Quando o passado não te deixa viver

23 Se o tempo parar eu vou agradecer


Notas iniciais
Ah, como eu amo recomeços...

Bella

— Mamãe, “pol que” não posso ficar com o titio Jas? Nós sempre fazemos coisas legais.

Segurei mais forte a mão dele e voltei a prestar atenção dos dois lados da rua antes de, enfim, atravessarmos.

— Porque o seu tio tem coisas para fazer a noite, amor. Mamãe quer que ele tenha tempo para sua vida.

— E o tio “Edwald” não tem nada para fazer “na noite”?

É, eu esperava verdadeiramente que Edward não tivesse as mesmas coisas para fazer que meu irmão.

— Amor, você não quer ficar com o Edward? Porque se for isso, vou te levar para o hospital e você vai para casa com a vovó.

Paramos na calçada, bem de frente as portas duplas da entrada da clínica. Na parede lateral, bem em cima, havia um interfone.

— E depois você vai “embola” com quem?

— Com seu tio, assim que minhas aulas terminarem.

Luzes se acenderam do lado de dentro do cômodo antes mesmo que ousássemos nos anunciar.

Preparei-me, psicologicamente, para revê-lo. Ainda estava afetada por termos conversado sozinhos e depois encarado Tânia pela primeira vez desde nosso retorno.

Meu, burro, coração queria comemorar os acontecimentos do dia, contudo, o conti.

Por Deus! Eu não havia voltado para Forks para reviver romances juvenis idiotas. Eu havia voltado para dar uma chance a meu bebê de ter um pai, só isso.

— Não, mamãe. Eu acho que vou mesmo “espelar”. Titio “Edwald” parece meio “solidário”. Acho que “pecisa” de um amigo.

— Solitário, amor... Solitário é a palavra.

— Foi o que eu disse, mamãe, “solidário”...

Disfarcei um sorriso e ignorei também o sentimento de que meu bebê, estava inventando desculpas para me esperar. Antony desenvolvera um censo de proteção quanto a mim, inexplicável e assustadoramente adulto, eu precisava dar um jeito nisso.

E ainda tinha o fato de já se preocupava também com os possíveis problemas de Edward. Será que ele era mesmo solitário e até meu filho percebera isso?

Primeiro minha mãe que o achava frustrado em sua profissão e agora Antony... O que aquilo queria dizer? Algo me alertava de que eu estava deixando algo importantíssimo passar.

— Amor...

Abaixei-me a sua frente e segurei seus ombros.

Edward escolheu esse instante para abrir a porta. Troquei um olhar com ele, antes de voltar a focar a atenção a meu pequeno.

— A mamãe sabe se cuidar, filhote, não se preocupe. Se quiser ir para casa, vou te levar para a vovó. Agora, se quiser ficar aqui com o Edward, eu quero que seja por você, quero que se divirta, Tony. Não porque precisa me esperar, isso não é missão sua. Entendeu?

Ele não respondeu de imediato, somente olhou de Edward para mim, por alguns segundos para depois dar o veredicto.

— Eu “quelo” ficar, mamãe. O titio “Edwald” “plecisa aplender” a se “diveltir tabem”.

— Tudo bem. Só vamos fazer o que você quiser. E pode ficar calmo, falar devagar. Nada vai acontecer, com ninguém. Estamos bem, amor.

Ele colocou o dedo na boca e num ímpeto se jogou em meus braços. E beijou meu rosto.

Edward parecia petrificado em seu lugar, tão emocionado que os olhos brilhavam com pequenas lágrimas contidas.

— Eu te amo, mamãezinha.

— Eu também te amo. Agora vamos com isso porque mamãe não pode se atrasar.

Levantei-me com ele no colo e subi os degraus que nos levaria até Edward.

— Então, titio, esse garoto já tomou banho, acabou de saborear um lanche bem gostoso, portanto, está de barriguinha cheia. Só mais tarde, lá pelas nove, e não pode passar disso, tomará seu leite e então, cama. Estarei atenta ao celular, pode me ligar a qualquer momento, venho correndo. Ou então, Jasper está bem ali...

Apontei para o apartamento em frente.

— Pode gritá-lo daqui que escutará. O deixei de sobreaviso.

O entreguei a Edward, que prestou muita atenção a todos os detalhes.

— Nem uma pizzazinha ou um sanduichezinho ou quem sabe só um chocolate tamanho “glande”, mamãe?

— Não, seu sapeca. “Besteiras” só no fim de semana. Por favor, Edward. Não se deixe vencer por esses olhos pidões dele.

— Temos um acordo. Vá em paz, Bella. Quero aprender. O que não souber, Antony me ajuda.

— Esse é o meu medo.

O entreguei a bolsa de meu filho e também a mochila já prevendo o desafio que Edward teria pela frente.

