Quando o passado não te deixa viver
30 O que é o Amor?
Notas iniciais
Bella
Droga! Maldito vinho e sua dor de cabeça matinal.
— Ahfs! Nem me lembro de beber.
Esfreguei a testa, esbarrando, no processo num corpinho grudado ao meu. Ameacei abrir um olho evitando a claridade, que ainda não existia, para encontrar Charlie sentado em minha poltrona. Ele tinha as pernas esticadas por cima da minha cama, e só pude identificar tudo isso porque a luz do meu banheiro estava acesa, deixando tudo à meia luz.
— Por Deus!
Resmunguei quando olhei para o outro lado e encontrei dona Renée também dormindo a meus pés, meio torta e com o braço servindo de travesseiro.
Certeza de que aquela posição causaria um torcicolo.
— Putz! Eu tive outra crise!
Cocei os olhos deixando que as lembranças da noite anterior tomassem minha mente.
Aquilo não era ressaca! Era efeito do tranquilizante. E a “comitiva” a minha volta era prova de que eu dera um vexame.
— Perdão, filho! Perdoe a mamãe?
Sussurrei, para não acordar “o grudinho” que segurava meu pescoço como se eu pudesse desaparecer.
— Ele vai perdoá-la se ficar calada e dormir.
Assustando-me com a voz grave de Charlie, virei totalmente para seu lado.
— Não sabia que estava acordado.
— Seu relógio biológico funciona como o meu. Está na hora de começar a lida.
— Eu sei. É por isso que...
— O que pensa que está fazendo?
Parou-me, falando um pouco mais alto e empurrando meus ombros de volta, antes que conseguisse me levantar.
— Ora, pai! Sei que dei um show ontem. Mas, já estou recuperada. Vou ajudá-lo com os animais, depois quero dar uma passada nos silos para vistoriar a estocagem dos grãos.
— Só em seus sonhos. Sua mãe disse que aquele tubinho era poderoso e que acordaria só lá pelas 10. Então deite-se aí e deixe que o remédio faça seu efeito.
— Papai, Renée é exagerada. Estou bem e preciso começar cedinho porque Edward quer levar Antony para Port Ângeles, preciso ajeitá-lo e levar a Forks daqui a pouco e...
— Deite-se aí.
Voltou a me empurrar agora com um pouco mais de força e a voz parecendo um tanto mais estressada que o normal.
— Mas, pai...
— Nada de, mas. Fique quieta!
Resmungou e resolvi que era melhor ficar quieta, por alguns segundos, deixando que ele absorvesse melhor a ideia.
— Posso saber aonde ele vai levar meu neto e por quê?
Eu sabia. Charlie nunca deixaria de ser Charlie. Mesmo, tecnicamente, cedendo, era óbvio que não aceitaria tão bem a ideia de Edward e Antony tão próximos.
Porém, eu não cairia na dele. Sabia o que devia fazer e não seria um ciuminho de meu pai que mudaria minha opinião.
Devo uma vida a ele e meus irmãos, todavia, é minha dívida. Antony não tem nada com isso. Não merece pagar por meus erros do passado.
— Essa pergunta eu não posso responder, não sei, não perguntei, não me interessa, pai. Ele tem direito e o senhor sabe disso. Contanto que traga meu filho em segurança a tempo de ir para a escola, pode levá-lo a Disney.
— Desaforada hein, mocinha? Lavo sua boca com sabão se preciso. Vou ignorar a falta de educação porque acredito que está “meio grogue” por causa da medicação, mas se continuar agindo assim...
— Estou bem atenta, pai. Tanto que vou levantar e levar Tony a Forks.
Era a minha vez de ficar irritada. Ele me tratava como se tivesse 5 anos.
Quase mordi na língua tamanha vontade de respondê-lo mais, porém eu tinha uma missão.
— Ei, parada aí!
Saiu de seu lugar para vir até mim, que já levantava no intuito de fazer o que era preciso.
— Pode deixar! Volte a dormir. Eu mesmo levo o Pequeno.
— Pai, por favor...
— Não! Não vamos ter essa conversa agora. Quero ouvir o que tem a dizer, mas não agora, nem hoje. Descanse! Vou levar Antony agora cedo, porque pego seu... Seu... Ah, o filho de Esme ainda na casa dele. Facilita minha vida, não ir a Forks agora. Enquanto isso, você fecha os olhos e deixa o remédio fazer efeito. Prometo não “sojigar” seu, seu... Ah, sei lá o que ele é seu! Só prometo não fazer nada, por enquanto.
— Ele nos salvou ontem, papai.
Baixei o tom de voz e voltei a recostar no travesseiro, era à hora de pegar o ponto fraco de Charlie: eu e meus traumas. Eu odiava fazer isso, jogar essa situação a meu favor. Porém, ele precisava entender o que Edward significava na vida de Antony e na minha.
— Eu não tinha sinal de celular, não conseguia prosseguir nem retroceder, eu travei. Se Edward não tivesse nos encontrado, sabe- se lá o que teria acontecido ou quem o teria feito. Tivemos muita sorte, pai.
Caindo na minha, ele se sentou a beira de minha cama, cobriu a mim e Antony outra vez e acariciou meus cabelos, os tirando de minha testa.
— Eu sei. Vou me desculpar, pela maneira como o tratei ontem. Não digo que tenho uma dívida com ele, porque a dele conosco é imensurável. E a atitude de ontem, nunca que deu para saldar, mas...
— Pai...
— Tá, tá bom. Papai seu será “um anjo”. Agora feche os olhos.
Beijou minha bochecha.
— Vocês têm noção de que ainda está escuro? Ou seja, muito, mas muito cedo mesmo! E bem que eu também queria fechar os olhos e dormir, mas vocês estão se comportando como duas viúvas fofoqueiras. Calem-se! Tenho a manhã de folga!
Mamãe nos repreendeu fazendo com que papai e eu gargalhássemos.
— Venha, querida. Vou levá-la para nossa cama.
— E correr o risco de Bella se levantar assim que você virar as costas? Não, querido! Pode ir. Estou muito bem aqui. Aliás, Charlie, essa cama é king size? Nunca vi nada tão pequeno. Quando reformarmos os quartos dos meninos precisamos de camas maiores e... Ah, pensando bem, nada disso. Se Deus quiser logo seremos só você e eu, né? Não vejo a hora deles se casarem e se mudarem. Aí teremos a casa só para nós. Porque mesmo que Emmett esteja apenas a alguns metros, ainda será a casa dele. Bella, será mais longe, porque aquela bonita casa fica a 2 km daqui e tenho fé de que Jasper seja pelo menos uma distância considerável.
— Mãe!
— Está sonhando, querida?
Dona Renée era hilária, isso era fato.
