algo tão íntimo com ele.
Meu irmão idiota, gargalhava tanto que grossas lágrimas escorriam de seus olhos, enquanto se contorcia, por cima de sua mesa, tomada de notas fiscais, já que estávamos em seu escritório.
— O quê, Bella? Você acaba de me contar, muito frustrada por sinal, de que seu “crush-peguete” está na seca há cinco anos. E que nem aquele seu vestido e sapatos indecentes o fizeram reagir. E quer que eu fique calado? Por Deus, irmã! Você tá enrolada! Ou o cara vai virar um monge, ou mudou de gostos, ou quando te pegar... Irmã, “tu tá perdida”. Não vai andar por um mês.
— Ah! Pelo amor de Deus, Jasper! Mas, também, a culpa é minha. Quem mandou conversar com você sobre algo tão pessoal? Só achei que seria maduro o suficiente para me ouvir, entender a situação e me aconselhar. Mas, onde eu estava com a cabeça, né? Você nunca deixaria isso passar, não é?
Cruzei os braços e fechei a expressão indignada e chateada com a reação exagerada dele.
— Ok, Bells, desculpa. Mas, você tem que “dar o braço a torcer”, que é bizarra essa situação, isso é.
Continuei em silêncio por alguns segundos, pois sabia que esse ato despertaria nele o pesar por se divertir às custas dos meus dilemas.
— Certo! Parei! Vamos conversar sério.
De repente, em minha frente estava o que eu precisava. A graça havia passado e ele estava pronto para deixar a seriedade tomar conta da situação para que eu desabafasse.
— Tudo bem, perdão, irmã. Vou ficar em silêncio e ouvir você explicar melhor essa história; depois dou minha opinião... Então, hein, celibatário? Como isso funciona?
Não funciona, eu quis dizer. Mas segurei a língua. Essa resposta seria o gatilho para “o engraçadinho” voltar.
— Não tem o que explicar, Jas. É o que você ouviu: Edward não ficou com ninguém depois de mim. Sua última noite de amor, segundo ele, foi na fatídica noite que fizemos Antony.
O olhar dele era um misto indecifrável de admiração, contentamento e, diversão?
— E como está se sentindo em relação a isso? Acreditou nele? Porque se bem me lembro estava bastante amiguinho da Tânia naquela época.
— Tá terapeuta... Estou mais confusa do que nunca. Mas, de uma coisa eu tenho certeza, ele não mentiu. Está mesmo seguindo essa ideia, ou estilo de vida. Sei lá como chamar... O que não facilita em nada a loucura que está minha cabeça: antes, fui pressionada ao limite, mesmo achando que não era à hora, a ceder, então tivemos nossa primeira vez. Mas agora, que eu estava “doidinha” para ceder, ele vem com essa... Recua e diz que quer ter certeza, quer compromisso. Ahhh, esse homem quer me deixar maluca, Irmão. Estou dando-lhe, de bandeja, o sonho de quase todos os homens: sexo sem exigências. E o bonito vem e... Rejeita! Santa paciência!
— Ah, irmã, perdão, mas não dá. Rá, rá, rá...
Explodiu, de novo, em outra gargalhada alta.
— Desisto, Jasper! Seu babaca!
Espalhei os papeis em cima de sua mesa, frustrada por ele não me levar a sério.
— Não, Bells. Espera!
Tossiu ainda engasgando e rindo as minhas custas.
— Quer saber? Vou trabalhar! Fique aí com sua graça que mais tarde vejo se encontro um amigo disposto a me escutas e aconselhar.
Finalizei a conversa, chateada e disposta a sair dali. Porque a parte “do amigo” era uma inverdade, já que eu não tinha mais alguém tão próximo de mim, a não ser meus irmãos. Alice não era uma opção, como antigamente, eu ainda não conseguia confiar nela.
Emmett? Fora de cogitação. Falar de Edward não era aceitável para ele.
— Não, Bells, espera. Prometo que vou me controlar. É que essa história é absurda demais para ser levada a sério. Eu precisava mesmo ser terapeuta, psicólogo, psiquiatra só para ver se entendo um pouquinho o que se passa na cabeça do seu Cullen.
