Notas iniciais
Bom, esse nem demorou assim... Espero que aproveitem. Beijinhos e bom fim de semana a todas!

Bella

– Ei Linda, não vai atender o telefone? Isso aí vai explodir de tanto tocar. Aposto que já está quente.

Revirei os olhos e me afastei alguns metros da ordenhadeira, o barulho era alto, mas não o bastante para abafar o toque insistente do meu celular. Tanto que Benjamin percebeu e não perdeu a oportunidade de implicar.

– Fica de olho aí. Já volto.

Apontei para um empolgado Antony, ao seu lado, perguntando, se divertindo e acariciando cada animal que passávamos para o cercado.

– Diz pro seu namoradinho que estamos trabalhando, pra ele dar uma folga.

– Fica caladinho, Benj. As vacas odeiam sua voz. A produção até diminui quando fala. E só para saber, é noivo!

Levantei a mão mostrando-o a prova reluzente em meu dedo.

– Ora! Sua....

– Titio, não pode falar “palavlão” a mamãe não “melece” e a Mimosinha não gosta.

– Viu? Aprenda!

Fiz sinal com o indicador e me retirei mais para longe, o telefone continuava a tocar.

E, por Deus! Era seis da manhã. Quem em sã consciência liga para outra pessoa a essa hora?

– Alô.

Respondi bruscamente, sem nem olhar o número.

— Hum, estou incomodando, não é? Perdão! Eu só queria desejar bom dia. Falo com você mais tarde e...

— Não!

Putz! Eu e a “ogra que habita em mim” ... será que eu não aprenderia nunca? Edward não precisava de uma mulher assim do seu lado.

– Não está atrapalhando, eu que peço perdão. Atendi sem olhar quem era. Desculpa? Não esperava que fosse você, está muito cedo. E é sábado.

Sussurrei a última parte lembrando de como ele gostava de aproveitar a cama nos fins de semana, algo que não acontece quando temos afazeres diários de uma fazenda.

— Meus hábitos mudaram um pouquinho, você vai ver quando compartilhar mais nossa casa. Se bem que...

Senti uma pontadinha de desapontamento em sua fala, já que era fim de semana e graças aos planos de nossos pais, não poderíamos passa-lo juntos.

— Com essa chuva, deu mesmo vontade de ficar deitadinho. Já pensou, nós dois, cama e cobertor quentinho?

– Rá, isso não me pertence mesmo, Amor. Estou desde as quatro da amanhã de pé. Mas, prometo que vou cobrar essa ideia.

— Hum, pode cobrar. Está nas baias? Tá agasalhada? Antony está com você?

– Estou na ordenhadeira. Antony está comigo, bem seco e protegido. O contrário da mãe dele, que está enxarcada dos pés à cabeça.

– E com frio.

– Nem tanto. O trabalho não deixa o sangue esfriar. Estamos bem, Edward. Não se preocupe.

— Impossível, Vida Vai demorar muito aí ainda?

A mudança palpável ainda me surpreendia. Acho que o antigo Edward nunca me ligou a essa hora, muito menos se preocupou em como eu estava.

– Mais um lote de 10 animais. Lavar os equipamentos e então entrar, acho que mais uma hora.

— Tome um banho quente, se agasalhe e beba algo aquecido também. Não quero que se resfrie.

— Combinado. Não se preocupe mesmo, está tudo bem. Estou bem.

Ele ficou alguns segundos em silêncio processando minha afirmação e no fim não pareceu convencido.

— Já viu seu irmão? Ele te tratou bem?

Não, eu não havia visto Emmett ainda.

Cheguei na Sonho Azul ontem à noite, já era mais de meia noite, Edward nos trouxe. Meus pais já haviam viajado e certeza de que o avisaram para não passar dos limites comigo, já que eu estava ali “por livre e espontânea pressão”.

– Ainda não o vi. Estão montando os móveis da casa dele e creio que fica vistoriando tudo. Devo vê-lo quando entrar.

— Ok. Não deixe que te irrite. E qualquer coisa me liga que te busco. Não é obrigada a aguentá-lo só porque prometeu a seus pais. A vida é uma via de mão dupla.

– Ok, Anjo. Recado anotado. Mas algo me diz que ele ficará bonzinho. Agora preciso ir, porque... Edward?

A linha ficou muda de repente.

– Edward? Tá aí?

— Você... você...

– Eu o que? Está me assustando. O que foi?

— Me chamou de Anjo.

Chamei?

– Não entendi. Já fiz isso muitas vezes desde que voltamos e...

— Não de Anjo. É a primeira vez. Já disse Amor, Vida, mas Anjo é a primeira vez. Eu queria tanto ouvir.