— Faça o dever de casa e não seja desobediente.

Acariciei seu rostinho e afastei para algum lugar, bem no fundo, os sentimentos que ameaçavam me dominar, pela quinta vez só naquele dia, ao ver Edward e Antony juntos. Há alguns anos era o meu maior sonho: Edward, eu, um filho... Mas, aí...

Enfim, eu agora não poderia sucumbir, afinal, quem vive de amor? Quem precisa disso?

— Ah não, mamãe. Tony, não quer fazer dever. Todo dia tem dever. Aquela escola é chata.

— Filho, já falamos sobre isso, um milhão de vezes.

— E continua sendo ruim.

Sacudiu os braços, irritado.

— Ei, campeão, vamos deixar a mamãe ir trabalhar? Enquanto isso podemos conversar e eu te explico como a escola é importante. E como você precisa dela para ter uma profissão legal e...

— Ah, titio, nem vem com essa. “Quelo” ser peão de “lodeio”, nem “pleciso” de escola para isso. Só “pleciso” montar nos “toulos” do vovô.

— Nossa! Mesmo?

Edward pegou as coisas de minha mão, acenou um adeus e foi se virando com ele para dentro, o melhor de tudo foi o fim do diálogo.

— E como os peões fazem quando vão montar em outro país? E para contabilizar o dinheiro que ganham?

Quando fechou a porta, tive uma vontade imensa de correr até eles, arrancar Antony dali e protegê-lo de tudo... Todavia, não o fiz. Pai e filho precisavam daquela chance. Eu os daria.

Edward

— Pense? Não dá nem para ser peão de rodeio se não estudar. E como vai “azarar” as gatinhas se não tiver nem estudado direito? Garotas gostam de homens inteligentes. Pode perguntar para sua mãe se não acredita em mim.

Adentrei com ele. Era o auge do meu dia, com toda certeza, contemplar aquela carinha pensativa perante minhas justificativas.

Nem o episódio com Jéssica e Tânia, mais cedo, me afligiam mais. Eu era todo... Meu filho.

E olha que a primeira eu coloquei em seu devido lugar. Oras! Onde já se viu...

Lembranças on

— Sente-se.

Apontei para a cadeira de frente a minha.

Havia atendido o último paciente e recebido o último telefonema de uma feliz senhora Jhones, que graças a Deus, conseguira usar o banheiro.

Então, era hora de explicar algumas coisas a Jéssica.

— Olha, Edward, se essa conversa é sobre a Bella, você tem que entender que...

— Doutor Cullen.

A interrompi.

— Hã?

Fez expressão de confusa. E Deus era testemunha de que eu não era desses, não mais. Que nunca mais deixara a soberba me dominar ou me colocar num patamar mais alto de quem quer que fosse. Porém, Jéssica não poderia passar impune. Ela ultrapassara todos os meus limites.

— Eu sou o doutor Cullen, me chame assim. E Bella é Isabella. Ela não lhe deu intimidade para chamá-la pelo apelido. Nem me acho no direito de fazê-lo ainda. Então vamos manter as coisas em seus devidos lugares.

Por enquanto, eu quase acrescentei, porque o sonho era que um dia fosse Isabella Cullen.

— Ah, então o assunto, a sua chateação e bronca que estou prestes a levar é por causa de Bell... Ou melhor... De Isabella?

Assenti.

— Eu juro que não te entendo, doutor.

“O doutor” saiu acompanhado de cinismo e quase um sorrisinho de esnobação. Ela estava brincando com fogo.

— A mulher o deixa sem mais nem menos, o abandona, o permite sofrer por anos, com o coração fechado. O priva de seu filho. E agora quando volta, assim do nada, deve ser tratada como uma rainha? E a “pobre” da senhora Volturi que insistiu esses anos todos nem de um telefonema é merecedora? Homens! Gostam mesmo é de apanhar!

Arqueei uma sobrancelha e controlei o meu mau gênio que ainda aparecia de vez em quando, respirei fundo e só então resolvi que a colocaria em seu lugar.

— Não que seja da sua conta, Stanley, e de fato não é, mas só para deixar muito claro: acho que sua memória anda te traindo. Se não se lembra, fui eu que agi como um otário com a Swan. Fui eu que afastei ela e meu filho. Fui eu, que traí, menti e atuei como um idiota e, só para lembrá-la mais ainda, isso tudo com a ajuda de Tânia. Então a única que merece sua complacência aqui é Isabella. E mesmo que ela tivesse feito da minha vida um inferno, seria a minha luta, as minhas escolhas... Não se meta com isso!

— Eu não posso aceitar uma coisa dessas, Edward.

— Oras! Quem pensa que é?

Bati com a mão na mesa a assustando e a mim também.

