Notas iniciais
Capítulo dedicado inteiramente a: "A Loira e a Morena" e também a "Sra Cullen" que fizeram dos meus dias mais felizes com palavras de carinho e apoio. Não mereço tanto! Mas, fico imensamente feliz em saber que gostam tanto disso aqui, assim como eu. Beijinhos e obrigada por tudo!

Charlie

— Vovô? O vovozinhôôô?

Involuntariamente, abri o melhor dos meus sorrisos. Aquela palavra era perfeita na voz do ser mais perfeito que Deus fez.

Coloquei-me de pé e fui para a cancela, que separava o curral (para quem não sabe, é o cercado onde os animais são fechados para ordenha e alimentação) da ordenharia só para ter certeza de que nada aconteceria, porque era óbvio que o Pequeno Furacão já havia entrado e passava em meio aos animais para chegar até mim.

— Bom dia, “Minalesa”. Oi “Colotilde”. Como vai “Dona Folorinda”? “Dolmiu” bem “Masestoso”? E você Meia-Noite já tomou café?

Baixinho, fiz uma prece em agradecimento ao anjo da guarda de Antony. Ele era o cara!

Meu neto sapeca vinha andando em meio aos animais e tocava cada um, que milagrosamente chegavam a se abaixar para receberem um carinho. Até o boi Majestoso que era conhecido por seu mau-humor se abaixava, parecendo em reverência, a fim de ser acariciado.

— Bonitos tênis.

Apontei para seus pezinhos, antes completamente brancos, já se sujando de terra e estrume.

Ah, teria uma mãe surtando logo, logo.

— Eu não gosto, as botininhas que a vovó deu, são mais legais.

Abri a porteira e o deixei entrar.

Abaixei-me, sentando no banquinho de ordenhar, ficando quase a sua altura.

Pronto para receber o abraço e beijo de “bom dia” de sempre.

— E por que não as calçou?

— Mamãe e eu vamos para “Folks” agora e depois vamos almoçar lá no Shopping, da cidade, “lonjão”.

Ele estava de banho tomado, cheiroso e bem arrumado e acabava de entrar no curral e ainda me abraçara. Logo eu que já estava na lida desde as quatro da manhã.

E ainda ia sair?

Bella nos mataria! Certeza!

— Achei que iam mais tarde.

Ele se afastou de mim e foi até a vaca que comia tranquila enquanto aguardava que eu terminasse de ordenhá-la.

Percebendo que era ele ali, o animal parou o que fazia e começou a cheirá-lo.

— Mamãe “plecisa” ir na loja “plimeiro”. Tio Memmett não vai hoje e titio Jas tá “dolmindo” ainda.

Ou seja, sobrara para ela, como sempre, se desdobrar para dar conta de várias coisas.

— Ah, Mimosinha, eu “tabém” gosto de você! Bom dia. Você “numiu” bem?

Parecendo mesmo que estava respondendo o animal berrou.

— Ah, eu “numi” bem sim. “Obligado”!

A Mimosinha era uma vaca de pouco mais de um metro e meio, premiada, da raça Holandesa e que dava cerca de 40 litros de leite por dia. E que agora esfregava a cabeçorra no cabelo dele, como um animalzinho de estimação faria.

— Vai comprar mais alguma coisa?

— Humm, acho que vou “palgar” um “solvete” para a mamãe.

Mimosa passou o focinho no cabelo dele, que soltou uma gargalhada contagiante.

— Mimosinha, Mimosinha... Tomou banho ontem né?

Passou a mão no pelo malhado com carinho.

Como pode? A cara do pai, mas com gênio e dons só da mãe. Eu podia pedir mais a Deus?

— Mais um presente pra sua amiguinha e outro pro Cullen?

— Não, vovô. Você se “contundiu”, o “outlo plesente” é “po” titio “Edwald”.

É, eu sabia. Como disse Bella, ele gastaria seu “primeiro salário” em presentes e nenhum era para ela ou nossa família.

Mas, quem disse que o mundo é justo, certo?

— É, acho que fiz confusão mesmo.

Mimosa “limpou” todo excesso de ração, que sujava seu focinho, no cabelo dele de tanto desejar seu carinho.

Era lindo de se ver, que ele tinha tudo e todos em volta de seus dedinhos ansiosos.

— Vovô, eu “tavo” pensando enquanto “dolmia”...

— Enquanto dormimos não pensamos, sonhamos.

— Ah, então... Eu “tavo” pensando quando sonhava que...

— Não! Tá, deixa continua. O que você estava pensando?

Fez carinha de confuso quanto o interrompi, por isso, deixei pra lá. Era criança, pensava enquanto sonhava e sonhava enquanto pensava. Não há limites para um ser tão puro.

— Eu “tavo” querendo ir “pelscar” naquele rio ali, no dia depois do almoço da bis-vovó.

Santo Deus! Era informação demais.

— Espera, Pequeno. O dia depois do almoço, que é nos domingos, é segunda. Você quer pescar numa segunda-feira? É dia de trabalho, filhote.

— Eu peço folga pra mamãe, oras! Eu só queria ir pescar naquele rio grandão ali.

Apontou para a esquerda de onde estávamos. Tirando de mim toda argumentação de que segunda-feira é dia de trabalho para mim. Porque para ele já havia uma solução.

— O rio fica para cá, Tony. E não para onde você apontou. Lá é a reserva.

Senti um arrepio lembrando-me de quando a mãe dele ficou desaparecida na mata fechada.

— Não, vovô. Você tá “ganado”. Fica pra lá. Não é, Mimosinha?

O bicho olhou para ele, como se concordasse. Será possível que ela o entendesse mesmo? Não!

— Não, meu amor, fica para lá. Onde você está apontando fica o início do caminho para o rio.

— É?

Para completar, abraçou a cabeça da vaca.

Ele precisaria de outro banho. Bella surtaria mesmo!

— É.

— Tá bom, então.

Deu de ombros, como se aquilo não importasse nada.

— Podemos ir “pelscar” nesse rio seu, que fica pra lá e não para cá, no dia depois do almoço na bis- vovó?

“O meu rio” e o “dia depois do almoço” vieram com força e eu só pude sorrir e confirmar.

— Tá bom. Na segunda, Emmett fica aqui na fazenda, de manhã, e vamos pescar. Mas, depois você tem que ir para a escola. Certo?

— Sim, vovô. “Polque” eu tenho que ir na aula logo para levar os “plesentes” da Clair.

Era mais de um?

— Tá bom, vou ajeitar isso. Agora por que não solta a Mimosa? Preciso colocá-la junto com as outras e trazer a Milanesa.

— Tony gosta da “Minalesa tabém”.

— Eu sei. Mas, agora se afaste um pouquinho que...

— Ahhh! Eu não acredito nisso! Pai! Antony Swan, dá para me dizer por que faz isso comigo? Você já estava pronto!

Eu não disse?... Mãe, diga-se de passagem, linda, sem uniforme da loja, de vestido longo estampado, deixando claro que iria passar uma tarde de entretenimento em algum lugar, surtando porque o filho ia precisar voltar pro banheiro.

— Desculpa, mamãe. Vim ajudar o vovô e “convelsar sélio” e me “distlai” com a Mimosinha.

— É culpa da Mimosinha, eu já imaginava. Já para o banheiro, seu Porquinho.

E num salto, ele largou a vaca, me deu um abraço de lado e saiu correndo.

— Te amo, vovô, tchau. Mamãe gatona, seu Lindão vai te “espelar” no banheiro seu.

E correu rumo à sede e eu só pude olhar para minha filha e dar de ombros.

— O que posso fazer? Ele estava me ajudando.

— Ah, pai. Me ajuda né?!