— O quê? Vocês já estão bem grandinhos precisam tomar as rédeas de suas vidas e nos dar folga. Seu pai e eu precisamos de uma segunda, terceira, quarta... Lua de mel. Até posso pensar em cuidar dos netos em alguns fins de semana para que tenham paz, mas é só isso. Depois cada um pega sua cria e se vira.
— Não se preocupe, querida. Ela está dormindo e sonhando. Essa conversa não passa de um delírio.
— Delirando está você, que acha que sua filhinha vai ficar debaixo de suas asas a vida inteira. Se não sabe, ela já faz filhinhos há muito... Agora saia! Preciso descansar e Bella também.
— Ei...
— Calada!
— Calada!
Em uníssono, me repreenderam. Nisso eles concordavam?
—Vou passar a dormir no apartamento de Forks. Vocês dois me tiram do sério.
— Só em seus sonhos, filhota! Agora descanse. Vou avisar a Harry para vistoriar os funcionários na ordenha, porque você e eu estaremos ausentes. Quanto a você... Conversamos sobre esses seus planos quando estiver sã.
— Promessas, promessas... Sabe que ganho nossas discussões. Se fosse você nem tentava me fazer mudar de opinião, porque sabe que tenho razão.
— Tudo bem. Durma, querida!
Sorrindo, o que era um feito que poucos conseguiam, também beijou Renée e já se afastava quando me lembrei de algo.
— Pai, Jasper...
— Não vou ter essa conversa com você, Bella. Jasper está dormindo um sono dos justos que não merece.
— Ele tem uma família agora. Fará o que for preciso por eles.
— Certo, e para isso precisa esquecer-se da antiga? Não o julgo por seus compromissos. Faço pela falta de responsabilidade. Só precisávamos de um telefonema e nem isso ele se dignou a fazer. As coisas não funcionam assim. Ou está dentro ou não está. Não existe meio termo.
— Pai...
— Durma! Já venho buscar esse rapazinho de sono pesado.
Foi categórico não dando brechas para meus argumentos. Contudo, não era uma batalha perdida. Eu o convenceria de que meu irmão não merecia sua ira. Era tudo uma questão de tempo e adaptação.
Edward
Quando estacionei de frente a Paraíso naquela manhã, eu só tinha uma ideia em mente: precisava que Alice ou Esme ligassem na Sonho Azul e descobrissem como Antony e Bella estavam.
Porque se não estivessem bem, era certo que eu já tinha um destino. E não importava quem eu tivesse que enfrentar, eu entraria naquela casa e veria meus amores.
Contudo, resolvi que seria prudente. Já havia “cutucado” muito Emmett e tio Charlie na noite passada. Não era assim que eu queria voltar para vida de Bella. Não precisava dela brigada com o pai ou os irmãos. Eu nunca a faria escolher, até mesmo porque, conhecendo os Swan’s como conheço, não duvido nada, nada que os escolheria. Mas, enfim, queria o pacote inteiro, então era melhor ser razoável.
— Bom dia.
Cumprimentei meu pai e mãe, assim que passei pelas portas da frente, os encontrando ainda tomando café.
— Olha que milagre, Esme. Seu filho nos visita, agora.
— O “santo” intercessor de minha mãe é poderoso, pai.
Não levei em conta a provocação. Eu era um pai agora, entendia melhor o meu. Faria o possível e impossível para restabelecer... Ou melhor, para criar laços poderosos entre nós.
— Nem mesmo sei qual deles atendeu minhas preces, rezei para tantos...
— Acho que o seu, atende pelo nome de Antony.
— Também acho!
A beijei no cabelo, apertei o ombro de meu pai, concordando com sua ideia de que meu filho era o nosso “milagreiro” da vez, e só então me sentei, ao lado de minha mãe, porque sim... Criar laços leva tempo.
— Bella o assustou ontem?
Enchi uma xícara com café e aceitei o pedaço de bolo, de côco que eu amava, para só então levantar as sobrancelhas de indagação em sua direção.
— Alice nos contou assim que chegou. Parece que Jasper não estava tendo um bom tempo com o pai.
— Espero mesmo que tio Charlie o repreenda e...
— O mundo não gira em torno de vocês, sabia?
Interrompeu-me uma emburrada e bastante pálida Alice.
— Em torno de Bella e Antony giram sim. Se iam atrasar deviam ter avisado. Os traumas dela não são brincadeira, Alice. Não posso nem pensar na hipótese de que se não fosse eu logo atrás...
— Não foi intencional. Demoramos a ser atendidos e, pelo que fiquei sabendo, as aulas de Bella terminaram mais cedo. Jasper achou que daria tempo, mas, para acabar com a sanidade dele, pegamos um engarrafamento na saída de Port Ângeles. Ele bem que tentou ligar para “meio mundo”, mas não tinha sinal.
— Não estou julgando, Alice. Sabia que algo tinha acontecido. O problema é que isso não pode se repetir. Bella se faz de forte, mas nesse quesito... Hum! Você precisava ver o estado em que ficou.
— Faço ideia. Desculpe-nos! Jasper ligou de madrugada e certeza que chorava porque a voz estava muito embargada. E olha, acho que nem seja porque tio Charlie “quase o esfolou vivo”. Ele estava era muito chateado por causa de Bella mesmo.
Dei de ombros, e beberiquei meu café. Se falasse que ele merecia penar um pouquinho pelo que causou, Alice me mataria.
— Falando em responsabilidades, porque não avisou para alguém o que faria? Faz ideia do susto que levei ao encontrar seu carro abandonado no meio da estrada?
— Eu também me assustei.
Intrometeu-se uma Rósalie que se juntava a nós naquele instante. Ainda bem que Alice sentou-se do meu lado.
— Eu tinha prioridades, Alice.
Ignorei a outra. Ela não me iludia mais com aquele jeito de boa moça, eu a conhecia agora.
— Bom dia, Rosie. Já que seus irmãos não usam a boa educação que lhes dei.
Esme tentou nos repreender, porém, eu não ligava. Há anos enxerguei Rósalie como a víbora que é de verdade.
— Bom dia. Rosie. E, Edward, falando em prioridades, já que não somos uma em sua vida: o que faz aqui a essa hora da manhã?
Alice cumprimentou e mudou de assunto, antes que aquilo virasse uma confusão.
— Quero que, por favor, você ou mamãe liguem na Sonho Azul e perguntem como Bella e Tony estão.
— E por que você mesmo não faz isso? Ligue diretamente para ela se quer evitar Emmett ou Charlie.
— Não posso, pai. Se o remédio funcionou bem, Bella deve estar dormindo. Não quero incomodá-la. Porém não vou conseguir fazer nada se não obtiver notícias.