Anjo?! Ahh! Eu sempre o chamava de Anjo quando queria que ele entendesse alguma coisa ou quando tentava fazê-lo perceber o meu amor. E pensando agora... acho que nunca mais chamei alguém assim, a não ser Antony, que era, de verdade, o meu Anjinho.

– Faço questão de dizer sempre então. Não sabia que era tão importante.

— É importantíssimo. Me deixa mais confiante que acredita no meu amor agora.

— Eu acredito. Confie.

— Te amo! Sou tão agradecido por sua bondade, Bella. Te liguei para desejar bom dia, dizer que te amo e persuadi-la a jurar que nunca mais deixaremos que nos afastem nos fins de semana e acabo recebendo um presente. Você não existe, Vida.

— Não precisa de persuasão. Só Deus sabe como consegui me afastar de você ontem e...

– Linda, é o último lote. Posso passar?

Putz! Ah, Benjamin!

– Pode sim. Já estou indo. Vou só me despedir do meu noivo.

Dispensei o Intruso da melhor maneira que consegui.

— Ele tá aí, não é?

O desânimo na voz dele foi certeiro. E nem a minha tentativa de suavizar a situação ajudou.

– Está. Eu precisava de ajuda na ordenha, Edward. Meu pai não está e Emmett está cuidando dos últimos detalhes da construção.

O silêncio reinou. E, por Deus, eu o entendia.

– Edward, por favor... Dá para confiar em mim? Eu nunca te magoaria dessa maneira e você sabe disso.

— Eu sei. Mas essa certeza não me impede de sentir ciúmes, ainda mais sabendo que ele está ao seu lado, neste exato momento, e eu não. Aliás, ele está com meu filho também, não está?

— Para sua tranquilidade, não estamos tão perto assim.Benj está de um lado dos poços de ordenha e eu do outro. E Antony? Ele não fica em um lugar só então, perto de ninguém.

Frisei.

– Namoradinho com ciúmes?

Fiz careta para o bastardo idiota que tentava me deixar “em maus lençóis”.

— Não me tranquiliza essa informação. Ainda é perto demais de você. E por que o chama de Benj?

– Só fisicamente. Porque é você que domina meus pensamentos e coração. É você que me beija, me deixa quente e com muitas saudades. E é você que vai me segurar nos braços, à noite, para o restante de nossas vidas. Eu escolhi você. Se quisesse ficar com ele, nem teria voltado, Edward. E Benj é só uma abreviação do longo nome dele, não tem nada implícito aí.

– Ai doeu!

Reclamou Benjamin que continuava parado a minha frente ouvindo a conversa e olhando-me atentamente.

– Essa era a intenção. Agora dá para sair? Quero privacidade para me despedir de Edward.

– Já fui, Linda. Já fui.

Falei alto para que ambos entendessem seu lugar na conversa e em minha vida. Precisava deixar as coisas claras. E ao mesmo tempo amenizar as inseguranças de Edward.

– Pronto. Estamos sozinhos de novo. Edward...

— Não.Me desculpe. Não precisa dizer mais nada. Temos um passado longe um do outro, Bella. E o que fizemos nesse período é problema só nosso. Você me perdoou sem eu merecer. Quem sou eu agora para exigir alguma coisa? Eu confio em você, Vida.

Eu sei que confiava, até porque nunca lhe dei motivo para não. Contudo, odiava saber que estava chateado por estar longe.

– Prometo que assim que nossos pais chegarem corremos para sua casa e só saímos segunda de manhã.

— Nossa casa.

Corrigiu.

– Isso nossa casa. Você vai enjoar de nós aí logo, logo.

— Não conte com isso. Amor...

— MAMÃE, A MIMOSINHA NÃO QUER SAIR. TIO BENJ NÃO SABE CUIDAR DELA.

— Ok, já entendi que está ocupada. Vá lá antes que nosso filho derrube o barracão com seus gritinhos.

— Vou. Mas vou sentir sua falta o dia todo. Te ligo a noite. Pode ser?

— Claro. Vou aguardar ansiosamente. Se cuide, saia da chuva, se aqueça e não vá para os lados do rio, das represas e do córrego. A previsão do tempo marca chuvas torrenciais o dia todo. Provavelmente teremos uma enchente forte. Certeza que a Sonho Azul ficará inacessível. Ficarei mais tranquilo se souber que está quietinha do lado daí. E não fique tão perto do... inquilino de vocês.

A preocupação dele era uma das principais mudanças e, confesso, amava cada parte dela.