E foi atrás do filho. Deixando-me ali terminando o trabalho e confessando para Milanesa o quanto agraciado eu era pela família que tinha.

Um dia eu teria que agradecer ao filho da minha irmã pelo melhor presente do mundo! Um dia...

Edward

— Graças a Deus!

Exclamei vendo com alegria o relógio marcar 8hs da manhã.

Eu estava exausto! Trabalhara ininterruptas 12hs de um plantão puxado no Medical e mesmo que não dormisse muito ansiava agora por um banho e a aconchegante cama de casa.

— Ora, ora! Parece que teve uma noite agitada. Não sabia que fazia plantões?

— Oi, tia. Bom dia. Tivemos alguma diversão por aqui de Madrugada. E sim, faço plantões. Mamãe não perdoa minhas ausências durante o dia, então compenso nas madrugadas. Sabia que conta dobrado?

Fui até a máquina de café e preparei dois, sabia que ela gostava. E o da sala dos médicos era o melhor do hospital.

— Conta dobrado? Na minha época de residente não tinha nada disso. Tem um minuto antes de sair? Gostaria de conversar.

Pediu humildemente, como se precisasse. Eu faria o que ela quisesse.

Tia Renée, por si só já era intimidante, e com o agravante de ser mãe e avó de meus amores, eu seria capaz do impossível para satisfazê-la.

— Quantos a senhora quiser. Na sua sala?

— Não precisa. Estamos sozinhos. Porque não se senta? Está mais frio que o normal hoje. Você não tem um consultório só seu aqui?

Apontou para o sofá, que eu estava deitado minutos antes, e para o cobertor amontoado de qualquer madeira em seu encosto.

— Não tenho. Não preciso, tia. Venho, faço meu trabalho e vou para casa. Pronto acabou! Não preciso me sentir confortável aqui. É só trabalho.

Entreguei-lhe o copo e então fiz o que mandou e não me surpreendi quando se sentou a minha frente segurando seu copo com a bebida quente. Os olhos me “esmiuçando” de cima abaixo.

Aquilo intimidava muito. Tia Renée era linda, o tempo fora generoso com ela. Além disso, é forte, segura, do tipo que enfrenta cada problema de frente. O par perfeito de tio Charlie. A mãe perfeita de Minha Linda.

— Entendo...

Tomou um gole grande de café e me deu mais uma avaliada.

— Sabe o que quero falar com você, não sabe?

Dobrei o cobertor, ganhando meros segundos. Depois descansei os cotovelos nos joelhos dando-lhe total atenção e já imaginando o teor daquela conversa.

— Bella e Antony?

— Exatamente.

Respirei fundo pronto para escutar todo o desabafo de uma mãe-leoa que viu sua cria no pior momento. Eu sabia que essa hora chegaria. Sabia que enfrentaria tia Renée, tio Charlie e Emmett e teria que enfrentar a ira de todos eles.

Eu só não estava pronto para enfrentar isso agora, não quando dava os primeiros passos certos em direção a Bella.

— Ei, calma! Não estou aqui para te julgar. Só preciso ter certeza do que está “escancarado” e a garantia de que vai saber lidar, quando se der conta da seriedade e profundidade dos sentimentos que estão prestes a engoli-lo. Porque Antony e Bella são partes de um tsunami que varrem todo controle e certeza que temos. Tê-los presentes em sua vida é nunca mais ter normalidade, horários e controle. É isso que quer para sua vida, Edward? Como posso ter certeza de que não vai se arrepender na primeira vez que Bella não seguir seus padrões? Porque, não se engane, ela posa de mocinha agora, com vestidos, saltos, maquiagem e tudo mais. Contudo, ainda cavalga, em pêlo, dirige colheitadeiras e toma banho de chuva com direito a pulos na lama sim. E Antony a idolatra por cada coisa dessa que ela faz. Eles podem não ter nada fisicamente parecidos, mas a essência é igualzinha. Então, eu insisto, está preparado para isso?

À medida que ela descrevia, eu relembrava, revivia e ansiava por cada cena. Um Sonho?

Eu seria capaz de julgar uma mãe por “encantoar” o ex- atual- futuro... futuro... Pois é, não sei como nominar o que Bella e eu temos, mas, enfim... Tia Renée sempre fora uma mãe exemplar e presente e tê-la a minha frente, especulando, não era novidade nem surpresa. No entanto, ela fazia com tanta sutileza e carinho que tornava uma conversa, que tinha tudo para ser tensa, em algo muito mais fácil.

Quem dera que fosse assim a temida vez de tio Charlie e Emmett.

— Eu estaria mentindo se dissesse que sim, tia, estou pronto. Sério, eu não estou. Ainda mais depois de ter Antony em casa nessa última semana e Bella mais acessível. Eles são demais para mim. De uma sintonia invejável. A esperteza de Tony me deixa sem reação a cada nova conversa. E Bella? Deus, tia! Eu a olho, olho e olho de novo, todos os dias me inspirando e buscando nela o ser humano incrível que quero ser. A força, a coragem... Como ela conseguiu? Eu a admiro tanto. E saber que lá no fundo ela continua sendo a Bella, que graças a Deus, eu não consegui destruir, me deixa aliviado e ansioso para ver isso. Então, não tia, não estou preparado e acho que nunca estarei. Porém, por Deus! Eu quero tanto! Durmo e acordo pensando neles. Acho que o único momento do dia que respiro com tranquilidade é quando chega a tarde e escuto o som deles invadindo minha vida. Sei que posso soar egoísta, tia, e lamento, lamento demais por isso, mas mesmo sem estar pronto, quero, sonho e vou lutar contra tudo e todos para passar por cada situação que a senhora descreveu e vivenciou. E espero mesmo, que me dêem a chance de mostrar que também não sou o mesmo. Que aquele Edward idiota não existe mais.

Respirei fundo, passei a mão revoltando mais os cabelos e esperei ali, o veredicto dela. Não o que selaria meu destino em relação à Bella e meu pequeno. Porque nada, nem ninguém interferiria nesse sentido, porém a opinião dela daria o sentido para onde essa reconquista total caminharia: Somente com minha família, ou parte dela, me apoiando ou com partes dos Swan’s do nosso lado. O que seria magnífico e facilitaria demais minha vida.

— Sabe, Edward, quando uma parte de você é machucado, magoado e ferido diretamente na alma, a primeira reação de pais presentes é cercar e proteger a qualquer custo, e foi exatamente isso que fizemos com Bella. Com o tempo as diferenças de pensamento de pai e mãe, ficam distintas: o pai tende a querer fechar a cria em uma bolha de proteção para que a dor nunca mais os alcance. Já a mãe, bom, a mãe observa os detalhes, aconselha, aguarda, vê se seu pequeno filhote cresceu e aprendeu e quando percebe isso, vai soltando as rédeas devagar e deixa que ele levante e siga em frente. Apóia suas escolhas, mas fica atenta para o caso do perigo rondar outra vez, porque do jeito que avança, uma mãe também retrocede.

Minha atenção estava toda nela, eu era um pai, precisava aprender mais com quem detém a sabedoria.

— E o que vejo aqui é no mínimo curioso. Mas, não posso deixar de ver mudanças incríveis em Bella. Eu sempre soube que os sentimentos dela por você não desapareceram, ela só os aprisionou. E aqui eles afloraram. Também não posso deixar de mencionar sua mudança aparente. Desse modo...

Fecho as mãos em punho e sem perceber noto que estou travando os dentes também, era agora que ela dizia que eu não eu servia e que era melhor me afastar?

— Digo que você tem uma aliada em nossa casa. Aliás, mais uma, porque creio que Jasper, que ainda não me contou, mas já está de quatro por sua irmã, também conte. Por isso, alerto, não faça besteiras e terá com quem contar quando a ira de Charlie e Emmett recair sobre vocês.