— Você não tem que aceitar nada, Jéssica. Não te dei essa liberdade. É somente minha secretária e se não é capaz de entender que Bella e Antony são donos de mim, dos meus horários e de minha vida agora, é melhor que arrume outra coisa para fazer. Porque, por lei nenhuma, vou tolerar qualquer transgressão a qualquer um deles.

Ela perdeu a cor. Sabia que havia tocado em meu limite rígido. Nunca perdi a compostura. E ela prezava por seu emprego, a mínima chance de perdê-lo a assustara muito.

— Está... Está me demitindo? Depois de tanto tempo? O... O que eu vou fazer? Por favor, preciso do dinheiro. Sabe que ajudo em casa e que meus pais estão velhos e doentes e não conseguem se manter com suas aposentadorias e...

Esfreguei a testa, afastando o antigo Edward que teria dito para “ela se virar”. Eu não era mais o mesmo.

— Ok, Jéssica. Eu vou te dar uma segunda chance. Sei das suas necessidades. Contudo, é a última. E lembre-se, por tudo que mais sagrado ou não respondo por mim, Bella e Antony são minhas metas de vida. Sempre estarei disponível para eles. Se eu não estiver no consultório me ligue. E os trate com a maior educação que sua mãe te deu. Porque se eu sonhar que algo não condiz com essas ordens, eu juro, que não pergunto outra vez: demito-te por justa causa.

— Eu prometo, Edw... Doutor Cullen. Não terá mais reclamação. Sua vida não é problema meu, já entendi. Tratar Isabella e o menino os melhores possíveis. Já aprendi...

E sem esperar que eu mandasse e creio, morrendo de medo que mudasse de ideia, se levantou, juntou a bolsa ao peito e praticamente correu de minha sala, e depois de trancar tudo, foi para casa.

E eu esperava, de verdade, que tivesse aprendido a lição. Porque eu não toleraria nada que magoasse as razões de meus dias.

Lembranças Off

Acho que agora Jéssica pensaria duas vezes antes de sonhar em ser mal-educada com qualquer um deles.

Pensando assim e com um sorriso de satisfação no rosto, subi com ele as escadas e o coloquei na cadeira bem de frente a mesa, já dispensando sua sacola de tralhas no sofá e trazendo a mochila para perto.

Se tínhamos que passar pelo martírio do dever de casa, que fosse logo, porque mostrar a Bella que eu era capaz de estimulá-lo a gostar de estudar era o mínimo que eu poderia fazer.

— Minha mãe não é uma “galota”, tio Edwald. Minha mamãe é minha mamãe e só. E eu sei de tudo isso, mesmo assim não gosto da escola. “Quelia” estudar em casa. Isso pode aqui, não pode?

Respondeu meu comentário anterior e então, tirou o caderno e mais algumas coisas de dentro da mochila e colocou sobre a mesa. Aproveitei e passei um pano por ali, limpando, antes que ele o abrisse. Parecia tudo muito caprichado, não queria que sujasse e Bella me achasse um pai relapso com os materiais escolares dele.

— Hum, no Brasil você não frequentava uma escola? Não sei se seria uma boa estudar em casa, amigão. Não se faz amigos sem sair de casa. O que tem de errado com sua escola? Sua mãe e eu estudamos lá até irmos para a universidade.

Investiguei mais, enquanto ele revirava o estojo em busca de lápis e borracha.

Será que algo estava acontecendo e ninguém ainda percebera?

— No “Blasil” era diferente, as pessoas são bem mais legais, um dia te levo lá, titio.

Sentei-me a sua frente e sorri para o carinho dele pelo lugar onde morava.

— As pessoas daqui não são legais?

Ele segurou o lápis e olhou para o caderno, porém a mente parecia vagar e vagar...

— Eu não sei. Eu gosto da escola, mas... “semple” que estou lá fico pensando na mamãezinha. Ela está mais “pleocupada” aqui. Titio Memmett fica “glitando” e titio Jas nem pode ficar mais comigo a noite. Ahh, e ainda tem isso, lá no “Blasil” a mamãe não “tlabalhava” à noite. A gente tinha mais tempo. Mas, aqui... É tudo corrido. E ainda tem essa loja. Eu nem fico na fazenda mais. Como vou ser peão se nem ando montando, titio? O tempo passa e os “outlos” estão se “pleparando”, enquanto eu... Tenho que ir para a escola.

É, eu até gargalharia para a última parte do relato de uma criança de quatro anos, porém ainda estava preso aos detalhes das primeiras informações.

Deus! A vida dele era uma correria. Eu só não entendia o porquê.

— Sabe, pequeno, sua mamãe viveu aqui em Forks, ela foi muito feliz, porém algumas coisas aconteceram e voltar para cá deve ter sido difícil. Acho que você precisa de um pouco de paciência e quem sabe, ajudá-la. E a melhor forma de fazer isso é sendo um bom menino e não reclamando, inclusive da escola.