— Provavelmente a mesma coisa que passa na cabeça da sua. E, não. Cansei de ser trouxa e levar diversão para você. Tenho mais o que fazer.
— Ah não, Bella. Não seja mal- humorada.
— Tarde demais. Idiota!
Tentou segurar meu braço, impedindo que eu saísse, mas, bastava para mim eu já estava perto da porta.
— Vai, Bells. Desfaça essa carranca. Odeio saber que está com raiva de mim. Venha aqui, vamos conversar.
— Não! Vou trabalhar! E não precisa fica aí remoendo. Não estou chateada. Só frustrada com sua reação. Bye. Nos falamos depois.
Não esperei sua resposta, mas ouvi quando afastou a cadeira para se levantar. Óbvio que viria atrás de mim.
— Mas, Bells eu quero saber mais e...
— Mamãe? “Mamanhê”!
Pronto! Fim de conversa! Jasper não aproveitara seu tempo. E agora? Ele estava encerrado. “Mãe” era a palavra mágica. O meu sinal para transformação. Nada, mas nada no mundo, tinha mais importância.
— Aqui, filho.
Chamei quando vi que procurava em minha sala, não sabendo que eu estava com o tio.
— Ah, mamãezinha, o Tony tá “blavo e tliste” e não quem mais ficar com o Mike na loja. Ele é chato! Não deixa o Tony ver se o titio “Edwald” chegou.
Era cedo, muito cedo para rusgas. Mas, o pequeno homenzinho mantinha uma “carinha” emburrada, os braços cruzados e batia o pé, com sua bota, no chão com uma insistência admirável.
— Filhote, vamos com calma. O Mike não pode deixar que vá à rua sozinho, é perigoso.
— Mamãe, eu sei disso. Tony não ia na rua, só na calçada. O Mike não quer é que eu veja o titio.
— Ei rapazinho, baixe a voz e fale direito com sua mãe. Não é assim que te ensinamos. Nunca levantamos a voz para uma mulher.
Jasper interveio quando Antony perdeu a paciência por explicar tanto.
— Desculpe! Tony não quis “glitar”. Mas, mas...
Choramingando, veio mais para perto e estendeu os braços querendo colo.
Assim que atendi seu desejo, ele segurou meu rosto com as duas mãozinhas, exigindo total atenção.
— Mamãe linda, diz “plo” Mike que o meu titio é bom. Que ele não é nada “aploveitador”. E que o Tony pode vê-lo “semple” que quiser? Por favor, mamãezinha, diz “pla” ele, diz.
Antes que eu formulasse uma resposta, Jasper passou por mim e com uma expressão nervosa rumou para a loja.
Era evidente que Mike andava falando demais a nosso respeito.
Segui meu irmão...
— Newton! Em dez minutos quero você na minha sala, por favor. E os demais... Saibam que Edward Cullen, Alice Cullen e os pais deles são da nossa família, portanto tem livres acessos a loja, a Antony e a nós. Então, por favor, os tratem com respeito.
Graças ao bom Deus, não havia clientes naquele momento. Porque mesmo que Jasper não tivesse levantado a voz nenhuma vez, nem perdido a compostura, era constrangedor ser chamado à atenção, ainda mais na frente de colegas de trabalho. Eu precisava alertá-lo sobre essa atitude.
— Agora se mexam. Achem algo para fazer, porque nós vamos ali fora ver se meu cunhado já chegou.
Os dispensou com um aceno de mão e foram tantas cabeças correndo que Antony segurou uma risadinha com a mão.
— Titio Jas, bravo.
— Titio Jas, mal-educado isso sim. Não é assim que se fala com “nossos colaboradores”, filho. Aprenda isso. Educação em primeiro lugar.
— Respeito em primeiro lugar, Cowboy. Não deixe sua mãe te confundir. Agora venha, vamos ali ver se o “quase padre” deu as caras.
Pegou o sobrinho de mim antes que eu tivesse a chance de rebater sua resposta.
Jasper Swan era um anjo, o melhor de nós três, mas quando o assunto era Antony ou eu, ele se transformava.