— Tia, eu... Eu não sei o que dizer. Eu...

Sorrindo, ela se levantou e depositou o copo vazio na lixeira perto da janela, depois se virou para mim e antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, abriu os braços.

Fui antes que ela mudasse de ideia.

— Obrigado! Obrigado! Eu prometo que...

— Não prometa. Apenas faça.

Abraçou-me forte, depois segurou minha cabeça entre as mãos e me puxou para baixo, beijando minha testa com carinho.

— Renasça, Edward. Encontre dentro de você o que dá prazer e corra atrás. Não faça nada por obrigação. Viva!

— Porque eu tenho motivação agora, não é?

— Exatamente!

Voltei a fechar os braços em volta dela e deitei a cabeça em seu ombro recebendo um carinho que a muito não de dava ao luxo.

— O que está acontecendo aqui?

Pegos de surpresa, nos soltamos e minha tia seca as lágrimas antes de encarar uma dona Esme de feições nada felizes.

— Não está acontecendo nada. Só uma conversa de futura sogra com um futuro genro. Temos um problema com isso?

Fico sem jeito, coloco as mãos nos bolsos e observo mamãe. Sabia que devia estar ofendida, não tínhamos uma troca de carinho assim desde que Bella se foi. Eu me negava a receber algo amigável. O Edward do passado não merecia nada de bom quando só soube dar o pior.

— Não, não temos um problema com isso. Terminou o plantão? Vai pra casa?

Dirigiu-se a mim indo também até a máquina de café.

Tia Renée pegava a bolsa e revirava os olhos para o provável ciúme da melhor amiga.

— Terminei. Vou sim, só estávamos esclarecendo alguns pontos.

— Sei. Café?

Perguntou, agora mais amigável, para a esposa de seu irmão.

— Não, obrigada. Acabei com um agora e Charlie acha que devo controlar a cafeína. Homens!

Revirou os olhos, do jeitinho que Bella faz e Antony também.

— Se me dão licença, Aro quer falar comigo, não posso deixá-lo esperando, certo?

— Precisa que eu lide com isso? Acho que já teve sua cota de Volturi por um bom tempo.

— Eu adoraria.

E com isso uma sorriu para a outra e eu via a nova amizade se restabelecendo bem diante de meus olhos.

— Aliás, Esme, por que Edward não tem uma sala só dele?

Mamãe atravessou a sala e antes de sair com ela, se virou para mim, observou-me atentamente enxergando até minha alma.

— Meu filho passou um tempo à deriva pelo mundo, Renée. Ele só tinha um objetivo e não era a medicina. Achei que não precisava de regalias, mesmo sendo filho e sobrinho das donas. Quando eu perceber que seus objetivos mudaram, talvez mude de ideia. Devo começar?

— Nada mudou, mamãe. Tenho mais que uma motivação agora, e ela não tem nada a ver com medicina.

Decepção, é isso que vi na face dela mais uma vez, porém, não me importei. Eu não mentiria só para deixá-la feliz. Minha profissão ainda era um assunto que só eu precisava resolver.

— Vá descansar, amor.

— Eu vou.

Fui até ela a abracei e beijei sua testa, clamando rendição e compreensão.

— Mesmo?

Perguntou Renée já andando corredor a fora, rumo a sua sala.

— Que pena! Porque seus dois “alvos fins” estão a caminho de Port Ângeles para um dia em família. Talvez se aparecesse assim de surpresa, seria bom para a convivência. Algo me diz que eles gostam de carne no almoço. Mas, infelizmente está cansado, não é?

Sem perder tempo, voltei para a sala, peguei minha maleta e corri em direção à saída, ouvindo lá longe as risadas das duas e o melhor conselho de dona Esme nos últimos tempos.

— Tome um banho e passe um perfume. Mulheres gostam de homens que não cheiram a hospitais.

Bella

— Pode ser esse?

O paciente vendedor perguntou depois de “arranjar de não sei onde” a décima opção de coelho para um exigente e adorável Antony.

— Não pode. Ele tem “as olelhas” pequenas. Você não entende, seu “venedor”, o que espanta os sonhos ruins são as “olhelhas glandes”.

— Amor, vamos procurar em outra loja. Ou talvez, devêssemos deixar para outro dia, ainda temos que comprar o tênis da Clair.

— Mas, mamãe, o titio “plecisa” do “Senor Olelhudo”.

Fez aquela carinha emburrada, cruzando os braços, despontando o biquinho, abrindo bem os “olhões” verdes e por pouco não lacrimejando.

Assim ninguém resistia, tanto que o gerente da loja, que há tempos nos observada à distância, veio em nosso socorro.

— Ei, garoto lindo, não precisa chorar. Vamos achar o seu coelho. Acabou de chegar um carregamento de pelúcias e...

— Mas, chefe, está no depósito. Ainda não abrimos as caixas.

O pobre do vendedor fez cara de desespero e eu lamentei demais por ele. Por isso, tentei mais uma vez.

— Não, não precisa. Voltamos outro dia, não é nada de urgência.

— É de “ulgência”, mamãe. O titio se sente sozinho à noite. Ele fica me olhando e olhando como se eu fosse “sulmir” e quando quase “tô dolmindo” ele fica dizendo que “quelia” que eu fosse “pla sempre” na vida dele “todinha”.

— Filho...

— Não, senhora. Fique tranquila e espere mais um pouquinho. Tenho certeza que temos um carregamento de Senhor Orelhudo no depósito. E não será trabalho algum. Só um minuto, já voltamos.

O superior deu aquele olhar mortal ao subordinado, o agarrou pelo braço e ambos desapareceram por uma porta.

Vários outros, que atendiam outras pessoas, ou que só estavam de bobeira por ali, se compadeceram com o colega. Eu também.

O que comissões não fazem com as pessoas?

— Se ele achar podemos levar um para Clair “tabém”? Ela vai ficar feliz, já que não tem mamãe para “ablaçar” a noite.

Por Deus! De onde saiu aquilo? Eu ainda digeria a informação de que ele escutava Edward antes de dormir, o que precisava ser alertado. Quando ele me vem com uma dessas sobre Clair.

A propósito, minha ida a escola na sexta feira me esclarecera muita coisa sobre sua amiguinha. Clair Fuller, filha única de Brady Fuller e Ester Fuller.

O pai parece ter pouco mais do que a minha idade e é mesmo porteiro lá. A mãe era professora no mesmo lugar. Casaram-se quando descobriram uma gravidez e viviam suas vidinhas tranquilos e felizes até tudo desabar quando a pequena tinha só três anos. Ester, depois de intensos exames por causa de dores abdominais sem explicação, fora diagnosticada com câncer de colo de útero e, infelizmente, não resistira ao tratamento.

Foi quando a vida dos dois se transformou. As contas hospitalares se amontoaram e cortes enormes foram feitos de uma renda que drasticamente caíra pela metade, já que não contariam mais com o salário da mãe.

Bom, a diretora não pareceu muito tocada ao me contar isso tudo, segundo ela, só de Clair estudar lá “de graça” já estavam ajudando já que o pai não precisaria se preocupar com creche ou alguém para cuidar da Pequena.

É, eles estavam mesmo fazendo alguma coisa, mas não era o suficiente.

Porém, quando conversei com Brady para saber o número do sapato da filha, também notei que ele é um homem orgulho e que não aceitaria caridade. Então, tinha que ser tudo na maior sutileza possível.

Pensando assim, pedi à mamãe que olhasse as questões burocráticas e financeiras do hospital, para que pudéssemos saná-las.