Os ombros dele caíram em resignação.

— O vovô Char me disse isso também. Outra noite, escutei ele “convelsando” com tio Memmett. Ele falava que a mamãe estava ocupando todo o tempo do seu dia e até das noites, já que ela “oldeia dolmir”, para não ter tempo de pensar no passado. O que aconteceu no passado, titio? Você sabe? Ninguém me conta.

Prendi a respiração sem saber o que responder.

— Olha, Campeão, tem coisas que a gente deixa onde estão. Se a mamãe não te contou é porque ela acha que não é certo. Prometo que vou conversar com ela, e se autorizar, conversamos mais sobre isso, ok? Agora pare de me enrolar e vamos fazer esse dever.

— Tá bom. Mas, depois que acabar, eu posso tomar meu leitinho e “dolmir”. Tô cansadão, titio.

— Claro que pode, anjo. Só vamos colorir essas formas e números da cores certas, ok?

Ele concordou e retirou do estojo alguns lápis de cor. Porém ainda me surpreenderia mais um pouquinho aquela noite.

— Titio, quando a gente “dolmir”, por favor, não apaga todas as luzes? Mamãe não gosta do escuro. Ela fica assustada e sufocada. E Antony não gosta de ouvir os pesadelos da mamãe. Ela grita e chora.

Prendi a respiração, porque se o fizesse era bem provável que deixasse lamúrias altas saírem.

O que eu fiz com a cabeça de Bella e, consequentemente, de Antony?

— É claro que posso, meu amor. Vamos deixar algumas luzes acesas. Vai ficar uma penumbra tranquila e a mamãe não vai ficar com medo. Agora vamos com esse dever.

Sentei-me ao seu lado e o distraí como pude.

O distraí, porque a minha cabeça estava a mil pensando nas inúmeras informações que recebera aquela noite...

A conclusão simples e cruel caíra como uma bomba... eu fizera um estrago na vida de Bella e Antony. E se um dia, ela tivesse, de verdade, a confiança em me deixar ser pai de meu filho, tenho a ligeira impressão de que seria o máximo que conquistaria dela.

Alice

— Alie? Está tudo bem? Me deixa entrar? O que está acontecendo? Se não sair daí vou arrebentar a porta. E tenho certeza de que estragar o apartamento de Bells não será nada bom para a reconstrução do relacionamento de vocês. Alie?

Droga! Droga! Droga! Ali vinha outra onda de enjôo e vômito.

— Alie? Me deixa entrar?

Em que mundo paralelo os homens viviam para supor que poderiam ajudar quando uma mulher estava debruçada num vaso sanitário colocando “até os rins para fora”?

Alguém poderia escrever um livro sobre isso. O destaque seria: fiquem calados! Já ajuda muito.

— Alie? Sai detrás da porta. Vou arrombar.

— Ah! Que inferno, Jasper! Estou bem! Já passou. Só me deixa recuperar as forças.

Tampei o sanitário, me sentei ali, recuperando e aguardando o desinfetante fazer efeito e tirar o cheiro nojento do lugar.

Certeza, Bella me mataria se encontrasse vestígios de sujeira ali. Eu queria recomeçar com ela, não dar-lhe motivos para achar que estava me apossando e bagunçando sua casa.

Respirei fundo, me levantei, joguei uma água no rosto, lavei a boca, umas três vezes, no mínimo, e só então abri a porta para ele que parecia tão ou mais doente do que eu.

E ainda queria entrar... Homens!

— Pronto! Estou bem aqui, agora. Pode parar de atentar quanto às estruturas da casa da sua irmã?

Ele não entrou na brincadeira. Olhou-me mais atentamente, depois apalpou minha testa, com os dois lados da mão, conferindo a temperatura.

— O que foi, meu amor? Comeu algo estragado? Quer ir ao pronto- socorro? Ou a seu irmão? Vamos, Alice, me ajude aqui, não sei o que fazer. Quando alguém fica doente em casa mamãe nos socorre e... É isso! Como sou idiota! Vou te levar para a mamãe. Vamos!

Puxou minha mão e começou a me arrastar, corredor a fora.

— Quer parar! Foi só um mal- estar. Não preciso de um médico, preciso de uma água com gás, pegue para mim, por favor.

Puxei minha mão da dele e me encaminhei até o sofá me acomodando ali. Ele precisava se acalmar.

— Alice?

— Água, Jasper. Só água...

Puxei os pés para cima do estofado e me acomodei tranquilamente. Não coube a ele alternativa, a não ser, fazer o que pedi.

Eu precisava de um minuto sozinha para pensar, se é que eu queria mesmo pensar.

Coloquei a cabeça entre as mãos, fechei os olhos e respirei com força.