— Jas, quer parar? Não quero que Forks toda saiba que te contei um segredo. E quero menos ainda que o dono do segredo saiba que te contei. Dá para ser mais discreto?
O segui de perto.
— “O que é seu cunado”? E quem é “padle”?
Revirei os olhos e Jasper gargalhou de novo. Será que ele não entendia que tinha coisas que não dava para falar na frente de uma criança curiosa?
— Não é “cunado”, campeão. É cunhado. Seu tio Edward é meu cunhado porque namoro e vou casar com a irmã dele e...
Olhou-me intensamente antes de responder.
— Por outras coisas mais que, creio em Deus, logo, logo sua teimosa mãe assumirá. E Ninguém é padre, a não ser o Marcus. Eu estou brincando com sua mãe.
Ignorei suas insinuações. Eu não queria voltar aquele assunto.
— É, acho que seu tio não chegou. Precisamos urgentemente comprar um relógio para ele e outro para Emmett. Porque para horário esses dois são um arraso.
— Falando em Emmett, sabe onde ele está? Pensei que fosse um chamado, da loja, de emergência quando saiu de madrugada, mas, não era. Não tinha nenhuma ficha de chamado na mesa dele.
— Mamãe disse que foi a Port Ângeles, mas não sabia maiores informações.
Desceu Antony e segurou sua mão enquanto olhávamos para o fim da rua, aguardando a chegada de Edward.
Meu coração estava na boca, e era sempre assim quando o via, parecia sempre à primeira vez.
— Estranho.
— Estranho? Estranho é ele não ter saído do seu lado ontem, no almoço da vovó, não dando a chance de ficar sozinha com Edward. Ele ficou te cercando, Bells. Agiu como se não tivesse levado uma bronca dos nossos pais no sábado, por causa da saída de vocês. Emmett está aprontando, escreve o que estou te falando.
Era verdade. Emmett não me deu folga no almoço de domingo. Edward e eu mal nos cumprimentamos. Ele não me soltou para nada. Quando não estava a meu lado, me fechava entre os braços ou me segurava junto a ele e Leah sempre inventado uma desculpa qualquer.
Foi sufocante... E eu estava a ponto de gritar, porém uma de suas justificativas para tal comportamento, foi que eu estava muito distante desde que voltamos para cá e que não vinha me comportando como sua irmã.
Minha consciência gritou... Eu devia muito a meus irmãos. A Emmett então, nem se fala. Ele segurou a mim e a meu filho quando eu não tinha forças.
Por isso, me segurei e não fiz objeções quanto a seu comportamento. Era só uma tarde. Edward e eu tínhamos tempo. A começar por agora. Isso se ele resolvesse vir trabalhar...
— Ah, até que enfim. O titio “demola” demais. O Tony fica com saudade dele.
— Ah, se fosse só você, sobrinho.
— idiota!
Voltei a implicar com Jasper quando suspirou e colocou a mão no coração, teatralmente.
Eu não fazia aquilo. Fazia?
— Espere, filho. Não pode atravessar a rua. Edward virá até aqui. Cuidado.
Agarrei sua mãozinha quando fez menção de correr ao encontro do pai. Edward, nos observando com atenção e obviamente prevendo a expectativa, não colocou o carro na garagem, estacionou do lado de fora da clínica mesmo e sem perder tempo veio a nosso encontro.
Soltei Meu Pequeno quando ele já estava todo focado no filho, ou seja, o pegaria não deixando que perigo algum o alcançasse.
— Oi, bom dia. Deus te abençoe.
Pegou-o no ar, quando Antony literalmente se jogou em seus braços. E eu prendi a respiração tamanha emoção em vê-los juntos e gargalhando. Eram perfeitos juntos. Lindos!
— Bom dia. Sabiam que começar o dia assim faz o martírio, no mínimo, suportável? Olá...
Aproximou-se e foi instantâneo, palpável, a tal química. Aquela que nos move e que sempre me fez rastejar aos pés dele.
Rá, a nova Isabella Swan era uma fraude. Edward ainda afetava-a como se ainda tivesse 15.