E tinha ainda o tênis e mais algumas coisas que compraria para a menininha, mas isso eu resolveria com Antony. O pai não se importaria com alguns presentes do meu Pequeno, não é?

— Podemos levar um pra ela também, Amor. Clair merece dormir abraçadinha com um Senhor Coelho como companhia sim.

O puxei para o meio de minhas pernas e o abracei com força.

Estávamos confortavelmente sentados em pufes quadrados nos meio da loja, aguardando o retorno do vendedor.

— Mamãe, “pol que” as coisas são assim? Uns não têm mamãe, “outlos” não têm papai? “Pol que” não são todos como você, que tem o vovô e a vovó?

O abracei mais forte e segurei dentro de mim o sentimento de tristeza que queria dominar ao escutá-lo, escondido em meu pescoço, confessar suas dúvidas e dores.

— Olha, Tony, a mamãe não sabe o porquê de isso acontecer, mas o Papai do Céu às vezes busca alguém que ele precisa muito para ajudá-lo a comandar as coisas lá do alto. E então as pessoas têm que partir e só podem cuidar da gente lá de longe.

— Hum, eu não gosto disso. Não “palece” certo. A Clair “plecisa” de uma mamãe.

Acariciei seu cabelo, percebendo que sua voz ficava mais baixa e mais melosa. Ele choraria logo, logo se eu não mudasse o rumo daquela conversa.

— Eu sei, filhote. Mas, ela tem o papai dela, que a ama muitão. E agora um amigo maravilhoso como você. Nós vamos ajudá-la em tudo. Tá bom? Clair não vai mais ficar sem algo que precise. Combinado?

Ele balançou a cabeça, em concordância, mas se engana quem acha que a conversa havia acabado. O tiro de misericórdia vinha exatamente agora.

— Mas, ainda não é “celto”, mamãe Bella. “Clianças develiam” ter papai e mamãe. Não se pode ter amor só de um.

Depressa, o afastei, segurei seus braços e olhei bem dentro de seus olhos.

— Amor, não é o seu caso, eu já te expliquei isso. O papai do Tony só está longe. Ele vai chegar em algum momento e você vai poder ter nós dois.

Mesmo que não fosse juntos. Quis completar, mas me acovardei. Aquele pensamento, agora principalmente, não era dos melhores.

— “Plomete” que não vai “demolar” mais do que o “necessálio”? Tony tem saudades do papai dele.

— Eu prometo. Agora vem cá porque essa conversa de adulto me deixou com vontade de dar muitos beijinhos e mordidinhas.

O apertei mais e fiz que ia morder seu pescoço arrancando altas gargalhadas dele e atraindo mais olhares para nós. E, graças a Deus, o distraindo daquela conversa.

Sei que precisava contar sobre Edward, porém, Deus! Eu ainda não estava pronta. É verdade que ele tem se sobressaído, mas quem me garante que seria sempre assim?

Eu só precisava de mais um tempinho para reforçar crenças e confianças.

— Eu achei! Olha se é esse?

Antony se virou em meus braços e eu quase gargalhei ao perceber que o nosso ajudante estava praticamente suplicando que aquele fosse o coelho certo.

— É esse. Mamãe, olha! Vamos “queler” dois e “pla plesente”. Um para menino e outro para menina.

O homem respirou aliviado e se dirigiu ao balcão para atender os dois pedidos de meu exigente filho que saltitava, como um macaquinho, perto dali.

Levantei-me e o segui.

Feliz, pela venda, o gerente veio para meu lado.

— Seu filho é uma criança fora do comum. Deve ser complicado criá-lo sozinha.

Sem disfarçar, ele olhou para minhas mãos, não encontrando ali obviamente uma aliança.

— Ele é meu mundo. Só que não o crio sozinha, tenho pais e irmãos que me ajudam nessa missão.

— Poderia ter mais, sabe não sabe?

Sorriu de uma maneira nada agradável e me estendeu seu cartão com um número grande de telefone.

— Mamãe, você pode me “pelgar”? Estou “cansadão”.

Como se tivesse uma “anteninha” que captasse cafajestes e inconvenientes, Antony, com cara de poucos amigos, se aproximou e me estendeu os braços. Era a maneira dele de dizer que eu tinha dono.

— Venha aqui. E obrigada, senhor... James.

Dei uma espiada em seu crachá.

— Mas, não vou precisar de seu cartão. Se necessitarmos de mais algum brinquedo, sabemos em qual andar fica a loja, aqui no shopping. Obrigada! E boa tarde.

Dei-lhe as costas e me dirigi ao caixa.

Homens e suas manias de achar que mães solteiras estão à procura de alguém para ajudá-las a criar seus filhos. Eu não preciso de ninguém para isso. Se essa era a motivação de Edward para me reconquistar, precisava alertá-lo. Sou muito capaz de criar Antony sozinha.

— Aqui está.

Estendi o cartão quando finalizada a compra. Dois Senhores Coelhos não saíram nada baratos.

— Não, mamãe. Tony vai pagar. Minha “calrteira” tá na sua bolsa. Você esqueceu?

E estava mesmo, ele fizera questão de pegá-la quando saímos de casa hoje de manhã, depois de um segundo banho e uma bronca por ter se sujado.

— Ainda vamos comprar mais coisas, você paga depois. Agora vamos porque quero almoçar e ainda precisamos comprar as outras coisas.

Retirei da minha carteira uma nota de cinquenta e coloquei na mão do vendedor.

— Obrigada, pela sua presteza.

— Senhora, não precisa. É meu trabalho e...

Empurrei sua mão quando tentou me devolver o dinheiro.

— Não é seu trabalho suportar seu gerente. É para o lanche da tarde. Aproveite.

Peguei as duas sacolas que me estendia e equilibrei tudo, juntamente com a bolsa e mais um Pequenino, já pesado, em meus braços e saímos dali rumo à loja infantil mais próxima.

— Posso te colocar no chão agora? Já saímos. Não precisa mais me proteger de ninguém.

— Não “golstei” dele. Mamãe é do Tony.

— Só do Tony.

O coloquei no chão e estendi a mão para que ele pegasse.

— Hoje tá difícil. “Po lisso” que “golsto” quando um dos titios vem com a gente.

— Ciumento!

— Só cuidadoso.

Era ciúmes mesmo. Ninguém podia olhar, comentar, cumprimentar... Se ele não conhecesse já fazia biquinho. E ali era Port Ângeles, pertinho de Forks, e praticamente o parque de diversões de várias outras cidadinhas que a rodeavam.

— Vamos entrar nessa?

— “Zamos”!

Graças a Deus fomos atendidos por uma mulher dessa vez.

— Posso ajudá-los?

Olhei para Antony esperando que ele respondesse.

— “Quelemos” um tênis “losa” de menina para minha amiga. A mamãe sabe o número.

— 26

Completei a informação.

— Ah, que gracinha, veio comprar presente para sua namorada?

Ela cometeu dois erros: o primeiro foi bagunçar o “topetinho” dele que Emmett fizera com tanto esmero. O segundo foi insinuar que Clair era namorada.

— “Cliança não namola”, moça. Eu sou da mamãe. E não “polde bagulçar” o meu cabelo foi meu titio que “alumou”.

— Ah, perdão. Só um minutinho.

A coitada levantou as mãos num pedido mudo de desculpas e saiu correndo para buscar o que ele pedira.

— Não precisa ser ranzinza. Ela só quis ser agradável.

— Elou”, feio.

Respondeu fazendo graça.

Nossa estadia ali foi mais rápida, porém mais produtiva. No fim compramos dois tênis, um sapato, uma sandália, um conjunto de frio e mais dois vestidos para a pequena.