Há quanto tempo eu não ficava doente? Sempre fui forte. O máximo que já tive foi um resfriado. No entanto, só essa semana já era o segundo dia que me sentia indisposta, enjoado e muito, muito cansada.

Parecia até uma das crises de alergia que tinha quando criança. Mas, alergia de quê? Só se fosse de Jasper, porque foi só ele voltar que...

— Quê?

Levantei a cabeça, num susto! Um pensamento absurdo se formando em minha mente.

— Não pode ser, não pode ser...

Coloquei-me de pé e passei a fazer as contas, mentalmente: que dia era hoje? Que dia nos reconciliamos? Quando foi que...

— Por Deus!

Comecei a andar de um lado para o outro. O desespero ameaçando tomar forma.

Como eu pude? Como pude ser tão relapsa? Por Deus! Não tenho mais quinze anos. E agora? E agora?

— Por que não se senta? Vai passar mal de novo, Alice. O que está acontecendo? Você precisa conversar comigo, Allie. Estamos recomeçando nessa coisa de relacionamento e...

— Estou grávida.

O interrompi. E dei a noticia que o fez paralisar e perder a voz.

Eu era assim, falava o que não devia quando nervosa. Esme dizia que era uma maneira de se defender da ansiedade. Porém, sempre me parecera meio egoísta e agora eu tinha certeza: Jasper estava mais verde do que suco de couve.

— O quê? Eu não estou entendendo. Como assim grávida?

— Ah, Jasper! Como se fica grávida? “Dando” sem proteção. E fizemos isso mais de uma vez.

Voltei-me para o sofá e esfreguei a cabeça com nervosismo. Por que homens ficavam meio bobos com notícias bombásticas?

— Sem proteção? Eu pensei que você... Você...

— Tomasse remédio?

O ajudei já que as palavras pareciam ter ser perdido dentro dele.

Ele acenou em concordância para meu raciocínio.

— Pensou errado. Eu não tive outra pessoa depois de você. Parei de tomar faz anos.

— E não pensou em me avisar?

Ele continuava estático no mesmo lugar. Falava comigo, mas a mente parecia vagar para algum lugar, por mim, desconhecido.

— Você não me perguntou também. E no auge do momento e da emoção, nem pensei nisso. Por Deus! E agora?

Gemi baixo. Eu não queria nem pensar o que aconteceria.

— Vo.. Vo... Você tem certeza?

— Não, não tenho certeza. Preciso fazer um exame. Mas, eu nunca atraso, Jasper e só me dei conta agora. Há dias estou passando mal, com enjôos, náuseas, dores de cabeça e vômitos. É quase certeza. Estou grávida.

Foi aí que os olhos dele se voltaram para mim e pânico foi o mínimo que encontrei ali e juro, analisaria a reação dele mais tarde, porque agora estava tão ou mais atordoada.

— Diga alguma coisa, Jas. Por favor?

Ele me olhou mais atentamente e só então pareceu processar a magnitude da informação.

— Meu pai vai me matar!

Bella

Quatro horas e meia depois de deixar meu Pequeno na companhia do pai, aqui estava eu de volta.

Confesso, quando estacionei a camionete e me dei conta de que estava de frente à clínica, respirei aliviada.

Só Deus sabe como fui uma má profissional hoje. Estava dispersa e muito preocupada. Perdi a conta de quantas vezes tive que me refrear para não ligar ou vir correndo saber como estão.

Todavia, me segurei. Eles precisavam começar de alguma maneira, jurei que lhes daria uma chance.

Por isso, quando desci e, outra vez, antes de bater Edward abriu a porta, me senti mais segura.

Ele estava me esperando e a casa estava quieta e numa penumbra tranquila. Evidentemente que Tony dormia.

— Tudo bem por aqui?

— Tudo! Entre. Ele está lá em cima.

Respondeu baixo. O rosto meio amassado deixou óbvio que também dormira.

— Deu trabalho? Precisou da ajuda de Jasper?

— Nem um pouco. Antony é esperto, você o criou bem. Ele sabe o que quer e deixa-nos saber disso. É um ótimo garoto, Bella.

Despreocupadamente, colocou a mão em minhas costas, pela segunda vez naquele dia, e me guiou porta adentro.

Passamos pela recepção, pelo seu consultório e então para a bonita e lustrosa escadaria que eu havia apreciado mais cedo.

— Ele está lá em cima. Vamos buscá-lo?

Travei. Os muros altos de todas as minhas defesas sendo levantadas.

— Eu... Prefiro esperar aqui. Pode trazê-lo, por favor?

Virei-me para ele e não pude deixar de admirar a intensidade de seu olhar sobre o meu. Eu não era boba ou dissimulada, tinha ciência de que Edward queria mais de mim, mas... Eu ainda não estava preparada para me render e enfrentar tudo que esse rendimento me causaria.