Foi quase doloroso não juntar nossos corpos e selar sua boca na minha.
— Bom dia. “A impaciência em pessoa” estava a ponto de nos deixar loucos.
Aproximou-se e, meio de lado, encostou o corpo no meu, para só então disfarçadamente, segurar meu dedo mindinho.
Foi calmo e lento, mas a corrente elétrica que nos uniu, foi de uma descarga sem precedentes. Por muito pouco não esqueci meus princípios e me joguei nele.
Edward era lindo demais!
— Sabe Cullen, o dia começou faz tempo. Não tem despertador na sua casa?
— Bom dia para você também, Jasper. E sim tenho meios de acordar cedo, mas foram quase quatro anos sem dormir direito. Então, desde que posso respirar aliviado de novo, às vezes me dou o direito de ignorar o relógio.
— Hum, ensine minha irmã a fazer isso.
— Ignore Jasper. Ele ainda está descontente por Alice ter ido para casa ontem. E mau- humor de administrador só passa depois de centenas de folhas de pagamento para requerer.
Acariciei a mão dele na minha. A vontade de aproximar era quase mais forte que eu. Se Antony não estivesse entre nós...
— Está linda hoje.
Mais que depressa, Antony se ergueu de seu pescoço e me olhou com intensidade.
— A mamãe é “ninda” todos os dias, titio. Num é titio Jas? Diz “pala ele”.
Surpreendentemente a voz dele ficou mais melosa e baixa mostrando algo que nunca havia percebido: ciúme.
— É Campeão. Linda e muito lenta, se bem que creio que lentidão também é algo que possa se aplicar a Edward também...
Por Deus! Abri a boca em um “O” perfeito. Eu não podia acreditar que Jasper dava a entender que sabia da história do Celibato
— Agora se permitem, vou entrar porque o mundo dos adultos me aguarda. E talvez, só talvez e te dê um relógio de presente, Cullen. Te devo uma por semana passada. Além disso, preciso fazer umas pesquisas na internet de “chá levanta defunto” porque pelo que parece depois que a gente “cai” nem reza brava levanta.
Arqueei a sobrancelha na direção dele, mas já era tarde demais. Jas só deu um piscadinha de esguelha e saiu caminhando e assoviando em direção a loja, com se nada tivesse acontecido. Deixando-nos ali sozinhos e completamente sem graça.
— Titio Jas “manuquinho”. Fala umas coisas “englaçadas” que o Tony não entende. E deixa a mamãe vermelha.
— Desculpe-me, Edward. Jasper anda meio...
— Brincalhão demais? Não se preocupe, Bells. Melhor assim do que sisudo como o Emmett. E não se envergonhe. Não é de hoje que conheço seu irmão e sei que dividem muita coisa. Se acalme. Porque não falamos de outra coisa, na confeitaria da esquina enquanto tomamos um café da manhã perfeito.
Desceu Antony e continuou segurando sua mão.
— Ah, não posso. Podemos marcar outro dia? Vou com Jas até as terras da nova reserva. Precisamos montar um plano de reintrodução dos animas que capturaremos das terras das represas.
— Hum!
Observou-me de cima abaixo de uma maneira nada educada, fazendo meus pêlos se arrepiarem e aumentando demais minha vontade de tocá-lo. Foi quase dolorido não me dá esse luxo.
— Então isso significa que só nos veremos a noite?
Aquela não era a dúvida dele, eu sabia. Era óbvio que sentia a mesma necessidade do toque que eu.
Por Deus! Estava na cara, eu amava aquele homem e o queria mais do que tudo.
— Significa, “primeiro a obrigação, depois a diversão”.
— Meu pai sempre dizia isso, mas fiz questão de nunca levar em consideração seus conselhos.
— Você não se vê com muita clareza, não é, Edward? Você chegou tão longe. Olhe para você? Poucas pessoas alcançam seus ideais com tão pouca idade.
Eu queria tirar aquela melancolia e auto-depreciação de dentro dele a força.
— Isso aqui não é meu plano de vida, Bella. Um diploma a troco de realização, do amor, de uma família? Você não entende, não é?