Ainda peguei uma jaqueta jeans e uma blusa de moletom para ele, o frio estava se intensificando.

Na hora do pagamento, deixei que ele pagasse um tênis. Combinado é combinado, e mesmo que desse aquele dinheiro de volta para ele em algum momento, deixar que ele pagasse alguns de seus desejos era bom para o caráter.

— Vamos deixar isso tudo na camionete e depois almoço.

Entreguei-lhe algumas sacolas e depois de deixá-las no carro, nos dirigimos à praça de alimentação que começava a lotar devido o adiantar da hora.

— Hum, depois podemos tomar um “sovertão de soblemesa”? O Tony paga para a mamãe linda dele.

Apontou para a gelateria e suas vitrines tentadoras.

— Se almoçar direitinho, quem sabe.

Apontei para o restaurante que servia uma carne assada que eu amava desde sempre.

— Tá bom. Podemos sentar aqui “fola”? Tem um pula-pula “glandão” e o Tony “quelia”... Titio “Edwald”?

Parei de vasculhar o lugar em busca de uma mesa e observei com mais atenção para os dedinhos nervosos apontavam.

Era Edward mesmo, sentado bem ali desatento lendo algo em uma revista de medicina?

— É o titio, mamãe. Que legal! Podemos sentar com ele? Podemos?

Sem esperar por aprovação foi me puxando pela mão até parar de frente a mesa de Edward.

— Oi, titio, podemos “amoçar” com você?

Edward soltou a revista e nos olhou com um sorriso que seria capaz de economizar a energia de Forks por um mês.

— Claro que podem! Que coincidência encontrá-los aqui... Oi Pequeno.

Pegou Antony no colo e o beijou, depois fez sinal para que o garçom trouxesse uma cadeira alta.

— A gente “veio fazê umas complinhas”.

Antony se ajeitou e já roubou uma batatinha frita do prato cheio a sua frente,

— Coincidência é?

Levantei as sobrancelhas e fiz cara de quem sabe que ele está mentindo e mentindo feio.

— É, talvez eu tenha recebido essa informação depois de uma conversa muito interessante com uma tia muito, muito querida. Ah e não me olhe assim, por favor... Essa carinha me dá vontade de beijar você, e acho que não vai querer que nosso filho descubra assim que o “tio Edwald” dele está com esse tipo de intimidades com a mamãe bela do Lindão.

Sorri para o bom- humor dele e segurei a mão que me estendia, guiando-me para sentar ao seu lado e de frente a Antony.

— Certo! Depois eu acerto as contas com essa sua tia. E vamos aceitar seu convite porque está muito cheio isso aqui.

Era fim de semana em um shopping, imaginem como estava lotado.

— Vão almoçar agora ou podemos pedir só mais uns petiscos antes?

— Fim de semana pode “colmer besteila”.

— Minhas palavras se voltam contra mim, não é Antony Swan?

Passei lenços umedecidos em suas mãozinhas e rosto. Como pode ser tão perfeito?

— Pode pedir, Amor.

Edward foi lendo para ele as opções.

Os joelhos esbarravam sempre nos meus numa carícia leve, fazendo-me lembrar de que estava ali, tão presente como podia.

— “Quelo” Coca-Cola no canudinho, ovinho de “coldorna” e batatinha.

O garçom anotou cada detalhe.

— Para você agora.

Rá! Hoje era dia... O garçom se virou totalmente para mim, ignorando totalmente Edward e Antony.

— Mamãe... Eu “quelo” colo.

— Não, Campeão. Fica aqui. Deixa a mamãe escolher. Ele já vai embora.

Edward, me surpreendendo, segurou minha mão por cima da mesa, porém, não rosnou nem deu uma olhadinha feia para o garçom atrevido.

— Para mim só um suco de laranja, vou roubar umas batatinhas aqui já que teremos porções duplas.

Fechei o cardápio e o entreguei, sem nem olhá-lo direito.

— O que está bebendo?

— Água com gás, limão e gelo. Mas, estou curioso, o quê vieram comprar aqui?

— “Plesentes”. Sabia que “complei um pá” você, titio? Mas, só vou te entregar quando for segunda-feira para sua casa.

Beliscou outra batata. E meio que fechou os olhos quando percebeu que Edward ainda segurava minha mão.

A soltei.

— Isso não é justo. Vou ficar curioso agora.

— Isso chama... Como chama, mamãe?

Esticou a mãozinha me oferecendo uma batata que eu aceitei muito feliz.

— Antecipação, meu amor.

— É isso, “tecipação”, titio.

Ofereceu a Edward um petisco também, exatamente como fez comigo. Tirando dele uma expressão de espanto maravilhosa.

— Tudo bem, eu aguardo. Amo surpresas quando vem de você. O que mais compraram?

Ficamos em silêncio por alguns segundos até o garçom nos servir e se afastar. Antony pegou um ovinho sem nem esperar o prato descer direito.

— “Plesentes” para minha amiga Clair. Mamãe “complou” uns vestidos de meninas. E também umas “blusas de flio” para mim. “Polque Folks” é gelada. Posso ir no pula-pula, mamãe?

Era uma característica de Antony ele falava tudo de uma vez, depois mudava de assunto, assim do nada.

As trocas de letras estavam mais fortes hoje.

— Só um pouquinho?

Fiz sinal com o polegar e o indicador.

— Só.

— Então pode.

Fiz menção de me levantar para ajudá-lo a sair da cadeira, mas, Edward foi mais rápido me impedindo e logo ajudava nosso filho.

Depois o levou até o brinquedo e esperou que ele entrasse e desse alguns pulos.

O sorriso dele era tão grande, que Edward não resistiu e tirou várias fotos antes de voltar para perto de mim.

— Posso te dar um “oi” apropriado agora?

Voltou a se sentar e antes de se inclinar para mim, olhou para trás e observou, mais uma vez, que Antony estava bem concentrado no que fazia.

— Percebi que odeio fins de semana, sabia?

Trouxe a boca para perto de mim e foi impossível não me render a tão deliciosa carícia.

— Oi... Não sei se te chamo de perseguidor ou se digo o quanto estou feliz em encontrá-lo aqui.

Beijei sua boca, com carinho, com selinhos rápidos. Se Antony se virasse nos veria. E hoje ele estava atacado no ciúme.

— Me chame do que quiser, porque eu estou me segurando desde que coloquei os olhos em você, para não te chamar de linda na frente do nosso filho. Deus! Você está linda! Minha vontade é de te beijar com força bem aqui no meio da praça de alimentação.

— E fazer uma cena.

Cheguei para trás, me afastando de sua boca, mas não de suas mãos.

Edward

Segurei firme em sua mão buscando em meu íntimo um autocontrole que nem eu sabia que possuía. Precisava a todo custo me lembrar de que Antony e seus olhinhos curiosos estavam bem ali.

Mas, por Deus! A mulher não estava para brincadeira. O vestido longo se ajustava a ela na parte de cima. Deixando o contorno dos seios e da cintura bem delineados. Ainda tinha um maldito decote e isso, sem falar, que eram sem mangas, o que deixava ombros e braços, diga-se de passagem, bem trabalhados e definidos, graças há anos de trabalho na fazenda, a mostra.

Quem poderia julgar o garçom e mais tantos que simplesmente pararam para olhá-la desde que apontou na entrada procurando um lugar ideal para sentar.

E era a mais pura verdade, eu estava mesmo usando de todo o autocontrole adquiridos para não fazer cena, demarcando-a e mostrá-los que ela tinha dono.

O que não era bem verdade.

E nem a companhia de Antony afastava os abutres. Creio que os atraiam mais, porque, Jesus, Maria e José! Eles formavam uma dupla de tirar o fôlego. Que homem, e mulher, não desejariam tê-los convosco?

