Notas iniciais
Boa noite, amores. Espero que esse capítulo as encontre com Saúde e Sanidade em tempos tão difíceis. Que Deus nos proteja!

Charlie

— Vovô, você acha que a mamãe dá folga “pala” o Tony todo dia depois do almoço da bisa?

Desviei de um buraco, para só depois olhá-lo com mais atenção, pelo retrovisor interno da camionete. Renée, sentada a meu lado, com alguns papeis em mão, sorriu para a pergunta.

— Não sei, Filhote. É provável que sim. Mas terá que conversar com ela. Por que? O que quer fazer nas segundas feiras?

— Não sei “dileito”, vovô. Mas, hoje foi tão legal! O dia dos vovôs e netinho. “Quelia” fazer isso toda semana.

Levantei as sobrancelhas para ele... Por Deus! O garoto estava com as bochechas vermelhas pelo excesso de sol que pegara no barco, porém tinha um sorriso tão encantador no rostinho que dava vontade de congelá-lo ali.

— Toda semana vai ser bem difícil. Porque seu outro avô e eu temos muito trabalho nas segundas. Mas, podemos fazer isso com mais freqüência. O que acha?

— Tony “gostalia” muito. O vovô Carl “tabém” vai gostar. Você viu como ele “soliu” o tempo todo, vovô?

Acenei em concordância enquanto dava seta para a esquerda e entrava na rodovia asfaltada, rumo a Forks.

É, eu havia percebido.

No começo, foi meio estranho estar no mesmo pequeno espaço que Carlisle, mas aí, Antony, com seu jeitinho, puxou uma conversa sobre peixes, barcos e as diferenças dos rios daqui e do Brasil e... Tudo se transformou... Carlisle começou a falar e falar e eu me rendi a nossa velha sintonia de melhores amigos.

Era certo que ainda tínhamos um longo caminho pela frente, mas pelo meu neto e pelos meus filhos, eu faria qualquer coisa. Só precisava aprender a controlar meu mau gênio.

Deus! Eu seria avô de novo!

Ah, Jasper! O mais novo de meus meninos, o meu garoto inteligente que entende de números mais do que ninguém... O meu menino que me fez orgulhoso ao escolher nossa família, agora me fazia mais orgulhoso ainda ao nos enfrentar por sua nova família.

Isso prova que o ensinei bem, certo?

— Dizem que sorrir para o nada, é o primeiro sintoma de loucura ou “caduquice”. Qual diagnóstico você prefere?

Olhei de soslaio para a mulher de minha vida. Ela estava maravilhosa, pronta para trabalhar com aqueles óculos de leitura e saltos nos pés.

— Se for “caduquice” é melhor se preparar, senhora Swan, nós temos quase a mesma idade. Será a próxima... Mas creio, que meu sorriso bobo seja porque tive uma manhã produtiva com muitos peixes no freezer agora.

— Sou muito mais nova que você, vai sonhando.

— Dois anos. Muito mais nova mesmo...

Coloquei a mão em sua perna e fiz carinho.

— Eu fui “melor pescaldor”, vovó. Os vovôs “ficalam convelsando” e espantando os peixinhos. Titio Memmett diz que não é assim que “pelsca”.

— Seu tio Emmett não entende nada de pescaria. Percebeu que quando você começou a cantar, nós pegamos mais peixes?

— Eu vi.

Renée fez cara de indignação e eu gargalhei e dei de ombros, porque era uma mentira deslavada.

Num certo momento da manhã, Antony bem animado, ficou de pé na proa do barco (e que Bella nunca sonhe com isso, porque mesmo sabendo que estava de colete, surtaria. Certeza!) enfim, ele simplesmente olhara para o rio e começara a cantar em alto e, desafinadamente, bom som.

E sim, aquilo, literalmente, acabara com a nossa pescaria, porque os peixes desapareceram.

Mas, quem se importava? Carlisle e eu sorrimos e ficamos quietos só apreciando o quão maravilhoso Deus era em nossas vidas.

— Podemos levar o titio “Edwald” da próxima vez?

— Acho que seu tio Edward não gosta de pescar, Amor.

Renée olhou carinhosamente para trás e esfregou os joelhos dele.

— Eu sei, vovó. Mas ele gosta do Tony e “plecisa” de amigos. Vai “golstar” de ficar com a gente. Ele pode só “diligir o balrco”. Podemos “chamar ele”, vovô?

— Podemos convidá-lo. Se aceitar, será bem vindo. Mas pare por aí, ou teremos que comprar um barco maior.

— E a bis- vovó, que é “lica” tá sem “dinheilo polque vai complar” o avião que mamãe falou.

Por Deus! Eu pescaria com Edward Cullen, certeza! Meu neto queria aquilo e estava para nascer algo que eu não faria por aquele garoto.

Aliás, a quem eu quero enganar? Era evidente que logo, logo eu teria que aceitar a presença constante de Edward em minha casa e em nossas vidas. Porque era claro como o sol e óbvio demais que ele e Bella estavam voltando a ter alguma coisa. Eu só esperava que ela tivesse coragem o bastante para me contar pessoalmente.

Sei que sou intransigente algumas vezes, ou melhor, na maior parte do tempo. Porém sei ceder e perdoar quando merecem e acho que o filho de Esme está no caminho. Contanto que não machuque minha filha e meu neto e que passe o restante de sua vida os compensando por tanto sofrimento, eu acho que poderia até dar-lhe uma segunda chance.

Eu acho, isso mesmo... Porque ainda estou ignorando a raiva, só de imaginar minha pequena filha, de novo, dos braços daquele moleque.

— É, a bisa vai comprar um avião.

Renée o respondeu, porque eu estava perdido demais em pensamentos.

— Eles fazem “balhulho” demais, vovó. Vão assustar meus patinhos novos e a Mimosinha também.

Sorrindo muito, dei seta e fiz o retorno, agora entrando em Forks. Renée não se segurou e gargalhou mesmo.

— Seus patinhos saberão se cuidar, Filhote. Já a Mimosa, seu avô a esconde no barracão... É no final da rua...

Apontou para uma casa verde pequena e escondida em meio as ervas daninhas.

— Tem certeza? Parece abandonado demais.

— A Clair “mola” aqui?

Antony se esticou em sua cadeirinha, tentando ver melhor. E sua indignação era a minha. Não era possível que alguém vivesse naquelas condições.

— É aqui. Sejam educados. Pelo que fiquei sabendo, o pai dela é sistemático.

— “Semple” somos educados, vovó. Não “plecisa se pleocupar”.

Estacionei. Desci e abri a porta detrás destravando e tirando Tony de seu lugar. O coloquei no chão e peguei sua mãozinha. Ele estava adorável já no uniforme da escola, porque o deixaríamos lá, assim que terminássemos aqui.

— Vamos.

Renée pegou as compras que Bella e ele fizeram.

O combinado era entregar os presentes na escola, mas tememos que tanto o pai quanto a menina ficassem constrangidos. Então, Renée conseguiu, na ficha médica da mãe, o endereço deles e aqui estamos.

— Só um minuto.

Dei a volta e peguei, na traseira da camionete, frutas e verduras produzidas na Sonho Azul. Era só mais um agrado.

— Agora sim.

Abri o pequeno portão e o rangido me deu calafrios. Faltava pouco para aquilo cair.

Deus! Quem morava num lugar daquele? E não digo pela simplicidade e sim pela falta de calor humano. Tudo parecia desleixado e... Morto. Não era lugar para uma criança.

— Tomara que estejam em casa.

Minha esposa bateu na porta e se as informações que Bella colhera com a diretora estivessem corretas, era o horário que Brady vinha até a casa deles dar almoço à pequena Clair.

— Já vou. Só um minuto... Só espero que não seja cobrança, porque estou farto hoje. Se vista, Clair. Ou vamos chegar atrasados.

Uma voz masculina respondeu lá de dentro não se atentando que ouvíamos a última parte, que supostamente ele sussurrara.

— Pois não? Ah, é você.

É, o homem poderia até ser novo, como Bella descobriu, mas sua aparência, mal-cuidada e cansada, não contribuía. Ele aparentava uns cinquenta, certeza.

— Bom dia, “senor Blady”. Meus vovôs e eu viemos “tlazer” umas coisas “pala” Clair.

— Clair é pra você. Ande logo!

Ele não nos mandou entrar, olhava desconfiado e de certo nada feliz pela nossa presença.

— Podemos conversar, por favor? Minha esposa e eu gostaríamos de uns minutos com o senhor.

— Olha, eu sei que sua esposa é dona do hospital também e que está assumindo as coisas lá. Trabalho numa escola, as notícias correm... Mas, não posso papear agora, tenho que trabalhar. Se quiserem, passo no hospital pra gente falar das despesas, que devo, assim que sair do trabalho. Posso levar a Clair e...

— Podemos entrar, Brady? Será rápido.

Fechei a expressão o interrompendo e impondo respeito. O homem era surdo? Já estava se defendendo e olha que nem tínhamos o acusado de nada.

— Claro! Entrem! Não reparem a bagunça, sentem-se.

A sala era minúscula. Com uma mesa no canto e três cadeiras, nada confiáveis, a seu redor.