— Claro que eu entendo. Mas é que...
— Tony tem família, amor, a “Mimosinha”, o “Chocolate” e a mamãe. Só falta mais uma “coisinha” para o Tony ser o mais feliz de todos.
— E que coisa seria essa, “seu falador”?
Fiz cosquinha em sua barriga quando se jogou em minhas pernas, mas sem soltar a mão do pai. Era maravilhoso presenciar sua tranquilidade e segurança em nós, a ponto de dizer uma frase grande inteirinha sem nenhuma palavra errada.
— “Segledo”, mamãe. Tony sabe “espelar”.
Foi enigmático, tão enigmático que impossibilitou uma reação imediata tanto de mim quanto de Edward. Levantando uma grande suspeita de que sabia muito mais do que deixava transparecer.
— Ah, seu Pequeno Sapeca, pode falar agora. Eu quero saber.
O pai se recuperou mais rápido que eu, então o jogou para cima antes de voltar a colocá-lo no chão. Era a minha deixa... Afinal, tínhamos um longo dia pela frente.
— Então ficamos assim, nos vemos mais tarde. Amor, se despeça de seu tio porque mamãe precisa trabalhar e ele também.
— Ah não, mamãe. Não “agola” olha quem tá chegando?
Pulou no lugar animado, enquanto apontava para a camionete de Emmett que subia a na maior tranquilidade.
— Pelo visto Jasper precisa cobrar pontualidade de outras pessoas também.
Edward brincou. Porém não pude apreciar sua tentativa de me distrair, já que tinha os olhos vidrados em meu irmão. Algo estava errado, eu sabia.
Emmett estava aprontando, eu o conhecia bem demais para decifrar seu comportamento.
Contudo, eu não estava preparada para o que vi quando o carro se aproximou e parou bem na frente de nossa garagem.
Minhas suspeitas ganhando vida e se tornando um pesadelo mostrando nitidamente um rosto conhecido e inesperado no banco do passageiro.
— Não é possível. Ele não fez isso.
— O quê?
Não deu tempo de respondê-lo, era tarde demais. Muito menos de prever as reações de Tony.
Logo ele corria gritando feliz para os braços do tio.
E o pior? Meu inferno particular estava só começando.
— Papai “Memmett”, papai “Memmett”, você chegou! Tony ficou com saudades!
Pulou no colo do meu irmão assim que ele conseguiu sair do carro.
Foi como um click, a respiração de Edward se alterou e pude ouvir claramente sua surpresa pelo modo como Tony chamou meu irmão.
— Também senti saudades, Campeão. Mas “papai” tinha algo importante para fazer. Olha quem eu trouxe?
Veio andando para nosso lado até se encontrar com, com...
— Tito Benj! Você veio do “Blasil pala” ver a gente aqui “lonjão”.
Não pude nem pensar no que fazer. Antony estava empolgado e agora já mudava de braços. Benjamin o segurava firme enquanto vinha para perto com um sorriso cheio de triunfo. Emmett não estava diferente.
E, só para constar, como diz meu pai... “Nada está tão ruim que não possa piorar”.
— Oi... Eu esperava mais empolgação e menos assombro. Mas, Antony já fez sua parte. Bom dia, Bi.
Sem que eu pudesse prever, me pegando totalmente desprevenida, segurou Antony em um só braço, porque o outro usou para me puxar com força e grudar seus lábios nos meus num selinho curto e desnecessário.
— Linda e cheirosa, como sempre. Senti sua falta, Bells.
Fiquei totalmente atônita. De onde ele tirou aquilo? E ainda tinha as risadinhas de Antony, escondendo o rosto com a mãozinha.
— Ah! Desce, desce, titio. Tony quer contar a titio Jasper que você chegou.
— Claro, Campeão. Vá lá dizer aquele seu tio preguiçoso que eu cheguei e quero café.
O soltou e não demorou nem dois segundos para que o menino saísse correndo.
Eu era o constrangimento em pessoa. Será que ele não via o que estava fazendo?
— Já que Bells não me apresenta... Sou o namorado e você é???