– Ok, Anjo. Anotado! Ficarei por aqui. Se cuide também e pense em nós. Te amo.

— O tempo todo estou com vocês. Te amo, Vida! Fique bem e me ligue se precisar de algo.

– Ok. Até mais. Beijos.

— Beijos e diga a Antony que papai ama e que está com saudades.

– Recado dado. Te amo!

Com o coração saltitando desliguei antes que ele falasse outra vez. Porque era bem capaz de ficarmos nesse jogo de despedida o dia inteiro.

— Mamãe, você “demolou”.

– Era o papai, Amor. Ele está morrendo de saudades e mandou beijo.

– Tony também tá com saudades dele.

– Vamos ligar a noite e você fala com ele. Tá bem? Agora afaste-se um pouquinho para a mamãe passar a Mimosa para as pastagens.

Ele atravessou o galpão e subiu em cima das proteções metálicas que cercavam o lugar.

Longe o bastante. Era a minha oportunidade.

– Dá para se comportar, por favor? Estou fugindo de confusões.

Abordei Benjamin enquanto tirava de suas mãos o kit de higienização dos animais.

– Não sei do que está falando.

– Sabe sim. Me chamou de Linda para Edward ouvir. Estamos noivos e você está provocando.

– O quê? Feri os “sentimentozinhos” do príncipe? Ah, que pena! Não sabe competir “o seu boy” dos sonhos?

Usou do cinismo brasileiro e fez questão de arrastar o sotaque só para aumentar a provocação.

Eu odiava quando fazia isso.

– Não é uma competição, nunca foi. Você sempre soube disso.

Falei entre dentes segurando a raiva para não gritar e acertar algo pesado em sua cabeça.

– Eu poderia fazê-la feliz, aliás fiz isso enquanto estávamos juntos. Se não tivessem voltado para cá, seríamos uma família agora.

– Talvez! O que não significa que estaria completa. Edward é o amor da minha vida, Benj. Pare de implicar ou será impossível uma convivência. E te devo demais para...

– Não quero sua gratidão, quero seu amor, Bella.

– E você o tem. Mas, não da maneira que deseja. E, infelizmente, se não for o bastante para fazê-lo parar de atormentar Edward, não vejo outra maneira a não ser nos afastarmos.

– O ego “do seu machinho” é tão pequeno que não suporta que outro homem tenha possuído a mulher que ele fez questão de descartar?

– Possuído? Quer saber? Dane-se! Fiquei aí com seu veneno.E espero que morda na língua. Idiota! Só fico pensando onde eu estava com a cabeça quando me envolvi com alguém tão escroto?

Fumegando de ódio, dei-lhe as costas pronta para deixa-lo com o restante da lida sozinho.

As pessoas andam com a mania de se meterem demais em minha vida.

– Não! Bells, espere! Por favor...

Segurou meu braço restringindo minha fuga.

– Desculpe, desculpe. Não quero que pare de falar comigo. Eu te amo, Isabella. E prefiro ser seu amigo a não ser nada.

Respirei fundo e voltei-me para ele...

– É que não é fácil saber que perdi para alguém que foi o pior dos piores. As nossas possibilidades eram tão boas. Você merece mais.

– Não, não eram, Benj.

Me aproximei e passei a mão por seu rosto que agora demonstrava um cansaço avassalador.

– Eu adoro você, meu filho também. Mas, Edward é… Edward! Sempre fui dele. Por favor... quero você em nossas vidas, então não torne as coisas impossíveis.

Foi a vez de ele respirar profundamente e então me puxar para seus braços num abraço forte e cheio de significados.

– Eu vou tentar! Juro que vou. Não me afaste, eu imploro.

Bom... era um começo, certo? Só esperava que Edward concordasse com essa ideia.

Não era todo dia que um atual concordava com um ex na vida de sua namorada.

Só Deus mesmo para me iluminar nos meus dilemas!

Rósalie

O silêncio... Deus como eu odiava o silêncio! O que era contraditório ao extremo, já que morava no interior, e ainda pior, numa fazenda. Literalmente, no interior do interior.

– Afh!

Resmunguei alto atravessando o corredor e parando na sacada de um dos espaços que Esme mais gostava, a vista para a estrada.

Ela sempre dizia que contemplar a natureza trazia paz, e juro, eu não sei que paz, principalmente hoje, quando chovia torrencialmente e raios e trovões cortavam os céus assim do nada.

E é aí que entrava mais uma contradição do meu pensamento, não estava silencioso.

Trovoava tão alto que em certos momentos parecia que o chão tremia, zombando de mim e minha atual situação. Ou seja, não estava nada silencioso. Porém, as manifestações da mãe natureza não confortavam minha atual situação.