A compreensão tomou a expressão dele e eu juro que vi um pingo de orgulho brotar lá. Algo que, eu acho, há muito não o vejo sentir por mim.
— Ele tem um ponto. Esme...
— Ok. Rósalie, me passe o telefone. Preciso mesmo encontrar um meio de conversar com Charlie.
Atendendo rapidamente, Rósalie se levantou e pegou o telefone, de mesa, que estava na Arca perto das janelas altas.
— Humm, mãe! Acho que não precisará de uma desculpa. Porque, pelo que parece, tio Charlie está vindo bem ali.
Apontou para a estrada e eu num ímpeto me coloquei de pé. Se ele vinha pessoalmente, era porque algo não estava certo.
— Se algum de vocês, ontem à noite, tiver aprontado mais do que estão nos contando eu juro que coloco os três de castigo ajoelhados no milho.
Carlisle esbravejou já levantando e seguindo para a porta.
Alice e eu trocamos um olhar, vasculhando em nossas mentes algo que pudéssemos ter feito a mais de mal, antes de ir atrás dele. E eu entendia sua frustração porque a amizade deles nem tinha se restabelecido outra vez para já sofrer um baque.
E, por Deus! Que não fosse eu o alvo da ira do pai de Bella, porque eu queria demais erguer uma bandeira branca para ele. Porque uma mulher precisa de pai e... Namorado? Na mesma sintonia.
Charlie
— Está tão caldinho! Não parece com você. Tem certeza de que não está sentindo nada? Nenhuma dorzinha?
Fiz o retorno a caminho da Paraíso. O filho de Esme não estava na casa dele, mas, um jardineiro jurou que o viu rumar para a Paraíso.
— Tony tá bem, vovô. Só com uma “tlisteza” aqui por deixar a mamãe linda sozinha.
Passou a mãozinha, fechada, sobre o coração. E se eu não tivesse só observando-o pelo retrovisor em sua cadeirinha teria muito apertado-o em um abraço de consolo. Esse menino não precisava mais ver as crises da mãe. Esse foi um dos motivos de termos o tirado do quarto dela quando reformamos a cede, antes de voltar.
— Sua mãe está dormindo e não está sozinha, Filhote. A vovó está com ela e tia Leah e tio Jasper também estão pela casa. A mamãe ficará bem. Ela te garantiu isso quando se despediu, não foi.
Ele sacudiu a cabecinha em concordância e segurou, com mais força, um bilhete que ela lhe entregara para dar a Edward. Tentei a todo custo tomar-lhe para lê-lo, a curiosidade me matava a respeito de seu conteúdo.
Todavia, o Pequeno, o guardava como um tesouro, dizendo que a mamãe do Lindão mandou entregar somente ao tio Edward.
— Eu sei que ela está “numindo”, mas não gosta de fazer isso sem o Tony.
— Bella não gosta de fazer nada sem você, mas pense em seu tio Edward, ele foi muito generoso ontem. Além do mais, já havia pedido a sua mãe que você o acompanhasse a Port Ângeles hoje. E sua mãe deu a palavra dela. Não se volta atrás quando fazemos isso.
— É igual “jular” de dedinho? Com “cuspidinha” não, “polque” mamãe diz que é “polqueila” do titio Memmett.
— É isso, querido. Dar a palavra é igual jurar de dedinho. E sim, cuspir e apertar as mãos das pessoas é mesmo uma porqueira que só podia ser invenção de Emmett.
— Hum, então é “impoltante” mesmo. Mas Tony acha que titio “Edwald” nem se “impoltalia” se não fosse nesse passeio. Ele ficou “pleocupado” com a mamãezinha ontem. Igual o Tony.
— Lógico que ele não se importaria.
Concordei. Ele ainda estava sonolento e tinha um biquinho, de frustração, adorável no rostinho bonito.
— Sabe que estaria cuidando de sua mãe. Mas, você tem ciência de que não é educado desmarcar em cima da hora, certo? Sua mãe te explicou isso.
— É, Tony sabe.
Apertou mais o envelope junto ao peito e voltou a encarar a paisagem pela janela. Era óbvio que não estava convencido, muito menos certo de que fizera bem em deixar a mãe sem sua supervisão.
— Vovô, “polque” as pessoas chamam as “outlas” por nomes que não são delas?
Voltou a conversar depois de um tempinho em silêncio, em que achei que havia voltado a cair no sono.
— Hum, não sei, filho. Como assim “nomes que não são delas?
— Tony não sabe “dileito”. Só quer entender “pol que” as pessoas chamam as “outlas” de “quelida, filhota, plíncipe”.
Ai Deus! Algo me dizia que aquela curiosidade não era atoa.
Cocei a cabeça e o bigode e pensei bem antes de responder, para depois não me envolver numa enrascada.
— Isso é um apelido, Tony. Na maioria das vezes usamos quando gostamos muito de alguém ou, no seu caso, para nomes grandes, Antony vira Tony.
— Quando gostamos muito chamamos de “quelida”?
— Depende, filho. Não é todo mundo. Podemos escolher o apelido que mais achamos que parece com a pessoa, ou do quanto gostamos de quem apelidamos e ainda pode ser porque queremos nos expressar... Ou melhor...
Ele não saberia o que é expressar. Eu precisava mudar meu linguajar.
— Pode ser porque queremos dizer alguma coisa com aquele apelido. Eu por exemplo, chamo muito a sua mãe de “filhota”, uma forma carinhosa de dizer filha. Ela, já te chama muito de “filhote”, porque você é pequenininho e lindo como um filhotinho dos animais bonitos que ela cuida.
— Hum. Tony entendeu.
Pelo retrovisor interno, o observei mais atentamente. Ele ainda encarava a paisagem pela janela. Parecia totalmente alheio a minha explicação, porém juraria que quase dava para ver as engrenagens funcionando naquela cabecinha.
— A mamãe chama o Tony de “filhote e de meu amor”. O que significa “meu amor”, vovô? É algum filhinho de animalzinho “tabém”?
Eu quis rir, juro que quis. Todavia seus olhinhos estavam tão ansiosos cravados nos meus que certeza que se irritaria se eu debochasse.
Estávamos a poucos metros da sede da Paraíso e eu não entendia nada daquela conversa.
— Não, Pequeno Curioso. “Meu Amor” não é nome de nenhum animalzinho. “Meu Amor” é o melhor nome que alguém pode chamar outra pessoa. Quer dizer que a outra é dona do coração de quem a apelidou. E que por ela, se faria qualquer coisa no mundo. Amor é o maior sentimento que existe. Não tem medidas. É como a sua mamãe, o vovô, a vovó, os titios gostam de você. É como o tio Jasper, o tio Memmett e o vovô, gostam da tia Alice, tia Leah e a vovó.