Puxei uma para Renée e outra para mim, Antony veio para meu colo. Se o móvel quebrasse eu o seguraria.

— Trouxemos algumas coisas lá de casa. Todas produzidas sem agrotóxicos e fresquinhas.

Entreguei-lhe as duas sacolas.

Meio relutante e um tanto mais desconfiado ainda, ele as pegou. Creio que minha expressão não lhe deu coragem para negar.

— Muito obrigada, senhor Swan. Não precisava. Eu... Eu...

Constrangimento. Era o que eu via ali.

— Clair, filha?

— Já vou, papai.

Voltou a chamar e a garota respondeu de algum lugar no quarto.

— Oi.

Veio correndo, de cabelinhos molhados, uniforme e sim, chinelinhos nos pés.

A simplicidade em pessoa, mas linda que parecia desenhada.

— Oi, querida.

Renée, a puxou para seus braços e beijou seu rostinho, quando educadamente ela estendeu a mãozinha para cumprimentar.

A garotinha era linda. Creio que de descendência latina ou africana, a pele escura, minha mãe diria que era “cor de jambo”, era negra mesmo. Com olhos tão escuros e cabelinhos tão enrolados que davam uma vontade louca de tocar.

Meu neto tinha o melhor gosto para amigos, isso era fato.

— Meu nome é Renée e sou vovó do Tony. E seu nome?

— Eu sou a Clair.

Respondeu baixo e timidamente. Custando a nos encarar.

— Oi Clair, esse é o vovô Charlie. Não “plecisa” ficar com medo. Ele não é “blavo com clianças”.

— Isso mesmo, não sou.

Puxei a menininha para meus braços e beijei sua testa. Depois a sentei em minha outra perna, ao lado de Antony.

— Mamãe e eu “complamos” umas coisas “pala” você. “Espelo” que goste.

Renée lhe entregou as sacolas e os olhos da menina, se possível, brilharam mais ainda.

— O “Senor Olelhudo” é “pala” você “ablaçar” quando for “dolmir”. O “ablaço” dele “palece” de mamãe. As “outlas” coisas foram mamãe Lindona e eu que “complamos”. Ela disse que são coisas que meninas “plecisam” ter.

— Obrigada! Papai, olha... Acende as luzinhas. Do jeito que eu queria.

A Pequena saltou de meu colo e correu para perto do pai com as sacolas em mãos. Com um entusiasmo lindo de se ver abraçou o coelho de pelúcia e calçou os tênis nas mãozinhas. Mostrando-os...

— Que lindo, filha! Mas, não podemos aceitar. É demais... Não precisamos de caridade. Vivemos bem com o que temos.

Excessivamente brusco, ele retirou tudo da menina, jogou nas sacolas e estendeu de volta para mim.

O ignorei... E levantei as sobrancelhas. O que ele pensava que estava fazendo?

— Tony, por que você não vai com Clair pegar o material dela? Vamos dar uma carona para eles até a escola. Pode fazer isso pelo vovô?

— Sim, vovô. Vamos, Clair.

O biquinho de choro dela em deixar as coisas que acabara de ganhar foi de cortar o coração, porém, deu a mão a meu neto e o seguiu sem discutir. Quanto à educação da menina, o homem estava de parabéns.

— Agora somos só nos dois, Brady. Por que tanto orgulho?

— Não precisamos de pena, nem caridade de ninguém. Agora gostaria que fossem embora. Não vou acostumar minha filha com a piedade de vocês ricaços. Depois de já a estragarem, se cansam de “fazer bonito” e desaparecem. E eu fico como? Com uma garota iludida pelo luxo que nunca poderei dar. Não... Não preciso disso. Estou com alguns problemas agora, senhor Swan, mas vou resolvê-los sem precisar de ninguém.

— Eu sei. E te entendo.

— Charlie!

Estendi a mão calando uma indignada esposa. Era minha vez de falar.

— Mas, não é o caso aqui. Não tem nada haver com pena nem caridade. São presentes do meu neto, o melhor amigo de sua filha. E, se o conhece pelo menos um pouquinho, já percebeu que soberba não é um dos defeitos dele, nem nosso. Ele só se preocupou com a amiga e pediu à mãe que o levasse para comprar as coisas, com o dinheiro dele. Não dê um mal exemplo as crianças, deixe que sua filha receba o que ele comprou.

— Não posso. Eu... Não vou conseguir manter o padrão e ela vai sofrer depois quando tiver que dizer “não” a cada desejo não realizado.

— Senhor Brady...

Renée se levantou e foi para o lado dele.

— Ela é uma criança esperta, sabe das limitações do senhor. Mas, se mesmo assim tiver que privá-la de algo e ela se rebelar, é só explicar. É só uma criança, aprende mais rápido e com mais empatia que qualquer adulto. Aceite os presentes. Antony fez questão. Não queremos que ele aprenda, a força, sobre orgulho hoje.

— Não é orgulho, senhora. É cuidado... Ela só tem a mim e eu a ela... Desde que minha esposa faleceu que nossa vida virou de cabeça para baixo. Tive que vender nossa casa. Moramos de aluguel nessa... Nessa pocilga. Que é o que posso pagar. O salário mal dá para colocar comida na mesa. Isso sem falar nas dívidas que se amontoam.

Apontou para uma papelada acumulada em cima da mesa.

— É desesperador.

— Eu imagino, e é por isso que...

Entregou-lhe os papéis que veio lendo ao longo do trajeto da Sonho Azul até aqui.

— Minha cunhada e eu demos uma revisada no seu caso. Inscrevemos o senhor num projeto do hospital, que empresas privadas sanam as dívidas de pessoas de baixa renda. E, uma empresa se interessou pelo seu caso, e pagou a conta pelo senhor. Veja o senhor mesmo. Não nos deve mais nada.

Meias verdades... O projeto era verdadeiro. O que minha esposa não contara era que a empresa dos meninos se responsabilizara pela dívida. Ou seja, Bella dera seu jeitinho ali também.

— Eu... Eu não sei o que dizer.

— Não diga nada. Só aceite os presentes para Clair. Nosso neto a adora e quer vê-la feliz.

E, bem nesse momento, as duas crianças voltam para nós com carinhas de apreensão.

Porém, como diz minha mãe, milagres acontecem.

— Filha, agradeça a seu amigo e a família dele. Eles lhe trouxeram presentes.

— Podemos ficam com eles? Podemos papai?

Com lágrimas nos olhos, perante a alegria da pequena, o homem só acenou afirmativamente.

Tenho certeza que estava tão engasgado quanto nós.

— Você tava certo, Tony. Sua família “conveneceu” meu papai.

— Eu num disse? “Obligado”, vovó, vovô e “senor Blady”.

Antony veio para mim e minha esposa e nos abraçou carinhosamente.

— Certo, mas, agora ajude sua amiga a colocar tudo isso no quarto. Precisamos ir, ou chegarão atrasados. E o que menos precisamos é da diretora ligando e reclamando com sua mãe.

Sem demora, eles obedeceram minha esposa.

— Vamos esperar na camionete, Brady. A carona continua de pé.

Peguei Antony e Renée fez o mesmo com a menininha já com os tênis novos nos pezinhos.

— Certo. Só vou fechar a casa.

Demos-lhes a costa e rumamos para o carro, porém antes de sair uma ideia me ocorreu.

— Brady?

Ele se voltou para mim, curioso.

— Já trabalhou numa fazenda?

Bella

— Ah, Bella, não seja tão boazinha. Eles não merecem.

Resmunguei enquanto apagava, pela terceira vez, uma questão que elaborava, para uma avaliação do terceiro período de Veterinária. Era uma turma complicada, eles conversavam tanto, enrolavam tanto... Que eu tendia a ser um pouquinho má.

— Isso!

Deixei 14 linhas para que respondessem, resumidamente, a uma questão de formação celular em bovinos de grande porte.

Tá, talvez eu estivesse mesmo sendo só um pouquinho má demais, mas...

— Ei, conversando sozinha? Papai diz que isso não é bom.

Hum... Salvei o documento, fechei o notebook e encarei Jasper parado no batente da porta, de meu quarto, no apartamento.

Como os dois, Jas e Emm, estavam na loja hoje, e papai tinha trazido Tony para a escola, depois de uma pescaria ainda misteriosa para mim. Então, resolvi que poderia me dar a tarde para dedicar totalmente à universidade.

— Posso entrar?

Perguntou depois que percebeu que eu não retribuiria sua brincadeira.

— Fique a vontade.

Virei-me para ele e apontei para a poltrona de frente a minha cama.

Eu sentia o clima estranho pairando entre nós, graças ao ataque de ciúmes de Antony.

Não havíamos nos visto depois daquilo.

Tony dormira o restante da tarde, e quando meus braços começaram a fraquejar, senti que era hora de ir para casa. Porque nem meu filho, nem a mãe dele tinham condições de uma conversa séria naquele instante.

— Queria conversar, mas parece que está fugindo de mim.

— Não estou. Só estive ocupada.

— Para mim, não é?

— Jas...

— Não, Bella...

Atravessou o pequeno espaço que o separava de onde apontei, sentou, abaixou a cabeça e levou as duas mãos aos cabelos. Completamente frustrado e chateado.