O silêncio estava em mim. Impregnado na alma.

E sim, o fato de estar completamente sozinha contribuía, e muito, para esse sentimento.

Porém, eu sabia que esse não era o principal motivo dessa maldita melancolia que ameaçava me dominar.

– Pare de fazer drama, Rósalie!

Resmunguei alto o bastante para que as palavras tomassem forma.Não adiantou. E eu me odiei mais por isso.

Eram minhas escolhas. Havia traçado meu futuro há tempos quando resolvi o que queria da vida.

Agora não era hora para arrependimentos. Eu sabia no que estava me metendo.

Então vocês perguntam: se sabia o que aconteceria, por que não evitou?

Pois é, nem eu sei a resposta. Tudo foi acontecendo. Virando uma bola de neve que nem percebi no que me transformava.

E talvez até hoje não tenha muita noção de quão errado ou ruim eu era, ou ainda sou, segundo as últimas palavras de meu pai.

É, eu mereci cada menção dura que ele frisou. Ou melhor, ele acha que eu mereci. Eles acham, né? Porque Esme, Alice e certamente Edward não pensavam muito diferente.

Mas, preciso confessar, doeu. E como doeu. E só de relembrar, calafrios sobem por minha espinha.

Lembranças on

— O que deu em você? Perdeu toda noção de respeito que te demos? Eu criei um animal em vez de uma filha?

A fúria dele exalava em cada poro. E certeza de que só não apertava meu pescoço porque havia uma bendita mesa entre nós.

– Fale, Rósalie! Se explique. É sua chance. Porque, por Deus! Precisa haver uma explicação para alguém atacar, de graça, a irmã grávida.

– Ela não é minha...

– Diga isso outra vez e não respondo por mim.

Ameaçadoramente apontou o indicador em minha direção.

– Ou, pensando bem, talvez não seja mesmo, não é? Porque Alice e Edward parecem demais comigo e sua mãe.Já você... O que pensa que está fazendo, Rósalie? Há anos não temos paz e sorrimos como agora. O irmão de sua mãe está de volta, ela e sua avó estão em êxtase. Alice voltou a sorrir porque está completa de novo com Jasper e essa gravidez. E Edward? Ele reencontrou o motivo para viver. Ele tem o amor de sua vida nas mãos, Rósalie.

É, eles têm os amores, e eu?

– Isso não te faz feliz, filha? Não te motiva? Sua família está se reestruturando. Olhe as mudanças, Rósalie. É contagiante. Sinta! Se apegue a ela. Mude!

Bateu na mesa, perdendo a compostura e descontando a frustração em algo que não fosse em mim.

Só que eu também estava afiada e afetada naquele dia. A felicidade deles me atingia em cheio.

E eu?

– Quero que se explodam. Odeio o que você e mamãe fizeram comigo, sem me consultar. Odeio esses dois que se acham da família e...

– Chega! Cale a boca. Agora! Antes que seja tarde demais, porque juro que não me arrependerei de te dar umas palmadas. O que fizemos, Rósie? Te demos irmãos? Foi esse o nosso pecado? Te demos uma família? É por isso que nos culpa?

Puxou os cabelos com violência, buscando uma válvula de escape para sua raiva.

– Onde foi que erramos, Rósalie? Pensei que eu é que havia estragado vocês, já que Edward, também era intragável. Mas, quando vejo o que ele aprendeu com a dor, me dou conta de que talvez o problema seja você. Já que o influenciava demais. E quando esse estímulo foi cortado, ele virou outro. Ahh, se tivéssemos percebido isso antes... Não teríamos perdido anos do meu neto.

A amargura dele era visível.

– Eu teria te mandado para um colégio interno na “conxixina” se tivesse percebido que nosso erro foi só com você. Foi o dinheiro em excesso? O luxo? As extravagâncias? Me conte, Rósalie, onde foi que erramos? Preciso alertar Alice e Bella para que não cometam o mesmo erro.

Baixou a voz, parecendo mais velho e cansado do que nunca.

Ahh pai...

– Te demos tudo. Desde tranquilidade financeira, a valores morais e exemplo. E o que recebemos em troca? Amargura, falta de amor e zero educação e respeito. Alice está grávida? Tem noção do que é isso? Se ela perder esse bebê... Ninguém te perdoará, filha.

Eu, eu... Alice não estava bem? Eu tinha extrapolado mesmo?

– E Antony... Rosie ele é o menininho mais esperto e lindo que eu já vi. Você amaria passar os dias com ele. Mas... Por Deus! Como convenceremos Edward e Isabella a deixar que chegue pelo menos a meio metro do garoto se você não muda?