— Então Amor é quando você gosta muito, muitão de uma pessoa? Bem “glande” e bem bonito, vovô?
— É, é isso. E é lindo, Pequeno. Mas, por que tantas perguntas? Sua mãe te chamou de Amor enquanto dormia?
Especulei mais.
— Não, vovô.
Voltou a ficar quietinho. Porém quando eu estacionava de frente a casa dos Cullen’s veio a “pérola” que fez meu sangue gelar, quase morrer engasgado pela própria saliva e a ponto de sofrer um ataque do coração.
— O Tony só quer saber se como o titio “Edwald” chama a mamãe dele de Amor, se ele gosta muitão, muitão dela mesmo?
Depois de uns trinta segundos buscando o ar e fazendo um esforço hercúleo para recuperar e postura, pude me virar no banco encarar o Pequeno Observador nos olhos e dar-lhe a resposta mais sincera que eu já dei na vida.
— O vovô também espera que ele goste muito mesmo da mamãe Bella, porque com essas coisas de Amor a gente não brinca, aprenda essa lição, Tony. Mas, por que não pergunta diretamente a seu tio? E preste bastante atenção na resposta, porque quero sabê-la depois.
Ele nada disse, só colocou a mãozinha na trava do cinto da cadeirinha, pronto para descer. Era minha deixa...
Mas engana-se quem acha que Antony Swan deixa um assunto pela metade e essa era uma de suas qualidades que eu mais amava, a perspicácia.
Quando o desci e segurei sua mãozinha para que subisse os três graus que davam acesso à varanda dos Cullen’s o tiro de misericórdia vem sem dó.
— Sabe que Tony não é “fofoqueilo”, né vovô? O que Tony “descoble” fica com o Tony.
É, eu literalmente não saberia que resposta que o filho de Esme daria aquela pergunta. Só rezava que fosse muito satisfatória, porque pelo que parece, era um caminho sem volta, Bella e Edward já estavam envolvidos.
Eu só queria que ela me contasse.
— Charlie, é um prazer... Entre, aqui não precisa bater, lembra, irmão?
Uma animada Esme abriu a porta antes mesmo tomasse a iniciativa de acioná-la.
E, certo! Eu não sabia quem ansiava mais por nossa visita: minha irmã que segurava a porta aberta e nos sorria com os olhos lacrimejando. Carlisle, que sorria com todos os dentes para nós. Ou Edward, que já se ajoelha em uma só perna, pronto para receber o filho.
Pronto! Não tinha mais jeito mesmo. Eu teria que reaprender a ser sempre mais sociável com essa parte de nossa família, ou perderia Bella e Antony e isso, não era aceitável.
Edward
— Venha, junte-se a nós, estávamos tomando café. Oi, Antony. Vamos entrar? A vovó tem um bolo de chocolate escondido lá na cozinha. E com uma calda bem gostosa, só para você. O que acha?
Esme fazia voz doce e sorria, como uma fada, para o irmão e meu filho. Era evidente que se esforçava para agradá-los.
— Não se incomode conosco, Esme. Já tomamos café. Além do mais, tenho muitas coisas para fazer ainda. Só vim cumprir uma promessa, antes que a Teimosia em pessoa levantasse da cama. Diga bom dia, querido.
— Ei, o que foi?
Preocupei-me por ele, pela primeira vez desde que o conheci, parecer tímido e se agarrar a perna do avô com uma mão, a outra segurava firmemente algo junto ao peito.
— Antony? Não precisa disso... Cumprimente seus avôs e seus tios.
— Tony, já vai vovô. Só ficou “constan... contangilido” com a moça bonita. Quem é ela? Tony acha que já a conhece, mas não se “lembla”.
Apontou para Rósalie parada mais ao fundo da sala. Os olhos dela estavam vidrados em meu filho e, sério, pareciam brilhar com pequenas lágrimas acumuladas ao canto.
— Ninguém importante. Venha aqui e...
— Edward!
— Edward! É mesmo isso que quer que ele aprenda?
Droga! Foi instintivo. Preciso me controlar.
Minha antipatia a Rósalie nunca poderiam nublar o que sinto por meu filho, nem deixar que isso afetasse a educação que quero ajudar Bella a dar-lhe.
— Vovô?
Recorreu a Charlie que obviamente me olhou com cara de poucos amigos. Droga, de novo! Eu precisava consertar aquilo antes que ele levasse o garoto de volta.
— Desculpa o titio, Antony. Expressei-me mal, muito mal. Essa é Rósalie, filha de Carlisle e Esme também.
Há muito não a chamava de irmã e sabia que isso incomodava meus pais, mas, não estava em mim. A mágoa é tanta ainda. Sei que é hipocrisia, sei que imploro por perdão, mas ainda não sou capaz de perdoar. Sei que tenho mais culpa em tudo do que Rósalie... Mas... Poxa! Eu era um idiota influenciável com síndrome de abandono e louco para subir na vida. Eu era a criança carente louca para agradar a irmã mais velha, bonita e rica e ela?
Bom, ela não me protegeu. Não viu as burradas que me ajudava a consumar. Não me sacudiu quando eu perdia o amor da minha vida, pelo contrário, ajudou... Ela não agiu como Emmett e Jasper. Ela não me escolheu...
E tudo isso por quê? Por não aceitar que “seu namorado” escolhera a família. Ela escolheu seu ego, a vingança e não a mim... E olha no que deu? Todos os Cullen´s foram afetados. E sim, quando digo os Cullen’s, porque tenho certeza de que se não fosse por vovó Marie, Swan’s nunca retornariam e teriam sido felizes de outra maneira. Enquanto Alice e eu definhávamos em nossa dor.
Só de pensar que foi por um “triz” que nunca saberia de Antony... A fúria só aumenta.
— Ah, então ela é “outla” titia?
— Sim.
— Não!
— Edward!
Esme, com cara de brava, me olhou de cima, já que eu permanecia ajoelhado esperando Antony correr para meus braços.
— Não sem Bella, dona Esme. Pode fazer qualquer cara feia, mas, não colocarei o meu pequeno avanço em risco, por nada no mundo.
Ainda mais por Rósalie. Acrescentei em pensamento.
— Não conversamos sobre ela ainda.
Apontei para a filha mais velha de Esme.
— Não sei como se sente em relação. Então... Não. Nada de apresentações formais, nem contato.
Fui cruel? Fui, e sei disso, mas não correria esse risco. Eu não irritaria Bella de graça.
— Mas...
— Edward tem razão, Esme. Lamento, querida.
Carlisle se dirigiu a Rósalie que, sinceramente, não pareceu nada surpresa com meu rompante.
— Tudo bem, pai. Eu já estava mesmo de saída. Foi um prazer revê-los.