Eu o amava, isso era fato. Mas, esse mesmo amor acabou comigo um dia.

E se essa mudança que ele tanto diz que aconteceu, não passasse de uma fachada e que assim que eu sucumbisse viria à tona e me levasse de novo a dores que eu não era mais capaz de suportar?

— Não conseguirei descer com ele e mais duas bagagens. Venha comigo, Bella? Nosso filho está bem ali.

Apontou para cima.

— Não vou fazer nada, nunca te obrigaria a nada e nem colocaria numa situação desconfortável. Confie em mim? Sei que é pedir demais depois de tudo, mas, por favor, tente esquecer o babaca que fui, Bella? Não pense muito, só deixe rolar.

E devagar, bem devagarzinho, medindo os atos e minhas reações, levantou a mão e encostou- a em minha bochecha e acariciou bem de leve, quase como o toque suave de uma pluma.

Quis demais fechar o os olhos e deitar a cabeça em sua mão, me entregar de vez ao carinho... Só que ainda era uma fraca medrosa.

— Tudo bem, vamos lá.

Interrompi seu ato, me virando abruptamente e subindo os degraus.

Só o ouvi suspirar atrás de mim.

É, se a intenção era mesmo me reconquistar, tinha uma prova, não seria fácil.

— Ele fez o dever, vimos TV, depois tomou o leite, no copinho, e dormiu.

Apontou para a mesa onde as coisas estavam já arrumadas.

Eu ainda estava perdida, observando o lugar com uma atenção e curiosidade imensuráveis.

O espaço era mesmo um loft no sentido nítido da palavra.

Somente um cômodo ao fundo tinha paredes e porta, provavelmente, o banheiro. O restante, se sabia o que era pela decoração e móveis.

Era, no mínimo, peculiar... Tudo muito moderno em tons de bege, marrom e madeira.

Anos atrás se me contassem que Edward viveria num lugar assim, eu diria que era mentira. Parecia tudo muito simples, pequeno, pouco, para o Edward de minhas memórias.

— Posso ver as engrenagens funcionando aí, na sua cabeça, Bella. Não se deixe dominar. Isso aqui é só um lugar de descanso, quando fico na cidade. Ninguém vem aqui, nem Jéssica tem autorização para subir. Esme, Alice e, agora, você, são as únicas mulheres, além de minha diarista, que já passaram por essas escadas. Aliás, não há outra mulher, Bella. Nunca houve. Sempre foi você. Pode perguntar a quem quiser, a Padre Marcus, se minha palavra não bastar. Só não se deixe levar por pensamentos antigos.

— Eu não disse nada. E não precisa me dar explicação a cada ato, Edward. A vida é sua, tem controle sobre ela.

Peguei as coisas de Antony, enquanto ele, sem a menor dificuldade, pegou nosso Pequeno, que dormia na grande cama que ficava perto da linda vidraça, e o aconchegou ao corpo.

— Minha vida nunca mais foi minha depois que foi embora. Só queria que pensasse nisso com mais carinho e cuidado.

E pela primeira vez desde que voltei, me deixando desconfortável com minhas próprias atitudes, ele se afastou. Levando nosso filho para meu carro.

O segui, os pensamentos a mil...

— Espera.

Corri a sua frente abri a porta da entrada e depois a da camionete para que ele aconchegasse Antony. Dei a volta, coloquei as coisas dele sobre o banco e ajudei e ensinei Edward a travar o cinto da cadeirinha.

— Não. Mamãe... Tony, só “dolme” com a mamãe, tio Ed.

Resmungou sonolento e abriu, minimamente os olhinhos, vendo o pai e não a mim.

— Ei, amor. Estamos indo para casa, pode dormir. A mamãe está aqui.

— Tony, bom menino, mamãe. Não fez birra, nem comeu “Besteura”.

— Tony é o amor de mamãe. Agora feche os olhos e durma. Já, já estaremos em casa.

Beijei sua testa e cobri seu corpinho com um cobertor que sempre ficava dentro do carro.

Quando fechei a porta e fui ao encontro de Edward já esperava que algo fosse acontecer.

Por isso, não foi surpresa encontrá-lo com um sorriso bobo nos lábios.

Do outro lado da rua, as luzes de meu apartamento se apagaram, era questão de segundos até Jasper se juntar a nós.

— Também fui um bom menino, Bells. Não dei besteira para nosso filho, o convenci a fazer o dever e também fiz a melhor mamadeira de todas. Quero um carinho também.

— Edward, pare de brincar. Eu já vou. Está tarde e...

— Não estou brincando. Vou me arriscar só um pouquinho agora.

E mais uma vez ele se aproximou e levou a mão a meu rosto, a carícia veio delicada e foi a vez dele fechar os olhos.