– Não estou pedindo por isso.

Explodi de volta.

– Então me conte, o que quer filha?

Carlisle não parava. A ideias já estavam desordenadas e ele falava uma coisa atrás da outra apunhalando meu coração, sem nem parar para respirar.

– Ficar sozinha?

– Não.

Respondi baixo temendo o pior.

– Pois será exatamente isso que acontecerá. Sua mãe e eu não seremos eternos e quando menos perceber estará perambulando pelo mundo, sem ninguém, nem para conversar. Pense nisso, filha.

Fechou mais a expressão e respirou fundo, muito fundo.

– Acho que esse fim de semana servirá de amostra. Sua mãe e eu viajaremos e certeza de que depois do seu showzinho de hoje, que Jasper não permitirá que Alice fique sozinha com você. Então, aproveite o momento e pense. E, ah...

Olhou-me profundamente antes que se retirasse de vez.

– Espero que a loja esteja dando lucro, porque a partir de hoje, está por si mesma. Se tem intelecto para “dizer palavras bonitas” para seus irmãos, também tem para administrar suas finanças sozinha. Como diz minha sogra: “quando não se aprende pelo amor, quem sabe pela dor”?

Caminhou rumo a porta me deixando sem palavras.

– Ah, e ia me esquecendo também... Como eu disse, certeza de que Bella e Antony não deixarão Antony perto de você, então sugiro que vá pensando em se mudar. Porque sua mãe e eu, fazemos questão dos nossos netos “na nossa casa” ... Você tem até o fim do mês.

Lembranças off

Só de relembrar a palavras de Carlisle o ar faltava. E nem era pelo corte de apoio financeiro.

Não, claro que não! A loja ia muito bem, há tempos.

O doloroso era ver a decepção estampada na face dele. O triste era o medo de ficar sozinha para sempre.

Carlisle era meu porto seguro, o meu exemplo. E vê-lo me diminuir como um nada, doeu na alma.

Eu sei que mereci, que fui dominada por sentimentos contraditórios e descontei em Alice.

Mas Deus! Estava tudo tão confuso. A pressão era tanta... Tânia era o principal motivo. Eu queria tanto, tanto... enfim.

– Chega, Rósalie. Vá para cama, mulher. De que adianta essa lamúria toda?

Voltei a falar alto, tentando que minha voz preenchesse o vazio fantasmagórico que vinha após o barulho ensurdecedor doutro trovão.

– Você não pode fazer nada, ainda não. Paciência, muita paciência.

Era o que eu pedia. E que eles tivessem comigo também, porque uma hora as coisas seriam reveladas a minha frente, e eu só esperava estar pronta para escolher o certo, ao menos uma vez na vida.

Seja ele qual fosse e doesse a quem doesse.

Bella

Tentando, pela milésima vez, o número de mamãe, desci as escadas e quase tive um infarto ao encontra Emmett, feito uma múmia, sentado na sala de estar com duas lanternas nas mãos.

– Ah, chuva.

Resmunguei sacudindo o celular com raiva, como se a culpa de Renée não atender, fosse dele.

– Edward? O sinal está ruim, com todos esses raios e trovões.

– Não! Antony e eu falamos com ele agora. Estou tentando é mamãe e papai. Eles não avisaram se chegaram.

– Chegaram bem, não precisa se preocupar. Renée ligou para saber das dores de Leah... Onde está Antony?

Olhei-o com cautela. Estava doce demais.

Sério mesmo que achava que iria voltar a conversar comigo como se nada tivesse acontecido?

– Dormindo. Desacostumou a levantar tão cedo. Apagou logo depois do jantar.

– Hum.

Um silêncio desconfortável pairou e eu estava pronta para me afastar, quando ele, até que enfim,tomou a iniciativa.

– Senta aqui. Toma um vinho comigo? Eu queria conversar.

Apontou para o seu lado no exato instante que outro clarão, de um raio, brilhou na sala. As luzes piscaram e eu achei, de verdade, que teríamos o primeiro apagão da noite.

– Tá. Sabe se os geradores estão abastecidos? Pelo visto vamos ficar sem energia.

– Benjamin está verificando isso... Tinto ou branco?

– Tinto.Sempre!

Foi até o pequeno bar de Charlie, ao lado das enormes janelas de vidro, encheu duas taças. E veio a meu encontro.

– Senta.

Me entregou a bebida e apontou para o sofá antes de se acomodar confortavelmente na outra ponta. E eu, só para evitas maiores conflitos, sentei na poltrona de frente para ele e o mais longe possível de sua presumívelira.