Deu um aceno tímido e nos deixou sem esperar por uma resposta de Charlie que... Não veio. Certamente ele também precisava saber o que Bella pensa sobre o assunto.
— Boa decisão, garoto. Muito boa!
Arregalei os olhos! Ele estava me elogiando? Era mesmo um dia atípico.
— Então, já que resolvemos esse problema de timidez, por que não entram agora?
— Eu ainda estou esperando meu abraço.
— Eu também.
Carlisle espantou o clima estranho. Enquanto Alice e eu incitamos meu filho.
Falando em minha irmã, sua evidente e surpreendente quietude claro que era por receio da presença de Charlie. Jasper deve ter compartilhado com ela, tudo que passou na mão do pai noite passada.
— Bom dia, titio. Tony “tlouxe um plesente”.
Soltou-se do avô e correu para meus braços, arrancando várias risadas de minha família.
— Outro presente? Por que esse abraço é o melhor de todos. Bom dia, Pequeno. Estava com saudades. Dormiu bem? Está tão cheiroso.
Coloquei-me de pé, com ele no colo, e nos dirigi à mesa. Tio Charlie, para a satisfação de mamãe e papai, nos seguiu.
— Tio “Edwald” bobo. “Ablaço não é plesente, é calinho”. E você não pode tá com saudadona, Tony te viu ontem à noite da tarde.
— Tarde da noite, filho.
— Foi isso que Tony disse, Vovô, à noite tarde. Eu “numi bem gludadinho” na mamãe. Igual era no “Blasil”. Foi bom. Mamãe tem “ablaço” quentinho. E “clalo” que Tony tá “cheiloso”. Mamãezinha fez ele tomar banho. Nem sei “polque”. “Polque” Tony não levantou cedo para “tabalhar” hoje, nem sujou. Mas, mamãe Bella disse que eu tinha que vir bonito. Rá! Ela nem sabe que Tony já nasceu bonito.
— E modesto, igual à Emmett.
A influencia de meu cunhado em algumas falas dele, era óbvia. O que o tornava só mais engraçadinho.
— Ah, mas quando se diz a verdade, nem é pecado, irmão. Não é, Lindeza da vovó?
Esme e Carlisle beijaram sua mão e o abençoaram. Alice foi bem mais brincalhona, beijou seu rosto e aspirou o perfume dele, diretamente no pescoço arrancando altas risadas.
— Puro ainda?
Carlisle estendeu a garrafa de café para Charlie.
— Sim, obrigado.
—E para você, Tony? Vovó pode buscar aquele bolo de chocolate mesmo?
— Humm...
Pensou estendendo o indicador e coçando a testa daquele jeitinho que eu amava.
— Não, vovó. “Obligado”! Tony mamou o leite dele, na “dedeira”. E comeu “suclilhos com leite”, depois escovou os dentes. E não “tlouxe” a escova, não quer se sujar. Vai sair com titio “Edwald”. Mas, amo bolo de chocolate. Pode ser “outlo” dia?
Negou o bolo com uma explicação tão linda. Mas não deixou de lamentar a perda.
O fato dele ter mamado hoje também não me passou despercebido. Algo ainda o incomodava e eu faria questão de descobrir antes de entregá-lo de volta a mãe.
— Tem certeza? Seu titio não vai se importar de passear com um menino sujinho.
— Mas, mamãe se “impolrta”.
Fez que não mais uma vez quando Esme fez menção de se levantar e buscar o bolo.
— Tudo bem. Então vou fazer melhor. Seu avô vai levar um pedação e sua mamãe pode colocar na sua lancheira para levar pra escola. O que acha?
— Tony gosta. Mas tem que ser dois pedações. “Polque” a Claire ainda não mudou “lá pá” nossa fazenda. Então ela também “plecisa” de lanche.
— Claire?
— É vovô, Calr. A amiga do Tony.
— Longa história...
Tio Charlie alertou de uma maneira que, certeza, aguçou a curiosidade deles e eu teria que lhes contar a mesma história linda de meu filho que Bella me contara outro dia atrás.
— Certo, então vovó arruma dois pedaços bem grandões.
— E com bastante calda.
— Isso.
— Oba!
Comemorou batendo palmas e arrancando gargalhas de todos.
O clima estava tão bom que achei um pecado atrapalhá-lo, mas... O tempo não estava a meu favor.
— Então, já que não vai comer nada, podemos ir? Prometi a sua mãe que o traria a tempo da aula. Nossos minutos estão contados.
— Podemos sim. Ah, Tony quase se esquece... Mamãe Bella, pediu para te “entrelgar”.
Tirou de junto ao peito o envelope que segurava com tanto cuidado desde que chegou, era o presente que falava.
De repente bateu uma insegurança absurda do que poderia ser seu conteúdo. Será que havia feito alguma burrice e Bella resolvera que a escrita era a melhor maneira de falar em minha cara?
— Edward?
Alice alertou quando percebeu que eu “estacara” e que Antony permanecia com a mãozinha estendida com o envelope para mim.
— Ah, desculpe. Fiquei tão empolgado em receber esse presente que até parei.
É, pegar a correspondência eu peguei, já abrir...
Acho que precisava mesmo de mais algumas pequenas doses de coragem, se bem que... Tenho quase certeza de que fui um cavalheiro ontem. Mas, por via das dúvidas... Coloquei o envelope no bolso, de dentro, da jaqueta. Leria quando tivesse mais privacidade.
— Vamos? Se despeça.
Coloquei-nos de pé e aguardei enquanto ele se despedia de um por um com carinho e abraços. Charlie foi o último, e a lista de recomendação era enorme.
Era como se a própria Bella estivesse ali.
— Seja bom e não teime. Tio Edward tem total liberdade para corrigi-lo se precisar. Obedeça!
— Sim, senhor. Tony volta logo, cuida da mamãe.
Caminhei para a saída deixando que Charlie o trouxesse. Era o momento deles e não queria atrapalhar.
— Não vai mesmo nos dizer aonde vai? E se precisarmos entrar em contato?
— Ah, é para isso que existe o telefone, mamãe. E não, nem tente, não vou contar. É surpresa.
Beijei Esme e Alice e, como fazia há anos, a Carlisle só dei um aceno de cabeça em forma de adeus. Ainda precisávamos trabalhar isso, porém estávamos no caminho certo.
— Vim na camionete de Bella por causa da cadeirinha, se quiser ir nela...
Charlie estendeu-me a chave, surpreendentemente, no que me passou um ato importantíssimo para ele. Só esperava que minha resposta não estragasse esse primeiro passo.
— Terei que recusar, Charlie. Precisarei ir no meu carro hoje. Contudo, posso retirar a cadeirinha? A coloco de volta certinho quando entregar Antony. Aliás, onde devo deixá-lo? Bella vai estar na cidade?
— Provavelmente não.