Eu odiava vê-lo assim.

— Sei que está chateada. Estou aqui para me desculpar. Não posso conviver com a ideia de que não falará mais comigo e...

— Ei...

Deixei o computador de lado, engatinhei pela cama e parei a sua frente, segurando seu rosto com as duas mãos para que me olhasse com atenção.

— Quem disse que não vou falar com você? E se desculpar por quê? Por ter 24 anos e engravidado a mulher que ama? Ah irmão, não sou como Rósalie pensava: Nunca vou disputar meus irmãos com seus amores. Você não me deve desculpas, Jas. Eu só me afastei por causa dos ciúmes de Tony ontem. E hoje, estou com tempo corrido, porque tenho seis avaliações para planejar. Fique tranquilo, quero que fique bem.

— Eu te fiz uma promessa e não vou cumpri-la. Preciso sim me desculpar.

— Que promessa? Nem me lembro dela.

O que era uma mentira. Ele prometera não deixar Antony e eu a mercê da raiva de Emm e Charlie. Sim, eu me lembrava, mas ele não precisava saber disso.

— Você se lembra, Bells. É claro que se lembra. Sua boa memória é o que te trouxe até aqui. Seu altruísmo, quanto a si mesma, vai ignorar meus erros. Porém, eu pequei com Antony, irmã. E é por ele que peço desculpas. Eu... Eu fiquei assustado com aquela reação. Não pensei que reagiria da mesma maneira que reagiu com Emm, já que são mais apegados. Não cogitei a possibilidade. Desculpe. Estraguei seu domingo, estava tão empolgada com os projetos e no fim, teve que ir embora com o “Macaquinho pregado em você”.

— Sou uma menina grande, irmão. Sei me cuidar. Vá viver o seu “feliz para sempre”.

— Sem Antony? Sem você? Como?

Delicadamente, beijei seu rosto.

— Comigo e com Antony também. Ele só está com ciúmes, irmão. Se tivesse confiado em mim o bastante, e me contado, eu teria o preparado melhor. Mas, não me deu o benefício da dúvida, não é? Preferiu achar que eu ficaria chateada.

— Não foi o caso.

— Foi sim. Conheço-te, Jas. E ainda tem essa mania horrorosa de achar que amamos mais o Emmett. Quanta burrice! E pare de drama! Como eu disse, claro que acho que teria sido mais fácil se tivesse me contado. Talvez se tivesse preparado Antony as coisas não teriam se descontrolado tanto. Mas...

Dei de ombros.

— “O mal feito, feito está”!

— Ele está muito bravo? Alice tá se sentindo culpada?

Beijei, carinhosamente, sua testa e esfreguei o nariz em seu cabelo apreciando o “cheiro maravilhoso de irmão” tão característico em Jas e Emm.

Era cheiro de amor fraternal!

— Não se preocupe, passa! Vai ficar “emburradinho” uns dias, mas passa. Quem mandou mimá-lo tanto? Agora aguenta! Além disso, Edward deu-lhe outra perspectiva. Vamos ver se absorve melhor e mais rápido a ideia.

— Olha! Um alívio saber disso. Então devo agradecer ao... Edward? Ou será que já posso voltar a chamá-lo de cunhado?

Palhaço! A malícia transbordava de suas palavras.

Por isso, brincando, o empurrei, dei um tapa em suas costas e voltei para a cabeceira da cama, longe dele e de volta ao trabalho em minhas avaliações.

— Se levar em consideração que vai casar com a irmã dele, é lógico que pode chamá-lo assim.

Puxei o computador para o colo e disfarcei.

— Ahh, quanta falsidade e cinismo, Isabella Swan! Não finja que nada está acontecendo. A tensão sexual anda dando choque quando estão no mesmo cômodo sem poder se tocar.

— Que tensão? Enlouqueceu? Foram só alguns beijos. Está longe, muito longe disso, Jas.

— Sei. Acho que devem é se cuidar, ou melhor, devem aproveitar o turbilhão e se assumirem de vez. Não dará tempo de papai e Emmett se recuperarem, passaremos por isso juntos. Porque, irmãzinha, do jeito que se olham, se atraem... Vai ser impossível esconder por muito tempo.

— Não seja absurdo, Jas.

Agitei as mãos em sua direção.

— Não tem o que assumir. Você está vendo coisas onde não tem. São só beijos. Ele beija bem, oras!

— Rá! Isso! Mente pra você mesma. Se engana. Vai achando que conseguirá controlar esse sentimento aí dentro por muito mais tempo. Só, depois, não diz que não te avisei. O que tem a perder, Bella? Você ama esse homem, sempre amou. Se permita viver isso. O que falta?

— Confiança? Coragem? Certeza? Quer mais um motivo? Antony. Uma coisa é ele ter o pai em sua vida, outra, muito diferente, é iludi-lo que formaremos uma família feliz e depois Edward se cansar de brincar de casinha. Não posso colocar meu Pequeno nesse meio, Jas. Eu me recupero das desilusões. Tony? Não vou testar.

— Quanta bobagem! Tudo desculpa, e você sabe. Até Emmett já percebeu que o homem mudou. Assuma seus sentimentos.

— E enfrentar Charlie? E criar um clima ruim em casa com Emm? E talvez ter que abandonar a fazenda e fazer Tony sofrer? Fora de cogitação. Meu filho vem em primeiro lugar, Jas. Está passando por essa experiência. A gente nem pensa, só faz o melhor por eles.

— Desculpe... Eu devia mesmo ter pensado em Antony e você e...

— Não! Que droga, Jasper! Não foi isso que quis dizer.

Voltei para perto dele e o abracei.

— Deixe de ser idiota! Já pensou muito em nós. Você, Alice e o bebê são o foco agora. Eu quis dizer que, no meu caso, Tony é mais importante que tudo.

— Edward sabe disso, Bells. Deixe te mostrar que mudou. Alice já me contou tudo que passou. Não foi fácil para ele também, só descobriu o tamanho do amor de vocês quando o perdeu. Ele mudou. Se permita viver isso.

— Ah, e desde quando são melhores amigos?

— Desde que ele está disposto a tudo por vocês.

Soltou-se de mim e me olhou com intensidade. Passando uma verdade que eu precisava aceitar, porque saber daquilo, eu já sabia.

— Charlie e Emmett, eles...

— Ah, e você vai se render as opiniões deles? Ah, me poupe, irmã. Charlie vai gritar e esbraveja, mas come na sua mão. Você o deu o melhor presente do mundo. Vai se render, nem que seja de medo de te perder. Já Emmett...

Deu de ombros achando tudo muito insignificante.

— Ele supera. Quando perceber que está feliz, aliás, feliz é apelido. Deixe-se levar... Viva!... Falando em deixar levar, sabe que em algum momento terá que contar a Edward sobre o Brasil, certo? Porque... Irmã... Alice disse que ele não teve ninguém depois de você.

— Depois de Tânia, você quer dizer.

Fechei a expressão.

— Ah, me poupe! Você já sabe que aquilo foi armação. Alie me disse que Edward e você colocaram tudo em pratos limpos.

— Mas, meu Deus! Vocês estão fofocando demais sobre nossas vidas. Como fizeram um bebê? Sobra tempo?

Brinquei, fugindo do assunto. Todavia, ele não caiu na minha.

— Bells...

— Ah, Jasper... Não tem o que contar. Eu tinha uma vida lá. Quis recomeçar. Nunca o impedi de fazer isso daqui. Já passou, acabou. Porque tenho que falar?

— Acabou? Tem certeza? O politicozinho sabe? Porque, se acha que não sabemos que ele te liga, está muito, mas muito enganada.

— Somos amigos, Jas. Sempre fomos. Benj me ajudou muito.

— É, sei que tipo de ajuda.

— Ah! Jasper, quer parar? Você, por acaso, contou a Alice sobre Maria?

A irritação começando a brotar lá no fundo. Ele não tinha vindo até mim para se desculpar?

— Não e nem vou. Terminei antes de vir, Bella. Agora você...

— Não tinha o que terminar, Jas. Benj e eu somos amigos. Antony o ama. E Edward não tem nada a ver com isso. Por favor...

— Tá bom, tá bom. Se você diz... Só não quero que dê problemas. Edward está se esforçando e eu queria mesmo que você se rendesse aos sentimentos e lhe desse outra chance de verdade.

Beijou meu nariz.

— Tá! Vou pensar. Agora saia daqui. Vá trabalhar e me deixe ser um carrasco aqui nas avaliações dos meus alunos. Está atrapalhando.

Voltei a empurrá-lo e retornei para meu lugar inicial.

Aquela conversa estava se tornando mais do que desconfortável.

Edward e eu estávamos nos redescobrindo. Por que tínhamos que apressar as coisas? Estava tão bom assim.

— Tá bom, sua dissimulada. Me expulsa, ignora meus conselhos. Só depois não diz que não avisei.

— Tá bom, seu chato! Agora vá trabalhar porque temos duas represas para construir. Trate de fazer nosso dinheiro render, porque você viu, se Edward não tiver dinheiro terei que ajudá-lo.

A caminho de sair do quarto, Jasper se virou de novo.