— Passou bem de ontem?

Perguntou baixo, acariciou meus dedos e bebericou seu suco.

Eu queria tanto beijá-la de verdade. Bella e suco de laranja são uma mistura dos deuses.

— Na verdade não. Odiei minha escala. Um plantão durante a semana, agora está fora de cogitação vou renegociar isso na administração do hospital. Já que não posso ter vocês em fins de semana, será nesses dias que irei para o hospital. Ter aberto mão da companhia de Antony e de seus beijos ontem foi a coisa mais difícil que fiz em muito tempo. Ainda bem que tenho uma tia querida que deu umas informações, assim sem querer hoje de manhã.

Peguei uma batatinha passei no ketchup, que ela adorava, e coloquei em sua boca.

Será que já fiz isso algum dia? Nossa! Eu era mesmo um péssimo namorado.

— Sem querer, sei.

Dei uma piscadinha para ela e a alimentei de novo.

— Mas, me conta, como foi ontem?

Antes de me responder, ela se levantou foi até Antony e lhe deu um pouquinho de refrigerante e algumas batatinhas.

— Emmett levou Tony e Jas me esperou. Quando cheguei à fazenda Antony estava dormindo em minha cama, quando o levei para seu quarto reclamou que lá não tem cheiro de mamãe nem de titio Edward.

— Acho que me sinto lisonjeado.

— Pode se sentir mesmo.

Respirei fundo absorvendo mais dela. Queria tanto me aproximar mais.

— Acha que Antony vai ficar chateado se perceber que estou te beijando? Estou com saudades.

Surpreendendo-me e como se fizesse isso a vida toda, ela voltou a se aproximar e me deu mais um beijinho, daquele levinho, só um encostar de lábios.

— Que carência, doutor. Viveu muito bem sem meus beijos por muito, muito tempo.

Antes que ela se afastasse, foi minha vez, de puxar sua boca para a minha outra vez. Eu queria congelar aquele momento.

— Não me chame assim, sou seu Edward, Bella. Só isso. E é exatamente por ter sido privado tanto tempo de vocês que quero ficar grudado agora.

Beijei seus dedos, aproveitando para aspirar o cheiro bom, diretamente de uma das fontes.

— Posso fazer uma pergunta?

— Qualquer uma.

Aquilo me deixou ao mesmo tempo animado e apreensivo, normalmente era eu que perguntava demais. Bella parecia que sempre tinha nossa reaproximação a deriva, não pretendia se aprofundar. Então era eu que sempre a especulava.

— Qual é o problema com a medicina? Se eu tinha uma certeza sobre você era que seria médico. Sempre amou e admirou demais essa profissão, sempre foi o que quis.

Ganhando alguns segundos antes do inevitável, conferi mais uma vez nosso filho que pulava como um louco. Os cabelos loiros já não esvoaçavam tanto quanto no início da atividade, certeza de que ele já estava suado.

Não demoraria muito para que voltasse para nós.

— Interessante sua observação porque eu demorei demais para entender o que se passou. A princípio achei que era só uma fase ou desânimo mesmo. Todavia, quanto mais tinha certeza de que havia perdido a mulher da minha vida e um filho que eu nem conhecia, mais as coisas foram ficando claras. Chegando ao ponto de ter antipatia de acordar de manhã e ir para a universidade. Marcus acha que canalizei a culpa de todas as burradas que fiz ao amor e fixação pelo poder e pela profissão que almejava. Porém, eu acho que foi minha soberba que aflorou o pior de mim.

Ela escutava tudo com atenção, me observando com aquele olhar intenso e cheio de expectativas. Eu não a decepcionaria, era chegada à hora de colocar mais coisas em pratos limpos.

— Não sei se você sabe dos detalhes, mas quando Esme e Carlisle nos adotaram Alice tinha 1 ano e eu quase quatro. Eu me sentia responsável por ela. E foi muito, muito difícil receber tudo que os Cullen’s nos ofereciam. Não tenho lembranças de minha mãe, ela desapareceu assim que Alie nasceu. Meu pai era um bêbado maldito que trabalhava em uma funilaria em Seattle. Ele não se importava conosco, ficava o dia todo fora e nos deixava com qualquer um. E quando, lá pelas tantas, chegava em casa completamente embriagado e fedendo, já estávamos sozinhos, com fome e frio. Lembro que ele ficava irado com o choro de Alie e me surrava para fazê-la se calar, o que eu não conseguia obviamente. Numa dessas fiquei inconsciente uma noite toda e só no outro dia, quando umas das prostitutas que ele pagava para nos olhar, chegou, foi que ela percebeu que eu estava desmaiado. Sem poder me levar para um hospital próximo, porque chamariam a polícia, me trouxeram para o fim de mundo chamado Forks. E quem era a médica que me atendeu?

— Sua mãe? Esme?

Os olhos dela estavam tristes, já se enchendo de lágrimas.

— Não, mocinha...

Beijei seu nariz e fiz com que bebesse mais de seu suco.

— A sua mãe me atendeu. E ela não vacilou, chamou a polícia quando viu meu estado. Compadeceu-se tanto que chamou sua melhor amiga. E foi aí que Esme Cullen me conheceu, depois Alice... e então, por um milagre de Deus se encantou conosco e entrou com o pedido de guarda. Foram meses até que fomos destituídos do bêbado maldito. Nessa época morávamos em um abrigo aqui em Port Ângeles. Mas quando o juiz deu o veredicto, Esme e Carlisle não perderam tempo. E foi questão de dias, meses até que viemos definitivamente para Forks.

— Nossa! Eu não sabia, ou não me lembrava dos detalhes.

Imaginei mesmo que ela não soubesse, era só um bebê quando fomos apresentados definitivamente a todos os Swan’s.

— Alice foi mais receptiva a tudo isso, tanto que já chamou Carlisle e Esme de pais automaticamente. Eu tive problemas de adaptação. E sempre achei que era responsável por ela. Não pensava no ato dos Cullen como amor, pensava mais em algo como caridade. Por isso, cresci com o intuito de estudar, me formar, conquistar e ser rico, muito rico. Eu queria provar para o mundo e para o bêbado que tinha valor. Por isso a medicina sempre foi minha prioridade.

Solvi um pouco da minha água.

— Porém, quando vocês se foram, algo se quebrou. Percebi que tinha agido igualzinho a... a... Meu pai. Eu só não te agredi fisicamente, mas emocionalmente... E ainda tinha um filho. Eu vi tanto dele em Alice... Só pensava que você encontraria outra pessoa, que te daria valor e então, Antony teria alguém bom para chamar de pai, exatamente como ela fez com Carlisle. Eu sei que a culpa não é da minha profissão, mas foi o desejo desenfreado por ela que me levou a tomar certas atitudes. Eu me fechei a outros sentimentos em busca de poder e posses. Ah, se eu pudesse voltar atrás... Seria o filho que Carlisle sonhou para mim.

— Ei, pare com isso. Sua profissão é linda. Seu pai, porque Carlisle é seu pai, se orgulha de você.

— Rá! Você que pensa...

Dei uma risada cínica e sem um pingo de graça.

— Carlisle queria algo como Emmett ou você, ele os admira e não esconde de ninguém. Filhos que seguissem o seu caminho, que amassem a terra e os animais e tudo que eles podem proporcionar. E eu, fiz exatamente o contrário. Sempre senti aversão a tudo ligado a fazenda. Hoje posso até pensar que foi mais difícil para mim aceitar uma figura paterna, porque eu conheci de verdade o meu pai. Não me conformava que poderia existir alguém bom com aquela nomenclatura, havia conhecido só a pior parte dele. Não dei a Carlisle a chance de ser o meu, de me provar o contrário. E hoje, olhando para meu presente...