— Ah, Deus! Se for um sonho, não me acorde. Eu desejei tanto sentir você de novo... Sua pele, seu cabelo, seu...

Perigosamente, juntou mais o corpo ao meu. Os olhos permaneciam fechados, creio que evitando encontrar algo ou alguma barreira.

— Seu cheiro... Sonhei tanto com seu cheiro.

E quando já estava praticamente junto a mim, baixou a cabeça e aspirou forte em meu pescoço. Arrepiando-me dos pés a cabeça e se inebriando com meu cheiro.

Foi puro instinto, minhas mãos migraram para seus cabelos.

Ah, as malditas barreira caindo por terra, quando os sedosos loiros acobreados permearam meus dedos. Não tinha raiva, nem vingança, nem amargura que resistia aquilo. Eu havia me esquecido...

— Como eu senti sua falta, Bella. Como a saudade doeu.

Sem me deixar pensar, as mãos dele desceram para minhas costas. Abraçando-me, dominando cada centímetro de Bella Swan.

— Você é linda. Deus! Como é linda!

Os olhos, agora bem abertos, encaravam os meus. E, sinceramente, eu não sabia nomear o que via ali. Parecia devoção, saudade, carinho, talvez... Amor?

Não, Edward Cullen não amava Bella Swan, nunca amara.

Ao longe, escutei uma porta bater. Jasper trancava tudo. Estaria ali em breve. Era melhor me afastar antes que...

— Quis tanto te abraçar todas as vezes que nos encontramos. Hoje de manhã então? Foi quase insuportável.

— Edward, acho melhor nós...

Forcei a mão em seu peito, fazendo o mínimo movimento para afastá-lo, porém estava hipnotizada demais para tomar qualquer atitude de verdade.

— Quero você, Bella. Quero tanto que às vezes acho que vou enlouquecer. Eu te amo, amo mais do que a mim mesmo...

E com aquelas palavras eu não era mais dona de meus atos. E não foi surpresa para nenhum de nós quando tomei a iniciativa, levantei a cabeça e juntei minha boca a dele.

— Ahhh.

Gemeu baixinho. Apreciando... Quase que como um apreço por algo muito saboroso.

Ele, literalmente, se deliciava com minha boca. A princípio, fora lento, muito lento. Quase que só um roçar de lábios, porém quando a língua encontrou a minha e os braços, mais exigentes, me puxaram para mais perto de si, tudo ficou mais potente.

Sabe o sentimento? É, aquele sentimento que eu abafava dentro de mim? Pois é, acordou como um urso em hibernação. Faminto, exigente, pronto para devorar o que encontrar pela frente.

E nem a certeza de que o portão da garagem se abria e Jasper saia, me fez querer soltá-lo... Eu queria mais e mais e mais...

Edward

Doce, muito doce, contudo havia um toque de... Não sei! Talvez algo mais marcante. Tipo aquelas frutas gostosas que saboreamos que no começo tem um gosto e no finalzinho nos presenteiam com um sabor que permanece em nossas bocas por horas.

Assim era o gosto de Bella. Igual, ou eu diria, até melhor, do que eu me lembrava.

E não tinha palavras para a sensação que era tê-la nos braços. Rezei tanto por uma única chance...

E nem tinha esperanças que fosse hoje, estava tão arredia no início. Eu me contentaria com meio abraço e uma dose pequena de seu cheiro.

Só que Bella, era Bella, ela sempre me daria mais do mereço e quando trouxe a boca para minha, eu quase parei tudo, me ajoelhei e beijei seus pés. Aquela mulher era perfeita.

E então eu que era um ser qualquer vagando pela terra sem rumo, encontrara sua órbita, seu sentido. Eu passaria os restantes dos meus dias e noites para fazer ela e meu Antony feliz, só para ganhar aquele tipo de recompensa no fim do dia: Era o melhor sabor que eu já havia provado.

— Bella...

Gemi de novo.

O nome deslizava pela língua, como mel.

E não, não tinha nada de desejo sexual ali. Nem tão aprofundado o beijo estava para isso. Era só reconhecimento.

Amor, puro amo.

— Eu te amo tanto, Bella. Tanto, que dói.

A puxei mais para perto quando fez menção de se afastar. Beijei de novo, antes que ela pensasse no que estava se passando. Eu queria que o mundo parasse naquele momento.

— Precisamos parar, Edward. Jasper e sua irmã estão nos esperando.

A contragosto, virei o rosto, encontrando Jasper e Alice lado a lado, calados e nem se tocando. Pareciam que nem nos viam.

— Não quero soltar você. Sei que assim que estiver longe de mim, vai pensar no que aconteceu e se arrepender. Não quero retroceder. Quero reconquistar você mais a cada dia. Não quero te perder de novo, Bella, não quero.

