Quando o passado não te deixa viver
15 Uma Manhã de Surpresas
Notas iniciais
Edward
— Olá?...
Escutei com atenção.
Antes mesmo de se fazer presente, o cheiro e o barulho dos saltos, das botas, no piso da escada a delataram.
Como sonhei com aquele som... Ela estava aqui... Nos meus domínios. Ao alcance de minhas mãos e olhos.
— Oi!
A “varri” de cima a baixo no instante em que subiu o último degrau. Embebedei-me dela.
— Estou atrasada?
Deliberadamente, apontou para minha cama impecavelmente arrumada, do lado esquerdo do cômodo. Parecia que também aguardava ansiosa por nós dois.
— Você nunca se atrasa.
Com duas passadas largas me coloquei a sua frente levando imediatamente as mãos aos cabelos longos, brilhantes, cheirosos e sedosos. Eles nunca estiveram tão grandes e volumosos.
As ondulações nas pontas se encaixavam como um acabamento perfeito das mãos do melhor artesão do mundo.
— Senti sua falta.
Sussurrei já enfiando os dedos no “castanho dono de meus desejos”, moldando sua cabeça para trazer sua boca para a minha.
— E eu a sua...
Ignorei a falhada de meu coração ao ouvir aquilo.
Não havia como acreditar que Bella me perdoara e estava, de novo, em meus braços.
— Podemos resolver isso agora?
Ela sorriu lindamente perante minha proposta e, não resistindo, puxei-a mais para perto.
Aqueles vestidos infames dela... Ahhh Bella!
— Agora?
Deslizou o nariz por sobre o meu e acariciou minhas costas.
Cada célula, nervos e músculos meus, prontos para serem todos dela, de novo.
— É.
Lentamente... Olhos nos olhos... Minha cabeça foi se aproximando, se aproximando...
Eu já sentia seu gosto na ponta da língua, e olha que nossas bocas nem haviam se juntado ainda.
— Linda!
Elogiei já sentindo a textura do leve encostar de lábios.
— Tanta saudade!
Abri os lábios pronto para recebê-la de corpo e alma.
— Beijei- me, Edward.
Ela não precisava pedir.
Desci mais a cabeça, e desci e quando faltavam míseros centímetros para tê-la de volta...
Um barulho, um irritante barulho se fez ouvir.
— O que é isso?
— Não é nada! Venha aqui.
Voltei a segurar sua cabeça, mas... De repente o barulho aumentou e Bella se soltou de mim.
Pareceu se dar conta da realidade: Da que eu a fizera sofrer, que não me amava mais e que nunca me perdoaria.
Olhou-me assustada e se voltou para as escadas.
— Não! Não!
Quis correr atrás dela, porém meus pés não se mexiam. E o barulho... O barulho aumentava e estava perto, muito mais perto...
— Bella! Bella! Por favor...
Estendi a mão em sua direção e gritei descontrolado ao ouvir o baque seco da porta do loft!
— NÃO! BELLA! VOLTE! Ah! Que isso? Bella?
Sobressaltado, alarmado e angustiado, me sentei na cama, acordando. Sozinho, suado e muito sozinho.
Eu já disse sozinho?
— Maldito telefone!
Amaldiçoei ao identificar o que me acordara. Se dormir era um privilégio que eu pouco desfrutava, sonhar então...
— Mas, que droga, Alice!
Voltei a praguejar, muito irritado, encarando e descobrindo o nome de minha irmã na tela do aparelho.
Eu estava em casa, à memória acordando agora. Chegara pouco antes das sete. Havia saído de Forks logo atrás de Bella e Jasper, cada um em sua camionete, que mais uma vez eu custara a acompanhar.
Ahhh, Volvo, seus dias estavam contados.
Ainda meio absorto e agradecido pelo pequeno, mas proveitoso, momento com Antony, tomei um banho às pressas, peguei, rapidamente, duas maçãs na cozinha, um livro sobre medicina, no escritório. E, por fim, terminando minha rotina diária, puxei a cama para perto da porta da varanda, donde conseguia avistar inteiramente a estrada rumo a “Sonho Azul”.
Lá pelas quatro da manhã fui vencido pelo cansaço. Então, só forcei o corpo, joguei o livro no chão, e me entreguei ao sono e, finalmente, ao delicioso sonho.
— O que quer?
Atendi rude e contrariado por ter sido acordado no auge do sonho, antes de concretizá-lo totalmente.
— Bom dia pra você também, maninho.
— Fale logo, Alice! Não estou com paciência.
Atirei para o lado o edredom, me levantei e saí para a varanda, admirado pela imensa beleza do raiar do dia na imensidão verde que me cercava.