– Ainda bem que Charlie e Renée dormirão por lá. A essa hora o ribeirão da divisa com a Paraíso, com certeza, já transbordou, impossibilitando a travessia. E se se isso não aconteceu aqui com o córrego da Sonho Azul ainda, é só questão de minutos. Há muito não via uma chuva tão intensa.

Arqueei a sobrancelha na direção dele.

Era verdade. Certeza que a Sonho Azul e a Paraíso estavam ilhadas, nesse momento. A gente muito mais, porque os limites das duas fazendas eram delimitados, na única estrada que nos ligava, por um córrego que sempre enchia quando a tempestade era demais. E a de hoje estava terrível.

Porém, eu não estava ali para falar com Emmett sobre o tempo.

– Sério mesmo, Emm?

– O quê?

– Quer mesmo falar sobre o tempo?

Girei a taça em minha mão, causando um redemoinho vermelho na bebida.

– Quero?

Deu de ombros meio que perguntado e respondendo.

Afh! Ou ele era estúpido ou completamente sem noção.

– Ok. Se era só isso, estou indo...

– Não! Bella, espere!

Falou mais alto quando eu já me levantara e preparava para deixa-lo a sós outra vez.

– Eu, eu não sei como fazer isso. Só me dê dois segundos.

Colocou a taça na mesa de centro, e esfregou os cabelos com violência enquanto firmava os cotovelos nas pernas.

Sua respiração era alta e descontrolada e eu poderia jurar que ele buscava um autocontrole que não tinha.

Fiquei quieta e esperei. Ele que teria que dar o primeiro passo.

– Ok! Eu, nem sei por onde começar. Eu...

Outro trovão soou alto fazendo com que o chão tremesse e as janelas tilintasse.

A luz piscou mais uma vez e nós, que moramos na fazenda e somos acostumados a esse tipo de coisa, sabíamos que na terceira queda, ela acabaria de vez.

– Só diga, Emmett...

Incentivei.

– Não é tão fácil. É ir contra tudo que está arraigado em meu ser.

Voltou a me encarar e para dar-lhe mais alguns segundos tomei um gole da minha bebida, sorvendo devagar e saboreando cada gota.

– Primeiro, eu queria deixar claro que Leah é meu amor. Se eu disse algo contrário foi no calor do momento e não poderia me arrepender mais, de ter agido tão idiotamente.

– Eu sei. Não se preocupe com isso. Vocês não estariam juntos até hoje caso não se amassem. Você só quis ferir a mim e Jasper.

– Foi.

Confirmou com a cabeça e por um minuto seus olhos vaguearam para aquele dia e no fim, sua expressão de dor, era a confirmação de que ainda machucava lembrar da fisionomia da esposa com o que ouviu.

– Eu disse muitas coisas naquela noite, irmã. Estava irado por ver que se renderam tão fácil. Queria mesmo era gritar, esbravejar e sacudi-la para que se lembrasse de tudo que passou.

– Eu nunca esqueci, Emmett. Só escolhi não viver de passado. Edward é o amor da minha vida e você sempre soube disso, irmão.

Comentei baixo, implorando a Deus que não nos alterássemos. Eu já estava exausta dessas brigas.

– É, mas no Brasil...

– No Brasil eu disfarçava, sufocava o sentimento com trabalho, estudo e dedicação total a Antony. E, além disso, eu não tinha contato com Edward. Já aqui...

Dei de ombros deixando que ele preenchesse as lacunas.

– Lá era como, se cinzas tivessem criado uma barreira por cima das brasas ardentes. E quando voltamos foi como se tivessem retirado essas cinzas e abanado um pouco. Elas voltaram como força dobrada, Emm. Eu o amo.

– Eu sei.

Afirmou sussurrando, que se não tivesse voltado a falar, juro que acreditaria que tinha ouvido errado.

– E, apesar de aceitar que será complicado agora no começo, prometo que tentarei não agir como um babaca.

– Eu agradeceria. Tem sido difícil, Emm. Nunca passou pelos meus planos ter que escolher entre meu irmão e meu namorado.

– Noivo. Ele fez questão de deixar isso claro quando esteve aqui.

– Noivo. Só para você perceber como as coisas estão sérias e indo muito rápido. Por isso, não quero que Antony e eu percamos mais tempo de você irmão. Eu não quero fazer uma escolha. Quero tudo!

Ele suspirou de olhos fechados, antes de volta-los para mim outra vez.