Olhei para Antony, que agora descia do brinquedo, quase pronto para voltar para nós e, graças a Deus, mudar o rumo daquela conversa odiosa.

— Percebo que o que eu vivi, é que é exceção. Tipos como Carlisle é que são regra. É ele, seu pai, que quero ter como exemplo. E é aí que chegamos ao ponto da medicina, é lindo, mas perdeu o encanto. Como disse, se pudesse voltar atrás seria o filho que Carlisle sonhou. Teria absorvido mais, teria compartilhado mais de grandes momentos de simplicidade e felicidade com você. E talvez estivéssemos aqui e agora, como marido e mulher desfrutando de um fim de semana comum, em nosso dia de folga, como nosso filho, ou quem sabe? Nossos filhos. Seríamos perfeitos juntos. Teríamos nossa casa, do jeitinho que você desenhou. Nossas terras, nossos animais... Mas, fui idiota demais para vislumbrar um futuro desses. O que era para ser um sonho, a medicina, virou um castigo. Não amo o que faço, sonho com o que poderia ter feito.

Nessa hora eu já não mais a enxergava, minha mente viajava, praticamente visualizando o que tantas vezes desejei desde que ela se foi.

— Odeio pensar em como poderia ter acontecido, odeio que pense assim do que faz, Edward. Sua profissão é excepcional. Porque não vive o presente? Estamos aqui agora, recomeçando. Tem um filho...

— Que não admira o que faço. Pense em todas as vezes que ele disse o que vai ser? Em todas elas envolve algo que você faz.

— Porque ele cresceu numa fazenda, só conhece essa realidade por enquanto. Ele vai te admirar, exatamente como Carlisle te admira, você só está tão ocupado em odiar a si mesmo, que não percebe isso. Dê tempo ao tempo. E acho que está no caminho, porque não foi comigo que seu filho resolveu gastar seu primeiro salário.

O quê?

— Mamãe, o seu Lindão chegou.

— Percebi.

Infelizmente, ela voltou a soltar a mão da minha, afastou a cadeira e pegou Antony no colo.

Disfarçou os olhos lacrimejantes com um sorriso de tirar o fôlego.

— Nossa! Tá pregado. Vamos dar uma limpada nisso.

Observei orgulhoso a interação deles, enquanto mais uma vez ela limpava testa, mãos e rosto dele, com lenços umedecidos.

Ele era a minha cópia mesmo. Mas tão ela, quando se fala em personalidade.

— Titio, quando a gente “complar” um pula-pula “glandão”...

Abriu as mãozinhas e braços mostrando o tamanho.

— Eu te ensino a pular bem “altão”.

— Hum, então vai ser breve, porque tia Alice e eu compramos um, para minha casa lá na fazenda, que quero que você conheça, logo. Só aguarde alguns dias para que o brinquedo chegue e que montemos em um lugar bem legal.

— Uau! Você “complou” um “pala” mim?

— Sim, só para você.

Sorri para a carinha dele.

— Isso se chama admiração...

Bella cochichou quando os olhos dele ficaram maiores e sua boquinha se abriu em um O perfeito.

— Só para você.

— Ah, “obligado”, titio. Antony... Sonhou tanto com você. Eu te amo muito!

Surpreendendo-nos, ele se atirou de Bella para mim e foi instintivo o pegar e aconchegá-lo.

Ele me desarmava com palavras e atos. E parecia ter nascido para mim, pois seu corpinho se encaixava perfeitamente em meu peito.

— Então estamos empatados, Amigão, porque eu sonhei demais com você e te amo de maneiras que você nem imagina.

Deixei que a emoção me dominasse, é, eu chorava mesmo. E nem posso ser julgado, era a primeira vez que sentia a satisfação de ouvir que era amado por meu filho. Só seria mais perfeito se ele já soubesse que sou seu pai.

— Quero conversar sobre minha nomenclatura. Sei que prometi te dar tempo, mas, não demore muito, tá? Estou tão ansioso.

Implorei para ela, que também absorvia nossa cena com um contentamento visível.

— Prometo que será em breve.

Fiquei com ele mais alguns segundos ali, contudo “a força da natureza” era impaciente.

— Mamãe, acho que a Coca fez “defeito”, eu “pleciso ulgentemente” fazer xixi.

Colocou as duas mãozinhas na frente do zíper e fez cara de aflito.

Não contive uma gargalhada.

— Então vamos. Rápido, rápido...

Ela ameaçou pegá-lo, a impedi... Eu era o pai ali, precisava começar a ajudá-la e agir como tal.

— Deixa que eu faço isso. Vamos lá, Companheiro. Vamos fazer um “tour” pelo banheiro masculino.

— Tá, tudo bem, ele sabe o que fazer, só ajude com o botão da calça, por favor.

— É, titio. Tony sabe fazer.

— Certo!

Resistindo ao impulso de me abaixar e beijá-la como forma de uma curta despedida, segurei Antony com as duas mãos, para não correr o risco, e o levei até o banheiro.

Lá, o coloquei de pé em cima da bancada e abri sua calça jeans.

— Tem um pequenininho. É mais baixo.

Apontei para o sanitário infantil perto da parede do fundo.

— Igual do meu “banheilo”.

Deus do céu! Eu não tinha pensado nisso, ele tem um banheiro só para ele, na casa dos avôs, e adaptado a sua idade.

Lógico que já havia, com ajuda de Alice, começado a ajeitar um quarto pra ele em minha casa, que inclusive era suíte, mas nem passou por minha cabeça que ele precisava ser adaptado.

— Certo, vou até ali, se precisar de ajuda é só chamar.

Dei-lhe privacidade e aproveitei para usar o sanitário do outro lado, não queria que ficasse envergonhado.

Contudo, aprendi mais uma hoje: vergonha não faz parte do vocabulário de Antony.

— Um dia vou “clecer” sabia, titio?

“Seria trágico, se não fosse cômico”, nos dois no banheiro, ele já terminado de fazer xixi, veio até mim e segurava a calça jeans com as duas mãozinhas, esperando que eu a abotoasse para ele.

Enquanto isso, eu terminava e era encarado por um curioso Filhote que claramente comparava nossos tamanhos.

Foi impossível segurar a gargalhada.

— Lógico que vai. Crescer, ficar grandão e alto.

Não fiz referência a mais nada, já o conhecia o bastante para saber que se fosse mais específico, uma hora ou outra ele contaria dessa nossa conversa para a mãe. E aí sim, seria constrangedor.

— Agora venha aqui, vamos fechar isso, lavar as mãos e voltar para sua mãe. Porque ela está bonita demais para ficar sem nenhum de nos dois por perto.

Ele concordou e logo nos apressamos, no entanto, eu não estava preparado para sentir meu sangue gelar naquele dia.

Bella

Tomei um gole grande da água de Edward, amenizando a sequidão da garganta depois de tantas informações e confissões novas.

Por Deus! Eu nem sabia mais o que pensar. A vontade de abraçá-lo e consolá-lo quase foram maiores que o cuidado para que Antony não descobrisse sobre nós daquela maneira.

Tinha que ajudar Edward de alguma maneira. Não dava para viver daquela maneira. Ele precisava perceber que era valorizado como pessoa e profissional. Tinha que ajudá-lo a redescobrir o amor pela medicina, pela vida. E no relacionamento com Carlisle também.

O caleidoscópio de sentimentos era palpável. Eu precisava mesmo dar um jeito. Eram tantas coisas para revelar para meu pequeno também: a paternidade, um novo/velho relacionamento...