Grudei minha testa na dela e dei mais selinhos suaves.

— Eu preciso ir. Prometo que não surto até amanhã. Mas, se não chegar em casa logo, Charlie vai ficar preocupado e é bem provável que venha atrás. Além disso, nossos irmãos não parecem bem. Meu deixe ir. Estarei aqui amanhã, Edward. Não precisa se preocupar. Não fugiremos.

Era isso? Ela sabia mais de mim do que eu mesmo? Eu estava era com medo de dormir e acordar e então perceber que nada era real ou que eles haviam me deixado como antes?

— Promete?

Trouxe a mão para a bochecha dela, num gesto saudoso, e que ela sempre gostara, e acariciei.

— Prometo. Me dê sua mão.

Com muita dificuldade, me afastei e segurei meus instintos, quando ela se soltou mais e abriu a porta da camionete para pegar algo que eu nem sabia o que era. Só sei que fiquei ali com a mão estendida, esperando que retornasse.

E seus atos só fizeram sentindo, quando retornou com uma caneta na mão.

— Aqui, esse é meu número. Pode me ligar ou mandar mensagem se ficar preocupado. Prometo que responderei assim que tiver um tempo. Eu disse que nos daria uma chance. Eu cumpro minhas promessas, Edward.

Jogou a caneta de volta dentro do carro e foi a minha deixa, a puxei de novo para meus braços, incapaz de dizer adeus.

— Eu preciso ir...

— Eu sei. Vou só dizer tchau como se deve.

Então, eu a beijei de novo... Dessa vez rápido. Só para me despedir antes que...

— Ei casal! Estamos mofando aqui. Ahhh, Isabella, você está em minhas mãos agora...

Soltamos-nos com uma risada. Jasper não se segurara por muito tempo.

— Boa noite.

— Boa noite.

Entrou no carro.

Maravilhado, enfiei minha cabeça lá dentro e arranquei mais um selinho dela.

— Dirija com cuidado. Estaremos logo atrás de vocês. Somente o tempo de fechar tudo. Falamos-nos amanhã. Vão com Deus. Ah, já ia me esquecendo, tenho uma coisa para você.

— Amém. Vão com cuidado também, as estradas estão escorregadias.

Retirei do bolso o objeto que tinha arrumado para te entregar.

— Quero que entre sempre que chegar. As luzes debaixo ficarão acesas.

— Edward, eu não preciso de uma chave da sua casa. Posso muito bem tocar o interfone e...

Tentou me devolver a chave, com o chaveiro da clínica, que eu havia arrumado para ela depois de ouvir as histórias de Tony.

— O barulho do interfone vai acordar nosso filho. E aqui não é minha casa, Bella. É trabalho, um loft. Minha casa, você vai conhecer logo, logo e quando ganhar uma chave, desejo que seja para sempre. Agora vá, não quero que tio Charlie tenha mais um motivo para me odiar.

Os saltos de Alice ecoaram pela rua avisando que já vinha a meu encontro.

Jasper ligou o carro e Bella o imitou. Iria sair primeiro para que o irmão a seguisse.

— Tudo bem, vou ficar com a chave para as noites que Antony ficar aqui. Obrigada, por tudo, Edward, principalmente por cuidar dele. Terei que me preparar para ouvir o dia todo sobre isso amanhã.

— Não me agradeça. Foi o melhor presente que um pai poderia desejar. Amei cada instante e espero que Alice tenha preparado ou ouvidos também. E Bella?

Ela já colocava o carro em movimento, bem lentamente.

— Oi?

— Faça as pazes com Emmett. Se quiser eu mesmo falo com ele, peço perdão se facilitar a vida para você. Mas, só converse com ele, Antony sente a falta do tio.

Ela assentiu, sem palavras. Só com um aceno tão característico da Bella de anos atrás.

E quando os dois carros saíram e o silêncio dominou tudo, o arrepio de medo passou por mim.

Mas, ela prometera...

Todavia, era incontrolável. Por isso, quando me virei, pronto para correr e trancar tudo para enfim, os alcançá-los na auto-estrada, me dei conta de que não estava sozinho.

— Irmã?

— Ed, precisamos conversar. Eu estraguei tudo.

E diferente do que achei que seria a reação dela a me ver junto de Bella outra vez, Alice se jogou em meus braços e chorou. Chorou como eu já tinha visto só uma vez na vida: quando os Swan’s partiram.

E então estava lá outra vez: o maldito arrepio de medo de que tudo não fora só um sonho bonito.

Notas finais
Ainda tenho comentário e duas MPs (que o Nyah não me avisou que eu tinha) para responder. Organizo tudo semana que vem, ok? Quero comentários... Acho que as coisas as coisas encaminham, não é?