– Desculpe, Bells. Eu te amo demais. Te colocaria em uma redoma se isso impedisse de vê-la sofrer outra vez. Quero te ver feliz e sei que sua felicidade tem nome e sobrenome. Você nunca sorriu como agora. Perdão por não ter aceitado isso logo. Perdão por ter dito tantas bobagens e te ferido talvez até mais do que Edward, já que você confiava plenamente em mim. E perdão por tê-la sobrecarregado tanto com a loja, já que se responsabilizou por tudo. Por fim, desculpa por ter tirado nossa família de você e Antony, sei que amam demais isso aqui.

Fez um gesto circular com a mão, sinalizando nosso entorno.

Seus olhos estavam lacrimejando e eu só pude saltar para perto dele e abraça-lo com muita força.

– Prometo que me esforçarei ao máximo. Não sei se Edward e eu voltaremos a ser melhores amigos em algum momento na vida, mas juro que farei o impossível para dar-lhe um voto de confiança.Se ele se arrependeu e mudou mesmo, merece esse gesto meu. E pode ficar tranquila, não o destratarei mais e não brigarei com você por causa do relacionamento de vocês. Só me dê um tempinho... vou me esforçar, eu juro.

– Posso aceitar isso. Obrigada, Emm! Te amo e estava morrendo de saudades.

Sequei seus olhos e beijei seu rosto com carinho. E lá no fundo, bem no fundo, eu entendia essa necessidade insana que ele tinha de me proteger. Afinal, irmandade não é algo que se desperdice por alguns desentendimentos.

Emmett, Jasper e eu nos conhecemos e nos amamos como ninguém.

– Bom, muito bom. Agora chega de melação e vamos pra cozinha porque preciso preparar algo leve para minha esposa e exijo sua ajuda e...

Porém, ele nunca concluiu o pensamento, porque três coisas aconteceram naquele momento e eu não saberia definir qual foi a pior.

– Ahhhh! EMMETT!

Leah gritou desesperadamente do quarto no mesmo instante em que um trovão fora do comum abalou as estruturas da casa e para piorar, e como previ, a energia caiu e não voltou mais.

Era o completo caos na casa dos Swan’s

Edward

– Putz!

Dei um pulo no chão, assustado e arremessando em qualquer lugar o livro que lia.

A casa caiu num “breu” completo e o trovão fez toda parte de vidro tremer.

– “Calma aí, São Pedro”!

Clamei baixo tateando as cegas a cama em busca do maldito celular.

– Vamos, vamos. Volta!

É, eu estava mesmo conversando com a rede de energia e ela teimosamente não me respondia.

A que ponto cheguei.

– Ahh!

Suspirei alto quando, como por um milagre, o celular começou a tocar, clareando um pouco o ambiente.

Porém, meus dez segundos de alívio acabaram no exato momento em que a foto de Bella apareceu na tela identificado, para mim, quem ligava.

– Oi, Vida. A energia acabou aí também? Estão todos bem? Já vou ligar para a companhia elétrica e...

– Edward, nos ajude, por favor. Leah está sentindo muitas dores. E pela minha pouca experiência posso jurar que está em trabalho de parto.

Droga! Droga!

– Ok. Se acalme. Estou me vestindo e a caminho daí. Vamos monitorar as contrações.

Coloquei o telefone no viva-voz enquanto me enfiava na calça e camiseta ainda dispostos sobre a poltrona onde a pouco havia deixado.

– Quando vier a próxima me avise para cronometrarmos. Vamos ficar calmos pode ser apenas um falso trabalho de parto. Peça para que ela respire devagar, se concentre e não empurre. Amor?

—...” Ele disse para não empurrar. Respire, Leah. Respire. Segure a mão dela, Emm. E onde está Benjamin que não liga os geradores”?

Ela passava minhas informações enquanto eu me enfiava no sapato de qualquer jeito.

— Aí vem uma, Edward. Droga!

— Calma. Só a faça respirar. Se concentre, Vida.

Olhei para o relógio e marquei a hora exata.

Com a maleta na mão e aproveitando a claridade do celular desci as escadas em busca da chave da camionete.

— Passou!

– Certo. Estão com 55 segundos de duração. Agora vamos esperar e ver o tempo entre uma e outra. Não posso sair daqui até a próxima. Não deve ter sinal na estrada. Vai precisar se virar sozinha por alguns minutos.

— Edward, estou apavorada! Ela está sentindo dor. Está muito escuro, estamos com iluminação de lanternas. E provavelmente o córrego já transbordou. Não quero que saia da segurança da sua casa. É perigoso e... mas, mas...

Tudo bem! Tudo bem. Se acalme, você precisa de serenidade. Precisará ajudar até eu chegar aí. Tomarei cuidado. Não pense em mim. Meu carro é alto. Só respire e...

— “Ahhh”!