Mas estava tão tranquilo na zona de conforto. A paz era tão bem- vinda, acho que não estava pronta para começar mais uma briga em casa. Emmett e Charlie nunca que aceitariam uma volta assim tão fácil. Não posso me enganar a esse respeito. Sei que agora tenho Jas e mamãe a meu lado, mas mesmo assim a parte difícil ainda me deixava apreensiva.

Falando em mãe... Retirei o celular da bolsa e mandei uma mensagem de texto.

Estamos bem conversadeiras essa manhã então?

Passando só para informá-la que seus objetivos foram alcançados. Isso me alegra, porque quando a ira de Charlie cair sobre mim, terei uma cúmplice.

Te amo!

Segundos depois a resposta dela chegou.

Não sei do que está falando. Estou aqui trabalhando quietinha no hospital. Porque tenho dois filhos desnaturados que escondem as coisas de mamãe. Não tenho culpa se rapazinhos de olhos verdes são nosso fraco. Azar o seu que tem dois agora.

Se comporte! Não te amo até me contar as novidades.

Edward e Antony, eu tinha mesmo minha cota de loiros de olhos verdes, ela estava coberta de razão.

Não resisti à resposta.

Dramática... Te amo até quando se faz de desentendida. Não contamos ainda porque seu radar afiado de mãe já descobriu tudo. E estou começando a achar que não é azar é sorte.

Linda!

Ela voltou a responder rapidamente.

Jasper tem algo maior que ainda não descobri, mas está perto. E também acho que é uma sortuda. Vou para uma consulta agora. Se cuidem! E não chegue tarde!

Quase te amo agora!

Fiquem com Deus!

Sorri instantaneamente para a mensagem final, Jasper estava mesmo escondendo as coisas e creio que a revelação venha amanhã no almoço de vovó. Precisamos nos preparar.

— Ora, ora, ora... Que boa surpresa. A Caipirinha sozinha tão longe de casa e das asas do papai e dos irmãos.

Assustei-me com a figura imponente a minha frente. Porém, com experiência adquirida, disfarcei, guardei o celular na bolsa e a encarei. Eu era mais baixa, bem mais baixa do que ela, todavia aprendera a fazer isso de igual para igual.

— Não posso dizer a mesma coisa, Tânia. E não, está enganada, Forks está só a 30 km daqui, não é tão longe. E também não estou sozinha.

Joguei os ombros para trás e ajustei a postura feliz em perceber que ela observava as coisas na mesa, descobrindo que mais duas pessoas estavam comigo.

Droga! Uma criança!

— Estou percebendo. Até Caipiras tem direito a diversão. Só achei que Port Ângeles fosse mais bem frequentado.

— Eu também. Mas sabe, não é? Nossa família acabou de comprar um hospital aqui. Alguém precisa visitar os negócios de vez em quando.

Provoquei, vendo com prazer o rosto dela se transformar de petulância para ódio.

— Compraram? Vocês chamam aquilo de compra? Eu chamo de roubo.

— Chame do que quiser. Não me importa. Aposto que o gerente do banco e os investidores não pensam da mesma maneira.

— Ora sua...

Deu dois passos em minha direção e eu estava pronta para contra-atacar quando meu maior ponto fraco me refreou.

— Mamãããe!

Antony veio correndo e se jogou em minhas pernas, segurando-me como se pudesse me proteger do mundo.

— Ah, mas, que grata surpresa!

Abaixei-me, o peguei nos braços e o escondi em meu pescoço o abraçando o mais forte que podia.

Só então me dei conta de que ela não o conhecia e que provavelmente nem sabia que ele existia.

— Você tem um filho. Um lindo filho!

A maneira como o olhou fez com que arrepios se expandissem desde a minha nuca até meus calcanhares.

— O que quer aqui? Saia de perto de nós ou chamo a segurança.

Edward escolhera aquele momento para se aproximar e colocar a mão nas minhas costas.

— Ah! Que lindo! Muita informação para uma manhã só. Então estão juntos de novo? Por que será que não estou surpresa? Você continua com o mau gosto de sempre Ed.

— Saia. De. Perto!

Edward pontuou mais bravo do que eu já tinha visto algum dia. E acenou para o segurança, do shopping, que nos observava a distância perto de uma famosa lanchonete.

— Tá, Ed. Já estou indo. Não precisa se irritar. Já descobri mais do que precisava. Tenham uma linda tarde. Bye, bye, Caipirinha. Aliás, linda sua família, Caipirinha. Vocês fizeram mesmo um bom trabalho.

Voltou a apontar para Antony, e Edward deu dois passos mais para perto dela, com raiva exalando de cada poro.

— Não ouse, Tânia, não ouse. Se ao menos olhar para ele, eu a encontro no inferno.

— Veremos...

Quando o homem, todo de preto e corpulento, se posicionou ao lado dela, não teve jeito, ela teve que nos deixar.

— Queira se afastar, senhorita. Está incomodando uma família e é uma atitude inaceitável nesse estabelecimento.

— É, eu já estava mesmo de saída.

E para fechar com a ameaça velada, ela fez sinal de arma, com os dedos, e apontou para a cabeça de Antony.

— Se cuidem!

— Por Deus!

Senti as pernas vacilarem e meu corpo tremer, se Edward não tivesse me segurado e ajudado a sentar teria caído.

— Aqui. Beba.

Estendeu-me o copo com água.

— Se acalme. Ela está consumida pela raiva do que nossas mães fizeram. Não se preocupe. Tânia é “cão que late e não morde”.

Beijou minha cabeça e esfregou meus braços e ombros, relaxando-me.

— Tomara. Ela me assustou. Não por mim. Aprendi a me defender dela, mas Antony...

— Eu sei, eu sei. Sinto as mesmas coisas. Mas, nada vai acontecer. Ela só tem uma maneira nova de nos amedrontar. Se acalme, se acalme...

Sabendo que estávamos falando dele, Antony se soltou de mim.

— A moça ruim já foi embora? Eu não gostei dela, titio. Fez a mamãe “tlemer”. Isso “tlaz” os sonhos ruins à noite.

— Ela já foi, Campeão. Não se preocupe. Não vai voltar.

Com carinho beijou a testa do filho, que fechou os olhos e se encostou ao meu peito. Levando-me inteiramente de volta para o lugar certo de meu mundo: ele.

— Mamãe, nos podemos almoçar “agola”? A carninha tá com um cheirinho bom. E ainda tem aquele “solvete” mais tarde.

— Podemos. Claro que podemos.

O entreguei a Edward já que ia servi-lo, mas não estava pronta para deixá-lo sozinho, longe de minhas mãos, em sua cadeira.

— Isso, vamos almoçar, tomar um sorvete. E quem sabe dar uma olhada no que está passando lá no cinema?

— Boa ideia, tio “Edwald” há muito tempo não vamos ao cinema, não é, mamãe?

Acenei em concordância já deixando-me dominar pela conversa nova e pelo momento novo de nós três.

Tânia esquecida!

Emmett e Charlie esquecidos!

Meu mundo começava e acabava em Antony e Edward.

Talvez esse tenha sido meu maior erro, não prestar mais atenção no perigo e na tempestade que estavam por vir.

Notas finais
Bom, me perdoem os eventuais erros de português e concordância, foi corrigido as pressas porque queria postar hoje de qualquer jeito. Como vocês perceberam pelo nome do capítulo, é parte I, teria o almoço cheio de mais revelações nesse capítulo, porém, ficaria grande demais. Então o próximo, provavelmente, virá mais rápido e será mais curto, porque é o restante desse. Agora comentem e me deixem saber o que acharam das revelações desse... Beijinhos e nos vemos nos comentários. Para quem ainda não sabe, estou no insta: kodelcarla39 Segue lá para as novidades e spoilers. Beijos.