— “Bella do céu” de onde Antony tirou aquilo? Se eu não convivesse com vocês juro que diria que ele já sabe do pai. Não é possível! Ficou todo preocupado.

— Não sei de mais nada, Jas. Já passei e repassei todas nossas conversas, e tenho certeza de que nunca disse o nome de Edward para ele. Porém, estou pasma com as percepções também.

— Pois é, acho que todos estão. Papai e Emmett ficaram tão chateados quando ele temeu que brigassem e gritassem, que nem julgaram Alice e a mim. É bem verdade que não fizeram a festa que as mulheres fizeram, mas pelo menos não estragaram o momento.

— É verdade, a confusão foi tanta que nem perguntei como foi.

— Tudo certo. “Dos males o menor”. Tirando Antony, só Carlisle que fez cara feia e perguntou se não poderíamos ter nos precavido ou casado primeiro?

— Alice é a filhinha dele, não o julgue.

— Não julgo. Convivi com o amor e proteção de Charlie por você. É coisa de pai. Além do mais, Esme o repreendeu. E logo ele nos abraçou e parabenizou dizendo que está louco para saber o que é. Aliás, falando nisso, vamos a Port Ângeles, à tardinha, Alie tem uma ultra às 19hs, com uma médica recomendada por Esme. Mas, não se preocupe, chegaremos a tempo. Te levarei para casa.

— Tudo bem. Vá mesmo. Cuide de sua vida. Acho que preciso aprender a ser mais independente agora que... Para quando é o casamento? Vão morar aqui né?

Jas, pesaroso, segurou no batente da porta, observando cada reação minha assim que as palavras saíram de sua boca.

— Nada de independência ainda, chego a tempo. Vamos para casa juntos... O casamento sai, no máximo, em um mês. Alice está preocupada com o corpo e surtando por não “entrar no vestido perfeito”. Quanto a morar... Estamos num dilema, quero a fazenda, ela quer a cidade... É complicado...

— Não pense, irmão. Faça! É sua vida, seu amor. Seja feliz.

Ele queria ficar perto de nós. Alice queria a praticidade da cidade para seus negócios.

— Eu te amo, sabia? É a melhor irmã do mundo.

— Sou sua única irmã, seu bobão. Agora suma daqui. Preciso trabalhar.

Soprei um beijo para ele e voltei minha concentração nas complicadas questões que elaborava. Jas não precisava ver estampado em minha face o medo de que nossa amizade mudasse.

Eu era melhor do que isso. Fizera com que todos se sacrificassem por mim, era minha vez de retribuir.

Meu irmão seria feliz e eu garantiria isso!

Edward

— Pode ir, Jéssica, eu fecho tudo aqui.

Impaciente, tomei a vassoura de suas mãos. Já se passava das seis e Bella chegaria a qualquer momento. E, por lei nenhuma, eu desejava um encontro entre as duas.

— Mas, doutor, quero deixar tudo encaminhado já que abriremos só às 13hs amanhã.

Jogou de novo uma isca, esperando que eu lhe contasse o porquê da mudança de horário no dia seguinte.

Ah, principiantes... Na arte de dissimular eu era mestre e ela nem sabia. Só Bella sabia... Infelizmente.

— Não precisa. Está tudo em ordem e... Putz! Droga!

Esbravejei quando a porta da frente abriu revelando Antony e a mãe.

Ambos pararam, ao perceberem que eu não estava sozinho.

— Nós já fechamos.

Minha secretária abusada, fez cara feia e, antes que eu a colocasse em seu devido lugar, Bella o fez.

— Eu sei.

Sacudiu a chave em sua direção. A minha chave que eu há dei.

— Mas, se tivermos atrapalhando alguma coisa, posso pedir a Emmett que leve Antony para casa. Aí vocês...

Antony, que por sinal continuava paradinho ao lado da mãe, me observava atentamente e muito, mas muito, sério.

— Sem a mínima possibilidade de isso acontecer. Nunca, e escute bem,...

Voltei-me para Jéssica.

— Nunca estarei ocupado para Bella ou Antony. Eles são minha prioridade. Grave isso. E agora, já pode ir. Nos vemos amanhã à tarde.

Apontei para a porta e fiz sinal com a mão para que ela se retirasse. Ao mesmo tempo em que me abaixei e fiquei num só joelho.

— E você, Campeão, venha aqui me dar um abraço. Estou morrendo de saudades.

— Hunf!

Resmungou desaforadamente antes sair.

Antony, meio relutante e só depois que Jéssica se foi, quando Bella lhe deu passagem, foi que veio até mim.

Segurava uma sacola quase do seu tamanho.

— “Pol que” ela fica fazendo “caletas” para a mamãezinha? Tony não gosta disso.

O segurei nos braços e fui até sua mãe, que naquele momento tinha um sorriso brincalhão no rosto, ao se dar conta de como nosso filho a defendia.

— Porque ela sente inveja do mulherão linda, inteligente, esperta, linda, amada e linda que sua mãe é.

Fiz questão de frisar o linda, porque... “Nossa Senhora dos Celibatários”!... A mulher estava de tirar o juízo: vestido de lã ou linha, sei lá. Enfim, um vestido de mangas longas e gola alta, justíssimo, vinho. Moldando-se as curvas deliciosamente. E o melhor e mais tortuoso ao mesmo tempo, era curto, curtíssimo. Ia pouco abaixo das coxas, que por pouco não se encontravam com as botas longas e de saltos grossos, marrom.

— Boa noite, professora.

Nem de longe tentei ser discreto, “a sequei” mesmo, na cara dura.

Os óculos de leitura e o cabelo preso em um rabo alto, fechavam com chave de ouro o visual que, tenho certeza, seria o sonho pornô da maioria dos homens com quem cruzasse naquela universidade.

Eu queria gritar e mandá-la trocar aquilo... Porém...

— Sorte dos seus alunos. Está belíssima e muito cheirosa. Espetacular, eu diria para ser mais exato.

A abracei, mesmo com Antony nos braços. Depois dei um beijo em sua bochecha e finalizei deslizando o nariz, de leve, atrás de sua orelha e no pescoço. Aproveitando a principal fonte de seu cheiro.

— Noite de avaliações, preciso estar apresentável. O reitor e o coordenador ficam passeando pelos corredores.

Deus! Eram “or” demais no dia a dia dela.

— Avaliações é? Se prepare para uma chuva de zeros. Porque, com você vestida assim, duvido que seus alunos se concentrem em outra coisa.

— Ah! Devo aceitar esse comentário como um elogio ou uma crítica a minha roupa, doutor?

Pois é... Eu queria muito dizer que ela estava escandalosamente linda, e que queria tudo aquilo só para mim, só para meu bel prazer. Todavia o homem novo que me habita fez questão de ignorar o ciúme.

— Um elogio, sempre um elogio. E não me chame de doutor, por favor. Odeio como isso soa em seus lábios. Sou Edward, só Edward, seu Edward.

— Edward, nós precisamos conversar sobre isso e...

Puxei-a para mais perto só pelo deleite de tê-la nos braços e distraí-la de um assunto que eu necessitava, a todo custo, evitar.

— Ai. Vocês “quelem palar”? “Ablaço em glupo é apeltado” demais. Tá esmagando o Tony. Desce, desce...

— Ora seu Sapeca!

Apertei-nos só mais uma vez, divertindo-o e segurei com mais firmeza suas costas, enquanto ele se debatia, antes de, por fim, o colocá-lo no chão e dar um tapinha em seu bumbum.

— É essa sacola maior do que você, que está nos atrapalhando. O que tem aí dentro? É um peixe para mim que pescou hoje?

— É uma “surplesa”. Posso “espelar” você lá no seu quarto, “sem paledes”? “Plecisam” dar tchau sem o Tony aqui, não é? Coisa de adulto?

Olhei para Bella enquanto ela fez o mesmo comigo. Será que? Será que? Não! Ele era uma criança. Apenas uma criança.

— Isso, amor. Coisa de adulto.

Bella lhe entregou a mochila e o beijou na testa.

— Te amo! Se comporte, não durma tarde e não se esqueça que amanhã começam as provinhas. Estude...

— Ah, mamãe... Que chato!

Bateu os pezinhos no chão, fazendo uma birrinha que eu nunca tinha visto antes.

— Nada disso, mocinho. Seja um bom menino e estude.

— Hunf! Tony não quer estudar. Tony nem gosta da escola. E Tony não te ama mais. Só hoje... Tá bom?

Ele era terrível, isso era fato!

Ao mesmo tempo em que fazia carinha brava, dizia que não queria estudar e que não amava mais a mãe, se arrependia e delimitava um pequeno tempo para a punição.

E o melhor? Eram os olhinhos tristes na direção dela ao ter certeza de que fizera uma coisa errada.

— Anda fazendo e falando coisas feias e teimando? Sabe o que significa?

— Mamãe, me “disculpa”? Tony não faz de novo.

Soltou a mochila e veio correndo para abraçar as pernas dela.

— Tony ama, mamãezinha. Não vai mais fazer “lisso”. Não “plecisa” me colocar de “caltisgo”. Tony gosta de andar no Thor de manhã.

Não andar a cavalo era o castigo.

— Vou pensar, precisa pensar antes de falar e fazer manha, Amor. Isso não é bonito! Agora vá, suba, e ajeite o material. Aposto que tio Edward vai te ajudar a estudar.