Só agora eu entendia porque Bella escolhera esse lugar para ser a nossa casa.
Era belo demais! Um vista deslumbrante e inenarrável.
— Tudo bem, senhor mau- humor, só queria te dizer que teremos uma visita ilustre daqui a pouco. Se eu fosse você, viria imediatamente para a “Paraíso”.
— Não estou interessado. Obrigado! Acabei de acordar e vou me arrumar rápido porque...
— Bella está vindo para cá.
— O quê?
Tossi me engasgando com o tamanho e intensidade daquela notícia.
— Alice? Alice?
Tarde demais! Ela já desligara o telefone e, eu sabia, devido a meu comportamento, não atenderia mais.
Maldito seja meus modos de merda!
Bella
— Ei... Posso saber o porquê da pressa?
Droga! Droga!
Charlie saia pela porta da frente, e antes que eu pudesse prever, já vinha a meu encontro.
Sem alternativa, puxei as rédeas de “Thor” que, obedientemente, parou no exato momento de meu comando.
— Bom garoto! Bom garoto!
Alisei e bati, de leve, no pescoço longo e castanho de meu alazão.
— Desculpe-me, pai. Mas, tenho uma emergência. Uma fêmea premiada, de uma fazenda aqui perto, está com problemas para parir sozinha. Os meninos da loja me ligaram dizendo que solicitaram nossos serviços.
— Onde? Qual fazenda?
De cima do cavalo eu estava bem mais alta que ele. Contudo, aquilo não significava nada. Charlie Swan nunca me pareceu tão grande, tão avaliador...
— Paraíso.
Não menti, eu não precisava daquilo. Aliás, nem conseguiria, ele me conhecia.
— E você vai.
Não foi uma pergunta.
— Claro que vou, Fiz um juramento, papai.
— Isso sem falar que não vai perder a oportunidade de “esfregar” nos Cullen’s suas duas graduações, não é?
— Não. Não vou.
Fiz menção de descer do cavalo quando Harry, pai de Leah e gerente da fazenda, se aproximava para pegá-lo.
Porém, Renée escolheu aquele mesmo instante para sair de casa e vir até nós acompanhada de Antony.
E agora começaria o drama.
— Ninguém me “acoldou”. Eu queria “vistoliar às lavoulas” com você, mamãe.
— E sim parece que você acordou mas, sua educação continua dormindo. Cumprimente Harry e o vovô.
Fez uma caretinha adorável antes de ir até papai e seu amigo lhes “pedir a benção”.
Meu pai ainda aproveitou a situação e o abraçou forte.
— Agora você e Thor.
Estendeu os braços para que Charlie o colocasse no cavalo comigo. Mais uma vez, esperei pacientemente.
— Oi mamãezinha.
O peguei e fechei os braços em volta de seu corpinho pequeno.
— Oi! “Deus te abençoe”!
— Você não me “acoldou”.
— Não mesmo. Ontem o dia foi corrido. Achei que precisava descansar um pouquinho mais. Hoje vai ser pior. Mamãe começa a dar as aulas na universidade.
Alisei seu cabelo desgrenhado e aspirei o cheiro bom e natural de Antony.
— Eu não gosto de não “acoldar” para ir com você e Thor. Vamos “dolmir” na cidade hoje? Eu não gosto!
— Ainda não sei, pequeno. Podemos falar sobre isso mais tarde? Agora preciso que vá com o vovô. Mamãe tem um atendimento para fazer.
— Mas, e eu? Vou com quem? Não posso ir “agola”, mãe. “Quelo” ver as “lavoulas” e nem dei bom dia pro Thor ainda.
— Antony, mamãe não pode agora. Amanhã eu prometo que...
— Filha, deixe-o. Quero mesmo dar uma volta pela fazenda. Jasper o leva mais tarde, quando for. Vá tranquila.
Charlie intercedeu já prevendo o choro, quando uma absurda expressão de desagrado começou a se formar no rostinho de meu filho, perante minha negação.
— Pai, não quero dar trabalho. Além disso, Antony é minha...
— Se insistir nesse assunto, Bella, de que Antony é só sua responsabilidade, vamos voltar a nos desentender. Lembre-se que “nós escolhemos” Antony. Nunca serão somente ele e você. Têm a nós, querida.
— Eu sei.
Sorri de lado, vendo papai segurar a mão de mamãe e ambos darem a mim seu maior olhar amoroso. Eu entendia, sem precisar de mais clareza, o que sempre fizeram questão de deixar muito claro.
— Ok, então. Vovô me convenceu. Mamãe já vai. Se comporte. Te vejo mais tarde.