Ele mesmo abriu a porta detrás, destravou o objeto e, se dirigindo ao meu, que muito rapidamente o abri, instalou-a lá.
— Mas, Emmett estará. Ele cuidará de tudo. Só o entregue na loja ao tio, por favor.
— Sim, senhor. Obrigado!
Agradeci quando se levantou já deixando tudo pronto.
— Bella pediu para a mãe ajeitar umas coisas também. Ela disse que tudo que ele precisa está aqui.
Entregou-me uma sacola bem parecida com aquelas de bebês, só que um tanto mais moderna.
— Ok. Então, vamos Antony?
— “Zamos”!
O coloquei no acento e fechei um, chatinho, encaixe de cinto. Para a segurança dele, eu faria qualquer coisa. Acionei a trava de segurança, para crianças, na porta, fechei-a e só então me sentei na direção.
— Fiquem com Deus. Dê tchau, Tony.
Abaixei um pouco o vidro dele para que pudessem vê-lo melhor.
— Tchau, vovôs, vovós e titia. Um beijo.
Mandou beijinhos e eu só pude sorrir e contemplá-lo por tamanho carisma e carinho.
Meu filho era mesmo especial.
— Edward?
— Senhor?
Tio Charlie me parou quando já colocava o carro em movimento, depois meio que se abaixou e disse baixo.
— Acho que esse status de “tio” precisa ser mudado, ele tem perguntas. Converse com Bella.
Surpreso e bota surpreso nisso, assenti no primeiro momento, porém logo outro pensamento me dominou.
— Não quero e não vou pressioná-la. Bella doou-se muito por Antony, ela sabe a hora certa. Eu terei paciência. Não é por minha causa que as coisas aconteceram assim? Então! Assumo as consequências. Mas, obrigado pela dica. Significou muito.
— Bela resposta, sobrinho. Muito boa mesmo. E não que eu faça isso muitas vezes, mas, desculpe-me por ontem. Seu histórico te condena e quando vi Bella naquele estado...
— Pensou que eu fosse o culpado. Também não te julgo. Charlie.
— Obrigado por tê-los levado para casa sãos e salvos ontem. Serei eternamente grato. Você está, aparentemente, fazendo as coisas certas agora.
Era um teste?
— Agora vão. Não quero que se atrasem na volta.
— Certo.
Acenei-lhes um adeus e logo rumei para a saída da Paraíso. Acho que atônito seria a palavra que me descrevia naquele momento. Tio Charlie havia mesmo me pedido desculpas e agradecido?
Por Deus! Eu devia ter pegado um guarda- chuva.
— Quer que eu ligue o som?
Abaixei o ar condicionado para o mínimo, não queria que ele se resfriasse. E acho que uma música restabeleceria meu autocontrole.
— Não. Tony quer cantar. Canta comigo, titio?
Por Jesus, Maria e José! Eu não sabia nada de músicas de crianças. Por que não pensei nisso antes? Devia ter baixado uma playlist infantil desde o dia que o vi pela primeira vez. Pais que se prezem sabem musiquinhas infantis.
— Claro! Vamos cantar! Pode começar...
Passei a bola para ele.
— Tá. “Vovô Charlie tinha um sítio, ia, ia, ô... E nesse sítio tinha um pato, ia, ia, ô”...
Ah, mas aquela eu sabia. Claro que ele fizera algumas modificações, mas... Quem se importa? Ele é Antony Cullen. Pode tudo.
— Era qua, qua, qua pra cá, era qua, qua, qua pra lá. Ia, ia, ô!
Bati no volante e cantei com muita empolgação. Porque tinha certeza de que logo, logo cantaríamos aquilo assim: Papai Edward, tinha um sítio...
Rósalie
— Bom dia. Alice não virá de manhã. Estarei em minha sala se precisarem de algo. Obrigada!
— Dona Rosie, Tânia Denali esteve aqui a sua procura. Pediu que retornasse as ligações dela. E ainda pediu para lembrá-la que vocês têm muito que conversar.
— Ok, Andréia. Obrigada!
As dispensei com a mão, intencionando que o gesto disfarçasse a insatisfação daquela notícia àquela hora da manhã.
Se já não bastasse Edward, Tânia ainda tinha que deixar tudo pior.
— Droga, Rósalie! Resolva isso!
Subi para minha sala, tranquei a porta e quando me sentei foi que deixei que toda frustração me dominasse.
Eu não iria chorar como disse Alice em um de seus piores dias de angústias do passado, “a rainha do gelo não chora. Ela nem sente”.
Ah, se ela ao menos sonhasse do quanto estava enganada.
Segurei firme a cabeça deixando a raiva dominar. Juntei os cabelos entre os dedos com violência desnecessária, causando uma mínima quantidade de dor. O que era nada comparado ao que causei em tantos...
É, eu não chorava. Todavia, no passado, ouvia Alice chorar todos os dias de manhã quando se trancava em sua sala assim que chegava à loja. E também à noite, antes de dormir aos soluços, já que meu quarto é parede/parede com o dela.
Também ouvia Esme lamentar baixinho, todos os dias, para Carlisle, na mesa do café, antes de nos juntarmos a eles, a ausência de seu filho. E também do quanto ele estava cada dia mais distante, perdido e abatido.
Ainda tinha vovó Marie, que mesmo disfarçadamente sempre deixava escapar seus clamores pela falta do restante da família. Eu sabia que sua seu coração vinha definhando devido às dores sentimentais de ausências.
E tinha Edward... Edward que eu não tinha mais. Havia perdido meu irmão naquela fatídica noite. Quando voltaram do hospital com a notícia de que os Swan’s desapareceram, ele nunca mais falara comigo ou mesmo me olhara com carinho. Só havia raiva, muita raiva ali...
A princípio eu comemorei... Deus! Como comemorei... Havia me livrado da Swan que tirara meu amor de mim. Em meu egocentrismo não percebia que perdera muita mais naquela ocasião. Emmett eu nem conto, ele já não era meu, mas eu perdera uma chance de ser a neta, a filha, a irmã, a prima e enfim, a tia... Eu perdera um futuro feliz com minha família. Porque todos, mesmo sem querer, me odiavam.
E sabem a alegria eufórica? Ela foi passando, passando e passando... E logo as dores dos meus queridos começaram me afetar.
Aí veio a raiva, o ódio por Bella mesmo longe, e talvez até morta, ainda os ter nas mãos.
Depois veio descaso, fingia não “estar nem aí” para as lamentações deles.
Então veio a pequena dor. Ouvir Alice chorar, me carcomia. Ela perdera o amor e a amiga.
E por fim, veio a culpa. Essa era feia. Era não, é, porque domina e habita em mim, desde que acordei do meu mundinho. Eu despedaçara os meus. E não pensem que acho que a carga é demais para meus ombros, que outros tiveram sua parcela de culpa. Não! Eu sabia do que fora capaz.