Beijou a testa dele e acariciou o cabelo.

— Tony vai pensar “soble” isso. “Plometo”!

A abraçou, pelo pescoço uma última vez, antes de sair correndo rumo à parte de cima da clínica.

— Estude com ele, por favor. Não deixe que “aquele bico e aquele luxo” te convençam. Sou imune, Edward, mas você... Sei não...

— É imune é...

Dei uma olhada para trás, conferindo se Tony havia mesmo se encaminhado para o loft, para só então me aproximar e fechar os braços em volta dela.

— Claro que sou.

— Tem certeza? Acho que estou bem manhoso hoje.

Deslizei o nariz por sua orelha e acariciei suas costas. Sentindo, apreciando, amando a sensação de tê-la tão perto.

— Preciso de mais de você, Bella. Nossos momentos são regrados. Quero beijá-la sem me preocupar com o lugar ou o tempo.

— Ah, Edward...

Não esperei por sua resposta. Não queria ouvir os argumentos que, com certeza, ela tinha.

Estava louco de saudades, então só queria beijá-la e beijá-la...

— Meu Deus! Como sobrevivi tanto tempo sem isso?

Mordi, de leve, seu lábio inferior instigando-a abrir mais a boca dando pleno acesso a minha língua. Eu necessitava sentir o delicioso gosto dela bem ali.

— Pare! Santo Deus! Em que estado vou chegar à universidade?

— Linda, gostosa, saborosa, desejável... Molhada... E, misericórdia! Preciso que seja só minha. Essas roupas...

— Sou minha, Edward. Só minha. E estou com você agora. É tudo que importa. E as roupas? São só roupas. As uso para mim. Para me sentir bonita, só para mim.

Passou os dedos por meus cabelos, beijou minha testa e então, me empurrou, se afastando. Deixando-me a deriva de desejos, sensações e inseguranças.

— Eu sei. Não estou julgando nem reclamando, só comentando.

Observei, sem nem mesmo me mover, enquanto ela ajeitava o cabelo e limpava os resquícios do batom, recém tirado por mim, pelo reflexo no aparador perto da janela.

Eu não conseguia respirar depois da recém declaração. A auto-suficiência e o sofrimento a transformaram em outra mulher. Uma que eu temia perder a qualquer momento. Era questão de tempo até que “acordasse” e percebesse que não sou o suficiente, que não precisa de mim.

— Tudo bem, eu preciso mesmo ir e... Ei...

Não sei o que viu, quando voltou a prestar atenção em mim, só sei que a fez voltar rapidamente para perto e me abraçar, pesarosa.

— Desculpe. Não quis ser rude. Não medi as palavras.

Não respondi. Tinha medo de que se abrisse a boca, desabasse em cima dela um rio de lamentações, temores e talvez até chorasse, o que seria vergonhoso demais até para mim.

— Olha, eu sei o que quero, Edward. Acha que teria te aceitado de volta em minha vida ou na de Antony se não tivesse certeza de que mudou e que nos quer?

Fiz que não, com a cabeça.

— Então! A nova mulher que mora em mim, sabe o que quer: E é você. Não precisa temer, nem ter ciúmes ou implicar, mesmo que intimamente, com minhas roupas. É questão de saber, e eu sei. Claro, que essa situação não me agrada também. E sim, vou contar a meus pais, só me dê um tempo. Vou enfrentar Charlie e Emmett por você, só preciso que tenha paciência. Pode fazer isso por mim, por favor?

— Terei paciência.

Dei-lhe selinhos, e escondi o rosto em seu pescoço, espirando profundamente.

— Eu te amo. Só não se esqueça. Te amo mais do que posso suportar.

— Não sofra, Edward. Não deixe pensamentos ruins te dominarem. Estamos aqui agora e não vamos a lugar algum. Mas, precisa começar a ter mais controle das coisas. Reaja! Viva! E quando menos perceber seremos e teremos o que mais sonha.

Colocou o indicador sobre meu queixo, me puxando de volta para ela, tomando a iniciativa, me beijando como se não tivesse fim.

— Agora, eu preciso mesmo ir. Se cuide. Coloque aquele Sapeca para estudar e não se torture, daqui a pouco estarei de volta. E é daqui a pouco mesmo, porque só tenho os dois primeiros tempos hoje, e são avaliações. Tecnicamente, meus alunos, devem terminar mais cedo.

— Tecnicamente?

A abracei por trás e fui nos guiando até a porta. Graças a Deus, me sentia mais calmo e entusiasmado com o consolo dela.

Levantei seu cabelo, do penteado preso no alto da cabeça, e enchi sua nuca de beijos de boca aberta. Eu queria tanto marcá-la ali, mas, certeza que se chatearia. Ainda mais depois de uma “lição de moral” como a que levei agora a pouco sobre confiança e poderio.

— É. Quanto mais fáceis as avaliações, menos tempo eles gastam. E eu diria que as minhas estão longe, muito longe do fácil.

— Quase sinto pena de seus alunos agora.

Atravessamos a porta na mesma posição. Emmett nos encarou, do outro lado da rua, creio que acabara de sair do apartamento deles.

Ficamos estáticos. Só esperando pela explosão, que não veio. Todavia, o apoio? Doce ilusão?

Simplesmente, deu-nos as costas e entrou em seu carro, emburrado. Exatamente como Tony faz quando contrariado.

— Antony tinha que puxar o pior de minha família.

Voltou a me puxar rumo a sua camionete, como se não acabasse de acontecer nada.

Essa era a nova Bella, a que quase não se importava com opiniões alheias.

Renée

— Amor, está aqui?

— Hummm! Só metade de mim.

Gemi. A água quente, da banheira, combinada com a taça de vinho branco fazendo maravilhas nos sinais estressantes do dia infernal no hospital.

— Uau! Isso é que é ser bem recepcionado.

Meu lindo marido, foi retirando as botas e as roupas num entusiasmo que deu até pena.

— Só se tiver falando pela água espumante e quentinha ou pela bebida que educadamente terei o maior prazer em dividir com você.

Era a minha terceira... Metade da garrafa em cima da pia, era prova disso.

— Porque esse ser perfeito aqui está só frangalhos.

Ajeitei a toalha, que estava em meu cabelo, no intuito que ficasse fofinha para servir de travesseiro quando voltei a me encostar à borda. Fechando os olhos e buscando outro cochilo.

— Estava pensando em outras formas de prazer e diversão, esposa. Mas, se é isso que tem a oferecer, eu aceito. E só digo uma coisa: Convivência e cumplicidade extinguem a famosa “hoje estou com dor de cabeça”.

— E eu não sei?

É isso, depois de quase 25 anos de convivência, não, era não.

Não tinha isso de ficar inventando mentiras ou desculpas.

— Tem espaço para mais um aí?

— Tem se você, por favor, pegar meu celular que provavelmente deixei em cima da nossa cama.

— Exploradeira...

Disse brincalhão enquanto voltava para o quarto em busca do que pedi, deixando-me com a deliciosa visão de um corpo perfeito e malhado pelas tarefas diárias da fazenda.

Mesmo depois de tanto tempo Charlie ainda conseguia me fazer suspirar de tanto amor.

— Achei que íamos relaxar juntos, se vai ficar mexendo no telefone e me deixar falando sozinho, vou de ducha mesmo.

— Tão rabugento! Dê-me só dois minutinhos, marido. Preciso resolver uma questão do hospital que esqueci.

Afastei-me dando espaço para que ele entrasse e se aconchegasse atrás de mim.

Automaticamente, as mãos calejadas e fortes, vieram para meus ombros tensos.

Enquanto isso, do outro lado da linha, uma voz tão conhecida atendia ao telefone.

— Tia?

— Oi, querido. Tudo bem? Minha filha ainda está por aí? Meu neto já te divertiu hoje?

Senti, em meu pescoço, a respiração de Charlie mudar. Todavia não dei importância. Ele precisava de doses pequenas e homeopáticas de Edward para se acostumar. Porque, algo me diz que, logo, logo...

Pensando assim, coloquei o telefone no viva-voz e deixei-o na beirada da banheira, para voltar a me encostar totalmente em Charlie o acalmando e o prendendo ao mesmo tempo.

— Sua filha, acabou de sair, quase nem entrou direito. E agora vou ao encontro de seu neto, mas creio que nossa noite não será lá muito divertida, porque Bella deixou claro que ele precisa estudar para as provinhas. E a senhora sabe, melhor do que eu, como essa notícia foi recebida, não sabe?

— Posso até visualizar a cena. Provavelmente Bella deixou de ser amada por... Cinco segundos?

— Três, no máximo.

Charlie sorriu baixo. Era a cara de Antony emburrar, dizer que não ama mais a mãe e se arrepender imediatamente.

— Então só posso te desejar sorte, Edward. Porque se é você que vai estudar com ele hoje, aposto que será o motivo de sua ira agora.

— Que medo!

Foi a vez de ele gargalhar do outro lado da linha e não pude deixar de lembrar-me do que Esme havia conversado comigo hoje mais cedo, quando tivemos a brilhante ideia, Edward estava mais feliz e falador.