Trocamos um abraço, mais um beijinho e então o virei e sentei-o mais para frente em Thor dando assim espaço para que eu desmontasse e Charlie montasse.
— Eu “semple” me “coumpourto”, mãe... Bom dia, Thor. Você “dolmiu” bem? “Zamos” correr um pouquinho, ta? O vovô gosta e com ele mamãe não pode “bligar”.
Ele se deitou, por sobre, o pescoço do cavalo e o afagou. O grande animal chegou a fechar os olhos apreciando o carinho.
— É, estou sabendo que se comporta.
Segurei a mão que Charlie estendia em minha direção, me ajudando a descer e já no impulso, montou Thor e segurou Antony com uma mão e as rédeas com a outra.
— Até mais “talde”, mamãe.
Gritou quando já desapareciam rumo às terras do fundo do estábulo. Era a parte da fazenda onde a soja estava mais bonita. E o trigo começando a amarelar.
— Harry, por favor, encontre Emmett e diga que estou indo para a Paraíso e que provavelmente precisarei dele lá? É um animal grande, ele é mais experiente com eles.
— Certo, Bella. Vou encontrá-lo para você.
— Obrigada.
Ele fez que sim com a cabeça e saiu.
Renée me avaliou como uma máquina de raios-X antes de começar o veredicto que eu sabia que viria.
— Fonoaudióloga hoje as cinco. Psicóloga, para ambos, na sexta, às dez da manhã.
— Certo! Bom dia para você também, mamãe. Lembra-se que já recebi alta?
Não me encostei a ela, já que estava impecavelmente branca e pronta para o hospital.
— Recebeu alta da psicóloga, não da terapeuta. E como Forks não tem terapeuta, por enquanto. Volta para a psicóloga. Vou resolver essa história da terapeuta assim que entender tudo que Esme fez com meu hospital.
Entramos lado a lado em casa.
— Muita bagunça?
— Pelo contrário, a primeira vista, a administração dela me surpreendeu. Mas, vou trazer a documentação que me foi apresentada ontem para que Jasper me ajude a avaliar. Aparentemente, o hospital cresceu muito e só valorizou. Os lucros foram altos e ela tem a minha parte depositada em uma conta só esperando transferência para meu nome. Contudo, ela é uma Cullen, não merece voto de confiança. Faço questão de investigar mais.
Paramos perto da mesa, na sala de jantar. O café já estava servido.
— Mãe, ela não é só uma Cullen. É sua melhor amiga. E mesmo que fosse, isso não quer dizer nada. Ela não teve culpa. Não pode responsabilizá-la por eu ter sido uma burra ingênua.
— Posso responsabilizá-la e vou. Uma mãe sempre sabe o que o filho faz. Ela devia, no mínimo, ter nos alertado já que não foi capaz de impedir o filho.
— Mãe...
— Pare, Bella! Sei o que quer dizer e não digo que sentirei esse desapontamento por ela sempre, mas no momento, está tudo muito recente. Vamos dar tempo ao tempo e quem sabe Deus não nos abranda o coração? Não é? Agora vá dar um jeito nesse seu cheiro de estábulos. Está infestando a casa toda.
Fingiu cara de nojo e até tampou o nariz.
— Ok, doutora. Já estou indo.
Surrupiei uma maçã, da mesa, e corri para meu quarto. Eu tinha pouco tempo e trabalho a fazer.
Edward
Cheguei a Paraíso pouco tempo depois do telefonema de Alice. O medo de perder a estrada de vista, quase me fez ficar parado na entrada, só observando.
No entanto, minha irmã atiçara minha curiosidade e agora eu queria muito saber o que estava acontecendo.
Por isso, entrei sem bater... Esse era o sonho de Esme atualmente.
— Bom dia, estranho. É bom tê-lo em casa.
Meu pai veio a meu encontro. Ele tinha uma expressão curiosa no rosto.
— Só para saber, você me deve! Perdi cinquenta dólares para sua irmã. Ela jurou que você viria, eu apostei que não acreditaria nela. Como alguém pode ir contra Alice? Ela sempre sabe das coisas.
Divagou me segurando pelo ombro e dando tapinhas agradáveis.
— Não lamente, pai. Você só perdeu cinquenta. Mamãe perdeu cem.
Ela enroscou o braço no de Carlisle e lhe deu um sorrisinho fraco. Daqueles que eram os maiores que Alice dava agora. Sua chama havia se apagado e a culpa era minha.
— Como ela perdeu?
— Eu disse que ele chegaria em menos de vinte minutos. Ela jurou que ele gastaria mais do que isso para tomar banho. Estou rica hoje.