Tinha consciência da capacidade de manipulação que tinha nas mãos.
E eu pagara e pago todos os dias pelos meus atos. Alice é a mais fria das irmãs. Só me suporta por causa da nossa sociedade, forçada, que Esme arranjou.
Edward? Rá, esse nem se fala. Certeza que se pudesse sumir comigo do mapa, ele faria.
E não tinha solução. Eles nunca me dariam a chance de assumir meus erros e me desculpar. Nem quando Bella retornou, tive essa esperança.
Ela me olha de cima. Como quem enxerga um inseto. O que na verdade eu era para eles.
E, de novo, não os culpava. Era merecedora. Aprendi a conviver com isso.
Porém hoje, com o filho deles ali tão perto. Tão lindo e inocente! Queria tanto ser chamada de tia, se amada pelo anjo. Algo me dizia que a redenção estava ali.
Mas, eu não era merecedora.
E ainda tinha Tânia que se achava no direito de me procurar depois de tanto tempo. Será que ela não percebia que o que eu mais desejava na vida era nunca tê-la conhecido?
— Ah, Deus! Ouça minhas preces. Eu lamento tanto.
E a rainha do gelo mais uma vez chorou... De culpa, de medo, de solidão!
Edward
—... “E nesse sítio tinha um “cangulu” era”... Titio, como o “cangulu” faz?
Por Deus! Como o canguru faz?
Já havíamos passado por todos os animais domésticos, selvagens, marinhos e agora estávamos nos marsupiais. E só Deus mesmo para saber aonde íamos parar se não tivéssemos acabado de chegar. Será que ele sabia tudo das espécies de dinossauros também?
Sério, eu precisava mesmo me interar mais dos gostos dele.
— Hum, não sei, Tony. Acho que o canguru só pula, não faz barulho nenhum.
— Ah, isso não é possível, titio. Não dá certo na música. “Era pulo, pulo pra cá e pulo, pulo pra lá”? E não é “balhulho” que os animaizinhos fazem, mamãe disse que é a “maneila” deles de “comunicalem”. Se você fosse médico de animaizinhos “sabelia” disso, né tio “Edwlad”?
— Isso, Pequeno. Eu saberia de muitas coisas. Vamos guardar essa pergunta para fazer a sua mãe, certo?
Ah e que Deus ajudasse que eu estivesse perto só para ver que resposta ela daria ao “barulho” do canguru. Não é possível que ela saiba. É?
— Ao seu “Amor”?
— Quê?
Freei e estacionei, já dentro do local desejado, mas não desci. Precisava entender do que ele falava.
Por isso, soltei meu cinto e me virei para olhá-lo nos olhos.
— O que você disse, Pequeno?
— Huum...
Torceu as duas mãozinhas num gesto tímido que eu quase nunca via nele.
— Fale comigo, Antony. O que foi que você disse sobre “Amor”?
— Tony ouviu você chamar a mamãe de “Meu Amor”. Vovô Charlie já disse que chamamos as pessoas assim quando gostamos muito delas. Tony não se “impolrta” de dividir a mamãe dele um pouquinho com você “tabém”. Mas, pode ser só um pouquinho?
Mostrou uma pequena quantidade entre o indicador e o mindinho.
— Porque já divido ela com muita gente.
— Oh, meu amor...
Destravei o cinto dele e o puxei para o banco da frente, o abraçando apertado e emocionado.
Bem que Tio Charlie avisou que ele tinha perguntas. Era esperto demais, prestara atenção em detalhes, mesmo num momento tão difícil como o de ontem.
— Obrigado, meu Anjo! Prometo que “emprestar” um pouquinho sua mãe para mim, só fará com que meu amor por você aumente. E o dela? Bom, sua mãe tem uma capacidade de amar e perdoar que poucas pessoas têm. Então, pode ter certeza de que ela te amará mais e mais a cada dia.
— Mesmo com esse tanta de “plimos” chegando?
— Claro! Sobrinho é sobrinho. Agora filho inteligente e bonito, ela só tem um. Não é a mesma coisa.
— “Obligado”, titio. Tony ficou “pleocupado” com essa coisa de “Amor”, mas vovô explicou. Vovô é esperto.
— O mais esperto.
Pensei e agradeci a Deus pela capacidade de complacência e discernimento dos Swan’s. Tio Charlie teve a chance de colocar Antony contra mim e meu eventual relacionamento com Bella, e não fez. Muito pelo contrário, fez meu Pequeno entender e permitir que eu amasse Isabella.
É, eu teria que agradecê-lo em algum momento também. Mesmo não feliz com as escolhas da filha ele não atrapalhava.
— Ok, agora vamos descer porque quero te mostrar algo.
Tirei-nos dali quando percebi que alguns vendedores já nos olhavam estranho já que parei dentro da loja.
— O que é aqui, titio?
— Bom dia, é um prazer tê-los em nossa concessionária. Posso ajudá-lo?
— É uma loja de carros, filhote. Titio fez uma encomenda e trouxe você para ver primeiro. Sou Edward Cullen, fui avisado que meu modelo novo chegou.
Respondi a ele e ao mesmo vendedor que nos olhava estranho, agora a pouco.
— Ah, sim. Por favor, me acompanhem. Nosso departamento financeiro já está ajeitando os detalhes. Só quero que o senhor veja uma coisa antes de finalizarmos o negócio.
— Ok.
Eu só esperava que não fosse arranhão ou estrago, eu queria aquele carro perfeito para impressionar Bella e Antony.
— Vamos caminhar um pouquinho?
O coloquei no chão quando ele concordou e sorriu animado com a variedade de automóveis a venda.
Até parecia sobrinho de Emmett, apaixonado por carros.
— O que estamos fazendo aqui?
— É uma surpresa, Pequeno. Só mais um minuto.
— Seu papai tem bom gosto garotinho. Ele não poderia ter feito escolha melhor.
Por Deus! Eu queria mandar o homem se calar, ele acabara de dizer que Antony era meu filho e por mais que amasse a ideia dele se parecer comigo e das pessoas saberem, de cara, que era meu, não iria, em hipótese nenhuma, confundi-lo.
— Titio o moço falador acha que sou seu filho,
Tampou a boquinha com a mão e riu me olhando lá debaixo.
Uma pontinha de decepção me assolou. Algo dentro de mim acreditava que ele já sabia que era mesmo meu filho.
— Ele se confundiu, Campeão. Não se preocupe.
— Ah, desculpe. É seu sobrinho? Mas, parece tanto com você!
— Não “palece”! Tony “palece” com a mamãe Lindona dele. Não é, titio “Edwald”?