— Tenha mesmo!

Brinquei.

— Mas, filho, te liguei porque preciso de um favor.

— Estou a seu dispor, tia.

Era o que eu precisava ouvir e como Esme também previra, ele não diria não para uma sogra a quem está tentando, a todo custo, agradar.

— Muito bom saber disso, porque sábado temos um evento de entrega de um prêmio. O “Top Of Mind” da associação comercial de Forks. E nem sua mãe, nem eu poderemos comparecer. E é aí que chega a parte do favor: Poderia comparecer ao evento e receber o prêmio por nós? Não tem que falar discurso, nem nada. É chegar, esperar ser chamado, pegar o troféu, tirar uma foto para o jornal da cidade e pronto. Depois terá um jantar e fiquei sabendo que a banda que animará, é ótima.

— Tia, tia, o que mamãe e você estão aprontando, hein?

— Nada, juro que nada. Temos uma reunião com o conselho a respeito das reformas do hospital de Port Ângeles nesse mesmo dia, nessa mesma hora. Por isso, não estaremos disponíveis.

— Sábado à noite?

Droga! Eu disse a Esme que a desculpa era fraca.

— Isso, querido! Mas, não se preocupe, temos direito a dois convites. Você pode levar alguém com você. Acho que padre Marcus se interessaria. Ele não perde uma boa comida e boa música por nada.

— Padre Marcus é?

— Foi só uma sugestão. Pode levar quem quiser. Talvez tenha alguém mais interessante em vista. O importante é que esteja lá e nos represente.

— Sei... É tia, tenho alguém em mente. E pode ficar tranquila, representarei o hospital e a família muito bem.

— Ah, que bom! Estará prestando um imenso favor a empresa. Amanhã peço para deixarem os convites em seu consultório. Obrigada, querido!

— Eu que agradeço, não é, tia? Obrigado pelo voto de confiança e por me ajudar tanto.

— Não sei do que está falando. Você que está me ajudando. Agora boa noite e vá cuidar do meu neto, porque a mãe dele é muito exigente quando o assunto é escola, Edward. Se cuide!

— Boa noite, durma bem. E tia?

— Hum?

— Eu prometo ser o que a senhora sempre sonhou para Antony e Bella. Não vai se arrepender por se arriscar por mim. Aprendi a lição.

— Eu sei. Só peço que os façam felizes. Não tem ideia do quanto merecem. Mesmo que todo mundo te conte, você nunca fará ideia. Só prometa...

— Por minha vida, eu juro.

— Vou cobrar, filho. Boa noite. Se cuide e cuide dos meus.

— Sempre, tia. Sempre...

Encerrei a ligação e apreciei quando Charlie pegou água, com as mãos, e jogou sobre meus ombros.

— Filho é?

Eu sabia que ele frisaria essa parte.

— O que Leah é para você?

— Não tem comparação.

— É, não tem mesmo. Edward é filho do seu melhor amigo, com a sua irmã, pai do seu amado neto e o grande amor da sua filha. Você está certo. Não tem comparação. Mas, ainda não achei uma palavra melhor do que, filho. Talvez até eles se assumirem, eu encontre.

Dissimulei, exatamente como fiz com Edward.

Se ele queria se irritar pela situação, que começasse comigo. Porque não deixaria que Bella sofresse a ira do pai e do irmão de uma só vez.

Eu sei o que passou... Defenderia sua sanidade e felicidade até o fim dos dias. Mesmo que significasse comprar uma briga enorme com meu marido.

— Está brincando com fogo, mulher. E isso é perigoso, muito perigoso.

— Pode fingir que não sabe que Bella e Edward estão se entendendo, até que ela te conte pessoalmente, meu amor. Só não pode magoá-la quando essa hora chegar. Porque, te prometo, eles terão aliados. E se eu fosse você ficaria do lado “certo da força”.

— Isso é uma ameaça?

— Nunca! É um aviso. Bella é outra. Está mais calma, mas sorridente, os pesadelos diminuíram e eu quero que essa melhora continue. E o remédio tem nome e sobrenome. Estrague isso com sua raiva ou manias de rancor e ressentimentos, e comprará uma briga com sua irmã, mãe e eu, no mínimo.

— Isso é uma ameaça literalmente.

— Entenda como queira, esposo.

Era a discussão mais tranquila que um casal já teve. Ele massageava meus ombros e eu virava a cabeça de lado e beijava sua mão cada vez que ela vinha para mais perto.

— Tudo bem, vou pensar sobre isso. Só não me peça para que não tenha uma conversa de sogro para genro com o garoto, porque disso não abro mão. Ele precisa aprender umas coisas antes de pensar em fazer bobagem outra vez.

— Isso eu posso aceitar. Agora, fale menos e aja mais. Ligue a hidro porque a água está esfriando.

— Você que manda, querida. Você que manda.

É, era eu que mandava. E era bom que ele soubesse disso.

Edward

Deixei o celular em cima do aparador, na entrada do loft.

Com a cabeça fervilhando pelas inúmeras possibilidades e um sorriso mais do que idiota no rosto, fui ao encontro do Meu Pequeno.

Tia Renée era minha pessoa predileta no mundo hoje. E eu lhe recompensaria com minha gratidão eterna por ser a conselheira e ajudante que eu precisava. Em troca, seria o companheiro e pai que Bella e Antony precisavam e sonhavam.

— “Demolou”, titio. “Despeldidas” são “semples tão demoladas”?

— Não, Pequeno. Não são. Eu só precisei falar com sua avó Renée antes de vir até você. Perdão. Mas, o que faz aí?

Seu material estava arrumadinho na mesa da cozinha, contudo ele estava perto do móvel da televisão e olhava com curiosidade para um prêmio que eu havia ganhado na época da faculdade.

— O que é isso?

Apontou.

— Um prêmio. Ganhei quando estudava, por seu um bom aluno e tirar notas muito boas.

Na verdade era por um projeto de anatomia, mas, ele não precisava saber disso no momento. Eu queria mesmo era influenciá-lo.

— Hum! É uma “cobla”? E “pol que” tá numa caixa?

— É uma cobra em um bastão, quando crescer mais te explico o significado. E está nessa caixa de acrílico para ficar protegido e não estragar, porque é importante. Mas, por que tanta curiosidade? O que está acontecendo?

Abaixei-me, ficando da sua altura.

— Não é nada, titio. É que a mamãe tem “um salpato” em uma caixa assim, no “esclitólio” dela lá na fazenda. É “monito” e sempre que Tony “pelgunta” o que é, ela não responde. Só diz que é “impoltante tabém”. Deve ser um “plêmio” né?

Um sapato? Pelo que eu sabia não tinha nada em Medicina Veterinária ou Agronomia que era representado por um sapato.

Então aquela era uma pergunta que eu não poderia responder.

— Deve ser, amigão. Vamos perguntá-la em outra oportunidade porque agora, vamos estudar? Ou sua mãe brigará conosco e ficará chateada. E nossa missão é fazer sua mãezinha feliz. Certo?

— Tá bom, “zamos”.

O biquinho estava lá outra vez. Eu queria rir, ao mesmo tempo em que desejava, mais do que tudo, me render a sua manha. Cobrar tanto para quê? Ele é tão pequeno ainda.

— Mas antes, Tony “tlouxe um plesente”.

— Para mim?

Puxou minha mão até de volta a mesa da cozinha onde havia deixado suas coisas e pegou a sacola grande a qual entrara carregando.

— “Pala” você.

Retirei de lá um embrulho grande e bem feito de uma loja cara, de brinquedos, que fica em Port Ângeles.

— Ah, Antony, não precisava.

O abracei e beijei seus cabelos.

— “Plecisava” sim. “Able”. Mamãe disse que é um “plesente” signi... sinig... Ahh, alguma coisa com “ativo”.

— Significativo.

— Isso. Essa coisa aí mesmo. “Agola able pala” Tony falar.

Desamarrei o laço e de dentro do pacote retirei um grande coelho branco macio, de pelúcia, e de orelhas caídas. Poderia até ser algo da minha imaginação, mas cheirava a Antony também.

— Esse é o “Senor Olhelhudo” ele tem as “olelhas” desse tamanhão “polque” elas espantam os sonhos “luins e tlazem” o sono quando a gente os perde lá na “tela” dos sem sono. Mamãe deu um pro Tony, quando Tony era pequeno. E agora Tony “complou” um, com seu salário, para o tio “Edwald” para que você “dulma tlanquilo”.

— Ah Deus! Eu não mereço tanto! Não mereço!

— “Clalo que melece”! Mamãe também “plecisa dolmir” mas, vovó diz que o problema dela nem o “Senor Olhelhudo lesolve”. Mas o seu sim.

Sorriu lindamente para mim, enquanto eu deixava que lágrimas de amor me dominassem.

Eu tinha o melhor filho do mundo!

— Obrigado, Pequeno. Muito obrigado! Tenho certeza que vai resolver! Vou dormir muito com a ajuda desse presente e de saber que tenho você e sua mãe em minha vida. Obrigado! Eu te amo! Amo muito.

O abracei juntamente com o coelho de pelúcia.

— Tony também te ama, titio. E sei que em “bleve” você e eu “ajudalemos” a mamãe e “melholar” e “dolmir” muito.