Revirei os olhos para os diálogos infantis. Eles estavam mesmo apostando meu tempo de reação a uma notícia daquela?
— É, você é a mais esperta e inteligente. Mas, será que dá para me explicar o que está acontecendo? Bella está vindo para cá ou você mentiu, Alice? Porque se for isso...
— E a mais bonita.
— Quê?
Fiz cara de confuso e mais uma vez ela revirou os olhos, exatamente como Bella fazia.
Melhores amigos têm tendência a copiar atos e manias. Isso era cientificamente comprovado.
— A mais bonita também, maninho. Você se esqueceu de dizer que sou a mais bonita da família, além de inteligente, esperta, eficiente e...
— Modesta. Esqueceu dessa parte.
Esme veio descendo as escadas. Rósalie a seguia.
Agora eu me lembrava porque não vinha mais a casa de meus pais.
Imediatamente, Alice e eu fechamos a expressão.
— Bom dia, querido. É bom tê-lo em casa.
— Bom dia, mãe. Agora será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?
Esme veio até mim, me segurou pela gola da camisa, me puxou e beijou meu rosto com carinho. Eu amava quando fazia aquilo e pensar que demorei tanto para que nos permitisse esse contato...
— Diga bom dia a sua irmã primeiro.
— Bom dia, Rósalie.
Disse sem nem olhá-la, pois sabia que não faríamos progresso enquanto Esme não tivesse o que queria. Há anos ele tentava uma reaproximação entre Rósalie e eu.
Ah, se ela soubesse que as possibilidades disso acontecer eram de... 0%.
— Bom dia, irmão.
Idiota! Agora eu era irmão. Ah, mas se ela pensa que me engana com essa cara de boa moça que mudou. Rá! Está muito enganada.
— Podemos ir direto ao ponto agora?
Voltei-me para Alice, ainda abraçada a Carlisle.
— Bella está vindo para cá. Tem uma égua, no estábulo parindo e Jacob não conseguiu encontrar nosso veterinário. Então, ligou para a clínica nova e pediu por um. Eles nos ligaram minutos depois dizendo que a doutora Isabella Swan estava a caminho. Ela é veterinária! Você sabia disso?
— Eu, eu...
As palavras ficaram presas na garganta.
Deus! Ela amava Agronomia! Sempre fora seu sonho. Cuidar do plantio. Da colheita... O que eu fiz?
— Ela chegou!
Alice se soltou de papai, bateu palmas, de empolgação e saiu, literalmente correndo, rumo à porta por onde eu acabara de entrar há pouco tempo.
O barulho de pneus de carro, em atrito, ao cascalho da entrada, anunciavam mesmo a chegada de alguém.
— Fique aí. Ninguém precisa do seu veneno lá fora.
Apontei para Rósalie.
— Edward!
A falsa expressão de dor dela e a bronca de Esme não me afetaram. Eu sabia do que ela era capaz.
— Não, mãe. Ou ela fica aqui dentro ou não respondo por mim.
Voltei a ameaçar já virando as costas quando o motor do carro foi desligado.
Cheguei à varanda no mesmo instante que Jacob Black se aproximava e já ia em direção a camionete.
— Que lindo o carro!
— Como a dona.
Cochichamos Alice e eu.
— Mandei flores para ela.
— E?
Falávamos baixinho, vendo-a se preparar para descer.
— Ameaçou esparramá-las em minha clínica se isso se repetir.
Sorri maravilhado com a possibilidade.
— Típico dela.
O sol, de início de manhã banhava a grama verde da entrada, e como se, desse boas vindas a ela, iluminou-a toda quando desceu. Os cabelos soltos, nunca pareceram tão castanhos.
O rosto, parcialmente coberto pelo chapéu, estava sério e parecendo um pouco preocupado.
Porém, tudo se dissipou quando Black se aproximou e ela se jogou em seus braços.
— Jake!
— Ei, linda! Quanto tempo.
Eles gargalharam quando ele a rodou. Suas pernas se dobraram e a cabeça foi jogada para trás.
O vestido, uniforme da loja, subiu dois dedos o tornando mais curto ainda.
Nos pés, botas altas, de cano longo e saltos altos e mais grossos um pouquinho.
Deus! Ela estava linda, provocante, de vestido... Curto... E nos braços de outro homem quando era para estar nos meus.
Depois de um sonho como o de hoje, era um inferno presenciar aquilo.
— Respire, filho. Eles são amigos. Sempre foram.
Mamãe esfregou minhas costas com movimentos circulares e lentos. Ela não sabia ainda, mas eu precisaria de muito mais do que aquilo para me manter são naquele dia.
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