— Ele eu não sei. Só sei que eu sou o pai...
Os dois jogaram o mesmo jogo provocando, mas foi Emmett a me deixar mais mortificada e nervosa. De uma maneira que eu nem sabia que era possível.
— Eu, eu... Não sou ninguém. Falo com vocês mais tarde. Agora preciso ir.
O quê? Não! Edward não poderia sair assim sem me deixar expor aqueles dois idiotas.
— Edward espere. Eu...
Foi em vão. Ele nem olhou para trás. Deixando em mim o sentimento de culpa.
E ainda tinha aquele último olhar... Não era acusação, nem julgamento, mas sim decepção. Decepção pura e doída.
Eu não poderia deixar as coisas assim.
— Benjamin, o que pensa que está fazendo?
Furiosa, voltei-me para ele e apontei o dedo para seu peito com uma raiva avassaladora.
— O que, Bells? Se namoradinho ficou ofendido? Azar o dele se não está preparado para uma concorrência. Eu vim para brigar e ganhar.
— Não é uma competição, seu idiota. Quer saber? Vá para o inferno, ou melhor, volte por onde veio. E você?
Olhei para Emmett, que ainda tinha aquele sorriso idiota no rosto.
— Acertamos quando chegarmos em casa. Estou cansada desses seus joguinhos.
Com a certeza de que precisava urgentemente fazer algo, corri para a clínica a fim de esclarecer a situação.
— Ei, não pode entrar aí. O doutor não quer ver ninguém.
— Me impeça, Stanley. Impeça-me.
Não perdi tempo com a “mosca morta”, eu tinha um objetivo. Nem me importei se a recepção estava lotada, falei mesmo.
Não me anunciei, nem bati na porta, só entrei.
— Que droga, Edward! Eu tenho o direito de falar.
— Por favor, Bella, por favor... Agora não. Preciso ficar sozinho um minuto. Conversamos quando vier deixar Antony.
— Não!
Dei ênfase a minha decisão me aproximando e apoiando as duas mãos em sua mesa.
Os olhos dele estavam marejados e era de cortar o coração a confusão que seus olhos transmitiam.
— Eu tenho o direito de falar.
— É claro que tem, mas tenho o direito de me preparar para ouvir sobre seu passado e talvez presente. Por Deus, Bella! Eu me abri totalmente. Entreguei-me em suas mãos. Em troca só pedi um pouco de confiança, mas... Ah, merda! É por isso que não se compromete comigo. Você já é comprometida. Antony chama Emmett de pai, nem isso vou ser para o meu filho. Até isso você tirou de mim.
— Tirei de você? Eu que tirei de você? Tem certeza?
Droga! Não era isso que eu queria dizer, não estava aqui para acusar e relembrar. Estava aqui para explicar.
— Eu, eu...
— Não! Chega! É minha vez de falar.
Fui mais dura, exigindo que se calasse.
— Por Deus, Edward! Não me acuse, não é assim que recomeçaremos. Eu só quero que entenda que estava quebrada, destruída, não tinha um pingo de auto-estima nem de força para continuar a viver. Minha única motivação era Antony. E, mesmo assim, quando, em um dia qualquer de maternal, ele chegou chorando em casa porque não sabia quem era o pai e os coleguinhas riram dele, eu quis morrer. Quase entreguei os pontos. Eu me crucificava, afinal nem dar tudo para meu filho eu conseguiria, por mais que trabalhasse. Então Emmett, me ajudou de novo. Disse a ele, que o papai estava muito longe, mas que algum dia se reencontrariam e que até esse momento chegar. Ele seria o papai substituto. E foi assim que surgiu o Papai Memmett. Emmett foi só uma solução de momento. Antony sabe que tem um pai e aguarda ansiosamente pelo momento de conhecê-lo. Por Deus, Edward. Emmett é meu irmão. É só um tio muito amado.
— E meu filho o ama como um pai. Meu filho, Isabella! Meu filho.
Disse mais alto batendo com a mão no peito depois descendo-as sobre a mesa. Assustando-me, me fazendo recuar dois passos.