— Sim, Pequeno. Nós iremos ajudá-la sim. Eu prometo! Agora venha aqui. Preciso de você bem pertinho só para acreditar que é real.

Sim, eu estava prometendo coisas demais naquela noite, porém... Assegurei a Deus, a ele e a mim mesmo, que as cumpriria. Porque Antony, Bella e eu merecíamos uma vida de plenitude e felicidade.

Bella

— Putz, Jas. Onde você se meteu?

Atirei o celular de volta dentro da bolsa, praguejando alto quando meu irmão não atendeu, nem respondeu, ou melhor, nem visualizou minhas mensagens.

Passava das 21hs e eu já estava pronta para ir para casa, depois de dois horários de avaliações pesadas na universidade. Contudo, “o bendito” do meu irmão não aparecia, muito menos atendia ao telefone.

— Ei, o que está fazendo aqui fora? Esqueceu a chave?

— Não. Estava tentando falar com Jasper, mas ele parece não estar disponível.

Subi os degraus, da entrada, e segurei a mão que me oferecia.

— Ainda é cedo. Estão a caminho, tenho certeza, não se preocupe. Na rodovia não dá sinal.

— Foi o que imaginei.

Tomando a iniciativa, puxei seu rosto para o meu e o beijei forte.

Edward era um vício. A gente não pode é começar, porque depois que começa... Ah, não tem como parar.

Beijá-lo era sempre surpreendente. Começava suave, com ele deixando que eu ditasse o ritmo e mostrasse como e o que queria, depois de captar meus desejos, ele tomava conta da situação e era aí que o melhor começava: era profundo, amoroso, com todo sentimento e sempre disposto a te fazer querer cada vez mais.

— Oi, de novo.

— Oi...

Dissemos sem fôlegos e ele ainda surpreso pela minha tomada de atitude.

— Antony?

— Estava quase dormindo quando escutei o barulho do seu carro e desci para saber qual o motivo de sua demora. Vamos?

— Ele teve uma manhã movimentada. Sabia que dormiria cedo. Pelo menos estudou um pouquinho?

— Sim, fique tranquila! Ele é esperto demais para aqueles pontilhados, círculos e quadrados.

Ainda de mãos dadas, deixei que ele me guiasse para o andar de cima.

— Muito esperto. Todavia, não gosta da escola. Só quer saber da fazenda e dos animais. Você presenciou um “chilique” hoje. Precisa me ajudar nessa questão.

— É coisa de criança, Bella. Foi só uma “irritaçãozinha” que logo passou. Ele ama o ambiente em que vive. Olha como isso é bom? Não fique brava com ele.

— Eu disse, “me ajudar, Cullen”, não para se tornar mais um membro ativo do fã clube dele.

Parou-nos perto de sua cama, fazendo com que eu admirasse meu bebê em seu sono tranquilo.

— Quem mandou torná-lo tão perfeito? Agora assuma as consequências, Swan.

Brincalhão, beijou meus dedos com uma devoção palpável.

— Obrigado pelo “Senhor Orelhudo”. Ele me contou sobre o sucesso dele para quem sofre de insônia.

Veio para minha frente e passou a acariciar meu cabelo e beijar meu rosto suavemente e com muito carinho.

— Não me agradeça. Foi tudo ideia dele. O dinheiro que pagou a pelúcia também. Eu só fui a motorista.

— Eu sei, mas Tony não seria o que é sem você. Ontem a noite estava pensando as coisas pela sua perspectiva e, sinceramente Bella, não sei se eu seria tão benevolente. Preciso me lembrar de te agradecer todos os dias por isso.

— Não sou uma “divindade”, Edward. Errei muito e ainda erro negando a você o que tanto deseja. Contudo, com o passar do tempo aprendi que a decepção não é algo que se pode cultivar para sempre. A maturidade também tem sua dose de culpa. Aprendi com ela que quando somos adolescentes sonhamos e às vezes exigimos demais de quem “supomos” amar. Ela nos mostra as coisas por outro lado. Eu era imatura, grudenta e uma adolescente deslumbrada e descuidada. Agora cresci e aprendi.

— Pare!

Segurou meu rosto e me olhou intensamente.

— Não inverta as coisas. Eu era o imaturo, eu fiz coisas erradas. Você era nova, mas sempre soube o que queria da vida. Tanto que... Olhe para aquilo?

Se virou de novo, deixando nos dois de frente para Antony.

— Tenho pena de tirá-lo dali. Parece tão confortável e com tanto sono.

— Então não o tire. Durmam aqui. Ou melhor...

Ficou vermelho quando levantei as sobrancelhas e, certeza, fiz à maior cara de indignação.

—... Quer dizer... Você e ele dormem na minha cama e eu fico com o sofá lá debaixo. Eu não quis... Eu...

— Eu sei, Edward. Fique calmo! E agradeço sua oferta, mas amanhã minha lida começa as cinco. E queria aproveitar que saí mais cedo para revisar alguns conteúdos do próximo período.

— Aproveite esse tempo para dormir, eu te empresto o meu Senhor Orelhudo.

Fiz careta.

— Tenho um em casa, do meu bebê, e... Comigo os poderes mágicos das orelhas não funcionam.

— O que a psicóloga diz?

Voltou para a minha frente e de novo me abraçou, salpicando beijos em meu rosto, me distraindo e tirando mais informações do que eu queria revelar.

— Que se esgotaram os tratamentos. Que preciso me libertar. Agora é tudo paliativo. A única coisa que funciona mesmo, são os remédios controlados, mas me recuso a tomá-los com freqüência. Só quando estou caindo de sono, sem conseguir mais segurar é que recorro a eles.

— Já tentou chás e banhos quentes? Um livro? Ou talvez música?

— Todos eles. O problema não é não conseguir dormir, como no seu caso. No meu caso são os pesadelos. Por isso, me forço a ficar acordada o máximo possível.

— Hummm.

Ficou pensativo por alguns segundos, antes de me encarar.

— Vou conversar com um dos meus ex-professores que mora no exterior agora. Vou ver se descubro novos tratamentos. Vou te ajudar, Bella. Nem que seja a última coisa que eu faça na vida. Vou te devolver a paz do sono.

— Eu acredito e confio. Só não deixe isso consumir seu tempo. Já me acostumei... Mas, agora precisamos mesmo ir. Ainda tem um pedacinho bom de estrada até em casa.

— Ah, não! E quanto a dormir aqui? Vai dizer que não foi uma boa ideia? Além disso, Jasper e Alice não chegaram.

Droga! Eu tinha me esquecido de Jas e seu sumiço. Porém, a lua estava alta e clara, e se pensar que logo, logo eu não teria mais meus irmãos me acompanhando para cima e para baixo, talvez essa fosse uma boa oportunidade de começar a ser mais independente.

— “Andar antes de correr, Cullen”! Nós vamos para casa. Vou dirigindo devagar. Não há motivos para temor.

— Certeza? Se não quer ficar aqui, pode ficar no apartamento de vocês. Prometo que passo a noite aqui no loft e fico de olho. Sabe que minhas noites também são insones.

— Nem pensar. O Senhor Orelhudo foi um presente especial, comprado com todo amor do mundo. Tenho certeza que fará milagres em sua noite. Depois me conte. Agora me ajude, pegue as coisas dele, por favor.

— Só em seus sonhos. Pegue as coisas dele. Sabe o quanto esse garoto tá pesando? Desistiu da sua coluna? Porque se continuar pegando-o daqui a alguns dias vai ficar toda torta.

— Exagerado!

Adimirei-o pegando Tony e aconchegando-o o junto ao peito.

— Coloque a mantinha por cima dele, está frio demais hoje.

Fiz o que mandou e o segui escada abaixo já com as coisas de Tony em mãos.

— Espere.

Passei a sua frente e abri a camionete.

— “Tio Dedwald” vamos “pala” casa não. A mamãezinha...

Resmungou em meio ao sono e Edward quase colocou tudo a perder ao gargalhar com seu novo nome, e quase acordar Antony.

— Estou aqui, amor. Pode dormir. Vamos para casa.

— Titio, boa noite. Tony te ama.

— Também te amo, Campeão. Vão com Deus e até amanhã.

Edward o cobriu, com carinho, e fechou a porta evitando que o frio entrasse.

— Falando em “até amanhã”, tenho dois pedidos a fazer.

— Que seriam?

Dei a volta e parei perto da porta do motorista, esperando que ele concluísse e nós nos despedíssemos.

— Posso pegar Antony emprestado amanhã de manhã? Vou a Port Ângeles e gostaria que ele me acompanhasse. Sei que disse algo sobre andar antes de correr, e talvez seja uma ideia péssima pensando melhor agora, mas...

— Certo!

Tampei sua boca evitando que terminasse o raciocínio ruim.

— Ele é seu filho, Edward. Não precisa de autorização, só comunicado. E contanto que estejam aqui as 12h30minhs para a aula. Pode pegá-lo sempre que quiser.

— Obrigado. Não haverá atraso. Eu prometo.

Meu presenteou com um beijinho demorado e saboroso.

— Tudo bem. Acho que chego lá pelas oito. Ele estará pronto. E quanto ao segundo pedido?