Eu quis rir. Ele não tinha nada de Bella, exatamente nada. Porém, mais uma vez quase fiquei chateado. Por que parecer comigo não era aceitável?
Certo, Bella é o mundo dele. Tudo começa e termina com ela, era evidente que iria querer se parecer com ela. Não com um pai ausente ou até mesmo um tio que conheceu há pouco.
— É sim. Você é perfeito como sua mãe, Tony.
— Só o cabelo que não. O cabelo é bagunçado e “loilo” como o seu. Mamãe e vovó já “disselam”.
— É, o cabelo é o meu.
Ainda não era o que eu queria ouvir, mas só de saber que Bella e a mãe nos comparavam já ganhou meu dia. Além do mais, ele é só uma criança com suas coisas de criança.
— Aqui. O modelo que o senhor escolheu é a azul petróleo. Mas, eis a nossa surpresa, temos uma igual preta, que na verdade era a primeira opção do senhor. Um cliente de Michigan desistiu da compra e pedimos para que a trouxessem a nossa loja para que tivesse opção de escolha.
Assenti satisfeito. Não podia ficar melhor. Em vez de uma Ford F150 agora eu tinha duas opções para escolher a minha. De uma surpresa, agora eu tinha duas.
— E então, Filhote, o que achou? Ajuda-me a escolher a cor?
Paramos de frente os carros. Ele olhava com tanta concentração e admiração que me arrependi de não ter registrado aquela reação.
— É uma camionete e é maior que as dos titios, do vovô e da mamãe. É “ninda”! Tony não sabe qual escolher.
— Ah, é fácil, pense: em qual das duas você gostaria de passear?
— Você vai “complar”?
— Vou. Por isso que trouxe para ajudar a escolher a mais bonita.
— Mas, titio...
De repente, colocou as mãos em todos os bolsos da calça Jeans, procurando algo e quando não encontrou pareceu chateado e decepcionado.
— Tony não “tlouxe a calrteira” com o que “soblou” do salário. Não tem “dinheilo”, não sabia. Não pode ajudar o titio a pagar.
— Ah, que gracinha!
Ignorei o vendedor puxa saco. Peguei meu filho no colo e nos aproximei mais dos veículos.
— Campeão, não precisa se preocupar. Eu vou deixar o meu carro e pagar só um pouquinho a mais. Tenho dinheiro, não se preocupe.
— Mas e as “leplesas” dos patinhos? O vovô Carl falou que é muito “dinheilo”.
Um biquinho lindo estava no rostinho dele e eu sabia que era questão de segundos até que começasse a chorar se eu não desse um jeito.
— Ei, o dinheiro das represas estão separados e lembra que sua mãe vai me ajudar se eu não tiver? Não se preocupe. Ajude-me a escolher? Não é você que fica falando que meu carro é feio e pequeno. Pois é, por isso estou comprando outro.
— Tony e mamãe podem ajudar se o titio não tiver o “dinheilo”?
— Claro que sim!
Concordei para tranquilizá-lo e acabar com aquele assunto. Teria que dar um jeito de lhe explicar das minhas condições financeiras.
— Tá bom, então. Se é assim sim. Mas... Hum! Titio Memmett diz que a gente não escolher cor e sim o modelo.
Não disse que Emmett é aficionado por carros? Onde já se viu explicar uma coisa dessas a uma criança.
— O modelo é o mesmo, Baixinho. E te garanto, é a melhor do mercado. Deve ser melhor até que a da sua mãe.
- Tony não é baixinho, só “cliança”. E a “camonete” da mamãe é a melhor.
Cruzou os braços e fez bico.
Olhei feio para o homem, querendo “trucidá-lo” por ser tão intrometido.
— É claro que é. E se a dela não fosse vermelha, a minha seria. É a mais bonita. Mas não podemos ficar com os carros iguais. Então, qual prefere?
— Tony gosta da azul. É mais “clala” vai ficar bonitona quando fizer sol lá em “Folks”.
A perspectiva com que ele via as coisas me deixava admirado. Eu nunca pensaria naquilo. Aliás, se tivesse vindo sozinho levaria a preta, certeza!
— E mamãe gosta de azul, diz que passa paz e “lembla” de um tempo bom.
— Vamos levar a azul. Pode fechar o negócio.
Como não pensei nisso antes? Bella amava azul era umas das poucas coisas que compartilhávamos na época da adolescência, a paixão pela cor.
— Muito bom. O senhor pode esperar um segundo enquanto geramos a nota. E você...
Estendeu a mão para Antony que relutantemente não se soltou de mim, só olhou ansioso.
— Venha comigo? Temos um presente especial para ajudantes especiais que escolhem cor de carros. E é bem ali, não perderá se tio de vista.
Apontou para uma sala envidraçada com várias miniaturas de carros por toda a parede.
— Vai lá, Campeão. Estarei bem aqui.
Influenciei já entregando a uma mulher, que aparecera do nada, meus documentos e o cartão de crédito.
— Ah e para seu titio vamos presentear com uma cadeirinha linda, que combina direitinho com a camionete nova. O que acha?
— Não sairei daqui.
Tranquilizei Antony, me sentando em uma das cadeiras bem de frente a sala onde ele estava.
A burocracia demoraria um pouco, então era a maneira deles de distraí-lo enquanto eu finalizava o negócio.
— Senhor Cullen, assine aqui, por favor.
Assinei um monte de contratos, sem nunca perdê-lo de vista.
Quando finalmente me deixaram alguns minutos sozinho afim de gerarem meu recibo,pude finalmente tirar um envelope do bolso e acalmar meu coração.
Edward
Obrigada por ontem. Salvou-nos de mais maneiras que jamais entenderá. Não tenho palavras para expressar o alívio que senti ao reconhecer sua voz. Obrigada por ser você!
Estou mandando Antony, como combinamos. Cuide-o, por favor, é meu bem mais valioso, junto com você.
Às vezes tenho medo de que tudo ainda seja um sonho, mas decidi que vou vivê-lo plenamente de novo e assumir as consequências depois. Só, eu imploro, não parta de novo meu coração. Eu não resistiria e Antony ainda precisa da mamãe dele. Estou acreditando em você, lhe dando a tão sonhada chance.
Por isso, sábado, em nosso encontro, te espero aqui, na Sonho Azul porque não devemos nada a ninguém e não vamos nos esconder.
Espero-te ansiosamente!
Sua Bella
Absorvi e saboreei cada palavra. Tinha guardado inúmeras cartas e bilhetinhos que Bella me dera quando namorávamos, mas havia esquecido como ela se entrega na escrita.
Perfeita! E totalmente minha. E sim, eu me quebraria primeiro antes de decepcioná-la outra vez.
Porque Bella e Antony eram minhas razões de existir.
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