Escutei o grito de Leah antes de conseguir acalmar mais Bella.

Por Deus! O intervalo entre uma e outro estava pouquíssimo. Não deu cinco minutos.

– Vida, estou saindo. Segure as pontas aí.

— Edward, não. Estou com medo. E se ela, e se...

Não esperei que concluísse o raciocínio. Não queria quepensasse em outra alternativa. Não haveria outra alternativa.

– Se esse “Swanzinho” for apressado como todos da família dele e não esperar o titio aqui? Ah, aí então você fará seu primeiro parto, Linda.

— Por Deus! Não brinque. É sério.

— Eu sei. E estou falando muito sério. Você já fez isso inúmeras vezes, tenho certeza. A diferença são os pacientes. Te amo! Estou a caminho. Te vejo em 10 minutos.

— Edward, o ribeirão deve...

— Entrando no carro, Amor. Vou perder o sinal. Nos vemos daqui a pouco.

Agarrei a chave, passei pela cozinha e adentrei a passem lateral que levava diretamente a garagem.

— Se cuide, por favor. Eu não posso te perder de novo. E Antony...

– Em dez minutos calarei essa sua boca maravilhosa. Acha que vou te deixar viúva? Gostosa, gata e rica? Nunca! Benjamin que vá pescar em águas brasileiras. Você é minha. Estou saindo. Vá ajudar Leah.

Brinquei buscando amenizar o clima, não deixaria que concluísse o raciocínio. O nervosismo e preocupação só atrapalhariam se ela precisa intervir mais diretamente para ajudar a cunhada.

— Tudo bem. Tome cuidado. Estou te esperando. Lembre-se disso.

— Sempre!

Engatei a ré e desliguei o telefone, antes que ela tivesse a oportunidade de articular mais algum argumento. Eu precisava chegar lá rapidamente.

Porém, eu não estava preparado para o que vi pela frente.

A escuridão era fantasmagórica e juro que, se não conhecesse aquele caminho de cor de salteado, nunca conseguiria transitar por ali.

Não se via um palmo na frente do nariz. Uma neblina baixa dificultava a visão. A chuva era tão intensa que os limpadores, ligados ao máximo, não davam conta da vazão da água.

A estrada estava tão lamacenta e escorregadia que por várias vezes senti a camionete puxando de traseira e quase chocando com as elevações altas das laterais da estrada. E tudo só piorava quando tinha que passar “pelas cacimbas” (Buracos rasos feitos perto de lavouras, usados para escoar a água e não deixar que se acumule nas plantações. / Fanfic também é cultura/ Kkk), recém derramadas. Tudo virava um mar de lama e não dava para fazer mais do que 30Km por hora.

Parecia mesmo cena de filme de terror. A diferença é que contavam comigo e que eu precisava chegar a Sonho Azul o mais rápido possível.

Contudo, como dizem, “nem tudo está tão ruim que não possa piorar”. E piorou...

Quando cheguei na divisa das fazendas o cenário era de pavor mesmo.

A ponte estava coberta de água. Tudo havia se tornado um aguaceiro só. E a correnteza era forte. Um carro pequeno rodaria, certeza.

Mais uma vez, dei graças a Deus por Antony ter implicado com meu carro.

– Vamos, Edward! Seja corajoso. Bella precisa de você! Que o Senhor me ajude. É por uma boa causa, Pai.

Parado, por cinco segundos, à beira de enfrentar uma das maiores forças da natureza, fiz uma pequena prece. Em outras circunstâncias,não me arriscaria.

Porém, era “Minha Vida” quem clamara por ajuda. E desde que “acordei para a vida” jurei para mim mesmo que nunca mais decepcionaria Bella.

– Vamos lá.

Tirei o pé do freio, só encostei no acelerado. Deixando que o carro deslizasse, não muito rápido nem muito devagar. Eu precisava manter o ritmo para que não perdesse o controle.

Todavia, naquela noite, nada estava a meu favor...

– Droga! Não! Não.

Firmei o volante quando senti a força da água puxar a traseira para fora ponte.

– Por Deus!

Gritei pela última vez quando senti as rodas da frente cederem e começarem a deslizar para fora também.

Era o meu fim, eu sabia. Não dava para segurar mais...

Infelizmente, eu decepcionaria Bella mais uma vez...

Uma última vez, pelo que parecia...

Notas finais
É isso, comentem, por favor. Ahhh, estou colocando os comentários em dia, então se encontrarem respostas de comentários antigos, não se assustem. Essa autora aqui adora conversar com vocês. Beijinhos e nos vemos nos comentário e no Insta. @kodelcarla39