— Não é assim. Vocês já conversaram a respeito. Antony sabe qual é o lugar de quem. Pergunte-o de novo se isso o perturba tanto.
— Eu não quero perguntar nada. Quero ficar sozinho! Saia daqui antes que eu fale coisas que lamentaremos mais tarde.
Virou-se, dando-me as costas. As mãos imediatamente iam e voltavam pelos cabelos, mexendo e remexendo, tornando tudo uma desordem total.
— Edward, olhe, nós nunca quisemos te substituir. Foi só porque...
— Eu te esperei! Porra! Eu te esperei!
Olhou-me de volta, agora com uma fúria insana, o dedo em riste e o grito ameaçador.
— Eu...
— Você seguiu em frente e eu fiquei preso no passado!
Falou mais alto ainda e então... Foi a deixa... Eu não era mais a menina boba apaixonada. Se ele queria jogar esse jogo, que estivesse preparado, porque eu também tinha armas pesadas.
— Rá! Depois de dias de recuperação física? Meses de briga contra a vontade de morrer? Ou então, que tal, anos de luta com a depressão, ansiedade e nervosismo? Sim, pode se dizer que eu tentei seguir em frente.
Foi minha vez de apontar para ele.
A fera adormecida acordara e agora estava totalmente descontrolada e a solta. Ele ouviria. Ahh se ouviria!
— Eu te esperei.
Repetiu. O diferente é que dessa vez foi baixinho e um tanto que assustado com meu estado atual.
Porém, não me comovi, voltei a gritar.
— Eu não sabia! A última lembrança que tinha de você, era de Tânia agarrada a seu pescoço enquanto eu me embrenhava sozinha, mas grávida, pela mata.
Foi imediato! Minhas palavras causaram o efeito destruidor o ferindo. E sua expressão rapidamente passou de raiva para arrependimento e dor. E o mais incrível? Causaram o mesmo efeito em mim. Tanto que baixei o tom terminando a última parte do relato aos sussurros.
— Só que eu te amava, Edward. Mesmo com tanta mágoa, eu te amava. Então, foi e ainda é, um processo lento de aceitação e amor- próprio. Não pense que foi fácil assim reerguer. Eu estudava, dois cursos, aliás, e morava numa fazenda enorme, com lavouras e gado. Vivia rodeada de homens e mulheres bonitos, porque convenhamos, brasileiro é o povo mais bonito. Enfim, era “elogiada” por ambos os sexos, mas não. Eu não acreditava nas pessoas, elas tinham que estar enganadas. Porque a “pessoa mais importante do mundo para mim”, me achava inadequada. Pouco para sua posição.
— Bella...
— Não! Agora você vai ouvir. Está acabando.
Estendi a mão mantendo-o no lugar onde estava e em silêncio.
— Eu nunca dei chance a ninguém. Recusei cada convite para sair. Dispensei e me afastei de cada pessoa que se aproximou. Eu já tinha me entregado de corpo e alma uma vez, e não terminara bem. Eu não me considerava boa o bastante para alguém. Só minha família sabe como eu era naquele tempo... Então, em um dia, quando eu ainda não podia clinicar porque não havia terminado o curso, papai foi até a cidade e buscou um profissional, para dar uma olhada no melhor Garanhão da fazenda, que estava doente. E eis que Benjamin entra em nossas vidas.
— Ele é veterinário.
Não foi uma pergunta, então não respondi. Continuei a falar.
— A conexão com meus irmãos foi imediata. Já comigo... Bem, não havia uma conexão, eu não deixava. Ele diz que assim que bateu os olhos em mim, ficou interessado, eu nem o percebi. Estava mais interessada na medicação que deu no Trovão. Mas, Benj foi paciente. Esperou, esperou e esperou. Três anos, para ser mais exata. E quando eu já não aguentava mais e não sabia como dispensar seus convites, mamãe teve uma conversa franca comigo. Não lembro muito das palavras, porém ficou marcado que “só um novo amor para curar um antigo”. Ela basicamente, me mandou dar uma chance a uma pessoa boa, que não desistira. Que vira que eu estava em pedaços e escolhera esperar eu me curar.