— Bom, esse é mais complicado. Contudo não é só meu. O hospital de Forks, juntamente com alguns comerciantes e entidades, ganharam uma premiação da Associação Comercial que será entregue no sábado num evento no Centro de Convenções. Fui ordenado a comparecer e preciso muito de uma companhia. Esses eventos são entediantes e sei que odeia, mas eu pensei que... Ah... Deixa pra lá. Foi estupidez minha. Você odeia essas coisas e...

— Ei! Pode ir parando por aí, Cullen. Eu odiava esses eventos. Agora os suporto. Contanto, que possa ir de calças jeans, camisa xadrez e chapéu.

Eu estava brincando, porém havia um indício de provocação, já que a situação me fez lembrar quando, anos atrás, disse que eu não saberia me vestir e portar em um evento com seus amigos de profissão. Eu precisava ouvir sua resposta.

— Não se esqueça das botas, de preferência as bem altas, de saltos e longas, bem longas. Como essas aqui.

Um brilho predador tomou os olhos verdes e, sem que eu esperasse, fui prensada na porta do carro.

Uma de suas mãos segurou as minhas, duas, acima da cabeça. Enquanto a outra, deslizou por minhas costas, bumbum, pernas, até tocarem o começo das botas.

— Deliciosa demais, professora. Demais...

Abaixou os lábios nos meus, beijando-me com intensidade. Enquanto me apertava mais, e acariciava, em todos os lugares, a parte detrás do meu corpo. O desejo nos consumia e o dele era impossível de disfarçar.

— Por Deus, Edward!

Tentei puxar as mãos, mas foi inútil. Ele segurava com firmeza.

— Sem golas, preciso de você sem golas.

Me soltou e puxou o vestido para baixo expondo meu pescoço a seus lábios e dentes.

— Ou melhor, com golas, muitas golas. Preciso que elas escondam o que pretendo fazer aqui.

Seria cômico se não fosse trágico. Ele divagava e fazia um estrago em meu pescoço e eu, pela limitação de espaço só podia acariciar suas costas, ombros e me contorcer abaixo dele em busca de mais, muito mais.

— Te quero tanto, Bella. Tanto que chega a ser doído. Namora comigo? Por favor, namora comigo?

— Quê?

Misericórdia! De onde saíra aquilo? Eu aqui em pleno “pré vôo de esfregação” quase deixando que o desejo fosse saciado quando ele solta uma dessas.

Esse homem me mata um dia.

— Nada. Desculpa. Não é nada.

Prestou mais atenção em meu rosto e, acalmando os ânimos literalmente, deu beijinhos carinhosos em todo meu rosto e cabelo. Depois de, óbvio, devolver meu vestido ao lugar certo.

— Me pega às 21hs aqui?

Perguntei quando, totalmente controlado, me soltou e se afastou para que eu entrasse no carro.

Apontei para o AP bem a nossa frente.

— Com toda certeza.

— Certo então temos um encontro. Agora me deixe ir, porque Jasper...

Balancei o celular na frente dele que mais uma vez não completava uma ligação para meu irmão.

— Tem certeza? Não quer me esperar? Só vou fechar a clínica, apagar as luzes e acionar o alarme. Levo vocês na Sonho Azul sem problema.

— Não, Edward. Sério! Está tudo bem. Feche tudo com calma. Vamos devagarzinho.

— Ok. Mas não corra e me mande mensagem assim que chegar. Combinado?

— Combinado, papai.

Brinquei entrando no carro, e ele fechando a porta para mim.

— Se cuida. Te amo e obrigado pelo presente que ajudou meu pequeno a comprar e por me dar ao luxo de ser presente na vida de vocês. Vá com Deus.

— Amém! Se cuide também. E aproveite seus presentes.

Insinuei me esticando e oferecendo os lábios para que ele beijasse uma última vez.

— Você é um vício, Bella.

Beijou, beijou com força e carinho. Deixando um rastro de fogo e de quero mais. Certeza de que, se pudesse, me tiraria dali pela janela e me prensaria em qualquer superfície, outra vez.

Porque, por Deus! Era aquilo que eu queria. Estava queimando de desejo.

Edward era... Um pecado!

— Precisando de ar aqui, Bella?

Passou os dedos por minha garganta e quase gemi de tanta vontade de... Mais.

— Seu, seu... Homem mau! Vou embora. Tchau!

— Mulher deliciosa! Ah se eu te pego...

Sorrimos um para o outro.

— Tchau!

— Até amanhã.

Sorrimos e finalizamos o momento com um selinho.

O ronco da camionete e ele parado enquanto eu manobrava foi a última coisa que vi antes de mergulhar na escuridão do tráfego que nos levaria para casa.

Eu estava calma, a princípio. O dia foi bom e a noite? Por Deus! Edward estava disposto a tirar meu juízo e eu estava muito bem com isso.

Então, não tinha motivos para medos antigos, não é?

É!

Por isso e como forma de distração, liguei o som, bem baixinho e numa melodia suave de flashesbacks anos 80 que a rádio de Forks sempre tocava a noite, e que não atrapalharia o sono de meu Pequeno.

O silêncio extremo não era bem vindo.

A escuridão era o maior problema de todos. Todavia, era só “dar uma viradinha” para trás e meu mundo se iluminava. Eu tinha meu próprio sol! O melhor motivo para me manter sã, bem ali, ao alcance das mãos.

Eu sou forte!

Eu era forte!

Eu fui forte!

Por Deus! Eu sou a fraqueza e o medo personificados! Eu estava bem e do nada...

Quando passei pelo exato lugar onde, anos atrás, sofrera o acidente que virara meu mundo de cabeça para baixo, tudo se transformou:

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A música mais parecia uma sinfonia fúnebre anunciando um mau presságio inevitável.

A escuridão? Misericórdia! Tornara-se sufocante! Eu olhava em todas as direções e nada via. De segundo em segundo encarava o retrovisor interno a procura dos faróis calmantes de papai, mamãe, Emm ou Jas e... Nada! Eu estava completamente sozinha... A deriva.

O medo veio com força!

O Desespero veio com força!

A angústia veio com mais força ainda!

De repente, eu não era nada. Somente uma adolescente perdida em meio a um eminente desastre.

Um frio assustador e inexplicável arrepiou meus braços.

O suor frio desceu de meus cabelos e tomou minhas costas.

As mãos, involuntariamente, começaram a tremer e eu senti o exato momento que a camionete trepidou sobre o asfalto desnivelado. Estava instável... E...

— É “pala” você não “filcar” mais com medo, titio “Edwald”. O “Senor Olelhudo” é mágico. Mamãe falou!

Para minha total redenção e controle, Antony murmurou em seus sonhos, ele falava com Edward e me trazia um pouquinho da consciência.

Eu precisava parar! Tinha que recuperar o controle ou acabaria nos matando e Antony era importante demais para que eu o colocasse em risco.

— Vamos! Vamos!

Com muito custo, fui freando lentamente, dei seta, entrei no acostamento e estacionei.

Desliguei o carro, mas não apaguei os faróis. E foi então que a segunda onda veio...

Um alívio desesperador, me fez debruçar sobre o volante e chorar de soluçar. Eu não sabia o que fazer, não tinha sinal no celular e ficar parada ali, não era uma opção.

O que eu havia feito? Em minha doce ilusão de achar que estava bem para enfrentar meus medos, colocara a vida de meu filho em risco. E não via uma maneira de concertar a burrada.

— I... I... Idiota, Bella.

Eu não tinha controle da situação. Graças a Deus Antony estava dormindo, porque se acordasse e percebesse que sua mãe era uma fraca, eu nem sei o que faria.

— Senhor! Como pude ser tão irresponsável? Estou com medo. Tanto medo que me trava.

As lágrimas escorriam e pingavam no volante e em meu vestido. As mãos tremiam tanto que nem sei como consegui desligar o carro.

— Por favor, Jesus. Por favor, nos socorra. Por Antony... Estou com medo e...

E então em meio a minha súplica e desespero, algo forte bateu no meu vidro... E bateu e bateu a forçou a mão na maçaneta. E foi só então que percebi faróis altos me cegando pelo retrovisor.

— Abre! Agora!

Gritou uma voz estranha e voltou a bater violentamente em meu vidro.

E o medo? Ele triplicou de tamanho, porque eu só pensava que meu filho estava no banco de trás e que logo, logo uma trava não seguraria o estranho que batia com força total tentando, a todo custo, entrar e fazer... Sei lá o que.

E que Deus nos ajudasse...

Porque eu era uma mulher sozinha com uma criança, em um carrão visado em meio ao nada e ninguém para recorrer.

— Abra agora! Ou vou quebrar!

Notas finais
Bom, ficou maior do que imaginei. Espero que apreciem e não roguem praga na autora... Porque precisam saber o que acontece aí. Se preparem... Meninas, tenho o restante dos comentário do capítulo passado para responder e duas MPs. Vou começar a fazê-los na segunda. Perdão pelo sumiço. Vinha vida pessoal está um pouquinho corrida. Ainda não posso dizer a vocês o porquê, mas prometo que logo, logo o farei. Beijinhos. Um lindo e abençoado domingo a vocês e suas famílias. Se cuidem! Beijinhos.