— Então você cedeu.
— Eu cedi! Saímos uma vez, duas, três... No quarto encontro ele me beijou. E por mais que te doa, eu gostei. Benj não me cobrou nada. Ele me conhecia e não me julgava por minhas escolhas, então eu o escolhi e dei uma chance. E não vou me desculpar por isso, Edward. Era a primeira vez que eu era venerada por um homem que dizia me amar.
— É por isso que ele veio, não é? Ele quer o que é dele. Por isso não quer nada comigo. Eu perdi minha chance.
Havia tristeza em sua voz.
— Eu não sou de ninguém, Edward. Quando aceitei namorar Benjamin estava disposta a esquecer o passado. Não era nossa intenção voltar para cá, eu recomeçaria e recomeçaria com ele. Mas, aí a vida mudou, de novo, nossos rumos.
— Vovó adoeceu e vocês voltaram momentaneamente. E agora ele veio buscá-los. Por Deus! Eu vou perder de novo!
— Rá! Se fosse assim tão simples. Eu ainda não cheguei à parte de que descubro que mamãe estava enganada... Não, Edward. Eu não voltei para Forks compromissada com Benjamin. Eu terminei tudo assim que soube da nossa volta. E não pense que foi por causa da distância. Claro que não! Foi porque eu sabia que assim que colocasse os olhos em você eu me entregaria. Benj sempre soube de você. Ele tem consciência de que não é uma competição, porque não seria justo com ele. Então, Edward, eu não faço a mínima ideia do que está fazendo aqui, aliás, creio que seja coisa de Emmett, mas te prometo que vou descobrir. Porém, só precisa saber que se ainda não nos assumi, é por causa “das minhas paranóias”. Benjamin não é uma preocupação.
Ficamos em silêncio. Olhos nos olhos. Eu me abrira e agora esperava o veredicto.
— Eu... Eu estou confuso, Bella. Mereci tudo que acabou de me dizer. Mas, minha cabeça está um nó. Eu... Eu vou para casa. Deixe-me esfriar a mente. Por favor, podemos conversar quando vier trazer Antony à noite? Eu, eu, preciso de Alice, de Esme... Quero me acalmar para não te magoar. Por favor...
— Tudo bem.
Não sei se ouviu minha resposta, porque ele agarrou sua maleta e saiu porta a fora. Até tentei segui-lo, mas quando alcancei a porta da clínica e camionete já descia em alta velocidade pela rua.
Ele fora embora.
— Ahhh!
Coloquei de lado aquele sentimento de culpa e deixei que a raiva me dominasse de novo. Mas agora eu a desabaria nas pessoas certas.
Por isso, corri, literalmente corri de volta para loja. Passei pela recepção e me dirigi para as salas nos fundos, onde sabia que os três estavam.
— Tony, vá pegar a sua mochila. Nós vamos sair.
— Mas, mamãe, Tony tá “convelsando” com o titio Ben.
— Agora!
Não cedi as suas manhas. Eu o queria longe dali por, pelo menos, trinta segundos.
— Vá lá Cowboy. Não devemos desobedecer à mamãe, não é.
Benjamin o colocou no chão para só então se encostar de novo na mesa de Jasper.
Meus irmãos estavam mudos olhando e tentando adivinhar meu próximo passo. Nem seria difícil assim descobrir.
Virei-me para Emmett assim que Antony saiu.
— Chega, Emmett! Estou farta da sua intromissão. Espere-me acordado, vamos ter uma conversinha quando eu chegar da universidade. Quanto a você...
Apontei o dedo para Benjamin.
— No que estava pensando quando me beijou? Se seu intuito era me deixar em “maus lençóis”, parabéns, conseguiu. Agora pode voltar por onde veio antes que eu chute sua bunda com minha bota nova.
— O quê? Se namoradinho não sabe competir, Lady Be?
— Meu namoradinho não precisa competir, seu idiota. Sempre fui dele.
Não fiquei ali para escutá-los mais. Eu tinha uma conversa agora. E sinceramente, aquela seria a conversa mais difícil, porém a mais importante de minha vida.
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